10 de janeiro de 2022

DESCOMPLICANDO A VIDA

 

- Caminhos -


 - Tais Luso de Carvalho


Tenho escutado, com frequência, que morar em cidade grande só traz vantagens: tem tudo o que se precisa, tudo o que se sonha! Péra! Não é bem assim: depende do que se sonha, depende do que se quer. Cidade menor tem suas vantagens, também. 

Moro numa cidade grande, mas a maioria de seus 94 bairros são "independentes", têm de tudo, a vida é fácil.  Não preciso me deslocar a outros bairros.

Há uns tempos, segui o conselho de uma vizinha para dar uma olhada em coisas para casa, no outro lado da cidade, longe de onde moro. Não pedi o conselho mas, mesmo assim me disse que lá eu acharia coisas excelentes para nossas reformas, e por um ótimo preço.

Pedro e eu resolvemos complicar a vida naquela infeliz busca, e por coisas tão corriqueiras. Fiquei pensando, o que teria por lá de tão diferente que a vizinha deu tanto destaque. Fomos com toda a calma atrás do mistério, uma vez que aquele lado da cidade não conhecemos. É considerado o lado nervoso de Porto Alegre.

O que essa vizinha nos arrumou foi um grande estresse e um enjoo horroroso que tive: automóveis, ônibus e caminhões em profusão, buzinadas histéricas, motoristas nervosos, motoboys voando, gente sem paciência, poluição visual... enfim, uma louca aglomeração com cartazes, propagandas, muitos sinais e retornos que nos confundiam. E como enjoei!

Mas as cidades são assim: têm seu lado calmo, bonito e agradável e um lado maluco. Paramos várias vezes para ver onde estávamos. Como voltar para o centro da cidade; como retornar pela Freeway, tínhamos de seguir a avenida ou voltar? Perdemos a noção do caminho. Foi uma agonia nos entroncamentos: pra lá ou pra cá?? Não dava tempo de pensar com carros atrás!! E tocávamos para frente, seja o que Deus quiser!

Depois de algum tempo achamos o caminho de volta. Mas foi uma lição. A qualidade de vida que tanto buscamos está na tranquilidade e nas exigências que fazemos pelo nosso caminho. É parar para pensar no necessário. E naquele dia dei um basta. A vida pode ser simples, podemos fazer um caminho mais fácil. Não se percebe muito quando se entra nessa roda de exigências e de consumo. Quando vemos estamos comprando o que não precisamos ou gastando além do que prevíamos. Toda aquela alucinação que passamos foi em vão. No nosso bairro tinha tudo. A maioria dos bairros de Porto Alegre são autônomos, servem muito bem em todos os quesitos. Na verdade, algumas pessoas são um pouco esquisitas, mas outras, muito  esquisitas! 

Digo então que, qualidade de vida está em respeitar os nossos limites, nossas forças. Muitas vezes fazemos coisas pensando que temos a força de um trator e não nos damos conta que, na verdade, temos um motor de fusquinha, (da Volkswagen).

O que é realmente necessário? Essa é a pergunta fica.




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2 de janeiro de 2022

A FORÇA DO AMOR - crônica


Katie m. Berggren



              - Taís Luso de Carvalho


Nesse terrível final de ano de 2021, mais de dois anos de pandemia, pensei muito nos meus pais, já falecidos. E trago para o blog um pouco de mim. Talvez esta minha reflexão veio devido ao Natal, quando ficamos bem mais sensíveis, mais afetivos e saudosos. Afloram os melhores sentimentos.

Lembrei de nossos Natais quando meus pais ainda estavam entre nós. E senti saudades de nossas festas. De minha mãe, toda vestida de felicidade quando íamos ao shopping comprar os presentes da família, quando fazíamos a festa em conjunto. Os variados e caprichados petiscos natalinos, a ceia, as brincadeiras de meu pai, um homem de elevado humor. Todos nós tão felizes!

E ao lembrar de todos os nossos momentos, hoje me pergunto porque não aproveitei a felicidade, ao longo de nossas vidas, para dizer-lhes que eu os amava?

 Fiquei com a sensação de que falhei. Acostumada tanto com suas presenças, hoje vejo que poderia ter-lhes dado essa felicidade, "dita com palavras", diferente das atitudes que eu tinha com eles. Palavras são diferentes, as vezes, são mais fortes, transmitem mais impacto, mais emoção. Fui uma boa filha, sem dúvida, mas ao ler o Diário pessoal de meu pai (não sabia que existia), quanta coisa linda deixou ali para mim. Quanta surpresa, como me amava!

Sinto isso quando nossos filhos dizem para nós: eu amo vocês! Dizem quando saem de férias, dizem quando estão longe, ao telefone, dizem quando damos tchau após os almoços e passeios de um domingo no parque. E como isso tem força!

Hoje, certamente eu diria em vida, Eu amo vocês, e diria muitas vezes para que sentissem essa emoção em palavras. Sinto como se fosse um poema.

Senti um pouco tarde que as "palavras" são muito fortes, talvez mais do que os atos, que com o tempo nos habituamos a fazer, quase que automaticamente. Geralmente pensamos que os atos bastam. Não, o amor não impõe limites.

Com nossas mãos já entrelaçadas, eu disse que os amava, mas o tempo não me ajudou. Gostaria que tivessem levado com eles o meu maior sentimento, enquanto juntos vivemos. Nossos atos têm uma função, nossas  palavras outras.

Aprendi, o quanto é bom e saudável  os filhos  dizerem e os pais escutarem: Eu amo vocês!! Poucas palavras, mas chegam rápido ao coração. É a força do amor.




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26 de dezembro de 2021

PEDIDOS PARA O NOVO ANO


Operários 1933 - Tarsila do Amaral / Brasil



                 - Taís Luso de Carvalho


Pronto! As Festas estão terminando, o Natal já se foi, sorrisos mais contidos, e nada de novo à vista, na Terra de Cabral. Apenas uns trololós rançosos, tudo velho. Nada novo.

Talvez eu comece aqui uma daquelas listinhas famosas, mas não muito otimistas, mas um Rol de Mudanças nesse mundo mais idoso, já fazendo 2022 anos da era cristã.

São anos de muitos pedidos, mas nunca acertamos muita coisa! E agora piorou. Mas segue a esperança. Queira Deus que eu esteja errada, e que agora a coisa mude o suficiente. A palavrinha Otimismo está um pouco surrada devido ao uso constante, mas também não gosto da outra, o Pessimismo, prefiro sempre a palavra Realista. É mais fofinha, mais confiável, né? Não gosto de sonhar acordada.

Pois bem, peço que os habitantes desse planeta sejam agora mais tolerantes, bem mais afetivos, mais solidários, e que diminuem, consideravelmente, os crimes no planeta, os maus-tratos com os animais e que sejam punidos todos os tipos de crimes. Que o meu país passe a ter uma Justiça que possamos confiar. 

Que nossos governantes se interessem pelo povo mais pobre e que esse povo não acorde mais pela manhã com terríveis pesadelos e com enxaquecas crônicas procurando trabalho ou algum bico para poder comer. 

 Ah, ia esquecendo, peço que, democraticamente, se renove uma grande parte do Congresso Nacional, do Executivo e de outros Poderes nas próximas eleições brasileiras. Que descansem esses homens tão preocupados com o povo, com o Brasil e com suas riquezas! Que descansem, peguem um bronzeado numa praia linda e por lá fiquem.

Que todo o povo brasileiro, povo tão espirituoso, tão afetivo e alegre, passe a ter uma vida digna como em outros tempos. E, que nossas Polícias tenham o necessário para trabalharem com dignidade e o respeito que merecem.

Enfim, que Deus não se esqueça dos homens de boa vontade, que abaixe os Seus olhos para o Brasil, e para o povo brasileiro.

Esse Ano, vou pedir pouco, entendo que se eu exagerar, o PAI lá não vai gostar, pois tem outros países a olhar.

Mas Senhor... pense bem, a coisa aqui está séria, e muito mais com essa Pandemia, estamos nos sentindo muito abandonados... ou estou exagerando?

Prometo me comportar, não falar mal de ninguém, e não odiar nenhum político! Só não prometo perdoá-los.





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UM FELIZ ANO NOVO A TODOS!





18 de dezembro de 2021

UM NATAL DIFERENTE - 2021




 


                      - Taís Luso de Carvalho


Pois é, meus amigos, sentada defronte uma tela branca, gostaria de escrever um texto para esse Natal de 2021, mas que viesse do coração, cheio de alegria, mas fico a pensar que tipo de Natal teremos, que coisa esquisita e isenta de emoções! Lágrimas no lugar de sorrisos! Como ficarão os corações dos filhos, pais e avós que perderam seus entes queridos esse ano? Mas escreverei o que sinto, não o que a data pede. Não estou triste, mas nem tão alegre como sempre fui nessa data. 

 Nossa vida futura depende de nossos atos de agora. Não dá para esquecer isso. Nem o Natal é capaz de me trazer ilusões, e nem gostaria que assim fosse. Preciso manter o foco até ter certeza que retornaremos à vida normal.

Viver não é se iludir, não há mágica que faça desaparecer uma tragédia em pouco tempo! Longe estamos daqueles nossos Natais sonhados, da alegre Ceia, da troca dos presentes, das músicas, dos sorrisos. O momento é diferente.

Esse Natal não pode ser um dia de esquecimento ou dia de milagre. Ninguém esquece! Tivemos outras pandemias e o mundo não acabou. Porém, não será de boa medida deixarmos a ilusão bater à nossa porta num momento que estamos fragilizados, em nome do "viver"! Euforia agora é a fuga, há coisas que não combinam com festas. Penso que esse Natal será bom, mas nada em demasia, mesmo porque não temos razões para muita alegria. Acho até constrangedor.

Acolher os que se encontram mais fragilizados, aplaudir e acreditar nos avanços da ciência! Acreditar, jamais negar!

Desejo um bom Natal para todos os queridos amigos que por aqui passarem e o desejo de um Novo Ano mais feliz, bem mais feliz!

Meu carinho a todos, juntos novamente em 2022!!





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11 de dezembro de 2021

O QUE É A VIDA ? - crônica

                   



                     - Tais Luso de Carvalho    

             

Nas conversas do dia a dia, com familiares, amigas, vizinhas, e observando bastante a vida da nossa sociedade, dá para ir pegando alguns temperos que servem para aplicar na minha vida. É melhor aprender vendo os erros dos outros do que sofrer na própria pele. Dá menos trabalho.

Examino o tal custo-benefício: o que vale a pena? Tudo complica quando a cobiça e a ostentação se fazem presentes, essa praga que gera a insatisfação humana e que revela o tamanho das diferenças sociais. O ser humano gosta de ostentar, mas paga por isso. Vê-se nas redes sociais um exibicionismo exacerbado de um mundo real.

Bem, moro num bairro em que as pessoas ainda têm o hábito de baterem papo quando se encontram nas calçadas, vão chegando e se encaixando na conversa. Os animais de estimação se encontram e seus donos se aproximam. Enquanto os bichinhos reforçam seus laços sociais, os donos falam das últimas notícias: falam do mundo, da vida, de futebol, dos seus condomínios, da segurança, saúde, das eleições, de políticaquem roubou o quê, agora!? Os noticiosos estão aí, mostrando todos os dias o lixo do mundo – aqui e acolá. Coisa que nos preocupa bastante. 

São nessas conversas que observo que todos nós, ao amadurecermos, também vamos tomando consciência como é bom, a certa altura da vida, podermos ficar um pouco de papo pro ar. Desacelerar e partir pra outra...

Li, em ZH, de Porto Alegre, há algum tempo, sobre o "Clube do Nadismo": dizia a nota, que o Nadismo representa uma importante transformação cultural, significa tomar consciência de que o tempo de fazer "nada" também é valioso. Aprendendo a aproveitá-lo, se vive melhor. Taí! Simpatizei com o "Clube do Nadismo". Não confundam com o "Clube do Nudismo", pelo amor de Deus!

Conversando com minha vizinha, aposentada recentemente, soube que ela abrirá uma boutique. Está aposentada, mas já está se coçando, sente uma certa culpa por não produzir alguma coisa. O desacelerar, o diminuir as atividades, ainda numa idade produtiva, causa  insatisfação. E pode gerar uma culpa do cão. Milhões de pessoas não conseguem aprender o que fazer com elas mesmas numa tarde chuvosa e livre. Ficam paranoicas, infelizes. Loucas pelo dia seguinte para voltarem à vida, ou seja, ao trabalho! Pois é, enquanto uns pensam na sua aposentadoria, outros querem trabalhar até o último fôlego. Mas é a vida.

A vida? Mas o que é a vida? É uma resposta difícil. Antônio Abujamra sempre encerrava seu programa - Provocações - com essa pergunta: o que é a vida pra você? E os entrevistados pensativos mostravam dificuldades em responder. Pois é, a vida… difícil isso.

Eu também não sei o certo, mas me arrisco a dizer, que a vida é um longo percurso que nos desafia a ultrapassar o maior número de obstáculos com garra e coragem, mas parar quando tiver de parar, sem sentir culpa,  buscar novos caminhos, ser feliz.




Amir Sater - 'Tocando em Frente'


Ando devagar 
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
    Porque já chorei demais...♪♪♪

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É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir...♪♪♪



5 de dezembro de 2021

A ARTE DE DAR PRESENTES! - crônica

 



                    - Taís Luso de Carvalho

Pois é, amigos, esse é um assunto complicado! Mas como gosto de escrever sobre o nosso cotidiano, de A a Z, tipo complexo vitamínico, este assunto também está aqui, na minha mira. Vale para todas as datas.

Conhecemos um pouco as pessoas pela sua amabilidade, pelo seu bom gosto, carinho e, também, pelos presentes que elas dãoNão quero dizer que devemos gastar muito para presentear, jamais, mas com o foco certo em quem receberá o presente, facilitará o processo d escolha, serão mais acessíveis e bem apreciados.

Todos nós recebemos umas coisinhas difíceis de gostar. Lembro uma vez que tive a triste sensação de ter sido vista como uma adolescente de vanguarda! Ou aquelas que ficam adolescentes para o resto da vida. Sim, porque eu jamais usaria aquela roupinha! Faltou à pessoa ter me estudado um pouquinho. 

O que importa não é o gesto de presentear, como dizem algumas pessoas, o importante é dar a coisa certa para a pessoa certa! Têm pessoas que compram sabendo que a criatura vai trocar, e não estão nem aí! O negócio é resolver o problemaSim, existe esse tipo de gente. Escolhido, assim, o melhor é não dar nada.

Não é fácil: há o perigo de darmos um livro de poesia para quem curte o gênero literário de "Terror"! Como também, presentear com os clássicos Chopin, Beethoven, Schubert...  para as pessoas que amam o "rock pauleira". Então não se atrapalhe, dê o "rock pauleira"! O importante é o gosto de quem recebe, não o nosso. 

Também existem pessoas difíceis, nada serve, dá vontade de enviar uma bomba! É, esse lado também existe! É terrível. A gente compra sabendo do resultado: o presente não vai agradar! Mas, com essas não me preocupo, pois se comprarmos o sol, querem a lua.

 A boa escolha  evitará, mais uma vez, a conhecida bandeja ou mais outro porta retrato! E ainda temos de ser delicados para não mostrar o desapontamento...

- Que lindooooo, você adivinhou, como estou precisando de um porta retrato!

Confesso a vocês que estou na turma dos que preferem ganhar uma bela caixa de bombons ou livros, desde que não me presenteie com o gênero "Terror". Perfumes, nem pensar, é muito pessoal.

Nisso, os homens são muito práticos: dão bombons finos, vinhos ou espumantes de classe! São presentes que sempre agradam, delicados e de bom gosto. 

Mas, o Natal está aí, a data mais festejada em boa parte do mundo!  Use sua criatividade, seu carinho, mas também não esqueça de usar sua máscara e álcool gel nas suas andanças! 

 Boas compras para os que curtem dar presentes no Natal!




Sugestão de presente para uma família: cestas de Natal!

Todos se beneficiam!






28 de novembro de 2021

A POESIA E AS EMOÇÕES - crônica

 

Obra de Francisco  Stockinger e Eloisa Tregnago - 2001 /
Drummond e Mário Quintana - Praça da Alfândega, Porto Alegre - Brasil


                                                              -  para  Pedro Luso 


                             

                  - Taís Luso de Carvalho


Existem dias que não fazem a mínima diferença para nós: se o sol brilha intensamente lá fora, se os shoppings comemoram o maior Natal do mundo, se as ruas estão repletas de gente feliz, não faz diferença alguma se dentro de nós as coisas estiverem desalinhadas.

De repente, culpas e mágoas de acontecimentos passados tumultuam nosso equilíbrio. Uma injustiça pesada que corre de boca em boca ou um drama horroroso em alguma parte do planeta nos deixam chocados. As mais variadas emoções, as agonias e mazelas do mundo, ao saírem da mente de um poeta para uma tela branca, o poema se revela! Pronto, é isso! A desgraça revelada com mais leveza! E tudo fica dentro de nós. Logo vamos partilhar nossas emoções ou nos recolhemos, nossa introspecção.

Escrevo escutando Serenade de Schubert, a ideia era outra, mas mudei o texto, porque no meio do caminho tinha uma pedra. E assim tem de ser, mudar para encontrar o sentido das coisas. Mudei porque não era um texto alegre que pensei em compartilhar.

As alegrias darão ótimos sambas e lindas marchinhas de carnaval, mas não escuto música com o objetivo de me alegrar, não sou triste, mas meu espírito pede melodias que me sensibilize. Que eu possa pensar.

Ando mais concentrada na vida, no mundo, não em mim. Mais uma variante do vírus covid chegou, o ômicron, descoberto na África do Sul, há poucos dias. E por que não falar? Não quero esconder nada de mim. Mas não demorou para chegar um daqueles conselheiros, que não pedi, e que me irritam muito:

"Pense coisas alegres, Taís, viva a vida!"

Como assim? Não estou vivendo? Será que morri e não senti? Como me alegrar, fora do compasso, uma vez que os cientistas e governos do mundo inteiro estão preocupados e trabalhando para minimizar tantas mortes? Não respondi. Resolvi me poupar. Está tudo sempre bom para esse tipo de gente. Aprendi que, se não aceitarmos as preocupações e as tristezas, fica mais difícil entender a felicidade.

E, com isso, com toda a minha fragilidade, com meu tempo que não é infinito, não posso gastar minhas energias com esse tipo de discussão. Eu sei onde esse tipo de gente quer chegar. Vejo famílias e amizades destruídas com discussões ideológicas, amigos antigos se afastando, porque têm de defender seu ponto de vista até a morte!

Não; esse desgaste não abraço mais.




' Serenade de Schubert '





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22 de novembro de 2021

MEMÓRIAS DE CRIANÇA - crônica

 

Pierre Auguste Renoir / A Leitura - 1890



           - Tais Luso de Carvalho



Quando nasci fui batizada e anos mais tarde crismada na Religião Católica. Depois veio a 1ª Comunhão - tudo nos trilhos, como fazia toda a menina que estudava em colégio de freiras: colégio cheio das exigências, um ensino ótimo, forte. Tínhamos, também, o ensino religioso, é claro. As aulas eram dadas pelo padre da capela do  colégio, o padre capelão , assim era chamado.

Lembro da agonia do sacramento da confissão antes da comunhão: ajoelhar naquela casinha (confessionário), contar meus pecados, arrepender-me  e rezar algumas Ave-Marias.  Foi nessa época que comecei a encrencar: confessar o quê? Que pecados? Então passei a dizer sempre a mesma bobagem, pois a freira ficava ali, no posto de observação. De olho nos anjinhos - que não éramos nós.

A partir de então, comecei a ser contestadora, não admitia que meu comportamento  pudesse ser tachado como pecado. Começaram os meus porquês.

Eu tinha 12 anos, brincava com bonecas, mas queria saber o porquê das coisas.  Observava muito o mundo dos adultos: louca para crescer e ser um deles, poder discordar e armar um barraco, ou seja, arrumar confusão com minhas ideias.  Mas, passei a ser o docinho das freiras - talvez para não tumultuar as aulas de religião, dadas na bela capela onde eu olhava o teto, as imagens, de canto a canto, tudo, menos para o padre, eu já gostava muito  da  Arte Sacra, rica, cheia de detalhes. 

Fazíamos caras, bocas e barulho com os saquinhos que guardavam o Terço, o Missal e outras bugigangas para tumultuar o negócio: o sermão do capelão! Um sermão com um sotaque terrível, pesado. Na verdade nenhuma criança prestava atenção, estávamos noutra dimensão! Ninguém estava a fim de morte, ressurreição, castigos e pecados. Estávamos no começo da vida!

Eu tinha 12 anos, mas tinha de amar o próximo, perdoar os pecados do mundo, honrar pai e mãe, adorar a Deus sobre todas as coisas.  Enfim, aqueles  10 mandamentos.

Eu só tinha 12 anos, mas já sabia que o ser humano era generoso, herói, afetivo, amigo, mas também competitivo, raivoso, bandido, egoísta e vingativo. E matava por prazer. Eu já lia jornais.

Eu tinha 12 anos, mas já sabia que éramos essa mistura  de pensamentos, de atitudes,  de sentimentos vulneráveis e contraditórios. Eu era, apenas, um ser humano em formação. 

Embora eu  tivesse 12 anos, não entendia como éramos à imagem e semelhança de Deus. Como entender isso com 12 anos? Nós, seres humanos tão pequenos? Ficou difícil. E por que terceirizar, no confessionário, minha conversa com Deus, meus supostos pecadinhos? Não aceitava isso.

Eu tinha 12 anos, e meu objetivo era cursar psicologia, pois para resolver os dramas que existiam nas profundezas do ser humano, aqueles sermões pouco serviam. Acreditava que a ciência daria as pinceladas mais exatas para arrumar esta confusão que somos e seremos sempre. Fui uma criança atenta a essas coisas. E muito pelas conversas com meu pai. E, assim, logo larguei minhas bonecas e comecei a pensar. 

Cresci; meus 12 anos desapareceram, e o que eu consigo ver hoje são seres iguais àqueles: imperfeitos e contraditórios. E mesmo agora, tão distante da minha infância, mantenho os mesmos pensamentos. Se for para exercer a Democracia, que comece pela Liberdade Religiosa. Que cada um siga a sua fé, ou outro caminho de diferentes convicções. 

Acredito em religiões e filosofias que trazem paz e alívio para as dores dos que precisam. Contudo, permanece em mim o gosto pela Arte Sacra e pela Arquitetura magnífica das Igrejas através dos tempos.  É Arte, é História.





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15 de novembro de 2021

ATOS DE GENTILEZA - crônica


 

                 - Taís Luso de Carvalho

   

Não faz muito, tivemos o Dia Mundial da Gentileza. Foi comemorado no dia 13 de novembro. Mas ainda não vejo esse dia com muita alegria, ou um dia que me comova e que me faça acreditar em grandes mudanças no ser humano. Ainda há muito individualismo  espalhado  pelo mundo. 

Ficamos todos muito comovidos ao vermos o trabalho dos médicos e enfermeiros tentando salvar muitas vidas nessa pandemia do covid 19, mas as coisas ainda estão péssimas no campo das gentilezas do nosso cotidiano. Tanto é que, ao aparecer um caso de extrema gentileza, vai para a televisão como um caso fora de série! Vai parar no  Fantástico, da TV Globo.

Aqueles momentos, lá atrás, no pico da pandemia, vendo o ser humano doar-se ao máximo, aquilo comoveu e sensibilizou o mundo, sim. Nesses momentos vimos e vemos profissionais completos. Mas isso é outra coisa.

No campo das gentilezas, doar-se faz bem para quem recebe a gentileza e muito mais para quem a faz. Parece que nosso coração fica em festa. Uma pessoa gentil é aquela quem tem esse estado de espírito permanente.

Pois foi exatamente nesse Dia Mundial da Gentileza, que fui ao supermercado e cheguei na seção  dos leites. Comecei a procurar o leite semidesnatado e não o encontrava. Uma senhora, bem estabanada, perguntou-me onde estavam os leites semidesnatados, eu lhe disse que também estava procurando. Ela encontrou antes de mim, pegou 5 litros, que haviam ainda, colocou no seu carrinho e continuou suas compras. Podia ter me cedido um ou dois litros, é o que eu faria para ela.

Como disse Tancredo Neves, a esperteza quando é demais come o homem! Então, o que pensei nesse Dia Mundial da Gentileza? Nada.

Há gentileza nos semáforos, quando estamos atravessando a rua? Há gentileza nas filas dos supermercados quando estamos com 5 comprinhas, e na frente uma pessoa com carrinho lotado?

Gentileza é ajudar um deficiente visual a atravessar a rua; é agradecer com um sorriso o favor dos mais humildes; é dar uns minutos do nosso tempo para escutar alguém com problemas! Gentileza é ser amável com todos, sem distinção de cor, de classe social ou de sua opção sexual. Gentileza é ceder seu lugar no ônibus para uma senhora idosa.

A gentileza começa na família, quando somos pequenos, e segue lá no básico das escolinhas. Adulto será gentil se for educado com esse fim, se for ensinado a se preocupar com o outro, e se tiver sensibilidade para isso.

Acredito que as pessoas gentis, que se importam com as outras, são bem mais felizes.





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9 de novembro de 2021

TEMPOS MODERNOS - crônica



                         - Taís Luso de Carvalho


Ao iniciar essa crônica lembrei-me do filme Tempos Modernos - com Charlie Chaplin. Estamos parecidos com aquela época.

Tenho constatado muita ansiedade e muita pressa nas pessoas ao desempenharem suas funções: falam rápido, agem rápido, pensam rápido. Ainda não captei onde pretendem ir nessa velocidade.

Faço força para não assimilar essa pressa em viver. Vejo muita ansiedade nos supermercados, em lojas, nos celulares, e até nos e-mails. Está difícil pensar mais lento, viver mais tranquila.

Estava eu, no espaço dos congelados do supermercado, quando uma senhora desnorteada e apressada deu-me uma esbarrada com seu carrinho machucando meu pé. Pediu-me mil desculpas, e ficou por isso mesmo. Continuou enlouquecida.

Há anos que recebo e-mails econômicos de algumas pessoas. Não chegam a cinco palavras. As vezes duas. Dá para ver que a pessoa está  estressada e difícil de comunicação.

Na era das redes sociais o curtir virou moda e exemplo para outras coisas. Não precisa nada além do curtir e das dezenas de Aplicativos que nos oferecem todos os dias para não perdermos tempo na rua.

Na internet, os textos precisam ser curtinhos; as músicas atuais não podem passar de 2 a 3 minutos no máximo, caso contrário as rádios não tocam. Os jovens querem músicas curtas, escutei sobre esse assunto, numa rádio bem conceituada.

Hoje, tempo é dinheiro, é trabalho, é atividade. O lazer e as palavras gentis ficam para depois. Também se vê muito pressa no Whatsapp, a objetividade impera. Não há mais tempo a desfrutar.

Sinto viver num mundo alucinado, longe estamos da época de nossos pais, que tiveram infância, juventude, sonhos e paz.

E nossos médicos? Alguns ainda conservam a tranquilidade para conversar, de ouvir nossas dúvidas, de se compadecerem de nossos medos e de falar um tiquinho sobre o cotidiano. É raro, mas esses existem. Encontrar um médico amigo vale ouro.

As empregadas domésticas são um caso à parte, já chegam no emprego saindo! Uma pressa enorme para pegar o tal do ônibus das 16:00 ou 17:00 horas. Quando me dou conta, fiquei o dia atrás da mulher com o objetivo de cuidar para não me quebrar a casa inteira.

Seria bom curtir a vida com mais calma, já que nada é tão seguro, e o que interessa é a vida, é nossa saúde física e mental.

Portanto, pergunto o porquê de tanta pressa se quando menos esperamos, nossa vida se vai num sopro? Para onde vamos?

Tenho uma tia com 102 anos, lúcida, feliz e com seus afetos em dia. Gostaria de viver  tanto quanto ela. Quem sabe, dando uma freada nos meus afazeres...e jogando algumas coisas para o alto...Vou nessa.



Tempos Modernos - 1936  /  Charlie Chaplin