25 de setembro de 2016

AUGUSTO DOS ANJOS - TEMPOS IDOS





            Não enterres, coveiro, o meu Passado,
            Tem pena dessas cinzas que ficaram;
            Eu vivo dessas crenças que passaram,
            E quero sempre tê-las ao meu lado!

            Não, não quero o meu sonho sepultado
            No cemitério da Desilusão,
            Que não se enterra assim sem compaixão
            Os escombros benditos de um passado!

            Ai! não me arranques d'alma este conforto!
           – Quero abraçar meu Passado morto,
           – Dizer adeus aos sonhos meus perdidos!

            Deixa ao menos que eu suba à Eternidade
            Velado pelo círio da Saudade,
            Ao dobre funeral dos tempos idos!


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EU E OUTRAS POESIAS - L&PM Pocket - pg 168

Augusto dos Anjos nasceu no Engenho Pau d'Arco, Paraíba, no dia 20 de abril de 1884. Em 1903, matriculou-se na Faculdade de Direito do Recife, formando-se em 1907. Ali teve contato com o trabalho "A Poesia Científica", do professor Martins Junior. Formado em direito, não advogou; vivia de ensinar português.
Foi ignorado pela crítica do começo do século. Se alguma exceção se abriu, foi para reputá-lo como autor de versos estapafúrdios e aberrantes. 
Nas décadas seguintes acabou reconhecido como um dos mais admirados e originais poetas brasileiros. Augusto dos Anjos é, certamente, o precursor da moderna poesia brasileira, poesia que daria seu voo somente em 1922, na célebre Semana de Arte Moderna. Seus versos cantavam a onipresença da dor e a excludente destinação do homem à morte, aos vermes e ao pó. A partir de 1928 começou a longa e acidentada via de reconhecimento público, fazendo de Augusto dos Anjos o que ele é hoje, um dos mais admirados , poetas brasileiros, e por certo o mais original.
Cético em relação às possibilidades do amor ("Não sou capaz de amar mulher alguma, / Nem há mulher talvez capaz de amar-me").

O livro Eu E Outras Poesias, do qual retirei esse poema, sobrevive, antes de tudo, pelo rigor da forma. Com o tempo, tornou-se um dos poetas mais lidos do país, sobrevivendo às mutações da cultura e a seus diversos modismos.  Morreu aos trinta anos de idade, de pneumonia, em Leopoldina (MG), em 12 de novembro de 1914. 



20 de setembro de 2016

UMA FESTA QUE DEU O QUE FALAR...




                - Tais Luso

Há anos, fui consultar com um médico neurologista, para resolver minhas enxaquecas; e resolvi!  Mas saí com um conselho que me deixou encucada:
- Taís - disse-me ele -, não leve a vida muito a sério: brinque, vá para um parque ou  confeitaria e ria;  ria de você,  ria das  fofoquinhas  e  seja mais leve... 
- Ops...!! Fofocar, doutor ? Tá falando sério?  Passei a vida escutando para não falar dos outros!  
Num tal sábado, faz alguns anos, fui com minha família a uma festa de casamento e lá encontrei antigas conhecidas: Aninha, Geny e Kika. Para os noivos, para a comida, bebida, decoração... Nota 1000! Mas o que vou narrar aqui, é sobre três convidadas. Já que o doutor mandou ser leve... 
No salão encontrei a Aninha, toda produzida em tons de azul: sapato azul, bolsinha azul, vestido azul, laço azul, sombra azul... Toda combinadinha, parecia um céu de brigadeiro!  Armando, marido de Aninha, estava bem bonitinho, mas o coitado era coberto de defeitos - segundo ela. O obstinado trabalhava demais, mas tinha como lazer cuidar de sua paixão: um antigo fusquinha amarelão, relíquia de família deixado pelo seu pai. Passava horas lavando os pneus, tirando os bancos e lustrando o motor. Por fim, a coisa entrava no brilho e descansava a semana inteira na garagem: era o carango imaculado. E Armando saia com o outro carro, que mais parecia um tanque de guerra. Imagino a Aninha desfilando naquilo.
Geny, outras de minhas conhecidas, estava enfiada dentro de um vestido 'verde papagaio' e escondida atrás de um enorme laço preto, preso ao pescoço. Jamais eu conseguiria comer com aquela guilhotina enrolada. Terrível. Estava ainda casada com o mesmo Geraldo; o mesmo coitado. Lembro-me do dia em que fui visitá-la na sua casa em Gramado.  Na porta de sua agradável casa - numa prateleira antiga - havia uma coleção de chinelos; uns 10 pares. De todos os números e cores. Lindos! Pensei que estivesse fazendo artesanato. Engano, a chinelada era para os mais 'chegados' calçarem, e não sujar o belo piso. Fiquei um pouco no jardim e me despedi.  A coitada tinha uma síndrome hospitalar,   tudo cheirava à assepsia. Difícil  o negócio por ali.
O outro casal que encontrei na festa foi Kika e Mauro. Ela continuava a mesma criatura, com olhos azuis arregalados, quase saltando das órbitas. Olho de peixe boi. Normalmente eram assim, mas diante daquela mesa farta, com os mais variados salgados e doces, Kika ficou insuportável: um olho nos doces e o outro nos salgados. Ansiosa ao extremo. Mas era estilosa, foi de vermelho e preto, meio dramática  a coisa. 
Certo dia, nos encontramos na cidade de Gramado e resolvemos ir num lugar gostoso para bater papo; mesas nas calçadas, toalhinhas em xadrez, lugar convidativo para um chopinho com fritas. Sentamos e começamos a exercitar o papo-cabeça: ela falava de tudo o que não tinha importância, coisa bem irrelevante. Cansativa.
Minutos depois, vieram os dois chopes com as porções de batatas. Kika parecia um urubu em cima da carniça; fincava aquele palito pegando três batatas de uma só vez! Que ansiedade, que coisa mais animalesca foi aquilo!
No começo, eu fiquei no charme, batatinha por batatinha... Mas ao ver que ficaria molhando o bico só no meu chopinho, sem as minhas batatas, um calorão se apossou de mim; esqueci de tudo o que aprendi na vida e me atraquei naquelas malditas batatas deixando de lado o charme e a educação que recebera: ela pegava quatro; eu pegava quatro! E assim fomos indo numa disputa camuflada até o fim, sem, no entanto, deixarmos transparecer a competição que se instalara. Logicamente eu saí mal, principalmente por constatar que meu processo educativo estava em degeneração. Quase chorei com pena de meus pais, tanto que se empenharam tentando educar a tal princesinha deles...
Porém, como nossos filhos eram amigos, após aquela festa tentei novamente uma aproximação com Kika. Liguei para ela:
- ALOOOOU! – era ela, com aquela voz de contralto. Desliguei, sem nada falar. Aquele ALOOOOU não me descia mais. Lembrei de nossa última conversa por telefone: ela falou um monte, contando  seus problemas. Deixou-me estressada. Era a mesma Kika; não dava um espaço para qualquer articulação labial de minha parte; não havia espaço para uma vírgula, uma exclamação, nem tampouco uma interrogação. Então aproveitei essa oportunidade e coloquei o que faltava: um ponto final.
Mas de vez em quando lembro do conselho do tal neurologista: torne a vida leve, brinque,  ria muito  e  se divirta com umas fofoquinhas corriqueiras... 
E resolvi deixar aqui essa historinha meio alucinada. E que deu resultado...



15 de setembro de 2016

A ETERNA JUVENTUDE















  - Tais Luso

Estamos num tempo em que é proibido envelhecer. Lembro que minha a, minha mãe, minhas tias envelheceram com muita dignidade. Envelhecer era natural, pé no chão, sem traumas. Eu nem notava que minha mãe estava envelhecendo, tal seu espírito jovem e brincalhão. Cada uma delas curtia sua idade, vivenciava as etapas da vida com classe e com paz, eu notava segurança nelas. Hoje é diferente, é como se nosso potencial físico tivesse algum sentido apenas na juventude.
Contudo, as mulheres sempre foram mais atingidas pelo bullying do que os homens: homem com cabelo grisalho é charmoso; mulher é descuidada. Homem com barriguinha é macho; mulher é desleixada e comilona. Homem com rugas é sábio; a mulher se cobre de cremes anti-rugas. Se estamos magras, estamos doentes; se estamos gordas, estamos com problemas emocionais. Ou na menopausa. Homem 'muito' magro faz parte de um movimento cultural; mulher está anoréxica. Que coisa patética. Dá vontade de morrer - segundo as dramáticas de plantão.
Por que não se fala nas experiências que adquirimos, nas etapas que vencemos, nas nossas histórias de vida, nos filhos que parimos, na família que construímos, nas dores que sentimos? Envelhecer, hoje, é um ato de bravura; é superação. É como se tivéssemos sobrevivido à tragédia do Titanic.
Quando o homem chega nos 90 anos, o quadro que pintam é lindo, chega a ser apoteótico seu final:

- ...Como o seu Lico - com 90 anos - está disposto, um garanhão ! Acabou de ter um filho com uma mocreia de 30!

Perceberam? Ele, com 90 anos é garanhão, ela com 30 é mocreia. (Mocreia é uma gíria brasileira de caráter pejorativo). Contudo, a mulherada  está vivendo uma enorme transformação: malhando como loucas, com músculos do pés ao pescoço - que a Deus duvida de sua obra... Envelhecer não é nada mais do que etapas da vida que precisam ser vividas. Cuidados com o corpo e exercícios é uma coisa; fixar-se numa juventude eterna é obsessão. A fixação por entrar na modinha das filhas, também entra no exagero.
Os animais envelhecem, envelhecem as plantas, os rios, as matas, o planeta. Mas quando atinge os humanos, a coisa se torna problemática. Capacidade, amizade, amor e beleza encontramos no espírito das pessoas, e não nesses malditos números. E nem no tempo. O espírito não tem idade; pode ser bonito e encantador a vida inteira.
Ou muito triste.


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8 de setembro de 2016

QUE SOCIEDADE ESTRANHA...




                    - Taís Luso

É estranho como existem criaturas absurdamente insaciáveis, primam pela ostentação a qualquer custo. Depois aparecem os desgastes emocionais com todas suas variantes. E a obsessão em estar na ‘vitrina social’ é um vício. Estranho vício.
Enquanto uns vivem na vitrina, outros sentem-se desconfortáveis e amedrontados ao serem testemunhas de tantas tragédias e brutalidades. Testemunhas de vidas arrancadas, de manobras corruptas que se alastram cada vez mais nas sociedades, falo mais especificamente da sociedade Brasilis.
Difícil fazer vista grossa e seguir a vida em tons de rosa, como se o medo não nos atingisse. E quando uma vida se apaga, em sopros de agonia, as coisas viram um prato cheio para nossas inquietações.
Gostaria de povoar um lugar onde a vida acontecesse sem interrupções bruscas. Sem incidentes de percurso. E morrer de velhice. Em suave despedida.
Há muitos séculos os filósofos trazem à tona suas inquietações, e fico a pensar como ficaremos nós, pobres pensantes? Reflito e lastimo, mesmo assim agradeço por ter mais ganhos do que perdas. Mas louvo aqueles que conseguem apagar certos questionamentos e se dizem felizes sempre – será?
Sou uma rebelde das causas perdidas. Por gostar demais da vida, onde me emociono com a beleza desse planeta, ainda não me acostumei com a ideia de finitude. Um dia tudo por aqui acabará  e o depois, ainda não sei. Mas refletir também é viver. Não me contento em apenas respirar, sentir o aconchego do sol,  o romantismo da lua ou deixar certas coisas de lado... Não.
É da minha natureza questionar sobre essa sociedade estranha, que ao velar seus mortos mostra num canto as tristezas do momento, enquanto no outro, escancarados sorrisos cumprindo um rito social.
Que sociedade estranha é essa, que ama e que odeia com a mesma intensidade, destruindo laços afetivos dentro das próprias famílias, quando deveriam cultivar o amor. Como não pensar nisso se é algo que está proliferando? 
Que sociedade estranha essa, em que minorias dominam maiorias; que o ladrão de galinha mofa na cadeia e os monstros sociais ficam soltos e intocáveis? 
Que sociedade estranha é essa, onde há inúmeros preconceitos camuflados, que hipocritamente ninguém vê, ninguém sabe. Uma sociedade só será saudável se houver respeito às desigualdades. 
O homem continua primitivo quando não domina seus ímpetos, quando não mede seus instintos,  quando articula seus desejos com crueldade. Pais matam filhos; filhos matam pais; irmãos se atropelam na vida. E esse é o ápice do ódio. Como não questionar tais misérias humanas?
É difícil encontrar razões para tudo isso, como difícil é entender o sentido dessa vida, principalmente quando ela nos abandona sem nenhuma explicação e sem um aviso prévio.
E parte. Colocando em tudo  seu ponto final.

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Esclarecendo:
O texto fala em 'ponto final' do ponto de vista de vidas humanas, nada a ver com vida após a                             morte   física.                  





3 de setembro de 2016

LYA LUFT / O LADO FATAL




          - Poema 14 - do Livro: O lado fatal


          Ele gostava de falar:
          era como se precisasse muito ser compreendido,
          e sempre me dizia isso.
          Nunca o vi em palanques e comícios
          nem o conheci na juventude.
          Mas para mim falava, recitava, argumentava
          horas e horas sem se cansar:
         “Falo com você coisas que nunca pensei dizer
          a ninguém.”

          Eu me concentrava para ouvi-lo:
          os terrores da infância, os tormentos
          e entusiasmos da mocidade,
          as maduras paixões, as decepções incuráveis,
          as preocupações que cada dia mais lhe vincavam
          o rosto.

          Às vezes, quando ele dormia, eu espreitava:
          agarrando minha mão, ele parecia
          um triste menino solitário.



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O lado fatal – Rio de Janeiro. Record 2011 – pg 39



O livro O lado fatal (poemas) nos atinge por sua pungência e precisão, elaborando perdas em geral – especialmente perdas para a morte. Nesse livro de poemas, Lya Luft reforça a intensidade da dor e intensifica a perplexidade: e agora? Ao verbalizar essa dramática emoção, a autora tenta restruturar sua vida num  'passo a passo' do cotidiano, que traz alívio e conforto. 


Poemas que mexem com nossos sentimentos e com a vida.  Um estudo da alma humana diante da grande fragilidade que  negamos em falar, por vezes. Apagamos como se não existisse. Mas como não falar? Como não se deixar tocar pelo sofrimento alheio, se todos nós um dia passamos ou passaremos por drama igual? É nesse conjunto de poemas que Lya tenta elaborar a mais solitária emoção humana.
Deixo aqui essa indicação:  poemas doloridos, mas belos e que nos levam a muitas reflexões. 





27 de agosto de 2016

UM HOMEM MUITO ESQUISITO


                    
                          - Taís Luso    (conto)
Para a construção de Philogônio, comecei dando umas olhadas na vida dos outros; aquela coisa básica. E peguei no tranco.  Tantas manias,  tantas neuroses, coisas hilárias, outras dramáticas. A vida em detalhes.
Homem de físico atarracado, com rosto enorme, olhos de rato e espertos. Mantinha seus cabelos pintados, de uma tinta vagabunda, no qual pretendia disfarçar a ação do tempo. Ainda trazia, a reboque, um bocão de trovador. Criatura  desprovida de traços agradáveis. Este era o perfil de Philogônio Othão, 55 anos, brasileiro, casado, hipocondríaco. E neurótico. 
- Arminda! - gritava ele - toma este calmante aqui...
- Mas eu tô calma, homem, tô quieta, vendo minha novela!
-  Esta tua novela me dá nos nervos!
Indignada e de saco cheio pelas implicâncias, Arminda levantou-se, apagou a televisão, bateu a porta do quarto. Sumiu.
Porém, dentre tantas manias, o homem era um obcecado colecionador de anéis de mindinho. Era o único dedo  pintado. Coisa que Arminda odiava, esquisito aquilo.
Philogônio, sempre trabalhou em farmácias, e tendo adquirido grande experiência no ramo, não foi difícil ser chamado para gerenciar uma rede de farmácias. Faceiro, o  hipocondríaco, parecia estar no paraíso! Lá foi ele, com seu mindinho purpurinado e com seu horroroso bocão, gerenciar a tal rede. Era bom articulador. Rodeado de toda alopatia e homeopatia existente, era a alegria dos desesperados
Mas nem só a obsessão pelos remédios e hospitais caracterizava Philogônio: era o tipo da criatura que todos achavam esquisita. Não tinha carisma, nada! Bastante grosso, e machista, ainda  colecionava lanternas! Costumava caminhar em briques  à procura de algo bem diferente. Na verdade, serviam, apenas, para iluminar suas idas e vindas ao banheiro, coisa de maníaco, mas distraidamente  direcionava o foco de luz para os olhos adormecidos de Arminda, dando início a suas noites de insônia, e apagando  os seus sonhos de mulher.
Numa de suas noites de insônia, Arminda ligou seu radinho de pilhas, colocou o fone de ouvido e, no escuro, foi rodando o dial, subindo a escala indicadora. Num certo momento, parou numa emissora e achou interessante o leve som pfiurrr, pfiurrr... mais parecendo chicotadas numa noite de vendaval. Coisa romântica - pensou ela. Mas, ao trocar as estações, percebeu que o ruído continuava presente em todas as emissoras. irritada, desligou a geringonça, tirou o fone de ouvido e, para seu espanto, as chicotadas continuavam: pfiurrr... pfiurrr... Olhou para o lado e... filho da mãe! Era ele! Philogônio sonhava e se babava  feliz, acalentado por aquele ruído infernal, que a princípio encantara a desencantada Arminda.
Hoje não sei mais de Philogônio; nem por onde anda, e nem o que faz. Mas deve andar por aí borboleteando com aquele seu bocão, e refestelando-se com o safado daquele mindinho arrogante, que nunca desceu pela goela de Arminda.
Arminda? também nunca mais a vi... Deve ter dado no pé...
Coitada.