18 de setembro de 2011

NOSSAS ATITUDES TÊM UM PREÇO



- Tais Luso de Carvalho

Muitas crônicas nascem da observação do cotidiano mais trivial;  nascem de papos por telefone, e-mails com amigas, caminhadas, notícias e de inúmeras observações sobre as reações do ser humano. 

Mas esta nasceu ontem, na saída da quitanda da minha quadra, com uma conhecida que mora perto de mim. Sim, todas temos aquelas vizinhas do quarteirão que encontramos na quitanda, na padaria... Na saída me puxou pelo braço para um trololó, aquela coisa trivial, que brota muitas vezes do nada. 

Mas desta vez nada brotou do nada; coitada, estava péssima, me contou de sua separação do marido... Qualquer separação é traumática, então me fiz toda ouvidos. E lá pelas tantas me disse:

- Agora vou aproveitar a vida, tirar os atrasados  -  como se fôssemos íntimas. 

Pessoas feridas, na sua essência, não escolhem ouvintes, vão contando, desenrolando a língua. Todos nós precisamos limpar a alma quando estamos aos frangalhos. Situações assim nos mostram como somos frágeis e vulneráveis ante a dor mais profunda: a dor que não é física. É pior: é a dor que humilha, que massacra e que transforma pessoas em trapos. E nosso emocional grita por ajuda, nossa aparência física é o retrato de nossa alma.

Deu pra notar que suas palavras eram nada mais do que mágoas, feridas abertas. Estava com péssimo humor, e tratei de deixar o papo correr, para garantir maior reserva, afinal, não é fácil aguentar alguns destemperos na frente de uma quitanda. Notei que ela estava de saco cheio, e puxou a primeira conhecida que avistou. Nunca fui premiada com nada! Mas pra tudo existe a primeira vez.

Mas papo vem, papo vai, ouvi que agora iria aproveitar a vida! E perguntei a ela o que significa  aproveitar a vida.  Será que eu não estou aproveitando a minha??

- Ahhh... é viajar muito, dançar, sair bastante com amigos,  jogar conversa fora, conhecer gente diferente, fazer  o que se quer. Sei lá, fazer o que todos fazem. 

Humm... a coisa tá feia - pensei eu. Mas começamos a conversar sobre isso e confesso que eu estava um pouco perdida com tantos disparates: uma hora ela chorava, noutra ria e falava do 'ex', sem nenhuma trava. Isso seria caso pra psiquiatra, para uma ajuda terapêutica, não pra mim, apenas uma vizinha que não sabia da vida dela.

Assuntos que envolvem nossas emoções, perdas, desilusões não são fáceis de aconselhar; o jeito é ouvir. E sou boa de escuta.

Contudo, num dado momento eu estava ficando um pouco desnorteada com tantas trocas de humor, com tantas contradições. E sem espaço pra fazer um ponto de exclamação, de interrogação, não havia espaço para uma virgula! Nada. Era uma metralhadora disparando contra uma vida de frustração.

Contou-me que passou a vida enrolada com filhos, com  casa, marido, trabalho e esqueceu de viver. Mas como esqueceu de viver? A vida de todos os mortais é essa. A exceção é que está fora destes padrões. A gente nasce, cresce, estuda, casa, trabalha, cria os filhos, envelhece e se vai... E de vez em quando uns firififi, umas férias pra sair da rotina. Mas é isso. E tudo regado a alguns incômodos. Natural.

Será que este aproveitar é se divertir até minguar;  festar até o sol raiar? Só? Não dá pra ser um pouquinho feliz levando uma vida normal? Sei lá, é difícil entender o ser humano: estamos  sempre em busca de mais; o desconhecido é supervalorizado. Então, pensando bem, cada um que aproveite como achar. O ser humano é, por natureza, insaciável.

Esta pessoa estava de saco cheio porque se deu conta que mais deu do que recebeu. Estava magoada de tanto fazer e não ter tido o reconhecimento e o carinho que gostaria de ter. Os filhos cresceram, casaram e o ninho ficou vazio. E não aprendeu nada que a fizesse feliz, mais independente e menos carente à procura de afetos.

As pessoas se anulam e depois se queixam. Passam a vida se preocupando com os outros; fazendo muito por todos e pouco por si.

Óhhh, deixa que eu resolvo, sou o quebra-galho oficial!  E resolvem tudo, desde o namorico da sobrinha até o velório do avô.

Disse-lhe o que penso me referindo à sua busca por aprovação e reconhecimento. Isso é cansativo num convívio. Nos despedimos, mas notei que ela saiu séria e pensativa, menos estabanada. 

Se nosso papo serviu para alguma coisa, foi ótimo. Ouvi mais do que falei e tirei minhas conclusões: se não cuidarmos de nós, do nosso emocional e de nossas reações... Um dia a casa cai.


25 comentários:

  1. Obrigada pela crônica!!!Precisava ouvir agora tudo o que vc escreveu...
    Estou indo para o Chile no início de outubro.Beijos
    Emilinha

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  2. Sensacional e tão verdadeira... Descreveste muito do que nos deparamos... Pessoas que passaram a vida , na real ,arrumando coisas pra passar o tempo e não pensar em seus problemas. de repente, querem extrapolar...

    É duro e duro também ter que ficar ouvindo todo esse lero ,lero que depois, em nada iria dar... beijos,tudo de bom,chica

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  3. Olá, Taís...Lendo esta crônica, a reflexão que faço é que cada um de nós encara as desilusões da vida de modo muito peculiar, mas cada um ao seu modo, grotesco ou não, aprende muito também... Um abraço!!!

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  4. Por vezes as nossas atitudes falam tão alto, que não conseguimos ouvir o que dizemos...

    Abraço.

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  5. Olá Taís,
    gosto de tudo que você escreve, mas essa crônica é a melhor dos últimos tempos!!! Claro que isso é só a minha opinião. Talvez pelo conteúdo,
    talvez pelo desfecho e seu conselho - tão comedido e preciso - ou ainda pela semântica, você está escrevendo cada vez melhor.
    Um beijo de todos do atelier, seus admiradores!

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  6. Oi Taís,

    Espero que a sua amiga se encontre.... Uma vez que a histôria dela, nos leva refletir e tratarmos de nos colocarmos no primeiro lugar desta fila!

    Bjs

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  7. Taís, quando alguém, nem tão íntimo, chega contando tudo da sua vida, pode ter certeza, é uma carência tremenda que está invadindo a alma. Essa necessidade de explicar a todos os conhecidos que ela foi vítima da situação demonstra insegurança e incerteza,procura apoio e aceitação alheia a todo momento. Que triste isso! É preciso muita paciência para ficar ouvindo, certamente!

    Beijos

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  8. Tais, você me fez lembrar que aconteceu algo muito semelhante comigo, certa vez, quando a mãe de uma aluna minha no curso de Inglês, com a qual eu não tinha a menor intimidade, desatou a me contar os pormenores de sua relação conjugal que culminou com a separação traumática e dolorosa para ela. Foi algo complicado para mim, que na época não era nem casada... percebi então que na verdade ela falava para si mesma, enquanto tentava se reestruturar por dentro. Só precisava dos meus ouvidos, não dos meus conselhos. Imagine, eu uma completa desconhecida e ainda inexperiente nessas rasteiras da vida! Não ia ter mesmo o que dizer...
    Você foi sábia, certamente deixou pelo menos um caminho de reavaliação para sua vizinha. Não há como mensurar a dor alheia, muitas vezes nem a nossa... o jeito é prevenir, cuidarmos de nosso emocional, como você falou. Assim, se nossa casa por acaso vir a cair, não desejaremos tirar os atrasados - iludidos com a ideia de que se pode voltar no tempo. Mas reconstruiremos nossa casa, ou construiremos outra, porque teremos maturidade e sanidade para fazê-lo.

    Bela crônica, Tais!

    Beijos.

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  9. Oi Tais,
    Espero que tudo esteja bem com você. Nunca gostei de falar da minha família, somente com pessoas que eu gosto muito. Além de escrever bem, você também é uma boa ouvinte? Que bom! Um abraço, uma ótima semana.

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  10. E assim caminha a humanidade....
    Vou repetir o que muitos já disseram, você foi perfeita em sua crônica, clara e precisa.
    O que seria aproveitar a vida?
    É bom a gente pensar na resposta, e não deixar que fique em "branco"...

    Beijos!

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  11. E sair por aí atras desse "viver" vai levá-la provavelmente, a dar com os burros n'água, pois fica muito visível quando a pessoa está desferindo mágoas e desatolando passados nas baladas ou bares da vida. Aí ninguém leva muito a sério e lá vem esparrela (de novo!) rsrs. É tristea mesmo esta falta de perspectiva e de sentimento de mundo, Tais. Já disse um poeta (que erroneamente atribuem a Drummond) que "a dor é inevitável, o sofrimento é opcional."

    Obrigado mais uma vez pelo seu belo texto sobre leitura.

    Meu abraço e uma ótima semana.

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  12. Li sua postagem anterior lá no blog do Cacá e amei. Muito verdadeiras suas colocações sobre leitura e educação.

    Essa conversa que "entabulou" com sua conhecida não é das mais agradáveis. Já observei ser uma rotina as pessoas, ao se separarem, passar a dizer que vão aproveitar a vida. Fazem isso como se, até aquele momento, não tivessem vivido. Viveram, sim, dentro de suas próprias opções e lhes caberia alterar o rumo do relacionamento, se este não estava satisfatório. É fácil encontrar culpados pelos nossos "fracassos". Difícil é assumir a responsabilidade e fazer mudanças.

    Bjs.

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  13. Que bom que sua "conhecida" encontrou em você uma boa "ouvinte"
    Acho que era o que ela estava precisando naquele momento.
    Beijinhos de
    Verena e Bichinhos

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  14. Taís, vi uma crônica sua lá no Blog do Cacá e adorei, vim aqui conhecer seu cantinho e cá estou ficando!!

    Primeiro: ouvir alguém mesmo que não dissermos nada tbm é bom, pois há vezes em que a pessoa tem que se ouvir tbm, ouvir o que está saindo da boca dela. Quem sabe essa vizinha não saiu pensando em cada palavra que disse e não mudará de opinião sobre alguns pontos do que falou? Pode ser que sim, pode ser que não, mas vc com certeza fez uma coisa de muito valor: ouviu!!

    bjokitas mil. :)

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  15. Cara Tais,
    Esta crônica assim "em cima do do fato" é, sem dúvida, tua especialidade. Você consegue deslindar de um fato trivial todas essas implicações comportamentais com uma elegância que só você mesma. Quanto à tua vizinha, você disse tudo quando notou que ela precisava apenas de um par de ouvidos, todos nós algum dia já nos comportamos assim também. Ela é apenas humana e está passando por um trauma que, afinal, o tempo fará passar. Abraços e parabéns, JAIR.

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  16. Boa tarde, querida amiga Tais.

    Nossa... Adorei!!
    O caso é muito sério, mas o jeitinho de você contar, me fez rir demais.

    Menina... eu me pareço um pouco com ela, no tocante ao desabafo. No meu caso, acho que é porque sou do tempo em que criança não tinha voz.

    Sobre aproveitar a vida como se fosse um festival de opções, ainda bem que eu não penso.

    É tão engraçado isso, porque dá a impressão de que a pessoa quer se acabar. Então, pensa em tirar o atraso. Divertir, divertir...Até atingir uma overdose.

    (Muito obrigada pela sua atenção e gentileza).

    Estou feliz por estar aqui, me desfrutando da sua literatura que é um show.

    Tenha uma linda semana de paz e alegrias.

    Beijos.

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  17. Desejo que o coração dela se aquiete, que ela se encontre na sua essência divina, sob a luz que lhe trará a paz.

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  18. È uma pena que só agora a sua vizinha se deu conta de que é um ser humano não uma máquina de dedição.Quem sabe teria salvo seu casamento. A dedicação aos filhos,marido e ao lar, são coisas que devem nos fazer feliz sem sombra de dúvidas mas é preciso também cuidar do nosso próprio eu para não perdermos nossa personalidade. Bem adorei a forma de como você conduziu todo o assunto.Estou gostando muito de ler suas crônicas.Um abraço.

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  19. Olá Taís...acho que o problema todo é o equilíbrio. Alguém que se afunda em cuidar da casa e filhos certamente sentirá falta do que deixou de curtir da vida. A balança pendeu toda só para um lado. Isso por outro lado liquidará mais cedo ou mais tarde com sua relação conjugal. Nessa hora de carência tudo vem a tona. Aí vem novamente a necessidade de buscar o equilíbrio. Se ela correr atrás de tudo o que renunciou durante os anos de casamento talvez reencontre a felicidade perdida da qual ela só se deu conta quando a casa caiu.

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  20. Tais

    Acho que de certa forma é natural a pessoa ter uma ânsia por "tirar o atraso". Acho que nem é o tirar o atraso em si, mas, como vc disse bem, um misto de coisas: revolta por ter visto tudo desabar, mais uma sede repentina, que pode surgir, de fazer o que nunca fez...

    Enfim, coisas do ser humano, este imperfeito!

    bjo
    Cesar

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  21. Muito bem lembrado,vida normal,acredito eu,é aquela que faz da rotina segurança,faz do passar dos anos confiança...Acredito mesmo! Tais que tristeza daquela mulher, pois a sensação de impotência diante de uma relação que se esfacela é castradora...E quando ela se referia em aproveitar a vida, estava mais tentando por para fora suas dores em face da instabilidade emocional que esse fato acarreta...[Você percebeu isso]Aquela coisa de não saber como recomeçar,de acordar durante a noite e dizer sozinha para si mesma...Não! Isto não está acontecendo! Nada mais confortável do que dormir com alguém que não necessite do desgaste da formalidade,alguém que mesmo sabendo de todos os nossos defeitos e vice versa só faz reforçar o verdadeiro amor.
    Lindo texto!
    Um grande abraço de tua fã de carteirinha!

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  22. Resumindo: Se não cuidarmos de nós mesmas (os), certamente o outro (a) não o fará.

    Excelente texto.

    Bjs

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  23. Taís, maravilhosa sua crônica, fiquei a pensar um pouco na minha vida, e antes que seja tarde, vou cada vez mais começar a pensar em mim. Um grande abraço

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  24. Ninguém é forte e nem fraco existe momentos situações diferentes; ser pais e ser a base numa sociedade onde se perdeu o valor principal que é o amor não é fácil.
    É com o amor que se vence.
    REJEIÇÃO ___ faz um buraco no peito muito grande.
    O objetivo de cada um de nós é sermos felizes e não é fácil porque às vezes fazemos de modo cego este mover.
    Se fazendo de fracos não tendo equilíbrio emocional.
    Se fazendo de fortes não tendo moral.
    Ambos sem qualificações para falar um do outro.
    E com esta ação ambos se tornam obstáculos e não auxilio.
    O que acontece e não perceberam, estão todos é remoendo uma muda revolta drenando as energias do bem e ficando aparentemente vazios de sentimentos.
    Talvez esta sua vizinha quisesse buscar quem foi ou descobrir onde ficou. Para alguém... Confuso! Confusos por não saber que a vida nas situações difíceis ao continuar errando terá regressões frustrando vossa própria inteligência. É quase uma sentença de morte para o dia subsequente. Adquirindo uma forma de ressaca moral por ter traído os princípios de sua própria natureza para atos benignos.
    Enfim!!! Talvez ela ache um meio termo para não ficar tão confusa em seu emocional, e encontre a felicidade em ser ela mesma.

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  25. wanderley-sp22:06

    Li todos os comentarios.aprendi muito.a sentir um pouco mais de tods dividindo tantas coisas que não tem muita importançia para muitos.a vida se compõe de detalhes,só conhecemos uma obra de arte,se conhecermos os detalhes que a tornam tão unica e rica.percebemos na trajetoria de nossa existencia os detalhes que tambem revelam nosso ser e exisir porque escrevemos nossa historia.e jamais a lemos.mas aqueles que leem e passam a nos aadmirar.porque vivençiaram detalhes que nos passou despercebidos.e que irão fazer toda diferença.

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