12 de janeiro de 2017

A ÚLTIMA LEMBRANÇA



                   - Taís Luso  
                 
Eles formavam um bonito casal, ainda daquela geração em que havia namoro, havia noivado e após alguns 'estudos', casavam. E casaram jovens, e formaram seu ninho com dois filhos. Viveram quase 60 anos juntos. E se a saúde permitisse, iriam além. Sempre juntos, iam e vinham, viajavam, como também seguiam sua religião com fé. Os dois viviam para si e para os filhos. Ele, profissional liberal bem-sucedido, ela, uma feliz dona de casa, da época. Ambos tinham muito carisma, fáceis de fazerem amizade.
Chegou um dia que ele, já na sua longa vida, adoeceu. A família, naturalmente ficou aos frangalhos, pois era excepcional pai e marido; era um homem que falava pausado, que dava espaço para possíveis explanações dos outros. Era um provedor responsável, o pai carinhoso, o marido fiel.
Mas sua doença foi se alastrando, e com resignação continuava suas atividades normais, até onde sua doença permitiu. Mas chegou um momento em que nada mais lhe fora permitido... a vida lhe fora arrancada com brutalidade. Ele partira apenas quinze dias antes de completarem 60 anos de casados... Foi terrível para ela viver aquele dia tão sozinha, a lembrança tão sonhada: os 60 anos de vida em comum.
Mesmo com os dois filhos e netos sentia suas noites vazias, de enorme solidão. Adormecia sempre escutando a voz do marido gravada nas fitas em que enviava para a rádio, falando sobre temas religiosos e filosóficos.
Um ano se passou, mas ela não adaptou-se à solitária vida, não encontrava mais razões para continuar o caminho sozinha.
E no dia em que ela completaria 80 anos de idade, a vida colocou seu ponto final naquela trajetória já tão sofrida; veio a falecer ouvindo a voz de seu amado nas fitas que escutava todas as noites. Foi como um chamado talvez para continuarem juntos, num outro plano, quem sabe. A família compreendeu que não havia mais o que fazer.
E a última lembrança se fez saudade.


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36 comentários:

  1. Bonito final para una vida llena de amor.
    Abraços, Tais.

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  2. Boa tarde, querida Tais,
    quando o companheiro de jornada deixa nesta vida a companheira de tantos anos, de uma vida em comum, com lembranças de tudo, com sofrimentos, com alegrias, com vitórias, derrotas,nascimentos,formação da família e quando anos depois, encontram-se sozinhos novamente, pois seus filhos alçam voos, tornam-se dependentes um do outro, aí o laço se estreita. Infelizmente, com a idade, a doença chega e às vezes, vem para buscar um dos dois, e, a saudade transforma-se em dor e leva à morte. Uma crônica, muito realista, pois a vida nos mostra que assim acontece. Como sempre perfeita. Tais, ao vir aqui, hoje, percebi que em meu comentário anterior em sua postagem deixei registrado um erro, desculpe, não tenho forçado muito a minha visão, pois como tive descolamento de vítreo e retina, a retina colou, mas o vítreo ainda está descolado inteiramente, não justifica, mas.....
    Grande abraço!

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  3. Que lindo esse amor ,companheiros, cúmplices como é realmente bom de viver! Certamente o encontro dos dois foi lindo! bjs praianos,chica

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  4. Taís,
    A vida imita a arte, ou, ao contrário, tanto faz. Meus pais viveram juntos e conjugaram quase os mesmos verbos, e colocaram os mesmos adjetivos nos nomes, durante sua vida conjugal. Eram opostos, mas se completavam. Um dia, minha mãe, acometida de câncer, faleceu em tempo recorde, dois meses. Daí, meu pai, que cuidava de seu diabetes há quase vinte anos, passou a descuidar-se. Viveu apenas seis meses mais que minha mãe.

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    1. Imagino, aliás tenho certeza o tão triste que foi para você, são coisas que marcam os filhos para a vida inteira, jamais se esquece o sofrimento dos que nos são tão próximos.
      Abç, Jair.

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  5. Ao ler esta crónica, lembrei-me dos meus pais, juntos há 66 anos e penso sempre que, quando um se for, o outro não demorará muito mais. Casaram cedo e com 50 anos e a minha mãe com 48 já tinham três netos; ficaram, portanto, muito novos ainda completamente independentes dos filhos, vivendo um para o outro; hoje, com 88 e 86 são ainda mais unidos; embora ainda possa sair, a minha mãe nega-se a ir a casa do filho ou dos netos para não deixar o meu pai com as enfermeiras. Gostava muito de ir
    até Ubatuba com o meu irmão, mas agora nunca vai; o meu pai nem se aperceberia se ela fosse, por exemplo, um fim de semana, pois a cabecinha dele nem sempre sabe quem ela é e tem enfermeira de dia e de noite, mas ela não vai. Não o larga. Só sai para cortar e pintar o cabelo, mais nada. A vida manda e decide quando quer que a pessoa parta, mas, se adiantasse pedir, pediria que fossem os dois juntos. Tais, a velhice é boa, é sinal de que vivemos muito tempo, mas para alguns idosos ela é sofrida demais. Neste frio rigoroso que temos tido, penso muito nos velhinhos que não têm conforto em casa e alguns, infelizmente, dormem ao relento, abrigados com um ou outro cobertor que pessoas caridosas distribuem. Enfim!!! Para algumas pessoa é vida é muito triste. Como escreveste uma vez, " somos pessoas com muita sorte" e felizmente os meus pais têm sorte, são abençoados. Claro que trabalharam para isso, mas há muitos que fizeram o mesmo e a vida não os abençoou. Não sei quem devo culpar, se a vida, se o ser humano...creio que os dois. Amiga, fica bem e parabéns pela crónica, triste, mas real. Um beijinho
    Emilia

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  6. A vida é um vagaroso instante
    Bj

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  7. Acorda-se e a vida se foi...Resta a saudade... Talvez, um reencontro...
    Abraço.

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  8. Querida Taís que linda e emotiva estoria, mas de minha parte não gosto de pensar na morte, quero viver com meu marido pra sempre,rsrsrs... Tô pedindo muito?
    Parabéns Léah

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  9. Um caso que se repete sempre. Quando o tempo juntos é muito, um vai e o outro logo morre também. Acho que para quem fica a vida perde o sentido. fico pensando nos meus pais, juntos há 54 anos de casamento e 5 de namoro.

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  10. Boa noite Tais.
    Que historia linda e comovente. Lembrei dos meus pais. Também viveram um para o outro. Nós ensinaram a amar, respeitar e viver plenamente Nesse relato ficou claro que se amaram ate o fim, deixaram sementes boas, pois uma união assim tão cheia de amor deve os dois filhos serem pessoas maravilhosas. Creio que quem sabe uma das sementas deles posso ser voce rsrs. Amei ler uma historia tão linda. Uma feliz sexta- feira. Enorme abraço.

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  11. Vidas que são soma de belos instantes.
    e, nas quais, até os maus instantes são mais leves.

    quem experimentou sabe guardar.

    gostei de verdade

    beijo, minha Amiga



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  12. Uma vida como tantas onde fica a "saudade" de tudo um pouco!
    gosto...bj

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  13. Olá Tais: uma história bem bonita e muito bem contada.
    Bjn
    Márcia

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  14. Taisinha ao iniciar esta tua bela crônica pensei tratar-se de ficção, mas logo reconheci esse simpático casal. Dizes bem do amor que viveram por quase sessenta anos, como se fossem ainda jovens. O tempo não passou para o amor que mantinham, um para o outro. Tiveram um casamento que não se enquadra nestes tempos modernos, a não ser para alguns poucos casais.
    Está explicado, Taisinha, porque pensei tratar-se de ficção. Na verdade falaste de uma relação amorosa bem real, sobreviveu a mais de meio século. Ela não soube viver, depois que ele morreu, e não tardou a deixar filhos e netos. Parabéns pela crônica.
    Beijinho daqui do escritório.

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  15. Olá Tais,
    Que linda história de amor. E que bem a contaste.
    Deve ser muito doloroso perder o companheiro de tantos anos e ter de continuar a viver.
    Rosa Montero no belíssimo livro "A ridícula ideia de não voltar a ver-te", que escreveu depois da morte do marido, diz: «A verdadeira dor é inefável, deixa-nos surdos e mudos, está para além de qualquer descrição e qualquer consolo. (...) Embora o tempo passe, a dor da perda, quando se põe a doer, continua a parecer-nos igualmente intensa. (...) A verdadeira dor é indizível».
    Bom, esqueçamos para já que a "dona" morte um dia nos vai bater à porta e celebremos a vida ao lado dos que amamos. Celebremos todos os dias, horas, minutos, segundos...
    Beijo e bom fim-de-semana.

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  16. A vida tem o seu sabor, sua densidade. E, depois de 60 anos juntos, as paisagem ainda existem para as verem unidos e se um deles falta, elas já não guardam o sabor original. A delicadeza da sua crônica, a escolha de cada palavra e tensão na medida certa nos emociona. Belo texto, Taís.
    Beijo, amiga!

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  17. Cuando uno vive unido a otra persona con amor es dificil vivir luego solo, el final es bonito pues así le hizo pasar sus años escuchando su voz.
    Un feliz fin de semana.

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  18. Uma maravilhosa história de amor.
    Beijinhos
    Maria

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  19. Que história, amiga Tais! De arrepiar! Pois outro dia fiquei impressionado ao ouvir uma amiga, ao telefone, falando sobre a festa de 75 anos de casamento de uma tia...
    Às vezes, fico pensando, eu e minha esposa que estamos nos aproximando dos 40 anos de casamento, será que chegaremos ao 50, aos 60 anos de união, pois não sabemos quanto tempo ainda temos nesta existência.
    Um abração. Tenhas um lindo domingo.

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  20. Depois de uma vida inteira, e de um amor assim... ambos se tornam como um só... e quando um se vai... o outro nem sempre resiste... no outro dia no Daily Mail, li uma notícia em que um casal morreu de mão dada.
    Ele deu entrada no hospital, com uma infecção do foro urinário. Ela o acompanhou, se afligindo, e teve um AVC já lá no hospital. A filha os colocou no mesmo quarto.
    E ele que já estava melhorando, continuou segurando a mão dela, na cama lado a lado. Ela não resistiu... e ele que já se estava recompondo com o choque, partiu 7 horas depois...
    A filha, disse que nunca lhe passara pela cabeça ficar sem ambos os pais no mesmo dia...
    Isto me recordou que eu e minha mãe, nunca dissemos ao meu avô, que a minha avó havia falecido antes dele. Ele já estava bastante mal na altura, com um AVC e quisémos poupá-lo desse sofrimento, pois ele sempre disse que nunca resistiria se tal acontecesse.
    Durou mais 6 meses, que ela, sem saber... e tenho a certeza que quando se encontraram lá em cima... ele teve uma boa surpresa, por se encontrarem novamente... sem despedidas...
    Algo que eu e a minha mãe, nunca nos arrependemos de fazer... evitar um sofrimento, a quem já não tinha resistência para aguentar tal...
    Beijinhos, Tais! Todos os fins são tristes... uns mais, outros menos... não tem outro jeito!
    Ana

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  21. Há pessoas assim. Que sabem cuidar e tornar cúmplice o amor que têm. São raras. Esta sua história, magnífica e comovente é quase um poema de amor. Que bem que a contou...
    Uma boa semana.
    Beijos, Taís.

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  22. Obrigada pelo carinho das suas palavras. Na verdade a minha mãe morreu em Janeiro de 2010 e todos os anos em Janeiro lhe dedico um poema. Ela foi uma mulher espantosa e uma mãe que nos deu tudo, mesmo tudo. Ficámos sem pai em crianças. Quando ela nos deixou foi como se ficássemos sem mãe e pai.
    Um beijo.

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    1. E você passa a mesma emoção como se tivesse sido neste ano...comove.
      Beijo, amiga.

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  23. Que história bonita e triste. O amor transforma, da forças, e é mágico. E apesar de triste perda, não deixou de ter magia.

    Beijo

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  24. Hola, Tais. Su bello texto no es triste. es la historia afortunada de dos seres que vivieron un amor durante 60 años, un sueño.

    Morir, todos morimos, pero ser queridos no, el mundo está lleno de seres solitarios. Ser queridos toda la vida sólo está al alcance de los elegidos. Y la pareja de su relato lo fueron.

    Un beso.

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  25. Querida amiga, Taís Luso, boa noite !
    Uma história triste. mas de felicidade.
    Nada é eterno, além da saudade, enquanto
    existir...
    Um carinhoso abraço.
    Sinval.

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  26. Sempre leio as suas histórias com muito gosto.
    Abraço

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  27. Minha querida amiga Tais, que prazer em ler-te...ainda a pouco vim do blog da Chica 'do Céu' e ela comemora 48 de união, achei tão lindo, faz lembrar que existe amor, cumplicidade, respeito entre duas vidas...e agora lendo aqui fiquei tão comovido com este casal, mas o que vale, não são as boas lembranças ? Não sei, acho que também, por isso devemos viver mais o presente. Minha ausência, em parte é para estar junto de minha mãe, acho que junto dela, ela se fortalece, pode ser ilusão de filho apaixonado...tenho medo de acontecer comigo como o final de teu post, caso minha mãe venha me faltar. Sempre com emoção, direto no coração e uma maestria para conduzir a história. Sinto o maior prazer em fazer parte desta história hoje.
    ps. Carinho respeito e abraço

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  28. Muitas vezes vemos esses fatos na vida real. Casais que quando um falece, o outro segue o mesmo caminho em curto espaço de tempo. Existem pessoas tão unidas que não conseguem seguir sem o companheiro (a). Muita paz!

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  29. Vivir tantos años al lado de una persona querida, resulta demasiado duro continuar el camino cuando ella falta.
    El escuchar su voz grabada todas las noches, es como arañar, día tras día, la herida que lleva en su corazón, yo creo que no es el mejor medio para lograr la paz interior y afrontar su pérdida.
    Seguramente, al morir, se sintió feliz porque iba a reunirse con él.
    Es un relato triste y nostálgico pero muy bien escrito.
    Cariños en abrazos.
    kasioles

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  30. Es una tierna historia de amor, apreciada Tais, más común de lo que parece.

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  31. ¡Hola Tais!!!

    Me ha encantado este lindo y tierno relato, bueno... Y triste a la vez que bien pudiera ser realidad, algún caso se da... Pero nadie muere de amor. Bueno, pues encantada de leerte. Gracias por tu buen hacer.

    Un besito y se muy -muy feliz.

    Me pareces la madre de Pedro... Tanto si eres como no, Felicidades, por estar estando.

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  32. Oi Taís, num exercício que sempre participo de imagem, poderia dizer
    que a bela tela foi a inspiração de tão terno e emocionante texto sobre a cumplicidade e do amor eterno amor, que não suporta a cisão. E sabemos de muitos casos assim embora nos referimos a um passado onde o amor se construía gradativamente como uma obra de artesanato,mas que bem pode-se ser encontrado no mundo moderno.
    Muito bonita construção amiga.
    Abraços com carinho.

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  33. Histórias de vida como esta sempre nos emocionam e é caso para dizer que se pode morrer por amor. Acontece, frequentemente, em casais que viveram, juntos, toda uma vida longa. Quem pode resistir à falta de uma presença que foi tão cheia na vida do outro?
    Como sempre, gostei imenso de ler.
    Bjo, Tais
    (Já tinha lido pelo TM e pensei que tinha comentado. Pelos vistos, ou não comentei mesmo, ou não entrou o comentário. É meu hábito vir às últimas postagens e verificar, quando estou com o computador. Por isso dei conta.)

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  34. Que lindo texto e bonita inspiração. Meus pais viveram juntos por 49 anos, minha mãe faleceu meses antes dos cinquenta. Para quem fica é triste viver sem o companheiro. Bjs.

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Taís Luso