25 de agosto de 2013

O DIA EM QUE CHOREI EM AMSTERDAM



- Tais Luso de Carvalho


Foi um dos dias mais tristes de minha vida: dia chuvoso em Amsterdam, Holanda. Um país lindo, cheio de tulipas, diques, moinhos, bicicletas e com uma arquitetura lindíssima, própria dos Países Baixos. Terra de Rembrandt, Vermeer, Van Gogh... Ah, Holanda!! Poderia ter sido um sonho... mas não foi.
Uma família sem muitos recursos, morava num barco: pai, mãe e um filhinho de 3 anos. Apesar de viverem com muita dificuldade, pareciam felizes. Tinham sonhos. Acreditavam em dias melhores.
Eram brasileiros que foram viajando sem rumo, descobrindo o caminho menos doloroso para viverem. Com as economias, que levaram do Brasil, compraram um pequeno barco. E aportavam um dia aqui, outro ali, voltavam e partiam à procura de emprego. Vida dura.
O barco tinha um fogãozinho, pequena cama, mesa... tudo organizado para dar a ilusão de uma casa, o sonho do casal. Até guardanapos de croché tinha. Todos os dias, em meu caminho, eu parava e falava com Jane, dava uma olhada na criança, levava algumas coisas para eles. Sentia lá, minhas raízes de brasileira.
Porém, um dia receberam uma notificação de que não poderiam continuar onde estavam: lá - onde ancoraram -, não era lugar para residência. Sei lá, eu não estava a par das leis, do permitido naqueles canais de Amsterdam. Mas senti o desespero do casal.
No dia posterior à notificação, Beto, o marido de Jane, saiu para ver o que conseguiria, como faria, para onde iria com a família. À tardinha passei para ver o que Beto tinha conseguido, como tinham ficado as coisas.
Jane, sem parentes, sem amigos, abraçou-me e desabou num choro compulsivo, dolorido. Afeiçoei-me muito àquela família, eram como se fossem meus parentes, minha irmã. Eu a ouvia; ela me ouvia. Trocávamos experiências, conselhos e afetos. Difícil lidar com a saudade... Apesar de um pouco trambiqueiro, somos um povo sentimental, coração mole e solidário. Somos latinos.
Quando consegui falar, perguntei à Jane o que tinha acontecido para aquele desespero, aquela coisa tão dramática...

Estranho isso – pensei -, nunca a vi assim...

Deu-me para ler uma carta de Beto; uma carta de despedida; não voltaria mais para o barco e nem para a família. Tentaria sobreviver noutras bandas. Cada um que seguisse sua vida. Simples assim, um bilhete pesado, cruel e sem muitas delongas.
Mas e agora? O que seria de Jane, sem o marido, com filhinho pequeno, sem dinheiro, sem emprego, sem lugar para o barco, e num país que não era o seu? Como poderia eu ajudar Jane e Ricardinho? Ficamos abraçadas chorando: chorando pela falta de tudo, pelo futuro impreciso e solitário, pelo desconhecido e talvez pela nossa separação. Não estava achando solução, eu morava na Casa do Estudante.
Que destino estaria reservado para minha amiga, que apesar de pobre não tinha mágoas da vida, me confortava quando batia a saudade do Brasil. Aquela amiga que me convidava para comer o pouco que tinham nos finais de semana. Eu precisava fazer algo! Debatia-me entre  tristeza e ódio.
Toca o relógio! Arre, que noite de cão... Meu maxilar parecia de um Pitbull... Acordei com uma incrível enxaqueca. Qual a razão desse estúpido pesadelo? Não quero nem saber.
Só sei que fico muito feliz em dizer que eu nunca estive em Amsterdam; nunca morei numa Casa do Estudante, nunca tive uma amiga chamada Jane, e jamais vi um barco zanzando pelos inúmeros canais de Amsterdam!
E muito menos conheci um cafajeste chamado Beto...





34 comentários:

  1. Embora saiba o que é ficção, fiquei emocionado. Criaste um cenário que eu estava a dar como verdadeiro. Até por não ser impossível.
    Gostei muito da peça e com tudo, te dou parabéns!...
    Gostaria muito que desses uma passagem, pelo meu INTEMERATO, Creio que a verdades que me dizem respeito ali, vão ultrapassar a ficção.

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  2. Limerique

    Era uma vez na velha Amsterdam
    Uma existência simples quase chã
    Num barco sem porto
    Sem qualquer conforto
    Fez-se pesadelo aquela vida vã.

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  3. Tais, você merece uns cascudos, viu! rsrsrs Como é que faz essa maldade com seus leitores?! Quase mata a gente de comoção e depois vem dizer simplesmente: foi um pesadelo!!!! rsrsrs
    De qualquer forma, admito, estou muito feliz em saber que a história não é verdadeira (bem, espero que não seja mesmo...).
    Além disso, não sei se você acredita em sintonia de pensamentos, mas estou no meio de uma história, cuja personagem se chama Jane e ela passa por maus momentos... Iria postar hoje também!!! Mas sopraram outros ventos, mais leves, e posterguei a postagem da 'minha' Jane para a semana que vem. Acho que fui inspirada a fazê-lo, pois duas Janes sofrendo no mesmo dia seria demais... rsrsrs
    Mas... Será que também foi um pesadelo meu?! Agora fiquei confusa... rsrsrs
    Muito bom seu texto, muito convincente, me deixou engasgada! Parabéns!!!

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    1. O lindo da arte da criação é justamente este criar situações e delas fazer gerar esta emoção tão real.
      Lindo demais Tais, ótima criatividade/construção.
      Parabéns com meu terno abraço,

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  4. Olá Tais

    Tão bem descrito que até já tinha a visão colorida e emocionada da situação...até estava tentando imaginar qual seria o modelo dos naperons de croché...
    Bendito relógio que tocou na hora certa...

    Abraço

    Nélia

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  5. Olha Taís, eu acreditei em tudo e já estava imaginando um jeito de ajudar a resolver tão cruel situação! O pior é saber que seu pesadelo existe em muitos lugares. Para muita gente isso é real!
    Bom, você se superou como cronista. Parabéns!
    Um grande abraço de todos do atelier. Loyde sua fã manda um beijo

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  6. Taís, fui lendo e me comovendo. Que alívio quando cheguei ao final! Sabemos que a situação de muitos é terrível e que há Betos em todos os lugares, mas perceber que, aqui, em sua crônica, é ficção, conforta. Bjs.

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  7. Concordo com a Suzy: você quase matou a gente! Mas uma coisa eu tenho que dizer. Que crônica! Extremamente convincente e, claro, muito bem estruturada. Acontece que existem pessoas no exterior que estão em péssimas condições. Foram massacradas pela crise que atingiu a Europa e que vem deixando suas marcas. Um pesadelo que simboliza um problema. Talvez não na Holanda, mas em vários outros lugares do mundo.

    Excelente!

    Beijo

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  8. Oi Taís,
    A princípio tive vontade de estar ali no seu lugar, no país desses meus grandes ídolos. Em seguida, veio a expectativa pela sua atitude diante de todo aquele sofrimento. Na condição de estudante, o que você poderia fazer além de oferecer seu carinho e atenção? Pensei em algum coelho saindo de uma cartola, mas com certeza você conseguiria ajudar mãe e filho.Sei que me emocionei muito e fiquei super presa e atenta esperando um final feliz. Mas a surpresa foi ainda melhor para você e todos nós. Uma grande crônica . Parabéns Taís.

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  9. Uma história da vida real em sonho... Gostei da história e da imaginação do seu subconsciente.
    bjkas doces e boa semana.

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  10. Tu és simplesmente demais! Linda crônica, aplausos! beijos,chica

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  11. Olá Tais,

    Eu aqui quase vertendo lágrimas de emoção, odiando o Beto pela atitude desumana e egoísta e pensando em como você ajudaria a Jane a sair daquela dolorosa situação e eis que, de repente, é apenas um pesadelo-rsrs.
    Ainda bem que foi somente um pesadelo e que lhe rendeu uma excelente crônica. Quem sabe o cenário dos sonhos já não foi vivido por você em outras vidas? Tudo é possível.

    Parabéns, pois arrasou nesta crônica.

    Beijo.

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  12. Como o texto foi bem escrito, eu acreditei até o final! Beijos, Taís!

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  13. Acho que a genialidade da forma como conduziu teu texto, enganou a todos nós, eu já estava aqui louca para ver no desfecho qual providência tomaste... tu é danada.... danada de boa com as palavras, amigaúcha querida!!

    Um enorme e afetuoso abraço!

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  14. Taisamiga

    ... E que crónica!

    As crónicas não precisam de incidir sobre factos reais, nada disso. As crónicas precisam de um ingrediente fundamental - e só um: escrever bem e sem muitos erros de ortografia. Tu resumes esse predicado porque está dentro de ti. Parabéns! E concordo, uma vez mais contigo: pesadelo dá crónica. Amplio: tudo dá crónica.

    Pois eu já estive umas quantas vezes em Amesterdão. Quando jovem, (17 e picos) tive uma namorada em Roterdão, a Hildegaard (o holandês não é uma língua, é uma dor de garganta...) e vivi com ela sete meses, mais coisa, menos coisa. Por isso, fui muitíssimas vezes a Amesterdão.

    Um dia, a boa da holandesa comunicou-me: Ik zal je aan mijn ouders te introduceren o que quer dizer, se me lembro, algo como quero apresentar-te aos meus pais...

    Eu, então, trabalhava como straatveger in het Stadhuis, ou seja varredor de ruas com uma máquina da Câmara Municipal, ocupação que me fora arranjada pelo Vrjone, primo da Hildegarda (tradução livre...). Foi tiro e queda; encostei a maquineta, passei pela tesouraria, recebi os meus florins florijnen e pus-me na alheta. A sombra sinistra do Wedding (casamento)caía sobre mim, lagarto, lagarto, lagarto. Só parei em Lisboa, juro!

    Pronto, esta é uma crónica verídica; só peço a quem de direito, incluindo a Deus, que a Raquel nunca saiba disto... Pecados juvenis...

    Qjs

    Henrique
    _______

    PS - 1) Nunca mais te vi na nossa Travessa. Estás zangada comigo? Tratei-te mal? Insultei-te? Penso que não. Mas, a ser assim, as minhas desculpas. E, como sempre, espero por tu (não gosto do ti...)

    2) Já não falo nada de holandês, felizmente; recordo umas coisas, poucas, fui ao dicionário, etc. O susto apagou-me tudo. "Definitivelmente"...

    3) Como vai o Pedrão? Deus queira que vá bem. E o resto dos teus? Espero que também.

    4) Vitória, vitória, acabou-se a estória...

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    1. hahaha, olá, amigo Henrique! Muito obrigada por tuas palavras, é uma honra pra mim. Pedro está ótimo, por aqui tudo bem, muito frio e chuva! Fique calmo aí em Portugal, não estou zangada, vou visitar teu blog, sim. São tantos os amigos que de vez em quando alguém tem de ficar na fila de espera! Mas vou te visitar.

      Beijos pra ti e tua Raquel!

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  15. kkkkkkk você me enganou direitinho, que raiva desse Beto!

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  16. Olá Taís, querida sra Luso, adorei o comentário de uma blogueira acima dizendo que acreditou até o final, eu também, outro blogueiro define muito bem também, escrever bem e sem erros ortográficos. E isso tu fazes como ninguém, teu texto tem uma levada, como um vento, então é só se deixar ir, e deslizar nesta história. De qualquer forma, laços, carências, e , quando se está afastado da querência se percebe mais...Querida Taís mais um belo texto que encontro neste teu espaço, obrigado.
    ps. Meu carinho meu respeito meu abraço.

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  17. Confesso que não tenho palavras para externar a minha satisfação ao ler tão bela crônica. Depois de tantos comentários elogiosos, o que eu disser será plágio e plágiar é crime. Adorei!

    Abraços pra ti e para o Pedro.

    Furtado.

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  18. Ola Tais,
    que pesadelo! crepitante!
    Boa cronica, pensei que voce estivesse la, que tudo tinha sido real, afortunadamente tudo foi um mal sonho. mas poderia ser real, perfeitamente. Voce e uma grande escritora e gosta-me a imagem sempre poetica de Amsterdam que ilustra esta historia.
    Abracos.

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  19. Pesadelos dão crônica sim, Tais. E muito boas, como a que acabei de ler.
    Grande abraço.
    Jorge

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  20. Minha querida escritora,espero que tenha muitos pesadelos desse tipo,pois viajei deliciosamente contigo,senti todos os dramas,e depois ufaaaaaaaaaaaaaaaa!
    Que final maravilhoso!
    Não tenho palavras,tu és incrível!
    Um grande abraço!
    Izildinha

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  21. Se for assim, que venham os pesadelos..kkkkkkk
    Um abraço. Obrigada pela visita e pelas palavras carinhosas...Um beijo

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  22. Como é bom nem sonhar com esses pesadelos, por momentos já estava a pensar que era verdade. Estava com vontade de ir atrás do homem, aconselhar a voltar e enfrentar estes pedaços de vida.
    Bons sonhos.
    Bj

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  23. Fui bem enganado....Eu também já tremia de ansiedade e
    congeminando soluções...e sai-me aquele final.....Uff....
    que alívio....Mas isso não se faz....Safa....
    Minha mulher chegou de Amsterdam, onde foi visitar a filha
    que está a estudar por lá...Por isso a história me agarrou
    tanto.
    Beijo

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    1. Queridos amigos,

      Izildinha Renzo
      Leila Bomfim
      Manuel Luiz
      Andrade

      Muito obrigada pela presença de vocês.
      E que bom que gostaram!
      Bjs a todos!

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  24. Tua crónica fez-ms vir as lágrimas aos olhos. E mais não digo. Bj

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    1. Olá, Jorge, fico contente quando alcanço meu objetivo. rs
      Obrigada pela sua presença.
      Bjs.

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  25. Muito bom, Tais! Aplausos! Isto é um cronica! Beijos!

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    1. Gostou? Obrigada, Fábio, beijos!

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  26. Tais - Estranha coincidência. Passeando em Amsterdam conheci Jane.
    Me chamou a atenção uma camisa verde amarela com emblema do Brasil que um jovenzinho pré adolescente trajava.
    Sorri e indaguei -brasileiro? Ele disse ter nascido na cidade, mas que a mãe era brasileira e eis que ela surge sorrindo e solicita.
    Falei da curiosidade sobre a camisa do jovem e ele me disse que moravam ali. Ela narrou a história de vida, o sumiço do esposo, tudo que você colocou em sua pagina.
    Falou-me de você e eu disse não conhecer.
    Disse-me que apesar de sua juventude Tais, valeu muito o apoio, o chorar unidas e as palavras fortes e determinadas que voce falara.
    Chorou muito por dias e até meses. Mas se sentiu forte. Que contou com a misericórdia de algumas pessoas e da autoridade local onde ainda ficou ancorada e por fim passou ser o barco o seu ganha pão. Atendendo alguns turistas e até mobilidade para moradores.
    O jovenzinho Rafael em homenagem ao anjo, era motivo de alegrias - companheiro firme e forte, bom estudante e ainda guardava um pequeno carrinho que você lhe dara de presente.
    Bom não é Tais que a vida para Jane andou e venceu.
    Bom Tais que estou aqui confirmando esta história.
    Um feliz e doce coincidência.

    Em tempo - Você me levou a Amsterdam - tenho o direito de retornar a você, minha experiência maravilhosa de por aquela terra passear - mesmo sabendo que foi por enquanto um sonho.
    Um dia vamos fazer este passeio!
    Beijos!

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    1. Nossa!! Não, mas no meu caso foi pesadelo ou sonho mesmo, nunca estive em
      Amsterdam! Nunca falei com Jane e nem sua família!
      Que bom recebê-la aqui, fico feliz.
      Grande beijo.

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    2. Tais, apenas uma brincadeira com a pagina linda que você escreveu e nos levou a conhecer Jane. Também nunca visitei este Pais - apenas me senti confortável pela atenção que você dá aos seguidores em fazer uma brincadeira. Abraços.

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    3. rssss, poxa, e não percebi!! Realmente pensei que você conhecesse Amsterdam! Nossa... será que preciso de umas vitaminas?
      Mas você me pegou direitinho, achei a maior coincidência do mundo.Mas agora já conheço seu espírito, ficarei atenta. rs Valeu a brincadeira!

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PARA OS MEUS AMIGOS - SUA ATENÇÃO...

1 - Agradeço os comentários dos queridos leitores e amigos, sempre bem-vindos, um grande abraço a todos! Voltem sempre.

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Taís Luso