13 de agosto de 2019

O PEDINTE DO PARQUE



           - Taís Luso


Foi ainda no mês de agosto. Fomos almoçar fora com os filhos e depois aportamos num alegre recanto de uma cafeteria no parque - defronte ao restaurante. Boa comida e depois papo de família. Como estávamos do lado de fora, nas mesas rodeadas por árvores e plantas, ficamos conversando e vendo o movimento do Brique, com suas antiguidades, artes e gente bonita passeando.  Como é um lugar democrático, ao ar livre, alguns pobres faziam seu passeio a fim de ganhar um dinheirinho.

Aproximou-se de nossa mesa um simpático pedinte com uma grande sacola cheia de latinhas vazias que catava pelas redondezas. Perguntou por nossa preferência de bebida: refrigerantes ou cervejas?  Minha filha disse que gostava de coca cola. Até então eu não tinha entendido muito bem o que ele estava fazendo. Sentou-se no chão, cortou a latinha pela metade e fez uma chaleira pequenina, com tampa, alça e o bico. Tudo muito rápido. Ficou engraçadinha. Logicamente ela lhe deu um dinheiro, agradecendo.

Olhou para mim e perguntou alguma coisa que também não entendi; mesmo assim pegou uma latinha de 'cerveja' tamanho normal, cortou, moldou e me ofereceu em tamanha miniatura, muito bonitinha. Será que ele me achou com cara de beberrona? Mas ficou por isso mesmo, até que me alcançou a latinha. 

Elogiei o que fazia e também dei-lhe um dinheiro para ajudá-lo, agradecendo pelo seu trabalho. O homem saiu contente com o dinheiro que ganhara  e por ver que ficamos contentes e o elogiamos - o que não custou nada. Disse-lhe que colocaria em minha cozinha! Sorriu, um largo sorriso! E foi o que fiz, não quero esquecer  o valor das coisas simples da vida. Que parecem simples.

Aquela sua maneira de pedir uma ajuda foi criativa e simpática. Não incomodou ninguém e ficou feliz por termos feito uma 'troca'. Acho que ele lucrou mais do que dinheiro, sentiu-se um pouco mais gente, não passou pela humilhação de ser mais um pedinte, nos ofereceu algo em troca.

Ficamos todos muito contentes de vê-lo sair alegre, e com sua sacola cheia de latinhas para continuar com o seu trabalho artesanal.
Foi uma tarde leve.


Na cozinha, a mini-latinha verde do pedinte.

Depois...uma caminhada no parque Farroupilha - Porto Alegre/RS






6 de agosto de 2019

CRÔNICAS E CRONISTAS



         - Taís Luso


Hoje, no nosso café da manhã o assunto foi um só: a crônica. Conversamos, Pedro e eu, sobre a arte da crônica. Primeiro, começamos a falar sobre a importância da crônica nos dias de hoje. A crônica é tão importante nos dias atuais como foi nos tempos passados. Como não podia deixar de ser, iniciamos com o nome de Machado de Assis, o nosso mais importante romancista. Foi também cronista, poeta e contista.

Deixamos para trás  Machado de Assis e viemos para os anos modernos - dos anos 70 para cá. É fácil afirmar que o Brasil é rico em cronistas. Como falamos em muitos cronistas dessa época próxima, não terei espaço suficiente para falar de todos aqui. São muitos. Mas não quero deixar de mencionar o nome do cronista moderno mais importante no meu entender, qual seja Rubem Braga, que nos deixou muitas crônicas de extraordinária beleza, com a sua capacidade de síntese, com a sua sutileza, lirismo e leveza para extrair os fatos aparentemente simples do cotidiano e transformá-los em crônica que, em muitos casos são belas prosas poéticas, um lume para novos cronistas.

Certamente Ruben Braga continua sendo o nome mais expressivo da crônica brasileira. Para os que querem dar seus primeiros passos nesse gênero da literatura, é um nome que não pode ser esquecido. Rubem Braga, como outros importantes cronistas contribuem com suas crônicas para elucidar muitos fatos históricos.

Passamos, também, pelos excelentes Fernando Sabino, Paulo de Mendes Campos (também poeta), Carlos Eduardo Novaes, Luis Fernando Verissimo, Millôr Fernandes, Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto), Ignácio de Loyola Brandão, Lygia Fagundes Telles, Rachel de Queiroz, Origenes Lessa, Carlos Heitor Cony, Caio Fernando Abreu, Moacyr Scliar... entre tantos outros.

De outros nomes falarei em outra oportunidade. A crônica sempre será uma leitura agradável, por vezes divertida, outras comoventes, mas  sempre tocará nossos corações. Esse gênero da literatura pode dar grandeza a fatos aparentemente insignificantes do nosso cotidiano.  Essa é a beleza da crônica.



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31 de julho de 2019

MEU BRASIL


        - Taís Luso de Carvalho

Política é a ciência de governar a coisa pública, é a arte de negociar. Mas que coisa frustrante pode ser a política quando esses dois quesitos não atingem os objetivos.

Há muito tempo que vejo coisas tristes no meu país, atitudes decepcionantes e rasteiras. E quem paga é o povo. Vejo o tanto de amizades que se acabam, como também vejo muitos relacionamentos familiares irem pro brejo, em nome de ideologias, ou seja lá o que for falado dos mistérios da política. Os ânimos sempre exaltados, tudo muito agressivo. Pais e filhos discutem, plantam mágoas na tentativa de sustentar (politicamente) o insustentável. Que triste, que cansativo isso tudo! Impossível governar quando a corrupção não tem fim, cada dia uma nova descoberta gigantesca... e faltam recursos para a saúde, para a educação, para a segurança, para tudo. O dinheiro vai para lugares errados. 

Lembro, há muitos anos, quando os estudantes saiam das Universidades e atravessavam os parques à noite, sem perigo algum; crianças iam e voltavam da escola sozinhas. Jamais fiquei ansiosa ou rezei quando meus filhos saíam à noite. Hoje as mães  rezam o terço na dolorosa espera... Será coisa de mãe conturbada,  fantasia ou uma agonia justificada? As famílias  que o digam. 

Tenho acompanhado muitos imigrantes que deixam o país em busca de segurança, mas imigrar não estava em seus planos. Os brasileiros saíam para cursos no exterior, mas com uma saudade  imensa - e voltavam! Eu fui uma. Éramos um povo alegre e feliz.

Há anos, boa parte dos brasileiros estão acuados em relação aos crimes,  aos assaltos diários, de norte a sul do país. Esses milhões de brasileiros, sobrecarregados de impostos, só desejam um país honesto e próspero, mas qualquer  palavra mal colocada  é o estopim para disseminar o ódio, a agressão, a dissimulação e a histeria entre as pessoas. Entre os dois lados.

Não quero mais abraçar praças e lagoas, como atos simbólicos, ou morrer pelo Brasil – como canta nosso belo Hino. Mas o povo nas ruas, eu quero sempre, governaremos juntos. A Operação Lava-Jato - Orgulho do Brasil - eu também quero! Torço pelo novo governo. Não quero  mais desgraça no Brasil, bastaram os  infelizes  anos.

Meu interesse aqui não é polemizar, mas ser solidária com meu país num só pensamento, numa só vontade, um só povo: resgatar a nossa dignidade e a nossa paz. Que esse país levante dos escombros, há muito adormecido, e que nos traga mais vida e orgulho novamente. Quero um Brasil que volte a inspirar o patriotismo da bandeira verde e amarelo: verde/amarelo!!


- Veja o Brasil!





22 de julho de 2019

A COMPLICADA PARTILHA



        - Taís Luso

Não há dúvida que qualquer pessoa ao receber a notícia do falecimento de alguém, fica consternada e lamenta imensamente a perda. Porém, na família, a dor é incalculável e  a recuperação é muito lenta.
Contudo, após o sepultamento, muitas pessoas revelam atitudes  que surpreendem e servem para nos dar a dimensão exata dos mais diversos tipos de comportamento humano. Nada é regra, mas existe de tudo um pouco. Atitudes lamentáveis.
Os primeiros meses, após o falecimento de um ente querido, é de intensa dor familiar. Em todos os cantos há lembranças; sua poltrona predileta, seu computador, celular, seus livros de cabeceira, sua xícara, seu perfume... Cada lembrança é sentida, e lágrimas escorrem procurando um alívio. Tudo tem uma conotação afetiva e tudo permanece onde sempre esteve na tentativa de conservar o familiar o mais próximo da lembrança. Nessa hora há muitas revisões afetivas. É um bom momento para ajeitar algumas feridas,  soterrar  culpas,  exercitar o perdão se houver necessidade.
Passada a dor inicial, entra outra realidade familiar: a Partilha, divisão dos bens! É neste ponto que o ser humano se revela. É aí que começa a dureza da nova vida: as leis e os direitos dos herdeiros: o meu e o teu perante a lei.  Começa o que antes nem se cogitava: as brigas dos herdeiros pelas coisinhas. Brigas por palmos de terra, desentendimentos por porcarias.
É nesse ponto que acontece a segunda perda: sepultam-se sentimentos, o respeito, a amizade, a dignidade, o parentesco. O amor. E tudo em nome de latarias; de trecos e cacos. Começa a mesquinharia. Acaba a harmonia familiar e começa a desconfiança entre os herdeiros. Muitos deles são verdadeiros horrores. A harmonia vai pro brejo; a família afunda e separa-se. 
A morte parece ser um engodo, uma provação pra ver até que ponto podemos chegar. Sordidez é algo que desqualifica, que depõe, que desmerece. Mas é próprio da nossa espécie. A paz é essencial, e bendito seja aquele que consegue ver que o importante é a harmonia familiar e os afetos. Muitas coisas são dispensáveis, só servem para magoar, para separar, pra destruir famílias e relacionamentos entre irmãos e outros. 
Partilhar deveria ser um ato civilizado, feito em paz; generoso, mas muitas vezes não são, é um confronto penoso através da Justiça dos homens. Uma avidez sórdida.
Não sei onde fica o paraíso, mas logicamente não é um lugar físico. Paraíso é estar em paz e sem conflitos, é um estado de espírito. É alma leve.
Não entendo como a morte não consegue deixar seu recado; é apenas percebida quando chega, quando busca a vida. Depois, é esquecida  e tudo se repete, como se ela não fosse voltar. 
Assim, ficamos com o eterno ciclo  da avidez, da vulgaridade e da mesquinhez entre os vivos. 


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13 de julho de 2019

NOSSO INVERNO NO SUL



        - Taís Luso 


Se existe um lugar  que as pessoas são  sempre amáveis, que não há divergências, esse  lugar é o elevador do nosso prédio: é Bom dia, Boa tarde, dá licença, até logo, muito obrigada... O único assunto é o frio e o calor,  e  todos concordam sempre. 
É unanimidade.

 — Bom dia, que frio, que coisa de louco, né vizinha? 
 — É... estou saindo para comprar pinhão, quentão e pantufas de lã - Até mais!
Dizem que há mais de 40 anos não tínhamos, aqui no sul do Brasil, um inverno tão frio, com dias tão melancólicos. O Brasil é um país tropical, e no sul onde há inverno,  sempre foi ameno, apesar do verão nos derrubar. É um nocaute na gauchada desprevenida.
Mas eu mudei de opinião, é como se fosse uma renovação, uma descoberta. Sim, podemos mudar de gostos, de ideias, de atitudes e de opiniões. Sempre notei, em muitas pessoas, um certo orgulho em carregar a mesma opinião por décadas, até o último suspiro. É mais uma 'boa' que sigo antes do juízo final; o mundo muda, tudo muda, eu mudei e ponto:  não gosto mais! O clima frio é um pouco sofrido. Ou muito.
É a primeira vez que não suporto um frio fora da medida. O que havia aqui, em Porto Alegre,  era uma meia-estação. Um inverno desmoralizado, com dias agradáveis de bastante sol e luz. E com uma temperatura até agradável. Do verão já não digo a mesma coisa – pega fogo!
O frio é muito desagradável, nos deixa engavetados e sem ação. Quem gosta de frio são os turistas que vão embora no terceiro dia, sem muitas delongas. Vão à Serra, brincam com a neve, fazem os seus bonequinhos e voltam  ao hotel, para o calor da lareira, onde um belo vinho com fondue de chocolate os esperam. Eles vêm de todos os lugares, loucos para verem neve! Tudo é festa do lado de dentro da vidraça, pois lá fora neva:
Olha que maravilha a neve branquinha!!
—  Tá bom... vai  lá fora, querida, fica 30 minutos por lá!!...
No verão tudo vira, e a natureza nos mostra o quanto é difícil o equilíbrio, e nos presenteia com 38, 40 graus: um soco na boca do estômago! Nem ela é perfeita.
Mas estamos aqui assistindo os documentários do inverno no Canadá, nos EUA, na Europa, Rússia e nos países mais gelados ou congelados do planeta! Eta gente de coragem! Ver isso é recarregar as baterias e alimentar o espírito de otimismo para termos a sensação de estarmos numa primavera permanente; sim, sabemos que moramos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, mas... ah, deixa pra lá!
A primavera vem aí ... E ficarei feliz novamente!



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3 de julho de 2019

A VIDA ESTÁ ASSIM...




          -Taís Luso de Carvalho
   Não leio mais jornais no modo impresso, leio no modo digital, e nem tudo, apenas o mais relevante. Passo reto por uma montanha de informações para não estourar minha cabeça, ou acabar com meus neurônios ao ler, ver e ouvir tantos absurdos nos meios de comunicação. Coisas inacreditáveis, carentes de verdades, de seriedade. Há muito que desandou no mundo das notícias uma imensa plantação de Fake News (notícias falsas), infelizmente. E onde não deveria haver, na política.

Na verdade, não sei o que faremos com tantas informações irrelevantesFora isso tudo, lembro de uma época em que abri uma página de um jornal e li um anúncio cujo título era assim: Leitura Dinâmica – Leia mil palavras em um minuto! Achei esquisito. Naquela época eu já indagava o porquê de tanta pressa, eu era mais calma. Leitura dinâmica era novidade, mas qual seria o gosto em ler um romance de 300, 400 páginas em pouco mais de 1 hora? Por quê? Isso não seria sufocante pra mim? Não tiraria o prazer da minha leitura? Passou um tempo e esqueci do episódio. Mas ainda existem tais cursos para quem quiser. 

Atualmente, vários meios  falam de toda essa revolução dos nossos costumes na tecnologia da internet, vieram na hora boa para suprir a falta de tempo das pessoas. Elas estão sem tempo para ler tudo que gostariam. Ora, ora... Mas desde quando os inquilinos do planetinha leem tanto assim?  

Nego-me a acompanhar tanta tecnologia, tantos aplicativos cutucando meu celular, meu computador oferecendo milhares de livros para baixar numa minúscula telinha  ou ouvir música num sonzinho vagabundo de celular que nos deixam alienados na rua. É patético. Vejo que qualquer barulho serve aos nossos ouvidos. Tudo misturado; vozes, buzinas e bagunça. 

Aplicativos é a palavra da moda, nos entregam tudo nas mãos. Não; quero continuar com minha nesga conservadora. Não gosto de tantas facilidades nas mãos, e tampouco penso em condicionar minha mente às regras preestabelecidas na evolução dos costumes. Não consigo entender o porquê de tanta pressa se nosso tempo de vida é pequeno. Não quero pressa! 

Acostumados que estamos com tanta virtualidade, perdemos o prazer da escolha concreta, do passeio às lojas. Penso no tamanho da solidão que estamos plantando para nosso futuro, tantos aplicativos para vivermos enjaulados dentro de casa. Não tenho dúvidas que essa evolução é magnífica, mas por não sabermos usá-la perdemos muita qualidade de vida - difícil de resgatar. 

Em que época ficou nossa maior saudade? Essa é a riqueza que ainda temos: nossa memória!




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23 de junho de 2019

PARA QUE CHORAR O QUE PASSOU...



                       - Taís Luso

Há poucos dias estávamos, eu e uma amiga conversando e perguntei-lhe como ela estava após algumas coisas que aconteceram com ela. Foi aí que me disse, e com muita veemência:

Eu vou mudar, preciso mudar!!
Levei um susto e lhe perguntei o que houve para tomar aquela decisão...
Estou ficando braba com muita frequência, e por pouca coisa, isso está me fazendo mal... tenho de mudar minha maneira de reagir.

Confesso que naquele momento fiquei com um nó na garganta, um misto de emoção, de espanto, mas também de alegria.  Alegria em ter escutado aquilo dela, pois  eu já havia percebido que ela não estava  bem.

Chega um dia que indagamos quais as razões de nossas atitudes não muito calibradas, e é muito bom quando temos essa noção de que algo não está certo em nós. Foi uma decisão consciente e corajosa. Digo corajosa porque nossas atitudes já estão enraizadas. E muitos seguem a vida assim. E ela partiu para mudanças. Deixo a ela  aqui, todo meu carinho.  

Ela sabe que eu escreveria sobre isso, pois achei muito interessante  compartilhar o que há de melhor em nós. Atrás dessas atitudes, que por vezes sai num ímpeto, há uma retrospectiva de vida, amadurecimento e vontade de acertar para a garantia de uma vida melhor. É uma virtude.

Sempre temos um ajuste aqui, outro ali... Na verdade somos um relógio que de vez em quando precisamos ajustar os ponteiros. Só assim seremos mais felizes, pois com o passar dos anos vamos acumulando não só coisas materiais, tranqueiras inúteis, como também acumulamos sentimentos que vão nos destruindo, são mágoas, ingratidões, decepções,  são dores que nos desestabilizam muito. É um atraso, um desperdício de saúde  que fazemos a nós mesmos. Viramos acumuladores de infelicidade.

Comecei a pensar também em minha vida e nas pessoas próximas. Por vezes não comandamos nossos vidas e sentimentos. Muitos são motivos para queixas, é bom mudarmos quando notamos que  as coisas não estão se juntando. 

Que triste certas reações que surgem fora do nosso domínio; que triste quando não conseguimos perdoar ou descartar alguma coisa que está nos deixando ansiosos.

Na verdade, sabemos muito pouco lidar com sentimentos, nos perdemos nas emoções. Mas quando nos encontramos, é como se encontrássemos um pedacinho do céu. 

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Essa crônica inspirou um belo poema do poeta Toninho, aqui:
https://mineirinho-passaredo.blogspot.com/2019/07/as-duas-mulheres-do-sul.html


Maravilhoso!   Para que chorar o que passou...

 ( Charles Chaplin )




17 de junho de 2019

AS GAFES DO COTIDIANO




    - Taís Luso


Sou desastrada com gafes, mas será que é só comigo? O pior é tentar arrumar a tragédia já consumada. Quando a flecha crava fundo o estrago é grande. Não sei a razão das gafes serem sempre hilárias, mas para a vítima é horribilis! Contarei algumas das minhas gafes pra vocês:
Aconteceu em Buenos Aires, quando meus pais foram ao teatro com um casal de amigos portenhos - los hermanos. No intervalo da peça, minha mãe começou a rir  sobre tudo o que a amiga dizia. Meu pai a cutucou para que parasse de rir, pois a amiga estava falando sobre uma tragédia. Minha mãe, como não conseguia entender a tal amiga, quis apenas ser simpática e achou que rir seria o melhor. Acho que nesses casos é melhor se guiar pela cara da anfitriã: se ela rir, ria; se fizer cara de tragédia, faça cara de drama. Dá sempre certo!
Outro desses desatinos, aconteceu quando Pedro, meu marido, perguntou à farmacêutica perto de nossa casa, se o nenê já tinha o nome escolhido! Não entendo por que mulher com barriga grande  tem de estar grávida!  Não consegui arrumar o estrago. Foi horrível quando ela perguntou: - que nenê!?
No ano passado esbarrei com uma antiga colega de colégio, há mais de 30 anos não nos víamos. Ela olhou para mim e disse Taís!! Perguntou se eu não a estava reconhecendo; essa pergunta não se faz, fiquei olhando um pouco e reconheci a mulher pelos dentes! Abri minha boca e saiu besteira:
- Que surpresa agradável  te  encontrar...  estás  a mesma!
Sei lá, saiu!! mas não tem perdão, fui muito cretina! A colega engordou tanto que a única coisa que não mudou foram os dentes. Que mania essa de dizermos aos outros que estão a mesma criatura depois de 200 anos! E sei lá o que ela viu em mim, pelo menos ficou de boca fechada – graças a Deus.
Tenho uma vizinha que adora crianças. Estávamos entrando numa confeitaria quando a vi colocar a mão na cabeça de uma criança que estava de costas:
- Que gracinha de menininha...
A criança virou pra ela e mandou passar a mão na cabeça da mãe!! Era uma anãzinha que devia ter uns 35 anos. A situação ficou difícil, não tinha remendo. Foi aquilo e pronto.
Também lembro de uma de meu pai: estávamos, eu e ele no Banco, esperando pelo atendimento, quando avistou um antigo colega. Meu pai, contente por encontrá-lo abraçado com uma jovem muito bonita, disse-lhe:
- Que linda sua  filha, essa eu não conhecia, vai dar trabalho aí pro paizão!
Não era filha, era a mulher do homem! Meu pai além de chamar o sujeito de velho ainda elogiou a  mulher do próximo.
Outra saia justa, horrorosa, aconteceu numa viagem ao Rio de Janeiro, há muitos anos. Décadas! Ainda adolescente, lá pelos meus 16 anos, nossa família foi convidada para um jantar na casa de uma tia de meu pai, daqueles  jantares meio afrescalhadosLembro que haviam vários talheres, taças, copos, pratos, pratinhos, garçom... E na frente do pratinho do pão, uma tigelinha com lavanda (para lavarmos as pontinhas dos dedos antes de pegar o pãozinho). Um dos convidados, sentados à minha frente, não pensou duas vezes: pegou a tigelinha pequenina, mas era meio alta, e bebeu. Deve ter pensado num  aperitivo! Mas o pior foi quando ele viu, pelos outros, que aquilo era para outra finalidade. Coitado, foi vitima da frescura excessiva...
Ontem, no supermercado, peguei um vinho do Porto, mas não encontrava o seu preço. Não deu outra: chamei o primeiro avental branco que estava por perto e pedi ajuda. Muito educado, esse senhor pegou o vinho, perguntou de onde peguei e tentou me ajudar, mas não conseguiu achar o preço. Agradeci, mas acho que mostrei meu desapontamento por ele não saber o preço das coisas onde trabalhava. Quando fui para o caixa, o homem estava na fila ao lado, com seu avental branco que dizia no bolso: Enfermeiro Vieira - Hospital de Pronto Socorro (localizado no outro lado da rua). Olhei para os atendentes e o avental era amarelo claro!
Acredito que todos nós cometemos gafes, mas eu jurei em abrir os olhos e fechar a boca daqui para frente! Vá lá que com os anos eu fique pior...!


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(Reeditado)






10 de junho de 2019

A MULHER E O NINHO VAZIO




     - Taís Luso

Pois é, as crianças cresceram, e missão cumprida! Estou escrevendo sobre a 'mulher e o  ninho vazio', após arrumar  um armário.  Comecei a ver nossos álbuns de família que vieram ansiosos para minhas mãos. Sentei-me e recordei novamente as viagens com nossos filhos ainda pequenos, felizes e sorrindo, deixando ali as lembranças do nosso passado. Nem parece que estão adultos, formados e responsáveis por suas vidas. Dá saudade de tudo? Sim, muitas, mas também dá muita satisfação em vê-los muito bem. Missão cumprida.

A Síndrome do Ninho Vazio é bem conhecida. É assim chamada no Brasil quando os filhos deixam a casa dos pais, seja porque casam  ou porque querem morar sozinhos, cuidar de suas vidas, de seu trabalho. Normal. Mas essa  síndrome acomete às mães que ficam com a sensação de abandono ou sentem-se inúteis. Mulheres que viveram  em torno dos filhos, para suas famílias, mas esqueceram um pouquinho delas.

É para essa época que as mães devem se preparar; é preciso viver uma nova etapa da vida com alegria, com projetos realizáveis. A liberdade também está com os pais após a missão cumprida. Programem-se, essa etapa da vida pode ser ótima, sem rotular  de A Melhor Idade, não é por aí minha visão. Melhor idade é um momento muito relativo, existe gente com 30 anos que não está na sua melhor idade e pessoas com 60, 70, 80 que poderão estar muito bem. Nada é regra exata quando se fala em idade. Em tempo.  Não sei quem foi o infeliz que inventou essa, mas não estava no seu melhor momento,  meio falhado das ideias. Não concordo com esses conceitos pejorativos de Terceira Idade, Melhor Idade, Quarta idade  e o escambau. 

Essa nova fase não é bem-aceita por todas mulheres. Muitas  ficam com depressão ou abatidas, como se a vida tivesse um único sentido: o de procriar. Criar. Falta, nesse novo momento, outro sentido para suas vidas. Viagens, cursos, leituras, pinturas, encontro com os filhos, netos e um descanso do cotidiano trabalhoso. 

Quanto aos homens, continuarão  seu trabalho,   certamente não perceberão  a mulher ansiosa e triste que vive ao seu lado. As mães sabem disfarçar quando a alma chora e sabem silenciar a tristeza do Ninho Vazio. Mas a situação só mudará quando essas mulheres se conscientizarem que há muita vida pela frente; quando passarem  a viver toda a plenitude que lhes foi dada, amando, mas sem dependência, aproveitando todos os momentos possíveis. A coisa não é muito fácil.

Lembro do querido poeta Mário Quintana ao dizer: 
"Morrer não importa, o diabo é deixar de viver!”



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5 de junho de 2019

Paulo Leminski - QUANDO EU TIVER SETENTA ANOS



                    QUANDO EU TIVER SETENTA ANOS

 quando eu tiver setenta anos
 então vai acabar esta adolescência


                vou largar da vida louca
 e terminar minha livre–docência

                vou fazer o que meu pai quer
 começar a vida com passo perfeito

                vou fazer o que minha mãe deseja
 aproveitar as oportunidades
 de virar um pilar da sociedade
 e terminar meu curso de direito

                então ver tudo em sã consciência
 quando acabar esta adolescência.


                
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LEMINSKI, Paulo. Caprichos e Relaxos / pag 37 - São Paulo: Companhia das letras 2016.

Paulo Leminski foi um escritor, poeta, crítico literário, tradutor e professor brasileiro. Nasceu em Curitiba / Paraná em 1944 e faleceu em 1989 antes de completar 45 anos, de agravamento de cirrose hepática. É um dos poetas brasileiros, surgidos após a década de 50, de maior influência entre os poetas das décadas seguintes. À época de sua morte, já havia conquistado um lugar de destaque e relevo na poesia brasileira. 
Em 1983 Paulo Leminski lançava um livro que se tornaria um best-seller na época e um clássico para as futuras gerações. Ali estavam os principais poemas que o curitibano tinha escrito até então, muitos inéditos e outros publicados em edições independentes ou na revista de arte e vanguarda Invenção, encabeçada pelos irmãos Augusto, Aroldo de Campos e por Décio Pignatari. Os pais da poesia concreta no Brasil haviam adotado aquele jovem poeta ilustrado, audacioso e contundente. Mais de Paulo Leminski aqui.



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30 de maio de 2019

COMERCIAIS - AMAMOS OU ODIAMOS




        - por Taís Luso

Poderia ser melhor esse universo da publicidade nas emissoras de televisão.  Um dos publicitários responsáveis pelos mais bonitos e inesquecíveis comerciais é, entre outros, o publicitário Washington Olivetto. Criou pérolas inesquecíveis. Mas há anos!

É de enlouquecer quando aparecem nas emissoras de televisão, comerciais barulhentos, poluídos e agressivos. Uma gritaria só, e pouco se absorve. A empatia já vem no primeiro dia: é amar ou odiar, deixar correr ou tirar o som e aproveitar o intervalo para tomar água.
Quando entram os comerciais, o som da televisão vai para as nuvens, coisa que dá a impressão de sermos todos deficientes auditivos. Quando nos damos conta, a família está neurótica e em pé de guerra:
- Baixa aí... baixa isso, Baixaaaaaa!!
- Calmaaaaa!! 
Pronto, todos malucos e o reservatório de paciência zerou. A primeira atitude é de raiva, a segunda é de não comprar o produto. Mas parece que os publicitários não percebem esse tipo de coisa. Ou percebem? Existem comerciais bonitos, verdadeiras pérolas.  Não agridem nossos sentidos. Até tocam o coração. Não os coloquei aqui, pois o assunto é outro. O primeiro ponto é nos identificarmos com os anúncios e depois comprá-lo.
Lembro de um comercial sobre um produto para matar baratas. Era de alucinar. Quando olhava aquela esquizofrenia,  juro que torcia pela barata!
Confesso que tenho fobia por baratas, mas nunca gritei daquele jeito ao me deparar com o bicho. Um negócio patológico! Falo desse comercial porque ele entrava dentro da minha casa, e ‘grito’ de mulher é coisa apavorante; é tipo morte anunciada. Mil vezes pior do que ver uma barata. Quando quero ver filme de terror dou uma olhada nesse comercial e fico satisfeita.
Também mostro aqui, um comercial anunciado tendo como cenário uma reunião de condomínio, bem exagerado, mas engraçado. Mesmo que seja exagerado lembra  reuniões catastróficas e que são escolas de neurose e de egoísmo - coisa própria dos humanos. Logicamente o exagero faz parte da criação. Mas no fundo, o objetivo é vender o produto, mesmo num mundo  desabando.
Mas não há dúvida que o mundo da propaganda nas televisões é infinitamente criativo e necessário, mas  seria pedir muito para ajustarem o volume e tornar uma coisa mais  suportável? Caso não dê, deixem assim, é só tirar o volume. Ou mudar de canal.

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propaganda de um produto - 
numa  reunião de condomínio: criativo.
propaganda desesperadora!