24 de julho de 2021

UM MUNDO DE PRECONCEITOS



                    __Taís Luso de Carvalho__   

                 

Passa o tempo e continuo a ver as tristes histórias vividas por aqueles que sofrem pelas suas diferenças, e que nada mais é do que o velho e conhecido preconceito. Contudo, por mais contundentes que possam ser as interferências em suas defesas, não penso que um dia as coisas entrarão nos eixos; que os homens cairão em si, que deixarão sua visão um tanto obscurantista e que estarão prontos para pensar, aprender e sentir a pureza dos sentimentos. Estarei errada? Tomara. O que está fora dos padrões idealizados pelas sociedades vira chacota ou repúdio. Difícil de entender a cabeça dos agressores.

Será que ainda não aconteceu com você, ao entrar num supermercado, à procura de um produto, e ouvir:

Vá por esse corredor, e quando chegar lá no gordinho vire à direita!”

" Senhora... os temperos ficam no fundo, passando aquele senhor careca..."

Os gordos, os carecas, os negros, os pobres, os idosos, os LGBT, os índios são referências. São vítimas da vaidade, da arrogância, da maldade alheia. E da violência!  Não importa se forem gênios! O que está enraizado é o ato de esculhambar com o dito diferente - que na verdade não é diferente. Mas os que não estão nos padrões ditos pelas mídias, são bombardeados.

Há leis, no Brasil, feitas para protegerem as vítimas dos preconceitos, mas isso é apenas punição. Depois, as coisas se repetem porque a leis são brandas e antigas. Capengas.

Contudo, os ataques preconceituosos não deixarão de existir num canetaço, nem através de punições - embora sejam necessários.

Posso sonhar com um mundo melhor, pois somos dotados de bons sentimentos e esperança, mas não tenho o direito de iludir-me mais. Temos muitos resquícios de bárbaros, ainda. Basta olhar os confrontos no Oriente Médio, atrocidades e terrorismos em pleno século XXI, com bombardeios e massacres, em massa, onde inocentes estão morrendo em prol de ideologias e interesses de minorias. Então não preciso de mais visões para que se dissipem minhas ilusões.

Não é pela evolução tecnológica, pelas maravilhosas descobertas em beneficio da humanidade, ou porque o mundo inteiro está conectado que terei outro pensamento. Falo de sentimentos. Portanto pensar num tempo em que todos os homens se conscientizarão, e que a fraternidade tomará conta do mundo? Uma coisa é eu querer, outra é acontecer.

O mundo continuará a medir forças, o mal poderá diminuir, mas só no dia em que os corações forem tocados e que as mentes forem menos doentes e mais saudáveis.

E são quase oito bilhões de inquilinos fervendo nesse condomínio chamado Terra. Um caldeirão em permanente ebulição. Muito difícil lidar com humanos.



Pura emoção!  

                
Agradeço a  amiga Fernanda  (FÊ)  por esse vídeo maravilhoso visto  no seu 

Blog  -  Só te peço 5 minutos  

< What a Wonderful World > 

               


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17 de julho de 2021

OS CICLOS DA VIDA - IMIGRAÇÃO


                   

                         - Tais Luso 


"Estou pensando seriamente em deixar o Brasil ou me mudar de região!"

Não; não é nada comigo! Na verdade, essa frase corre o Brasil inteiro, dita por pessoas aposentadas e que buscam uma vida tranquila. Também dita por jovens com ótima saúde e sonhos mil. Mas para os que gostam de aventura, o Brasil é o lugar certo! É adrenalina pura! 

Tenho acompanhado, pelas inúmeras Lives que assisto, a imigração de muita gente que sonha com Portugal, Itália, Alemanha entre outros países. Vejo que essa mudança não é fácil. Vejo muitas surpresas, pois a adaptação é difícil, a língua, a cultura, os costumes e as regras sociais são outras. Certamente os imigrantes levam junto um eterno lembrete: esse país não é o meu, não estou em casa! E aí começa a bater a saudade e a certeza que "galo em terreiro alheio não canta". Sinto muito isso na narrativa dos brasileiros.

Também sonhei, há muitos anos, em morar noutro lugar, no interior do meu Estado, cidade serrana linda, tranquila, segura, junto à natureza. Um sonho mais perto... Mas ficou no sonho. A família crescendo, a vida me amadurecendo, hoje não penso em sair de onde moro, apesar das coisas no meu país não estarem nos trilhos. Mas eu sei, e muito rápido, onde estão as coisas e as pessoas; onde nossa vida acontece. E como ela funciona. Isso é muito importante!

O amadurecimento nos dá, entre tantas coisas, uma boa estabilidade emocional. Pelo menos se presume que assim seja. Chega um tempo que a vida deixa seu recado:

"Ou você amadurece ou vai se danar!"

E o primeiro sinal desse amadurecimento aparece nesse sossegar. Amadurecer é querer o necessário, é largar as fantasias e os fricotes. Sonhar, sim, mas com o possível, com o realizável. Mas chega um tempo em que há de se respeitar os ciclos da vida.

Não acho ruim que os mais jovens busquem outra vida, tentem um outro lugar, pode dar certo, sim. Estão com tempo para novos projetos, para guinadas ousadas. E se necessário for, haverá tempo para um recomeço, seja onde for. 

Vejo nas Lives gente saindo, e gente voltando. Então, deixar um país é muito relativo. Há muito para pensar, mas é bom ir com a imagem de que o trabalho noutro país, não é leve e nem cai do céu!

Conversando com uma amiga sobre isso, dois de seus filhos mudaram-se com suas famílias para outro Estado, resolveram tentar numa cidade pequena e calma da costa brasileira. Achei que ela e o marido também iriam, tal a insistência dos filhos. Mas ouvi dela palavras que me surpreenderam:

Taís, nós não vamos, nosso lugar é aqui, árvore madura não se transplanta! Tudo tem seu tempo certo. O nosso trabalho é aqui.

Fina sabedoria.




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11 de julho de 2021

POR FAVOR, ME ESCUTE !

 

Di Cavalcanti / Mulheres 1962


               

                  - Taís Luso de Carvalho 


Há tempos, passei umas horas com uma amiga que estava com a alma em frangalhos por ter perdido o irmão  tragicamente. Estava fazendo força para não ser engolida por uma depressão. Fiquei preocupada e disse a ela que voltaríamos a conversar, mas que ela precisava sair, e que não trancasse suas dores, pois é saudável quando dividimos as alegrias, mas também as tristezas.

Mas Taís, as pessoas não querem saber de ouvir, elas querem é falar de suas coisas!

Ela tinha razão: muito difícil alguém parar para ouvir o que precisamos falar. Emprestar um pouco de sua generosidade. Algumas não estão nem aí pra escutar. Aliás, só escutam o que querem; o que possa lhes interessar. É difícil desabafar uma dor. Difícil aliviar a alma.

Será que hoje só existem amigos pra servir de acompanhantes para um cineminha, para jantar ou ir ao teatro? No cinema não se fala; no teatro não se fala; no restaurante estamos de boca cheiaFalar onde?

Será que alguém tem de pedir: "hei… pelo amor de Deus, você pode me escutar? Pode me dar uma forcinha básica?"

Há anos senti desconsideração numa reunião social. Fiquei com a frase no ar, dependurada e com uma cara de cachorrão enquanto a criatura olhava para todos os lados à procura de algo mais interessante. Senti que estava num monólogo. Que situação desagradável. Levantei e saí. Além de ter sentido o desinteresse por parte dela, não houve jeito de dar continuidade ao assunto. Mas passei por tal constrangimento em nome de minha "sociabilidade", enquanto ela foi antissocial.

Mas descobri que deparar com alguém desfavorável - de difícil conversa - o melhor é não gastar saliva e ficar calada. Melhor o silêncio, já que a conversa não é obrigada a partir de mim ou de você. Mas é preciso reciprocidade. Essa pessoa jamais ouvirá alguém, não terá interesse em ouvir nada que fuja de seu mundo. Nasceu sem empatia – aquilo que é fundamental para sermos apreciados: mostrar interesse pelo que o outro fala ou sente. Ou no mínimo escutar. Ser apenas educado.

E se não for assim é melhor a gente desistir! Não tem o porquê investir na pessoa errada.




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4 de julho de 2021

AS EMOÇÕES COMANDAM A VIDA - BRASIL!

 

Aos  verdadeiros  Heróis - nossa gratidão!


                   __ Taís Luso de Carvalho __


Não tenho dúvidas que nosso emocional é o carro-chefe de nossas vidas.  São as emoções que comandam nossas alegrias, nossos sorrisos, as tristezas, as lágrimas e o terrível medo das perdas, atualmente. 

As emoções comandam a vida.

    Quando as emoções são fortes demais, a garganta tranca, as lágrimas não descem e a dor permanece.  Nem uma via para escoar a tristeza e a angústia. E o coração explode.  Tenho medo.

Como aceitar que filhos percam seus pais, e que pais percam seus filhos sem o último beijo de despedida? Sem o último adeus? Que coisa brutal! Como manter o equilíbrio e uma mente saudável com tanta agressão e ameaça?

Saio de casa para comprar o básico e a maior preocupação é a aglomeração, o gel, a máscara... E como quero respirar 100%, volto rápido para casa.

Sim, já são mais de 532.000  mortes no meu país. E amanhã? Outros tantos problemas nos sufocam, problemas políticos que não poderiam existir nesse momento, que só crescem diante de um futuro exaustivo e cujo governo está em plena campanha para reeleição presidencial em 2022. Isso agora é um desastre, sem  nenhuma importância. O importante é salvar vidas. São coisas inimagináveis o que estamos vivenciando. A coisa errada no momento errado.

Acompanhamos o drama de Manaus, pessoas que morreram sem oxigênio, no seco, enquanto a novela das vacinas se espraiava em angustiantes passos de tartaruga. São 215 milhões de brasileiros! E para fechar com chave de ouro,  a grande "preocupação" do governo para com o povo, foi quando faltaram os medicamentos para a sedação, usados no processo de intubação. São os analgésicos e relaxantes musculares. Que loucura aquilo!

As únicas lembranças que ficarão para contarmos a história no futuro, sem sentirmos profundas náuseas, serão as lembranças de nossos médicos e enfermeiros da linha de frente, a dedicação, o amor, a luta para salvarem vidas.

Tantas coisas erradas... tão pouco-caso, tanto abandono! Nem para filme de terror essas atitudes vividas aqui serviriam. É nauseante demais.

Grande país, mas pobre do povo brasileiro.



O Mio Signore - Texto de Gioacchino Veneto
Obrigado a amiga Teresa Dias pelo envio do vídeo -  emociona.

A letra da  música é uma
 prece a Deus pelo fim de tanta tristeza. 


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26 de junho de 2021

A PIOR DOR É NA ALMA

Cornelis Jetses  - 1873-1955 / Holanda


                         __ Taís Luso de Carvalho__

Hoje, pensei em postar um poema, mas algo está martelando na minha mente. Parece que virou moda os maus tratos e a falta de amor com os idosos. Estamos cada vez mais desumanizados. Parece uma doença contagiosa, se espalha, gruda, mata. Volta e meia aparece um caso semelhante nos noticiosos. E não existe um basta pra tanta violência e descaso.

Jamais esqueci uma cena dantesca que apareceu na mídia há um tempo. Os filhos, estranhando a tristeza do velho pai, resolveram colocar uma filmadora escondida no quarto do frágil velhinho, já com Alzheimer. Constataram, então, que o pai era espancado e humilhado por alguém que se dizia “cuidador”. Daí esta minha vontade em postar um poema que mostrasse sentimentos mais nobres. Não queria me sobrecarregar de decepção pelo ser humano.

Lógico que não se espera de nenhum profissional, pago para cuidar de doentes, que se derrame em amor e carinho, mas que se proponha a agir com respeito e profissionalismo.

Amor e carinho são coisas de voluntários, de pais e filhos, quando normais. Admiro pessoas que se doam em trabalhos voluntários, isso é amor. São pessoas especiais, abraçam e levam conforto aos que sofrem não tendo em mente nada de retribuição, a não ser o bem que fazem. Não existe nada entre um voluntário e um necessitado que não seja uma verdadeira solidariedade com o seu semelhante.

O que nos resta após presenciarmos atitudes violentas dispensadas aos nossos pais ou aos nossos filhos? Talvez a culpa por não termos percebido o algoz tão perto. Há dores que calam muito fundo. As dores que mexem com nossos sentimentos, nossas perdas, humilhações e injustiças superam a dor física. É a dor mais profunda, é uma dor na alma, onde nossa razão não consegue chegar para abafá-la.

As feridas no corpo cicatrizam, mas as feridas na alma são sempre chagas abertas: à menor lembrança, sangram. E acho que não há dor maior do que a violência dos covardes e a humilhação e submissão que ficam nas vítimas.

Há tempos, uma catadora de lixo apareceu num de nosso noticiosos mostrando o seu sonho realizado: um projeto desenvolvido por ela onde alimentava 100 crianças – com a ajuda de outras voluntárias pobres.

Como sempre, pobres ajudando pobres… Enquanto isso, na esfera superior, uns “abastados” roubam feito loucos o dinheiro público. E como sempre, corruptos ajudando corruptos. 

E assim seguirá  a vida de muitos povos desse planeta.




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19 de junho de 2021

UM RETRATO PARA O FUTURO

Salvador Dali / Um Novo Homem - 1943


                   

                    __Taís Luso de Carvalho__ 

           

Muitas vezes pensei nos desequilíbrios que cometemos ao abraçar uma causa, ao entrar em discussões políticas, seja na família, seja em outras esferas para defender ideias que bem poderiam ser desenvolvidas num clima cordial e educado.

Mas não, longe estamos disso. Na verdade o que vejo é um clima de muito ódio. Talvez o “horror” atraia mais, deixando um rastro de inimizades. Tenho acompanhado bastante nossa atual CPI, como também vários noticiosos após cada sessão dessa Comissão Parlamentar de Inquérito. É inacreditável o ponto de deterioração que chegou a Humanidade. E depois falamos dos Primitivos...

Emoção é um sentimento lindo em poesia, em música, em arte, em afetos. Fora disso, todo o cuidado é pouco. Mas há pessoas que adoram um conflito, precisam dele como o ar que respiram. É adrenalina. Não há freios nas discussões políticas, e essas são péssimos exemplos para o povo que também se engalfinha na defesa de suas ideologias, não importando se de Direita, se de Esquerda. O que tenho visto, em nada difere em agressões. 

É impossível sair de discussões acaloradas sem alguma lesão na alma. Mas chega um dia que alguns se dão conta das agressões gratuitas e levantam acampamento, desistem em prol de sua saúde e de sua paz. Nas discussões misturam-se os egos e impera a vaidade. Não digo que não se discutam coisas relevantes, mas dessa maneira que está sendo exposta em vários países? E no Brasil está patético.

Na realidade, ninguém convence ninguém, é dar murro em ponta de faca. Bater boca é pedir para adoecer dos pés à cabeça. A mim afeta, a não ser em manifestações pacíficas – direito do povo. É muito desgastante discutir, uma vez que o interlocutor não vai nos convencer e nem nós a ele. Só gera um grande estresse. Sempre a parte contrária defenderá contundentemente as suas ideias. Não é isso que acontece? Mas o certo é que todos têm o hábito de manifestar sua opinião com afinco. Botar pra quebrar. E isso parece que vai enrijecendo o opositor que termina explodindo. E quantos relacionamentos familiares destruídos durante campanhas eleitorais! 

Vejam só o bate-boca dos políticos na Câmara, no Senado, na CPI. Bem que poderia ser diferente, foram eleitos para um compromisso moral, colocar na mesa ideias concretas para  surtir efeitos em prol da sociedade. Já deveriam ter aprendido a conviver com a democracia, mas são os primeiros a destrambelhar. Ganha o mais forte, o mais hábil ou o mais louco. O ponderado e o justo acabam sem fôlego. Na exaustão.

A política deveria ser um modo de cortesia e de civilidade ao agir, ao conversar, mas, vá eu, nessas alturas, acreditar nisso. É só olhar o que o homem foi capaz de fazer com sua própria espécie até nossos dias. Pode? 

Não há dúvida que no futuro dirão que fomos uma civilização de malhados e lindos; de seres perfumados e limpinhos. Dirão que fomos a civilização que alcançou os céus, que descobriu um Novo Mundo, os Heróis da Ciência, os Gênios da Informática, os Homens do Espaço!

Seremos estudados dos pés à cabeça – dissecados e admirados pelos feitos. Mas, por outro lado seremos vistos ainda como primitivos, cruéis e corruptos.

A História contará o nosso brilhante percurso, mas vai ficar a desejar.




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Brasil ultrapassa   516 mil mortes - VACINA  BRASIL!!

                                                     






12 de junho de 2021

UM PULO NO PASSADO

 



                                         -  Para amiga Emília Pinto 



              - Taís Luso de Carvalho


Há dias, numa conversa com uma querida amiga de Portugal, Emília Pinto, eu lhe disse que estava com saco cheio de ser adulta, que essa pandemia estava mexendo muito com minha cabeça, vendo e temendo as mazelas do mundo chegando cada vez mais perto. E conversamos como se estivéssemos num sofá. Então ofereço a ela algumas memórias dessa criança que lembro com carinho.

Costumamos dizer que ainda guardamos em nós um pouco da criança que fomos. Acredito nisso, mas lembro muito bem da pressa que eu tinha para crescer, para ser "gente grande" como minha mãe e minhas tias.

Lembro dos sapatos de minha mãe. Eram altos e me acrescentavam alguns anos quando me via no espelho. Tudo imaginação. Quando ela saía de casa, eu corria para colocar em mim, um pouco dela, vestia algumas coisas e saia arrastando as roupas pela casa. Mas esquecia de guardar tudo e a bronca era certa!

Eu queria crescer, tomar decisões, ir ao Banco, pagar contas, mandar e desmandar em todos e em tudo. Enfim, me cobrir de problemas e ser um general da ativa! Minha vó tinha o apelido de “General”. Centralizava tudo. A coisa ali não era fácil. Seus pais vieram de Portugal, há uma rua com seus nomes aqui, Rua Comendador Tavares e Rua Dona Margarida. Ficaram na história da cidade.

Mas havia uma coisa que me confundia: eu queria crescer mas não queria largar o meu posto de criança cuidada e protegida naqueles meus 7 e 8 anos. Os sábados eram sagrados, eu e meu pai saíamos para um tour nas livrarias, ele comprava os livros dele e eu escolhia os meus. Aqueles que tinham dezenas de bichinhos, rainhas e castelos.

Nos dias de semana, à tarde, saia com minha mãe para ela comprar suas roupas, maquiagem, coisas de casa etc, era um pouco cansativo, mas naquelas maratonas eu aprendi muito com ela. Aprendi a comprar, e a dizer “não” com mais simpatia.

Com isso, entendo a falta de paciência dos homens, mas ser mulher, ficar bonitinha, dá um trabalho de cão! Caminhávamos quilômetros, pra lá e pra cá. Mas eu esperava a hora de irmos à confeitaria, na Rua da Praia – que não tinha praia.

Mais tarde, já “adolescente”, a coisa mudou. Chegava do colégio e começava a olhar a decoração da nossa casa, louca para colocar em prática as minhas ideias de vanguarda, minha mania de decoradora. Minha obsessão por mudanças. Mas eu tinha uma fã, minha mãe! Ela adorava mudar a decoração, mexer na casa. Mas confesso que meu pai ficava com medo das minhas ideias. Mas não era autoritário, era homem da paz, sabia falar, sabia escutar, marido e pai maravilhoso. Contudo, ficava horrorizado com meus chás de alho quando ele gripava e ficava febril. Tomou uma vez e nunca mais! Tomou o chá para me agradar. Era médico, e eu era muito metida, queria convencê-lo que o meu “chá de alho” era melhor do que seus remédios. Mas no fundo eu queria vê-lo bem de saúde e acreditava no meu chá de alho. Hoje não faria  mais aquilo.

Pois é... tantas loucuras, tanta inquietação! Anos mais tarde, demos muitas risadas de nossas vidas. E daquela alegria e despreocupação é que eu tenho saudades. Às vezes é duro ser gente grande. A minha noção das coisas é exata, e tudo muito real.

Não consigo esconder nada de mim.








6 de junho de 2021

A PESTE NEGRA / IDADE MÉDIA

 
Médicos na Idade Média / Peste Bubônica



                               - Taís Luso de Carvalho


Em meados do século XIV o continente europeu ficou marcado como uma época de grande sofrimento. Em 1347 a Itália era próspera, populosa e atraia muitos forasteiros.

A mais terrível peste que abateu a Europa e dizimou um terço de sua população foi a "Peste Bubônica", também chamada de Peste Negra – devido às enormes manchas escuras que se faziam presentem por todo o corpo dos infectados.

A praga, espalhou-se pela Europa vinda da Ásia central que transitavam pela rota da seda, de regiões isoladas da China e Índia, num processo de interação comercial entre Oriente e Ocidente.

Na Sicília, no porto de Messina, os mercantes italianos, que retornavam do mar Negro, já se encontravam contaminados, devido aos ratos que eram hospedeiros das pulgas infectadas.

Num clima de fanatismo religioso, desolação e resignação, e já no ano de 1350, o papa Clemente VI, anunciava o Ano Santo instruindo os peregrinos a rumarem na direção de Roma, onde receberiam o direito ao paraíso sem passar pelo temido purgatório. A convocação causou um enorme êxodo e contribuiu ainda mais para o alastramento da peste, uma vez que muitos já estavam infectados.

Em 2 meses a peste se espalhou pela Itália, Espanha, Inglaterra, França, Áustria, Hungria, Suíça, Alemanha, Escandinávia e países bálticos.

Os ratos estavam contaminados com a bactéria Yersinia pestis, porém na época nada sabiam sobre isso. E as pulgas destes roedores transmitiam a bactéria aos homens através da picada. Nada era capaz de interromper a voracidade com que a pandemia se disseminava. A peste era voraz, atacava os nódulos linfáticos, a virilha e pescoço. Febre alta e o aparecimento de bolhas, pus, sangue e vômito provocavam a morte em menos de 24 horas.

Estes roedores encontraram em muitas cidades europeias um ambiente favorável, pois estas possuíam condições precárias de higiene. O esgoto corria a céu aberto e o lixo acumulava-se nas ruas.  A população de ratos,  aumentou significativamente.

Os abastados foram os primeiros a tentarem fugir da peste, abandonando os locais onde havia maior infecção. O clima era de terror, fazendo com que muitos se exilassem em seus próprios lares. Advogados se esquivavam de fazer os testamentos dos moribundos; clérigos se esquivam a dar a extrema-unção; trabalhadores fugiam dos campos para outras cidades; cidadãos se evitavam; parentes mantinham-se distantes.

Esfomeados, adoentados e fracos, os europeus não mais enterravam seus mortos, que eram milhares por dia. Os corpos iam-se avolumando nas ruas, fedendo de forma insuportável e atraindo cada vez mais ratos, e insetos proliferadores de doenças. Imigrantes, viajantes e peregrinos nenhum desses eram bem-vindos em meio à turbulência causada pela praga.

A violência tornou-se evidente. Não havia dúvida que a discriminação e a perseguição com outras etnias também eram evidentes. Tinha de haver culpados e bodes expiatórios. E cometiam-se injustiças. Barbáries.

Relatos da época mostram que a doença foi tão grave e fez tantas vítimas que faltavam caixões e espaços nos cemitérios para enterrar os mortos. Os mais pobres eram enterrados em valas coletivas, apenas enrolados em panos.

Vendo esse cenário, e vencendo sua própria dor, fome e doença, um homem resolveu minimizar o problema, passou, mesmo contra a visão da igreja e dos homens, a incinerar os corpos caídos nas ruas. Promovia imensas fogueiras que, com o gás natural dos corpos, atingiam proporções alarmantes. Essa queima dos corpos diminuiu consideravelmente o cheiro nas ruas e afastou os ratos causadores da peste. Com essa determinação, esse homem devolveu aos homens a vontade de lutar.

O homem que incinerava os corpos chamava-se Lázaro, posteriormente canonizado pela igreja católica. A morte de um terço da população europeia, resultou em escassez de mão de obra e provavelmente contribuiu para profundas mudanças sociais e sensíveis melhorias.

No ano de 1351 a Peste Negra cedeu; a Europa dilacerada, após 5 anos de horror, levou séculos para se refazer. O medo pairava, fecharam-se para visitantes - atitude justificada pelo medo da volta de uma nova pandemia.



Documentário H




30 de maio de 2021

O SUPLÍCIO DAS COMPRAS

Shopping Praia de Belas / Porto Alegre - Brasil


__Taís Luso de Carvalho__


Caminhando por perto, no meu bairro, entrei numa loja e lá veio uma vendedora nova - muito solícita, louca para vender, sair destas “vacas magras”. Abriu um largo sorriso, e sem me conhecer disse que chegou a mercadoria que se encaixava no meu perfil!

Pronto!! Como será o meu perfil diante de uma pessoa que nunca me viu? Minha última cabeleireira também conhecia o meu perfil e entrei numa fria, acabou com minha franja, quando olhei aquilo no espelho não sabia quem eraLevei 5 meses sem cortar o cabelo. Ela colocou em mim o corte de cabelo da Elis Regina!  

Todos dão palpite no que serve para os outros. Não gosto de gente assim.  Muita simpatia numa venda ou num serviço, não é bom esquema. Gosto de mais profissionalismo, há menor probabilidade de erro.

Quando uma vendedora diz:

Eu tenho essa geladeira em casa, é ótima, pode levar!”. Não levo, não compro. Caminho uma eternidade para não  ficar com uma culpa de cão. O único lugar que os atendentes não dão palpites é em Livraria.

Lembro do dia em que fui ao shopping comprar um sapato; queria um sapato confortável para ir às compras e chegar em casa inteira. E que fosse de salto mais baixo. Não gosto de parecer uma equilibrista desorientada. Portanto, não queria sandália ou sapatos com bico fino ou de ponta aberta, tipo “guilhotina”.

Entrei na loja

Moça, eu gostaria de um sapato preto, de couro, e com um salto mais baixinho. Sapato para caminhar!

Mas os que estão na moda são estes aqui... modernos, abertos e mais altos. Muito  estilosos, lindos. Chegaram ontem, a senhora vai adorar!

Moça, eu não quero adorar um sapato... eu quero um sapato para caminhar, confortável.

É, senhora, mas tá meio difícil salto mais baixo, a senhora não pensou em tênis?

Não uso.

Pois é, mas para caminhar é o melhor, senhora...

Senti que minha paciência havia se esgotado, por que será que ela não trouxe o sapato que pedi? Afastei-me enquanto ela atendia  outra pessoa. E caminhando pela loja achei um sapato!

Psiu, moça e aquele lá? Eu quero aquele lá!!

Aquele é um salto mais grosso, meio cafona, não é para o seu perfil...

Meu perfil? Hei, espera, me alcança o cafona!!

A senhora não vai gostar…acho que não tenho o seu número.

Pelo amor de Deus, você pode me alcançar o cafona?

Consegui, serviu! Por sorte a "forma" era pequena. Comprei.

Ao sair da loja olhei para a moça:

Psiu Anota aí pra não esquecer: preto, de couro, baixo, e cafona!

Como?

É o meu perfil!

Saí daquela loja bem contrariada.



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22 de maio de 2021

O DRAMA DA SEPARAÇÃO CONJUGAL

 



                  __Taís Luso de Carvalho__


Não preciso falar sobre o início dos relacionamentos; todos os amores são iguais, só se enxerga qualidades. O amor é o bálsamo dos deuses, quando tudo dá certo. Não é por nada que a palavra amor é a mais linda, a mais sonora e a preferida dos poetas.

Mas quando se fala numa separação as exclamações são das mais variadas: "Santo Deus! Como podem? Entre na justiça! Olhe os bens!" E por aí vai. Todos se metem, todos aconselham. E tudo sai da intimidade do casal para um mundo de hostilidades e uma voltinha "básica" no mundo virtual, um mundo já tão real. E a destruição será  grande.

É muito difícil haver harmonia entre a família do marido e a da mulher  quando o casal se separa. E são nessas separações que se vê a dimensão do ódio. Não são duas pessoas em processo de separação: são dezenas! Os telefones entram em colapso com todos os familiares colocando sua língua ferina em funcionamento, e mais lenha na fogueira. E, havendo filhos, o estrago será incalculável.

Os filhos, que nada têm a ver com as maluquices e desencantos dos pais, são as primeiras vítimas da história. Esses inocentes passam a viver num burburinho de hipocrisia. As famílias passam a medir forças. As mulheres têm, por norma, apoderarem-se totalmente dos filhos; acham que os filhos são só dela. É obrigação do pai, também sustentá-los, mas sem vê-los, se possível! Esse jogo é conhecido, quem já não viu?

Em outras situações, o pai é que desaparece para se livrar da pensão alimentícia. Mas se for responsável, irá às vias judiciais procurar seu direito de conviver com os filhos. Então são estabelecidos os dias de visitas, e os parcos dias de férias. Está plantado o estresse, a revolta e a desarmonia na cabeça das pobres crianças.

Mas o caótico vê-se na hora da divisão dos bens: começam as  brigas pelos bens, pela casa da praia, pelo carro, apartamentos, pelo cachorro, etc. Quanto mais o outro ficar depenado, melhor. É um prazer incrível. Sadismo do bom.

As famílias - paterna e materna - que antes se amavam, que se visitavam e que eram o elo dos amores e dos agrados para com as crianças, já se odeiam. E como isso é rápido!

Ninguém, nessas alturas, tem cabeça para resolver as coisas amigavelmente e pensar no bem-estar dos filhos. É o momento para declarar guerra. Ainda mais apoiados pelas tias, avós e pais agindo como juízes absolutos da verdade.

Homens e mulheres, portanto, cada um carregando sua fatia de culpa, cooperaram para que o fim da história seja o inferno - antes, um conto de fadas!

Porém, diante de tudo, é de estarrecer a conduta dos pais perante os filhos; uma conduta lastimável, uma vez que os filhos precisam ter a referência masculina e feminina para uma formação saudável, Se houvesse equilíbrio, daria, mesmo com pais separados. Mas nisso pouco se pensa, homem e mulher não mudam quando as coisas os atingem; dão suas sábias opiniões é na vida dos outros. Aí, são doutores em sabedoria.

Caso você conheça alguém nesta situação, só dê palpite se quiser ficar louco, a não ser que queira  ser xingado e odiado por uma das partes. O que mais assombra é a rapidez com que o ser humano passa do amor ao ódio. É algo degradante, fere a alma. 

E nessa hora, a poesia se recolhe. Não há lugar para o ódio.

O amor é lindo, mas segundo o poetinha Vinícius de Morais...

"Mas que seja infinito enquanto dure”.



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