4 de dezembro de 2022

LIMITES NA VIDA FAMILIAR

 




                       - Taís Luso de Carvalho  


Hoje, ao sair do meu edifício, encontrei com uma vizinha do bairro. Vizinha de anos. Mas estranhei o jeito dela – ficou assustada quando me viu. Foi quando me disse que tinha tido um AVC há um mês. Foi difícil de acreditar. Antes era uma pessoa muito ativa, esfogueteada e adorava comandar, abraçava todas as causas familiares e pegava para si muitos problemas. E agora, já um tanto frágil. Mas na luta.

Perguntei se sabia a razão da coisa… Disse que se encontrava num enorme estresse causado por muitas discussões, e o emocional despirocou. Muita carga. Eu desconfiei disso, quando lhe fiz a pergunta.

Não há coisa mais estressante do que brigas familiares; família pega direto no emocional e anarquiza tudo, desestrutura, justamente por acreditarmos que a família é  sempre um núcleo de amor. Mas é inviável carregar um peso maior do que aquele que suportamos levar.

É comum a mãe achar que os filhos não cresceram e que sua presença é sempre muito necessária. Os filhos casam, mas a mãe continua a aconselhar, mesmo que cause atritos. É difícil esse desapego. Discute e atrapalha a formação do novo clã. Uma vez mãezona, mãezona até o final.

Além da mulher abraçar os problemas familiares, ainda carrega os problemas do trabalho, do condomínio, se atraca com o síndico, desconfia dos empregados e principalmente abraça a educação dos netos. E comanda, pelo telefone, qualquer mal-estar dos filhos. Santíssima Virgem! Então eu lhe disse:

Amiga, largue tudo, deixe que cada um cuide de si, vá cuidar de você! Você teve um aviso, percebe? Você abraça todos os problemas, se bate, discute, se gasta… e ainda leva umas xingadas por se intrometer. Assim você não vai longe! Dê seus conselhos quando lhe pedirem, amiga, eles são adultos. 

Fiquei com pena de ver seu rosto assustado, ao relatar o diagnóstico do seu médico. Possivelmente não fará mais intromissões, mas continuará percebendo todos os problemas e estressando-se. Reverter a situação requer grande esforço e conscientização dos fatos. E ao ver essas coisas tento tirar uma lição para minha vida e rever o peso que posso carregar.

Algumas pessoas metabolizam seu estresse de diversas formas. E certas coisas vão se deteriorando. Isso serve para todos os relacionamentos.

Contei essa história em tom leve, mas isso não quer dizer que a coisa não seja séria. Aliás, o assunto é muito sério, e o que eu gostaria é de levar a vida bem mais leve, quase tão leve como uma folha levada pelo vento.








25 de novembro de 2022

POLUIÇÃO, POBRE PLANETA

 




                      - Taís Luso de Carvalho



Pobre desse belo planeta, é meio difícil encontrar um canto despoluído, mais limpo e saudável. Todo lixo químico e tudo o mais é despejado em seu solo, nos rios ou voam pelos ares; gases poluentes, ácido nítrico, dióxido de carbono, monóxido de carbono, dióxido de nitrogênio, dióxido de enxofre, entre outros. Poluição atmosférica vai longe, pois o ar se desloca. A poluição rola nos rios, nos mares, nos bilhões de automóveis soltando carbono pelos seus canos e as indústrias soltando tóxico pelas suas chaminés é o flagelo do mundo em que vivemos. Então temos solo, mar e ar poluídos. Saturados.

Tudo fruto da cobiça, da irresponsabilidade e do ilícito. E o planeta esvaindo-se em súplicas por melhores tratos, agonizando devido a esse lixo tóxico em estado líquido, sólido e gasoso. Também muito do lixo encontrado nas cidades são orgânicos, o que entopem facilmente os bueiros em dias de chuva.

Há muito tempo, várias organizações  não governamentais, estão alertando e interferindo em várias frentes em defesa do planeta na tentativa de salvar ou de minimizar os estragos causados. Mostram às pessoas, de diferentes nacionalidades, que existe um comportamento alternativo na defesa do meio ambiente e que muitos chefes de governo não estão a fim de cuidar. Países gastam milhões, mas mostram pouca coisa. É o que acompanhamos na mídia, diariamente.

As mudanças climáticas, causadas pelo aquecimento global, atingem tanto o Polo Norte como o Polo Sul. E tanto as secas como as enchentes se multiplicam no mundo inteiro. Só há promessas, nenhum comprometimento sério. E de promessas o inferno tá cheio. As pessoas não ajudam, vemos de tudo jogado nos rios, nos riachos etc. O que não querem em casa, jogam na rua. Triste isso.

Enquanto poucos se esforçam em atos responsáveis, muitos não fazem nada, muito pelo contrário – acham um tanto desagradável aqueles que defendem a fauna, a flora o meio ambiente e lutam contra toda a carga tóxica que voam pelos ares. Aquela fumaça produzida por motores a diesel causa câncer, mas fica por isso mesmo; esgotos a céu aberto mostram-se permanentes nas grandes cidades e também fica por isso mesmo; o lixo hospitalar é encontrado por aí... e fica por isso mesmo. Atualmente existem milhões de produtos químicos conhecidos, tornando cada vez mais difícil o seu tratamento.

Como podemos destruir tamanha grandiosidade? São bilhões de pessoas fazendo as mesmas besteiras. Em alguns países a poluição está tão grave, que é vista a milhares de quilômetros no espaço. A poluição está fora de controle: desde os países emergentes aos de 1º Mundo.

Numa ilha distante, no meio do Pacífico, e onde não existe vida humana - portanto deveria ser um paraíso -, milhares de animais agonizam com seus estômagos cheios de lixo, de plásticos entalados em suas gargantas e em seus estômagos. Triste de ver - os vídeos correm pela Internet. Não existe lugar onde não apareça a mão do homem destruindo: destrói mais do que constrói.

Muita conversa para pouca ação, tudo depende dos bons e animados ventos políticos: das trocas, das vantagens, dos apoios. Não existe luta dos sozinhos! Não há como sobreviver. 

Só temos a lamentar a falta de conscientização das pessoas e a irresponsabilidade  das  autoridades  constituídas.



                 


O descarte inadequado de lixo é responsável pela poluição do solo.

Plásticos no fundo do mar

Poluição do Ar

Queimadas das florestas


Rios
                    

Dos rios os plásticos seguem para o oceano



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13 de novembro de 2022

EM BUSCA DA FELICIDADE

 

Parque Keukenhof / Holanda



                                  - Taís Luso de Carvalho


Muitos coisas, que observo tanto em mim como nos outros, me colocam a pensar na diferença entre duas palavras encantadoras: alegria e felicidade. Duas palavras que, de uma forma ou de outra, queremos como companheiras constantes. Mas, aprendi que alegria é uma coisa, a felicidade é outra. Alegria é um acontecimento prazeroso; felicidade é uma satisfação plena, um estado de contentamento e paz interior. Portanto, o paraíso não é um lugar físico, mas sim um estado de espírito. Sim, pra mim é isso.

A alegria depende das circunstâncias externas. E como nossas reações, nossa sensibilidade e nosso humor mudam conforme os ventos, temos os períodos de alternância: dias alegres  e bons, e outros nem tanto. 

A alegria pede para termos, enquanto a felicidade pede para sermos. Mas nossa sociedade gosta de viver de aparências, e muitos curtem os excessos. Somos seres vaidosos, adoramos umas purpurinas grudadas no ego. E a vida não é bem assim. Ela é feita de momentos, uma colcha de retalhos feita de alegrias, tristezas, frustrações, decepções, renúncias e desencontros. Assim, mesmo, um cardápio bem variado.

Não há como ser feliz em tempo integral se nos deparamos  com a falta de respeito, com as injustiças, agressões e com o abandono. Não sabemos lidar com isso, pois ficamos com as mágoas por anos. É fácil? Não, muito difícil. Quase impossível.

Dizem que nós, brasileiros somos um povo feliz! Não; num todo somos um povo alegre, simpático, hospitaleiro, musical. Mas para sermos um povo feliz, precisamos evoluir em muitos quesitos. Nós e o mundo inteiro! Diferimos uns dos outros, mas somos feitos da mesma matéria.

Somos todos interligados, independente do idioma, dos costumes, da cultura e da política. O que acontecer do outro lado do planeta, poderá interferir aqui, e vice-versa. Temos um exemplo em andamento, Rússia e Ucrânia, e que não acaba nunca! E o mundo não vive em paz.

Por isso a paz e o bem-estar entre as Nações são os principais quesitos a serem cuidados  incansavelmente.








6 de novembro de 2022

ALMAS DO OUTRO MUNDO...

 




                            - Taís Luso de Carvalho


Muitas vezes brincamos ao ouvir histórias de aparições, contam que são almas do outro mundo. Há anos eu escutava muito sobre essas alminhas, hoje  não tenho escutado mais. Isso tudo para mim nunca passou de  brincadeira, que é a razão única desta minha crônica: descontrair, um pouco, numa época conturbada da vida política do Brasil.

Nessa milenar caminhada, o mundo vem aprendendo; aprendemos a amar, aprendemos a ser generosos, aprendemos a perdoar, aprendemos a ter compaixão, aprendemos a ser amigos, como também aprendemos a odiar, a torturar, a matar. De tudo um pouco neste planeta. Do amor ao ódio.

Mas por que lembro disso agora? Talvez pelo recente Dia dos Finados.

Também é o dia que damos de cara com a nossa finitude, com nossas lembranças, com nossas dores. E um pouco, também damos de cara com o nada.

Lembro de muitas coisas que passaram pela minha vida e me marcaram, mas não negativamente. Minha mãe brincava muito com essa coisa de morte, e na verdade, não levava muito a sério. Pensava em vida, queria era brincar, apenas. Talvez fosse sua defesa. Dizia ela, daqui a pouco eu parto! E ria. Mário Quintana também zombava da sua doce prometida em um de seus poemas.

Mas, eu aproveitava e dizia a ela:

 - Mãe, quando partires para esse paraíso tão falado, dê um jeito de vir me contar. Apareça por meio de sinal, ou me puxe os pés, mas me conte como é esse outro mundo que escuto desde criança. Combinado ?

 - Combinado, filha, pode deixar, venho te contar, manteremos contato!

Eu, que sempre fui tão valente, penso que me equivoquei, pedi demais, prefiro que ela não me apareça! Como dormirei em paz depois de um episódio de tamanha envergadura? Uma alma aparecer nos pés da cama e começar a falar comigo? Terei de dormir com holofotes, para que nem uma alma do outro mundo apareça na escuridão de minhas noites! O que fui fazer, meu Deus!

Hoje, relembrando essa história com minha mãe, tenho  saudades dela, gostaria que estivesse junto de mim, mas não faço questão de saber mais nada do paraíso! Vá lá que ela apareça e, ao pé do meu ouvido conte que o negócio no paraíso é uma confusão, uma festa de arromba!! Que não é um paraíso como idealizei, e sim a continuação da vida daqui, mas noutro planeta, com as mesmas pessoas a se encontrarem por lá...

Deus meu, peço compaixão!! Com os mesmos humanos? Não; isso seria o caos, prefiro continuar com as minhas ilusões, com os meus sonhos que é bem mais saudável.  

Esqueça, mãe!!









26 de outubro de 2022

O TEMPO PASSA, A GENTE ESQUECE...

 

Renoir / The Reading 1890



                     - Tais Luso de Carvalho



Pois é, a gente vai vivendo, a vida vai passando, e vamos esquecendo de muitas coisas e de tanta gente querida. E de vez em quando aparecem algumas  pessoas que não reconhecemos. E ficamos numa saia justa.

De onde conheço esta pessoa?”

A pessoa sorri e vem ao nosso encontro. Ou algumas chegam de surpresa e tocam no nosso ombro. Perguntas e respostas se engasgam. Que situação! Minha tática é ficar enrolando até dar o clic na minha memória. Pergunto o que ela tem feito, onde está morando, arrisco perguntar sobre os filhos (terá filhos?), e o papo aí já começa a ficar estranho, mas são perguntas rápidas à procura de um indício.

Quem é ela, está tão sorridente… pelo amor de Deus - me pergunto!”

Não posso dizer-lhe que nunca a vi e que não a conheço. O tempo nos transforma, mas não quero ser indelicada. Ela me reconheceu, então nos conhecemos de algum lugar. Pela aproximação dela, vi que já estivemos juntas. 

Existem pessoas que com o passar dos anos conservam a fisionomia : às vezes ficam bonitas, como é o caso de Caetano Veloso. Outras não, esquecem de si… parecem uma casa em reforma. E aí fica difícil...

Tenho uma tia incrível. Estávamos no supermercado, eu um pouquinho afastada dela, mas vi um senhor lhe dirigindo a palavra. Esse senhor estendeu a mão para  a titia, e lhe perguntou:

- Desculpe, a senhora não está me reconhecendo? Titia mais do que depressa me chamou:

- Tais!! Olha só quem está aqui!! Assim mesmo, fingida e desnorteada (ela não tinha a mínima ideia de quem era o homem, e transferiu o drama para mim).

Consegui reconhecer que era o seu antigo vizinho que foi morar em Manaus havia uns 20 anos. Reconheci o vizinho pela boca! Conservava a mesma boca de peixe baiacu! Não tinha como esquecê-lo. Não sei o que acontece, mas quando reconheço alguém é pela boca ou pelos dentes ( desde que não tenha chapa). Não tem errada. Acho que me daria bem se fosse veterinária, pois no mínimo saberia a idade do vivente pelos dentes.

A maior vergonha passei com minha melhor amiga do colégio. Há décadas foi morar em Belo Horizonte. Casou-se e ficou por lá. Mas com os filhos adultos, a família resolveu voltar para Porto Alegre. E certo dia, numa cafeteria...

- Oiiii, Taiiiis!!! Como estás?

Fiquei olhando para ela, já um pouco desorientada. Aquela situação horrorosa!

- Sou a Claudinha! Não estás me reconhecendo?

- Báh, mas assim não dá, trocaste a cor dos cabelos, como te reconheceria?

Não colou, foi um desastre. Claudinha engordou uns 30 quilos e coloquei a culpa nos cabelos! Não consegui contornar, quanto mais eu falava, pior ficava… Foi trágico! Ou quem sabe cômico?  Errei, mas foi por uma nobre causa. Não quis magoá-la.

Constato, então, como a vida separa as pessoas que se  querem bem, que são importantes na nossa vida. Naquela época éramos um grupo muito unido, muito amigo. Triste isso.  

Mas assim a  vida vai seguindo, e nós, meio assim...




Peixe Baiacu







15 de outubro de 2022

CENTRO CULTURAL 25 DE JULHO - Porto Alegre

 

Centro Cultural 25 de Julho - Porto Alegre / Brasil




                          - Taís Luso de Carvalho


Pedro e eu, recebemos um convite do nosso amigo William Kaku, para o almoço na Colônia Alemã (9-10-2022) em comemoração aos 71 anos do Coro Masculino do Centro Cultural 25 de Julho, de Porto Alegre – RS.

Todos nós parecíamos pássaros na primavera, muita alegria naquele simpático salão do Centro Cultural. O Coro é maravilhoso! Escutamos, entre belas canções alemãs, também uma das mais belas canções da nossa tradição Gaúcha, Céu Sol Sul, Terra e Cor, quase um Hino Gaúcho, foi muita emoção ouvir cantado por eles. 

Nessa data, 25 de julho de 1824 chegaram ao Brasil os primeiros Imigrantes Alemães, direto para os três Estados do sul do Brasil, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.  Cada vez mais acolhidos em terras brasileiras, logo mostrariam seu valor, sua tenacidade que viria contribuir muito para o desenvolvimento de sua nova Terra, o Brasil. 

Na nossa Serra Gaúcha, a Colonização Alemã mostra sua força, seu potencial turístico nas belas cidades de Gramado, Canela, Nova Petrópolis e outras tantas cidades de nosso Estado Gaúcho.

Não há dúvida que a pandemia fez muitos estragos na economia do Brasil e dos demais países. Ficamos isolados dos amigos e da família. E óbvio, esse isolamento nos deixou mais vulneráveis, tanto pelos cuidados com a doença como pelo confinamento, pelos Lockdowns coisa nova para nós. E só poderia dar no que deu, uma dolorosa ausência de alegria e de afetos, entre outras coisas. Mas todo o cuidado era pouco. Não critico. Mas as coisas mudam, se refazem e novamente foi restaurada nossa vida quase normal, nosso convívio em sociedade - ainda com certos cuidados.

Nosso domingo foi mais iluminado, a alegria sempre traz um pouco de esperança, encobre boa dose dos sofrimentos que passamos nesses mais de dois anos. Portanto, deixo registrado nessa crônica o novo sentimento que tivemos,  uma leveza na alma, uma alegria em voltar à convivência saudável, tão necessária que sentimos naquele evento.

Deixamos nosso abraço às amigas e amigos do Centro Cultural 25 de Julho de Porto Alegre!


Coro Masculino 25 de Julho: 

Clique:  Ode à AlegriaLudwig van Beethoven 

Aumente o som no 'canto' do vídeo 

    
  


Almoço de confraternização 71 anos do Coro Masculino




Centro Cultural -  SITE 

Facebook Centro Cultural 25 de Julho







5 de outubro de 2022

QUE ESTRANHA SOCIEDADE ...

 

Juarez Machado - Brasil      Blog Das Artes / Taís Luso



                                      - Taís Luso de Carvalho


É muito estranho  o comportamento de pessoas que primam pela ostentação a qualquer custo. São insaciáveis. Mais tarde, aparecem os desgastes emocionais com todas suas variantes. A obsessão em estar na “vitrina social” vira um vício. Estranho e triste vício.

Enquanto uns vivem felizes na vitrina, outros sentem-se  amedrontados por serem vítimas ou testemunhas de tantas tragédias e brutalidades. Vítimas de vidas arrancadas, de manobras corruptas e desumanas que se alastram cada vez mais nas sociedades.

Difícil seguir a vida em tons rosa, como se o medo não nos atingisse, como se as guerras fossem apenas um jogo de interesses, as vidas que se foram, não contam - valem pouco. Ou nada.

Está difícil andar sempre vestida de otimismo e de esperança. Quando uma vida se apaga, em sopros de agonia, as coisas viram um prato cheio para nossas inquietações.

Gostaria de povoar um lugar onde a vida acontecesse sem interrupções bruscas, sem incidentes de percurso. Em suave despedida. Sonhar é bom, é preciso. Um dia, tudo por aqui acabará, e o depois… ainda não sei. Mas, refletir também é viver. Não me contento apenas em respirar, sentir o aconchego do sol, ver o esplendor da natureza. Não; é da minha natureza questionar sobre essa sociedade estranha, que ao velar seus mortos mostra num canto as tristezas do momento, enquanto no outro canto, sorrisos cumprindo seu rito social.

Que sociedade estranha é essa, que ama e que odeia com intensidade, enquanto em inúmeras famílias prolifera os desafetos? Como não sentir?

Que sociedade estranha essa em que minorias dominam maiorias; em que o ladrão de galinha paga pelo seu erro enquanto para outros tipos de delinquentes não existe justiça!

Que sociedade estranha é essa, onde não há respeito às desigualdades, e os preconceitos são camuflados?

O homem continua primitivo quando não domina seus ímpetos e  seus instintos, quando articula seus desejos com crueldade. Famílias se desintegram, irmãos se atropelam na vida. E esse é o ápice do ódio. Como não questionar tais misérias humanas?

É difícil encontrar razões para tudo isso, como difícil é entender o sentido dessa vida, quando ela nos abandona ao colocar o seu ponto final.

Haja coragem nessa caminhada.











25 de setembro de 2022

UMA GERAÇÃO FELIZ

 

Cayetano A.Buigas - 1932 Espanha




- Tais Luso de Carvalho


Eu tinha pressa para entrar na idade adulta: queria ter conta para pagar, queria ter casa para cuidar, marido e filhos; eu queria andar de salto alto, usar batom e ter pencas de responsabilidades. Achava tudo isso lindo! Pois é...

Lembro de minha adolescência, não era a adolescência de hoje! Eram outros tempos. Lembro que peguei, da biblioteca de meu pai, o livro “O Muro” - de J.P. Sartre. Por algum tempo ele passou a ser meu companheiro, colocava na mochila e Bora Lá! Mas o meu objetivo era aparentar mais idade, mostrar que meu pequeno mundo valia a pena, que eu lia algo substancial, que era adulta. Adorava a polêmica que cercava o livro, as ideias de Sartre. A legítima adolescente: não incomodava, mas fazia barulho.

Meu pai descobriu e ficou preocupado com a minha suposta rebeldia. Sua filha, tão jovem, lendo Sartre? Pobre do meu pai, eu peguei Sartre porque chamava atenção. Mas fiquei firme, deixei ele queimar as pestanas. Eu só queria fazer onda, ser adulta. E com aquele livro, pra lá e pra cá, e no colégio das freiras? Era sarna pra me coçar! Eu achava que enganava. Mas um dia vi que não adiantava muito e o coloquei no mesmo lugar. Foi um belo companheiro. Pobre Sartre, se soubesse…

Mas depois desta encenação toda, que não levou a nada, resolvi redecorar meu quarto. Fiz uma colcha e almofadas de uma cor que arrepiou minha mãe, colcha e almofadas pretas com enormes flores de feltro aplicadas - gigantes e bem coloridas! Parecia coroa para defunto. Coitada, minha mãe ficou petrificada. Mas eu achei divino, quem ousaria colocar um troço daqueles em seu quarto? Consegui fazer algo completamente fora dos padrões. Eu queria ser diferente e ter a minha linguagem. Meu surrealismo precisava ser aceito!

Minha adolescência foi um pouco contestadora, nada além disso, mas algo para dizer que eu fazia parte do mundo; marcar meu espaço. No geral fui uma garota feliz, praticava esporte (hipismo), e adorava ler.  Meus pais compreenderam aquela minha fase e nunca bateram de frente com minhas ideias surrealistas. Que fase xarope, a adolescência.

Meus cabelos eram como camaleão: mudavam de cor. Tive uma fase meio difícil, eu frequentava a igreja católica, mas queria ser protestante; estudava em colégio particular, mas queria estar num público. Brincava de ser freira, mas queria ser Hippie. 

Mas não cheguei a dar trabalho, não. Eu era muito companheira. Apenas confundia o meio de campo; fazia barulho.

Sou da geração que não conhecia silicone e nem mulher com boca de gamela. Os programas de televisão nem de longe se pareciam com os BBB da vida. Tínhamos músicas de verdade! Festivais da MPB, música italiana, francesa, americana… Que saudades! Tínhamos os Beatles, e foi com eles que conheci o histerismo feminino. Que loucura foi aquilo. Mas, se eu soubesse que viveria num mundo mais hostil, preconceituoso e agressivo, não ficaria com tanta pressa para crescer, para tornar-me adulta. Curtiria por mais tempo minha adolescência, treinando em meus cavalos, inventando músicas esdrúxulas no piano ou algumas coisas surreais! E fazendo de meus cabelos um verdadeiro carnaval. Eu não sabia o tanto que eu era livre e feliz!

Mas sinto a falta de ídolos, hoje coisa rara! Também não imaginei que, mais adiante, haveria uma Indústria da Beleza que enterraria o verdadeiro sentido da vida: o de envelhecer com dignidade e sabedoria. Hoje vivemos numa luta angustiante para mantermos a juventude eterna! Que coisa doentia.

Vivo num mundo muito louco onde cada um veste sua fantasia, pula sozinho e compartilha o que não deve. Vivo num mundo globalizado que quase tudo virou público e perdemos muito de nossa privacidade.

Guardarei todas recordações com carinho, o que certamente não ocorreria se minha adolescência fosse hoje. Onde o descuido e o excesso de liberdade deixam suas marcas.









15 de setembro de 2022

A VIDA ENTRE O BEM E O MAL

 

 World Trade Center - Nova York / 11 Setembro 2001



                        - Taís Luso de Carvalho


Foi naquele 11 de setembro de 2001 que se deu aquele horror nas Torres Gêmeas dos EUA. Um atentado terrorista que jamais se apagará de nossa memória e da História do Mundo – dure o que durar. 

Vi algumas vezes  documentários sobre o triste episódio que marcou o século XXI, o pânico generalizado em Manhattan onde morreram milhares de pessoas, dentre estes, 345 integrantes do Corpo de Bombeiros de Nova York. Esses Heróis não obedeceram a ordem para deixar as torres que estavam por desabar. Lá permaneceram para salvar vidas. E lá, muitos deles também morreram, junto com milhares de inocentes.

É uma situação que altera  nossas emoções, mesmo 21 anos depois. Sentimentos que se misturaram ao caos. Ao inacreditável. E são situações assim que nos levam a refletir sobre o lado dramático e mais triste da vida. Mas com superação, heroísmo e solidariedade, ainda contamos.

Tudo fica ótimo quando nos deparamos com situações agradáveis: pessoas sociáveis, virtuosas e solidárias. O lado belo do ser humano. Mas, por outro lado, também nos deparamos com outro tipo de gente – as feras. E como nossa base é feita de emoções, nada é fácil quando nos deparamos com esse tipo de gente e com tantas atrocidades. São essas contradições dos humanos, tamanhas barbáries que nos levam a um grande cansaço mental, a um convívio insuportável entre os opostos. Quando estamos acreditando mais nas criaturas, deparamos com o inacreditável, com as feras, e torna-se difícil de acreditar no que vemos:

- Não, isso não existe, estou delirando – penso.

Mas o mal existe nas famílias, nas rodas de amigos, nas Universidades, no trabalho, nos governos, nos esportes. Essas feras andam livremente por aí. Por vezes cometemos injustiças pela tamanha desconfiança que vêm de águas passadas.

Então vem a pergunta: afinal, o que mais predomina na espécie humana? É o herói que salva, que comove, que chora, que acolhe, que doa órgãos, que constrói maravilhas, que pesquisa em prol da vida, ou é aquele ser deplorável e sem sentimentos que engana, que trucida, que tortura, que estupra, que crucifica e que faz as guerras?

As atrocidades estão tão terríveis que não sei mais o que pensar. O que sei é que somos a única espécie que encontra na tortura e na morte dos nossos semelhantes, um enorme prazer .

 Na verdade o que buscamos é viver com mais paz. Mas parece que esse tempo não o teremos.