22 de novembro de 2020

A MISÉRIA HUMANA

                           

                                          ___ Taís Luso___

Impossível escrever alguma coisa do nosso cotidiano sem lembrar do episódio racista do dia 19 de novembro de 2020, o massacre, o terror de um homem negro, de 40 anos - João Alberto S. Freitas - que viveu os mais longos 5 minutos de desespero que possa existir. Uma inarrável agonia para quem viu o vídeo desse massacre cometido por dois seguranças brancos, do supermercado Carrefour de Porto Alegre/Brasil. Esse 2020 ficará na História, juntamente com o outro caso semelhante a este (George Floyd ), nos Estados Unidos.

Enquanto uns vivem na gloriosa vitrina da vida, uma grande parte  da humanidade vive desconfortável, faminta e amedrontada com tantas tragédias e brutalidades. Vidas arrancadas por episódios que se alastram cada vez mais nas sociedades. Quando uma vida se apaga, em sopros cruéis, as coisas viram um prato cheio para nossas inquietações. Gostaria de povoar um lugar onde a vida acontecesse sem interrupções bruscas. Morrer de velhice. Em suave despedida.

Um dia, tudo por aqui acabará, o 'depois', ainda não sei. Não me contento em apenas respirar, sentir o aconchego do sol, o romantismo da lua e deixar certas coisas de lado. Não. É da minha natureza questionar sobre essa estranha sociedade que ao velar seus mortos mostra num canto as tristezas do momento, enquanto no outro, escancarados sorrisos cumprindo um rito social.

Que sociedade estranha é essa, que ama e que odeia com a mesma intensidade, destruindo laços afetivos dentro das próprias famílias, quando deveriam cultivar o amor. Como não pensar nisso se são sentimentos que estão proliferando?

Que sociedade estranha essa, em que minorias dominam maiorias; que o ladrão de galinha mofa na cadeia e os monstros abastados ficam soltos e intocáveis?

Que sociedade estranha é essa, onde há inúmeros preconceitos camuflados e que hipocritamente ninguém vê, ninguém sabe. Uma sociedade só será saudável se houver respeito às desigualdades.

O homem continua primitivo quando não domina seus ímpetos, quando não mede seus instintos, quando articula seus desejos com crueldade. Pais matam filhos; filhos matam pais; irmãos se atropelam na vida; brancos matam negros por racismo. Esse é o ápice do ódio. Como não questionar tais misérias humanas?

É difícil encontrar razões para tudo isso, como difícil é entender o sentido dessa vida, principalmente quando ela nos abandona, sem nenhuma explicação e sem aviso prévio. E pior, quando vem acompanhada dos mais baixos instintos humanos, e coloca seu ponto final.



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13 de novembro de 2020

E AGORA, JOSÉ ? (crônica)

 


___Taís Luso___                                 

Nós brasileiros, estamos passando por momentos muito tristes (como o mundo inteiro), mas também momentos constrangedores - cruzes!  Às vezes me sinto sol, outras vezes lua. São os contrastes que vivenciamos nesses momentos. Um lindo país, com um povo sofrendo e muito  preocupado com o rebuliço político interno. 

É difícil dançar nessa roda de milhões de opiniões, muitas discórdias e uma coleção razoável de 'pérolas' soltas para o mundo! Poucos acertos na esfera  política  que continua sendo a arte de governar.  Mas quando essa arte não atinge seus objetivos, o povo paga, e leva tiro no pé de quem menos  se espera.

Manifestações infelizes, não ajudam em nada.  Acreditávamos  numa boa segurança, saúde e educação. Esse foi o nosso trio mais esperado. Mas já escutamos muitos absurdos; tantas coisas vivenciamos e tantas dúvidas!  Estamos exaustos! Mas, ainda, no aguardo de soluções.

O assunto sobre o Covid 19, medicamentos e vacinas, andou saindo recentemente da seara científica para entrar em disputa ideológica. E o povo que se ferre, há coisas mais importantes, não? Tá bom. Há muita coisa errada nesse belo pedaço das Américas, e que exigiria melhores explicações.

Como lidar com essa pandemia era  pergunta frequente, lá atrás, no mês de fevereiro de 2020.  Infelizmente, a pandemia aportou no Brasil em pleno carnaval, e que logo virou uma infinita agonia. Um carnaval no momento errado.

Ficamos estarrecidos! Não era normal tanto sofrimento trazido por um vírus desconhecido; tantas dores! Hoje mais de 166.000 brasileiros já faleceram pelo covid 19. Coisa nada normal. No entanto, alguns ainda querem a vidinha de antes, sem relevarem o perigo do contágio e das internações hospitalares.  Difícil de entender. Isso é uma pandemia!!

Parece que a dor não atinge e nem comove todas as pessoas. Estamos órfãs de cuidados e de consolo. Estamos temerosos com as perdas de nossos parentes, amigos, colegas.  Creio, no entanto, que estamos mais fortes, há maior conscientização do povo, mas ainda falta muito. Percebemos a realidade, ainda que amedrontados, mas não mais iludidos. E tampouco tímidos. Tentaremos juntar mais de nossas energias, sabendo no entanto,  que  outros continuarão a dançar numa Festa de Arromba num ano de tantos desencontros. 

Tenho  esperança, e  venceremos juntos, embora nossos caminhos estejam mais para a incerteza. Um mundo confuso onde se fala de paz, mas não se vive em paz. Passamos uma vida inteira tentando acertar o caminho, mas percebemos que a estrada sonhada não mais existe. 

"E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora,  José?"


 (Drummond -  estrofe de "E Agora José")


Meu abraço a todos os amigos - estamos juntos! 

'Nossa Senhora' por Marina Elali - de Roberto Carlos

Vídeo enviado pela minha querida amiga 

Emília Pinto  do blog  Começar de Novo

Maravilhoso!

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4 de novembro de 2020

MAIS RESPEITO À VIDA...

 


                         - Taís Luso


Fico muito aflita e também comovida  ao ver uma ambulância nas ruas pedindo passagem para salvar uma vida: a vida que leva consigo. E hoje, a mesma agonia se repetiu. De minha janela vi a ansiedade e o tumulto. Gostaria de ser um guarda de trânsito nessas horas para colocar ordem no pedaço, abrir espaço para a vida passar. Mas daqui, do andar, só restou aflição. 

É angustiante  ver uma ambulância abrir a sirene e uma fila enorme de carros trancados no semáforo. Uns ajudavam a buzinar na tentativa de passar a urgência; outros subiam no canteiro central ao querer dar passagem à vida. Tão arrasador ver aquilo!

Aliviei minha agonia quando vi, mais adiante, os primeiros carros saírem da inércia e, com coragem, invadirem a movimentada avenida que cruza minha rua.  Isso também me emocionou. A coragem e a solidariedade  emocionam. Ao assistir todo esse mexe-mexe, minha garganta trancou  e veio uma enorme vontade de chorar. O choro é a última instância da emoção. Difícil trancá-lo.

Agora, ao escrever nessa tela branca, deixo registrado mais um pedaço do cotidiano, mais um relato que vai se juntando a outros como se fosse uma colcha de retalhos, ou um quebra-cabeça indecifrável da sociedade em que vivemos.

Não estou muito habituada a ver cenas comoventes. O que vejo mais  são assaltantes correndo e trombadas nas ruas para roubarem celulares; estou habituada em ver, em outras regiões do país, a conhecida bala perdida. Estou cansada  com a frieza das notícias sobre crimes. Estou cansada ao ver o povo desrespeitado e gente dormindo pelos cantos. O que vejo é  uma impunidade estarrecedora. Tenho medo de me acostumar com um modo de viver que jamais aceitarei. É muito  descaso das autoridades. Tenho medo da indiferença. Mas hoje vi que ainda não me verguei – o que me deixa um pouco mais feliz.

Triste será o dia em que eu notar a diminuição de minhas emoções. Mas muito mais triste será quando eu não tiver mais vontade de chorar; quando a Justiça ficar cega de vez. Aí, não fará mais diferença alguma em tê-la. 

E não estamos muito longe disso. 








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26 de outubro de 2020

A CURIOSIDADE PELA VIDA DOS OUTROS

                                  Das Artes Juarez Machado / Brasil

                          - Taís Luso                                    

Quem não gosta de saber um pouco da vida dos outros? Todos os programas que anunciam entrevistas com políticos, artistas, filósofos, pintores e escritores, todos nós temos curiosidade. Muitas! E também da vida dos simples mortais, mas dessas... a gente não diz.

Pois ontem, ao assistir um canal fechado, parei para ver dois programas: o primeiro foi um documentário sobre a vida de Drummond  como cronista, como o grande poeta e também como cidadão. O segundo programa foi uma entrevista com vários escritores, sendo um deles Luis Fernando Veríssimouma entrevista adorável em sua simpática casa do bairro Petrópolis (onde também morei), e onde falou um pouco de sua vida pessoal, na época.

Mas, deixando os escritores de lado, penso que a curiosidade pela vida alheia é um impulso não racional, é automático. Leva-nos tanto às coisas menores como às maiores. E bizarras. E as redes sociais estão bem abastecidas.

Lembram, vocês, daquelas descidas pelo elevador, quando ele para no andar daquela moradora esquisita, e que a porta de seu apartamento está aberta? Pois é, em alguns segundos a vida da maluquinha se escancara. Em pouco tempo dá para ver se ela está, ainda muito alterada ou um tiquinho mais equilibrada

Nossa casa também nos denuncia. Já entrei em muita casa maluca! E casa e criatura fundem-se num só bloco. Quando se é esquisito, a casa e o cachorro são o retrato do seu dono mais neurótico. É divertido. Contudo, muitos perguntarão: mas e daí, que importância tem isso? Nenhuma! São apenas relatos do nosso cotidiano. Nossa vida é feita, também, de coisas minúsculas e inúteis, como os chapéus da Rainha e a peruca do Sílvio Santos! A vida não é feita só de grandes conversas, grandes decisões, muita erudição e altas filosofias. As coisas simples podem ser o antepasto de conversas mais eruditas.

Existe gente que abre o jornal de trás pra frente, outros abrem direto na página de óbitos. Coisa macabra. Somos brasileiros, o país da alegria, da piada pronta, da gozação, dos palpites e dos conselhos (não solicitados) na vida dos outros. Somos assim desde 1500. E penso ser difícil  mudarmos.

Oferecemos, sem nenhum constrangimento, receitas para todas as doenças. Por acaso, já notaram como indicamos remédios, médicos, dentistas, psiquiatras e hospitais? Já notaram que todos somos técnicos de futebol e professores de etiqueta social? Já notaram como opinamos na escolha dos imóveis, dos móveis e na educação dos filhos dos outros? Não sei como não há o triplo de gente enfartada nesse país. Aqui, o fuxico é livre, corre na Internet de ponta a ponta em todas as redes. Lá está o que comemos, o que vestimos, o que fazemos e o que os outros roubam! Atracam-se! São coisas sem importância para muitos, porém muito apimentadas. Não dão gosto, mas como ardem!

Por que será que somos assim tão curiosos, tão metidos, tão piadistas, meio inocentes e meio indolentes? Será excesso de sol? De praia? Da nossa mistura de raças, do samba no pé e da arte com a bola?

Mas a verdade é que somos assim; quando aparece alguém que mostre seriedade e ética para lidar com a coisa pública, ficamos tão surpresos, tão aturdidos e emocionados que juntamos todas as nossas preces  num só desejo: colocar a criatura no trono, ou seja, na Presidência da República! Salve nosso Brasil varonil!

E sendo assim, não seria nada mal darmos uma bisbilhotada com mais vigor na vidinha de alguns



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16 de outubro de 2020

PANDEMIA - DE TUDO UM POUCO!

  


                      - Taís Luso


Conforme o dia, minha inspiração para escrever se altera muito. Há dias que bate o pessimismo e fico mais nostálgica, mais introspectiva, com dúvidas e medos, e que sou capaz de morrer pelo meu próprio veneno. Em outros momentos, vejo a parte hilária das pessoas. Enfim, gosto de traçar o cotidiano, mesmo numa pandemia, coisa que nunca sonhei em vivenciar.

Algumas coisas me tocam mais, e despertam em mim uma visão interior mais profunda. Às vezes olho pela janela e vejo a vida linda lá fora, um sol radiante num céu azul, muitas árvores coloridas, prédios bonitos que saíram das mãos dos homens. E vem um lamento pela vida não ser infinita, tal a vontade de viver!

Uma pandemia nos isola dos parentes e amigos, mas também nos aproxima através dos meios de comunicação, pelo celular, por e-mails. Queremos saber dos amigos, queremos falar sobre os cuidados que estão tendo e torcer para que também estejam bem.

Também acontecem coisas bizarras por termos a família em casa todo o tempo. O maridão em quarentena, vira um filho! Parece que, nós, mulheres, estamos num mundo estranho tomando conta do Universo inteiro.

Ontem, ao falar com uma amiga, também em quarentena, disse-me ela que além de artista plástica virou, cozinheira, faxineira e cuidadora. Mas, que é mais fácil cuidar de três mulheres do que do marido. Explodi em gargalhada! É bem assim, ela está certa.

Os homens são bravos guerreiros; enfiam-se dentro de foguetes em busca do desconhecido; enfrentam tempestades em alto-mar, rodeados de tubarões, enfrentam com coragem guerras absurdas etc.   A criança que todos temos dentro de nós  só adormeceu.

Ontem resolvi fazer ovos moles no café da noite. Aqueles ovos que se come nas casquinhas, de um minuto e meio no fogo. São gostosos e leves. Quebra-se a ponta do ovo e come-se com uma colher pequena, mas precisamos ter leveza na mão. Fiquei a olhar a dificuldade do meu guerreiro ao quebrar a ponta do ovo, parecia que estava quebrando um ovo de chumbo! Quando vi, a gema e a clara fizeram a festa na toalha, e foi-se o ovo.

- ‘Fim de ovos moles’, disse-me ele rindo, para comer isso só com um ‘psiquiatra’ do lado!

Logicamente veio uma gargalhada inesperada. Mas tudo bem, quarentena tem de tudo um pouco, lágrimas e sorrisos. Menos mal. Fim de ovos moles!

Não demorou muito, o meu guerreiro sentiu vontade de comer um ‘mingau de Maizena’, docinho, com canela por cima! Igual aqueles que eu fazia para nossos filhos quando crianças... Fiz 'dois' pratos fundos!! Ficou feliz! Eu também fiquei...

Quando tudo acabar, estaremos com 20 quilos a mais – também entre lágrimas e sorrisos. Creio que mais lágrimas.

Contudo, benditos sejam os homens entre as mulheres!



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6 de outubro de 2020

NÓS, OS BRASILEIROS

São Paulo em ritmo de feriado



- Taís Luso                                                                                                        

Os brasileiros são muito festeiros, loucos para colocarem o pé na estrada ou voarem no céu azul desse Brasilzão. Os nordestinos querem conhecer o frio; a gauchada vai em busca de calor! Então, salve nossa terra e a alegria do nosso povo! Mas calma, amigos, ainda não comecei a abrir o bico...

Trocamos de ano, e lá estamos nós no calendário dando uma olhada nos feriadões: aquela coisa maravilhosa que emenda com o fim de semana. Sim, temos de descansar da semana trabalhada; dar uma renovada na carcaça cansada, fugir dos conturbados relacionamentos do Facebook, do trabalho, da esfera familiar e da estafante espera pelas promessas dos governos - renovar nossas esperanças! Mas não haverá muito descanso, o Smartfone já está na bolsa de qualquer vivente.

Também não levará muito tempo para termos, novamente, as intermináveis festas de fim de ano. Comeremos aquele coitado peru no arroz, num salpicão, estrogonofe... sei lá. Peru é peru. Ninguém,  descarta um peru, o negócio é roer até o último osso.

Mas o problema dessas  saídas do povo é o antes e o depois. A gente se mata antes - com todos os preparativos –, e se enterra na volta, mais cansados do que antes. E isso serve também para as férias. As férias pedem, apenas, uma mala média, e só! Caso contrário é tortura.

A agonia, o estresse, o trabalho que se tem para descansar uns dias, não é nada estimulante. A expectativa de felicidade é que nos leva a uma certa euforia. Vejam só: se cada elemento da família levar uma mala média, mais as sacolas comunitárias, mais a mala do cachorro, mais as sacolas dos petiscos para irem comendo feito loucos, o carro vai andar com as rodas arriadas!

Aqui no sul  é um pouco diferente. Saímos nas férias com a intenção de ficarmos fora uns 20 dias, mas levamos malas para as 4 estações!  E se o clima mudasse e trouxesse frio e chuva? Fomos para a Serra, onde aparece aquele vento maluco chamado Minuano.   Mas Gaúcho aguenta.

Lembro que colocamos tudo no carro; o primeiro a subir foi nosso cachorro com sua mala, a cama, seus biscoitos, seus brinquedos, sua capa de chuva... o único que pulava de felicidade, pois nós já estávamos sentados pelos cantos.  

Bem, passado os dias, vimos que foi na volta à nossa cidade que entramos em férias; foi na volta que Pedro mudou de cara – feliz e saudoso! Ele e o nosso cachorro. Isso que é amor ao lar!! 

Mas, de um modo geral, os alegres brasileiros retornam  numa mesma hora, aquele horário que acham que só eles conhecem; todos pensam a mesma coisa! Mas brasileiro é assim: no próximo feriadão, todos estarão, novamente nas estradas, com seus bermudões, sonhando os mesmos sonhos, e com o coração saltitando de alegria! E  quem sabe lá se tudo não vale a pena...

 Eita  povo feliz!!! Esbanjando  ócio!



Feriado 7 de setembro / São Paulo
Rodovia Imigrantes




26 de setembro de 2020

JUVENTUDE E MATURIDADE

                                                              Juarez Machado / Brasil -  Das Artes

                  

                           ___Taís Luso___

Ao escutar Charles Aznavour, com sua triste canção J'Avais vingt ans, fiquei pensando lá nos meus vinte anos. Mas não tenho saudades. Foi uma etapa muito bonita, mas passou. Eu penso muito pouco no meu passado. Guardo ótimas lembranças, muitas alegrias, algumas tristezas. Normal, nada traumatizante.  É normal nessa idade sonharmos com vários projetos  e  viver  intensamente. A vida pulsa. 

Porém, ter a cabeça amadurecendo é trabalho duro, haja fôlego e disposição para abraçarmos essa intensa mudança. Encarar as inseguranças e questionamentos sobre os lados desconhecidos da vida, que vai se mostrando com certa desordem, é trabalhoso, e sempre levamos uns trancos para acertarmos o passo. A vida não é condescendente com nossos erros, jamais! Ela cobra.

Os 20 anos passam rapidamente, quando vemos já estamos nos 30, e num pulo alcançamos os 40, 50, 60, 70… e daí pra frente só vai! Passa a valer mais a nossa qualidade de vida.

A maturidade já nos presenteia com as marcas do tempo, e o negócio é aceita-las sem sofrimento. Ou então morra jovem, bela e cheia de saúde! Ao redor dos 20 anos não se pensa em finitude, é uma idade que cometemos mais equívocos, mas ainda existe muito chão pela frente, e nada como o tempo e vontade para a recuperação. Para acertar as pontas.

Mas calma! O nosso envelhecer tem suas vantagens, não desanimem! A vida é generosa e também nos oferece uns presentinhos simpáticos: rouba a nossa juventude encantadora e saudável, mas nos dá em troca uma boa dose de experiência, sabedoria, segurança, charme, paciência... mas também artrite, artrose, arteriosclerose, catarata, bico de papagaio e o escambau!! É assim mesmo, tudo misturado. Uma bagunça terrível. Mas dá para gerenciar, com boa vontade só vai... 

Mulher madura sabe usar o charme, é nesse período que conseguimos mais serenidade e segurança. Não há mais aflições periféricas. Nossas buscas são mais consistentes, nossas façanhas mais preciosas.

Nessa idade a gente idealiza, mas não se pode acreditar mais em muitas coisas; acreditar nas promessas daqueles enganadores que conhecemos, cheios de moral, que aparecem de 4 em 4 anos nos prometendo o mundo? Pois é, pelo amor de Deus! Sempre nos faltará alguma coisa nesse quesito de 'escolhas'. Existem coisas que não modificam porcaria nenhuma, enquanto uns se matam para modificar o sistema, outros se matam para que continue tudo como está. Esse é um quesito que tanto os jovens como os  maduros não conseguem arrumar. É que vamos atrás das boas intenções! Temos esse defeito de fábrica.

As avaliações sempre aparecem mais tarde, no auge da maturidade, quando a poeira baixa. E aí constatamos que muita coisa, em épocas passadas, não tinham tanta importância. Que pena que é um pouco tarde para remediar alguns absurdos. Mas, já estamos noutra fase e já temos a ideia de tempo!  E chega o momento de buscarmos mais paz e alegria! E basta.


Hier encore / Charles Aznavour - Com tradução




14 de setembro de 2020

SÓ MULHER ENTENDE MULHER

 


                               ____Taís Luso____

Nós, mulheres, temos muitas coisas que os homens não entendem, mas falarei apenas de algumas. Uma delas são nossos bolsões. Não entendem, coitados! Os homens conseguiram abolir suas pochetes, pastas e bolsas. Hoje, no Brasil, fora do trabalho, carregam uma carteirinha com apenas o cartão de crédito, celular e pouco dinheiro. Espalham esse arsenal pelos bolsos de suas roupas, e pronto. E o interessante é que dá certo. Os homens são práticos em muitos quesitos. Mochila é para os jovens mais informais, mas não sei o que carregam naquele saco enorme dependurado nas costas.  

Conosco o negócio é diferente: precisamos carregar alguma coisa de mais substancioso, caso contrário não sabemos onde enfiar as mãos. Não faço parte do grupo das mulheres grandes, mas estou à procura da maior bolsa do mundo! Como dá pra ver, nada por aqui é proporcional. Os homens não têm noção do que carregamos, mas não conseguimos ser diferentes. Dentro de um bolsão, existem várias bolsinhas, tudo organizado. Bem, seguindo...

Não conheço nenhum homem que tenha o fôlego de uma mulher para caminhar num shopping. Nós, mulheres, percorremos 400 lojas, pedimos reserva da mercadoria e continuamos  com energia sobrando. Mulher vai ao shopping sem muita objetividade, aproveita para desanuviar dos problemas. Se os homens agissem igual, acabariam o dia num hospital, agonizando.

Homem compra no primeiro impulso, sem pesquisar um produto similar. Mulher procura, pesquisa, compara, e se der tempo ainda discute sobre alguma coisa que deu errado.

Pedro, quando vai ao shopping e vê que encontrei o que procurava, logo diz: leva dois! É muito sutil! Cansou de me acompanhar, mas reconheço seu empenho. E acontece com sapatos, roupas, brincos... Para ele todos os brincos são iguais. Qualquer coisa dependurada na orelha é brinco. Tudo igual!

Acho que pelo fato de sermos assim, tão minuciosas, nossos sentidos são mais aguçados. Por esse fato é que mulher consegue trabalhar fora, cuidar dos filhos, da casa, do marido, dos pais, da empregada, do cachorro e ainda discutir  sobre as frescuras do condomínio. Mil coisas ao mesmo tempo; sim, nós podemos!!  Homens não: depois de cada atividade, deitam e dormem. Mas eles não estão errados, apenas são diferentes, cheios de milongas. Cuidam mais de sua profissão.

Supermercado? Homem entra num supermercado já sonhando com a saída. Vão para comprar água; compram água! Mas nós saímos com 4 sacolas lotadas, e sem  água!  Porém...

Numa ferragem ou numa vinícola se perdem no tempo, parece que vão comprar o estabelecimento! Estudam todos os alicates, todas as ferramentas.  Confesso que não curto  esse negócio de ferramentas. Na vinícola, estudam  a rolha da garrafa, a cor, a procedência, a uva e o perfume do vinho... 

Mulher não pede licença para dar conselhos: temos a mania de tentar resolver os afetos das amigas, dar conselhos na cor dos cabelos, na decoração da casa e na educação dos filhos dos outros! Também ficamos bom tempo escolhendo a cor da cama do cachorro - para combinar com o sofá da sala. A casa é mais do cachorro.

Homem não se mete na vida de ninguém. São mais práticos, mais racionais. Mulher é barraqueira, bate boca! Decide logo a bronca de corpo presente. É uma desilusão! É triste, mas é assim. Luta pelos seus direitos.

Mulher aconselha demais, acha que está fazendo  voluntariado. Não, isso é vício, amigas, é aquela coisa de mãe quando resolve educar!! Nós educamos até morrer! Deu pra entender essa loucura? 

Esse nosso lado feminino, multifacetado, é chato e irritante, eu sei disso. Com dois braços tentamos abraçar o mundo  e não desconfiamos que nem todos querem ser abraçados. Mas ninguém percebeu, ainda, que isso tudo que fazemos... nem nós entendemos!



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4 de setembro de 2020

PAI MATERNO - Fabrício Carpinejar





                      __ Fabrício Carpinejar___


Não fui pai observando o meu pai (que hoje é um grande amigo). Aprendi a ser pai observando a minha mãe. Quando garoto de sete anos e memória de sonho, meus pais se separaram, e a vida não foi fácil.
Minha mãe cuidava de dois empregos, trabalhava de manhã, fazia o almoço, voltava ao trabalho, pagava as contas, encaminhava os quatro filhos à escola, limpava a casa, e ainda escrevia, e ainda se arrumava toda bonita com seus lenços no pescoço, e ainda corrigia os deveres, e ainda arranjava tempo para rir no sofá entre a gente, como se fosse um feriado o fato de estar em família.
Nunca a vi xingando. Praguejando. Cobrando. Pressionando. Transferindo culpas. A fatia do queijo era rala, mas o doce de goiaba sobrava e nos fazia esquecer a escassez.
Lá em casa cada um cumpria uma tarefa: eu era o lavador de pratos; Miguel, o varredor; Rodrigo, o arrumador de camas; e a Carla, a responsável pelas saídas em equipe, de mãos dadas.
Dentro de mim, nunca fui sozinho. Se não havia um pai por perto para me ensinar a ser homem, havia um irmão, havia uma mãe, havia uma irmã, havia a telepatia do afeto.
Ser pai é não instruir o filho a lavar o carro, a mijar de pé, a fazer churrasco, a falar palavrão, a desenhar a letra, a namorar, a perder a virgindade, a sair de uma desilusão. Não, não é isso.
Ser pai é somente compreender. Ao compreender meus filhos (Vicente e Mariana), estou sendo eles mais do que poderia chegar a me cumprir. Ao ouvi-los, estou sendo eles mais do que seria capaz de escutar a minha própria voz.
Eu imito as minhas crianças, sou um mímico de seus traços. A cada dia, não são eles que se parecem mais comigo, sou eu que me esforço em me parecer com eles. Sou eu que me esforço para merecer seus rostos, que ficam sobrepostos ao meu.
Tem horas que me pego cantarolando canções deles no trabalho e me dá uma vontade de começar tudo de novo pelo prazer de assisti-los. No filme de meus filhos não quero perder nem os trailers.
A maternidade é inata, a paternidade é adquirida. Eu escolhi ser pai para cuidar do filho que fui, e acabei sendo filho dos meus filhos.
Converso, brinco, ponho eles no degrau de meu ombro, encontro uma liberdade que só existia antes em minha solidão, que está ensolarada com os filhos.

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Fabrício Carpinejar é gaúcho, nasceu em 1972, na cidade de Caxias do Sul (RS). Poeta, cronista, jornalista e professor, palestrante e autor de 43 livros, entre poesias,  crônicas, infanto juvenis. Foi escolhido pela revista Época como uma das 27 personalidades mais influentes na internet. Detentor de mais de 20 prêmios, como Jabuti 2009, APCA 2011 (Associação Paulista dos Críticos de Arte; Érico Veríssimo 2006 – pelo conjunto da obra; da Câmara Municipal dos Vereadores de Porto Alegre; Olavo Bilac 2003, da Academia Brasileira de Letras; Cecília Meireles 2002; da União Brasileira de Escritores (UBE); três vezes o Açorianos de Literatura, edições 2001, 2002 e 2010 entre outros. Trabalhou na TV Gazeta, colunista da Zero Hora,  comentarista da Radio Gaúcha, do programa Encontro com Fátima Bernardes. Seus poemas aparecem como questão de grande parte dos vestibulares do Brasil, como na UFRJ, UFRGS e Universidade Católica de Goiás. Integra coletâneas no México, Colômbia, Índia, Estados Unidos, Itália, Austrália e Espanha. Em Lisboa, a Quasi editou sua antologia Caixa de Sapatos - 2005. Também em Portugal a editora Quatro Estações lançou o livro Ajuda-me a chorar, em 2014.




Nesse blog:

           Carpinejar - Falando de amor