3 de março de 2021

ANDANÇAS E TROPEÇOS

Cerrado Brasileiro

                   

                              ___Taís Luso de Carvalho___


Numa época, lá nos meus 14 anos, que já vai longe, eu achava 'chique' uma amiga de minha mãe dizer que estava em crise existencial. Logicamente que eu não sabia avaliar a dimensão de uma crise existencial. Era complicado para minha cabecinha. Lembro que a coitada da mulher, quando chegava em nossa casa, o ambiente logo virava um festival de lágrimas. Mais para tempestade. Era triste. Minha mãe tentava entender, ouvia a amiga, mas  nada adiantavam  as suas palavras de apoio ou de consolo.

Desvendar todos os 'porquês' que atormentavam as pessoas era sempre uma descoberta penosa para mim e para as amigas adolescentes do saudoso colégio de freiras.

Amadureci, e dentro do nosso romantismo  queríamos fazer alguma coisa por um mundo melhor. A juventude da minha época era muito ativa para se engajar em ideais. Fazíamos  muito 'barulho'!

As conversas filosóficas sobre a vida sempre encantaram os adolescentes de mais idade e principalmente aqueles com ideias de vanguarda. Conhecer-se através de uma terapia era  'maneiro' - diziam os jovens.

Minha adolescência não foi conflituosa. Fui praticar esporte (hipismo) onde aprendi cedo a ter muita disciplina e responsabilidade. Ter o foco no que me propunha a fazer bem.

Mas a vida muda: já bem mais madura eu  sentia  a complexidade do ser humano, vi que pouco adiantava o meu empenho em ajudar alguém. Há pessoas que querem mudar seu modo de enfrentar a vida e se empenham nessa tarefa;  outras, mesmo sofrendo, não querem. Dizem  estar em perfeita sintonia com a vida. É nesse ponto que gera o stress para aqueles que se prontificam em ajudar seus semelhantes.

No Brasil dizemos que uma crise ‘tamanho família’  é coisa para cachorro grande, ou seja, para especialistas da área, para psiquiatras e psicólogos. Não podemos, nós, os leigos, virar bengala emocional de alguém.

Atualmente o mundo inteiro vive uma crise pandêmica, muitos países, como também o Brasil, estão com os hospitais em colapso, e além disso, o povo brasileiro está à beira de um ataque de nervos. (estou sendo  leve...).  

Além dessa pandemia, vivemos também uma crise Institucional muito perigosa para a nossa democraciaUma crise de difícil entendimento. Pesada e  preocupante.

Percebe-se que as pessoas só mudam quando querem, e são nesses momentos, quando as palavras se esgotam, é que prefiro sair à francesa e continuar o meu andar. Sinto que nesse ponto, a luta torna-se ingrata. 

São nesses momentos que temos mais motivos para chorar do que para sorrir


  Escutem essa voz...                         

Vásáry André - Ennio Morricone: Once Upon a Time in the West





21 de fevereiro de 2021

O NOSSO TEMPERAMENTO...

Arte Popular Brasileira


                      -Taís Luso de Carvalho


     Ao detectarmos nosso temperamento, podemos ter uma noção de como melhorar o nosso convívio em sociedade, para uma vida mais equilibrada, menos conflitante, menos exigente e mais agradável.

Segue abaixo, um "Estudo da Pesquisa das Bases Neurobiológicas e Tratamento de Transtornos Neuropsiquiátricos do Programa de Pós - Graduação em Biologia Molecular e Celular da PUCRS" sob a orientação dos psiquiatras Gustavo Ottoni e Diogo Lara.

Temperamento é a natureza emocional da pessoa que define a qualidade de humor predominante nela, ao longo da vida. O temperamento é basicamente definido por herança genética e influências externas, como criação e o ambiente onde se vive. 

É relativamente estável ao longo do tempo, mas pode variar um pouco com a idade ou experiências marcantes, como traumas, acontecimentos muito positivos, doenças ou uso de drogas.

Segundo os pesquisadores, o temperamento também é um indicador de predisposição a algumas doenças psiquiátricas, como depressão e bipolaridade. Quando os comportamentos extrapolam, passam a ser exagerados e começam a atrapalhar a vida social, nesse sentido, podem se tornar uma patologia.

Nem todos precisam de tratamento, as pessoas em geral se adaptam ao seu jeito de ser ao natural. É preciso tratamento quando se passa para o nível de doença e desequilíbrio. Nesses casos muitos precisam de terapia e medicamentos.


CONHEÇA OS TEMPERAMENTOS


1. EUTÍMICO:

Estável, previsível, equilibrado, com boa disposição e, em geral, sente-se bem consigo mesmo.

2. OBSSESSIVO:

Rígido, organizado, perfeccionista, exigente, lida mal com erros e dúvidas.

3. ANSIOSO:

Preocupado, cuidadoso, inseguro, apreensivo e não se arrisca.

4. CICLOTÍMICO:

Humor imprevisível e instável (altos e baixos), muda rapidamente ou de maneira desproporcional.

5. HIPERTÍMICO:

Sempre de bom humor, confiante, adora novidades, vai atrás do que quer até conquistar e tem forte tendência à liderança.

6. DEPRESSIVO:

Com tendência à tristeza e à melancolia, vê pouca graça nas coisas, tende a se desvalorizar, não gosta de mudanças e prefere ouvir a falar.

7. IRRITÁVEL:

Sincero, direto, irritado, explosivo e desconfiado.

8. EUFÓRICO:

Expansivo, falante, impulsivo, exagerado, intenso, não gosta de regras e rotinas.

9. DESINIBIDO:

Inquieto, espontâneo distraído, deixa as coisas para a última hora.

10. DISFÓRICO:

Tende a ficar tenso, ansioso, irritado e agitado ao mesmo tempo.

11. VOLÁTIL:

Dispersivo, inquieto desligado e desorganizado, precipitado, muda de interesse rapidamente, tem dificuldade em concluir tarefas.

12. APÁTICO:

Lento, desligado, desatento, não conclui o que começa.

HOMENS EUFÓRICOS:

O temperamento eufórico apareceu com mais frequência entre os homens. Pessoas que se enquadram nesse perfil são expansivas, falantes, impulsivas e não gostam de seguir regras ou rotinas. Tendem a infringir mais regras e ter comportamentos irresponsáveis como exceder o limite de velocidade dirigindo – afirma o psiquiatra Gustavo Ottoni.

MULHERES INSTÁVEIS:

Esse perfil ciclotímico ocorre mais em mulheres, segundo o psiquiatra integrante da equipe – Ottoni. Pode ser por causa da variação hormonal, devido ao ciclo menstrual que afeta comportamentos e emoções, porém não há uma resposta exata.

OS MAIS POSITIVOS:

Os perfis mais positivos são o Eutímico e o Hipertímico. As características desses temperamentos são as que menos apresentam riscos de desenvolvimento de patologias psiquiátricas.

Segundo o psiquiatra Diogo Lara, as pessoas que preferem a noite, geralmente se enquadram nos perfis mais instáveis, enquanto os que preferem a manhã tendem a ser mais regrados.

A pesquisa mostrou também que, quanto maior a preferência pela noite, menor é a capacidade de organização, cautela e foco. Isso só é amenizado nas últimas horas do dia, quando a pessoa apresenta maior energia. Essas características também estão associadas a maior criatividade, em geral, enquanto os matutinos são os tipos mais organizados, mais certinhos.

Até os 20 anos, há uma clara preferência pela noite, com baixa energia pela manhã. Essa preferência decai até os 40 anos. A partir dos 50 anos, a tendência é de que a pessoa sinta mais disposição nas primeiras horas do dia. Quanto mais energia se tem pela manhã, mais cedo se acorda. Claro que são dados populacionais, é um movimento de grupo. Alguns indivíduos podem ser noturnos a vida inteira – conclui o psiquiatra.



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      Referência: Caderno Vida ZH de 19.2.2011 – Porto Alegre/RS







13 de fevereiro de 2021

PERSISTE A ESPERANÇA!

 



- Taís Luso de Carvalho                                

                      

Foi num belo sábado, 6 de fevereiro, um céu azul, com rendas de nuvens.

Pedro e eu caminhávamos alegres pelas ruas de nosso bairro, mas também com uma sensação estranha em meio a muita gente com a mesma ideia: dar uma caminhada, passar ali e acolá, comprar algumas coisas e voltar para casa.

Ao chegarmos ao cruzamento de duas avenidas, uma ambulância do SUS e uma viatura do corpo de Bombeiros, uma seguida da outra, abriram suas sirenes  no maior dos decibéis, pedindo espaço. O que antes me deixava meio desatinada, agora me pôs quase de joelhos. Mais luta desesperada pela vida, e eu com a pandemia na cabeça!

Parei e fiquei a olhar. Por detrás da máscara, meus olhos acusavam um coração em disparada. Naquele momento trasbordou toda a angústia vivida desde março de 2020: medo, dúvidas, consternação. E esses sentimentos, ainda estão muito presentes.

Uma corrente de luta, um intenso eco à procura de um tempo de paz. Quanta angústia, quanto sofrimento, quantas vidas poderiam ter sido salvas e que não foram! E, como se não bastasse, outras variações do vírus já andam pelo mundo. E agora?

O que pensar do nosso tempo perdido, do descaso, do desleixo vivido; o que pensar de tanto abandono e da nossa fragilidade?

O que pensar do nosso futuro se guardamos tristes momentos que se arrastam em mortas lembranças?  Ainda choramos os sonhos perdidos, com medo e angústias.

Quantos povos que vivem de esperança, mas doentes e sem esperança? Que gente somos nós, que perdemos nossos amores, que perdemos nossa segurança, e que choramos de saudade?

O que podemos esperar se perdemos a nossa alegria, se as gerações presentes ainda choram sobre o pão que o diabo amassou?

Não se diz por aí, que a esperança é a última que morre?




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5 de fevereiro de 2021

PESSOAS DESAGRADÁVEIS

Pedro Escosteguy - XVI Salão Arte Moderna RJ - 1967

 


Tais Luso de Carvalho

Existem pessoas fantásticas e queridas, mas outras muito desagradáveis. Hoje, falarei apenas das pessoas desagradáveis, aquelas que não queremos encontrar nunca. Essas pessoas metem-se tanto na vida dos outros, tumultuam tanto o meio de campo que conseguem nos levar à loucura. Elas se comportam assim, quando permitimos. É terrivelmente desgastante discutir com pessoas que estão preparadas para mandarem contra tudo o tempo todo. Você diz A, elas dizem B – sem saber o porquê, mas o negócio é contestar. Uma segunda intenção sempre está por trás. É botar fogo no circo. Incomodar. Muitas vezes uma coisa sem importância vira um Dinossauro na sala.

O tempo que temos é curto para perdermos em acirradas discussões com essas pessoas. Os ânimos se alteram e vêm as ofensas e o distanciamento. E me pergunto: por que aceitar esse desgaste? E isso se dá entre amigos (onde acaba a amizade), nos condomínios, nas famílias, nas Instituições, na política (o maior inferno), e por aí vai. É muita maluquice no front. Cansei.

A conversa com essa gente que falo acima, sempre começa amena e amiga. Mas, após um tempo, a animosidade se instala e vai crescendo até virar um Dinossauro e que não sabemos o que fazer com ele. E quando o papo vai para a política a agressão sobe muito e se instala. Tudo começa sutilmente. O que antes era saudável e democrático, passa a ser um suplício. Uma batalha. 

Sim, a política desfaz amizades antigas, brigas em família e por aí vai. Onde existe gente existe a tentativa de dominar, de fazer prevalecer o seu ponto de vista. O  Brasil atravessa, atualmente,  momentos de pesados  atritos políticos, e  isso está sendo estressante,  desagradável e nauseante!

Uma conversa civilizada é o que todos os normais almejam. É perigoso polemizar, tem de haver equilíbrio, mas não há. As ofensas se instalam e depois vem um jeitinho para arrumar o que caiu por terra. Uma conversa em que as opiniões divergem, deveria ser encarada como momentos próprios da democracia, mas democracia fica linda é no papel e nos discursos de campanha política - com o maior entusiasmo do mundo! 

Tenho ignorado muitas coisas e evito o bate-boca, principalmente se conheço as criaturas, o que me dá uma sensação de alívio e de paz. Não faço questão nenhuma de dar minha opinião em campo minado, o preço é muito alto. Gosto de gente civilizada. Nada tão valioso como a paz de espírito quando conseguimos evitar tais situações.

Existem algumas coisas que são imutáveis no ser humano. Caráter não muda, assim como uma criatura que nasceu extremamente desagradável, jamais será alguém agradável, gentil e dócil. E os defeitos se agravam.

O sofrimento de estarmos em plena pandemia nos faz pensar nas prioridades. Quem sabe se um dia não teremos orgulho de nossas atitudes  pouco simpáticas mas bem mais equilibradas!




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26 de janeiro de 2021

UMA CONVERSA SOBRE CRÔNICAS


 

                    

                           - Taís Luso de Carvalho   


Ontem recebi um e-mail de uma jovem estudante que gosta muito de crônicas. Contou-me ela que tem muita vontade de escrever, mas não sabe como começar. Vi o tanto que é interessante esse assunto que trouxe para partilhar aqui no Blog.

Ler nossos maravilhosos cronistas é o primeiro passo, é fundamental para pegar o estilo, a ideia e a intimidade com a crônica.

Mandei-lhe, então, alguns nomes de peso como Machado de Assis, Raquel de Queiroz, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Ruben Braga, Fernando Veríssimo, Lygia Fagundes Telles, Antônio Maria, Nelson Rodrigues, Carlos Heitor Cony, Moacir Scliar, Martha Medeiros e tantos outros que gosto imensamente.

Somente com o hábito da leitura e com o exercício contínuo da escrita é que poderemos almejar escrever boas crônicas.

Eu disse a ela que foi na crônica que me encontrei, que foi na crônica que me aproximei mais das pessoas. É na crônica que dou a minha opinião sem ser interrompida. Não há espaço para discussões.

Daí poderão me dizer algumas pessoas:

'Mas você tem muita necessidade de dar sua opinião?'

Não é necessidade, o ser humano dá sua opinião de qualquer maneira, chova ou faça sol. Dar opinião é vício. Fazemos isso sem sentir. É da natureza humana opinar.

Nós somos um pouco de tudo; somos um pouco médicos, um pouco políticos, muito professorais, juízes de futebol, e também receitamos remédios para tudo e para todos! Atualmente, vemos pessoas 'especialistas'  em covid 19  receitando coisas do Arco!! 

Então, a crônica é isso, é contar fatos regados a um bom tempero, um ingrediente que fará muita diferença, assim acharemos o nosso estilo.

Enfim, falamos do nosso mundinho e de seus habitantes, meio complicados, tão cheio de histórias  curiosas, algumas engraçadas, outras de pura emoção. É um vasto universo  sendo explorado constantemente.



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17 de janeiro de 2021

VIDAS EM TEMPO DE QUARENTENA




         - Taís Luso de Carvalho


O que é a vida? Era a pergunta do Jornalista Antônio Abujamra aos seus entrevistados quando encerrava suas entrevistas no seu programa - 'Provocações' - na TV Cultura. Os entrevistados, mostravam dificuldade em responder. Pois é, a vida…

Arrisco dizer que a vida é um longo caminho, e que nos desafia a ultrapassar o maior número de obstáculos com muita coragem, solidariedade e responsabilidade.

Um ano de pandemia! O mundo está cansado, mas é preciso seguir em frente, olhar os protocolos para que diminuam os contágios. Há muito gente morrendo, mas continuamos a ouvir coisas desoladoras. Malucas e inacreditáveis. Não é hora para disputas ideológicas! Quanto valem nossas vidas? Quantos exemplos errados!! Quanta irresponsabilidade.

Volta e meia sinto-me vulnerável, uma mistura de sentimentos. Uma nostalgia, um vazio, muita insegurança.  Inúmeras aglomerações continuam a acontecer, o que dificulta bastante o desaparecimento do covid19. Incorporei nesse tempo de pandemia a ideia de desacelerar, pois crescemos escutando uma frase que ficou incutida nesse processo: 

'Deus ajuda a quem cedo madruga (mexa-se!)' 

Milhares de pessoas e empresas optaram por trabalhar pelo sistema Home Office. Outras pessoas ignoram e navegam na onda da vida como se nada houvesse. Tem de tudo um pouco. Mas, continuemos o andar, o essencial é lutar. As vacinas resolverão em parte, sim, mas não serão milagrosas. Precisam de algum tempo. 

Não deram certo as festas de fim de ano, como os infectologistas preconizaram. E agora? Olhem o tamanho da irresponsabilidade!

Como se a pandemia não bastasse, ainda recebemos notícias escabrosas, muitas delas chegam lá da Terra do Tiozão americano do cabelo amarelo  e que muitas atitudes também vemos aqui, no nosso Tiozinho brasileiro. Pois é...

É engraçado ouvir como as pessoas se queixam desse tédio atual. Mas, ao contrário disso, também se queixam quando a rotina é apertada: “Não aguento de tanto trabalho”. Podem ter lá suas razões, mas agora fica fora de esquadro; há grande número de médicos e profissionais da saúde se arriscando para salvarem vidas e que também morrem. É doloroso ver isso.

Há muito tempo que estamos tomando consciência do real,  por que manter o fio de nossa saúde tão esticado? Por que tanta aglomeração? Não há hospital que aguente.

Milhões de pessoas não sabem o que fazer com seu tempo disponível, furam a quarentena e vão se divertir, mesmo num tempo brutal de alto contágio. O que acharão as pessoas que perderam seus pais, seus irmãos ou seus filhos? 

 Muito preocupante, pois esse vírus está fora do controle! A 'imunização de rebanho' só virá com as vacinas. São pessoas clamando por socorro todos os dias!

Foram as vacinas que tiraram o mundo das trevas. E tem gente que não lembra disso!




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9 de janeiro de 2021

MEDO ! - PABLO NERUDA

Gustave Coubert / Le Désespéré, Musée d’Orsay, Paris

 

                            - Taís Luso de Carvalho

                         (David Kundtz - A Essencial Arte de Parar)


Tenho medo do mundo inteiro, disse o poeta Pablo Neruda. O medo da vida é a doença favorita do século vinte acrescenta o autor William Lyon Phelps. De modo que quando deslocamos nossa energia e nosso foco para nossas raízes, é provável que o primeiro sentimento que venha à tona seja o medo.

Todos os sistemas de sabedoria, religião e filosofia concordam em constatar que o maior desafio de nossas vidas somos nós próprios. Se temos medo? É claro que sim. De novo é um poeta que enxerga o que todos nós precisamos ver.

O que é que Neruda nos diz sobre o medo? Eis como interpreto esse poema: (Dr. David Kundtz)

Todo o mundo está tentando me dar conselhos”. Faça isso, faça aquilo! Não faça isso, não faça aquilo! Sei que estou doente, mas ainda estou aqui e ainda estou no comando! De modo que vou ignorar todos vocês e fazer o que é mais importante num momento como esse: encarar os meus medos e encarar o que sempre foi o meu desafio mais sério – eu mesmo.


MEDO


Ficam todos atrás de mim para eu me exercitar,

entrar em forma, jogar futebol,

me apressar, até ir nadar e voar.

Bastante razoável.


Ficam todos atrás de mim para eu me acalmar.

Todos marcam consultas médicas para mim,

me olhando daquele jeito inquiridor.

O que é isso?


Ficam todos atrás de mim para eu fazer uma viagem,

entrar, partir, não viajar,

morrer, e de forma alternativa, não morrer.

Não importa.


Ficam todos vendo coisas esquisitas

nas minhas entranhas, subitamente chocados

com os radiopavorosos diagramas.

Não concordo com eles.


Ficam todos escarafunchando a minha poesia

com seus garfos e facas incansáveis,

tentando, sem dúvida, encontrar uma mosca.

Tenho medo.


Eu tenho medo do mundo inteiro,

medo da água fria, medo da morte

sou como todos os mortais,

incapaz de ser paciente.


E assim nesses dias breves e fugazes,

vou tirá-los da cabeça.

Vou me abrir e me encarcerar

com meu inimigo mais traiçoeiro,

Pablo Neruda.


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   Referência: 

A Essencial Arte de Parar – Dr David Kundtz

ed. Sextante – 2ª edição brasileira 1999 – pg  147- 148 - 149

     





1 de janeiro de 2021

HÁ SEMPRE UM RECOMEÇO

 



                  ___Taís Luso de Carvalho___


Lembro de uma matéria que li na Scientific American Brasil. Tratava-se de um estudo que estava sendo feito por neurocientistas sobre o processo de formação de memórias: para alterar, substituir e até mesmo apagar lembranças traumáticas. Projetos para sermos  mais felizes.

Bem, mais um ano, mais um recomeço! Muitas coisas boas aconteceram até aqui, outras nem tanto. É normal, faz parte do nosso aprendizado quando buscamos um melhor viver. A vida não é um oba-oba e nem tudo é cor-de-rosa.  Muita coisa é bazófia. 

Crescemos, amadurecemos, perdemos, ganhamos, e continuamos, muitas vezes, grudados em fatos acontecidos que nunca tiveram a dimensão que um dia lhes foram atribuídos. Na verdade, penso eu, poucas coisas na vida têm realmente grande importância,  a maioria é firula. Mas estão presentes, e se não cuidarmos ficam ali, na espreita, para um dia virarem mágoas que com o tempo petrificam e nos farão eternos sofredores. 

Seria ótimo esquecer o que não faz mais sentido, coisas que impedem uma felicidade mais duradoura. Seria bom poder esquecer um pouco as dores do passado, atitudes agressivas, invejas e mentiras que guardamos por longos anos. Que peso! É difícil de passar uma borracha? Sem dúvida! Mas não impossível. Há coisas pequenas demais que não valem a pena guardar. Ou revirar...

     Muitas coisas  se vincularam a um passado e que já prescreveu seu tempo de validade. Não devem pesar mais.  Não podem fazer de nós, pessoas   infelizes.

Mágoas, ranços, ingratidões, injustiças… Sim, machucam, mas é preciso uma intervenção drástica para extirpar a infecção e curá-la dentro de nós. É como se tivéssemos um enorme furúnculo —, se deixá-lo por muito tempo, a intervenção será cada vez mais invasiva. As sequelas, maiores. Então, há urgência. 

Reconstruir outra jornada é a meta, mas o bom é aliviar o peso que carregamos. Cada um sabe o que é melhor pra si. E não é por nada que vários neurologistas estão queimando as pestanas para nos dar uma mãozinha generosa. Apagar o peso inútil. E queremos, como não? 

Pensando bem… o que há de tão importante a não ser o fato de levar uma vida saudável e boa, dentro dos princípios honestos? Existem caminhos que dão menos trabalho. E um deles é ser honestos conosco, apesar de certos acenos. É  um atalho e tanto, é a melhor maneira para vivermos uma vida sem sustos, sem arrependimentos. Muitas vezes nos preocupamos com os outros e esquecemos de cuidar da matéria-prima: nós! 

Sentir o saldo positivo da renovação é  'Leveza'. 

Quero isso para mim.




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19 de dezembro de 2020

O QUE É FELICIDADE

 


                     -  Taís Luso de Carvalho


'A felicidade é o melhor remédio contra as doenças cardíacas'. A afirmação foi feita numa palestra dada pelo conhecido médico e cirurgião cardiovascular de Porto Alegre o qual  focaliza  o estilo de vida das pessoas .

Conheço o Dr. Fernando Lucchese: é um daqueles médicos que gostaríamos de ter em cada especialidade que precisássemos: o médico humano, o médico amigo.

Tenho vários de seus livros, e lembro que ao levar minha mãe ao seu consultório, vi no semblante dela (após a morte de meu pai) um carinho agradecido pelas palavras desse médico. Um agradecimento pelo seu interesse. Ela estava frágil, saímos fortalecidas e com confiança.

Segundo o Dr Lucchese, as doenças estão mais associadas com o estilo de vida que se leva do que com o controle dos resultados dos exames. 'De que adianta ter o índice de colesterol adequado se estás infeliz?' - indagou o médico.

'A lógica é esta: estilo de vida = saúde = felicidade = longevidade. O mais importante é o estilo de vida que levamos, seguido do meio ambiente, genética e assistência médica'.

E continua:

'Fazer o que se gosta é mais essencial do que vários exames'. 

Também a qualidade de vida está associada a outros fatores, como a relação com a família e a situação financeira. Um sorriso é mais importante que a beleza; indivíduos que sabem rir de suas fragilidades têm vida mais longa e são mais felizes; ter prazer no trabalho é felicidade certa; não dever dinheiro é felicidade pura; e pessoas espiritualizadas vivem mais felizes por mais tempo.

Nos Estados Unidos foi apresentado um levantamento entre os anos de 1940 e 2000. Foi feita uma relação entre o nível de felicidade das pessoas em relação ao aumento de renda financeira familiar. A pesquisa mostrou que ninguém ficou mais feliz apesar de ter ficado mais rico. Uma situação financeira organizada pode deixar as pessoas mais felizes do que aquelas com excesso de dinheiro e que, em alguns casos, pode trazer mais problemas do que soluções.

 Quantas vezes pensamos que nossa meta de felicidade possa estar numa casa na praia, outra na serra, no carro do ano ou em várias viagens pelo mundo? Mas ao retornarmos das viagens ou termos adquirido esses bens, vamos ver que estamos com os mesmos problemas, com mais dívidas e menos dinheiro. E que nosso interior em nada mudou. Viajar é delicioso, mas não é passaporte para felicidade.

Penso que ser feliz é encontrar nas pequenas coisas a razão de viver; é conseguir viver sem raiva, sem mágoas, sem doenças. Não possuir tais sentimentos é difícil; estamos cercados por pessoas de todos os tipos: pessoas invejosas, mesquinhas, sem caráter. E se equilibrar nesse meio doentio não é fácil. Fácil é absorvermos as impurezas do meio e ficarmos transtornados, sem eira nem beira.

Ser feliz é encontrar a pessoa certa para viver ao nosso lado; é poder ter nosso animalzinho de estimação sem ninguém encher o saco colocando defeito em tudo o que fazemos; é não se meter nas escolhas dos outros; é poder dormir as horas que nosso organismo pede; é encontrar alguém que participe e troque conosco momentos de alegrias e tristezas, e ter a certeza que somos amados pelo que somos.

Seria mais fácil sermos felizes se viéssemos ao mundo já sabendo que um dia tudo acaba; e que daqui nada levaremos, senão o amor que vivemos.

Mas nem isso a gente se dá conta.



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