10 de junho de 2019

A MULHER E O NINHO VAZIO




     - Taís Luso

Pois é, as crianças cresceram, e missão cumprida! Estou escrevendo sobre a 'mulher e o  ninho vazio', após arrumar  um armário.  Comecei a ver nossos álbuns de família que vieram ansiosos para minhas mãos. Sentei-me e recordei novamente as viagens com nossos filhos ainda pequenos, felizes e sorrindo, deixando ali as lembranças do nosso passado. Nem parece que estão adultos, formados e responsáveis por suas vidas. Dá saudade de tudo? Sim, muitas, mas também dá muita satisfação em vê-los muito bem. Missão cumprida.

A Síndrome do Ninho Vazio é bem conhecida. É assim chamada no Brasil quando os filhos deixam a casa dos pais, seja porque casam  ou porque querem morar sozinhos, cuidar de suas vidas, de seu trabalho. Normal. Mas essa  síndrome acomete às mães que ficam com a sensação de abandono ou sentem-se inúteis. Mulheres que viveram  em torno dos filhos, para suas famílias, mas esqueceram um pouquinho delas.

É para essa época que as mães devem se preparar; é preciso viver uma nova etapa da vida com alegria, com projetos realizáveis. A liberdade também está com os pais após a missão cumprida. Programem-se, essa etapa da vida pode ser ótima, sem rotular  de A Melhor Idade, não é por aí minha visão. Melhor idade é um momento muito relativo, existe gente com 30 anos que não está na sua melhor idade e pessoas com 60, 70, 80 que poderão estar muito bem. Nada é regra exata quando se fala em idade. Em tempo.  Não sei quem foi o infeliz que inventou essa, mas não estava no seu melhor momento,  meio falhado das ideias. Não concordo com esses conceitos pejorativos de Terceira Idade, Melhor Idade, Quarta idade  e o escambau. 

Essa nova fase não é bem-aceita por todas mulheres. Muitas  ficam com depressão ou abatidas, como se a vida tivesse um único sentido: o de procriar. Criar. Falta, nesse novo momento, outro sentido para suas vidas. Viagens, cursos, leituras, pinturas, encontro com os filhos, netos e um descanso do cotidiano trabalhoso. 

Quanto aos homens, continuarão  seu trabalho,   certamente não perceberão  a mulher ansiosa e triste que vive ao seu lado. As mães sabem disfarçar quando a alma chora e sabem silenciar a tristeza do Ninho Vazio. Mas a situação só mudará quando essas mulheres se conscientizarem que há muita vida pela frente; quando passarem  a viver toda a plenitude que lhes foi dada, amando, mas sem dependência, aproveitando todos os momentos possíveis. A coisa não é muito fácil.

Lembro do querido poeta Mário Quintana ao dizer: 
"Morrer não importa, o diabo é deixar de viver!”



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5 de junho de 2019

Paulo Leminski - QUANDO EU TIVER SETENTA ANOS



                    QUANDO EU TIVER SETENTA ANOS

 quando eu tiver setenta anos
 então vai acabar esta adolescência


                vou largar da vida louca
 e terminar minha livre–docência

                vou fazer o que meu pai quer
 começar a vida com passo perfeito

                vou fazer o que minha mãe deseja
 aproveitar as oportunidades
 de virar um pilar da sociedade
 e terminar meu curso de direito

                então ver tudo em sã consciência
 quando acabar esta adolescência.


                
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LEMINSKI, Paulo. Caprichos e Relaxos / pag 37 - São Paulo: Companhia das letras 2016.

Paulo Leminski foi um escritor, poeta, crítico literário, tradutor e professor brasileiro. Nasceu em Curitiba / Paraná em 1944 e faleceu em 1989 antes de completar 45 anos, de agravamento de cirrose hepática. É um dos poetas brasileiros, surgidos após a década de 50, de maior influência entre os poetas das décadas seguintes. À época de sua morte, já havia conquistado um lugar de destaque e relevo na poesia brasileira. 
Em 1983 Paulo Leminski lançava um livro que se tornaria um best-seller na época e um clássico para as futuras gerações. Ali estavam os principais poemas que o curitibano tinha escrito até então, muitos inéditos e outros publicados em edições independentes ou na revista de arte e vanguarda Invenção, encabeçada pelos irmãos Augusto, Aroldo de Campos e por Décio Pignatari. Os pais da poesia concreta no Brasil haviam adotado aquele jovem poeta ilustrado, audacioso e contundente. Mais de Paulo Leminski aqui.



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30 de maio de 2019

COMERCIAIS - AMAMOS OU ODIAMOS




        - por Taís Luso

Poderia ser melhor esse universo da publicidade nas emissoras de televisão.  Um dos publicitários responsáveis pelos mais bonitos e inesquecíveis comerciais é, entre outros, o publicitário Washington Olivetto. Criou pérolas inesquecíveis. Mas há anos!

É de enlouquecer quando aparecem nas emissoras de televisão, comerciais barulhentos, poluídos e agressivos. Uma gritaria só, e pouco se absorve. A empatia já vem no primeiro dia: é amar ou odiar, deixar correr ou tirar o som e aproveitar o intervalo para tomar água.
Quando entram os comerciais, o som da televisão vai para as nuvens, coisa que dá a impressão de sermos todos deficientes auditivos. Quando nos damos conta, a família está neurótica e em pé de guerra:
- Baixa aí... baixa isso, Baixaaaaaa!!
- Calmaaaaa!! 
Pronto, todos malucos e o reservatório de paciência zerou. A primeira atitude é de raiva, a segunda é de não comprar o produto. Mas parece que os publicitários não percebem esse tipo de coisa. Ou percebem? Existem comerciais bonitos, verdadeiras pérolas.  Não agridem nossos sentidos. Até tocam o coração. Não os coloquei aqui, pois o assunto é outro. O primeiro ponto é nos identificarmos com os anúncios e depois comprá-lo.
Lembro de um comercial sobre um produto para matar baratas. Era de alucinar. Quando olhava aquela esquizofrenia,  juro que torcia pela barata!
Confesso que tenho fobia por baratas, mas nunca gritei daquele jeito ao me deparar com o bicho. Um negócio patológico! Falo desse comercial porque ele entrava dentro da minha casa, e ‘grito’ de mulher é coisa apavorante; é tipo morte anunciada. Mil vezes pior do que ver uma barata. Quando quero ver filme de terror dou uma olhada nesse comercial e fico satisfeita.
Também mostro aqui, um comercial anunciado tendo como cenário uma reunião de condomínio, bem exagerado, mas engraçado. Mesmo que seja exagerado lembra  reuniões catastróficas e que são escolas de neurose e de egoísmo - coisa própria dos humanos. Logicamente o exagero faz parte da criação. Mas no fundo, o objetivo é vender o produto, mesmo num mundo  desabando.
Mas não há dúvida que o mundo da propaganda nas televisões é infinitamente criativo e necessário, mas  seria pedir muito para ajustarem o volume e tornar uma coisa mais  suportável? Caso não dê, deixem assim, é só tirar o volume. Ou mudar de canal.

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propaganda de um produto - 
numa  reunião de condomínio: criativo.
propaganda desesperadora! 




22 de maio de 2019

O HÁBITO DA LEITURA





     - Taís Luso

Sou de uma geração que aprendeu a ler através dos Gibis, as crianças encontravam-se nas bancas de revistas para verem as novidades do mês. Era um forte estímulo para iniciação à leitura. Fomos crescendo, entramos na adolescência e daí em diante fomos aprimorando nosso gosto pela leitura de livros. Mesmo em plena idade tumultuada, idade das contradições, o adolescente não lê o que não quer; ele sempre vai escolher. É seu direito.
Lembro da época,  tanto eu como minhas colegas de aula, perdemos um pouco desse hábito devido aos livros que a escola oferecia como padrão para fazermos as resenhas; não queríamos os autores do  Romantismo Brasileiro; não queríamos ler por obrigação, queríamos a liberdade de escolha. Queríamos os autores mais modernos e de acordo com nosso espírito, com nosso momento.  

Caberia, à escola, então, analisar as preferências de seus alunos. Mas  tudo continuou no mesmo tranco. Então, como boa adolescente, indignei-me e levei para aula o livro ‘O Muro, de Sartre’; caminhava pra lá e pra cá provocando as freiras... coitadinhas. Mas, não durou muito aquela rebeldia, em pouco tempo fui parar na sala da Madre Superiora, e meus pais foram chamados à escola:
- Sua filha está muito rebelde,  esse livro não é para sua idade!
Podia até não ser, mas consegui chamar atenção e dizer o que eu queria! Logo tudo ficou ajeitado, graças à psicologia de meu pai. Mas foi por essa época que houve um  desinteresse geral  da parte dos  alunos.  Para tudo existe um momento certo, e aquele não era o momento  de assimilarmos aqueles autores do período do Romantismo. Nós, alunos (colégio misto) conversávamos sobre o que queríamos que fosse dado em aula. 
A escola é a mola mestra; é através dela que trabalhamos nossos ideais. E cabe aos pais ajudarem, também, a formar o hábito nas cabecinhas dos filhos; manter o elo, dar continuidade, estimular. Mas nunca impor!
Se ficarmos pensando que  os livros são caros, que as famílias têm outras prioridades, bem... então nada feito! Mas não é bem assim, livro não é caro! Muitos livros são doados e há bibliotecas nos colégios. Dezenas de livros juntos custam muito menos do que um Smartphone! Você conhece alguém sem Smartphone? Mas para os que não procuram a leitura há várias desculpas, e a primeira é dizer que livro é caro. 
Certa vez, ainda criança, ganhei um Bambolê... Meu pai não gostava daquele negócio e me propôs uma troca: “vamos numa livraria e você escolhe os livros que quiser, mas largue esta geringonça horrorosa”. E aceitei a proposta. Comprei vários livros de minha escolha. 
A cultura é primordial para o desenvolvimento  de um povo. É lendo que se cresce, que se conquista os espaços. O povo, através de sua cultura, de seu trabalho, de sua educação  é que ajuda a construir uma Nação forte.
Sei que hoje é mais difícil formar este hábito com tanta tecnologia ao alcance;  as redes sociais dominam a juventude, e os péssimos programas que os canais de televisão apresentam  deseducam, emburrecem nossas crianças e jovens, pois  só visam lucro. 

Não se deve oferecer para um povo o que ele quer, mas o que ele precisa para evoluir! 

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15 de maio de 2019

COMO COMER - AULINHA DE BOAS MANEIRAS


(aulinha  nº1)

        - Taís Luso de Carvalho
       
Não é fácil comer certas comidas fora de casa, é muita mão de obra. Cá do alto da minha vivência, já tenho direito adquirido para comer algumas comidas como os primitivos. Comer galeto com as mãos, num restaurante, não é lá muito chique. Por outro lado, comer uma ave, cheia de ossos, com garfo e faca... não é moleza, é pura arte. Então, prefiro pedir o tal do galeto pelo telefone e comer na intimidade da família.  Posso pôr em prática o que aprendi nas cavernas.
Também anda difícil comer pizza fora das pizzarias convencionais – lugar que oferece garfo e faca. Não entendi, ainda, por que em alguns shoppings, a pizza é entregue sobre um guardanapo de papel. Torna-se muito complicado: quando você se dá conta, está com a massa na mão e comendo o papel! Tá ficando difícil comer esse negócio, acho que os shoppings estão  moderninhos demais.
E as empadas? Você já notou que ao morder uma empada, a metade cai fora e a outra metade se esfarela? A massa da empada é chamada de massa podre (termo técnico),  que já não anima muito. Para lidar com a tal massa podre, faça o seguinte: com uma das mãos tente pegar a empada quebradiça e com a outra pegue o prato. Em seguida, você encosta o prato no queixo e fique zanzando para aparar os farelos. Entendido? Depois junte tudo e tente comer como dá.
E o Espaguete? Como não é elegante cortar a massa, então vá enrolando, enrolando, e veja se cabe na boca, não dê bola para uma certa ânsia... Empurre e feche a boca. Os fiapos que resolverem cair, tente aparar com o garfo. É uma briga de foice comer esse negócio, mas tente, deixe a elegância para outra vez. Vale a pena, o importante é a superação! 
Você já comeu, numa confeitaria, o doce mil  folhas? E lembra do que aconteceu? Cada folha vai para um lado e o recheio vai pra frente, tudo se desmembra. Você só consegue comer o açúcar de confeiteiro! Então junte o creme e os farelos com os dedos e seja o que Deus quiser. Depois dessa experiência circense, resolva se quer repetir a dose ou comer em casa  como um novo  primitivo contemporâneo. Com o tempo a gente chega lá... E fique à vontade se quiser voltar ao início dos tempos - ao Homo Sapiens.
E a alface? Dizem que não se corta: o certo é ir dobrando com o garfo, tipo trouxinha, se a folha for grande, não corte, 'rasgue-a' e então faça a trouxinha! Fique dobrando, dobrando... e depois tente levar elegantemente à boca – se der. E tente mastigar aquele monte de verde seco. Força, você conseguirá!
Aniversário de criança é delicioso: é um passeio pelos quitutes ingênuos que só encontramos nesse tipo de festinha. É como voltar à infância. É obrigatório ter o cachorrinho-quente, docinho brigadeiro e o aniversariante e sua mãezinha apagando a velinha, cuspindo todo o bolo para depois comermos! Mas faz parte da alegria. Depois entre no trenzinho da alegria, um atrás do outro, e siga fazendo fon-fon, lá do alto de sua maturidade... Você vai sentir-se muito confortável.
E finalmente se resolva: coma os mexilhões, escargots, ostras, alcachofras etc., como manda a etiqueta - ou desista. Não é lá muito fácil encarar uma ostra e seus parentes. O negócio certo é comer direitinho, embora maravilhoso seria comê-los como se estivéssemos num boteco: sem rigor, despidos de frescura. Mas estamos em público, portanto, temos de seguir as regras para não sermos alvo de chacotas. É a vida.
Só não abro mão dos cachorrinhos de aniversários infantis: vai de qualquer jeito...mesmo com o trenzinho da alegria! Compensa. E que falem, que pensem, que digam... Mas tudo vale a pena quando a festa é dos pequenos!
E por hoje, a aulinha de boas maneiras fica por aqui. Mas voltarei com novidades noutra área.

cachorro-quente infantil                        pizza no papel...
                       doce mil-folhas                     a  massa enrolada...                        

Isso não é mais um cachorro-quente - lanche rápido.
É um martírio,  perde-se a metade.
Muito difícil... 



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__________reedição ___________




10 de maio de 2019

O DIA DAS MÃES / Giuseppe A. Ghiaroni


Gustav Klimt  / Viena - Áustria   (1862  - 1918)


                          O DIA DAS MÃES

Mãe! eu volto a te ver na antiga sala
onde uma noite te deixei sem fala
dizendo adeus como quem vai morrer.
E me viste sumir pela neblina,
porque a sina das mães é esta sina:
amar, cuidar, criar, depois... perder.


Perder o filho é como achar a morte.
Perder o filho quando, grande e forte,
já podia ampará-la e compensá-la.
Mas nesse instante uma mulher bonita,
sorrindo, o rouba, e a velha mãe aflita
ainda se volta para abençoá-la.


Assim parti, e nos abençoaste.
Fui esquecer o bem que me ensinaste,
fui para o mundo me deseducar.
E tu ficaste num silêncio frio,
olhando o leito que eu deixei vazio,
cantando uma cantiga de ninar.


Hoje volto coberto de poeira
e te encontro quietinha na cadeira,
a cabeça pendida sobre o peito.
Quero beijar-te a fronte, e não me atrevo.
Quero acordar-te, mas não sei se devo,
não sinto que me caiba este direito.


O direito de dar-te este desgosto,
de te mostrar nas rugas do meu rosto
toda a miséria que me aconteceu.
E quando vires e expressão horrível
da minha máscara irreconhecível,
minha voz rouca murmurar:''Sou eu!"


Eu bebi na taberna dos cretinos,
eu brandi o punhal dos assassinos,
eu andei pelo braço dos canalhas.
Eu fui jogral em todas as comédias,
eu fui vilão em todas as tragédias,
eu fui covarde em todas as batalhas.


Eu te esqueci: as mães são esquecidas.
Vivi a vida, vivi muitas vidas,
e só agora, quando chego ao fim,
traído pela última esperança,
e só agora quando a dor me alcança
lembro quem nunca se esqueceu de mim.


Não! Eu devo voltar, ser esquecido.
Mas que foi? De repente ouço um ruído;
a cadeira rangeu; é tarde agora!
Minha mãe se levanta abrindo os braços
e, me envolvendo num milhão de abraços,
rendendo graças, diz: "Meu filho!", e chora.


E chora e treme como fala e ri,
e parece que Deus entrou aqui,
em vez de o último dos condenados.
E o seu pranto rolando em minha face
quase é como se o Céu me perdoasse,
me limpasse de todos os pecados.


Mãe! Nos teus braços eu me transfiguro.
Lembro que fui criança, que fui puro.
Sim, tenho mãe! E esta ventura é tanta
que eu compreendo o que significa:
o filho é pobre, mas a mãe é rica!
O filho é homem, mas a mãe é santa!


Santa que eu fiz envelhecer sofrendo,
mas que me beija como agradecendo
toda a dor que por mim lhe foi causada.
Dos mundos onde andei nada te trouxe,
mas tu me olhas num olhar tão doce
que, nada tendo, não te falta nada.


Dia das Mães! É o dia da bondade
maior que todo o mal da humanidade
purificada num amor fecundo.
Por mais que o homem seja um mesquinho,
enquanto a Mãe cantar junto a um bercinho
cantará a esperança para o mundo!



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(reeditado - 2014) 


Giuseppe  Ghiaroni  - jornalista e poeta brasileiro.

Nascimento: 22 de fevereiro de 1919, Paraíba do Sul, Rio de Janeiro
Falecimento: 21 de fevereiro de 2008, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro

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presente às mães...

Unchained Melody



4 de maio de 2019

FINITUDE - APENAS UMA CONVERSA...


Cristo Redentor - Rio de Janeiro



         - Taís Luso 

Creio que a vida será sempre um mistério para todos,  sempre haverá a busca do seu sentido, do seu significado. Talvez um dia a ciência consiga clarear parte das dúvidas, mas outras ficarão por conta da fé de cada um.
Certo dia, escutei uma pessoa dizer que não tinha medo da morte, mas tinha medo de morrer.  Fiquei pensando naquilo... 'não tinha medo da morte, mas tinha medo de morrer...' Que coisa estranha, mas depois entendi e vi que sinto a mesma coisa. Tenho medo é do desconhecido! Como chegará 'Ela' a mim? Mansa, docemente e com compaixão?  
Enquanto uns acham que aqui é uma transição para uma outra vida, outros ainda não acham nada. Porém o foco está dentro de nós. E muitas vezes não há foco nenhum. Mas respeito esse direito e a individualidade de cada um.
Somos humanos, queremos a certeza de tudo, justamente porque o desconhecido nos assusta. Precisamos acreditar na continuação, precisamos de esperança, se assim não for, o sentido dessa vida não será  entendido.

Pensar certas coisas incomoda, mas a verdade é que pensamos. Não somos tão desligados quanto pretendemos ser. Não tocar no problema não resolve, são panos quentes, sentimos tudo da mesma maneira.
Na verdade não temos coração nem mente para aceitarmos a finitude, é cruel nascer, viver e desaparecer. Contudo, cantarei com os céus se nosso espírito for imortalizado, mesmo num patamar  por nós  desconhecido. 

E ao pensar na vida, cujo tempo é tão curto, vejo o que vale viver sim, mas por outro lado teríamos de descartar muita coisa. Tantas coisas inúteis, fúteis... tantas discussões, brigas, guerras, poder, fome...  Esse é o mundo que podemos ter a certeza que não tem nenhum sentido,  sabem por quê? 

A resposta está no vídeo abaixo... O que concordo plenamente.


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-  Sérgio Cursino -




24 de abril de 2019

AINDA HÁ TEMPO PARA MUDAR !?




       - Taís Luso
         
José – homem de estatura pequena, magro, mas conservava algum resquício de quem já tivera um porte atlético. Suas mãos grandes, fortes e viris eram ainda bonitas. Seus cabelos brancos e lisos eram um tanto revoltos, acentuando mais a sua personalidade rebelde e contestadora.

Não era uma pessoa fácil de trato, mas na igual medida em que era rebelde e contestador, com a mesma intensidade era terno, educado e doce. Suas conversas sobre política, sempre carregadas de indignação, geravam um pouco de desconforto pelo tom impositivo e alto da sua voz. Mas apesar da bagunça que nos desnorteava um pouco, saía em defesa dos pobres,  das desigualdades  e  tantas outras questões sociais. Era um defensor dos oprimidos,  dos humilhados. Seus sonhos o mantinham feliz e jovem,  as vésperas de completar seus 85 anos.

Assim era José. Levava uma vida plena, gostava de falar das belezas e dos encantos da vida. Vivia para a esposa, filhos, netos e amigos.

Transcorrido algum tempo José precisou submeter-se a uma cirurgia, um pouco arriscada para sua idade. E com muita tristeza e emoção a família foi tomada pelo desespero da perda. O sentimento de perda é visceralmente arrasador. A despedida, a eterna separação é um sofrimento indescritível.

Pois bem, até agora narrei maravilhas desse personagem, do José, não foi? Mas nem sempre é assim. O comportamento humano é variável e complexo. Nossos corações podem não ser tão generosos para o perdão, para a admiração, para os afetos individuais. Mas comovem-se diante das tragédias coletivas ou das catástrofes causadas pela Natureza. E essa grande solidariedade coletiva é admirável, emociona. Seria uma dádiva vê-la, também, na individualidade de cada ser, nos colegas, nas escolas, no trabalho, nas famílias. Naqueles mais próximos. 

Por que odiamos tanto?   Por que não amamos mais nossos semelhantes? 
É a pergunta que fica. E o mundo que deixaremos.


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