9 de abril de 2011

O OFICIAL DE JUSTIÇA - conto de Pedro Luso de Carvalho




               -  conto de Pedro Luso de Carvalho


O circunspeto Romualdo foi um bom oficial de justiça. Trabalhou por muitos anos sem um único deslize. Pessoa íntegra, no fórum conquistou o respeito dos juízes e dos servidores da Justiça. Certo dia saiu de casa para fazer uma citação a três quadras dali. Quando chegou, procurou pela campainha. Acionou-a uma única vez. A mulher que o atendeu era magra, cabelos em desalinho, e devia ter menos de trinta anos.
Procuro pela senhora Mafalda.
Pois não, senhor! Sou eu mesma.
O seu vestido vermelho, com ousado decote, fez com que Romualdo desviasse o olhar no momento em que lhe entregou o mandado de citação. Depois apanhou a contrafé, por ela assinada, e retirou-se, fazendo-lhe um tímido aceno com a cabeça,
Passados dois dias, Romualdo recebeu um bilhete da mulher de vestido vermelho, convidando-o para um aperitivo em sua casa. Tornou a ler o bilhete para certificar-se se era a mesma mulher que citara dias atrás. Não havia dúvida, a letra era a mesma.
Uma semana depois, Romualdo recebeu um telefonema de Mafalda, que lhe disse, com voz rouca: “Ainda estou aguardando a sua resposta”. E renovou o seu convite.
Eu sou um homem casado...
Venha no final da tarde – disse, com firmeza.
Romualdo foi ao encontro de Mafalda, depois de concluir a última citação daquele dia. Os encontros nos finais de tarde tornaram-se rotineiros. Aos domingos, saia a passeio com a esposa e a filha.
Passados pouco mais de dois anos, Romualdo começava a sentir o peso da culpa. Não deixava de pensar na boa qualidade de vida que levava, antes de conhecer Mafalda.
Decidido a romper com o relacionamento, pediu à amante que o esperasse, no final da tarde. Quando chegou, foi direto ao assunto:
Vamos ter que terminar com este caso – disse, sem olhar nos seus olhos.
Como não ouviu dela nenhuma resposta, saiu às pressas. Depois de ter permanecido sentada por algum tempo, o olhar fixo na porta, por onde Romualdo saiu, falou com voz embargada, no vazio da sala: “Se ele pensa que vai me abandonar engana-se”.
Mafalda passou a telefonar todas as noites para a casa de Romualdo, por várias semanas. A esposa preocupava-se com esses telefonemas, e com o estado de prostração do marido, que no momento separava alguns mandados de citação, para o seu dia de trabalho.
Um menino me entregou isto – disse a esposa, preocupada.
Romualdo esperou que ela saísse da sala para abrir o envelope. Reconheceu a letra de Mafalda. Um sentimento de desgraça deixou-o abatido. No bilhete, a amante dizia: “Vou contar tudo o que existiu entre nós à sua mulher”.
O oficial de justiça voltou a sentar-se, extenuado. Afastou os documentos que estavam sobre a mesa, e aí deixou o bilhete, com os rabiscos ameaçadores de Mafalda.
De repente, tomado de fúria, Romualdo saiu em direção à casa de Mafalda. Enquanto caminhava, segurava o revólver no bolso do paletó até deparar-se com a amante, momento em que sentiu a mão enrijecida e os contínuos repuxos da arma.
O tempo parecia ter parado para o oficial de justiça. Refazendo-se, Romualdo esfregou os olhos, como se estivesse acordando, e logo ouviu o seco estalido das algemas, apertando-lhe os punhos.











37 comentários:

  1. Olá, Taís!
    Minha amiga, que pressão!
    Por vezes a gente se pega no mesmo caminho. Cavamos um buraco bem fundo para enterrar nossos segredos e, em um determinado momento da vida, verficamos que, de tão fundo o buraco, dele não mais conseguimos sair.
    É isso, querida; lição para a vida!
    Abraços!

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  2. Pobre Romualdo!
    Nem todos tem estrutura para uma vida dupla. E geralmente um lado gosta mais que o outro e fatalmente isso acaba acontecendo.
    Um bela crônica! Parabéns

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  3. Gostei do texto. Achei que ele não ia conseguir se livrar dela e acertei - vai lembrar da Mafalda pelo resto de sua vida. Muito bom.

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  4. E esta história eu já vi acontecer na vida real algumas vezes.
    Triate!
    Muito bem escrita sua crônica, com palavras bem claras e combinadas e num ritmo agradabilíssimo, de fácil compreensão e instigante.
    Parabéns!!!
    Beijos!!

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  5. ola Tais...

    é a arte imitando a vida,
    ou a vida imitando a arte...

    belíssima crônica,nem todo mundo tem habilidades suficientes para driblar a própria vida...

    muitos beijinhos

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  6. Hoje quis postar no Porto das Crônicas um conto; um conto que retrata o cotidiano de pessoas que mais cedo ou mais tarde irão se deparar com uma situação de tensão, de estresse, de arrependimento por se meterem em situações de risco; sim, o pretenso amor se transforma facilmente em situações inesperadas, é impossível dar certo quando vivemos numa corda bamba onde aparecem diversas manobras para tentar burlar nossa mente, nossa visão e nossas atitudes num mundo que clama cada vez mais por paz e pelos bons costumes nas sociedades.

    É um conto tenso que nos leva a raciocinar se vale a pena começar algo por estradas tortuosas... Seu final poderia ser outro, talvez, mas este terminou de uma maneira trágica. Tão triste como tudo que começa mal.

    Ao Pedro Luso - meu marido – um grande beijo e parabéns por esta narrativa que vi crescer.

    Este seu conto 'A História do Oficial de Justiça' trouxe do PANORAMA – link na coluna ao lado.

    Tais

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  7. Tarde ou cedo...bem ou mal...tudo acaba.
    Quando existe um sentido de posse tão
    grande como o da amante....!!!não há
    como fugir....a 'bronca' estala e alguém
    paga a factura..
    Mas..'tudo vale a pena..quando.'...,.
    ....SERÁ??
    Adorei o estilo...que já conheço...
    Beijo

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  8. Pesado e real.
    A vida é uma tragédia.
    Taís sem tragédias não teríamos o teatro e sem arte a vida não teria graça.
    Parabéns ao Pedro!
    Beijos meus e da Loyde.

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  9. Tais: Linda cronica pobre Remualdo ele propria cavou um buraco para depois ali se colocar.
    Beijos
    Santa Cruz

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  10. Pedro Luso, de quem sou admirador e leitor, tem poucos contos; se dedica especialmente às ótimas resenhas de livros e vidas de escritores. Porém, os poucos que eu li são muito densos e recheados de vida real.

    Este eu não conhecia, mas adorei.

    Parabéns, Pedro!

    abço
    Cesar

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  11. Puxa, ele não aguentou a pressão...e bota pessão nisso,heim? Muito legal e bem escrita!

    um beijo,tud de bom,chica

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  12. Oi Tais
    Casos semelhantes acontecem todos os dias. Pessoas que se envolvem em triângulo amoroso, sempre acabam de uma forma trágica.
    Bjux

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  13. Esse foi o alto preço pago por Romualdo, por não ter resistido à tentação da carne, e ter procurado sarna para ele próprio se coçar.

    Belo conto. Parabéns para o Pedro pela autoria e pra ti pela escolha.

    Beijos,

    Furtado.

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  14. Esse conto relata vários aspectos e abre um leque para exemplos verídicos...
    Primeiro, a amante premeditou essa situação e ele sem perceber, mordeu a isca,depois se viu ás voltas com o estresse da paixão que emburrece as
    pessoas, e levou-o ao ridículo. Depois de um tempo a paixão desapareceu e ele caiu na realidade.
    Aí mais uma vez, entra a paixão em cena,e pessoas apaixonadas não sabem renunciar,ela não abriu mão desse relacionamento e o ameaça.
    O amor passou bem longe de tudo isso!
    Enfim...A tragédia!
    Estou aqui apalaudindo!
    Essa história tem muito a ver com o que os jornais noticiam diariamente.
    Impecável!
    Parabéns!

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  15. Bom dia, querida amiga Taís.

    Nossa... Atração fatal!!
    Ele se desculparia dizendo que "a carne é fraca". Em nome disso, muitos fatos reais se assemelham a esse lindo conto.

    Acho estranho é que, os homens sempre são muito racionais e frios, para saírem de um relacionamento, mas não são, para entrarem nele.

    Um grande abraço.
    Tenha uma bela semana, cheia de paz.

    (Muito obrigada pela honra da sua visita, e comentário)

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  16. Simplesmente catalisador!
    Um conto de vida acontecida, bem ali na casa ao lado, ou na mesa em frente...
    As peças que os instintos pregam podem ser perigosas e fatais.Fato bem cantado na prosa correita do conto contado.
    Gostei demais!
    Bjo grande, Taís.
    Calu

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  17. Esse tipo de situação é comparável a um vício com alguma substância entorpecente. É fácilimo entrar pela tentação, pelos atrativos hedonistas e sair depois é uma luta com final imprevisível. Belíssimo conto, Tais. Parabéns ao Pedro, dessa família que é um talento sensacional. Meu abraço. paz e bem.

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  18. Bom de ler! Parece normal acontecer.
    Parabéns e felicidades.
    Beijo

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  19. Como diz o dito popular a gente só colhe o que planta. Ao enveredar por caminhos perigosos certamente Romualdo na ingenuidade de sua vida rotineira de funcionário cartoral não imaginou as consequências terríveis que poderiam surgir. Pagou pra ver e o resultado foi a destruição de sua vida.
    Embora conto, está repleto de realidade. Milhares no mundo passam por situações semelhantes e o mais interessante é que alguns ainda caem uma segunda e uma terceira vez.

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  20. Primeiro quero parabenizar o Pedro pelo conto que prende o leitor desde o começo. Muito bem alinhavado.
    Do Conto:
    Eu sendo o Romualdo jamais terminaria um caso de uma vez, ainda mais, sabendo que a amante continuava apaixonada. Eu ia mudando aos poucos,me tornando desinteressante aos olhos dela.Na segunda opção contaria tudo a esposa, que se amasse o marido não o largaria apesar da dor.
    Porém se eu fosse a amante jamais correria atrás de quem deixou de gostar de mim. Meu amor próprio seria maior que a paixão.
    Querida Taís,
    Parabéns pela postagem
    Beijos,
    Dalinha

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  21. Conto muito interessante, Taís!
    Uma beleza o seu estilo!
    Gostei demais...
    Deixo-lhe um grande abraço.

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  22. Oi, Zélia, este conto não é meu, amiga, trouxe do blog de meu marido. O nome dele está no início do conto! Acho que você não viu.

    Obrigada e um beijinho.
    tais

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  23. Bom dia,Taís!!

    Que coisa!!
    Era mais fácil não ter começado...para terminar só podia dar nisso...É uma realidade...
    Isso é o pior!As pessoas acham que é normal...
    Bela crônica para refletir!!
    Beijos pra ti!!
    Boa semana!

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  24. São as armadilhas da vida. As vezes, nos deparamos com situações que nos impedem de vislumbrar, lá adiante, as conseqüências funestas dos nossos atos. Não atiro pedras. Triste crônica, lindamente escrita (como sempre) Bjs.

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  25. Amiga, bom demais ler novamente esse conto (que se atente para o fato de que o personagem é um oficial de justiça, - alguém que, teoricamente, faria talvez outras escolhas) que revela a línha tênue que separa a paixão da obsessão, e vai nos conduzindo através de uma crescente e dramática tensão a um final trágico.

    Já expressei ao Pedro minha admiração pela sua escrita, bem como minha imensa curiosidade e desejo de conhecer outros escritos de sua autoria. E adorei que o tenha publicado aqui, oferecendo também ao seu leitor a oportunidade de conhecer o Pedro escritor.

    Aqui em casa está quase tudo igual, - dias estressantes, desanimadores, de esperanças minguantes. Bjs, querida amiga. para você e para o Pedro. Inté!

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  26. Querida Taís,texto muito bem elaborado que prende o leitor. Sem algemas mas tensa por querer saber o final,fiquei presa ao ecran.
    Vidas duplas...não são aconselháveis.
    Uma bela lição de vida,num texto muito real.
    Parabéns.
    Bjito e uma flor

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  27. Tudo que começa torto tende a ter um desfecho torto!

    Belíssima escrita a maiga nos apresenta! Sou grato!

    Abraços renovados!

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  28. É o que eu sempre falo: para ser e ter amante é preciso ESTOMAGO e RACIONALIDADE.


    Bela cronica...

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  29. E isso acontece mesmo. O conto retratou bem o que vemos muito pela imprensa.
    Bjoo!!

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  30. Olá adorei teu blog, lindo mesmo. Parabéns. Fique a vontade para fazer uma visitinha ao nosso “Alto-falante” e seja mais um membro. Você é nosso convidado especial. http://poetarenatodouglas.blogspot.com/.
    Um grande abraço!

    Renato Douglas!

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  31. Acho que já está na hora de voltar aqui, nesta postagem do blog PORTO DAS CRÔNICAS, para dizer a todos os amigos e amigas que gostei muito de todos os seus comentários.

    Também quero agradecer a minha mulher TAÍS, que me prestou essa homenagem com a edição do meu conto “A HISTÓRIA DO OFICIAL DE JUSTIÇA”.

    Agradeço a todos que deixaram os seus comentários:


    LOURO NEVES
    MARLY BASTOS
    PAULO FRANCISCO
    CARLA FERNANDA

    ANDRADE
    ANTONIO MACHADO
    MGOMES
    CESAR CRUZ
    CHICA
    WANDERLEY ELIAN
    M. SUELI GALLACCI
    ROSEMILDO SALES FURTADO
    IZILDINHA
    AMAPOLA
    CALU
    CACÁ – JOSÉ CLÁUDIO
    MANUEL LUIS
    BERNARDO
    DALINHA CATUNDA
    ZÉLIA GUARDINO
    VIVIAN
    SONIA PALLONE
    JU RIGONI
    TECAS
    JG COSTA
    RENATA
    BILL FALCÃO
    RENATO DOUGLAS

    Um grande abraço a esses amigos e amigas,

    Pedro Luso.

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  32. Oi, Tais, bom-dia!
    Fui lendo e imaginando. Intenso demais!
    É terrível quando as pessoas não entendem o significado de "acabou! chega, não dá mais".
    Fiquei triste pelo oficial de justiça. Todos estamos fadados à paixões [indenpende das circunstâncias].
    Julgar me parece um erro. Afinal, que "atire a primeira aquele que não tiver telhado de vidro".

    Grande abraço.

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  33. Um casal querido e talentosíssimo! Um excelente conto!
    Beijos aos dois!
    Bom domingo!

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  34. Taís,

    Estou de volta para agradecer mais dois comentários feitos na postagem de meu conto "A História do Oficial de Justiça", um feito pela JOSANE MARY e outro pela SÔNIA SILVINO.

    Abraços para a JOSANE e para a SÔNIA.

    Pedro.

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  35. Oi Tais!!

    Que sufoco heim!!! Seu conto prende a atenção da gente do começo ao fim.
    Acredita que fiquei com peninha do Romualdo? ( rindo ).

    Parabéns pelo blog. Continarei lendo outras postagens.
    Obrigada por me seguir. Vou t seguir neste blog também.

    Um beijo!!

    Ma Ferreira

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  36. Esse conto do pai (ô orgulho que tenho desse vivente!), nos faz lembrar que tudo na vida tem sua hora, inclusive o tempo da paixão e da paz nos relacionamentos. Quem desobedece esse preceito, tende a acabar como o Romualdo.

    Parabéns pelo conto, pai! Muito bem escrito, para variar.

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  37. Muito bem escrita , de maneira silmples retrata uma realidade bem comum ,infelizmente,isso nos lembra o quanto somos fracos

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Taís Luso