29 de janeiro de 2009

O LUGAR DE CADA UM


-  Tais Luso de Carvalho


Gosto de assuntos que tratam de relacionamentos entre as pessoas; entre os desiguais, principalmente: nossas reações, nossas emoções, nossos afetos, frustrações. Sejam atitudes racionais ou descabidas, servem para minha reflexão e enriquecem minha vida e a de muitos.

Quando vejo alguém falar que se adapta em qualquer lugar, em qualquer esfera social, ambiente de trabalho ou cultural, não acredito! Acredito, sim, em peixe fora d’ água.

Somos fruto de uma educação que não se faz do dia pra noite. Nosso modelito se aprimora com exemplos, com esforço, com vontade e com o que nossos pais e a sociedade nos oferecem.

Ontem assisti um programa, na televisão, cujo objetivo era mostrar as diferenças e o comportamento do ser humano; como são suas reações num meio que não é o seu. Por melhor que seja.

A regra do programa era uma mudança radical nos hábitos das pessoas. E quando elas têm uma situação social e econômica diferente,  a coisa complica. Por isso achei curioso.

Assistindo a este programa lembrei de uma empregada que tive, que morava num puxadinho  de 3 peças, e os filhos dormindo juntos. Mas até aí nada de estranho para nós que vivemos num país de terceiro mundo: uns muito ricos, outros muito pobres, e outros tantos, escandalosamente miseráveis. O estranho foi ela ter falado que não trocaria sua casa pelo meu apartamento. Não sei a razão dela ter dito isso, mas eu disse apenas pois é. Ali, comecei a respeitar sua cabeça. E comecei a pensar.

Há  muitos anos, ainda solteira, fui para Alemanha e lá fiquei por dois meses (fui fazer um curso). Andei, conheci, vi e vivi em um país muito desenvolvido. Saí e dei uma voltinha nos arredores, fui à Paris etc e tal e retornei à Alemanha. Fiquei mais um mês. E quase morri!! Não via a hora de voltar! Bateu uma saudade do Brasil, da minha cidade, do meu bairro, da alegria do nosso povo, mesmo com todas as dificuldades que aqui se vive.

Não quero dizer que não achei coisas fantásticas; tudo era fantástico, tudo era muito perfeito para os nossos padrões. Mas eu sou daqui, sou brasileira. Tenho minhas raízes aqui.

Mesmo com um sistema de saúde caótico; mesmo com um sistema penitenciário que não reabilita; mesmo com o problema da fome e da educação; mesmo com nossa tecnologia inferior; mesmo com as falcatruas dos governantes, eu quis voltar.

E lembro da minha felicidade ao sobrevoar o espaço aéreo brasileiro, quando pensei algo meio macabro: se esse avião cair, pelo menos morro no meu país!

Quando saímos, nosso patriotismo fica exacerbado. A saudade explode no peito, e o patético se dá  na volta, quando começam as comparações! Mas com tudo isso... Cada um gosta da sua casa, seja ela como for. E, inevitavelmente, lembrei daquela minha empregada... Guardando as devidas proporções, naturalmente. Mas hoje eu a entendo.


16 comentários:

  1. É Taizinha realmente vc é maravilhosa em suas colocações...
    A relação humana é uma coisa difícil e super delicada, pois como vc mesma disse existem vários fatores que contribuem para isso, como a diferença de classe. Esse caso que vc conta da sua antiga empregada, eu já presenciei e relato que já ouvi de várias pessoas que moram mal, longe, de mto pouco recurso, dizerem que se ficassem ricas, não deixariam o lugar onde moram. Fico eu pensando que tdo é feito certinho, como se tivesse "escrito", pois não adianta vc querer ser aquilo que vc não é, acho eu, que é uma questão de educação, o horizonte equivale ao seu pedacinho de mundo, aquele o qual vc conhece, e isso é que vale! Se nunca vimos, nunca vivemos, por que haveríamos de querer?
    As vezes quando vejo uma pessoa num fim de mundo, numa casinha no meio do mato, eu falo: se eu nascesse ali, eu iria arranjar um jeito de fugir! Será que eu teria essa vontade, vivendo aquela realidade? Ou será que tenho essa idéia porque minha realidade é outra?
    Enfim... viver não é fácil!!!E dizer que nos sentimos bem em qualquer lugar, é mentira, pois quantas vezes nos sentimos só no meio de uma multidão!
    Agora quando viajamos adoramos, mas algo dentro de nós acusa que não somos dali.
    Existe dentro de
    nós uma mistura de sentimentos que ora nos confunde, ora deixa tdo claro... e voltamos!!!!!!!!!!!
    Um bj no coração.
    Wal.

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  2. Olá amiga,
    Muito interessante teu texto..Vivemos num mundo cercado de conflitos de relacionamentos que se reflete no que
    vemos nos meios de comunicação todos os dias..violências, guerras, brigas, mortes, divórcios,
    entre tantas e outras coisas. Aprender a relacionar-se com pessoas é uma tarefa imprescindível para qualquer ser
    humano.

    Abraços
    Tenha uma excelente semana.

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  3. Anônimo15:30

    Tais Luso de Carvalho , hoje vim conhecer seu outro espaço, e basta ler seu texto "O LUGAR DE CADA UM " , e perceber que estou diante duma grande escritora, que sabe e conhece a fundo a colocação, conotação, do emprego da palavra num texto como este, onde além de clara e objetiva diz muitas verdades. ( Somos fruto de uma educação que não se faz do dia pra noite. Nosso ‘molde’ se aprimora com exemplos, com esforço, com vontade e com o que nossos pais e a sociedade nos oferecem) . Creia, o que mais me espanta hoje em dia, é exatamente esse fruto que a gente esbarra a cada segundo, e vê que nada ele quer se aprimorar , onde os bons exemplos estão a cada dia sumindo, e as pessoas a cada dia sendo mais "deseducadas, deselegantes". Eu me pergunto , se a nossa mídia tão avançada com tanta tecnologia, consegue suprir a boa educação, aquela que vem do berço!?
    Tais Luso , COMO FOI GRATIFICANTE LER VOCÊ HOJE, agradecida com sua visita, com sua mensagem, eu estou só no primeiro espaço, assim que fizer o outro com minha poesia, lhe participo para me acompanhar, com admiração,
    Efigênia Coutinho
    Presidente Fundadora
    AVSPE

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  4. Tais

    Dito popular: "ninguém foge ao berço!" No entanto, realmente há pessoas com grande poder de adaptação. Então os gostam de sociologia têm de atentar neste pensamento de Teixeira de Pascoais: "Tudo o que nos rodeia estabelece connosco uma relação de intimidade escravizadora. Rompê-la é próprio dos temperamentos superiores e originais."
    Há, de facto temperamentos destes, a considerar, embora as excepções, não sejam a regra.
    Bj
    Daniel

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  5. Hum, mas cada que vive na sua casa, acaba a considerando um palacio, não importando se ela é um simples barraco da favela, ou uma cobertura dum prédio em Copacabana...

    Então o que importa é ser feliz com o que tem.

    Fique com Deus, menina Tais.
    Um abraço.

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  6. O mais interessante do ser humano é a sua capacidade de se adaptar. E eu, como todo bom sagitariano, preciso sair da minha casa, da minha vida, da minha rotina. Mas ter um porto seguro é muito importante para a nossa mente.
    Pois sempre que precisarmos de conforto, basta fechar os olhos e lembrar da nossa cama, na nossa casa. Seja ela de rico ou de pobre. O fator importante é que ela seja nossa e nos dê o conforto necessário.

    Sim, é verdade. A distância potencializa as saudades.
    Mas não temos limites e conseguimos superar isto também.
    Não é fácil, na verdade, quase nada o é, mas a gente dá um 'jeitinho'...rs

    Forte abraço!

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  7. Estou convocando-lhe a participar de um MEME! Compareça ao blog e saiba um pouco mais sobre...Abraços!

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  8. É como disse Gilberto Gil: o melhor lugar do mundo é aqui e agora. Abraços.

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  9. É velho o provérbio (nem por isso menos certo): cada macaco no seu galho.

    Um bom abraço
    e um ótimo final de domingo.

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  10. Tais, concordo inteiramente consigo embora eu me considere uma pessoa que, com facilidade se adapta a novas situações. Mas o busílis está aí, se adapta, crio esquemas, defesas, estratégias para não custar tanto.

    De resto, deixa-me dizer-te comparares a Alemanha que eu conheço ou Paris que também conheço bem e de que gosto imenso, com o Brasil!!! Não dá!
    Brasileiro é feliz, é alegre, lhe agrada dançar, apesar de todas as adversidades e de tudo de mau que possa estar à espera que lhe aconteça. Como dizia um guia nosso aí em Natal: -Eu hoje já comi, amanhã se verá!

    Até eu, aí no Brasil, acho que me adaptava de imediato. Iria estar que nem peixinho na água.

    Beijos e uma boa semana.

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  11. Feliz em ver que as crônicas rolam pelos blogs. Não estamos sozinhos.

    Gostei muito do blog.

    Até mais ver...

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  12. Bernardo21:22

    Cara Tais

    Seu texto é uma afirmação de amor a terra em que nasceu, independente de todos os problemas e deficiências que ela tem.O engraçado é que tem gente de destaque na imprensa e que fala com grande desgosto ou desdém do pais em que vive. Mas não é isso que gostaria de comentar. Ao ler seu texto me veio a mente o lugar em que nasci e vivi os meus primeiros 25 anos. Hoje quando lá retorno sinto uma angústia imensa
    pois nada restou daquele lugar simples em que eu brincava, sinto que não é mais meu lugar,agora com prédios, transito, não restaram raizes, nada, e não vejo a hora de ir embora.Escrevi uma reflexão sobre isso no meu Blog Momentos sob o título "Memorias da Infância" É curioso essa sensação de perda. Como se você voltasse em busca de suas raizes e descobrisse que elas não mais existem, foram demolidas pela modernidade.

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  13. Olá estou passando por aqui para te avisar que tem um prêmio te esperando no meu blog. Passe por lá. Beijos...

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  14. Amiga, tem um selo pra vc no meu blog!
    Bjinhus

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  15. Anônimo08:25

    É isso aí. Descrição comparativa melhor,seria impossível. Quem tira a nossa casa tira tudo. No Natal, houve preocupação de tirar os Sem Abrigo das ruas, pelo menos essa noite. Pois houve pelo menos dois, que disseram só se sentirem bem na "sua casa".O foi ali que serviram uma ceia melhor. Só uma palavra define isso....SAUDADE.
    Um abraço

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  16. Tais, gosto muito de acompanhar seu Blog. Esta, como todas as outras crônicas são ótimas.

    Passa lá no meu blog, na última postagem, deixei um mimo para você, que me conquistou com sua palavras.

    Beijos.

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