8 de dezembro de 2019

AS MENINAS DA 3ª IDADE

 Pôr do Sol - Rio Guaíba / Porto Alegre   (foto Google)

         - Tais Luso
O sol estava manso e amigo, brilhava sem agredir. Sem perder muito tempo, dei uma caprichada no visual: um batonzinho, brincos, jeans e um bolsão pesado cheio de inutilidades. E para fechar com chave de ouro, um tenebroso salto 8, bico fino. Assim, minha amiga e eu nos enfiamos dentro do shopping onde nunca se nota quando cai o dia e quando entra a noite.
Após andarmos pelas 300 lojas, finalmente aportamos num simpático Bistrô. Já um pouco acabada, em cima daquele maldito salto, eu não sentia mais minhas pernas: elas não obedeciam mais a nenhum comando, levavam meu corpo sem elegância e apenas marchavam tentando acompanhar minha amiga com suas pernas de ganso, enormes.
Mas voltando ao Bistrô, um garçom cheio de dentes e abrindo um sorriso pra lá de generoso, veio nos atender. Fizemos o pedido. Na espera, comecei a olhar para as mesas mais próximas. Na mesa ao lado, havia um animado grupo de amigas da 3ª idade. Mulheres de todos os tamanhos, pesos e medidas; com rostos de sapecas e outras de santinhas. Porém, o assunto era um só: doença!
Nessa mesa estavam sentadas uma magricela muito falante, uma gordinha alegre - , uma ruiva quase careca e uma louraça tipo 'cheguei'. Como conversavam! Contavam, com detalhes, todas as suas doenças, suas inúmeras cirurgias, recuperações e sequelas. Após esgotarem todas as lamúrias, as simpáticas amigas trouxeram à tona as doenças dos outros, e num tom choroso, dengoso. Mas logo depois ficavam eufóricas novamente. Era tudo muito esquisito.
Minutos mais tarde, chegou mais uma: parecia ser a mocinha da turma, talvez pelo seu estilo um pouco desnorteado. Seus cabelos eram escuros e repicados, tipo os sertanejos Chitão e Xororó - há 20 anos. Usava enormes argolas douradas que ornamentavam suas grandes orelhas. Saracoteava dentro do vestido indiano, multicolorido, mas gostei dela, não passou apagada.
Após ouvir as amigas falarem sobre tantas doenças, fiquei um pouco deprê. Larguei meus pensamentos e ciente da minha fragilidade olhei para minha amiga. Fiquei surpresa, pensei que ela estivesse se divertindo com as histórias das 'meninas'. Minha amiga estava pálida, deitada no espaldar da cadeira, parecendo uma boneca de cera. Escutou todo o fuxico delas, todas as doenças e sequelas.
Esqueci que minha amiga era por demais suscetível a este tipo de assunto. Um pouco nervosa, chamei aquele garçom cheio de dentes e de sorriso generoso.
Pedi um café bem forte e levei minha amiga para longe dali, perto de alguns adolescentes que riam muito, mas sem um motivo aparente.
Pouco depois, já recuperadas, saímos do shopping e encontramos um outro tipo de crepúsculo: o crepúsculo da natureza! Era radiante: o sol estava se pondo, mas em seu lugar se instalava uma grande esfera branca e iluminada, esperando o momento de emprestar sua luz à escuridão da noite. Notava-se nesta esfera uma maturidade silenciosa, austera, enigmática e de grande beleza.
Na volta, ao chegar em casa, vim direto à tela do computador para deixar registrado os dois crepúsculos que comparei num curto espaço de tempo: o do ser humano, com todas as suas nuanças incertas e inseguras, e o crepúsculo da natureza – único, calmo, misterioso e extremamente belo.


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Momento musical  -  Il Divo:  Alelujah

Aleluia




1 de dezembro de 2019

O SUFOCO DOS PRESENTES





      - Taís Luso


   Presentear é uma arte! Está chegando a maior festa do ano onde já começamos a pensar nos presentes. Não precisamos gastar uma exorbitância, passar horas cansativas nos shoppings e de mau com o Natal. Basta estudar como são as pessoas que vamos presentear, seus tipos, seus gostos e escolher os presentes segundo o gosto delas e não o nosso. Senso de observação é o que basta. Não custa caro. Porém...olhamos um produto, achamos ótimo e tá feito:

- Pode embrulhar, esse vai para Rosinha! 
- Mas a Rosinha vai gostar?? 
- Se não gostar dá para trocar! 
Todos nósrecebemos presentes que um dia deu vontade de mandar de volta! Eu já tive este desejo. Lembro que eu olhei e fiquei com a triste sensação de ter sido vista como uma retardada. Faltou a pessoa ter me estudado, só isso Mas geralmente  compram sem pensar muito,  principalmente no Natal quando brasileiro presenteia    zilhões de pessoas. 
Dizem, algumas pessoas, que o importante é o gesto de presentear! Não;  não é. Isso é romantismo. O importante é acertar. Presente pode ser um martírio  para quem recebe. Recebemos muitos  presentes e  já sabemos que naquela semana teremos de  andar lá do outro lado da cidade para trocar a coisa. Isso é um saco. Trocar não por um número maior ou menor, mas pelo oposto daquilo que recebemos! 
Mas, também há o outro lado da moeda: para alguns nada serve, muitas vezes já tive vontade de enviar uma bomba! 
Sei que é difícil: há o perigo de darmos um livro da Segunda Guerra Mundial a uma pessoa  que sonha em ser monge; dar uma roupa sóbria a uma Maria da Vanguarda; dar um CD de músicas que nada tem a ver com a criatura. E perfume?  Jamais. 
Seu amigo gosta de MPB? Então não pense em dar a Sinfonia de Beethoven! A cunhada gosta de música clássica? Não pense em dar  fado, tango, samba! A irmã ama música sertaneja? Dê-lhe o Chitão e Xororó  que ela ficará feliz!! É simples. E lembrando... esqueça os porta-retratos!! Não há mais lugar disponível!
- Óhhhhhhh!!! Que liiiiiindo, você adivinhou, como estou precisando!
Uma parente minha ganhou  um adorno para sua casa. Não gostou, tinha crises ao olhar para o tal objeto. E guardou. Cada vez que sua amiga ia na sua casa, ela colocava a coisa sobre o balcão. Depois guardava. E assim foram anos. Acho que eu ficaria louca se tivesse de fazer isso. São coisas da vida. Entendo.
Nisso, os homens estão à frente: dão flores, biscoitos  importados, bombons ou vinhos de classe! E estão cobertos de razão. Nunca serão mal vistos. São presentes delicados e de bom gosto. E sem trocas! 
Dá para dizer que presentear é um ato de carinho, sem dúvida, mas às vezes é um calvário para quem recebe. É de pensar.
Boa sorte a todos!



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23 de novembro de 2019

PESSOAS COMPLICADAS



         - Taís Luso


Há tempos escrevi uma crônica sobre  pessoas que não escutam, que só querem falar. Mostrei como é difícil encarar esse tipo de gente, porém, existe um outro tipo de comportamento que para mim é terrível: são as pessoas caladas! Muito caladas. Ficam horas do nosso lado sem soltarem um grunhido sequer. Isso existe, sim!! E começamos a sentir logo  um peso, um desconforto. A sensação do silêncio sepulcral num encontro social é desafiador. É superação! Aliás, atualmente estou fazendo o mesmo jogo duro, viro uma ostra. É um jogo de Tabuleiro. Divertido, distrai. Dá vontade de dar as costas e dizer fui 
É horrível, também, quando você estende a mão para cumprimentar uma pessoa e sua mão fica estendida no ar, solitária, sem retorno! Aconteceu comigo: a pessoa olhou e desolhou para mim rapidamente. Mas os outros viram...e aqueles olhares me constrangeram. Que saia justa, meus amigos!! Não quero recordar ...
Geralmente as pessoas falam 'coisa com coisa', outras soltam o verbo aos trambolhões e não dizem nada. Mas cheguei à conclusão que o melhor é deixar soltar o verbo como dá, e seja o que Deus quiser. Consigo lidar melhor com pessoas que falam, as tagarelas.  Dou uma desligada. Porém, desconfio das que não falam; daquelas que ficam fechadas em seu mundo. Certas coisas  saturam e chegam a zero de condescendência, não há mais paciência. 
Não faz muito tempo, fui apresentada a uma pessoa. Que loucura foi aquilo: pedi a Deus que destravasse a criatura, fazê-la falar um pouco, pois o silêncio estava constrangedor. Mas senti que morri na praia. 
Então, dado a alguns episódios esdrúxulos, digo que mudei de opinião e atitude: se não houver o 'meio-termo' e a sincronia  de ouvir e falar, prefiro alguém que fale! Mesmo que  abusem. Ligo meu botão de 'reserva' e juro que terão meu eterno perdão! 
E os 'calados' que me perdoem, mas interagir é fundamental!



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17 de novembro de 2019

FERIADOS NO BRASIL...

São Paulo/ Brasil


  
         - Taís Luso
Os brasileiros adoram sair em dia de feriado, mas na volta se queixam de cansaço. Vestem-se de alegria, umas gotas de otimismo e zarpam! Também levam seus cachorros, pois dizem eles que seus amiguinhos andam estressados. Isso gostei. Então, salve nossa terra e a alegria do nosso povo!  O que não entendo é que também levam junto os inúmeros amigos do Facebook e do Twitter para continuarem as brigas por política. Todos vão de Smartfone em punho; um explode o twitter do outro, sim, é barraco na casa alheia, sem precisar. Que feriadão...
Porém, tem o outro lado, muitos gostam de feriado para ficarem na cidade, vê-la mais tranquila. É ótimo, entendo essas pessoas. Na verdade, toda a saída é traumática. Os aeroportos transbordam, as rodoviárias ficam insuportáveis, as estradas congestionadas. Depois de alguns dias todos voltam para descansar do feriadão. Pois é, preciso encontrar a lógica disso. Mas a expectativa de felicidade é que move uma parte da população. É compreensível num mundinho conturbado.
Vejam só: cada pessoa da família leva uma mala, mais sacolinhas, mais a cama e travesseiro do cachorro, portanto muitas malas.  Todos levam roupas para as 2 estações: calor e frio. A praia esfria à noite, a serra esquenta de dia. Então dê-lhe malas. Tantas coisas para tão pouco tempo. 
De um modo geral, os  alegres brasileiros retornam pela mesma estrada, com muitas horas de congestionamento: mais estresse! 

Na minha visão ninguém descansa saindo nos feriados. Espairece, apenas. Nós fazíamos o mesmo e voltávamos liquidados. Arriados. As crianças aproveitavam, sem dúvida. E nosso cachorro feliz e agradecido.
Precisei de muitos anos e os filhos adultos para fazer as pazes com a minha 'rotina' e ver minha cidade tranquila. O problema destes feriados é duplo: o antes e o depois. A gente se mata antes  e se enterra na volta, mais cansados.
Mas com certeza no próximo feriadão, todos estarão a postos novamente, sonhando com o mar, céu, sol, cervejinha, bermudão e com um coração saltitando de alegria!
Mas acho que vale a pena cada um realizar seus sonhos; nossos sonhos vão se renovando na medida em que o tempo passa. 




Momento Musical:
Mozart - Piano Concerto nº 21 - Andante






10 de novembro de 2019

FOBIA POR BARATAS





       - Taís Luso

Faz muito tempo que me pergunto por que será que as nós, mulheres, temos um medo, uma coisa patológica com as baratas? Por que trazemos essa reação que não conseguimos dominar e carregamos por toda uma vida?
Chega um dia que nos livramos da TPM, das enxaquecas, enfrentamos doenças na família, lutamos como guerreiras, escalamos o Alasca, nos atiramos de paraquedas, enfrentamos o Congresso Nacional, STF - a mais alta Instância do Judiciário Brasileiro - e outros desatinos, mas temos medo de Baratas!  Algo está errado.
Gritamos, protagonizamos mil escândalos para nossos vizinhos, dando a entender que estamos no maior barraco dentro de casa. Não: é apenas uma barata, mas que para nós é o Armagedon - o fim do mundo, a batalha entre o bem e o mal. Na casa dos outros sou mais contida:
- OLHA LÁAAAAAAAAA!!! Assim mesmo, bem discreta.
Há muitos anos, compramos os armários para cozinha, estilo antigo, cheio de gavetinhas e cantos. Mas este armário estava me deixando um pouco fora de minhas faculdades normais, uma vez que, apareciam nas gavetas 'aquelas coisas' que elas costumam deixar por onde passam.
Devia ser 2:00 horas da madrugada, já me encontrava deitada. Meu filho me cutucou no pé, acendi a luz e, através de mímica, tentava me dizer que na cozinha tinha uma barata do tamanho de um elefante.
Arregalei os olhos e saí da cama sem fazer ruído, quase no escuro. Devo sofrer de uma patologia em relação ao bicho; Pedro odeia esta minha transformação súbita: da normalidade para a histeria. Acho que ele passou a gostar de barata devido a essas minhas atividades... Bem, eu e meu filho fechamos todas as portas da casa, trancamos o cachorro no quarto e fomos à luta. Começamos a rir, mas cientes de que estávamos histéricos. Desesperados. Tenho consciência que traumatizei meus filhos, desde pequenos.
Procuramos por tudo: nada! Barata sabe quando está em perigo e se mete em lugares impossíveis de serem alcançadas. Enfiei minha cabeça dentro do armário, tirei as gavetas, os talheres, os pratos... E continuamos no nada. Desistimos, mas fiquei com a impressão de que o bicho estava nos meus cabelos... Comecei a me escabelar e meu filho não sabia se procurava a barata ou me dava uma assistência psiquiátrica. Prontamente tomei um calmante e fui dormir, mas ciente que no dia seguinte teria muitas batalhas. Eu falei dormir? Tá bom.
De manhã, após Pedro e minha filha saírem, começamos o que havíamos combinado: desmontamos a cozinha; iniciamos a busca.
Já estava com o spray na mão, mas como meu filho tinha asma, fiquei com medo de matá-lo e a barata continuar viva. Mas o bicho estava lá! As provas eram evidentes.
Peguei uma lanterna e um espelho; coloquei o espelho de maneira que refletisse os cantos do armário e iluminei o espelho com a lanterna: Deus meu... Duas amigas cochichando no canto! Como alcançá-las? E quebrei o silêncio partindo para uma batalha mesclada de coragem, nojo e histeria.
Apareceu a vizinha do andar; meu filho tinha colocado dois chumaços de algodão nas narinas para não aspirar o veneno. E foi abrir a porta...
- Nossa... o que houve com seu nariz?
- Agora não dá, vizinha; mas está tudo sob controle, fique tranquila...
Porém, logo começou a alegria, parecia uma metralhadora! Senti-me livre de minha fobia, psicose, Hitchcock, sei lá... Não importa o nome. Eu queria  paz.
Sei que as baratas são os únicos seres vivos que sobreviveriam a uma bomba atômica. Ninguém sobreviveria 45 dias sem comida, 15 dias sem água e 3 dias sem cabeça, mas elas conseguem: elas resistem porque seu sistema nervoso é difuso e não dependem da cabeça para funcionarem. E se metem em qualquer fenda, comem qualquer coisa.
Enquanto isso, nós precisamos de 'muita cabeça' para sobrevivermos...




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(Reeditado / 2011)




3 de novembro de 2019

PAIS E FILHOS




      - Taís Luso de Carvalho


Defronte a telinha, estou com os Nocturnos de Chopin, prefiro os clássicos quando preciso usar mais o coração. Tudo de nossas vidas está guardado, por vezes esquecido pelas manobras do inconsciente. Um dia aparecem por meio de nossos sonhos, reflexões ou terapias. Somos humanos, imperfeitos.

Quando aportamos nesse mundo somos recebidos com muita alegria e emoção. Com o tempo percebemos ter uma dívida eterna: a dívida de gratidão àqueles que nos deram a vida, que nos cuidaram desde o nascimento.

Porém, chega o dia em que aquela criancinha cresce, entra na adolescência e começam os primeiros atritos entre pais e filhos: começam as acusações, as dissimulações,  mentiras e as mágoas infinitas! Pais e filhos acostumam-se com discussões, sem sentido, por qualquer bobagem. Vira uma miscelânea de sentimentos, embora o amor persista, mesmo que camuflado.  É um sentimento sanguíneo. Muito forte. 

Aprofundando o assunto, pais cobram sempre: te criei, me sacrifiquei, quase morri… Do outro lado os filhos rebeldes: não pedi para nascer! Quem já não ouviu essas baboseiras ditas por adolescentes em discussões familiares no auge das emoções?  

Pois bem, o que fizemos ou deixamos de fazer poderá virar culpa, ou dos pais ou dos filhos. E o mais comum, o que mais se vê, é a dificuldade dos filhos em aceitarem conselhos; aceitam dos professores, do técnico do esporte, da colega da academia, de algum amigo, mas dos pais não! A intimidade familiar parece que não permite mais  conselhos. 

Há uma disputa velada nos meios familiares:  filhos cobram; pais também cobram. É difícil engolir cobranças. Mas quando nossos pais partem fica uma bomba  que só com o tempo conseguiremos desativá-la. E aí começamos a pensar que o relacionamento familiar poderia ter sido melhor, entre as duas partes. Em determinadas situações talvez pudéssemos ter recuado, não discutido por bobagens. Mas em vida ninguém pensa, temos de viver os minutos intensamente sem muito pensar.  
A gente só se dá conta quando o tempo está mais curto; não percebemos que é na família que nasce o amor, é na família onde temos a maior proteção. 
Parece, às vezes, que o amor fica fragilizado onde deveria ser uma fortaleza. 

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 Essa crônica nasceu da  observação de  muitos   relacionamentos
  entre pais e filhos. Não é uma crônica de cunho pessoal.
As  crônicas são do cotidiano.




Beethoven - Für Elise - uma das minhas preferidas. 𝅘𝅥𝅮𝅘𝅥𝅯




27 de outubro de 2019

SONHOS E PESADELOS






          - Taís Luso

Dizem por aí que as pessoas com hábitos mais 'simples e normais'  são mais felizes.  Compram o que necessitam e  ainda umas frescurinhas para se alegrarem, um carro normal, uma casa legal, churrasco aos domingos com os amigos, um  futebolzinho, férias etc. Classe média normal.

Enquanto isso a classe rica possui residências no exterior, em Nova Iorque, Miami, Paris etc.  Muitas viagens, muitas mordomias, roupas, festas, jantares e o mais novo Bugatti cuidadosamente na garagem. Não serão esses mais felizes? Olha só que vidão das criaturas!

Bem... mais felizes? Não necessariamente! Depende, felicidade nada tem a ver com esbanjamento e com luxo, há um equívoco. O que será felicidade? Conheço ricos infelizes e depressivos. O vidão que levam não lhes garante nada  do ponto de vista de felicidade. Muitas vezes são um rosário de lamentações! Aliás, vejo essa desigualdade no mundo inteiro, com exceções, é óbvio. Não que eu fique procurando essa gente  que desperta curiosidade pelas suas extravagâncias,  eles aparecem sozinhos, surfam na onda mais alta da arrebentação, mas quando caem, o tombo é feio. Viram manchete. Porém,  podem ser felizes, sim. Só digo que tanto dinheiro não lhes dá essa garantia, o passaporte para felicidade. 

Lembro bem, quando as indústrias começaram a fabricar aparelhos de televisão de vários tamanhos,  foram chegando umas pequeninas para a cozinha, depois foram subindo as polegadas, de 12, 20, 40, 44, 46, 50, 86, e a de 150 polegadas um verdadeiro trambolho dentro da sala, e os fabricantes não pararam por aí, têm sempre consumidores malucos; nasceu a doméstica de 370 polegadas! Precisamos, pois, de uma sala enorme para hospedar o canhão! Precisamos? Bem, de louco todos temos um pouco. Quero dizer que os sonhos não têm limites, aumentam com o passar do tempo.  Mudamos de casa para uma maior! E mais, e mais... Também vi por aqui uma Ferrari colocada  na sala principal da rica criatura, linda como objeto decorativo, mas muito esquisita por estar no lugar errado. É, os ricos irmãos são extravagantes,  uma marca própria deles. Com certeza foi um sonho realizado. Os brasileiros  lembram da foto! 

Pelo que o ser humano já fez, pelo traçado de nossa história, pelas nossas conquistas e descobertas para a humanidade, não há dúvida que somos inteligentes. Mas a nossa desgraça aparece na mesma proporção. Talvez um dia a gente descubra como sofrer menos; que nossos sonhos não deem tanta mão de obra, tanto estresse, que não virem pesadelos!

Estamos vivendo numa completa contradição: de um lado queremos buscar a reflexão,  a espiritualidade, a solidariedade, mas por outro lado nos apegamos aos bens materiais desnecessários e por vezes afrontoso, como se fossem a tábua da salvação para os que ainda se debatem em meio as águas. 
Tomara que não se afoguem.



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20 de outubro de 2019

MAR PORTUGUÊS - Fernando Pessoa




MAR PORTUGUÊS  / Fernando Pessoa




Ó Mar Salgado, quanto do teu sal!
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

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In , Poesias, Fernando Pessoa - Porto Alegre: L&PM 1996, p. 9
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Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, a 13 de junho de 1888. Não é apenas falar do maior poeta da língua portuguesa do século XX, mas é também falar de uma personalidade  controvertida (como a de todo o gênio) e de uma obra vasta, afinal, Pessoa é vários poetas num só. Filho de Joaquim de Seabra Pessoa, funcionário público e crítico musical  e de Maria Madalena Pinheiro Nogueira. 

Com 5 anos de idade, Fernando Pessoa perde o pai  (de tuberculose), e sua mãe ganha o irmão Jorge. A morte do pai traz muitas dificuldades financeiras e a família é obrigada a baixar o nível de vida, passando a morar na casa de Dionísia, a avó louca do poeta. Em 1894 morre o seu irmão, a vida de F. Pessoa é marcada por acontecimentos trágicos. Em 1895 sua mãe casa-se com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, na África do Sul e para lá a família se muda no ano seguinte. Lá, Pessoa cursa o primário num colégio de freiras e 3 anos depois ingressa no Durban High School, considerado um aluno excepcional,  faz em 3 anos o que deveria fazer em 5 anos.

Em 1905 o poeta retorna a Portugal onde vai morar com a tia-avó Maria, e inscreve-se na Faculdade de Letras, mas com a criação poética pulsando em toda a sua intensidade. Em 1906, com a morte da avó, recebe uma herança e aplica numa pequena tipografia. Falta-lhe experiência e o empreendimento fracassa. Passa, então, a trabalhar como correspondente de línguas estrangeiras em escritórios de importação e exportação.

Em 1935 Fernando Pessoa, deixou a sua última frase em inglês: 
I Know not what tomorrow will bring. ( Eu não sei o que o amanhã trará). Morre no dia 30 de novembro de 1935, no hospital de cirrose hepática, aos 47 anos.

Voltarei em outra postagem escrevendo mais sobre a vida de Fernando Pessoa, o ícone da poesia moderna, trarei, principalmente, como nasceram seus heterônimos.

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Mar  Português / declamado por Silvio Matos








13 de outubro de 2019

CONDUZIR A VIDA É UMA ARTE

daqui: Das Artes / Taís Luso



          - Taís Luso

      Ontem encontrei com uma antiga vizinha do meu bairro, ao mesmo tempo que gostei de encontrá-la, fiquei com dó de vê-la  tão envelhecida para sua idade. Tantas foram suas incomodações, tantas preocupações em sua vida que estava aparentando uns dez anos a mais do que realmente tem. Seu filho casou-se, mas ela continuou com suas intromissões em sua vida, como se pequeno ainda fosse. Suas ingerências na vida do novo casal viraram um bumerangue; daí nasceu um problema com a nora. 

Pois bem, os filhos crescem, entram na tranquila adolescência, ficam adultos, amadurecem (ou não), deixam a casa dos pais para cuidarem de suas vidas, de seus sucessos, também de suas encrencas - até então também dos pais. 

Um ponto é pacífico: chegou a hora das mães aceitarem as mudanças da vida. Aquela história de Ninho Vazio, não cabe mais no século XXI, mas ainda existe, apesar de um  caminho onde há mais liberdade e calma para todos familiares. A vida continua. Contudo, a situação é um pouco complicada para essas mães que se sentem solitárias e entram em depressão; é preciso trabalhar esse quesito. Essa ausência dos filhos, que muitas sentem, é bem conhecida. 

Mudar o rumo nesse momento, dar adeus à ansiedade, ao estresse e reduzir os compromissos, certamente fará a vida  mais leve para os pais. Está na hora de recomeçar outra jornada, abraçar atividades prazerosas e ver nessa nova vida muitas opções, e conviver maduramente com os filhos. Aliás, é muito bom, é um outro tipo de relacionamento.

Ter ou não metas para o futuro, será uma escolha; há pessoas que ficam pressionadas pelo sistema, ansiosas e com o pensamento no futuro, quando o importante é ter o foco mais no presente, no dia a dia. Buscar as oportunidades que interessam depende de cada um, como e quando buscá-las. Certamente encontrarão soluções para os problemas, mas o importante é viverem felizes. 

Conduzir nossa vida é como trabalhar uma obra de arte, poderemos acabar a obra com todos os detalhes perfeitos, caso contráriopor descuido, a obra jamais chegará ao seu destino. 

"Cumprir a vida é simplesmente entender a marcha!"

"Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais"
(Almir Sater)




5 de outubro de 2019

CUIDADOS COM OS FILHOS





             - Taís Luso

Está claro que as crianças de hoje não escapam de comparações com a geração que lhes antecedeu. A diferença é muito grande, mesmo porque os pais também mudaram muito seus hábitos, a informática revolucionou o mundo, tornando todos um pouco mais solitários.
Criancinhas de 1 ano de idade estão com celular nas mãos, clicando e olhando para a tela como se fosse um desenho animado. Isso em plena formação do cérebro, o que não é nada bom.
Sea atual geração mais feliz do que as duas últimas ? Serão adultos mais felizes? Ou mais criativos, quem sabe!? O que poderá acontecer com essa total informatização na cabeça das crianças, eu não sei muito bem o tamanho do estrago.
Conheci muitas crianças que cresceram engessadas na telinha. Não sei como estão suas mentes, suas emoções, suas aptidões, seus sonhos. Torço para que fiquem bem e sejam felizes. Atualmente as crianças  crescem sem pegar uma boneca, um carrinho, livros, brinquedos, joguinhos concretos ou interagindo com outros amiguinhos. Crescerão meio solitárias, na frente da tela. Cada um com seu celular, - ausentes.
Quando vejo uma criança pequena com celular na mão, faço força para que meu semblante não se mostre aos pais. Não acho nada engraçadinho! Mas, cada um no seu mundo e que sigam na vida, pois de nada adiantará falar aos pais sobre aquelas  cabecinhas em desenvolvimento.
Hoje, ser pai e mãe é complicado. Os pais precisam ter uma mente de 'agente investigativo'. Sentir de longe  onde está o perigo para seus filhos, principalmente se ficarem  soltas  na Internet.
O que outras gerações tinham de bom foi uma infância real: à noite, na mais tenra idade, nossas mães cantavam as canções do bicho-papão, do boi da cara preta, da rosa despedaçada, do pau no gato e outras do gênero. Sim, não eram nada pedagógicas as canções, mas garanto que não fiquei traumatizada.
Minha geração queria crescer e imitar os pais. Eu me lambuzava com o batom de minha mãe, calçava seus sapatos de salto alto e ia para a frente da nossa casa mostrar a minha pretensa maturidade, o quanto eu tinha amadurecido. Essa era a nossa sensualidade, bem infantil. Ia para a biblioteca de meu pai e ali eu achava que alguém iria acreditar que eu estava entendendo alguma coisa, com 8 ou 10 anos! Tudo imitação. Boa e saudável, era o nosso mundo do faz de conta.
Sim, minha geração imitava os pais, eles eram nossa inspiração, nossos heróis. Hoje, nossas crianças têm outros ídolos, e por muitos deles eu não tenho  nenhuma simpatia pelo que são, pelo que fazem e pelo que representam para as crianças. É outro mundo, um tempo  mais frouxo. 
Torço pelo novo mundo dos pequenos. Que façam bem suas escolhas. Que sejam seletivos.

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Nada saudável... viciante