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TRABALHAR ONLINE
- Taís Luso de Carvalho
Há 2 meses conheci uma pessoa - amiga de uma vizinha minha. Quando eu passeava na minha rua, parei para conversar uns minutos com elas que estavam na calçada do meu prédio.
Fiquei sabendo que a tal amiga, vou chamá-la aqui de Luíza, funcionária pública, mora em um bairro lindo de se viver, num prédio alto de frente para o rio Guaíba, e com um pôr do sol belíssimo.
Mesmo assim, tendo muito para ser feliz, anda com um problema que está lhe tirando a alegria de viver.
Arregalei os olhos como se quisesse saber do problema - e queria mesmo! E contou, nesse nosso encontro, sobre sua tristeza, estava precisando desabafar. Coitada, gostei muito dela, bem simpática, apesar daquele seu batom vermelho que dava uma dimensão exagerada na sua boca, e desviava um pouco da minha atenção quando ela falava. Fazia tempo que eu não via uma boca daquelas. Não tenho visto batom vermelho...
Escutei tudo, e naquele momento pensei o tanto que é esquisito o ser humano, pois está em alta os trabalhos online. Luíza contou que na segunda-feira anterior, chegou cedo na sua repartição e o seu chefe escalou alguns servidores para trabalharem online, por tempo indeterminado. E ela foi uma das escolhidas. E nos contou:
- Adoro meu trabalho na repartição, lá tenho muitos amigos, sinto falta deles, do nosso ótimo convívio diário. Lá trocamos alegrias e desabafos! Ando muito infeliz, triste mesmo, socada dentro do meu apartamento.
Como trabalhar com a vizinha que mora em cima, caminhando de tamanco o dia inteiro, como trabalhar com o cachorro do vizinho latindo, como trabalhar com o vizinho a cantar óperas exercitando seus pulmões, como trabalhar com o zelador avisando que vai suspender a água no período da tarde?
Como trabalhar online com o marido pedindo chazinho com limão e mel para curar sua malfadada gripe?
Ali foi o momento em que fiquei com pena da criatura! E fiquei pensando um pouco nessa vida. Enfim, ela não sabia se continuava naquela neurose ou saia da função pública à procura de outro emprego.
Fiquei quieta, consternada, vendo as suas lágrimas ganharem liberdade. Coisas da vida, infelizmente.

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