21 de julho de 2017

SOLIDÃO – COMO É TRISTE !

 


Tais Luso

Não conheço muitas pessoas solitárias, mas conheço o bastante para ver o quanto é difícil para elas enfrentarem as dificuldades pelas quais passam. É possível que as pessoas solitárias necessitem de ajuda dos familiares, dos colegas de trabalho. Mas, por outro lado a situação requer cuidados, nossa intromissão pode não ser bem-aceita, por melhor que sejam nossas intenções. Talvez o melhor seja a ajuda de um psicoterapeuta. O problema do solitário não é falta de diversão. É um estado de espírito, por vezes triste, o qual  não conseguem resolver.

        Porém nada tem a ver com querer seus momentos agradáveis, de querer estar a sós. Isso é por opção, inclusive para criar, escrever, pintar, ler...

Os solitários sentem falta de calor humano, de atenção, de aconchego, de solidariedade, de sentir-se incluído na roda. Por outro lado carecem de disposição para procurarem a integração com outras pessoas com as quais sintam afinidade.
Ninguém é solitário porque gosta. Mas é uma situação triste se a pessoa não curte ficar a sós. Geralmente se coloca a culpa na vítima, ‘está colhendo o que plantou’. Não é por aí o tal julgamento. Seja pelo motivo que for, a solidão assusta, deprime e deve ser pensada para poder, no mínimo, ser apaziguada. E não é um batalhão de amigos e inúmeras viagens e diversões que removerão os problemas e as carências de um ser solitário.
O solitário não está preparado para mudanças bruscas, por algum motivo se isolou, e mesmo sem razão alguma está machucado. Não acredito que alguém, em sã consciência, chegue ao ponto de querer viver assim. São pessoas cuja alma encontra-se em agonia, uma mente fragilizada, desanimada. São pessoas que se conformam com a situação e assim prosseguem dentro de um quadro de infelicidade. Não porque querem, mas porque o solitário já desacredita das amizades e de alegria. Desacredita de si e de uma vida afetiva.
Mostra um lado obscuro da vida a sós, a complexidade dos relacionamentos, a falta de afetos, tanto em dar como receber. Não sabe como resolver e isola-se. 
Todo o ser humano procura a plenitude de sentimentos. A felicidade é simples, não requer grandes saltos. Felicidade requer afetos. Todo cuidado é pouco para que algo mais grave não se instale, como uma das epidemias do século XXI: Depressão. 
Dá o que pensar  o que diz o dramaturgo  Eugene O'Neill (1888/1953):
A Solidão do homem não é nada senão o medo da vida... 


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14 de julho de 2017

CANÇÃO NA PLENITUDE


                    - Lya Luft

                    Não tenho mais os olhos de menina
                    nem corpo adolescente, e a pele
                    translúcida há muito se manchou.
                    Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
                    agrandada pelos anos e o peso dos fardos
                    bons ou ruins.
                    (Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

                    O que te posso dar é mais que tudo
                    o que perdi: dou-te os meus ganhos.
                    A maturidade que consegue rir
                    quando em outros tempos choraria,
                    busca te agradar
                    quando antigamente quereria
                    apenas ser amada.
                    Posso dar-te muito mais que beleza
                    e juventude agora: esses dourados anos
                    me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
                    e não menos ardor, a entender-te
                    se precisas, a guardar-te quando vais,
                    a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
                    e sobretudo a força – que vem do aprendizado.
                    Isso te posso dar: um mar antigo e confiável
                    cujas marés – mesmo se fogem – retornam,
                    cujas correntes ocultas não levam destroços
                    mas o sonho interminável das sereias.

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Gaúcha de Santa Cruz / RS - a escritora Lya Luft iniciou aos 20 anos uma carreira de tradutora de literatura em alemão e inglês. Formada em Letras anglo-germânicas e com mestrados em Literatura Brasileira e Linguística Aplicada, Lya Luft trabalha desde os 20 anos como tradutora de alemão e inglês. Já verteu para o português obras de autores consagrados como Virgínia Woolf, Günter Grass, Thomas Mann e Doris Lessing, além de ter recebido o prêmio União Latina de melhor tradução técnica e científica em 2001 pela tradução de Lete: Arte e Crítica do Esquecimento, de Harald Weinrich. Romancista, ensaísta, cronista e poeta, deixo aqui alguns de seus livros. Lya nasceu em Santa Cruz do Sul, em setembro de 1938 - RS.
As Parceiras / 1981 – A Asa Esquerda do Anjo / 1981 - O Ponto Cego / 1999 - Reunião de família / 1982 - O Quarto Fechado / 1984 - Mulher no Palco / 1984 - O Rio do Meio 1996 – Mar de Dentro / 2002 - Perdas e Ganhos / 2003 – Histórias do Tempo / 2000 - Pensar é Transgredir / 2004 - Histórias da Bruxa Boa / 2004. Atualmente escreve uma coluna na Revista Veja.




8 de julho de 2017

PESSOAS PARECIDAS? SÓ DÁ ROLO...



     -Tais Luso
Meu marido tem um irmão muito parecido com ele – fisicamente. Estávamos no supermercado, quando uma senhora chegou, puxou-lhe o braço e o cumprimentou, muito saudosa. Fez uma festa. Dois beijinhos pra lá, dois pra cá.
– Quanto tempo que não nos vemos, meu amigo!
Eu estava por perto e notei que Pedro não estava entendendo nada. Perdido, passou a desconfiar de sua memória: quem seria aquela mulher? Estava atrapalhado, poderia ser uma  antiga cliente, uma colega da faculdade... E dizer que não a conhecia seria o mesmo que dizer: você mudou muito e não a conheço!
Percebi, era mais um dos tantos equívocos que acontece com ele. Mas como mulher vive mudando os cabelos, emagrece, engorda, estica e corta tudo... a coisa fica delicada. 
Aproximei-me para falar com ele, e essa senhora ficou a me olhar, meio surpresa: eu não era a mulher que ela conhecia! Senti isso em seu rosto. Ficou surpresa quando apareci! Seria eu a segunda? Éramos um trio em francas desilusões. Piorou tudo quando ela me perguntou onde seria, esse ano,  o ‘Festival do Queijo’, e quando iríamos! 
 Ué,  o que tinha eu a ver com um festival do queijo naquele encontro? Lá sabia eu sobre queijo!! E comecei a divagar tentando adivinhar onde a mulher queria chegar. Mas não demorou muito para ela me dizer:
– Pois é, vocês nunca mais me convidaram para irmos ao festival!
Na tentativa de salvar o Pedro (mais confuso ficou com o tal queijo), resolvi logo a história...
– Mas não faltará oportunidade! – disse eu  vamos combinar!
Sei que dei o tiro de misericórdia, mas era tarde para remendar as coisas, para dizer que nunca a vi na vida e não iria a festival algum. Ou conserta-se o mal entendido no começo, para não deixar a história tomar corpo, ou leva-se o equívoco adiante e aguenta-se o tranco. Mas como Pedro não guarda muito as fisionomias, a lagarta virou uma centopeia de 100 pernas. E ficamos no nhenhenhe...nada fechava com nada. A essas alturas seria tarde  dizer-lhe que Pedro não era o irmão e que eu era casada com Pedro!!
Fui colocar as coisas no carrinho, ao regressar a mulher tinha sumido do supermercado. Deve ter achado  o ‘casal’ muito estranho, não lembravam da inesquecível viagem para o festival do queijo de anos atrás. Imperdoável!
Estive pensando em Pedro deixar crescer a barba ou cavanhaque...alguma coisa que pudesse evitar esses mal-entendidos. Mas recebi um ‘negativo’!
Tudo isso por ter um irmão muito parecido...Imagino se fossem gêmeos! Mas histórias do cotidiano são assim, tudo meio atrapalhado, quando poderia ser bem mais fácil.


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2 de julho de 2017

ALGUÉM SE IMPORTA COM O POVO ?



        - Tais Luso

Não digo mais que o nosso cotidiano  surpreende. As pessoas convivem com a desgraça, com a pobreza, com a imoralidade, com a corrupção com a impunidade e o pior, com uma extrema violência. Mas mais forte é a indignação do povo. É a descrença nas Instituições e nos partidos políticos. É uma dúvida nacional. E o povo, já um pouco  cansado de ir às ruas, terceirizou tudo à Operação Lava-Jato: ao Juiz Sérgio Moro e Ministério Público.
Estávamos voltando do almoço quando um senhor, lá pelos seus 80 anos, se atravessou na nossa frente, esbravejando:

Esse país tá uma merda!!! Eu morei anos em Israel e inventei de vir para cá! Ninguém faz nada, só roubam, só saqueiam esse país!

O homem nos mostrou o grande ferimento em sua perna. Estava indignado, e dê-lhe palavrões! Um deles  pesado, coisa fina! Poucas vezes vi alguém tão desatinado.

Fui assaltado agora por dois delinquentes, ali, na rua Barros Cassal; me jogaram no chão, me chutaram e ninguém fez nada nessa merda…

Pobre homem, ao falar  o nome da rua, gelei, fica perto de onde estávamos. Minha intenção, de imediato, foi de chegar em casa. O coitadinho começou a chorar, e ver um homem dessa idade assaltado, chutado e humilhado? Estava coberto de razão, sua indignação faz sentido. Entendi o palavreado dele, que diga o que quiser… palavrão é o que estão fazendo com o Brasil.
Mas alguém se importa com o povo? 
Fiquei pensando o tanto que estamos vulneráveis e a mercê da bandidagem. O medo já faz parte de nossas vidas. Dezenas de crimes por dia são contabilizados no meu Estado, imaginem no Brasil inteiro!! Médicos morrem no trabalho; jovens morrem; crianças são alvos de balas perdidas. Escolas invadidas e policiais morrem no confronto com a bandidagem, não tem hora. Também não é raro a polícia encontrar corpos esquartejados... A nova modalidade de crime são os assaltos com sequestros de animais  de estimação; roubam o cão e depois pedem resgate. Não andam mais à busca das melhores raças caninas, nem de beleza, pois sabem 'eles' que o amor pelos animais é mais forte, não tem preço. E os adeptos  das 'redes sociais' continuam a mostrar seus animais. Pois é... 
Difícil andar por nossas ruas, parar nos semáforos.  Somos um povo neurotizado.  O lindo Rio de Janeiro está um caos, tiroteios nas ruas entre polícia e traficantes, arrastões em pleno sol de Copacabana. Quem pode ser patriota, ter o tal orgulho brasileiro se estamos neuróticos, vivendo numa terra que está parecendo ser de ninguém? Um mega faroeste. Um continente em agonia.
Mas 'Eles' não querem saber de nada. Está difícil de entender o que esses políticos querem mais do Brasil se já estamos no fundo do poço!  O estrago já está de bom tamanho. O que sobrou é pura fantasia!! Precisaríamos de um redescobrimento; começar do zero.

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23 de junho de 2017

ALEGRES OU TRISTES


        - Tais Luso 
Amigos dizem que gostam dos meus textos porque são alegres e contém uma certa ironia que agrada. Claro, isso me lisonjeia muito. Li muitos autores maravilhosos e, sem querer, mas querendo, aprendi muitas coisas. Aprendo sempre. Meu espírito também ajuda, uso de recursos para dizer o que penso sem pegar muito pesado. Com mais leveza vou abrindo meus caminhos com  dedicação, gostando de dar minha opinião sem ser interrompida. Dei boas gargalhadas com certas ‘tiradas’ criativas desses escritores que li. Pensava comigo ‘esse cara é genial!’. E hoje, esse estilo faz parte de mim. Passei anos a procurar livros, andei por feiras, livrarias e sebos. Adoro os sebos (livraria de livros usados e antigos), há neles uma vida diferenciada, um cheirinho de páginas amareladas guardadas pelas capas curtidas.
Hoje, fui cortar o cabelo, e ao lado tem um sebo muito conhecido, marquei para sair do salão e dar uma chegada ali, mas saí tão atarantada com meu cabelo que fui para o lado oposto. Quando corto o cabelo fico meio desorientada, pior que turista em Tóquio.
Agora, sentei aqui pensando num texto, mas antes de começar a escrever, abri meus e-mails e num deles havia uma música que mexe muito com meus sentimentosUnchained Melody, do filme Ghost. De imediato vi que não sairia nada alegre, não teria condições,  me fechei como uma ostra.
Unchained Melody foi a música que escolhi para a cremação de minha mãe e lembrei que preenchi o cheque, para seu velório, chorando. Por que eu? Que sensação horrível foi aquela! Me senti quase um coveiro! Pedro e minha filha entenderam e me mimaram um pouquinho. E o auge da cerimônia se deu através dessa música. Vi minha mãe muito fragilizada com o falecimento de meu pai. E isso me abateu. Não gosto de pensar.
Agora, meu espírito mudou, estou recolhida, emotiva, pensando nos pontos duros da vida: um pensamento voltado às coisas que temos de enfrentar, as inseguranças normais, os meus limites, as minhas perdas, o meu andar...  Não tão longo andar como o de meu poetinha Quintana quando escreveu  seu poema O Mapa. Mas um andar também maduro.
Quando estamos felizes agimos como se tivéssemos sete vidas! É energia sobrando, é fôlego, é alegria, mas nem sempre temos o poder de dirigir nossa mente. E cá estou, meio circunspecta, sem nenhum sorriso a exibir porque meu coração não está aberto. Mas assim é a vida, ora felizes, ora pensativos e reservados. De dia reina o sol, à noite o luar. Tudo em mutação. Mas o bom é saber que o sol sempre volta.
E amanhã, o receberei com outro espírito, por certo.

Melodia para minha mãe


16 de junho de 2017

DESVENTURAS DOMÉSTICAS


           - Tais Luso

 Toda a contravenção é estressante. Maus profissionais existem em todas as profissões. No emprego doméstico, também. São chamadas hoje de diaristas. Ou empregada doméstica. É um trabalho digno, exercido por gente boa e que precisa de trabalho. Mas também tem alguns rolos! A confiança teria de ser 100%. Coisa rara.
Tivemos inúmeras empregadas. Nossa primeira empregada, chamava-se Cenira. Com ela começaram todos os meus pesadelos. Tudo o que quebrava, não dizia; de nada sabia... Certo dia  peguei a criatura comendo a papinha de minha filha, ainda nenê - hoje, já adulta. Ora, vá lá eu ter confiança numa mulher que  come a comida da minha filha! Mas adoro fazer justiça; e fiz. E também aproveitei para destrambelhar um pouco. 
Tive outras tantas empregadas, surpreendentes! Tínhamos um papagaio, o Zezinho, reconheço que o bichinho era um tanto desbocado, nunca soubemos quem o alfabetizou. A empregada era evangélica. Cada vez que ela passava por ele, ouvia um palavrão, FDP. Certo dia, ela terminou seu serviço e foi embora. Senti falta das algazarras do papagaio e fui lá vê-lo. Zezinho não estava mais na gaiola, ela o havia soltado e também nunca mais voltou ao emprego. Sumiu. Mas ficou a eterna saudade do Zezinho. Passei a colocar  diarista duas vezes por semana, mas...
Aconteceu numa certa sexta-feira, o cheiro putrefato na cozinha estava insuportável. Desmontei tudo, e nada... A infeliz tinha esquecido de levar a carne que escondeu num vácuo, debaixo do tanque na área de serviço. Mas o que mais me irritou foi quando ela chegou na 3ª feira e mostrou-se surpresa. Optei, então, por colocar diaristas de mais idade, o que não resolveu porcaria nenhuma.
Entrou a Valdeci. Quando terminou seu serviço, vi que sua sacola havia engordado... Ah, pensei comigo...chega! Pedi que buscasse dois litros de leite no supermercado. Fui com muita certeza na sua sacola: tiro e queda: encontrei café, sabão em pó, açúcar, arroz e carne! Tudo embrulhadinho e seu casaco por cima. Foi muito estressante! Deve ter acontecido outras vezes, nos dias de minhas aulas.
Passaram-se anos com muitas histórias. E resolvemos mudar de esquema: almoço de fora! Hoje tenho uma faxineira, apenas uma vez por semana. Gosto dela. Só tem um probleminha: ela está com 63 anos, artrose no joelho e coluna, a coisa tá difícil...  Quando ela aperta a campainha eu já lhe dou um  Dorflex! Mas como está há dez anos conosco, não penso em abandoná-la nessa sua fase difícil. Estamos navegando... Não sei por quanto tempo. 
Resumindo: há comportamentos que o tempo não apaga e não modifica! Sim, queridos, isso faz parte do nosso cotidiano mais simples. Lidar com a nossa própria espécie é muito difícil. E incomoda muito. 
     

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9 de junho de 2017

OS CICLOS DA VIDA



                  - Tais Luso
           
Estou pensando seriamente em deixar o Brasil ou me mudar de cidade!’
Não, não é nada comigo! Na verdade, essa frase corre pelo Brasil, dita por pessoas que estão chegando em suas aposentadorias ou por jovens que estão com o pé na estrada para começarem suas vidas. Os dois extremos. Mas também se escuta isso de muitos dos 14 milhões de desempregados que lutam para sobreviver.
Também sonhei há muitos anos em morar noutro lugar, no interior do meu Estado, cidade serrana linda, tranquila, segura, junto à natureza. Mas ficou no sonho. A família crescendo, a vida me amadurecendo e hoje não penso em sair de onde moro, apesar das  coisas no meu país não estarem nos trilhos.
O amadurecimento nos dá, entre tantas coisas, uma boa estabilidade emocional. Pelo menos se presume que assim seja. Chega um tempo que a vida deixa seu recado: ‘Ou você amadurece ou vai se danar!’ E o primeiro sinal aparece nesse ‘sossegar’. Amadurecer é querer o necessário, é largar as fantasias e os fricotes. Sonhar, sim, mas com o possível, com o realizável. Mas chega o tempo em que há de se respeitar os ciclos da vida.
Até concordo com o êxodo dos jovens em desbravarem o mundo, tentar a vida em outro lugar, pode dar certo, sim. Mas não mais para nós, mais amadurecidos que na aposentadoria ainda pensamos nos  antigos sonhos juvenis. Passou aquele momento. Agora o sonho é outro.
As atitudes são diferentes. Uma mudança fora de época pode acarretar um arrependimento por inúmeros motivos. Constatei isso, inclusive em minha família.
Deixemos para nossos filhos tentarem seus sonhos, eles têm idade para se aventurar; alguns ainda têm idade para praticarem o Bungee Jumping; estão na idade para tentarem tudo. Estão com tempo para novos projetos, para guinadas ousadas. E se necessário for, haverá tempo para um reinício.
Conversando com uma amiga sobre isso - alguns de seus filhos estão de muda para outro Estado, resolveram tentar uma cidade pequena e calma -, achei que ela e o marido também iriam, tal a insistência dos filhos. Mas ouvi dela palavras que me surpreenderam:
Taís, nós não vamos, nosso lugar é aqui, árvore madura não se transplanta, amiga!
Palavras sábias. Tudo tem seu tempo certo.

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2 de junho de 2017

POUCOS NO LUXO, MUITOS NO LIXO



         - Tais Luso

Ouvi de uma pessoa que ao abordar em suas crônicas  temas relevantes, sentiu que todos eles passavam despercebidos em comparação aos textos de pessoas que escreviam sobre o sofrimento dos animais nas mãos dos humanos. Teve um surto e resolveu escrever (com agressividade) sobre os ‘cachorreiros’ que passeavam com seus cachorros nos parques.  Contou que sua caixa de e-mails explodiu! Ficou feliz. Coisas difíceis de entender. 
Mas... em geral, quem tem um animal de estimação canaliza sentimentos, não reprime. Animais não nos ofendem, são amorosos, amigos sensíveis. Temos qualidades, por certo, mas somos muito complicadosNós é que cometemos atrocidades. Não eles.
Estou sentada em frente ao monitor, escutando música. Certas músicas me emocionam, umas me alegram, outras me levam a refletir. A verdade é que minha sensibilidade oscila conforme o que a vida me apresenta.
E aqui, eu escrevendo com minha alma aberta na ânsia de obter respostas para tantas perguntas sobre um mundo insatisfeito. Convivemos com uma violência gratuita, somos agredidos pelos gananciosos e loucos enquanto milhões de pessoas convivem com a falta de perspectiva para suas vidas. Estamos nos acovardando, quem não percebe? Somos assaltados com armas sem o direito de defesa, mesmo em nossas casas estamos à disposição dos delinquentes. É justo não termos a opção de defesa nem dentro de casa? Não nos é permitido portarmos armas. Vivemos numa sociedade agonizante cujas causas sociais são visíveis.  É incrível, mas parecemos um povo feliz por vivermos num país tropical, por termos um carnaval show, belas praias, sol e ser o país do futebol? Menos,  menos... isso é muito pouco para fazer um povo feliz.
Mas a felicidade é relativa: para uns é apenas conseguir comer. Para outros é fugir das guerras; para outros é ter um lugar simples para morar; para outros é curar-se de doenças... Mas para uma minoria criminosa, é ter mansões, grifes, e se deliciar com seus bilhões roubados do povo como se fossem viver quinhentos anos! É aparentar luxo enquanto boa parte dos habitantes  moram próximo dos lixões ou em vilas sem saneamento. E isso se espalha pelo mundo.
Acredito que num século qualquer, o mundo poderá ser mais feliz, mas não com doses homeopáticas, e à conta-gotas… Enquanto houver tamanha desigualdade e impunidade, jamais haverá alguma mudança.
Um país cresce e se faz grande e próspero com pessoas honestas. Com governos honestos.

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26 de maio de 2017

VOU CONTAR PRO TEU PAI !



- Tais Luso
Devido a situação política do nosso país, de ver tantas coisas absurdas no Congresso Nacional, no Governo e Instituições, sentei na frente da tela do computador e veio o bloqueio para a crônica de sexta-feira - nada de ideia! Não consegui concatenar coisa alguma... E pensei, deu pra mim! Escrever sobre nossas mazelas nacionais? Não, não quero registrar mais nada disso. Dá nojo.
Lá pela metade da tarde, quando eu estava tentando escrever algo, Pedro foi na cozinha e perguntou-me se eu queria comer uma banana para esperar a hora do jantar.
Banana? Pode trazer, mas amassadinha com canela e açúcar!
A fisionomia do 'homi' mudou!
Não!! Amassar banana dá muito trabalho, come natural, é igual!
Não, não gosto de comer banana na casca. Deixa a bananinha pra lá...
Então também não vou comer nada, vou esperar o jantar – disse Pedro.
Pensei bem e vi que não seria grande sacrifício comer uma banana ao natural, assim ele também comeria. Tudo solucionado. 
Pois é, mulher é assim. Homem é prático, resolve tudo sem lenga-lenga. Mulher tem de enfeitar tudo! Descasquei a tal banana me sentindo um troglodita. Pensei: meu Deus, como as mulheres são diferentes dos homens! Por isso que os filhos 'aprontam' para as mães e respeitam mais os pais. Respeitam a dureza, a disciplina... Na minha casa a Bíblia da minha mãe se resumia a um versículo:
       – Vou contar pro teu pai!!
Quem não ouviu isso quando criança? A força delas estava nos maridos, só que meu pai era uma pessoa doce, amigo, sensível, cauteloso,  então a tal frase nunca me incomodou. Minha geração já não usou esse artifício, resolvíamos nossas pendências de várias maneiras, aliás, algumas bem criativas. Não pensei mais na  importância da banana, mas pensei em outras coisas que herdamos e que ainda causam tumulto. Nós mulheres somos muito sentimentais, muito complicadas, somos capazes de sentir culpas e mágoas por coisas pequenas demais. Tudo porque nos doamos por inteiro; tudo porque vivemos intensamente cada coisinha. Cada minuto. E para todos.
À noite, uma surpresa: apareceu na mesa um feijão-mexido temperadinho, à moda mineira, ovos e suco de mamão com laranja! Tudo no capricho. Quem será que fez?  Só tive o trabalho de aquecer o creme de milho...
Esqueci de imediato daquela banana amassada com canela e açúcar, que na real nem tinha me apetecido tanto.

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19 de maio de 2017

DE QUE RIEM OS PODEROSOS?

  


              - Affonso Romano de Sant'Anna 

      

          De que riem os poderosos?
          tão gordos e melosos?
          tão cientes e ociosos?
          tão eternos e onerosos?


          Por que riem atrozes
          como olímpicos algozes,
          enfiando em nossos tímpanos
          seus alaridos e vozes?


          De que ri o sinistro ministro
          com sua melosa angústia
          e gordurosa fala?
          Por que tão eufemístico
          exibe um riso político
          com seus números e levíticos,
          com recursos estatísticos
          fingindo gerar o gênesis,
          mas criando o apocalipse?


          Riem místicos? ou terrenos?
          riem, com seus mistérios gozosos,
          esses que fraudulentos
          se assentam flatulentos
          em seus misteres gasosos?


          Riem sem dó? em dó maior?
          ou operísticos gargalham
          aos gritos como gralhas
          até ter dor no peito,
          até dar nó nas tripas
          em desrespeito?
          Ah, como esse riso de ogre
          empesteia de enxofre
          o desjejum do pobre.


          Riem à tripa forra?
          riem só com a boca?
          riem sobre a magreza dos súditos
          famintos de realeza?
          riem na entrada
          e riem mais
          - na sobremesa?


          Mas de tanto riem juntos
          por que choram a sós,
          convertendo o eu dos outros
          num cordão de tristes nós?



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Affonso Romano de Sant'Anna nasceu em Belo Horizonte MG/Brasil - 1937. Poeta, crítico e professor de literatura e jornalista. Ainda pequeno, muda-se com a família para a cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, onde inicia seus estudos e se aproxima da literatura ao frequentar as bibliotecas públicas. Começa a carreira jornalística em 1953, publicando críticas de cinema e teatro no Diário Comercial e na Gazeta Mercantil.
De família protestante, em 1954, viaja por diversas cidades mineiras pregando o Evangelho em favelas, hospitais e presídios. Em 1962 o bacharela-se em letras neolatinas na Universidade Federal de Minas de Minas Gerais e publica seu primeiro livro de ensaios, O Desemprego do Poeta. Organiza, com outros poetas mineiros, a Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, em 1963.
Em 1964 obtém o grau de doutor pela UFMG, com apresentação de tese sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987). Casa-se com a escritora Marina Colasanti, e em 1970, vai residir no Rio de Janeiro. Ministra cursos na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - e na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como professor convidado, dá aulas de literatura e cultura brasileiras em universidades da França, Alemanha e Estados Unidos. Assume a presidência da Fundação Biblioteca Nacional em 1990. Um ano depois, cria a revista Poesia Sempre, importante veículo de divulgação da poesia nacional no exterior. É nomeado, em 1995, para o cargo de secretário-geral da Associação das Bibliotecas Nacionais Ibero-Americanas. Também colaborador assíduo da imprensa em toda sua carreira jornalística, escreve textos para os jornais O Globo, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, Correio Brasiliense e O Estado de Minas. Tem poemas traduzidos para o espanhol, inglês, francês, alemão, polonês, chinês e italiano.
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Sant’Anna, Affonso Romano, 1937
Poesia Reunida: 1965-1999 / Porto Alegre, LM&M Pocket – 2004
Apoio biográfico – Itaú Cultural