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7 de abril de 2017

RETRATOS DE FAMÍLIA




                             - Tais Luso de Carvalho

Há muitos anos ouvi uma frase: Família só é bonita em porta-retratos! Na época achei engraçada, mas não passou disso. Hoje, porém, vejo de outra maneira; além de continuar hilária, o inventor acertou na mosca!  Também vejo, cada vez mais, um núcleo desestruturado e rancoroso. E haja jogo de cintura para sairmos vivos de uma intriga familiar. Não existe nada tão complexo quanto Família! Mesmo porque a base de tudo é o ser humano. E se o ser humano piorou, consequentemente o mundo familiar - em parte -  piorou. O convívio mais parece uma pintura surreal, quase incompreensível para quem vai chegando.
Porém, não quero dizer que não exista o amor familiar; ele está presente, mas não o suficiente para manter as pessoas em harmonia por muito tempo. Primeiro é o "eu". E sobra pouco pra dividir. No primeiro tropeço, começa a desintegração.
Sim, aprendi, desde pequena, que a família é a base de uma sociedade saudável, e até concordaria, mas se saudável fôssemos. Estamos cada vez mais desorientados, e portanto mais incapacitados para sentimentos. Para amar. Porém, não generalizo! Falo de famílias "doentes".
Nossa espécie está mais violenta do que nunca: tudo já aconteceu. Não sei qual surpresa pode estar a caminho, talvez a explosão do planeta. E não me surpreenderia. Nossos caminhos podem estar cheios de flores, mas também repletos de espinhos dos quais cultivamos com esmero, espinho por espinho. Existem algumas figurinhas que adoram cultivar ódio, é como se fosse um troféu! Seguindo as mídias, podemos constatar as últimas atrocidades: a mãe psicopata que jogou a filha no lixo; do pai que atira a filha pela janela; do filho que esfaqueia a mãe para obter droga; da mulher que envenena o marido; da mãe que vende a filha para ser prostituída; da filha que mata os pais com olho na herança, da mãe que mata o filho drogado... Contudo, ainda existe os  parentes do segundo escalão que entram na jogada para aumentar a festa. Muito frequente.
Que coisa mais maluca! Enfim,  parentes doentes que não se sabe de onde surgiram. Isso se chama família! Mas é compreensível, pois na primeira família do mundo, um irmão matou o outro. Então nada a duvidar. E não são poucas as famílias que se atracam o dia inteiro.
Sempre teremos no nosso núcleo, uns parentes que farão o inferno astral dos outros, cooperando para a formação e instabilidade dessa base social.
E é nesse núcleo que nasce a inveja, a avareza, o ódio, o egoísmo, a intolerância, a arrogância...e por fim estará formado o caráter dos mais novos.
É no núcleo familiar que aprendemos a armar confusões por coisas insignificantes; é no núcleo familiar que crescemos vendo as primeiras desavenças entre pai e mãe; é nesse núcleo que ficamos intolerantes; é no núcleo familiar onde começam nossas carências afetivas. E é no núcleo familiar que aprendemos a querer o mal do outro. É nesse núcleo que se formará  o ser humano. Por isso que a harmonia familiar é fundamental na educação.
É nesse núcleo - no término do casamento - que os filhos são colocados na linha de combate e atingidos pelos atos de vingança de seus pais. E depois dê-lhe terapia nos anjos
Família deve ser vista sem máscara e sem verniz. Se for boa e saudável, devemos reconhecer, exaltá-la. Será exemplo sempre. Se for desestruturada, por que não falar? Motivos cabem para averiguar de onde e por que desse mal. Quais as razões para tantos desentendimentos e crimes familiares?
Por isso que a frase lá de cima procede: Família só é bonita em porta-retratos.  Nele, as famílias ficam lindas e sorridentes para serem vistas pelas gerações futuras:
Este é o fulano, filho do sicrano e neto do beltrano!
Maraviiiilha!! Que linda família, que harmonia!!
São retratos de famílias num mundo conturbado e decadente em sentimentos.

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1 de julho de 2020

VIDA: ROSAS E ESPINHOS




              - Taís Luso 

Tenho uma certa dúvida com gente que se mostra sempre muito feliz. Parecem celebridades de Museu de Cera - sempre iguais.  Aparentar um quadro de tristeza, de insatisfação, de fragilidade é coisa difícil para essas pessoas.  Gosto de gente que mostra seus sentimentos. 
Falo isso hoje, talvez por ter lido alguns textos tristes, por ter arrumado minhas caixas de fotos e feito um balanço da minha vida. Olhei fotos de meus pais - parte de mim que se foi -, e bateu-me muitas saudades mesclada com  tristeza.  Quero ter a liberdade de poder me sentir um pouco bagunçada por dentro. Não vou escarafunchar em busca dos porquês de minhas reações, pois me conhecendo bem, sou capaz de ir caminhando por uma autoterapia e chegar nos problemas emocionais da minha bisavó. Sim, comigo a coisa se estende.
Li, há pouco, uma reportagem muito triste: o filho, num hospital, em estágio terminal, recebe a visita de seu pai. Há 18 anos não se viam! São retratos de família? Por certo. A foto mostra os dois se olhando, de mãos entrelaçadas, olhos marejados que diziam tudo da vida que não viveram; da cumplicidade que não tiveram. Para um entendimento, é tarde. O tempo restante é apenas para a despedida. Muito triste. 
Depois dizem que a vida não é madrasta... Mas como não, se até Manuel Bandeira num de seus belos poemas chora e diz  que a vida lhe é madrasta! Como não acreditar? Poetas não mentem, trabalham com o coração. O que mente é a razão! 
Famílias em longos desacertos como se a vida fosse infinita e nos desse um enorme tempo para a reconciliação. Ao ver certas situações  pergunto o real valor dos sentimentos e dos nossos laços afetivos, esse sentimento tão falado, tão sentido e preservado.
Trilhar nosso caminho, aceitando que a vida é uma dádiva e que todos devem se amar? Não; as pessoas não funcionam assim. Utopias não funcionam e panos quentes não cicatrizam feridas antigas de ninguém.
A vida é assim, cheia de sentimentos contraditórios; alegria, tristeza, força e fraqueza, amor e ódio. E nesse meio é que dançamos.
Quero poder curtir minhas alegrias e tristezas, refletir e chorar, pois  as lágrimas me farão amadurecer e me darão o real sentido de tudo que me rodeia. Só assim terei meu verdadeiro andar. E se tiver sorte, um longo andar...
Deixo aqui Que c'est triste Venise, com Charles Aznavour, porque se for pra sofrer que o serviço seja completo! 
A música é triste, mas é linda. 


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