12 de novembro de 2018

NOSSOS VIZINHOS






    - Taís Luso


Não se trata do filme de Alfred Hitchcock, mas das janelas dos nossos vizinhos: dos meus, ou dos seus, quem sabe. Todos temos vizinhos, e cada um com um currículo diferente. Alguns, com histórias escandalosas, outras, muito hilárias.
Conheci, há uns anos, uma vizinha chamada Eunice, morava a dois prédios do meu, portanto vizinha de quadra. De vez em quando nos encontrávamos no bairro e conversávamos um pouquinho sobre amenidades. Nossos pais se conheciam, daí nasceram as conversinhas. Fui ao seu apartamento buscar um livro de artes, que ela fazia questão de me presentear antes de mudar-se do bairro.
De volta para casa passei pelo seu apartamento, era a hora em que ela estaria em casa. Eram 19:00 hs, já noite. E entre uma conversinha e outra, notei que ela espiava muito pela janela,  fiquei um pouco intrigada com sua atitude. Mas logo ela se entregou, contou-me que, da janela dela, avistava a vizinha que morava embaixo de seu apartamento: a 'Martha Rocha'. Eu não conseguia entender como ela conseguia enxergar alguém que morava embaixo do seu apartamento. Somente se dependurando de cabeça para baixo! Então foi quando me chamou e perguntou-me se eu não estava avistando a Marta Rocha!?
Aproximei-me da  janela: procurei pela Martha Rocha, a  famosa Miss Brasil que perdeu de ser Miss Universo por 2 polegadas! Fiquei muito curiosa para vê-la. Fiz um esforço de cão, e nada de achar a mulher! Então ela apontou para uma janela do edifício ao lado, e disse-me: ‘olhe para aquele vidro da frente, olhe ali ela sentada!!’ Sim, refletia o andar abaixo do dela! Meu Deus, entendi!  E pensei: cruzes, onde vim parar?!
Falou-me da solidão da Martha, da comida da Martha, dos cabelos da Martha... Fiquei com muita pena da nossa eterna miss. Mas, deixei que a maluca me contasse tudo.
Contou-me as coisas olhando para a janela. Realmente achei a nossa Miss Brasil muito decaída, fiquei com pena. Magrinha, a pobrezinha, mas ainda com aquela vasta cabeleira loira, tão conhecida. Só não conseguia entender o porquê da Martha Rocha morar aqui em Porto Alegre tendo tantos amigos da sua época no Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo...Sua vida sempre foi lá. Então veio o inusitado:
Tais, ela não é a ex Miss Brasil; eu lhe chamo assim porque ela usa o cabelão da  Martha Rocha!
Consegui entender tudo: a mulher era louca. Feito isso, chamou minha atenção para a outra janela querendo me contar a história do outro vizinho esquisito, que comia pizza, diariamente, e que a pediu em casamento... Mas ela não gostava de pizza...! E dei um sorriso, fui discreta. E começou a contar...
- NÃO!! Preciso passar no supermercado, fica pra outro dia, querida!
Deu-me um nervoso. A mulher tinha mais janelas e mais histórias! Dei um jeito de sair logo, e na pressa esqueci o livro em cima do sofá.
Outro encontro? Nem morta.




4 de novembro de 2018

APENAS UM AMIGO...



          - Taís Luso    (conto)

Mais uma madrugada e mais outro amanhecer, sempre o mesmo ritual: a noite despedia-se enquanto surgia a tímida luminosidade do amanhecer.

Mariana permanecia no sótão da casa entre telas e pincéis. Ali em seu atelier, ela dava vazão às suas emoções, colocando em cada pincelada um pouco de seu espírito, por vezes melancólico e solitário. Os suaves e disciplinados acordes uniam-se em melodias que lhe tocavam o coração: as Ave-Marias de Gounod, de Shubert, de Donati...

Não demorou muito para que ela largasse as telas e desse descanso aos pincéis. Já cansada, debruçou sua cabeça sobre a mesa e passou a refletir sobre sua vida, seus encantos e desencantos, seus afetos, seus amigos, sua família.

Simpatizante da filosofia budista questionava-se, também, sobre a reencarnação e outros tantos caminhos. Mas até aquele momento não chegara a um consenso. Ao mesmo tempo em que estava sintonizada com a estética, estava em dissonância com seus valores e com sua espiritualidade.
E ali viu-se só.

A música inundava o atelier amenizando sua solidão. As tintas e os pincéis, antes deixados de lado, agora testemunhavam os abafados soluços de Mariana. O tempo foi cumprindo o seu percurso até que Mariana levantou a cabeça como se estivesse emergindo de profundezas. E fixou, ao acaso, seu olhar num quadro esquecido, dependurado e coberto num canto do atelier, quase diante de sua mesa, ao lado de objetos insignificantes.

Com curiosidade, levantou-se e removeu um pano que encobria o quadro que havia pintado há muitos anos. Um pouco surpresa, ficou a olhar aquele rosto de expressão suave, olhos cheios de ternura e os cabelos castanhos caindo sobre o belo rosto, numa suave harmonia.

Voltou à mesa e dali ficou a observar aquela expressão tão singular: um olhar que não recriminava e lábios que não acusavam. Talvez ela tivesse descoberto, em algum recanto de sua alma, sentimentos de generosidade e complacência. E pintara um retrato comprometido com esses sentimentos e com suas carências.

Já menos amargurada, levantou-se e substituiu a música: colocou “Chanson d’enfance” e enterneceu-se como se buscasse um afago; queria sentir apenas a alegria do momento, e ter uma paz que não oscilasse. E assim ficou por bom tempo, recostada no sofá, deixando-se conduzir pelos suaves acordes.

Mais tarde aproximou-se do quadro e fixou seus olhos na pintura:

- E agora Amigo? Estamos aqui sozinhos, frente a frente... Mas nada ouso Te pedir, guardo na memória a tua Via-Sacra... Mas procuro apenas alguém que me escute, que retorne comigo à infância, e que compartilhe de meus projetos; ainda que pequenos projetos; e que na solidão de minhas madrugadas esteja presente...

Sinuoso, o sol invadiu o atelier deixando uma sensação de conforto. Mariana caminhou em direção ao quadro, beijou o meigo rosto e encostou a porta...
- Até amanhã.


Ave Maria / Gounod

29 de outubro de 2018

A VELHICE




             - Tais Luso de Carvalho

      Ontem à tarde, assentei meus olhos em uns escritos sobre a velhice, de Marco Túlio Cícero, filósofo de escrita elegante. Mas, encontrei algumas coisas com ímpetos um pouco patéticos, muito comoventes em relação aos velhos e à morte. Foi um tanto desconfortável, e fiquei a refletir.
Confesso que algumas coisas me abateram, é difícil admitir que a perspectiva de morrer seja natural para os velhos. Não por acreditar na nossa perpetuação, somos finitos, mas por ter a consciência de como e em que circunstâncias os velhos se aproximam do fim. Nenhum velho desapega-se da vida de uma maneira natural, aceitando conformado o que lhe é arrancado com brutalidade. Eles calam, silenciam, encobrem. Mas eles pensam, sentem e, quando a sós, choram... E isso é tenebroso de vermos.
Enquanto estiver existindo lucidez, existirá o instinto de conservação, o apego à vida. A esperança.
Não contradigo, no entanto, que os velhos não possam perceber a morte, porém não com resignação, mesmo acreditando-se que possa existir outra vida.
Fiquei algum tempo a pensar na morte, o que não me foi nada agradável, pois sou uma pessoa alegre e otimista. Mas isso se deu pelas minhas primeiras perdas, já que nunca tinha me deparado com tal sentimento, com esta situação dilacerante da perda de alguém tão próximo. E aos poucos.
Penso que o ato de morrer deveria vir como um presente, como uma dádiva D'Ele, sem sofrimento e sem dor, tanto para os que vão, como para os que ficam. Até como recompensa por nossos velhinhos terem sido corajosos, por terem trilhado caminhos difíceis ou vivido, alguns, numa festança quiçá equivocada. Seria um ato de misericórdia. Sei que estou sendo utópica, mas se assim fosse, amenizaria um pouco nosso sofrimento.
Ver e sentir tal dor de perto e achá-la natural não existe, o que existe é um conformismo. Acredito nisso. E surgem as perguntas - algumas já conhecidas. E nenhuma resposta.
O ser humano sempre precisou acreditar na perpetuação da vida através do espírito. Não importando o caminho. Confesso que eu ainda não sei de nada, até gostaria de acreditar em muitas coisas. Desde sempre o homem procurou acreditar em um Deus. Ter fé é como ter um coringa; é sorte e um privilégio.
Os homens sempre foram em busca de um Deus, seja em Cristo ou venerando o Sol, a Lua, como no princípio da vida, ainda nas cavernas. Enfim, o homem sempre acreditou em vários elementos onde um ser superior pudesse ser representado com grandeza e perfeição para atenuar nosso morrer ou nossa 'passagem'.
Porém, se ao ter lido aquele trecho de Cícero fiquei com uma sensação desconfortável, mais tarde recuperei-me com a paz e a doçura de Gilberto Freire quando diz:
"Venha doce morte... Não, a morte não é doce, mas peço a amarga morte que ela venha docemente..."
Seria um sonho se assim fosse: tanto para os que têm fé como para outros que ainda buscam encontrar a sua paz.
Espero, no entanto, quando meu dia chegar, quando meu olhar tiver o brilho opaco da despedida, que eu tenha a doce ilusão de que a morte não me venha tão amarga, que me toque docemente e, sobretudo, com compaixão.

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Esse texto foi escrito  após o falecimento de meus pais - o que muito me custou. Muito difícil de entender o  real sentido de tudo. Ter visto, sentido tão de perto...



19 de outubro de 2018

TEMPO DE ELEIÇÕES



                     
                    -Taís Luso

Essa crônica não é um texto político-partidário, não é para defender ou acusar partidos, ideias ou pessoas. Não é esse o meu objetivo aqui. 
Percebo que estou com dificuldades - nesse clima de eleições,  em escrever uma crônica que contenha alguma substância. Está difícil de criar um texto. Há momentos que  me levam da emoção à perplexidade!
Vivencio, de certo modo, uma campanha eleitoral muito agressiva, através das televisões, rádios e de todas as redes sociais.  É natural um estresse nessa altura dos acontecimentos,  um dos momentos mais importantes da vida do Brasil. Confesso que para escrever o post anterior a este,  tive de ler muita poesia para voltar à leveza d’alma.
 A campanha pelas Redes Sociais é gigantesca. Impressionante. Somos quase 150 milhões de eleitores. Em segundos tudo é despachado para que as visualizações viajem a todos os cantos  do país  e rompa fronteiras para alcançar os brasileiros que se encontram fora do Brasil.
Na política, uma das piores armas é a palavra; palavra que propicia mentiras corrosivas – com as quais me sensibilizo muito. Daí a minha expectativa pelo dia 28 de outubro, e também a ânsia que tenho pelo dia seguinte.
Espero que após essas eleições, as pessoas reflitam sobre seus atos agressivos, tudo o que ouviram e disseram, movidas pelo rancor e pelo ódio, e que haja reconciliação  e  paz. 
Aguardemos, pois, pelo retorno à educação e à gentileza. Aguardemos pelo bom convívio entre pais e filhos, parentes e amigos.
Haja Deus.



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8 de outubro de 2018

A ARTE DO BEM VIVER



     - Taís Luso

Não lembro de ter visto, em anos passados, um aumento tão considerável de pessoas com depressão e com alto nível de estresse. Vê-se, também, com mais frequência, pessoas que sofreram um AVC. Não há cabeça que aguente muita pancada da vida. O cérebro é delicado, requer cuidados, pede moderação nas nossas emoções - entre outras coisas, é claro.
Meu pai, cardiologista, era um homem equilibrado, não colocava a mão em arapucas, não discutia, não brigava. Poupava-se. Tinha suas defesas. Aprendi um pouquinho a maneirar minhas reações, minhas emoções, dizia-me para deixar passar as coisas irrelevantes; não dar murro em ponta de faca –  de nada adianta – mas, nem sempre é possível evitar.
Para uma vida saudável, sabemos que a alimentação, exercícios físicos e equilíbrio emocional são fundamentais. Os confrontos e discussões acirradas agravam certas doenças, ainda mais se trouxermos da família alguma herança nada saudável.
Não estamos isentos de maus súbitos após uma discussão acirrada. Geralmente vamos à exaustão querendo provar que nossa opinião ou atitude é a correta. E com ela salvaremos  o mundo. Acabamos por não atingirmos o alvo, e ficamos com o estrago e a ansiedade que vai se acumulando. E vem a derradeira pergunta :
Por que fui entrar nessa?
Por causa do seu ego – diria nossa consciência.
Difícil de aprender. Abrimos nossa guarda e expomos nossa vulnerabilidade em confrontos idiotas e  dispensáveis. Essa é a vida de muitos, sempre numa corda bamba. Uma hora perde-se o equilíbrio e deu! Pois é... aconteceu. Coitada, que Deus a tenha!
Se houvesse uma vacina que evitasse a quebra de nosso equilíbrio, a desorganização de nossas emoções, tenho certeza que nossa qualidade de vida seria outra; que a expectativa de vida estaria muito além da média de hoje.
E viveríamos muito mais felizes.


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26 de setembro de 2018

PRIMAVERA - POEMA DE PEDRO LUSO

Parque Farroupilha - Porto Alegre

Queridos amigos, esse poema tem uma história: era meu desejo saudar a Primavera, dar-lhe as Boas-vindas. Porém, não encontrei, em meus livros, o que o meu coração pedia. Vendo meu cansaço, Pedro Luso disse-me: espera, vou escrever um poema pra ti! Em pouco tempo 'Primavera' estava em minhas mãos! Era o poema que eu procurava para homenagear a mais bela estação do ano, mesmo em meio ao caos social, político e moral em que vivemos no país. Achei um poema forte, tanto quanto belo! Meu carinho.

          PRIMAVERA - para Taís

          De onde vem esse vento,
          que a tudo espanta
          e que leva dos varais
          encardidas consciências –
          roupas surradas
          feito esperança perdida?


          Para que serve esse vento
          assim, feito remorso
          e pecado?
          Para que serve esse vento
          com ruído de agouro
          e de morte?


          Esse vento veio roubar
          do tempo, o inverno
          frio, feito maldade,
          e levar a tristeza, gelo d’alma,
          para setembro florir
          na Primavera.




          Reedição ( 7 setembro 2015 )
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 - Manhãs de Setembro - 






17 de setembro de 2018

PRECISAMOS DE SONHOS!



- Taís Luso

Quando caminho pelo meu bairro, meus olhos vão passeando pelos terraços decorados com flores e bebedouros para os Bem-te-vis. Vejo, também, belas janelas com cortinas rendadas. Um encanto! E cada dia que faço esta caminhada parece que essas paisagens são mais festivas, que existem pessoas muito felizes naquelas casas. O sol, as flores, os bem-te-vis... Naturalmente imagino e fantasio a vida de cada pessoa que vive naqueles recantos, vistos com a alegria de quem apenas passa. Serão elas felizes?
É difícil imaginar que por detrás daqueles jardins encantados possa existir alguém triste, solitário ou com uma montanha de problemas. Mas existem; as flores e os pássaros podem camuflar a realidade que mora em cada uma daquelas casas.
Gosto de ver, são momentos de ilusão, uma vez que me afastam da violência da cidade, das encrencas entre as pessoas e me permite pensar que a vida se apresenta menos problemática. Deve ser o poder das flores e o cantar dos pássaros.
Percebo, nesse meu andar, que só tenho esta ilusão por  desconhecer o que está longe.  O que é inacessível e desconhecido torna-se misterioso. E  o mistério gera fantasia, mas também equívocos.
Fico muito curiosa com biografias, tenho interesse pelos aspectos ocultos dos grandes  cientistas  e  pensadores que  fizeram  a  história da humanidade. Na verdade, os ídolos nunca são nossos iguais: precisam ficar no patamar da nossa admiração, protegidos da curiosidade humana, envoltos num mistério que muitas vezes nos fascina. No momento que se desnudam aos nossos olhos, a coisa pode mudar. E virar  decepção.
Por isso não gostaria de adentrar nos terraços e jardins da minha rua; quero continuar a olhar as flores e os pássaros e pensar que tudo ali é bonito  e mais delicado. Que o ser humano é bom. Depois volto à realidade, pronta para encarar a a vida, levar meus dias com suas variadas facetas, afinal, nem tudo são flores.  Preciso de sonhos, um pouco de alimento para minha alma.


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5 de setembro de 2018

INCÊNDIO - MUSEU NACIONAL DO RIO DE JANEIRO





           - Taís Luso


Abro esta crônica com infinito pesar, incalculável vergonha diante da tragédia ocorrida no nosso Museu Nacional, a mais antiga Instituição científica do país, que abrigava 20 milhões de itens catalogados sobre a História do Brasil, vinculada com tantos outros países. Esse Museu, que era um Patrimônio da Humanidade, guardava nossas origens mais remotas através de estudos, pesquisas, provas e documentação da Antropologia Biológica. Através dela sabemos sobre os primeiros habitantes do país, de onde vieram. Mas todo o acervo exposto foi perdido.

O Museu criado por D. João VI, em 1818, abrigava coleções de Geologia, Paleontologia, Botânica, Zoologia, Antropologia Biológica, Arqueologia e Etnologia. Perdemos imensuráveis relíquias históricas - irrecuperáveis.

Há muitos anos que o Museu não recebia verbas para sua manutenção. Lá, em 2004, especialistas já tinham dado o 'sinal de alerta' sobre um possível incêndio, pois sua fiação elétrica era muito antiga. O paraíso dos cupins! A deterioração das aberturas, teto, pisos de madeira, infiltrações nas paredes, rebocos em péssimo estado de um palácio onde residiu a Família Imperial – belíssimo.  Perdemos a construção de nossa memória. Parte importante de nossa História foi tratada com desleixo. Foi queimado um Patrimônio da Humanidade.

Controlado o fogo, o povo invadiu os jardins do Museu, pessoas indignadas queriam chegar perto, chorar, deixar marcado em suas retinas aquela cena dantesca do descaso. Não choramos por um museu a menos, mas não queremos ser subestimados com explicações mirabolantes. Choramos pela imensa perda, lá estava a conexão com o tempo, com a documentação do nosso passado. Todos sabem que não existe História sem documentação.

Como estarão hoje os outros Museus, Bibliotecas, Fundações, Unidades de Pesquisa, Sociedades Científicas?
É a pergunta que deixo juntamente com minha dor.
Está difícil de ser brasileiro.


antes...



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29 de agosto de 2018

O MEU POETA MARIO QUINTANA





     - Tais Luso de Carvalho

Revelo que aprendi a gostar muito de poesia através de Mário Quintana. É delicioso ler seus poemas quando estamos tristes e amargas. Por sermos acarinhadas e envoltas por doces palavras, a tristeza vai se dispersando e a alma vai ficando leve.
Quando leio Quintana, sinto um poeta que entendeu a vida de uma maneira única, que falava da solidão, da bondade e da felicidade com a mesma tranquilidade que falava na sua doce prometida – a morte.
Falava com a sabedoria de quem não apenas passou pela vida, mas deixou que a vida passasse, que rolasse e que esperneasse... E seguia  adiante com suas musas, com seus sonhos e quem sabe com seus devaneios.
E que delícia são seus poemas que falam de tudo, de uma maneira translúcida, com uma deliciosa ironia e um sarcasmo ferino! Mas assim era ele,  dava a impressão de que brincava com a vida.
Já andei esbarrando com muitos escritores nos shoppings, em livrarias, na Feira do Livro e nos eventos culturais de Porto Alegre;  olhava ali... olhava lá... Via todos, falei com alguns, mas nunca vi o meu poeta. Nunca pude dizer: olha ali o Quintana!!
Mas não sei se ao vê-lo eu não ficaria muda e paralisada! Sim, porque quem conheceu o poeta – ao menos pela televisão – lembra de sua ironia refinada e surpreendente. Dava seu recado sem tradução, e a gente que se virasse, que aprendesse a captar o espírito da coisa.
Aprendi com ele a ver as belezas de Porto Alegre, suas ruas antigas, suas ladeiras, a beleza do vento numa tarde de outono. Aprendi a amar a nossa gente. Aprendi como é linda a simplicidade. Aprendi que é na simplicidade que conseguimos tocar todas as almas. E ele conseguiu. E como conseguiu!
Quando leio o seu poema O Mapa, lembro que também passei pelas mesmas esquinas esquisitas, talvez as mesmas moças eu vi... E caminhei pelas mesmas ruas que ele caminhou. Também já pensei, se no dia em que eu for poeira ou folha lavada, também farei parte do nada!?
Seus poemas consolam. Aprendi que um dia, quando a morte chegar de mansinho e disser: Anda, vem dormir... Talvez eu já esteja preparada.
Levarei a mágoa de nunca ter visto o poeta de perto, ou talvez a pretensão de ter feito parte de seus eternos e belos rabiscos, por ter andado, também, nas ruas de Porto Alegre, e nunca ter sido vista.
Mas depois de ter lido muitos de seus poemas até já perdi minha aflição: que eu passarei e todos passarão, é certo: só não se repetirá o que aconteceu no dia em que Deus o levou, e ao fazer dele  um passarinho!



POEMINHA DO CONTRA

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão... Eu passarinho!

Casa de Cultura Mario Quintana / Porto Alegre


20 de agosto de 2018

MOMENTO DE FALAR OU DE CALAR




            - Taís Luso

Sempre achei constrangedor ter como companhia uma pessoa calada, que não esboça nada, uma coisa nem outra. Estática. Continuo com essa opinião, gosto das pessoas mais comunicativas, embora lembre que passei por um constrangimento, há um tempinho atrás.
Não faz muito que fomos receber a vacina trivalente, que protege contra três tipos de vírus: H1N1 - H3N2 - influenza B. Nas filas muitas crianças, jovens e idosos impacientes, todos já meio cansados, e com razão.
O curioso, nestas filas é que se escuta de tudo, principalmente o que não se quer. As pessoas ficam um pouco íntimas, brasileiro é assim, fácil de conversa quando o assunto é doença, tragédias, assassinatos e a tal politicagem em vigor. Política é o assunto do momento dado às complicações pelas quais estamos passando. Bom seria se este país voltasse ao ano de 1500 e recomeçasse sua trajetória, corrigindo todos os erros cometidos pelos governantes e políticos. Estamos saturados.
Lembro-me que ao esperar minha vez na fila para a vacina não me senti nada confortável. A senhora que estava na minha frente resolveu me contar todo seu drama: sua vizinha contraiu a gripe H1N1, e estava no hospital. Fiquei branca!! Pô, mas que azar!  Mas a infelicidade foi eu ter contado para meu marido que estava ao lado.  Lógico que ele ficou inseguro.
Os homens são surpreendentes, fazem guerras, largam bombas, arrasam cidades, explodem torres, fazem e acontecem sem nenhum temor, porém basta uma velhinha abrir o bico, contando da sua vizinha com H1N1, que desaparecem! Quando percebi Pedro estava na outra fila me acenando!
Na fila em que Pedro estava havia um senhor que esquecera sua carteira de identidade, e ficou muito aborrecido quando lhe pediram esse documento. O caldo entornou, logo se formou uma roda em defesa do velhinho. Num certo momento ele olhou para mim e disse:
Mas pra que carteira de identidade, ainda não perceberam que estou nos finalmente?
POIS É !!    Disse-lhe eu.
Meu Deus! Vários me olharam. Senti a mancada. Abri a boca com a intenção de 'ajudar', mas eu não precisava ter concordado com sua visão de finitude.
São nessas situações que as pessoas mais reservadas levam vantagem, porque nada diriam.

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13 de agosto de 2018

CUIDE NA ESCOLHA DO NOME DO FILHO



           - Taís Luso
É hilário quando alguns pais homenageiam seus ídolos colocando seus nomes nos filhotes recém-nascidos. Esses filhos nem sonham o quanto essa idolatria atrapalhará suas vidas. E carregarão esse calvário pela vida afora.
Bem, aí vem a pergunta que faço ao ver umas coisas esdrúxulas pela frente: de onde saiu isso? Por que aparecem por aqui o Jéferson, a Dayanne, a Jennifer, o Aelington, a Franciely ? Poxa... mas como se escreve isto? Será a pergunta mais feita para essas crianças. E fica registrado Aelington da Silva! Mozart da Silva! Sim, nada estrangeiro combina com Silva. Cem milhões de brasileiros carregam um Silva no sobrenome.
Nesse redemoinho de nomes, começo a lembrar de alguns pais que adoram ler sobre a Idade Antiga, a Idade Média etc., e colocam nos seus anjinhos a assombração de Sócrates, Anníbal, Cícero, Honório, Homero, Jesus, Rômulo, Mozart... para serem lembrados ao longo da vida. Sonhos. E, ainda encontramos as Semirames, Sibylla, Porsenna,  Scipião... que coisa medonha!
Outros pais, para dificultar mais a vidinha dos filhos, procuram dois nomes: um para satisfazer a mãe, outro para satisfação do pai, da avó, do avô. Mas no final serão chamados pelos apelidos. Então surgem as Ana Iracema, Adelaide Cristina, Maria Gioconda, Maria Evangelina,  Mário Mariano... E as que não sabem como canta o galo, arriscam um Edigar. Não aguento o Edigar - o filho da minha diarista. Mas tenho de ouvir sobre o Edigar para não perder a diarista.
Também penso na turma dos devotos que não negam homenagens aos seus santos: aparecem, então, as Genoveva, Edwiges, Petronilla, Maria Aurélia, Esperidião, Amâncio, Expedito, Hermenegildo... São mais de 1200 santinhos! Bota fé nisso.
E, para fechar o clã dos famosos, trago aquelas coisas estapafúrdias da vida: as Aldegunda, os Fhilogônio, Epaminondas, Brunhilde, Godofredo, Simplício, Setembrino, Natalino (só ganha presente de Natal),   Francisoréia, Maria Divina... e por aí vai. Tenho um bisavô espalhado aí por cima... E não tem perdão.
E mais, muito mais quando entram os nomes compostos, vindos do nome da mãe e do pai: Claudia e Valdernei geram o Clau-der-nei !! Isso fica muito bonitinho...
- Vem cá com a vovó, Claudernei...
E a coisa piora quando o Claudernei resolve ter seus filhotes: o Clauberto, o Clauco, a Claurinda, a Clausete e a Claurisbela. E os amigos passam a chamá-los - todos - de Clau!! Fica o clã dos Clau. É lindo.
Mas nesse belo Universo, gosto muito é de Fredegonda! Fredegonda foi a primeira concubina e depois mulher de Chilperico, rei de França e da Austrasia. Assassinou a rainha Galsuinda, para subir ao trono em seu lugar. Depois de outros assassinatos, Fredegonda morreu no ano de 597. Dá pra ver que o drama vem de longe.
E para fechar com chave de ouro deixo aqui o nominho completo do Imperador Dom  Pedro I - respire fundo e vem comigo:
Pedro de Alcântara Francisco Antonio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon. 
Museu Imperial )
Essa gente é,  foi e será sempre muito divertida! Mas é isso: como essas e outras esquisitices jamais acabarão, que vivam bem todos os homenageados e os predestinados desse mundo maravilhoso e criativo!

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6 de agosto de 2018

OS ANIMAIS - NOSSOS FIÉIS AMIGOS



         - Tais Luso

Há tempos li um texto, num de nossos jornais, no qual um jornalista contava o rebu que se formou por ele ter escrito sobre os cães de estimação, alguns soltos nos parques. Sua caixa de e-mails explodiu! Talvez ele tenha abordado o tema com pouca sensibilidade. Diz que nunca havia tido esse tipo de reação com outros assuntos.
Bem, logicamente que não se deve atacar os cães ou qualquer tipo de animais; seus donos, os cachorreiros, sabem defender seus animais. Contou que  falar mal dos cães supera qualquer papo sobre futebol ou política, e aquele gesto causou uma revolução e um grande descontentamento entre os cachorreiros.  Eu também não gostei.
Estou sentada em frente ao monitor, olhando a tela branca e escutando ‘Serenade de Schubert, por Nana Mouskouri -, certas músicas me emocionam, e me ajudam quando preciso escrever com o coração.
Em geral, quem tem um animal de estimação tem para onde canalizar sentimentos e tristezas. Nossos animais não nos ofendem, são mais que amigos, nos mostram o quanto nós, os humanos, somos mal resolvidos. Mas temos excelentes qualidades, nem tudo está perdido - ainda. Mas somos muito complicados, quase indecifráveis diante de tantas aberrações por esse mundo afora. E, dado a isso,  faço uma série de indagações:
Como sermos  felizes se somos rotulados de loucos por pensarmos diferente? Como sermos felizes se somos tachados de egoístas por cuidarmos mais da nossa vida, e o pouco que estendemos nossas mãos,  somos rotulados de intrometidos ?
Como ser feliz  se muitas vezes somos vistos como irresponsáveis ao conduzir nossa vida com leveza e simplicidade? Como ser feliz se somos vistos como ‘linha dura’ em defesa da moral e da ética  familiar?
Onde moram a amizade, o afeto e o respeito entre as pessoas? Silêncio não magoa. Por isso queremos tão bem os animais. Como é bom, em momentos tristes, termos nosso  fiel amigo de 4 patas com uma carinha amiga e silenciosa! Mas até isso está difícil numa sociedade violenta, que anda perdida e que tudo rotula.
E eu aqui, escutando esta música, abro minha alma na ânsia de obter respostas para encontrar um sentido para uma vida tão efêmera. Debato-me! Olho ao meu redor e o que vejo? Violência, medo, dúvidas, insegurança. Mantenho viva, ainda, a esperança de que um dia teremos de volta o nosso país. Aquele país que já foi berço do nosso orgulho.
Não sabemos nada de concreto, a não ser que um dia vamos 'parar'
Então, caro jornalista, entendo a sua caixa de e-mails lotada! Mas os animais continuam os mesmos, nós é que mudamos, que estamos destruindo valores e vidas. Nós é que precisamos de muito; eles só precisam de amor. Por isso você não entendeu esse alvoroço todo na sua correspondência, em defesa dos animais. Também junto-me ao grupo de protesto. Pegou mal!  Nossos animais são  membros da nossa família.


 'Serenade de Schubert', por Nana Mouskouri