4 de julho de 2022

ASSIM SÃO AS PESSOAS CHATAS

 

Obra  daqui: Das Artes



             - Tais Luso de Carvalho



Ontem, com tanta coisa para fazer, andando meio pensativa, olhando para tudo e não me detendo em nada, apressei o passo para pegar o sinal aberto aos pedestres. Mas logo em seguida senti uma mexida na minha bolsa... Era aquela conhecida chata, brincando de assalto, tentando se passar por ladrão de celular! Foi a alegria mais falsa no encontro, e com dois beijinhos... Mas aprendi a aguentar uma pessoa chata e inconveniente,  elas têm muita serventia.

Quando alguma coisa me aborrece, o encontro com pessoas assim, tem seu valor, elas me levam a muitas reflexões, e ao desgrudarem me deixam a sensação de que a vida é maravilhosa. Fica em mim a dimensão exata do que é a paz.

Uma das coisas mais difíceis não é pensar em me atirar de paraquedas ou despencar de Asa Delta; é conversar com  criaturas chatas! Elas grudam em você, lhe pegam no braço, lhe tocam no ombro, empurram, cutucam e cospem! O chato fabrica muita saliva pela ansiedade de ter nossa atenção e parte de sua saliva nos atinge. O chato é íntimo - sempre! Tenho a sensação de que vou explodir. E já começo a me coçar. Fico impaciente com uma pessoa chata, e se for muito festeira a coisa piora. A saliva e as cutucadas se multiplicam.

É triste encontrar essas pessoas num carnaval de salão: elas  pulam e se sacodem em cima de você! Querem enturmar na sua mesa e ficam numa euforia inigualável. Muita alegria incomoda.

Chatos são simpáticos demais, despejam emoção e alegria na medida errada: é aquela criatura que faz um berreiro num velório, é íntima do defunto. Parece que gerou aquele defuntinho. Ainda não descobri qual a razão da coisa. Mas essa gente precisa mostrar suas emoções. A pessoa chata não opina, ela impõe suas ideias. E aos poucos a gente vai enlouquecendo, pois nunca acertamos em nada!

Essas criaturas sabem de tudo: se começamos a falar em viajar, estão prontas a fornecerem o roteiro. A mesma coisa acontece com filmes, restaurantes etc. O ponto triste dos chatos é parecerem uma enciclopédia, conhecem tudo! São rivais do Google! E deixam em nós – por pouco tempo que seja – uma sensação  de ignorância.

Dias atrás, comentei com uma chata, que gosto de escrever em silêncio, música me tira a atenção...

– Credo... você é parente de Matusalém? Tem de se modernizar, amiga! Isso é muito desagradável. É uma invasão na vida dos outros.

Fiz força para ser educada, tudo o que dissermos, essas benditas criaturas discordam: elas têm uma neurose em contestar, uma outra opinião sobre tudo na vida. Serão bem quistas num meio familiar ou social?

Não sei a razão, mas quando encontro alguns chatos, velhos conhecidos, quando eles começam a contestar tudo que o falo, alguma coisa se apossa de mim, e me vem a ideia mais primitiva do ser humano! Pois é… Mas não tem perigo, sou da paz.


                                              

                                     



26 de junho de 2022

UM ENGANO QUE CUSTOU CARO

 

Parque Moinhos de Vento - Porto Alegre / RS



          - Taís Luso de Carvalho


A minha crônica de hoje é feita para contar uma pequena história que se passou com Carpinejar. Para quem não o conhece trata-se de Fabrício Carpinejar, gaúcho de Porto Alegre, poeta, escritor, jornalista e dono de um refinado humor nas suas manifestações literárias. Pois bem, dias atrás, tive um bom exemplo de como devemos nos cuidar com as atitudes distraídas, como aconteceu com o nosso escritor.

Ouvi essa história de Carpinejar, quando a contou às 7:15 hs num programa da Rádio Gaúcha de Porto Alegre. É contagiante seu modo de contar um pouco do seu cotidiano e ouvir sua conhecida risada.

Pois bem, contou ele que sempre deixa o seu carro na rua Tobias da Silva onde almoça num conhecido restaurante, e sempre separa várias notas de R$2,00 reais, que vai juntando na carteira, para dar ao cuidador de carros, quando ali estaciona, nessa rua, diariamente.

Após ele entregar o dinheiro para o rapaz, esse surtou de alegria, e muito agradecido e  eufórico disse para Carpinejar:

Que Deus cuide da sua família, de seus filhos, que lhe dê muita saúde, e por aí foi numa felicidade sem fim.

Ao terminar o almoço, Carpinejar foi ao Caixa para pagar e viu que a nota de R$100,00 não estava na sua carteira, mas apenas as notas de R$2,00 que também são 'azuis'. Viu, ele então, que confundiu as duas notas, e que deu um dinheiro bem mais robusto e não usual ao cuidador de carros. Por isso, aquela euforia toda!

No dia seguinte, estava lá o rapaz, esperando na mesma hora, e com um largo sorriso no rosto. E Carpinejar lhe disse:

– Olha, agora essa rua é minha até 2025!! E contando isso na rádio, encerrou o papo com a sua risada engraçada, pra lá de conhecida de todos nós. E lógico, não tem quem não ria  desses enganos que fazem parte do nosso cotidiano. Ou venha a lamentar se o erro for grande.

É preciso atenção para não fazermos pagamentos com muita pressa. Se alguém surtar de alegria na sua frente, se descarrilhar muito, desconfie do pagamento feito! 

Não estamos livres desses enganos, não!








18 de junho de 2022

O MENINO POBRE

 


O MENINO POBRE

                                       -  Para  Alexandre  Luso de Carvalho



                        -  Taís Luso de Carvalho

      

Ontem foi meu dia de aprender. Estávamos nós três, Pedro, Alexandre e eu numa cafeteria, quando entrou um menino, pequenino, devia ter uns 6 ou 7 aninhos e com uma pequena pilha de panos de prato (panos de copa) oferecendo nas mesas. Muito seguro e tranquilo, com postura de homenzinho, chamou muito a nossa atenção. Chegou na nossa mesa, ofereceu os paninhos: 3 por 20,00 - disse ele. Eu agradeci, pois mexer em dinheiro, tomando cafezinho e comendo os pãezinhos de queijo, não daria! Ele me fitou e disse:

– Mas aceito PIX!

Lógico que achamos muito engraçado, nunca tínhamos visto uma criancinha dizer que aceitava PIX – pagamento instantâneo ao Banco. E ali ficamos, olhando ele oferecer os panos em outras mesas. E nós ali, num momento de lazer e a criancinha negociando panos de prato, ajudando sua mãe que devia estar na calçada esperando. Crianças entram nos recintos com facilidade. Adultos não. Crianças não deveriam trabalhar, deveriam brincar e frequentar a Escola.

Quantas crianças trabalham vendendo coisas; quantas crianças trabalham na roça, ajudando os pais na colheita; quantas crianças ficam com a responsabilidade de cuidarem dos irmãos menores quando sua pobre mãe vai para o trabalho!? Quantas crianças fazem trabalhos pesados!

Sim, a causa é para colocar comida na mesa, para alimentar a família. E em muitos lugares não há outro jeito. Mas meu objetivo aqui não é discutir soluções políticas ou ideológicas e sim mostrar o contraste absurdo de filhos que vivem bem, mas reclamam de tudo,  se acham injustiçados, pensam só neles e por mais que ganham, sempre acharão pouco. 

A verdade, é que num cenário de crise, quem sofre são os pobres, as pessoas de classe média ainda têm gordura para queimar, como dizemos aqui no Brasil, e os filhos de ricos nem conhecem crise financeira.

Saímos da porta da cafeteria e lá fora estava o menino oferecendo os paninhos nas mesas que ficam debaixo dos guarda-sóis. Pensei em dar um dinheiro para ele sem pegar os paninhos, mas Alexandre me disse baixinho:

Compra, mãe, ele vai se sentir melhor, está trabalhando! Não tira a dignidade dele!

Comprei os paninhos, com dinheiro, sorri para a criança e dei um beijo no meu filho pela sensibilidade que eu não tive.

Foi um dia para não esquecer.







12 de junho de 2022

O LADO SÓRDIDO...

 

 Trolltunga / Noruega 


                       - Taís Luso de Carvalho


Com frequência, todos nós convivemos com gente bastante diferente, mas algumas pessoas servem de exemplo por suas grandes virtudes, dá vontade de ir abraçando o mundo pelo caminho. Mas, também vemos cenas e escutamos notícias tão cruéis que dá um desânimo, uma descrença grande na humanidade. Como é bom quando vemos o lado saudável e maravilhoso das pessoas, o lado puro, o lado sem afetação. O lado solidário, corajoso, mas delicado.

Também observamos muito aquele lado enjoativo de pessoas que precisam exibir uma "certa grandeza", mostrar que estão muito bem posicionados na vida, que a tudo dominam. É chato e maçante lidar com esse lado antipático do ser humano. O lado pretensioso. Lidar com suas inseguranças ou com uma agressividade disfarçada. Ainda não descobriram que a simplicidade de espírito é que encanta.

Vi, ontem, num jornal da noite, um pai de família que foi dispensado de seu trabalho, como tantos outros no mundo inteiro. Casado e com dois filhos pequenos, contou ao repórter todo seu drama, e chorou! Um choro tão profundo, tão sentido, difícil de segurar... Quando um homem chora, parece que chora o mundo! Tudo muito pesado, muita emoção.

Mas, ao acompanhar a matéria triste daquele pai desempregado, e de tanta gente na mesma situação, fiquei na torcida que alguém telefonasse para a emissora e que controlasse a situação daquele homem.

São dramas que ficam marcados e juntam-se a tantos outros que estão espalhados pela vida. Como o ser humano se difere! Que brutal contraste ao ver um humilde e responsável homem chorar, desesperado, enquanto lá do outro lado, bem distante, a coisa não acaba, impera a brutalidade, a crueldade em nome do poder. E os "Poderes" nunca acabam com o sofrimento, com as lágrimas do mundo. E cá, ficamos nós, pensando nos "Poderosos".

A matéria de que todos nós somos feitos é igual, a forma é igual, mas o espírito que habita cada ser humano é muito variado. É como ver a mais bela Natureza de um lado e do outro lado o terror de uma guerra; bombas explodindo, mísseis cortando o espaço levando a morte certeira. Não há palavras que descrevam o pior lado dos humanos. Só vendo para crer.










5 de junho de 2022

A VIDA – NOSSO BEM MAIOR

 



          - Taís Luso de Carvalho


Fico muito aflita e comovida ao ver uma ambulância nas ruas, com sua sirene aberta, pedindo passagem para salvar uma vida que ali leva para a emergência de um hospital. E hoje, a mesma agonia se repetiu. Corri à minha janela e lá estava o tumulto. Gostaria de ser um guarda de trânsito, naquela hora,  para segurar o grande fluxo da avenida e abrir espaço para vida passar. Mas daqui, do alto, só restou aflição. Uma avenida transversal, corta minha rua e tudo parou no semáforo vermelho.

A sensação que isso tudo causa é de tristeza misturada com ansiedade e impotência. Uma ambulância em agonia é o que sinto, e uma fila enorme de carros trancados. Uns ajudando nas buzinas, passando o recado de urgência; outros subindo no canteiro central para aliviar a passagem.

Acalmei minha agonia quando vi, mais adiante, os primeiros carros saírem da inércia e, com coragem, invadirem a movimentada avenida. E deu!

Assistindo a todo esse mexe-mexe para salvar uma vida, trancou minha garganta, deu uma enorme vontade de chorar. O choro, para mim, é a última instância da emoção.

Diante dessa tela branca e sem vida deixo registrado mais um pedaço da vida, mais um relato que vai se juntando a outros como se fosse uma colcha de retalhos. Tudo muito confuso, como está a nossa vida atualmente.

É triste não ver essa solidariedade em outras áreas. Dá a impressão de que ninguém está aí pra ninguém. Muitos agem como se a vida nada valesse.

Não estamos mais acostumados a ver atos comoventes. Estamos acostumados é com golpes virtuais, assaltantes nas ruas em busca de Smartfones, carros com seus vidros escuros na tentativa de mais proteção; estamos acostumados com as notícias na mídia – uma amostra viva da frieza e da expansão do crime. Estamos mais acostumados à banalização do desrespeito, a ver gente dormindo nas ruas e do crime sem a devida punição. Tenho medo de me acostumar com o que vemos todos os dias e achar tudo normal. Tenho medo da frieza total, medo da indiferença. Mas hoje vi que ainda não me verguei.

Triste será o dia que diminuírem minhas emoções. Mas muito mais triste será, quando eu não tiver mais vontade de chorar.








30 de maio de 2022

DORME RUAZINHA... - MÁRIO QUINTANA

 

Assis / Itália



DORME, RUAZINHA…

Mário Quintana




Dorme, ruazinha…É tudo escuro…

E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?

Dorme o teu sono sossegado e puro,

Com teus lampiões, com teus jardins tranquilos…


Dorme…Não há ladrões, eu te asseguro…

Nem guardas para acaso persegui-los…

Na noite alta, como sobre um muro,

As estrelinhas cantam como grilos…


O vento está dormindo na calçada,

O vento enovelou-se como um cão…

Dorme, ruazinha, não há nada…


Só os meus passos…mas tão leves são

Que até parecem, pela madrugada,

Os da minha futura assombração…



_________________________________________________

A Rua dos Cataventos – 2ª ed – Editora Globo / 2005 (pag 20)

Mário Quintana, nas  palavras de Fausto Cunha, soube manter-se fiel ao seu gênio poético, à sua vocação lírica, quando tantos em torno dele se esgotavam em caminhos equivocados. E poetando suas emoções, seus sentimentos, ele faz de si um espelho do mundo que o cerca, não raro abrindo mão de sua face dita angelical para refletir imagens da vida com fina ironia e, às vezes, com ácido sarcasmo.




_____________________________________



O ÚLTIMO DESEJO


Van Gogh - Noite estrelada sobre Ródano / 1888


 

                      - Taís Luso de Carvalho


Volta e meia escutamos de um conhecido, de um artista, de um escritor, de um trabalhador, sobre o seu último desejo. Quem já não escutou alguém se manifestar sobre isso? Usarei a palavra "partir", sei que meus amigos entenderão o que quero dizer. A conversa será muito leve.

Depois de ter postado nesse blog, os Últimos Desejos de Alexandre - o Grande, volto ao assunto, abordando o nosso cotidiano:

- Quero partir dormindo - dizem muitos, temerosos da dor e do pânico. Outros, querem partir no exercício de seu esporte preferido, atividade que gerou em suas vidas muitas alegrias. Outros, gostariam antes, de  visitar o Velho Mundo, num lindo passeio de gôndola, lá pela linda Veneza. Há cantores que gostariam de partir cantando! Outras pessoas gostariam de partir durante suas criações literárias ou artísticas, o que não é uma má ideia. Nesses exercícios de criação vivemos emoções e descarregamos adrenalina através da imaginação. É maravilhoso esse processo.

E é verdade, amigos, falo sério! Nós fazemos muitos planos de despedida daqui, mas, na verdade, ninguém sabe de nada. Sonhamos com absoluta convicção de que conhecemos o amanhã. E assim vamos levando.

Na real, queremos partir felizes, já pensaram nisso? É muito interessante. Pensando bem, mudaríamos totalmente a nossa perspectiva, sentiríamos uma sensação de esperança, nossa partida seria um pouco alegre, quem sabe!? Seria maravilhoso se assim fosse. Ficariam tristes os amigos, a família… mas estaríamos no domínio da nossa felicidade. E logo ali, assim que terminasse a nossa ascensão, desembarcaríamos no paraíso! Mas fico pensando até onde isso tudo pode ser verdade!? Ninguém sabe.

Quem gostaria de partir em plena felicidade? Eu digo que para mim, por enquanto, paraíso é um estado de espírito.

Estou, apenas, brincando um pouco, tentando dar leveza no que não é leve. Na realidade, não sabemos nada do que possa ser a felicidade que alguns apregoam, uma sensação de plenitude, de paraíso, uma promessa infinita que escutamos desde nossa infância. Na verdade, eu estou tentando arrumar um jeito de aceitar o inaceitável, o incompreensível; estou tentando entender o sentido e a razão de tudo isso. Mas jamais entenderei. É muito difícil processar - não a vida, mas o seu final. O melhor é não pensar. Mas... isso existe, não há meio de escondermos.

          Uma vez que outra, pensamos.



Elvis Presley - My Way


 


22 de maio de 2022

O MUNDO DAS APARÊNCIAS

 

Pedro Escosteguy - XVI Salão Arte Moderna 
RJ - Brasil 1967



                    - Taís Luso de Carvalho


Hoje escrevo sobre um assunto altamente irritante e que gera sempre discussões acirradas: o respeito pela opinião do outro, o respeito pelo que ele usa, pelo que ele gosta.

O comportamento de certas pessoas, que penso ser deplorável,  é a tal intromissão que vem a gerar a falta de respeito, os palpites dados na vida dos outros. Palpites em tudo: no carro que possuímos, na compra de um celular, na decoração da casa ou outra coisa qualquer. O ser humano ainda não aprendeu a falar, a usar o freio, a educação, a delicadeza.

Isso levanta perguntas, discussões, mágoas e afastamentos. É terrível quando a bomba explode na família, com os amigos ou colegas de trabalho. Principalmente quando se fala em política. Aí o  Barraco é grande!

- Credo, olha o carro do João, modelo antigo pra caramba! Pão duro!

E isso irrita mais quando vem acompanhado de agressividade.

- Pô, que celular brega esse seu, compre outro mais top, seja moderno!

E muitas vezes, as pessoas não podem comprar, não é o momento de se endividarem, mas há outras pessoas que, por pouco, não vendem a mãe para comprarem seus sonhos. E postarem numa Rede!

sonho de muitos é compensar um Bullying  que tanto incomodou no passado. É triste viver rodeado de opiniões.

É bem mais fácil viver nossas verdades e comprar o que podemos. Na verdade, aparentar cansa, tudo o que é falso cansa. O espírito de quem entra nessas frias, também não inspira confiança.

Comprar o que se pode gera uma vida de tranquilidade, gera paz, uma sensação quase em extinção, e isso é o que deveria ocorrer nas redes sociais, passar para os filhos como exemplo de vida. É o que podemos deixar de mais valioso nesse mundinho conflituoso.

Fazer esse caminho, por aqui, valer a pena.










15 de maio de 2022

DORES EMOCIONAIS

 

Operários 1933 - Tarsila do Amaral



       - Taís Luso de Carvalho


Há dias, assisti  uma entrevista com um conceituado cardiologista da cidade de São Paulo. Passado algum tempo, entre as várias perguntas, chegou da plateia uma pergunta muito interessante:

Doutor, as dores de amor causam algum dano ao coração?

O médico sorriu da pergunta, mas respondeu com absoluta convicção:

Sim, não só as dores de amor como todas as dores emocionais prejudicam o nosso coração, pois o coração gosta é de alegria!

Achei muito especial a resposta do cardiologista. Uma mente conturbada e sofrida faz um estrago enorme a esse órgão. A ansiedade produz muita adrenalina e estimula muito nosso sistema nervoso, e isso para as doenças é um pulo. Na verdade o homem é o que é, mas alguns "reparos" não é  uma  má  ideia  para nosso próprio benefício.

Naquele momento, pensei o tanto que tratamos mal esse precioso órgão. Pouco ligamos para nosso coração que trabalha dia e noite, às vezes, atormentado e estressado.

Na verdade, nós somos um poço de insatisfação. Não só reclamamos do inverno, como reclamamos do verão, da chuva fria e do sol quente; reclamamos da praia lotada, como da Serra gelada. Reclamamos de inúmeras coisas.

Mas, o ruim é quando não relevamos nada e reclamamos da insignificância de coisas da vida. Sejam essas reclamações dirigidas aos parentes, amigos  ou apenas conhecidos. É terrível isso, mas um afastamento, sem atritos, dessa gente indesejável, nosso coração agradecerá.

Então, meu bom Deus, se possível dê um jeito na sua bela obra, dê uma pincelada nessas suas criaturas que ainda não assimilaram a bondade, os afetos, a solidariedade, pois o mundo é  maravilhoso! Nunca seremos à sua "imagem e semelhança", mas nós, os humanos, podemos dar uma melhorada, deixar de lado a inveja, a vaidade, a arrogância, o egoísmo e buscar uma vida de mais alegria e igualdade. Acho que seremos mais felizes. Nossos corações permanecerão por aqui para agradecer.






9 de maio de 2022

ESSA É A NOSSA CIVILIZAÇÃO ?

 




- Tais Luso de Carvalho


É uma lástima que só paramos para refletir sobre as nossas prioridades após as guerras, os acidentes, as doenças e outras tragédias. Só assim paramos para pensar nas besteiras gigantescas que nós, os humanos, ainda cometemos na vida. Só pensamos quando estamos à beira de um ataque de nervos ou quando entramos numa "gelada". Depois esquecemos e tudo volta ao normal, ao velho e conhecido tranco da "Lei do Menor Esforço", do tudo fácil, tudo ótimo.

Há, em todos nós, um sentimento muito desgastante que se chama competição. Competimos no esporte, competimos no trabalho, competimos em beleza, em conhecimento, competimos em tudo. O tumulto e as pressões que sofrem os atletas, técnicos de esportes, médicos, advogados e diversas  profissões é uma overdose de estresse. Até os políticos se estressam!!! Tão bonzinhos, tão responsáveis, tão éticos! Tão equilibrados...

Viver é como se equilibrar numa corda dependurada de um edifício ao outro: ou você aprende a se equilibrar ou se esfacela lá embaixo. E depois, enche de curiosos pra ver se você morreu ou se sobrou alguma coisa se mexendo.

Viver é difícil, conviver ainda pior, e se manter no topo, dez vezes pior. O ser humano precisa mostrar sua superioridade intelectual, sua força, seu poder, mostrar sucesso em tudo que faz. Sem dúvida que desgasta. Ótimo, mas tudo tem um preço. E de uma hora para outra nos apagamos como uma vela. Não há emocional que possa aguentar tantas cobranças.

Porém, ficamos tão pequeninos e vulneráveis diante das doenças que seria bom pensar neste desperdício de energia antes do drama. Afinal, o que vale a pena? A vivência por aqui é curtinha; raros os que fecham um século de vida. Onde há riscos, estamos presentes, em busca da superação. Virou moda. 

Na verdade, ficamos com os resquícios dos Bárbaros, cometemos atrocidades que até Deus duvida de sua mais encantadora obra: Bárbaros fantasiados de gente evoluída. Parece que o planeta é um enorme Coliseu. Matamos por diversão, por ódio, por vingança, por disputa, por orgulho. O ser humano em certos quesitos em nada mudou. Na medida em que evoluiu de um lado, sofreu a involução do outro.

Abrimos os jornais e lá estão as manchetes do dia mostrando os mais terríveis crimes arquitetados por mentes doentias, em pleno século XXI. Os noticiosos são filmes de terror, ficamos com os olhos esbugalhados e terminamos acovardados, colocando mais grades, mais trancas e mais alarmes em nossas casas.

Tudo continua igual, mesmo depois de termos ido à lua, enviado para o espaço satélites de precisão, tecnologias das mais sofisticadas para matar, mas também avanços enormes na área de medicina para salvar! Vá eu entender!!

Como animais racionais, como seres tidos como superiores, ainda somos pobres vítimas de nós mesmos. E como tudo está globalizado, não paira no ar dúvida alguma desta barbárie toda: assistimos a atos de crueldade e de genocídio através de uma tela de alta definição. E assistimos a tudo isso confortavelmente sentados...  Difícil de acreditar, mas é assim.




_______________________//________________________






6 de maio de 2022

O DIA DAS MÃES - Giuseppe A. Ghiaroni

 


Homenagem a todas as mães pelo seu Dia!

Escute, é maravilhoso!


          O DIA DAS MÃES 

                              - Giuseppe A. Ghiaroni



Mãe! Eu volto a te ver na antiga sala

onde uma noite te deixei sem fala

dizendo adeus como quem vai morrer.

E me viste sumir pela neblina,

porque a sina das mães é esta sina:

amar, cuidar, criar, depois… perder.



Perder o filho é como achar a morte.

Perder o filho quando, grande e forte,

já podia ampará-la e compensá-la.

Mas nesse instante uma mulher bonita,

sorrindo, o rouba, e a velha mãe aflita

ainda se volta para abençoá-la…



Assim parti, e me abençoaste.

Fui esquecer o bem que me ensinaste,

fui para o mundo me deseducar.

E tu ficaste num silêncio frio,

olhando o leito que eu deixei vazio,

cantando uma cantiga de ninar.



Hoje volto coberto de poeira

e te encontro quietinha na cadeira,

a cabeça pendida sobre o peito.

Quero beijar-te a fronte, e não me atrevo.

Quero acordar-te, mas não sei se devo,

não sinto que me caiba este direito.



O direito de dar-te este desgosto,

de te mostrar nas rugas do meu rosto

toda a miséria que me aconteceu.

E quando vires e expressão horrível

da minha máscara irreconhecível,

minha voz rouca murmurar: 'Sou eu!'



Eu bebi na taberna dos cretinos,

eu brandi o punhal dos assassinos,

eu andei pelos braços dos canalhas.

Eu fui jogral em todas as comédias,

eu fui vilão em todas as tragédias,

eu fui covarde em todas as batalhas.



Eu te esqueci: as mães são esquecidas.

Vivi a vida, vivi muitas vidas,

e só agora, quando chego ao fim,

traído pela última esperança,

e só agora quando a dor me alcança

lembro quem nunca se esqueceu de mim.



Não! Eu devo voltar, ser esquecido.

Mas que foi? De repente ouço um ruído;

a cadeira rangeu; é tarde agora!

Minha mãe se levanta abrindo os braços

e, me envolvendo num milhão de abraços,

rendendo graças, diz: 'Meu filho!', e chora.



E treme e chora e como fala e ri,

e parece que Deus entrou aqui,

em vez do último dos condenados.

E o seu pranto rolando em minha face

quase como se o Céu me perdoasse,

me limpasse de todos os pecados.



Mãe! Nos teus braços eu me transfiguro.

Lembro que fui criança, que fui puro.

Sim, tenho mãe! E esta ventura é tanta

que eu compreendo o que significa:

o filho é pobre, mas a mãe é rica!

O filho é homem, mas a mãe é santa!



Santa que eu fiz envelhecer sofrendo,

mas que beijas como agradecendo

toda a dor que por mim lhe foi causada.

Dos mundos onde andei nada te trouxe,

mas tu me olhas num olhar tão doce

que, nada tendo, não te falta nada.



Dia das Mães! É o dia da bondade

maior que todo o mal da humanidade

purificada num amor fecundo.

Por mais que o homem seja um ser mesquinho,

enquanto a Mãe cantar junto a um bercinho

cantará a esperança para o mundo!






 - Giuseppe Ghiaroni - jornalista e poeta brasileiro.

Nascimento: 22 de fevereiro de 1919, Paraíba do Sul, Rio de Janeiro

Falecimento: 21 de fevereiro de 2008, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro

-------------