17 de março de 2019

CILADA VERBAL - Affonso Romano de Sant'Anna

Sofrimento / Francisco Brennand        (Das Artes)           




                     CILADA VERBAL  


Há vários modos de matar um homem:
com o tiro, a fome, a espada
ou com a palavra
envenenada


Não é preciso força.
Basta que a boca solte
a frase engatilhada
e o outro morre
na sintaxe da emboscada.

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                 Poesia Reunida 1965 / 1999 - L&PM 2004 / pág 87

Affonso Romano de Sant'Anna nasceu em Belo Horizonte MG/Brasil - 1937. Poeta, crítico e professor de literatura e jornalista. Ainda pequeno, muda-se com a família para a cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, onde inicia seus estudos e se aproxima da literatura ao frequentar as bibliotecas públicas. Começa a carreira jornalística em 1953, publicando críticas de cinema e teatro no Diário Comercial e na Gazeta Mercantil. 

            De família protestante, em 1954, viaja por diversas cidades mineiras pregando o Evangelho em favelas, hospitais e presídios. Em 1962 o bacharela-se em letras neolatinas na Universidade Federal de Minas de Minas Gerais e publica seu primeiro livro de ensaios, O Desemprego do Poeta. Organiza, com outros poetas mineiros, a Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, em 1963.

Em 1964 obtém o grau de doutor pela UFMG, com apresentação de tese sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987). Casa-se com a escritora Marina Colasanti, e em 1970, vai residir no Rio de Janeiro. Ministra cursos na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - e na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como professor convidado, dá aulas de literatura e cultura brasileiras em universidades da França, Alemanha e Estados Unidos. Assume a presidência da Fundação Biblioteca Nacional em 1990. Um ano depois, cria a revista Poesia Sempre, importante veículo de divulgação da poesia nacional no exterior. É nomeado, em 1995, para o cargo de secretário-geral da Associação das Bibliotecas Nacionais Ibero-Americanas. Também colaborador assíduo da imprensa em toda sua carreira jornalística, escreve textos para os jornais O Globo, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, Correio Brasiliense e O Estado de Minas. Tem poemas traduzidos para o espanhol, inglês, francês, alemão, polonês, chinês e italiano.



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10 de março de 2019

MULHER É ASSIM...


Sobre Fernando Botero  no  Das Artes 

              - Taís Luso

Mulheres e homens são bem diferentes, e consumir em demasia é mais próprio das mulheres. Estamos deprimidas, chateadas, brigamos com o marido, algo deu errado e a tal viagem não saiu? O filho tá de chantagem? A sogra vem acampar? Nossa Senhora do Suplício, vamos comprar! Vamos aliviar a barra!
Desde criança, aprendemos a compensar: mulher sabe que comprar compensa frustrações. Então, saímos à procura de qualquer coisa que possa amenizar nossas amarguras; nem falo em coisas de grife, o foco é caminhar, olhar, consumir, mesmo o baratão. Pode ser até umas quinquilharias das lojas '1.99': uma bandejinha, duas bandejinhas... Na saída, pegamos uns pacotes de bolachas, temperos, uns plásticos de fabricação duvidosa, umas tigelinhas horrorosas... enfim, tudo o que ninguém precisa.
E pronto: saímos espalhando felicidade com a conhecida sacolinha branca, com a cacarecada misturada sem saber pra quem dar. E se formos com uma amiga, melhor ainda: sentamos na primeira cafeteria e aproveitamos pra descarregar. Pra falar mal da vida, fazer uma sessão de psicoterapia gratuita. É o Dia do Descarrego!
Caso a voltinha no 1.99 não tenha resolvido alguns de nossos problemas, tem a cabeleireira! Essa é fatal. Cabeleireira é psicoterapeuta de grupo. Mechas ou pintura? Limpeza de pele? Unhas? Massagem? Saber da vida alheia? Uma tarde de Cinderela! E retornamos numa boa, pelo menos para os próximos dias, até passar a tal da TPM - coisa horrorosa para algumas mulheres. Bem que algumas abusam: botam fogo no mundo e tudo em nome da queda dos hormônios. Assim não dá, gente, calma!
Mas mulher é assim, tudo é motivo para o consumo: tristezas, alegrias, comemorações, despedidas, saídas e chegadas, mulher adora comprar lembrancinhas. Quando viajam a mala volta estourando. Os homens são mais comedidos - me parece. Bem que os homens não podem ver eletrônicos, celulares e similares que ficam vesgos.
Há muitos anos, eu me considerava a rainha dos balaios de liquidações. Os balaios me fascinavam, principalmente o tal do 'Porto Alegre Liquida'. Remexia, remexia... Quanta porcaria! Era só refugo. Eu só pegava o que ninguém queria: as calças do tempo das cavernas. Cheguei à conclusão que não sou boa em balaios: sou atraída para o esdrúxulo.
Cansei de comprar sapatos um número menor, quando não tinha o meu número,  com a esperança de que no inverno meu pé diminuísse. Só pra aproveitar o precinho; pra aproveitar a liquidação! Mas o mimoso está aqui guardado. Há tempos andei com ele e por pouco não tive gangrena. Não entendo como ainda está aqui, o desgraçado. Deve ser um problema sentimental com o sapato, Freudiano! Devo amar o tal do sapato, tenho uma culpa que não consigo resolver. Não consigo soltá-lo!
Bem, o tempo anda e  muda nossos valores. Abri meu armário e tirei trocentas coisas inúteis. O armário ficou limpinho. Minha diarista adorou. Nunca esteve tão disposta pra limpar o roupeiro.
Mas o ponto crucial continua sendo a famosa Feira do Livro. Ah, meu Deus, tantos balaios, tantos caixotes... Quanta tentação, tanta festa! Contos, crônicas, poesias, romances, arte... Um mundo mágico que não me controlo.
Sempre olho para aqueles balaios como quem examina a anatomia de um corpo; há tanta coisa esquisita, e eu tão indecisa... Mas preciso ir atrás de poesia: não por ser liquidação ou por haver balaios em profusão, mas porque poesia é uma flecha que encanta, que vai direto ao coração.
E não posso deixar que a poesia passe em branco, afinal, 'eu passarei e todos passarão'; mas 'ELE'...(Quintana) Passarinho!


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4 de março de 2019

ESTRESSE NA VIDA MODERNA



              - Taís Luso 

Estava numa loja de acessórios para cortinas, quando lá pelas tantas percebi que uma senhora surtou ao ver um rapaz com herpes labial. Perguntou-lhe se gostaria de uma cura espiritual, de uma oração focada para o 'herpes' do camarada sumir. Caramba! Como há esquisitices nesse mundo! Que coisa mais invasiva!
Fiquei a olhar de esguelha e pensei, naquele instante, como as pessoas pegam sarna para se coçarem! O que ela tinha a ver com o herpes da criatura? Colocou a mão no ombro dele e fez lá sua oração dentro da loja. Enfim, tem louco pra tudo.
Mas tudo bem, evito discutir religião e  política – estou livre e  leve. O ponto chave de conseguir paz é observar e conseguir ficar fora de discussões; conseguir dominar nossos ímpetos é maravilhoso. Quanto mais vivo, mais aprendo.
Muitas doenças de pele, como a do rapaz, são de fundo emocional, uma vez que a pele é a proteção do corpo, mas é vulnerável às emoções. Fadiga, angústias, remorsos, raiva, 'mágoas', insatisfações e cobranças pessoais se manifestam em alguma parte do nosso corpo.
As doenças vitiligo, a psoríase, o herpes, infarto, AVC  são muitas vezes consequências de um sistema emocional em pane, pedindo pelo amor de Deus uma providência. Sim, o estresse faz grandes estragos. Quando a carga é pesada demais, o corpo grita; pede ajuda.
Hoje o estresse e a depressão estão em alta. Estamos sempre atarefados, preocupados em fazer e concluir mil tarefas! E muitas vezes infelizes e solitários. A vida mudou muito.  O que se vê de gente nervosa por aí, valha-me Deus! Relevamos poucas coisas. 
Trabalhamos como loucos porque a mídia nos empurra de tudo e temos de exibir o máximo nas redes sociais. Não conhecemos muito bem o gerente do nosso Banco porque não passamos de uma peça de engrenagem; desconfiamos do advogado, do dentista, do médico, do mecânico, do eletricista... e precisamos consultar mais profissionais para confirmar se o primeiro diagnóstico está correto! Estamos muito mais desconfiados do que tempos atrás. Lembro, quando criança, que não escutava nada sobre estresse. Nossos pais tinham tempo e prazer em trabalhar – não lembro de meus pais ficarem aloprados pelo trabalho ou coisa qualquer. Tudo se resolvia com mais tranquilidade. Sem barracos.
É difícil viver num mundo de cobranças: temos de explicar a razão de gostarmos ou de não gostarmos das coisas; temos de explicar o porquê somos cristãos ou ateus; de esquerda ou de direita; temos de comemorar todas as festas do ano porque todos comemoram; temos de ir onde não queremos para não gerar encrenca familiar ou de outra ordem. Mas que mão de obra!! As pessoas não fazem convites, elas intimam, elas querem mandar nas nossas escolhas! E se não aceitamos ficam contrariadas. As discussões acaloradas nunca terminam bem, isso é desperdício de saúde. 
O estresse está presente em nossas vidas diariamente e ataca nosso sistema imunológico. E nossas defesas vão pro brejo. Evitar agressões é alongar a vida. E nossa saúde agradecerá.  Não levar as coisas muito a sério, é uma medida inteligente, afinal, nada sabemos o que há além da vida. O que vem depois, um dia saberemos.
Por enquanto  nosso bem maior é nossa vida. Mas o estresse reina bonito! 
E estraga boa parte da jornada.

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23 de fevereiro de 2019

OS NOVOS RICOS...

Juarez Machado / Brasil



        - Taís Luso

É muito divertido  ver as extravagâncias dos novos ricos. Mas o mais curioso é que alguns emergentes nos dão a impressão de que tudo o que ostentam vem de berço, como se eles fizessem parte de uma Dinastia. Sendo assim, a coisa fica bastante animada de descrever algumas coisinhas  que vejo por aí.
Os cachorros dos novos-ricos são diferentes dos meus; frequentam manicura, pedicura, tosa e modelista. As fêmeas andam de fitinhas e jóias no pescoço. E se forem pequeninos andam no colo da madame, tipo Nenê da Mamãe!
A casa do novo-rico tem de ser top: um decorador - já conhecido no mundo das celebridades - é que irá  decorar a nova morada, e com muito luxo. Mas como bom gosto não se compra com dinheiro, as extravagâncias andam soltas.
As empregadas andam na goma: uniformizadas dos pés à cabeça, passam a falar baixinho e adquirem um comportamento misterioso, principalmente ao telefone: falar com a madame torna-se algo mais difícil do que falar com o Ministro das Comunicações. Mas faz parte, a madame é muito ocupada no seu mundo!
As Novas Ricas têm interesses diferentes, um deles é explodir nos céus da pátria amada como uma pessoa vista como refinada e isso requer estudo e  dedicação se a Diva não foi criada no meio. 
Para os homens valem outras coisas: o carro top, com cem luzinhas no painel  lembra a cabine de um Boeing supersônico. Isso deixa os novos emergentes alucinados. Também entra na lista deles o Laptop mais avançado do mercado; o celular mais afinado, caneta de ouro, relógio Rolex, Patek Phillipe... e bebida! E na bebida, a maior exigência fica por conta do vinho. E o bom emergente faz questão de anunciar o preço de seu vinho... Aliás, fazem questão de gritar o valor de tudo. É questão  de status, prestígio.
O emergente metido a enólogo tem um envolvimento com o vinho como se fosse a sua eleita, e fica aloprado ao entrar numa adega. Para alguns deslumbrados, o vinho tem de ser degustado e seus mistérios desvendados! Olhem que coisa romântica! O ritual do vinho só perde para o chá dos japoneses - com horas de preparo. Beber com um emergente nunca será um prazer, será um estresse.
Mas, continuando com a originalidade dos novos ricos, a temperatura do vinho tem de ser exata: o excesso de temperatura poderá deixar o vinho agressivo, pouco agradável, como o inverso fará com que o vinho adormeça, neutralizando o aroma e o seu sabor.
É da maior importância que o vinho seja da melhor safra, da melhor uva, e da melhor vinícola - procurada com ansiedade no rótulo da garrafa. Faz parte da sua cultura geral.
Mas tem mais: o melhor cálice é o de cristal sem emenda, liso e com silhueta de tulipa, para poder girar o vinho, pois é assim que solta os seus delicados aromas. E não param de cheirar a bebida dos deuses. Estão entendendo o espírito da coisa?
Então sigo...
A idade do vinho é importantíssima: sendo vermelho rubi, é um vinho jovem; vermelho acastanhado, vinho mais envelhecido. Então você decide se quer um  véio  ou um novinho,  frutado ou amadeirado.
Você tem de amar o vinho! Ser-lhe fiel! Beber pensando nele: sentir se é encorpado ou leve; se generoso, aveludado, rascante... Mas se for um vinho filante (doente), o cara surta! O estudo técnico de um vinho é como um processo de software; é muito importante, você precisa entender isso! Ou aguente o estresse.
O vinho sempre será algo de extrema importância nas rodas sociais,  e você  aprenderá sobre as uvas sauvignon, merlot, pinot-noir, pinotage, chardonnay, gewürztraminer... E não somente isso; também será importante falar na rolha, no sabor, no perfume, na uva, na cor, na acidez, na idade e a procedência! Ah...e no abridor que veio do  outro lado do mundo!
Nesse delicioso papo talvez você descubra o sexo da bebida, uma vez que uva é feminino e vinho é masculino. Ando confusa com isso. 
Mas então é isso aí, gente; foi só uma introdução pois o assunto é infinito e as extravagâncias são inúmeras. 
Os homens não compram uma bolsinha Louis Vuitton, não enfeitam os cachorros, não colocam uniforme nas empregadas, não enchem a casa de cristais, mas quando emergem ficam loucos por coisas que ninguém entende. Até por uma taça de tulipa, sem emenda!
Mas no final, tudo isso é a cara do Brasil!  Mas o que vale é que os novos-ricos devem se divertir um bolão; e eu, só em escrever, também!

  O  tal   'Nenê da Mamãe'...





17 de fevereiro de 2019

A BLOGUEIRA MAIS IDOSA DO MUNDO

"O maior desafio do ser humano é superar seu próprio medo".

      - Taís Luso

Dagny Carlsson está com 106 anos, é um exemplo de mulher, leva sua vida com alegria e determinação! Pesquisei bastante sobre ela, andei pelo seu blog (traduzindo para o português) e hoje a trago aqui para que meus amigos também a conheçam. É uma lição de vida o seu otimismo, a sua garra.

Nasceu na cidade de Kristianstad, na Suécia em 8 de maio de 1912 - quase 107 anos. E como é esperta! Tem opinião, fala de tudo, e o que a move é a curiosidade. Bojan - é como assina suas postagens no blog.

Dagny, ainda jovem, começou a trabalhar como costureira numa fábrica. Mais tarde estudou em um instituto têxtil em Norrköping. Porém, o que a tornou famosa foi o fato de se tornar uma blogueira, quis ser uma voz para defender a dignidade dos idosos na sociedade, com seus textos e suas opiniões. Dagny vive no apartamento de 99 metros quadrados há mais de trinta anos, mora sozinha depois que seu marido Harry faleceu em 2004, aos 91 anos. Ela não teve filhos,  tem sobrinhos - 70 e 65 anos. 

Ganhou seu computador dos familiares, aos 99 anos. E daí para a criação foi um pulo! Aos 104 anos de idade, Dagny Carlsson ganhou status de celebridade na Suécia.
Fala dos direitos dos idosos, dos desafios da velhice, do tempo em que não havia telefone, geladeira e por aí afora. Uma volta ao tempo muito pessoal, muito bom de se ler. 

"Os idosos não são estúpidos como a sociedade pensa. É preciso mudar esse conceito. As pessoas mais velhas são tratadas, em geral,  como se fossem crianças  ou como se fossem idiotas. Dizem aos idosos, ‘você não entende isso’, ‘meu velhinho’ e coisas assim. Eu digo que os idosos merecem mais respeito” -  desabafou Dagny.

Com alegria conta que as crianças a escrevem, que leem seus textos. Atualmente vive em Estocolmo, e diariamente passa algum tempo no computador vendo as novidades no mundo, e tudo feito com alegria, porque segundo ela, a vida não acabou, vive com intensidade e comunica-se com os amigos distantes. Adora comentários - deixei um numa de suas postagens. Dagny Carlsson mexeu comigo, com minhas emoções e, certamente, mexerá com a de vocês, também! 
Maravilha!! Dê uma olhada na nossa blogueira no vídeo abaixo.
Adorei conhecê-la!
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Blog: aqui     (posts 2019)  
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Aqui com 106 anos
no computador
Com o Rei  Carl  Gustaf  e  a rainha Silvia.
                        foto quando jovem
Parabéns, Dagny Carlsson, adorei conhecer você!
Que belo exemplo!




9 de fevereiro de 2019

O MAU USO DA PALAVRA 'TIA'

 



         - Taís Luso

Na minha geração a palavra Tia era uma coisa;  Professora , outra. Professora era a mestra que ensinava, que exigia disciplina, que era respeitada, que cobrava o saber, os deveres de casa, os trabalhos de pesquisa;  Tia era aquela parente que amava e mimava os sobrinhos e que estava sempre presente nas festas familiares. Bem separada eram as funções de uma e os vínculos afetivos da outra.
Na geração dos meus filhos a coisa mudou: começou a esquisitice de chamar a professora de  Tia para logo alçar voo e cair no uso do guardador de carro, do mendigo, do vendedor de pastéis, dos malabaristas dos semáforos, dos vendedores de picolé e de qualquer um que fosse chegando - sem saber chegar. E nesse compasso  viramos abençoados tios! Sou tia de criaturas que nunca vi na vida!
- Hei, tia, tem algum trocadinho aí?
Ficou  enjoativo  chamar a professora de tia ou o professor de Tio, pois se estendeu das salas de aula  às ruas. E tudo virou aquilo, colou como chiclete, embora muitos tios fiquem de cara feia pela suposta intimidade daqueles que nunca viu na vida. Piorou a chance de alguém conseguir uns trocos ou vender seu picolé, pastel, seja o que for.
Somos respeitados quando usamos o respeito e consideração para tratar os outros; quando usamos o  senhor, senhora, professora,  doutor, moça, moço
Infelizmente foi aceito esse tipo de tratamento que começou como se fosse algo carinhoso, como se o carinho fosse próprio só das tias: 
- Vai com a tia, filhinho, mamãe volta logo pra te buscar!
Pronto!!  Não se deram conta de que o filhinho cresceu, virou marmanjo e  a  Tia  virou vício de linguagem. 
Estava lançado o pilar das salas de aula dos cursos fundamental e médio, o que só serviu para tirar a autoridade, uma vez que essa intimidade, fora do espaço familiar, gerou bagunça e desrespeito.  Largar esse vício de linguagem é difícil.
Ainda não  perceberam que escola e família são duas coisas distintas. É bom para o aluno sentir firmeza numa professora, não numa tia. Eu tive ótimas professoras, e como foi saudável para minha formação respeitá-las. Tive orgulho em tê-las como minhas professoras. Era ótimo quando levantávamos o braço para pedir a palavra. Não havia bagunça porque havia distância e respeito. Sempre foi assim e deu certo.
Ninguém vai para uma escola arrumar suas carências afetivas, vamos pra aprender, para conviver com nossos colegas, aprender a ter disciplina no estudo, concluir os anos e ter a alegria de receber  o Diploma. Depois,  poder levar na lembrança a imagem da professora querida que cumpriu seu papel de Mestre. Não de Tia. 


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1 de fevereiro de 2019

COMIDAS MUITO ESTRANHAS



      - Taís Luso
Hoje trago umas comidinhas diferentes. Se a chamada exótica gastronomia do planeta dependesse de gente como eu - estaria com os dias contados.
É ótimo conhecer países diferentes: seu povo, sua cultura e sua gastronomia, porém, certas coisas ficam 'difíceis'. Mas é assim;  vão se acostumando com a ideia: o homem come o bicho, o bicho come o homem, e quem ri por último ri melhor!
Ao dar uma voltinha lá pela China, através dos documentários, percebi que os chineses adoram espetinhos de qualquer coisa: besouros, lagartas, bicho-da-seda, marimbondos, cobras, escorpiões... aquelas coisas estranhas para os  ocidentais. Os espetinhos são vendidos na rua. Fora às frituras, existem comidinhas mais saudáveis, como a lagarta ao molho (foto acima), não entope as artérias, deve ser uma sensação maravilhosa mastigar lagartas. Superação!
Os indianos, por sua vez, adoram suas lacraias e baratas gigantescas fincadas no espeto. As baratas me deixam muito aflita, são enormes, horrorosas, fico alteradíssima, tenho uma enorme fobia por baratas e coisas semelhantes, bichos que se escondem. Eles mexem terrivelmente com meu sistema nervoso. Mas, longe deles sou equilibrada. Podem crer.
Em Taiwan, vi um prato da pesada: testículo de porco - Nossa Senhora!! Pegam pesado. Na Tailândia a coisa é  mais leve, eles comem o bicho-da-seda, em espetinhos ou ensopado, deve ser uma gostosuuuura!
Mas, fiquei impressionada foi com o Japão: lá, existe um peixe chamado Fugu. Esse peixe possui um veneno mais forte do que o cianeto. Este prato tem de ser preparado por cheffs, com 4 anos de curso especializado no corte. Aprendem a retirar uma bolsa venenosa, perto das brânquias – órgão respiratório. Além desta bolsa, há veneno na pele e no fígado. Contudo, 70% dos candidatos - os fugu cheffs - são reprovados. Comer Fugu não deixa de ser uma roleta russa. É um prato muito solicitado justamente por ser excitante, desafiador, como se fosse um esporte radical. Dizem que seu gosto não é lá essas coisas... O importante é a adrenalina.
coisas que não se consegue transmitir num texto, jamais conseguiria transmitir minhas náuseas ao ter visto uma pessoa comendo um polvo vivo, ou seja, o San nakji, na Coréia do Sul. Ao ver aquilo fiquei mal! Vejam como se come esse negócio:
1- Pegue o polvo da tigela que é levada à sua mesa;
2- Estique os tentáculos do polvo para baixo; pegue a cabeça do bicho e molhe num molho de sua preferência e vá empurrando goela abaixo, lutando contra as pernas do bicho, pois elas se negam a descer. Ficam se debatendo fora de sua boca. Esse é o ponto máximo da náusea gastronômica.
Mas, se você quer comer direitinho,  pegue o bicho, enrole todo num pauzinho, abra a boca e mande! Desce que é uma beleza. Porém, para os que não são chegadinhos num polvo, o ensopadinho do bicho da seda desce melhor...
Também temos, aqui no Brasil, um prato exótico para saborear: o Turu! Esse molusco comprido e molengão, hospeda-se em árvores podres na ilha de Marajó e no interior da Amazônia. Também é comestível... (foto). Deve ser delicioso!
Casu marzu, é um queijo produzido na região da Sardenha, Itália. Coisa fina, produzido com leite de ovelha. É chamado de queijo podre, devido ao seu processo de maturação, feito com larvas vivas de moscas. É considerado tóxico quando as larvas morrem. Portanto só pode ser consumido com as larvas vivas, passeando lá por dentro... Mas por ter sua fermentação exagerada (estado de decomposição), o governo italiano proibiu sua comercialização por motivos de saúde. Porém é encontrado no Mercado Negro.
Encerrando, no final de tudo, tomem uma cachacinha ao molho de serpentes! Todas essas maravilhas devem ser um sonho de consumo de muitos turistas, em busca de superação!


espetinhos de escorpiões etc...
sopa de escorpião
aranhas fritas
macarrão
Sushi decorado
sopa bicho da seda
queijo Casu marzu
formigas saúva - Amazonas / Brasil

                    Turu / ilha de Marajó - Brasil                          peixe Fugu  - Japão                           
cachaça ao molho serpentes e ervas


24 de janeiro de 2019

QUERO COMPRAR É VIDA!

Ovo cósmico / obra de 2000  - Surrealismo de Vladimir Kush  

         - Taís Luso de Carvalho
Há muito tempo que o celular tornou-se, também, um aparelho inconveniente: vendas, propaganda eleitoral gravada, ajudas para entidades carentes (nunca se sabe a veracidade), e outras coisas de cunho duvidoso. E o celular nos alcança nas 24 horas do dia. Eficaz!
Estou aqui no meu pc, puxando minhas emoções para escrever sobre Vida e toca meu celular. Mesmo sem conhecer aquele número, atendi.
Sra. Taís?
Sim...
Aqui é do Crematório... Pela nossa agenda estamos vendo que a senhora usou de nossos serviços há uns anos, certo?
Certo; há muitos anos para meus pais, mas algum problema? Fiquei devendo alguma coisa?
Não senhora, está tudo bem. Como vai a senhora de saúde?
Olha... muito bem, obrigada! (quanta delicadeza - pensei.)
Dona Taís, queremos agendar uma visita em sua casa para quando chegar a hora, que infelizmente chega para todos...
CUMEQUIÉEE??
A senhora sabe que isso é natural, um dia todos vamos partir e queremos lhe oferecer o nosso plano...
Moça, não me leve a mal, isso é natural  pra você que lida todos os dias com defunto, mas pra mim é antinatural! Não está na hora e nem nos meus planos mexer com esse tipo de coisa... Por enquanto estamos todos aqui pensando numa vida infinita! Na hora certa procuro esse tipo serviço

Acho que não fui muito cordial, tranquei o papo, agradeci  e desliguei. 
Deus dos céus, por um momento tive a sensação do meu fim! Confesso que fiquei olhando para o retrato de meus pais - na prateleira, acima do meu pc. Que sensação desconfortável,  comprar o meu velório!?  
Quem disse que quero comprar jazigo, caixão, ser cremada ou conhecer algo do gênero? Quem disse que penso em morrer? Não decidi nadinha, ainda, moça! E não inventem de telefonar no meu aniversário me desejando muitos anos de vida; sentirei a falsidade. Enquanto eu tiver vida quero comprar felicidade!
Penso que isso não é serviço que se ofereça por telefone. Se o negócio é vender caixão, cremação ou jazigo que anunciem lá nos quintos, não para meu telefone, que coisa esdrúxula.
Sei que morrer é inevitável, mas é algo delicado e dramático para venderem com tanta naturalidade! Isso nunca foi um desapego natural. Enquanto houver vida, haverá luta. Na verdade muitas vezes indago sobre o sentido da vida. E tento  logo esquecer o assunto, deixo esse quesito para os filósofos refletirem durante séculos se assim quiserem e  gostarem.  Quanto a mim...
Tenho visto muitas partidas, e sinto - cada vez mais - o encanto de ficar.


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