13 de março de 2011

SEPARAÇÃO / Affonso Romano de Sant'Anna


Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
-pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.


- coleção Poesia Falada / Tonia Carrero

23 comentários:

  1. A separação dói, e como dói.
    É como navalha cortando cada pedacinho da gente...navalha afiada, que corta o amor, que poda o gostar, que quer matar.
    Passei por isso, e vivi aqui em seu texto tão bem descrito, de uma igualdade tão verdadeira a minha, que estremeci.
    Não sei como resisti a tudo. Mas hoje estou inteira, e sei depois de tudo, que devemos ser inteiras sempre, mesmo ao lado do nosso amor, para quando ele se for, não nos maltratar tanto assim.
    Mas amei seu texto...sabe expressar muito bem uma separação...é exatamente assim.
    Um dia lindo para você minha querida.
    Um abraço carinhoso.

    ResponderExcluir
  2. Taís : Lindo poema de separação são coisas que fazem doer o nosso coração alem disso há lembranças que ficam. Adorei
    Beijos
    Santa Cruz

    ResponderExcluir
  3. Adoro esse poema...adoro Affonso Romando de Sant'Anna. E adoro o seu blog. Quanto tempo não venho aqui...
    Bjos.

    ResponderExcluir
  4. È, minha querida poetisa, a separação se assemelha a um terremoto sentimental assim da maneira clara como voce expressou.
    Mas aos poucos tudo vai voltando ao seu lugar.
    O coração e a mente vão sossegando devagar, e... de repente, estamos prontas novamente!
    Parabéns pelo poema
    Beijos
    Mare

    ResponderExcluir
  5. O amor ruiu e tem pressa de ir embora
    envergonhado.
    Belo Post Taís....Adorei o tema e a
    descrição...,mas fiquei com a dor...
    Beijo

    ResponderExcluir
  6. Eu conheço esse processo e já sofri todas essas dores.
    Esse texto-crônica-poesia só pode ter sido escrito por alguém que tem cicatrizes de amor-desfeito.
    Valeu Taís!
    Beijos de toda a equipe do atelier

    ResponderExcluir
  7. Excelente escolha.
    Boa semana
    Beijinhos
    Maria

    ResponderExcluir
  8. A dor da separação. O fracasso de uma aposta. A decepção de uma esperança.
    Triste.
    Um grande bj querida amiga

    ResponderExcluir
  9. Esse poema bate fundo na alma da gente. Só quem já se separou sabe e conhece essa dor. O importante de tudo é saber que já doeu. Não pode doer mais.A gente dá um nome ao sofrimento e cresce com ele.Nunca pode ser em vão. Adorei e vim agradecer vc ter ido lá na Lidia me prestigiar. Obrigada de coração

    ResponderExcluir
  10. Lindo! como tudo que este poeta escreve...
    Bjs.

    ResponderExcluir
  11. Taís,
    Gostei tanto de seu blog que está nos meu favoritos e me tornei seguidor. Gostei ainda do visual, tanto que fui lá no meu e "repaginei" copiando quase todas as cores e modelos do seu. Um grande abraço.

    ResponderExcluir
  12. Um poema tão lindo, tão triste pq ele é tão real e presente.
    Me emocionei.
    Tenho 'medo" de sentir esta dor.
    Acho triste o amor acabar.

    ResponderExcluir
  13. A mala! Que lembrança eu tive agora, Tais! Quando me separei pela primeira vez, saindo de casa com uma pesada mala nas mãos, comentei meio sem graça sobre o peso (acho que era para ter ainda algum assunto ) e ouvi uma frase metafórica que nunca mais me esqueci: " a minha mala pesa mais do qeu a sua."

    Que bonito e que luva (para mim) esse poema do nosso mineirinho talentoso!

    Abraço grande, ótima semana. Paz e bem.

    ResponderExcluir
  14. Amor e Necessidade

    O amor não é apenas uma troca de necessidades. Esta é a sua forma ilusória. Ele é um sentimento aquém e além da necessidade de senti-lo.
    Uma espécie de acordo secreto e inconsciente faz parecer amor o que é momentâneamente ou duradoura troca de necessidades. As carências são tantas e tão grandes, que o atendimento a elas ou a possibilidade de advir proteção ou aceitação, surgem disfarçados de amor, vestidos com sentimentos componentes do repertório do amor. Mas amor não é. É troca de necessidades.

    (...)

    Na íntegra em: http://cleitonrezende1.blogspot.com/2010/06/amor-e-necessidade.html

    ResponderExcluir
  15. Essa é uma experiência que não desejo para ninguém, pois já a conheço e sei o quanto ela dói.

    Beijos e ótima semana pra ti e para os teus.

    Furtado.

    ResponderExcluir
  16. Desconheço apenas esse bater em retirada, carregando o peso de malas desesperadas, no resto, o poema chega perto de reproduzir esse "juízo final", penso que os destroços são maiores dos que encontrei nas palavras...salvo que tudo o mais esteja muito bem escondido em entrelinhas disfarçadas de "bem resolvidas."

    Denso, forte, triste e profundo.
    Faz jus ao fato.

    Um beijo, meu carinho e o desejo de dias bonitos por aí!

    ResponderExcluir
  17. Taís, os meus amores fizeram jus ao famoso e poético pensamento de Vinícius de Moraes, - foram infinitos enquanto duraram. Ah, sim!... Agora, multiplique o conteúdo do poema (perfeito!) aí publicado por quatro...

    "Amou-se um certo modo de despir-se
    de pentear-se.
    Amou-se um sorriso e um certo
    modo de botar a mesa. Amou-se
    um certo modo de amar."

    Quando a gente ama
    ama o que o outro ama na gente;
    não é quando a gente ama
    que a gente se ama completamente?...


    Que garimpo, hein amiga?! Você escolheu muito bem.

    Bjs, querida. Falo com você por e-mail mais tarde. Mamãe ainda não está muito bem. Inté!

    ResponderExcluir
  18. Acredito na poesia como sendo a descoberta da vida, de nós mesmas e desse amor tão decantado...Belíssimo poema de Affonso Romano...Bjs querida Taís.

    ResponderExcluir
  19. Toda separação deixa uma dor...
    Beijocas, lindona!

    ResponderExcluir
  20. Separação mesmo quando necessária , doi de mais , e horrivel mesmo , seu poema diz tudo
    bjs

    ResponderExcluir
  21. Lindo! Voltarei sempre.

    So os poetas e os cegos podem ver no escuro.

    Fica na paz.

    ResponderExcluir
  22. ´lilianny passos lima03:36

    preciso revelar um segredo:a dor da separação parece que nunca sairá do meu peito

    ResponderExcluir

MEUS AMIGOS:

1 - Este blog não envia nem recebe comentários anônimos ou ofensivos.

2 - Entrarei na página de comentários quando alguma resposta se fizer necessária.

3 - Meus agradecimentos pelo seu comentário, sempre bem-vindo.


Meu abraço a todos.
Taís Luso