14 de setembro de 2020

SÓ MULHER ENTENDE MULHER

 


                               ____Taís Luso____

Nós, mulheres, temos muitas coisas que os homens não entendem, mas falarei apenas de algumas. Uma delas são nossos bolsões. Não entendem, coitados! Os homens conseguiram abolir suas pochetes, pastas e bolsas. Hoje, no Brasil, fora do trabalho, carregam uma carteirinha com apenas o cartão de crédito, celular e pouco dinheiro. Espalham esse arsenal pelos bolsos de suas roupas, e pronto. E o interessante é que dá certo. Os homens são práticos em muitos quesitos. Mochila é para os jovens mais informais, mas não sei o que carregam naquele saco enorme dependurado nas costas.  

Conosco o negócio é diferente: precisamos carregar alguma coisa de mais substancioso, caso contrário não sabemos onde enfiar as mãos. Não faço parte do grupo das mulheres grandes, mas estou à procura da maior bolsa do mundo! Como dá pra ver, nada por aqui é proporcional. Os homens não têm noção do que carregamos, mas não conseguimos ser diferentes. Dentro de um bolsão, existem várias bolsinhas, tudo organizado. Bem, seguindo...

Não conheço nenhum homem que tenha o fôlego de uma mulher para caminhar num shopping. Nós, mulheres, percorremos 400 lojas, pedimos reserva da mercadoria e continuamos  com energia sobrando. Mulher vai ao shopping sem muita objetividade, aproveita para desanuviar dos problemas. Se os homens agissem igual, acabariam o dia num hospital, agonizando.

Homem compra no primeiro impulso, sem pesquisar um produto similar. Mulher procura, pesquisa, compara, e se der tempo ainda discute sobre alguma coisa que deu errado.

Pedro, quando vai ao shopping e vê que encontrei o que procurava, logo diz: leva dois! É muito sutil! Cansou de me acompanhar, mas reconheço seu empenho. E acontece com sapatos, roupas, brincos... Para ele todos os brincos são iguais. Qualquer coisa dependurada na orelha é brinco. Tudo igual!

Acho que pelo fato de sermos assim, tão minuciosas, nossos sentidos são mais aguçados. Por esse fato é que mulher consegue trabalhar fora, cuidar dos filhos, da casa, do marido, dos pais, da empregada, do cachorro e ainda discutir  sobre as frescuras do condomínio. Mil coisas ao mesmo tempo; sim, nós podemos!!  Homens não: depois de cada atividade, deitam e dormem. Mas eles não estão errados, apenas são diferentes, cheios de milongas. Cuidam mais de sua profissão.

Supermercado? Homem entra num supermercado já sonhando com a saída. Vão para comprar água; compram água! Mas nós saímos com 4 sacolas lotadas, e sem  água!  Porém...

Numa ferragem ou numa vinícola se perdem no tempo, parece que vão comprar o estabelecimento! Estudam todos os alicates, todas as ferramentas.  Confesso que não curto  esse negócio de ferramentas. Na vinícola, estudam  a rolha da garrafa, a cor, a procedência, a uva e o perfume do vinho... 

Mulher não pede licença para dar conselhos: temos a mania de tentar resolver os afetos das amigas, dar conselhos na cor dos cabelos, na decoração da casa e na educação dos filhos dos outros! Também ficamos bom tempo escolhendo a cor da cama do cachorro - para combinar com o sofá da sala. A casa é mais do cachorro.

Homem não se mete na vida de ninguém. São mais práticos, mais racionais. Mulher é barraqueira, bate boca! Decide logo a bronca de corpo presente. É uma desilusão! É triste, mas é assim. Luta pelos seus direitos.

Mulher aconselha demais, acha que está fazendo  voluntariado. Não, isso é vício, amigas, é aquela coisa de mãe quando resolve educar!! Nós educamos até morrer! Deu pra entender essa loucura? 

Esse nosso lado feminino, multifacetado, é chato e irritante, eu sei disso. Com dois braços tentamos abraçar o mundo  e não desconfiamos que nem todos querem ser abraçados. Mas ninguém percebeu, ainda, que isso tudo que fazemos... nem nós entendemos!



_______________________________________






4 de setembro de 2020

PAI MATERNO - Fabrício Carpinejar





                      __ Fabrício Carpinejar___


Não fui pai observando o meu pai (que hoje é um grande amigo). Aprendi a ser pai observando a minha mãe. Quando garoto de sete anos e memória de sonho, meus pais se separaram, e a vida não foi fácil.
Minha mãe cuidava de dois empregos, trabalhava de manhã, fazia o almoço, voltava ao trabalho, pagava as contas, encaminhava os quatro filhos à escola, limpava a casa, e ainda escrevia, e ainda se arrumava toda bonita com seus lenços no pescoço, e ainda corrigia os deveres, e ainda arranjava tempo para rir no sofá entre a gente, como se fosse um feriado o fato de estar em família.
Nunca a vi xingando. Praguejando. Cobrando. Pressionando. Transferindo culpas. A fatia do queijo era rala, mas o doce de goiaba sobrava e nos fazia esquecer a escassez.
Lá em casa cada um cumpria uma tarefa: eu era o lavador de pratos; Miguel, o varredor; Rodrigo, o arrumador de camas; e a Carla, a responsável pelas saídas em equipe, de mãos dadas.
Dentro de mim, nunca fui sozinho. Se não havia um pai por perto para me ensinar a ser homem, havia um irmão, havia uma mãe, havia uma irmã, havia a telepatia do afeto.
Ser pai é não instruir o filho a lavar o carro, a mijar de pé, a fazer churrasco, a falar palavrão, a desenhar a letra, a namorar, a perder a virgindade, a sair de uma desilusão. Não, não é isso.
Ser pai é somente compreender. Ao compreender meus filhos (Vicente e Mariana), estou sendo eles mais do que poderia chegar a me cumprir. Ao ouvi-los, estou sendo eles mais do que seria capaz de escutar a minha própria voz.
Eu imito as minhas crianças, sou um mímico de seus traços. A cada dia, não são eles que se parecem mais comigo, sou eu que me esforço em me parecer com eles. Sou eu que me esforço para merecer seus rostos, que ficam sobrepostos ao meu.
Tem horas que me pego cantarolando canções deles no trabalho e me dá uma vontade de começar tudo de novo pelo prazer de assisti-los. No filme de meus filhos não quero perder nem os trailers.
A maternidade é inata, a paternidade é adquirida. Eu escolhi ser pai para cuidar do filho que fui, e acabei sendo filho dos meus filhos.
Converso, brinco, ponho eles no degrau de meu ombro, encontro uma liberdade que só existia antes em minha solidão, que está ensolarada com os filhos.

_________________________________________


Fabrício Carpinejar é gaúcho, nasceu em 1972, na cidade de Caxias do Sul (RS). Poeta, cronista, jornalista e professor, palestrante e autor de 43 livros, entre poesias,  crônicas, infanto juvenis. Foi escolhido pela revista Época como uma das 27 personalidades mais influentes na internet. Detentor de mais de 20 prêmios, como Jabuti 2009, APCA 2011 (Associação Paulista dos Críticos de Arte; Érico Veríssimo 2006 – pelo conjunto da obra; da Câmara Municipal dos Vereadores de Porto Alegre; Olavo Bilac 2003, da Academia Brasileira de Letras; Cecília Meireles 2002; da União Brasileira de Escritores (UBE); três vezes o Açorianos de Literatura, edições 2001, 2002 e 2010 entre outros. Trabalhou na TV Gazeta, colunista da Zero Hora,  comentarista da Radio Gaúcha, do programa Encontro com Fátima Bernardes. Seus poemas aparecem como questão de grande parte dos vestibulares do Brasil, como na UFRJ, UFRGS e Universidade Católica de Goiás. Integra coletâneas no México, Colômbia, Índia, Estados Unidos, Itália, Austrália e Espanha. Em Lisboa, a Quasi editou sua antologia Caixa de Sapatos - 2005. Também em Portugal a editora Quatro Estações lançou o livro Ajuda-me a chorar, em 2014.




Nesse blog:

           Carpinejar - Falando de amor 





23 de agosto de 2020

LIMITES PARA A SINCERIDADE




                           - Taís Luso 

Hoje abordo um assunto que incomoda a muitos; a sinceridade! Volta e meia surpreendo-me com inúmeras pessoas que dizem:
O que tenho de dizer digo na cara, pois sou muito sincero!”
Digo que isso não é sinceridade, isso é grossura. Na verdade eu nunca peço tamanha sinceridade a ninguém. Peço apenas uma opinião normal, e deduzo que não estou pedindo que mintam. Por vezes prefiro que essas pessoas guardem suas toneladas de sinceridade para si.
Por que alguém deveria dizer a um membro da Academia Brasileira de Letras que ele está no lugar errado, se todos sabem que ele só sairá de lá quando morrer? Existem coisas ditas que só servem para causar atritos. Nada mais. Não ajuda em nada.
Jamais se deveria chegar para alguém, que fez uma plástica, que sofreu muitas dores e dizer que o nariz anterior era melhor! Isso é de morrer, não é sinceridade! Por que dizer isso se a criatura já fez o reboliço e não tem volta? São verdades que não precisam ser ditas, é uma sinceridade desnecessária e que não passa de uma opinião pessoal. E se ela gostou do novo modelito?
Existem coisas, que temos de partir para o embate, foram longe demais, mas na maioria das vezes não é necessário. Pessoas agressivas, intolerantes, arrogantes e autoritárias nunca foram bem-aceitas num convívio em que se espera um pouquinho de harmonia.
Por falta de sensibilidade é que se formam as encrencas. Muitas palavras são arremessadas de qualquer jeito, por isso que viver é mais fácil do que conviver. Há momentos que a paz é mais valiosa do que ir para o embate sem necessidade. É como ler uma bula de remédio, pesar os riscos e os benefícios e ver o que vale a pena. Prefiro ter mais sensibilidade e reserva do que extrapolar muita sinceridade.
Mas muitas pessoas já adquiriram um certo conhecimento nessa área e usam o modo afastamento.
Relacionamentos, sejam familiares ou de amizade, sempre terão seus altos e baixos e sempre sofrerão algumas turbulências. Nesses casos o silêncio é um potente aliado. E acreditando nisso também acredito que soluções existem, simplesmente porque ainda existe gente muito especial.
Na verdade, ninguém precisa anunciar força demais na sua sinceridade para que suas palavras tenham crédito.









15 de agosto de 2020

NOITES DE INSÔNIA



                     __Taís Luso__



Não é nada trágico, mas ando enfadada com minhas noites de insônia. Com o rádio ligado, com o fone de ouvido, meu cérebro trabalha como um escravo. O silêncio  não faz diferença, o campo é mais fértil para pensar.
Um filme roda na minha cabeça sobre as últimas estatísticas da pandemia. E quem dorme com isso? Livro-me das agonias da pandemia, porém me chegam, rapidinho, notícias inquietantes desse meu país intranquilo, com seus  políticos puros, generosos e bem-intencionados! Não são; mas  gostaria que fossem.
Comerciais criativos das rádios buzinam nos meus ouvidos na tentativa de me  venderem alguma coisa nessas frias madrugadas de insônia, de preferência planos para Cremação. Também outra Funerária que diz ser a mão amiga nas horas difíceis. Caramba!!
Troco rápido de estação, mas a coisa continua: entrevistas com médicos sobre todas as doenças do mundo – de madrugada! Caio fora – subo o Dial da sintonia do rádio. Um não sei quem, desesperado, me coloca fora de órbita ao falar aos seus fiéis,  do Armagedom e dos castigos Divinos. Não me encantou. Mudo novamente de estação e paro noutra emissora com um camarada meio maluco: é um programa de futebol que reprisa, em plena madrugada, os gols do Campeonato Brasileiro de Futebol - coisa insuportável para quem não gosta de gritos. Desligo o rádio.
Pego da mesinha de cabeceira, as 200 Crônicas Escolhidas – de Rubem Braga – e me aquieto. Maravilha. Levanto, raiou o dia! Vem lá da cozinha o perfume do café – café preto, café bom, como dizia Drummond.
Lá pelo meio da manhã, ligo o computador para começar uma crônica, há dias planejada. Mas antes, abro meus e-mails… E lá estão eles, sim, os mesmos links que me enviam há 10 anos:
As 1000 músicas para você ouvir antes de morrer.
Os 1000 Sites para você clicar antes de morrer.
As 1000 cidades para você conhecer antes de morrer.
Os 1000 livros para você ler antes de morrer.
Os 1000 filmes para você assistir antes de morrer.
Os 1000 vinhos para você provar antes de morrer.
Penso que com tanta coisa para fazer em vida não vou ter tempo de morrer! Mesmo assim peço ao bom Deus uma luz para continuar a viver sem  grandes expectativas, sem grandes compromissos, sem grandes sonhos, sem essas grandezas que  atrapalham. Quando se vive uma pandemia covid 19, altamente contagiosa, o fato de continuarmos vivos é a maior de todas as grandezas. De todos os presentes.
Muitos valores já mudaram, as pequenas coisas já são vistas como grandes alegrias, é a felicidade que todos nós buscaremos.











8 de agosto de 2020

QUANDO OS HOMENS NÃO CHORAVAM...




                    ___Taís Luso___



         Numa de minhas  improdutivas noites de insônia, liguei o rádio e escutei um programa sobre a convivência familiar. Sabe-se que mulher tem uma visão periférica mais ampla, percebe as coisas em poucos lances. A mulher é  determinada no que já conhece há séculos:
'Eu posso, eu consigo, eu me estrebucho, mas eu faço!'
Está aí a mulher que abraça a causa do tamanho que for, da intensidade que tiver, mesmo tendo sua profissão paralela. No entanto, não é o que acontece com os homens quando entram no mundo doméstico, um  mundo estranho. Mas estão ótimos, aos poucos estão se entrosando nesse novo meio. Tem de haver alguma diferença, as coisas não se fazem com rapidez.
A tarefa de cuidar dos filhos, da comida, da casa, atender o telefone, campainha, gás, cachorro, compras e ainda investigar o porquê da enorme zorra do papagaio nervoso na gaiola... tudo ao mesmo tempo? Dá, mulher  consegue! Bem que quando a casa fica anarquizada aparecem umas visitinhas familiares com a língua solta e os olhos num silencioso diagnóstico:
'Pô, que bagunça, que mulher relaxada!'
Pronto, tá feito o embrulho,  aparece, apenas,  o que não foi feito. Sim, isso existe muito e irrita a profissional e também dona de casa. Acabou a empatia com a parentada.

Há anos que os homens estão tomando pé das coisas de um mundo antes dominado apenas por mulheres - a casa. E isso graças as mães modernas. Uma grande parte desse estilo de mãe parou com aquela coisa de educação antiga de que homem não sabe nada da vida doméstica; que homem não chora, tem de ser forte, engolir as lágrimas, abafar os sentimentos, tudo na dureza, sem mariquices! Assim pensavam. Crescerá um garanhão forte e belo! ETA BAGUAL!! Como diz o gaúcho da fronteira!! 
Há muito tempo que o machismo caiu por terra, não morreu ainda, mas está agonizando. Não há mais lugar para certas atitudes. Não conheço mulher que não goste de ver seu parceiro na cozinha, no fim de semana, interagindo com a família num churrasco de  carne de ovelha ou uma bela costela! Feliz da mulher que tem ao seu lado um companheiro e não um escudeiro!
se foram séculos em que homem tinha de ser bom de briga, não havia campo para levezas e sentimentalismos, assim eram educados, à moda antiga. Mulher gosta da cumplicidade que aproxima e dá ao homem uma dimensão mais familiar, mais humana na sua vida. Interagir está na moda!
Ótimo que muitas mães estão educando os filhos usando a razão e também  o coração; e  coração sorri, chora, sente e ama. Homem quando chora é porque a coisa está séria, seja no corpo ou na alma. E lágrimas num rosto viril comove,   vira  compaixão!
Deixemos, pois, nossa alma leve e que todos os sentimentos do mundo floresçam, inclusive as  lágrimas que não desciam nos rostos dos filhos que criamos.








30 de julho de 2020

POR QUE TANTA PRESSA?





               - Taís Luso 

Quando se é jovem parece que o tempo que se tem pela frente é infinito, aquela coisa do 'dá e sobra'. Sobra tempo pra se correr atrás do supérfluo, da fama, do belo, de dançar, nadar, estudar, praticar esporte, viajar para os lugares mais exóticos do planeta e conhecer gente muito diferente, tão diferente que talvez nem exista! Haja fôlego.
Porém, um dia a gente pega mais idade e encara o que a vida não esconde. Com o tempo a coisa fica diferente, mas num ponto bom, como os melhores vinhos. Não dá para nos amarrarmos à juventude eterna como se nela morasse toda a felicidade. Ela é rápida, tanto quanto a vida.
Conheci uma pessoa que ao aposentar-se entrou na onda de viajar. Claro, por que não? Tinha em mente conhecer o mundo, e lá se foi ela com uma amiga mais jovem,  com outro pique de vida. Passou um mês batendo canela pelo continente asiático, mas tudo um pouco apressado. Foi a muitos lugares, mas, na verdade, pouco viu de toda aquela beleza. Pouco desfrutou. Voltou muito cansada, não aguentou o tranco. Sua viagem deveria ter sido feita com mais calma, mais estudada e menos alucinante. A melhor viagem é aquela que traçamos dentro do nosso ritmo e do nosso gosto.
A rotina assusta muitas pessoas. A calmaria é confundida com tédio. Vejo pessoas da  Idade se mexendo como adolescentes: nadam, dançam, viajam, estudam  num ritmo pesado. Não leva muito tempo para sentirem-se demolidas, mas não desconfiam da causa. Calma, amiga! Que montanha-russa! Para onde esta gente quer ir com tanta pressa?
Com o passar do tempo deu para perceber que não quero isso pra mim, e nem aguentaria tal tranco. Quero ter calma e poder ver na rotina algo saudável, como realmente é. Não sei por que a rotina é tão mal falada; ela tem seus encantos, já é nossa velha conhecida, não há muito desgaste. 
Lembro de uma vez que fizemos uma dessas viagens estabanadas com uns amigos, fomos em três carros para a Argentina e Uruguai, ambos países ao sul do meu estado. Tudo foi muito divertido e também cansativo, um frio imenso! Teria sido uma ótima viagem se feita no nosso ritmo e mais programada. 
Também temos de pensar com quem viajar, isso é fundamental.














22 de julho de 2020

DÚVIDAS E SUPOSIÇÕES




                   - Taís Luso 
         
     Hoje, em plena pandemia do coronavírus, no ano de 2020, lembrei de uma pergunta que escutei no final do ano 2000:
Mas e o fim do mundo que não veio, hein!?”
Essa era a pergunta feita em todos os cantos. Foi mais uma das tantas profecias que encalharam. O fim do mundo seria em 2000!? Tanta expectativa, tanta gente esperando, fazendo piada com o ‘novo fim do mundo’ desacreditado. A espera virou piada no Brasil.
Mas será que alguém ficou chateado porque o mundo não acabou? Parece que não se tem nada a fazer a não ser esperar que o mundo acabe.
Escutei, na época, alguns ‘especialistas’ no assunto que disseram que um dia o planeta teria o seu fim. O dia chegará. Serão tempestades solares; o sol irá se expandir e os raios atingirão as órbitas dos planetas mais próximos, destruindo-os, mas isso daqui a 5 bilhões de anos! Ah... Cinco bilhões! Pô, fiquei muito preocupada. Mas esqueci a bobagem e pensei que, na verdade, o fim do mundo são outras coisas:
Fim do mundo é o que o Brasil gasta, há décadas, construindo obras faraônicas e absurdas com o dinheiro do nosso povo.
Fim do mundo é a corrupção, a violência e os crimes que norteiam meu país.
Fim do mundo é a crueldade praticada contra os animais no mundo inteiro, são as toneladas de lixo jogado nos rios e mares.
Fim do mundo são pais e filhos brigando por causa de partidos políticos e por ideologias políticas. Também acabam-se as amizades.
Fim do mundo é quando o povo paga altos impostos e quando mais precisa do retorno, como saúde, segurança, educação, esse retorno falha.
Mas cá estamos nós, mais vivos do que nunca. Acredito que coisas bem definidas fazem parte da natureza humana: queremos desvendar mistérios, achar respostas para todas as nossas inquietações e entender, uma vez por todas, o sentido da vida. Tudo isso porque não concordamos com a finitude.
Se fôssemos infinitos, não pensaríamos em nada, a não ser em viver. Seríamos eternamente mais felizes, não teríamos de compreender e aceitar os mistérios da morte.


22 Maio de 2020 - Pandemia coronavírus / hospital Varsóvia

O tenor polaco Leszk Swidzinski , da Ópera Real da Polônia e o grupo de médicos Medicantus, comoveram médicos e enfermeiros quando apareceram num Hospital de Varsóvia e fizeram uma interpretação de uma Ária da ópera Turandot, de Puccini.
No final disse "Vencerei". Muito comovente!!


________________________________







15 de julho de 2020

O MEDO É UMA DEFESA

TROLLTUNGA - a montanha mais temida / Noruega

             
                   
                   - Taís Luso 

Ter medo é necessário, serve como alerta às bobagens que costumamos fazer. Pessoas arriscam-se ao enfrentar o desconhecido ou dedicando-se, com mais força, aos esportes radicais. Deve ser maravilhoso esse desafio, uma dose de sei lá o quê, com uma pitada de loucura.
E pensando nisso, me veio à mente alguns medos que justificam uma perplexidade, um assombro, uma taquicardia a ser superada.
Recordo que minha primeira viajem de avião foi frustrante; só fui comer do outro lado do Atlântico; atravessei o oceano enjoada e calada. Romântico foi o fato de me ver sobre as nuvens e com o Atlântico aos meus pés, poeticamente.
Lembro do momento, antes do voo, em que a aeromoça mostrou, com muito charme, a porta de emergência, o salva-vidas e várias recomendações para qualquer problema no mar. E pensei: caracas, o que eu vim fazer aqui? Fiquei paralisada e pensei: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Não dava mais para descer do avião.
Deu medo, sim. E se o comandante falhasse? O computador, o motor, a torre, um raio Que Deus me receba em seus braços - pensei. Já estava voando.
Lá embaixo o oceano, tão lindo! Quantos poemas inspiram Mas tenho fobia, não sou amiga dos mares e oceanos, embora tenha aprendido  a nadar no mar. Mas aquela imensidão que cruza a linha do infinito me deixa desconfortável. Jamais cruzaria oceanos em transatlânticos. Mas nada contra o lindo mar, o problema está em mim.
Outros medos que mexem muito conosco, são coisas penduradas nas alturas: passarelas nos penhascos, pisos em vidros e nas alturas, pontes que balançam e que tiram a segurança. É uma sensação horrorosa de impotência, de conscientização de que não somos nada, um grão diante da natureza. E  isso mexe com toda a estrutura psíquica de gente que tem algum problema com altura. Já andei em 'Montanha Russa' em Disco Mexicano, em Roda Gigante e o charme desses brinquedos são os gritos apavorados. É a vida por um fio.
Mas o ser humano é assim, quando está numa calmaria, diz que a vida está monótona; quando entra numa 'fria', estufa o peito, grita e murcha.
E seja o que Deus quiser!

     

Observando a paisagem
Passarela na China com fundo de vidro
Piso de vidro
Limpando vidros nas alturas...





__________________//______________________






7 de julho de 2020

INFÂNCIA - DIFERENTES GERAÇÕES



         - Taís Luso 


Dizem que ser criança é uma maravilha! Depende,  estão falando de quais crianças? Da onde? Criança normal sente dor, chora, tem medo e inseguranças. Crianças  vivem no planeta Terra. Não num paraíso. Mas ser criança é muito bom quando elas não sofrem, quando são amadas e cuidadas!
Toda criança tem medo de perder os pais, eu tive esse medo;  medo que eles morressem num acidente  de avião.
Hoje, educar é mais complicado, há mais liberdade, começando pela Internet. Educar é uma missão difícil. Os pais precisam ter uma mente de  investigador. Criança não vive num mundo encantado, se assim fosse, não haveriam psicólogos. Vivem mais expostas e portanto maior é o perigo.
O que as crianças de gerações passadas tinham de melhor era uma infância real: brincadeiras na chuva, nas árvores, bonecas, bambolês, carrinhos, muitos joguinhos, livros infantis, pé no chão... A menina colocava batom e o salto alto da mãe para imitar uma linda mulher. Mas não havia nada de sensualidade, e sim a vontade de ser gente grande, trabalhar e pagar suas contas, ter sua família e liberdade. Mandar e desmandar como os adultos.  Mas tudo era sonho e a vida se fazia calmamente.
A minha infância foi aquela que dormia no embalo de historinhas do bicho-papão; do boi da cara preta; da rosa que morreu despedaçada; do cretino que atirou o pau no gato; do lobo mau que comeu não sei quem. Era tudo que fazia uma criança sonhar! Canções infantis muito carinhosas! Mas a gente gostava.  E ainda tínhamos os olhos de nossas mães arregalados para ficarmos comportados na casa dos outros. Não éramos largados e nem esquecidos.
Mas, crescemos e estamos aqui, de vento em popa, com a geração dos nossos filhos bem criados, administrando suas vidas. Missão cumprida.
Penso que hoje as crianças são mais rebeldes, principalmente nos shoppings. Sim, porque quando a criança de hoje quer QUER!! Aí entra uma conversinha na base do papo-cabeça, cheio de psicologia para não deixar traumas no anjo. Sim, hoje qualquer coisa vira trauma! Não fiquei nada traumatizada com minha educação.  Fiquei  educada. 
Nesse tempos atuais muitas crianças são criadas dentro de apartamentos, em frente a uma tela de computador ou no celular. Dormem ao som de noticiosos ou embaladas ao som de novelas com personagens psicopatas. Almoçam e jantam assistindo noticiosos mostrando violência e os pais ficam com medo de que andem nas ruas sozinhas.  A minha geração não tinha medo de sair, brincávamos  na rua à noite, de esconde-esconde.
É difícil este processo atual de educar, o mundo é outro. Mas ainda o amor, os cuidados, mesmo que excessivos, ainda são grandes aliados. Melhor pecar pelos cuidados exagerados  do que pela omissão.


Mudamos...





__________________________//_________________________