14 de janeiro de 2019

AMIGOS PARA SEMPRE




- Taís Luso
           Quando vamos às cidades da Serra Gaúcha, amamos a delicadeza e a educação do povo nas ruas, nas faixas de segurança para atravessarmos. Há sempre um simpático Bom Dia em todos os lugares. Acho que o pessoal tem tempo de ser educado. Como sou da capital,  esse ‘detalhe’, dos que moram no interior,  me encanta.
Nos dias em que passamos na Serra,  almoçávamos muitas vezes num restaurante cuja comida era deliciosa. Havia uma turminha que  sentava sempre na mesma mesa: eram 6 homens. Deveriam ter entre 70 e 80 anos,  com vigor e disposição, uns de origem alemã e outros de origem italiana. Assim é toda nossa Serra, no norte do Estado, colonizada pelos italianos e alemães – no sul do país.
Na medida em que a turma ia chegando davam um O festivo e se acomodavam na mesa. E naquela mesa rolavam os mais diversos assuntos da semana. Menos doença! Homens não falam de suas doenças. 
Achei tão linda aquela integração que uma crônica foi se  formando na minha cabeça. Mas o meu problema eram as fotos! Como ser discreta? Uns ficavam de frente para nossa mesa. Eu queria tanto marcar aquele encontro! Soube que eles se encontravam ali há três anos! Fosse com o celular ou máquina, eu teria de levantar e pegar o ângulo todo. Tentei fotografar sentada, com muita discrição, mas não deu em nada. Fotografei a mesa, o balcão, o assoalho, a porta menos as criaturas. Sim, eu estava nervosa, aquela coisa quando se faz algo escondido, né?
Porém, a finalidade deste texto é poder contar o tanto que esse encontro era saudável e fazia bem àquela turminha. Sem queixumes, sem tristezas e todos integrados na reunião-almoço, um antídoto contra a depressão e a solidão.
Ninguém é feliz sozinho: ter amigos é necessário em qualquer idade: são eles que nos aconselham; são eles que nos fazem sorrir, são eles que nos consolam. E amigo a gente escolhe!
Que vivam assim por longos anos. Que dividam suas tristezas e multipliquem suas alegrias. Um dia desses, quero rever a turminha, quero sentir que estão vivendo e lembrar que em qualquer idade a gente pode negociar com a felicidade.
Foi bom eu ter adestrado o meu olhar para ver certas coisas com mais otimismo; de ver que nosso aprendizado só termina quando a vida terminar.

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7 de janeiro de 2019

AS CASAS E SEUS MORADORES






- Taís Luso de Carvalho


Na medida em que vou mudando de idade, as reflexões vão aumentando. Para algumas coisas haverão de servir. Caminhando pelo meu bairro, vou olhando para as casas. Adoro olhar para as sacadas e os jardins floridos, penso nos seus habitantes e, conforme a exuberância das flores, imagino gente muito feliz. Quanto mais flores, mais felicidade! Será? Não; não procede essa minha conclusão sonhadora. Entre as  flores, há muitos espinhos. E são nessas caminhadas que penso como é bom levar uma vida normal, ser um feliz anônimo e poder observar e viver um cotidiano que nos é agradável - comparando com celebridades altamente expostas. Mas isso é questão de gosto e de disposição.

Nessas minhas caminhadas, há uma casa que me espanta, que me aflige. Tem apenas um morador, dizem que  tem por volta de 60 anos, e raramente é visto.
A casa dá medo por parecer abandonada há muitos anos. Com altas grades, não bate sol, é coberta por árvores e centenas de folhas mortas pelo chão. Nunca a vi aberta. Poderia ser muito bonita, mas é feia, sem cuidados, e com um carro velho, enferrujado e sujo, que há anos não sai da garagem. Apenas  uma  janela lateral, no andar de cima,  é que avisa ter morador. Todos os dias essa casa faz parte do meu trajeto; tenho de passar por ela, e olhar se o homem abriu a janela!  Gostaria de ver o tal  homem. Talvez num dia de sorte! Mas por que quero ver o habitante dessa casa -  perguntariam  alguns. Porque o homem dessa casa é muito falado no bairro, e sem ser conhecido.

Num outro edifício, uma velhinha bate ponto, sempre na mesma janela; fica lá, olhando a rua. Faço um aceno caloroso  pra ela. Acho que viramos amigas. Sua vida se resume naquela janela.

No mesmo edifício, no andar de cima, a vida se mostra mais ativa: a faxineira se estica e se retorce para limpar o canto da janela – se despencar de lá, já era... Mais adiante, um edifício todo gradeado e com cerca elétrica mostra os sinais de tempos violentos. Outra sacada, sem tela, um gatinho na marquise, tomando sol, chamou minha atenção: como não se atira de lá? Pois é, coisas tão simples chamam minha atenção. E fiquei pensando o jeito que vemos as coisas simples. Talvez a velhinha seria mais valorizada pela sociedade se saltasse de paraquedas; se o gato tivesse uma cabeça de rato, seria manchete de jornal; se a faxineira caísse da janela e se esfacelasse, ou se o homem esquisito fosse um criminoso procurado pela Interpol virariam assunto da 'pesada'. Contudo, vou caminhando, olhando e pensando nas cidades, na vida complicada das pessoas que, queiram ou não, são a mola para  romances, contos, crônicas e poemas.
Gostaria de escrever sobre a vida do homem esquisito, mas creio que acabaria o mistério  do bairro, e as minhas caminhadas como detetive não aconteceriam mais.


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30 de dezembro de 2018

POBRE DA MONA LISA …


Mona Lisa 77 cm X 53 cm / Leonardo da Vinci - 1503 a 1506 - Louvre 



       - Taís Luso


     Encontrei  com uma 'conhecida' que estava de malas prontas para Paris, em férias.  Como já estive lá, falei em alguns pontos obrigatórios a ser visitado. E o primeiro foi o Louvre, claro. Falei de belíssimas obras de arte e disse-lhe que não deixasse de ver Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, a obra mais conhecida de todos os tempos. A popularização máxima, em escala mundial, de uma obra de arte.
A criatura não era muito ligada às artes, e por isso quis ajudá-la - meti o bedelho - coisa que não aconselho  ninguém a fazer. Falei de algumas obras lá expostas e blábláblá - o que notei pouco entusiasmo. Logo notei que estava falando para as paredes lá do restaurante, onde a encontrei. Não mostrava-se nada interessada em arte, pintores, movimentos, coisa e tal. Mas achei ótimo quando me disse que já tinha visto ‘a tal Mona Lisa’ em documentários.
Ao regressar de Paris, nos encontramos no mesmo restaurante do bairro, e aproveitou para contar-me suas experiências. Perguntei-lhe se tinha gostado do Louvre, e quais as obras que mais a impressionou. E, em especial, o que achou da Mona Lisa, de seu sorriso enigmático...
- Mona Lisa?? Virgem... Não sei como tem gente que fica louca por aquele 3 x 4!!
- Cumequié?
- É... Cheguei lá, à procura de um grande quadro, à altura da fama, e não encontrava. Então fui onde estava um aglomerado de gente e lá estava ela, bem menor do que eu imaginava! E muito gordinha... Fofa.
- Péra... Gordinha, fofa? Quem gordinha?
- A Mona Lisa, Taís!
- Ahhhh?! A Mona Lisa, gordinha, fofa... Sim, agora entendi! Mas você queria que Da Vinci tivesse pintado a Gisele Bündchen em 1503?
Fiquei tão decepcionada e meio abobalhada que inventei uma desculpa para sair logo, encerrar o papo que me desencantou. Pobre da Mona Lisa...
Mas, contra absurdos não há perguntas e nem  explicações. Melhor dar o fora. Desci as escadas e fui respirar no parque.

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Um pouco sobre Mona Lisa: No meu blog Das Artes  - 




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Um Feliz 2019 para todos os  queridos amigos!
 <  Juntos em 2019  >







14 de dezembro de 2018

NATAL... SAUDADES




      - Taís Luso
     Na medida em que fui amadurecendo, as ilusões e o encanto foram perdendo  espaço, só pareciam reais na idade da inocência. Mas, ainda consigo sustentar minhas doces lembranças, o que me garante uma noite feliz, embora sem muitas  emoções. 

Na minha infância sempre fui meio invocada com um grande armário fechado que havia na garagem da nossa casa.  Chegou um dia que eu transgredi, tinha de ver o que havia dentro daquele estranho armário de largas portas. Por que o ano inteiro trancado? Peguei uma chave de fenda e, com astúcia de mestre, consegui abrir as portas - isso aconteceu lá pelos meus 8 anos.
Consegui abrir a primeira porta: só cacarecos! Mas minha mãe não trancaria três  portas para esconder cacarecos! Parti para a segunda porta e dei de cara com as bolas, guirlandas, laços, fitas e  penduricalhos de nossa árvore de Natal. Ah, que saudades!!
Mesmo eu sabendo que estava fazendo algo de errado, não parei, fui na terceira porta, e aconteceu o inesperado!! Dei de cara com uma roupa vermelha, longa barba branca, cinto e botas. Estava ali a minha inocência, minha infância, a ilusão mais querida. Um nó na garganta e uma lágrima teimosa se misturaram a uma terrível decepção... Fechei a porta deixando lá dentro todo o meu desencanto. Começou ali minha intimidade com a mentira do mundo em que eu vivia.
Por quê? Foi triste a ideia de arrombar aquele armário que guardava uma imagem de amor, de ternura e de bondade! Com o tempo eu entendi a intenção de meus pais de me pouparem de um mundo de hostilidades, de prolongar minha infância, de me darem lindos sonhos. Foi-se meu Papai Noel. Ali, naquele momento, tive a sensação real de ficar despojada de sonhos. Tive ali uma pequena mostra do mundo que me esperava.  Não gostei da minha descoberta  prematura. Foi tão triste! 
Peguei a roupa vermelha, o cinto, as botas, a barba e deixei tudo em cima da cama de meus pais, com um bilhetinho:
'Mãe, daqui pra frente eu não quero mais  Papai-Noel ! '
Meus pais quiseram  conversar, mas eu não quis ouvir nada; eu acabara de destruir a mais  querida das ilusões! Saí de onde estava e fui para meu quarto chorar. Foi dura aquela descoberta. Depois daquele Natal, passei a sair com minha mãe para comprarmos os presentes da família. Era muito divertido, mas um outro Natal, consciente, comercial.  Nossa dupla funcionou por décadas, até o dia em que eu a perdi... Sinto muito sua falta,   a criança que nela habitava nessa época era muito feliz.
Hoje, eu sei que a magia do Natal é apenas um sonho, um toque no coração, uma vontade enorme de ver a humanidade feliz. Se isso for ilusão, que seja, faz bem ao nosso espírito, ora carente, ora alegre e com  uma vontade enorme de sair pulando para fazer algum bem aos outros. Por isso, os sentimentos mais fortes dos meus Natais  se resumem na palavra saudade

Naquela época parecia que o mundo tinha mais amor, mais solidariedade. Havia a Missa do Galo à meia-noite. Hoje, penso como adulta,  justamente pelo dia seguinte, quando  tudo volta ao normal. Mas quando vou dormir, dou boa noite à criança que ainda mora em mim. E que por anos  pôde sonhar.



Desejo  Boas Festas aos meus queridos amigos, que tenham muitas alegrias e muita  paz. A todos vocês, meu muito obrigada pelo carinho da convivência nesse ano que está chegando ao fim. 
Até breve! 
Beijos 
💚



1 de dezembro de 2018

CRÍTICAS?




- por Tais Luso

Se existe alguma coisa não bem-vinda no meio em que vivemos, são os críticos de plantão. Como gostam de baixar o sarrafo! Possuem uma crítica ferina, lançam suas verdades e muitas vezes sem embasamento algum. Esses, se acham no direito de falarem  tudo o que pensam, pouco importando o constrangimento e sacrifício dos outros. Ver a arrogância de perto é muito irritante. Não falo em conselho de amigo, isso é outra coisa. Isso eu até peço.
Esta desgraça de criticar tudo o que os outros constroem em nome de uma crítica 'construtiva', é lamentável. Deve ser maravilhoso colocar uma criatura pra baixo do tapete e pisar em cima para que ela se ‘reinvente’!  Oxalá!! Benzadeus.
Pois bem... Postei, no meu Blog Das Artes, a segunda parte do meu texto sobre Portinari, os momentos finais de sua vida.  Mostro a amargura de um homem, de um gênio diante das críticas; a tristeza de um homem que tinha amor por pintar sua pátria e sua gente. Não incomodava ninguém com o seu trabalho (ou incomodava?). Era admirado e querido, mas acabou entristecido. A crítica chamada de 'profissional' e os novatos que trilharam o caminho aberto por Portinari diziam que o artista estaria ultrapassado, era a 'hora' do abstracionismo. Muitos queriam que ele mudasse seu estilo, sua pintura. E não mudou. Mas ficou amargurado.
Muito difícil conviver com gente que se coça para atrapalhar a vida dos outros.  Vão chegando de mansinho para anarquizar o meio de campo. É estressante. Esses críticos desmontam - numa bicada - o que muitas pessoas levam anos para construírem.
Quantos relacionamentos não se acabam; quantos empregos não se perdem; quantas amizades não se desfazem; quantos relacionamentos familiares vão pro brejo; quantos dos nossos sonhos não alçam voo por críticas sem fundamento  desses reformadores do mundo?  Críticos, oh críticos...
Peguem no batente, gente, pintem uma obra de arte digna de ficar na história; escrevam um poema de primeira linha, um romance digno de ser lido, um conto, uma crônica; naveguem com Amyr Klink numa noite de tempestade; subam o Everest num dia de inverno; escrevam-se na Fórmula Indy... E vão! Larguem do pé dos outros.
O mundo não precisa de críticos; precisa é de mais tolerância, mais solidariedade, mais amor. E está passando da hora desse  mundo viver em paz. E poder sonhar.

Tema de Lara / Fernando Lopez
Maravilha!

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22 de novembro de 2018

DO PRIMEIRO CELULAR AO SMARTPHONE





       - Taís Luso
Do primeiro celular a gente nunca esquece: falo do tijolão preto quando chegou no Brasil! Lembro como se fosse o primeiro dinossauro. Causou uma revolução em nossos costumes. Mas era apenas um telefone - falar e ouvir. E foi fantástico. Lembro da minha euforia. Quando me desfiz do primeiro, para tornar-me vítima do consumismo, fiquei com o coração apertado. Sou sentimental, tenho carinho pelos elos que vão ficando para trás. E o 'pretinho básico' ficou esquecido. Foi um susto ao ver as pessoas falando nas calçadas. Gesticulavam igual a nossa Elis Regina ao cantar 'Arrastão'. Muito esquisito, eu parava na rua para olhar, e jurei não entrar naquela  onda louca. Não adiantou.
Na época, eu pensei que aquele estardalhaço pelas ruas, com o aparelho no ouvido, seria coisa passageira, logo as pessoas entrariam no equilíbrio. Mas não; piorou. Sem cerimônia entramos na vida dos outros, nas conversas de família, nas doenças, nas brigas. E não se respeita mais hospitais, clínicas, elevadores, lojas... O tranco é o mesmo. Um berreiro. E assim seguiremos, já acostumamos a compartilhar toda a nossa vulnerabilidade em lugar público. Compartilhamos o que somos e o que gostaríamos de ser. Uma mistura  surreal contemporânea, massificada. Um novo movimento. Não se sabe onde fica a linha divisória da razão. Existe o vício. Vi uma menina tuitando e rindo no cantinho de um velório. Senti vontade de lhe chamar a atenção:
'Hei, menina, isso aqui é sentimento, é dor é coisa séria!'.
Resolvi ficar quieta e engolir os absurdos do século. Atualmente estamos com o que há de mais moderno. Enormes filas se formam à espera de mais um 'trocinho' moderno. Natal chegou! 
Estou sentido que não levará muito para acabarem com teclados, mouses, e a sensação gostosa de sentar numa mesa e escrever em silêncio. Contar nossas vivências, nossas histórias, nossa poesia. Não é difícil de entender esse vínculo que criamos de interação  em torno da escrita. E poderíamos dizer que é um mundo de afetos, formamos uma roda de amigos. Mas já ouvi falar em escrita por  'comando de voz'. Um desencanto! 
O mundo virtual está engolindo o mundo real nas lojas e Bancos. Não gosto.
Há uma ânsia em se comunicar, alegrias e tristezas a compartilhar. Será que nossa cruz fica mais leve de carregar? Os filhos não querem saber de papo familiar, vão direto ao Facebook e lá tiram suas dúvidas com centenas de amigos.
Só o futuro dirá algo sobre isso.




12 de novembro de 2018

NOSSOS VIZINHOS






    - Taís Luso


Não se trata do filme de Alfred Hitchcock, mas das janelas dos nossos vizinhos: dos meus, ou dos seus, quem sabe. Todos temos vizinhos, e cada um com um currículo diferente. Alguns, com histórias escandalosas, outras, muito hilárias.
Conheci, há uns anos, uma vizinha chamada Eunice, morava a dois prédios do meu, portanto vizinha de quadra. De vez em quando nos encontrávamos no bairro e conversávamos um pouquinho sobre amenidades. Nossos pais se conheciam, daí nasceram as conversinhas. Fui ao seu apartamento buscar um livro de artes, que ela fazia questão de me presentear antes de mudar-se do bairro.
De volta para casa passei pelo seu apartamento, era a hora em que ela estaria em casa. Eram 19:00 hs, já noite. E entre uma conversinha e outra, notei que ela espiava muito pela janela,  fiquei um pouco intrigada com sua atitude. Mas logo ela se entregou, contou-me que, da janela dela, avistava a vizinha que morava embaixo de seu apartamento: a 'Martha Rocha'. Eu não conseguia entender como ela conseguia enxergar alguém que morava embaixo do seu apartamento. Somente se dependurando de cabeça para baixo! Então foi quando me chamou e perguntou-me se eu não estava avistando a Marta Rocha!?
Aproximei-me da  janela: procurei pela Martha Rocha, a  famosa Miss Brasil que perdeu de ser Miss Universo por 2 polegadas! Fiquei muito curiosa para vê-la. Fiz um esforço de cão, e nada de achar a mulher! Então ela apontou para uma janela do edifício ao lado, e disse-me: ‘olhe para aquele vidro da frente, olhe ali ela sentada!!’ Sim, refletia o andar abaixo do dela! Meu Deus, entendi!  E pensei: cruzes, onde vim parar?!
Falou-me da solidão da Martha, da comida da Martha, dos cabelos da Martha... Fiquei com muita pena da nossa eterna miss. Mas, deixei que a maluca me contasse tudo.
Contou-me as coisas olhando para a janela. Realmente achei a nossa Miss Brasil muito decaída, fiquei com pena. Magrinha, a pobrezinha, mas ainda com aquela vasta cabeleira loira, tão conhecida. Só não conseguia entender o porquê da Martha Rocha morar aqui em Porto Alegre tendo tantos amigos da sua época no Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo...Sua vida sempre foi lá. Então veio o inusitado:
Tais, ela não é a ex Miss Brasil; eu lhe chamo assim porque ela usa o cabelão da  Martha Rocha!
Consegui entender tudo: a mulher era louca. Feito isso, chamou minha atenção para a outra janela querendo me contar a história do outro vizinho esquisito, que comia pizza, diariamente, e que a pediu em casamento... Mas ela não gostava de pizza...! E dei um sorriso, fui discreta. E começou a contar...
- NÃO!! Preciso passar no supermercado, fica pra outro dia, querida!
Deu-me um nervoso. A mulher tinha mais janelas e mais histórias! Dei um jeito de sair logo, e na pressa esqueci o livro em cima do sofá.
Outro encontro? Nem morta.




4 de novembro de 2018

APENAS UM AMIGO...



          - Taís Luso    (conto)

Mais uma madrugada e mais outro amanhecer, sempre o mesmo ritual: a noite despedia-se enquanto surgia a tímida luminosidade do amanhecer.

Mariana permanecia no sótão da casa entre telas e pincéis. Ali em seu atelier, ela dava vazão às suas emoções, colocando em cada pincelada um pouco de seu espírito, por vezes melancólico e solitário. Os suaves e disciplinados acordes uniam-se em melodias que lhe tocavam o coração: as Ave-Marias de Gounod, de Shubert, de Donati...

Não demorou muito para que ela largasse as telas e desse descanso aos pincéis. Já cansada, debruçou sua cabeça sobre a mesa e passou a refletir sobre sua vida, seus encantos e desencantos, seus afetos, seus amigos, sua família.

Simpatizante da filosofia budista questionava-se, também, sobre a reencarnação e outros tantos caminhos. Mas até aquele momento não chegara a um consenso. Ao mesmo tempo em que estava sintonizada com a estética, estava em dissonância com seus valores e com sua espiritualidade.
E ali viu-se só.

A música inundava o atelier amenizando sua solidão. As tintas e os pincéis, antes deixados de lado, agora testemunhavam os abafados soluços de Mariana. O tempo foi cumprindo o seu percurso até que Mariana levantou a cabeça como se estivesse emergindo de profundezas. E fixou, ao acaso, seu olhar num quadro esquecido, dependurado e coberto num canto do atelier, quase diante de sua mesa, ao lado de objetos insignificantes.

Com curiosidade, levantou-se e removeu um pano que encobria o quadro que havia pintado há muitos anos. Um pouco surpresa, ficou a olhar aquele rosto de expressão suave, olhos cheios de ternura e os cabelos castanhos caindo sobre o belo rosto, numa suave harmonia.

Voltou à mesa e dali ficou a observar aquela expressão tão singular: um olhar que não recriminava e lábios que não acusavam. Talvez ela tivesse descoberto, em algum recanto de sua alma, sentimentos de generosidade e complacência. E pintara um retrato comprometido com esses sentimentos e com suas carências.

Já menos amargurada, levantou-se e substituiu a música: colocou “Chanson d’enfance” e enterneceu-se como se buscasse um afago; queria sentir apenas a alegria do momento, e ter uma paz que não oscilasse. E assim ficou por bom tempo, recostada no sofá, deixando-se conduzir pelos suaves acordes.

Mais tarde aproximou-se do quadro e fixou seus olhos na pintura:

- E agora Amigo? Estamos aqui sozinhos, frente a frente... Mas nada ouso Te pedir, guardo na memória a tua Via-Sacra... Mas procuro apenas alguém que me escute, que retorne comigo à infância, e que compartilhe de meus projetos; ainda que pequenos projetos; e que na solidão de minhas madrugadas esteja presente...

Sinuoso, o sol invadiu o atelier deixando uma sensação de conforto. Mariana caminhou em direção ao quadro, beijou o meigo rosto e encostou a porta...
- Até amanhã.


Ave Maria / Gounod

29 de outubro de 2018

A VELHICE




             - Tais Luso de Carvalho

      Ontem à tarde, assentei meus olhos em uns escritos sobre a velhice, de Marco Túlio Cícero, filósofo de escrita elegante. Mas, encontrei algumas coisas com ímpetos um pouco patéticos, muito comoventes em relação aos velhos e à morte. Foi um tanto desconfortável, e fiquei a refletir.
Confesso que algumas coisas me abateram, é difícil admitir que a perspectiva de morrer seja natural para os velhos. Não por acreditar na nossa perpetuação, somos finitos, mas por ter a consciência de como e em que circunstâncias os velhos se aproximam do fim. Nenhum velho desapega-se da vida de uma maneira natural, aceitando conformado o que lhe é arrancado com brutalidade. Eles calam, silenciam, encobrem. Mas eles pensam, sentem e, quando a sós, choram... E isso é tenebroso de vermos.
Enquanto estiver existindo lucidez, existirá o instinto de conservação, o apego à vida. A esperança.
Não contradigo, no entanto, que os velhos não possam perceber a morte, porém não com resignação, mesmo acreditando-se que possa existir outra vida.
Fiquei algum tempo a pensar na morte, o que não me foi nada agradável, pois sou uma pessoa alegre e otimista. Mas isso se deu pelas minhas primeiras perdas, já que nunca tinha me deparado com tal sentimento, com esta situação dilacerante da perda de alguém tão próximo. E aos poucos.
Penso que o ato de morrer deveria vir como um presente, como uma dádiva D'Ele, sem sofrimento e sem dor, tanto para os que vão, como para os que ficam. Até como recompensa por nossos velhinhos terem sido corajosos, por terem trilhado caminhos difíceis ou vivido, alguns, numa festança quiçá equivocada. Seria um ato de misericórdia. Sei que estou sendo utópica, mas se assim fosse, amenizaria um pouco nosso sofrimento.
Ver e sentir tal dor de perto e achá-la natural não existe, o que existe é um conformismo. Acredito nisso. E surgem as perguntas - algumas já conhecidas. E nenhuma resposta.
O ser humano sempre precisou acreditar na perpetuação da vida através do espírito. Não importando o caminho. Confesso que eu ainda não sei de nada, até gostaria de acreditar em muitas coisas. Desde sempre o homem procurou acreditar em um Deus. Ter fé é como ter um coringa; é sorte e um privilégio.
Os homens sempre foram em busca de um Deus, seja em Cristo ou venerando o Sol, a Lua, como no princípio da vida, ainda nas cavernas. Enfim, o homem sempre acreditou em vários elementos onde um ser superior pudesse ser representado com grandeza e perfeição para atenuar nosso morrer ou nossa 'passagem'.
Porém, se ao ter lido aquele trecho de Cícero fiquei com uma sensação desconfortável, mais tarde recuperei-me com a paz e a doçura de Gilberto Freire quando diz:
"Venha doce morte... Não, a morte não é doce, mas peço a amarga morte que ela venha docemente..."
Seria um sonho se assim fosse: tanto para os que têm fé como para outros que ainda buscam encontrar a sua paz.
Espero, no entanto, quando meu dia chegar, quando meu olhar tiver o brilho opaco da despedida, que eu tenha a doce ilusão de que a morte não me venha tão amarga, que me toque docemente e, sobretudo, com compaixão.

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Esse texto foi escrito  após o falecimento de meus pais - o que muito me custou. Muito difícil de entender o  real sentido de tudo. Ter visto, sentido tão de perto...



19 de outubro de 2018

TEMPO DE ELEIÇÕES



                     
                    -Taís Luso

Essa crônica não é um texto político-partidário, não é para defender ou acusar partidos, ideias ou pessoas. Não é esse o meu objetivo aqui. 
Percebo que estou com dificuldades - nesse clima de eleições,  em escrever uma crônica que contenha alguma substância. Está difícil de criar um texto. Há momentos que  me levam da emoção à perplexidade!
Vivencio, de certo modo, uma campanha eleitoral muito agressiva, através das televisões, rádios e de todas as redes sociais.  É natural um estresse nessa altura dos acontecimentos,  um dos momentos mais importantes da vida do Brasil. Confesso que para escrever o post anterior a este,  tive de ler muita poesia para voltar à leveza d’alma.
 A campanha pelas Redes Sociais é gigantesca. Impressionante. Somos quase 150 milhões de eleitores. Em segundos tudo é despachado para que as visualizações viajem a todos os cantos  do país  e rompa fronteiras para alcançar os brasileiros que se encontram fora do Brasil.
Na política, uma das piores armas é a palavra; palavra que propicia mentiras corrosivas – com as quais me sensibilizo muito. Daí a minha expectativa pelo dia 28 de outubro, e também a ânsia que tenho pelo dia seguinte.
Espero que após essas eleições, as pessoas reflitam sobre seus atos agressivos, tudo o que ouviram e disseram, movidas pelo rancor e pelo ódio, e que haja reconciliação  e  paz. 
Aguardemos, pois, pelo retorno à educação e à gentileza. Aguardemos pelo bom convívio entre pais e filhos, parentes e amigos.
Haja Deus.



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8 de outubro de 2018

A ARTE DO BEM VIVER



     - Taís Luso

Não lembro de ter visto, em anos passados, um aumento tão considerável de pessoas com depressão e com alto nível de estresse. Vê-se, também, com mais frequência, pessoas que sofreram um AVC. Não há cabeça que aguente muita pancada da vida. O cérebro é delicado, requer cuidados, pede moderação nas nossas emoções - entre outras coisas, é claro.
Meu pai, cardiologista, era um homem equilibrado, não colocava a mão em arapucas, não discutia, não brigava. Poupava-se. Tinha suas defesas. Aprendi um pouquinho a maneirar minhas reações, minhas emoções, dizia-me para deixar passar as coisas irrelevantes; não dar murro em ponta de faca –  de nada adianta – mas, nem sempre é possível evitar.
Para uma vida saudável, sabemos que a alimentação, exercícios físicos e equilíbrio emocional são fundamentais. Os confrontos e discussões acirradas agravam certas doenças, ainda mais se trouxermos da família alguma herança nada saudável.
Não estamos isentos de maus súbitos após uma discussão acirrada. Geralmente vamos à exaustão querendo provar que nossa opinião ou atitude é a correta. E com ela salvaremos  o mundo. Acabamos por não atingirmos o alvo, e ficamos com o estrago e a ansiedade que vai se acumulando. E vem a derradeira pergunta :
Por que fui entrar nessa?
Por causa do seu ego – diria nossa consciência.
Difícil de aprender. Abrimos nossa guarda e expomos nossa vulnerabilidade em confrontos idiotas e  dispensáveis. Essa é a vida de muitos, sempre numa corda bamba. Uma hora perde-se o equilíbrio e deu! Pois é... aconteceu. Coitada, que Deus a tenha!
Se houvesse uma vacina que evitasse a quebra de nosso equilíbrio, a desorganização de nossas emoções, tenho certeza que nossa qualidade de vida seria outra; que a expectativa de vida estaria muito além da média de hoje.
E viveríamos muito mais felizes.


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