21 de fevereiro de 2017

PEDIDO DE ADOÇÃO - ADÉLIA PRADO



Estou com muita saudade
de ter mãe,
pele vincada
cabelos para trás,
os dedos cheios de nós,
tão velha,
quase podendo ser a mãe de Deus
— não fosse tão pecadora.
Mas essa velha sou eu,
minha mãe morreu moça,
os olhos cheios de brilho,
a cara cheia de susto.
Ó, meu Deus, pensava
que só de crianças se falava:
as órfãs.



 Referência: Oráculos de Maio- ed Siciliano/São Paulo 1999. - pag 59
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Adélia Prado é um dos mais importantes nomes da poesia feminina brasileira do século XX. A escritora trabalhou como professora por mais de 20 anos antes de se dedicar à carreira literária.
Nascida em 1935 na cidade de Divinópolis, Minas Gerais, Adélia Luzia Prado Freitas é filha do ferroviário João do Prado Filho e de Ana Clotilde Corrêa. Com a morte da mãe, em 1950, Adélia escreve os primeiros versos. Depois, no ano seguinte, começa o curso de Magistério e passa a lecionar. Formou-se também em Filosofia anos mais tarde. Além de poeta é contista, romancista e cronista.
Casa-se em 1958 com José Assunção de Freitas, com quem teve cinco filhos. Nos anos 70, enviou seus poemas para o crítico literário e poeta Affonso Romano de Sant’Anna, que manda para Carlos Drummond de Andrade que sugere a publicação dos escritos de Adélia e que faz, inclusive, elogios à autora no Jornal do Brasil. Assim, o livro Bagagem é lançado em 1976 com a presença de convidados ilustres, como Juscelino Kubitscheck e Clarice Lispector. O coração disparado, de 1978, ganhou o Prêmio Jabuti.
Obras / Poesia:
A Lapinha de Jesus - 1969 - em parceria com Lázaro Barreto
Bagagem - 1976
O Coração Disparado - 1978
Terra de Santa Cruz - 1981
O Pelicano - 1987
A Faca no Peito - 1988
Poesia Reunida - 1991
Oráculos de Maio - 1999





15 de fevereiro de 2017

UM MUNDO MARAVILHOSO


- Taís Luso
Diria que a felicidade e a tristeza caminham de mãos dadas, se alternam no curso da vida. Então nada como evocar esse planeta maravilhoso a fim de recarregar nossas emoções. Estou com saudades de um mundo exuberante, de ver a pureza dos animais, a flora, as rochas, o mar, os cânions. De ver a criação... Nada mais.
Quero esquecer um pouco esse mundo repetitivo, onde  vemos cenas de terror por toda a parte. Deixar que as imagens e sons me carreguem um pouco mais. E me fortaleçam.
Vejo, então, o vídeo de Louis Armstrong com seu maravilhoso What a Wonderful World, gravado em 1967 - numa época em que o clima político e racial nos Estados Unidos estava muito pesado.
Mas falando do meu país, estamos vivendo numa fase de muita desarmonia, de crises sucessivas, um clima de indecência, de imoralidade, de insegurança resultando em crimes de ódio.
No Brasil, não tem quem não conheça a ‘célebre e filosófica’ frase de um malandro sem neurônio:
O importante é levar vantagem em tudo, certo?
Esta frase está numa seara infeliz e doentia. Não há mais lugar para disparates. Esperamos a moralização do país, coisa difícil. Mas reverter esse quadro de agonia não é para agora – e se reverter.
Sentir medo é uma das piores sensações. Jamais encontraremos bem-estar e paz fora dos padrões reais e verdadeiros da ética e da moral.
Mas quem sabe, as futuras gerações...isso é para longo prazo.

Um Mundo Maravilhoso - Veja!!




11 de fevereiro de 2017

LEMBRANÇAS - O VESTIDO

Obra de Márcia Marostega / RS - Brasil

          - Taís Luso
    
 Há poucos dias tive uma intoxicação alimentar, perdi as forças para vir ao computador. Fiquei deitada, muito enjoada, parecia que ia morrer. Mas a cabeça não parou de pensar. Morrer cheia de ideias. E comecei a trazer recordações. Encontrei lá nos escombros da minha caixa-preta, pequenas lembranças que fazem a vida dos mortais mais leve. Não sou descendente de rainha ou de alguma dinastia chinesa. Bem que gostaria de festejar 65 anos de reinado, morar num palácio e com milhares de chapeuzinhos charmosos enfeitando minha cabeça. Mas como não sou amiga de chapéu, nada feito.
Lembrei, para passar o tempo, de uma viagem que fiz com meus pais para o Rio de Janeiro. Tinha 15 para 16 anos – faz muito tempo.
Minha mãe e eu resolvemos torrar o dinheiro do meu pai pela Av. Copacabana. Uma Copacabana ainda charmosa. Lá pela metade da avenida, gostei do vestido de uma loja, linda era a estampa, e um colorido de bom gosto!
Compramos. Saímos felizes. Lembro que também comprei sapatos e outras coisas. Mas adorei aquele vestido, nunca o esqueci. E lembro da minha surpresa no dia do meu aniversário de 16 anos.
Convidamos os parentes, as amigas do colégio, vizinhas etc. Foram chegando com seus presentes e, de repente, surge um pacote na minha frente, com a mesma estampa do meu vestido!!! Olhei o pacote... e nele dizia o nome de uma rede de lojas de departamentos bem conhecida - aqui no Brasil. A estampa do papel de presentes era o meu vestido... Inacreditável! Comprei o vestido no Rio de Janeiro e o papel apareceu em Porto Alegre!!
Caramba!! No dia seguinte dei o vestido para a filha da nossa empregada. Mas com pesar, pois continuei a achar a estampa linda. Mas nunca sairia embrulhada no pacote de presente de lojas conhecidas!
Depois de tantos anos, continuo a lembrar daquele vestido, mas agora com uma imagem saudosa de uma época que não volta mais. É engraçado como as coisas desagradáveis que acontecem em períodos de nossas vidas, anos mais tarde se modificam totalmente. Acho que a vida não nos leva muito a sério, nos devolve os fatos em lembranças hilárias para ver se aprendemos alguma coisa! 
 Se aprendemos a levá-la com mais leveza.


2 de fevereiro de 2017

O QUE É ARTE PARA VOCÊ?

Os Retirantes / 1944 -   Portinari

   - Tais Luso
 Quando me deparo com uma obra de arte, vejo seu lado estético, sua linguagem e a mensagem que está inserida nessa obra. Vejo suas cores e seus traços.
Admiro obras que retratam a nossa história, o nosso cotidiano, as injustiças sociais, a brutalidade e a miséria. Cumprem, aí, a sua mais nobre missão: a de retratar os fatos, de protestar e de clamar por mudanças. Através da arte o artista manifesta suas próprias emoções, que não deixam de ter seu lado belo.
Também vejo a Arte que alegra o espírito e prima pela beleza: são as paisagens, cenas de bar, marinhas, festas, flores, retratos, cenas familiares. Ou outras imagens que levam paz, como a arte Sacra, por exemplo. Tudo entre belas e coloridas nuances.
Através da arte a humanidade relatou sua história. O homem deixou suas pinturas nas cavernas, importantes para o estudo da nossa espécie.
Gostar de uma obra é um sentimento pessoal, e depende da sensibilidade de cada um. Não são todos que gostam do Barroco, do Romantismo, Cubismo, Realismo, Impressionismo, Surrealismo, Pop Arte. E o artista é aquele ser especial dotado de técnica, de espírito crítico, de criatividade.
Mas o triste é o que se vê em algumas exposições ou em Bienais:
Uma porção de tijolos empilhados: é arte. Tocos de madeira cercados de arame, é arte. Uma montanha de pneus acompanhados de uma placa qualquer: é arte. Paralelepípedos colocados em sequência, é arte. Palitos de fósforos colados numa placa, é arte. E o sofrimento de animais, com fome, numa exposição, será arte? Pois é, aplaudir o sofrimento em nome da arte! Então fica difícil de entender e de captar certas mensagens. Fica difícil rotular isso de arte.
Vejo arte em vários museus, galerias, residências, oficinas e igrejas. Vejo obras dos grandes mestres, de todas as épocas, de todos os movimentos e depois dou de cara com algumas coisas inéditas e que minha sensibilidade tem de se amoldar rapidamente. Impossível.
Não tem como eu achar que uma tripa de ferro velho é um avião, e que as asas ficam para minha imaginação. A proposta para que o observador solte sua imaginação, deve, ao menos, partir de um princípio: dar um indício para poder se chegar a algum ponto. E a liberdade, de gostar ou não da obra, é um direito indiscutível de quem a vê.
Arte, para mim, é quando ela tem a capacidade de emocionar ou quando dá prazer em olhar e descobrir detalhes, técnica e transmitir alguma mensagem dentro de uma lógica. Enfim, ver uma obra inteligente.
E quem quer interagir precisa ser um pouco mais claro. É a lógica que se espera. Essa comunicação existe desde a antiguidade, existe na pintura clássica, moderna, contemporânea, enfim. Em todas os períodos e movimentos.
A arte tem de ser uma manifestação democrática. Mas não é por ser democrática que pode exceder limites. E cabe aos que veem, compartilhar ou não; gostar ou não. Temos de expressar - sem medo - nosso gosto, como fazemos em diversas artes. Por que é aceitável não gostar de uma obra literária, de jazz, de música clássica... e o mesmo não se dá com a Arte em si? Por que o não gostar de uma obra de Arte ou de um Movimento torna-se quase uma agressão e gera discussões intermináveis? Há algo de errado; há uma paixão acima da razão. E fica difícil quando alguém é dominado pelo medo e pelo constrangimento.
Portanto, é direito legítimo de cada um manifestar-se contra ou a favor; se gosta ou não gosta.




Meu outro Blog: Das Artes  💜





25 de janeiro de 2017

UM TANTO BELOS, UM TANTO FERAS



            
                - Taís Luso

Quando estávamos chegando da rua, sentimos um forte cheiro de queimado no saguão do prédio, no elevador, no nosso apartamento. Em poucos minutos muitos moradores dos prédios vizinhos estavam no canteiro central da rua. Motivo? Um apartamento do prédio ao lado do nosso estava em chamas devido a uma vela esquecida... A fumaça vinha muito para o nosso prédio.  Fechamos os vidros, vimos que nada acontecera e descemos por motivo de segurança.
Mas o que muito me sensibilizou foi o trabalho do Corpo de Bombeiros. Em minutos estavam no prédio. Vendo esses heróis correndo para dominar o fogo do outro edifício, e as sirenes nervosamente pedindo caminho, confesso que fiquei com nó na garganta. É uma situação que altera todas nossas emoções. Uma mistura de sentimentos, um caos.  Tudo fica por um fio. E são situações assim que nos levam a pensar no lado sério e dramático da vida. Emoção combina com superação, heroísmo e solidariedade. E vi muita solidariedade e emoções nessa manhã conturbada.
Tudo fica ótimo quando nos deparamos com situações agradáveis: pessoas sociáveis, delicadas e solidárias. Mas, por outro lado também nos deparamos com outro tipo de gente, que pouco valem. E como o ser humano é feito de várias misturas, de genes, de DNA que transmite caracteres próprios, nada é fácil. 
E sentimentos assim nos levam ao desânimo, e a reconhecer que somos belos, de espírito, mas também extremas feras. Fica uma situação ambígua: o desejo de aproximação como também o sentimento de cair fora na mínima desconfiança. E isso existe nas famílias, nas amizades, na faculdade, no trabalho, no lazer. Presente em todos os setores.  Por vezes cometemos injustiças, tamanha desconfiança que vêm de águas passadas. É aquilo que sabemos: a dor ensina a gemer.
Então vem a pergunta: afinal, o que é mais forte, o que mais predomina na raça humana? É o herói que salva, que comove, que chora, que acolhe, que doa órgãos, que constrói maravilhas, que pesquisa em prol da vida, ou é aquele que engana, que trucida, que mata, que tortura, que estupra, que crucifica,  que aprisiona e que faz as guerras? As atrocidades estão tão descontroladas que não sei o que pensar. O que sei é que somos a única espécie que encontra na tortura um  enorme prazer .
E ficamos nesse sentimento dúbio, uma hora amamos os bons, noutra odiamos aqueles que não passam de exterminadores  numa sociedade que só quer viver em paz. 
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18 de janeiro de 2017

O SILÊNCIO É DE OURO...



- Taís Luso

Essa é uma das atitudes mais difíceis a serem tomadas: silenciar. Na maioria das vezes, seja nos relacionamentos familiares, no trabalho ou na roda de amigos, é preciso usar dessa estratégia, do silêncio. Sentir o ponto exato de calar não é fácil. Podemos mostrar nas entrelinhas do silêncio, algo que cale mais fundo do que uma palavra provocativa. Um olhar substitui muitas palavras.
É de se pensar naquelas intermináveis discussões onde as acusações predominam. Todo aquele que acusa com certa agressividade, jamais voltará atrás. Seu orgulho não pode ficar ferido! Já está tomado pela paixão e vaidade que uma discussão acarreta. Mas nada daquilo colocado em confronto vale mais que a paz ou merece uma noite de insônia.
Porém, se o silêncio for mal usado, se o silêncio for para encobrir uma mentira não será silêncio, será uma grande injustiça. É uma linha muito tênue a observar nessas horas. Nesse caso a palavra se faz necessária, o silêncio não atingiu sua finalidade.
Não raro confundimos silenciar com omitir. Silenciar é zelar para que o estrago não seja maior. Calar em nome do bom senso. Eu já me arrependi de ter falado, porém nunca me arrependi por ter ficado calada. Não deixaria que alguém fosse condenado se minha palavra servisse para inocentar.
Segundo Sêneca os desgostos da vida nos ensinam, cada vez mais, a arte do silêncio. E um dia cada um aprenderá a medida certa para ser mais feliz.

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Existe no silêncio uma tão profunda sabedoria que às vezes
 ele se transforma na mais perfeita resposta!
(Fernando Pessoa)


12 de janeiro de 2017

A ÚLTIMA LEMBRANÇA



                   - Taís Luso  
                 
Eles formavam um bonito casal, ainda daquela geração em que havia namoro, havia noivado e após alguns 'estudos', casavam. E casaram jovens, e formaram seu ninho com dois filhos. Viveram quase 60 anos juntos. E se a saúde permitisse, iriam além. Sempre juntos, iam e vinham, viajavam, como também seguiam sua religião com fé. Os dois viviam para si e para os filhos. Ele, profissional liberal bem-sucedido, ela, uma feliz dona de casa, da época. Ambos tinham muito carisma, fáceis de fazerem amizade.
Chegou um dia que ele, já na sua longa vida, adoeceu. A família, naturalmente ficou aos frangalhos, pois era excepcional pai e marido; era um homem que falava pausado, que dava espaço para possíveis explanações dos outros. Era um provedor responsável, o pai carinhoso, o marido fiel.
Mas sua doença foi se alastrando, e com resignação continuava suas atividades normais, até onde sua doença permitiu. Mas chegou um momento em que nada mais lhe fora permitido... a vida lhe fora arrancada com brutalidade. Ele partira apenas quinze dias antes de completarem 60 anos de casados... Foi terrível para ela viver aquele dia tão sozinha, a lembrança tão sonhada: os 60 anos de vida em comum.
Mesmo com os dois filhos e netos sentia suas noites vazias, de enorme solidão. Adormecia sempre escutando a voz do marido gravada nas fitas em que enviava para a rádio, falando sobre temas religiosos e filosóficos.
Um ano se passou, mas ela não adaptou-se à solitária vida, não encontrava mais razões para continuar o caminho sozinha.
E no dia em que ela completaria 80 anos de idade, a vida colocou seu ponto final naquela trajetória já tão sofrida; veio a falecer ouvindo a voz de seu amado nas fitas que escutava todas as noites. Foi como um chamado talvez para continuarem juntos, num outro plano, quem sabe. A família compreendeu que não havia mais o que fazer.
E a última lembrança se fez saudade.


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6 de janeiro de 2017

FERNANDO PESSOA - Ter Saudade é Viver

             
                                      Rua Augusta - Lisboa
                          

                    TER SAUDADES É VIVER

                    Ter saudades é viver
                    Não sei que vida é a minha
                    Que hoje só tenho saudades
                    De quando saudades tinha

                    Passei longe pelo mundo
                    Sou o que o mundo seu fez,
                    Mas guardo na alma da alma
                    Minha alma de português.

                    E o português é saudades.
                    porque só as sente bem
                    Quem tem aquela palavra
                    Para dizer que as tem.

                    

A vida de Fernando Pessoa desenrolou-se entre Lisboa e Durban (África do Sul). Nessa cidade viveu cerca de 10 anos, na sequência de um segundo casamento da mãe; foi lá que fez a sua formação escolar, em língua inglesa. De regresso à Lisboa em 1905, inscreve-se no Curso Superior em Letras, mas não prossegue os estudos. Dedica-se então a uma vida profissional como funcionário de firmas comerciais. É um paralelo com sua atividade de correspondente comercial que frequenta tertúlias, dirige publicações culturais (como Orpheu), colabora em jornais e em revistas literárias e escreve obsessivamente. Apesar dessa dedicação quase compulsiva à escrita, são escassos os livros que publica em vida: Antinous (1918) 35 Sonnets (1918) English Poems I - II - III (1921) e Mensagem (1934).
Morre em 1935, e só quase meio século depois  foi editado pela primeira vez em 1982 - o Livro do Desassossego, por Bernardo Soares.
No ano em que morreu, endereçou a Adolfo Casais Monteiro uma carta em que explicava a gênese dos heterônimos, a sua configuração como ortônimo e diversos aspectos da sua personalidade literária. Fernando Pessoa elabora nessa carta um meticuloso testamento literário, destinado a fixar a sua imagem post mortem. No centro dessa imagem está a questão do desdobramento, um processo tipicamente modernista, apreendido por Pessoa em tendências da poesia europeia do fim do século XIX, que ele aprofundou até ao extremo que o seu gênio poético consentia. 
Pessoa não é um sujeito único, mas vários; segundo ele, a diversidade e o culto da alteridade instaurada pela heteronímia tem uma origem infantil, mas só num dia determinado nasce o primeiro heterônimo.
No chamado dia triunfal - 8 de março de 1914 - surgiu Alberto Caeiro, o mestre dos restantes heterônimos. Após vieram Álvaro de Campos e Ricardo Reis.
Depois vieram Bernardo Soares, e os menos destacados Alexander Search, António Mora, Vicente Guedes etc.
Contudo, não se esgota nessa deriva a personalidade de Fernando Pessoa (ele mesmo), completada por uma fecundíssima vocação para a reflexão cultural, política, ideológica, sociológica e filosófica; é essa vocação que se pode ver no acervo pessoano já publicado.
Por tudo, Fernando Pessoa é hoje o principal elo literário entre Portugal e o mundo. A sua obra em verso e prosa é  mais plural que se possa imaginar, pois reúne as múltiplas facetas nascidas de suas figuras literárias, todas ele próprio.
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(fonte: Guia de Leitura / L&PM - pág 98)
Fernando Pessoa / POESIA - Companhia Das Letras - pág 372

Enviado pela amiga Amelia Filizzola . Fernando Pessoa no bairro Chiado / Lisboa 
- na cadeira de um bar onde escrevia seus textos.
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< Tudo vale a pena quando a alma não é pequena! >
1888 / 1935 Lisboa




1 de janeiro de 2017

O PESO DA MÁGOA





                     - Taís Luso


Acabaram-se as festas, já entramos na rotina de 2017, que nada mais é do que a continuidade do ano que se foi: com desejos e promessas a cumprir, com vontade de mudar nossa essência, com esperanças de um percurso melhor. Para mim nada muda, se algo mudar não se restringe à mudança de ano. Não existe essa festa no meu calendário. Na verdade é um calendário sem tréguas. Não é pessimismo, apenas a realidade sem fantasia. Coisas boas, e outras nem tanto acontecerão. Como sempre foi.
O tema de hoje é uma reflexão de ontem, dos fogos, dos shows, dos abraços no mundo inteiro. A esperança de milhões de pessoas a brindar o ano que vai entrar. E não tem nada de hilário esta crônica, não conseguiria e nem pretendi encarnar uma personagem assim, hoje. Estou virada para sentimentos, em especial às mágoas que não sucumbiram junto ao ano que passou. Um sentimento tão sério, tão importante de falar, e que virou até música: Gota D'água - de Chico Buarque...

Deixe em paz meu coração  🎶
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
 Pode ser a gota d'água...

Um dos piores sentimentos para mim sempre foi a ingratidão, mas agora não mais: a mágoa é mais devastadora, é a prima preferida do abandono. É mais forte do que o amor e o ódio, é o amor não correspondido, é a desatenção encontrada abruptamente. As pessoas perdem seu norte. A mágoa coloca distante qualquer relacionamento onde falte atenção, carinho e verdades, e mesmo no amor, pois as exigências são cada vez maiores. Um saco sem fundo.
A mágoa pode até nos impulsionar para a superação, mas ela em si, não passa. Fica à espreita... Quantas pessoas se afastam de amigos e de parentes? Será raiva, ódio, despeito, hipocrisia, inveja, tristeza, desgosto? Não, são as mágoas! Tudo isso fica no cadinho da mágoa. Esse afastamento é proteção, é dor, é um sentimento de abandono que aconteceu. E assim somos nós: criaturas de difícil entendimento e de difícil convivência. Todos estamos bem quando há uma festa ou uma tragédia que evoque solidariedade; essa solidariedade quando coletiva funciona bem, emociona, são forças se unindo em prol de alguma coisa maior e que foge da nossa intimidade, das nossas vaidades, tudo muito diferente quando a falta de verdade atinge um único ser.

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Dedico essa crônica - primeira de 2017 - ao meu marido, Pedro Luso, a pessoa que mais admiro, pelo seu caráter, pela sua integridade.
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26 de dezembro de 2016

MEU CABELO, MINHA VIDA...




         - Taís Luso

      Ontem foi um dia de cão. E não estava no meu esquema. Na verdade fui só renovar minha carteira de Habilitação. Coisa básica. Mas é sempre uma tortura tirar uma fotinho sem qualidade nos computadores dos centros de habilitação para motoristas. Me enchi de coragem, olhei pra máquina e...
       — Espera moço!! Posso fazer um sorriso discreto, o rosto ficará mais leve...
       — Não; não pode mostrar os dentes, senhora...
Mostrar os dentes?? Credo, que coisa primitiva. Falei que estava pensando num sorriso estilo Monalisa, aquela coisa enigmática… e de boca fechada. Mas a criatura não entendeu nada, deve ter confundido Monalisa com marca de bolacha, compota de pêssego… Mas achei melhor deixar assim. Explicar quem foi Monalisa confundiria a cabeça do rapaz. Ele não esperou e clicou o botão da máquina, com gosto, sem piedade.
       Olhei a foto…
       — Que coisa horrorooosa!!! — disse isso, e nada mais.
Cheguei em casa e me olhei no espelho sem pena de mim. Talvez meu cabelo meio comprido não tivesse ajudado na foto. Ou talvez preconceito com a tal máquina, endureci a cara, sei lá. Odeio fotos 3 por 4 - me levam 10 anos de vida útil.
No dia seguinte resolvi ir ao Salão para cortar as melenas! Um corte mais curto, de acordo com meu tipo.
       — Tens certeza que é esse corte, Taís ? - perguntou a cabeleireira.
       — Sim, igual a essa foto Quero bem assim, amiga!
Ela estava cortando um pouco rápido, mas eu estava confiando. Acabado o corte, saí do salão pior do que cachorro em procissão: apavorada! Não quis discutir com a criatura o tanto que ela errou, mesmo porque eu nunca mais voltaria lá. Cheguei em casa, fui ao espelho e desandei a rir Depois me indignei, pois fiquei com cara de travesti. E não tem outro jeito senão esperar uns dois meses para que o cabelo atinja um tamanho mais ou menos decente. Mas uma pergunta que não quer calar: como sairei de casa? E a reação da minha família? E a cara dos conhecidos? Meu   Deus... Deus meu!
     Deixei a dramaticidade de lado, e pensei nas mulheres de Atenas e suas melenas; pensei nas mulheres de Burca… Eu precisava pensar em alguma coisa mais forte  para sobreviver. E encontrei uma solução temporária, embora quente e desagradável: achei no Google um maravilhoso turbanteTá provado o tamanho do estrago: dois meses de turbante marroquino num verão tropical! Mas irei atrás.

Foto da Internet




15 de dezembro de 2016

O PIPOQUEIRO DO MEU BAIRRO




- Taís Luso

Ontem, ao voltarmos do almoço, e quase entrando em nossa rua, eu e o meu ilustre avistamos ele, o pipoqueiro, com sua carrocinha psicodélica, perfumando a rua com o cheirinho de pipoca doce. Ao nos avistar, o homem abriu seu sorriso, nada econômico. Não é todo dia que temos o sorriso de um pipoqueiro; não é moleza empurrar carrocinha e esperar pelos desocupados que querem comer a pipoca que os outros fazem - assim como eu. Naturalmente, ele conhece todos os moradores do bairro e adora um bate-papo. Deve ter lá seus sessenta aninhos, bem alegres - o que lhe acentua um ar mais jovem.
Parar naquela carrocinha foi nostálgico, mesmo depois do almoço. Bate uma vontade louca de comer pipoca, de voltar no tempo. De estancar esse louco relógio da vida. E pipoca é marca registrada de infância, onde pipoqueiros e sorveteiros andavam pelas ruas, empunhando uma corneta, e avisando à criançada a hora do lanche. Então mergulho na minha infância, com meu coração em festa e sem cerimônias. Não é pipoca de micro-ondas, é pipoca de carrocinha! Um ritual que me agrada. Mas a razão dessa crônica, não é a pipoca, é o pipoqueiro!
Homem simpático, sabe falar e adora música. Mas vejam as músicas que a criatura escuta: jazz, tango, MPB, música Italiana, fado. Mas Ué!!... Logicamente demos corda no homem, pois seria interessante ver até onde iria sua história.
Pois bem, sendo a figura  fissurada em música,  nos contou que gostaria de ter sido cantor. E eu, já escrachando, lhe disse que gostaria de ter a voz da Nana Mouskouri ou da Sara Brightman - parecem anjos cantando... Para minha surpresa, perguntou-me se eu já tinha escutado a Sara cantar Chanson D'enfance! Disse-lhe que era uma de minhas preferidas. Pedro, até então postado na sua observação, entrou mar adentro depois do pipoqueiro falar em jazz. Pronto!! Bombou a conversa! E logo veio o tango de Astor Piazzolla, que o pipoqueiro conhecia um monte!
E pensei de imediato que mistério haveria naquele homem, uma vez que pipoqueiro e jazz não combinam muito? E mais Astor Piazzolla?? Mama mia... Só faltaram os clássicos. Mas agora lembro que ouvi ele dizer que gosta demais de Andrea Bocelli...
Enquanto ele enchia o pacote de pipoca e a conversa rolava  caminhando pelos labirintos da vida, descobrimos que o pipoqueiro, até pouco tempo, era animador de eventos! Carregou  o seu arsenal musical por anos a fio.
Só faltou uma coisa: descobrir o que teria acontecido! Mas eu jamais perguntaria sobre isso. Já está de bom tamanho as surpresas que a vida nos apresenta. Talvez um dia pergunte de suas leituras preferidas. Mas juro: se o cara me disser que lê Faulkner, Joyce, Baudelaire, Tchekhov, Nietzsche... Aí me mato!
Ou vou vender pipoca... Leve e solta.