20 de agosto de 2016

JORGE LUIS BORGES - O INSTANTE





      Onde estarão os séculos, o sonho
      de espadas pelos tártaros sonhado,
      onde as fortes muralhas derrubadas,
      onde a Árvore de Adão e o outro Lenho?

      O presente está só. É a memória
      que erige o tempo. Sequência e engano,
      essa é a rotina do relógio. O ano
      é tão vazio quanto a vazia história.

      Entre a aurora e a noite há um abismo
      de agonias, de luzes, de cuidados;
      o rosto que se observa nos usados
      espelhos da noite já não é mais o mesmo.

      O hoje fugaz é tênue e é eterno;
      não haverá outro Céu nem outro Inferno.

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Jorge Luis Borges, escritor argentino, com inúmeros livros de contos, ensaios, poemas, com enorme criatividade e o estilo cerrado, quase matemático. Borges não tinha pátria espiritual. Criava fora do espaço e do tempo,  mundos imaginários e simbólicos. Borges leu tudo e, especialmente o que ninguém lia mais: os cabalistas, os gregos, alexandrinos, os filósofos da Idade Média. Perdia-se em pensamentos, trancava-se em dores e mágoas, era o próprio labirinto que tantas vezes o perseguia em suas imagens literárias.

'Vejo esse querido mundo que se deforma e se apaga...'

Jorge  Luis Borges  nasceu em Buenos Aires, em 24 de agosto de 1899, e faleceu em Genebra, em 14 de junho de 1986. Antes de falar espanhol, aprendeu com a avó paterna a língua inglesa, idioma em que fez suas primeiras leituras. Em 1914 foi com a família para a Suíça, onde completou os estudos secundários. Em 1919, nova mudança - agora para a Espanha. Lá, ligou-se ao movimento de vanguarda literária do ultraísmo. De volta à Argentina, publicou três livros de poesia na década de 1920 e, a partir da década seguinte, os contos que lhe dariam fama universal, quase sempre na revista Sur, que também editaria seus livros de ficção. Funcionário da Biblioteca Municipal Miguel Cané a partir de 1937, dela foi afastado em 1946 por Perón. Em 1955 seria nomeado diretor da Biblioteca Nacional. Em 1956, quando passou a lecionar literatura inglesa e americana na Universidade de Buenos Aires, os oftalmologistas já o tinham alertado a parar de ler e escrever. Era a cegueira, que se instalava como um lento crepúsculo. Seu imenso reconhecimento internacional começou em 1961, quando recebeu, junto com Samuel Beckett, o prêmio Formentor dos International Publishers - o primeiro de uma longa série. Suas fontes são inumeráveis. 

"Quando penso no que eu perdi, eu pergunto: Quem se conhece melhor do que o cego?   Cada pensamento se torna uma ferramenta".



O poema 'O Instante' está nesse livro:
- Jorge Luis Borges - Nova antologia pessoal, ed. Companhia das letras 2013 pag 46.









13 de agosto de 2016

UM TRISTE RELACIONAMENTO




            - Taís Luso

Pois é, existem pessoas que já nascem com cara de festa, e seguem festeiras pelo resto da vida. É o caso da minha amiga Janaína, bonita, olhos verdes e com aquele jeito de mulher que se basta.
Tudo aconteceu por volta de seus 45 anos. Lembro que seu primeiro casamento foi por amor, eu acompanhei, éramos muito amigas. Do segundo não lembro muito, estávamos um pouco distanciadas. Mas, após o primeiro casamento ela não pensava mais em compromissos sérios, queria apenas curtir a vida. Nada de amarrações.
Lembro que adorava ler Dostoiewsk, Saramago, Dürrenmatt, Faulkner... Bom gosto, tinha a guria. E sua admiração era por homens intelectuais, que curtissem cinema, teatro, artes... Mesmo assim, volta e meia saía com a gurizada. Talvez para abrandar a sua vida meio solitária.
Certo dia conheceu André: um homem inteligente e sensível, mas longe de ser um intelectual, era apenas bem informado - o que já era bom.  Seu hobby era cuidar de seu sítio, de seus animais e de suas orquídeas.  Quando um homem cuida de flores já é um indício de sensibilidade.
Desse encontro nasceu uma sólida amizade e, por parte dele, transformou-se num amor sereno e intenso: um sentimento que não exigia trocas, ele queria, apenas, estar junto e compartilhar a vida com Janaína.
O relacionamento, meio que morno, conseguiu chegar ao terceiro ano. Volta e meia ela desaparecia, inventava uma viagem - sozinha. Lembro que ela me escrevia do Exterior, contando um pouco de suas maluquices. Lembro, também, do meu esforço para não dar palpites, uma vez que eu não concordava com certas coisas. Isso nos afastou um pouco. Não que eu fosse careta, mas apenas não gostava de presenciar certas 'desordens'.
Numa tarde, nublada e fria, Janaína foi ao correio. E lá estava um rapazote que  chamou a sua atenção por ter o rosto muito parecido com o de André. Porém um rosto com expressão de dor. De súbito - contou-me -, foi tomada por uma sensação estranha. Saiu intrigada, com um certo mal-estar e com náuseas.
Chegando em casa um recado dependurado em sua porta dizia que André estava hospitalizado. Aquele papel a intrigou; quem teria dependurado aquilo? Por que não telefonaram para o seu celular? E com o coração meio descompassado dirigiu-se ao hospital. Chegou tarde; André já não estava mais presente: aos cinquenta e quatro anos seu coração desistira de viver. E não contou tempo para despedidas. Talvez, acredito, a vida lhe poupou das dores e lhe deu o direito de morrer em paz.
Fui ao encontro de Janaína. Para ela estava difícil de acreditar que André não estava mais presente; que não estaria mais presente para ler seus jornais, suas revistas e vibrar com seus filmes policiais e suas comédias-pastelão; que não estaria mais ali para continuar amando-a intensamente. Mas era tarde. Nada mais a fazer com seus sentimentos miseráveis. O que conseguiu foi entrar num processo de depressão.
Um ano se passou. Em dezembro, finalmente, ela pode visitar o túmulo de André – e, a seu pedido, fui com ela. Levou rosas vermelhas. Ajoelhou-se, e pela primeira vez sentiu que precisava conversar com ele: contou-lhe de sua solidão, de sua angústia e da saudade que estava difícil de suportar. Lembrou do pouco que André exigia; lembrou de seus jornais, de seus filmes... E lembrou que seu companheiro nunca havia feito exigências; e que também nunca fora feliz ao lado dela.
E ali, ao lado de seu túmulo - onde tudo acaba e todos se tornam iguais -, declarou o seu amor... Deu-se conta como eram verdadeiras as atitudes de André. E aprendeu com ele que amar é aceitar as diferenças, coisa da qual ela  esquecera. E deslizou sua mão sobre a fria lápide, num consternado pedido de perdão...
Mas quero esquecer daquele ano de 2010; e também de Janaína - mesmo porque seu nome nunca foi Janaína.


10 de agosto de 2016

COMO SE MORRE DE VELHICE - Cecília Meireles





Como se morre de velhice
ou de acidente ou de doença,
morro, Senhor, de indiferença.

Da indiferença deste mundo
onde o que se sente e se pensa
não tem eco, na ausência imensa.

Na ausência, areia movediça
onde se escreve igual sentença
para o que é vencido e o que vença.

Salva-me, Senhor, do horizonte
sem estímulo ou recompensa
onde o amor equivale à ofensa.

De boca amarga e de alma triste
sinto a minha própria presença
num céu de loucura suspensa.

Já não se morre de velhice
nem de acidente nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença.


 - Cecília Meireles, in 'Poemas (1957)'

Descendente pela linha materna de família açoriana de São Miguel, Cecília nasceu em 1901 no Rio de Janeiro e faleceu em 1964. Seu pai, faleceu 3 meses antes de seu nascimento aos 26 anos. Aos 3 anos Cecília perde sua mãe. A tutela ficou com sua avó. 

Com outras perdas familiares teve uma certa intimidade com a morte, onde aprendeu a relação entre o efêmero e o eterno. Apesar de tudo guardou boas recordações de sua infância. 

Seguiu toda a carreira de professora primária, mas paralelamente desenvolveu intensa atividade literária e jornalística, escrevendo nos principais jornais da imprensa carioca.

Em 1938 lançou 'Viagem', conquistando o prêmio da Academia Brasileira de Letras. Em 1965, pós-mortem, a Academia Brasileira de letras concedeu-lhe o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. 


Foram 22 livros escritos. Seu primeiro livro de poemas foi Viagem, em 1939 - o livro que a consagrou, recebendo o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras. 'Ou Isto ou Aquilo' foi a última obra que Cecília publicou em vida. Entre as duas pontas estão Solombra - 1963, , Sonhos - 1950 - 63, e Poemas de Viagens escrito entre 1940 e 1964. Porém sua obra conta em torno de 22 livros.
                                                         
Eu canto, porque o instante existe e a minha vida está completa. 

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4 de agosto de 2016

SOBRE O DESAPEGO...



- Taís Luso
Nas minhas andanças pelos canais fechados de televisão, assisti  um programa americano cujo assunto era desapego. É um alívio para o espírito quando conseguimos deixar certos entulhos pelo caminho. Muito tumulto pela estrada tira um pouco do brilho da viajem. Não que esse tipo de apego não exista há milhares de anos, mas quanto mais espiritualizadas somos, mais buscamos a paz  e menos a matéria. O bom é afastar tudo que traga dissabor à vida. É difícil essa triagem. Empregamos horas de leituras e de conversas sobre os nossos verdadeiros valores.  Passamos trabalho para acertarmos o passo.
Mil coisas obsoletas numa casa  e outras que se tornaram muito cansativas com o tempo. Os problemas vão se engatando, como círculos. E toda essa luta pelo desapego, essa tranqueira demasiada que vira vício no dia a dia, levou muitas americanas à procurarem ajuda nos centros especializados de apoio psicológico. 
Um dos maridos, desse episódio, passou mal ao separar-se do seu papagaio de infância, um bicho de madeira, quebrado, sem tinta e que nunca foi arrumado, coitado. Há anos estava  no sótão, jogado num canto. E depois de anos de abandono, tocou o coração do homem. O que houve? 
Contudo fiquei pensando no que nos move para esse apego, uma vez que em várias situações recebemos presentes que não gostamos, comprados às pressas porque a regra social pede que se leve algo à anfitriã. E tudo vira uma montanha inútil na vida da gente, transbordando as gavetas e armários, sótão etc.
Mesmo sabendo do trabalho que me espera , não deixa de ser divertido certas mudanças na vida. Adoro Decoração de Interiores, mas ando em busca de simplificar a vida e manter nossa casa aconchegante sim, mas mais prática. Não me motiva mais uma casa cheia de objetos, sejam eles antigos ou contemporâneos. Se a ideia já está na mente, é porque já foi aceita. Resta pô-la em prática, já que os filhos têm suas casas e  um dia pensarão no assunto, também.
Às vezes é difícil descartarmos os guardados, pois muita coisa entra no campo das emoções: da infância e adolescência. E trabalhar emoções não é fácil. Recordar Freud às vezes dói.
Essa triagem pode doer e no começo gerar culpa. Porém a vida mudou, mudamos de idade, mudamos de cabeça,  mudaram os estilos. Mudamos de gosto e de necessidades.
A vida tem inúmeras curvas, mas quando se entra na longa reta dos 'entas' as coisas mudam de perfil. O caminho é longo e a palavra de ordem é decidir .
 Há muito que me pergunto: por que guardar tantas coisas; por que guardar tanto, tanto? Se eu não for imparcial, não sai desapego nenhum. Se alguém for o tipo de criatura que guarda porque um dia precisará... tudo fica  impossível. O esforço é sobre-humano, pois o nosso inconsciente está de plantão nessas horas. E atrapalha sempre. O supérfluo encanta no começo, depois torra a paciência.
Há duas grandes dificuldades nesse foco: gente que guarda tranqueiras porque não consegue se desfazer do que é seu; e gente que não consegue se desgrudar do seu passado.  Uma das coisas mais difíceis na vida é  Decidir!  Mas um dia  a gente aprende.

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31 de julho de 2016

DEMASIA - Lya Luft


Pablo Picasso - Mãe e filho / 1921

                    (para as mães excessivas – Lya Luft)

         Os filhos que pari trilharam seus caminhos
     como dizem que deve ser.
     Eu não me conformei: andei em seus calcanhares,
     lancei-me em mil direções, fiquei perdida
     nessa casa vazia.
     Toda a noite espreito os velhos quartos
     para ver se as memórias dormem direito,
     se escovaram os dentes, fizeram as lições.

     Meus filhos tiveram outros,
     e eu me fragmentei ainda mais.
     No espelho não vejo ninguém:
     virei poeira de gente, soprada entre eles.
     Tanto me entranhei em suas vidas,
     que tentam limpar-se de mim
     para poderem crescer, para não serem
     meus filhos.

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Lya Luft / Para não dizer adeus - ed Record, pag 79
                                                                

Formada em Letras anglo-germânicas e com mestrados em Literatura Brasileira e Linguística Aplicada, Lya Luft trabalha desde os 20 anos como tradutora de alemão e inglês. Já verteu para o português obras de autores consagrados como Virgínia Woolf, Günter Grass, Thomas Mann e Doris Lessing, além de ter recebido o prêmio União Latina de melhor tradução técnica e científica em 2001 pela tradução de Lete: Arte e Crítica do Esquecimento, de Harald Weinrich.

Romancista, ensaísta, cronista e poeta, deixo aqui alguns de seus livros. Lya nasceu em Santa Cruz do Sul, em setembro de 1938 - RS.
As Parceiras / 1981 – A Asa Esquerda do Anjo / 1981 - O Ponto Cego / 1999 - Reunião de família / 1982 - O Quarto Fechado / 1984 - Mulher no Palco / 1984 - O Rio do Meio 1996 – Mar de Dentro / 2002 - Perdas e Ganhos / 2003 – Histórias do Tempo / 2000 - Pensar é Transgredir / 2004 - Histórias da Bruxa Boa / 2004. Atualmente escreve uma coluna na Revista Veja. 

"É natural ter várias possibilidades de expressão, como um pintor emprega aquarela, óleo, acrílico, esculpindo ou desenhando. A gente abre portas, espia, apanha e usa o que ajuda a ver melhor". 





26 de julho de 2016

NÃO QUERO MAIS FLORES...





                       - Taís Luso

Ao receber flores, sou tomada por dois sentimentos: no início, por alegria e emoção; e após 7 dias, por uma melancolia. Sei que é esquisito, mas não há contradição – explico.
Na semana passada veio ter comigo uma amiga muito querida e trouxe-me um delicado arranjo de flores, acompanhado de um cartãozinho, o que sempre dá um nó na garganta, pelo carinho do conteúdo. Não era comemoração de nada, mais do que isso: carinho.
Porém, fui observando bem de perto, que na metade da semana, minhas flores rumavam para o fim: cada dia apareciam pétalas e folhas mortas ao lado do cachepô, enquanto outras se mostravam murchas, perdendo o viço, perdendo o esplendor, a cor.
Naturalmente chamaram a atenção durante os primeiros dias, mas depois… ninguém mais olhava. Estavam lá, solitárias, mas ainda de pé, por imposição, e cercadas por um tempo que não existia mais, numa dimensão onde tudo acaba.
Sim, essas flores arrancadas da natureza cumprem sua missão: despertam emoções e chamam atenção, enquanto jovens e belas.
Fui acompanhando a trajetória das minhas flores até o final. E hoje tudo acabou, deixando no lugar em que estavam, um pensamento amargo quando eu as olhava. Pensei nas flores; pensei em vida. Como tudo na natureza.
Tirei-as do cachepô onde estavam, e as embrulhei num papel, como se fosse uma despedida. Guardei algumas pétalas entre as páginas do poema de Cecília Meireles - “Como se Morre de Velhice...” - destaco o 3º verso:

                       "Da indiferença deste mundo
                                    onde o que se sente e se pensa
                                    não tem eco, na ausência imensa."

Meus pais morreram, morreram parentes, meus bichinhos morreram e minhas flores também morreram. Tudo muito dolorido.
Porém, ninguém se importa quando as flores morrem.
Elas não choram.

Gosto delas na natureza...


21 de julho de 2016

ALMOÇO NO RESTAURANTE JAPONÊS



Taís Luso

Sempre tive paixão por comida chinesa, desde criança. Adoro seu tempero apimentado e o tal agridoce em peixes cozidos. Mas nunca tive a mesma paixão pela cozinha japonesa devido aos peixes crus e frutos do mar, que não sou chegada.
Gaúcha, fui criada com boi na mesa! Costela, picanha, espetinhos com vários tipos de carne. E muita salada como acompanhamento. Hoje não como mais carne vermelha, apenas peixe – e olha lá, muito pouco. Estou mais para vegetariana. Mas nada fanático...
Passei anos a fio rejeitando peixe, principalmente cru, mesmo sabendo ser saudável, o que a carne vermelha não é. 
Mas hoje decidimos, eu e Pedro, visitar um restaurante novo no nosso bairro. E resolvemos enfrentar um Sushi e depois Salmão cru recheado etc e tal. Restaurante cheio, bem frequentado. Levei fé.
Mas o que me intrigou, foi Pedro dizer que seria uma experiência válida, mas que ficaria só nessa experiência, não repetiria a dose.

Ué!! Você nem comeu e já está fazendo o prognóstico? - perguntei.
Eu sei que não vou gostar.
Por quê? Podemos gostar!
Sei que não. Peixe cru não me desce. Não dá.

Veio o rango; olhei… apresentação bonita. Peguei os pauzinhos e fui… Era um prato de salmão recheado de temperinhos e petiscos, todo enrolado. Suco de laranja com folhinha de hortelã numa taça alta, bonita. Não morri de amores pelos peixes, mas acho que gostei, de leve. Tudo bem temperado, decorado, japonês adora florzinha na comida, começa a comer com o espírito. 
Pedro comeu um rolinho de salmão e ficou pior do que cachorro em canoa; comeu o segundo e ficou olhando pra baixo, concentrado, parecia um monge em reflexão. Quando levantou a cabeça, disse:

Pra mim deu!
Ops, como assim? Tá toda a comida na mesa!
Vai me dá um troço.
Então só um minuto, vou acabar de comer…

Fui rápida, não sabia se comia ou ria, mas achei melhor não arriscar mais, o homem estava pálido. E eu já tinha comido o suficiente pra não desmaiar de fome. Tomei o suco e levantamos acampamento.
Era uma vez um restaurante Japonês...
Talvez esquecendo os peixes crus e tentando um Yakissoba, pela primavera... Mas duvido.





15 de julho de 2016

O CHAMADO - POEMA DE PEDRO ESCOSTEGUY


Psicodrama - 1965 / Pedro Escosteguy


                       O CHAMADO 
              
               Carpinteiros
               pedreiros
               médicos
               marinheiros
               também tu,
               coveiro,
               temos trabalho!

               Conclamam-nos
               para refazer
               a obra desfeita
               a estrada desfeita
               a consciência desfeita.

               Vinde de todos os lados,
               artífices,
               semeadores,
               tratoristas
               também tu,
               homem de mão no bolso.

               É preciso debater-se
               em todos os detalhes
               as razões pelas quais
               a obra está desfeita
               a estrada desfeita
               a consciência desfeita,
               para que tudo
               não aconteça de novo.

               Acorrei com vossos instrumentos
               preferidos
               com vossas reservas de entusiasmo
               com o braço disponível,
               sem ódio, sim,
               sem ódio.

               Porque a reconstrução da obra desfeita,
               da estrada desfeita,
               da consciência desfeita
               é trabalho de amor.
               E sobre os escombros
               o tom da rosa é amarelo.


(Canto à Beira do Tempo - Pedro Geraldo)

Pedro Geraldo Escosteguy nasceu em Santana do Livramento/RS - Brasil, no ano de 1916. Em 1938, já morando em Porto Alegre, concluiu o curso da Faculdade de Medicina da Universidade do Rio Grande do Sul, com especialização em Gastroenterologia. Paralelamente à medicina iniciou-se na poesia, migrou para o conto, ingressou nas artes plásticas.
Escosteguy publicou seus primeiros livros de poemas no início da década de 50, quando o grupo a que pertencia, o Quixote, pontificava na vida cultural porto-alegrense. Seu último livro de poemas foi lançado em 1988, um ano antes de sua morte, ocorrida em 1989. 
Como pintor, participou da Vanguarda que, no Rio de Janeiro, revolucionava as artes plásticas brasileiras; como escritor, inventou os anticontos da revista Artista multifacetado. Pedro Escosteguy foi também um animador cultural.  Na década de 50, junto com os companheiros do Grupo Quixote, organizou o Primeiro Festival Brasileiro de poesia e promoveu happenings como a Mostra Popular de Poesia Ilustrada e o Volante de Poesia - eventos que transcorriam nas praças de Porto Alegre. Difícil definir esse intelectual de tantas faces, homem ativo, generoso e delicado, a quem tanto deve a literatura de nosso Estado.
Criou uma obra própria de cunho vanguardista - veiculando através das palavras, pensamentos e imagens uma interação entre a sensibilidade e a necessidade de um posicionamento crítico.
(Poesia Reunida - LPM )


- Em 14 de Julho de 2016 foi comemorado em Porto Alegre, no Instituto Ling, os 100 anos de seu nascimento. Mais sobre Pedro Escosteguy e suas obras no  DAS ARTES.


Clique +
 
 Soraya Bragança 
- PUCRS


  
   Poesias Reunidas 
    ed 1996 - LPM




8 de julho de 2016

POEMA PEDRA FILOSOFAL - de António Gedeão


Maravilhosa   interpretação  de  MANUEL FREIRE  -  Emociona!


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e ouro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.


Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma. é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.


Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
para-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra som, televisão
desembarque em foguetão
na superfície lunar.



Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos duma criança.


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Oficialmente chama-se Rómulo Vasco da Gama Carvalho. Literariamente usava António Gedeão. Nasceu em Lisboa, em 24 de novembro de 1906. Formado em Ciências Físico-Químicas pela Universidade do Porto, onde as ensinou durante 40 anos nos liceus de Camões, em Pedro Nunes, em Lisboa e no D. João III em Coimbra. Publicou seis livros de poesia: Movimento Perpétuo / 1956 – Teatro do Mundo / 1958 – Máquina de Fogo / 1967 – Poemas Póstumos / 1983 e 1984 2ªed. - Novos poemas Póstumos / 1990. Publicou peças para o teatro e um livro de Ficção, A Poltrona e outras Novelas.

Herdou de sua mãe o gosto por ler. Começou a fazer versos ainda pequenino, nos primeiros cinco anos, segundo ele, com a mesma irresponsabilidade com que lhe cresciam os dentes. A conscientização veio bem mais tarde. Publicou seu primeiro livro com 50 anos (Movimento Perpétuo).
"Tudo é efêmero mas observo que muitos poetas, meus contemporâneos, lutam ansiosamente pela sua imortalidade, torturando-se com artifícios especiosos que os levam a enfileirar palavras, muitas vezes sem sentido, ou buscando aspectos gráficos de modo inabitual e chocante".
Diz ainda:
"O poema está dispensado de respeitar qualquer obrigação de ritmo, de rima ou de métrica, o que permite que toda a gente escreva".


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Ref: Palavra de Poeta / Portugal pg 15 – Denira Rozário / Civilização Brasileira, 1994.