1 de julho de 2020

VIDA: ROSAS E ESPINHOS




              - Taís Luso de Carvalho

Tenho uma certa dúvida com gente que se mostra sempre muito feliz. Parecem celebridades de Museu de Cera - sempre iguais.  Aparentar um quadro de tristeza, de insatisfação, de fragilidade é coisa difícil para essas pessoas.  Gosto de gente que mostra seus sentimentos. 
Falo isso hoje, talvez por ter lido alguns textos tristes, por ter arrumado minhas caixas de fotos e feito um balanço da minha vida. Olhei fotos de meus pais - parte de mim que se foi -, e bateu-me muitas saudades mesclada com  tristeza.  Quero ter a liberdade de poder me sentir um pouco bagunçada por dentro. Não vou escarafunchar em busca dos porquês de minhas reações, pois me conhecendo bem, sou capaz de ir caminhando por uma autoterapia e chegar nos problemas emocionais da minha bisavó. Sim, comigo a coisa se estende.
Li, há pouco, uma reportagem muito triste: o filho, num hospital, em estágio terminal, recebe a visita de seu pai. Há 18 anos não se viam! São retratos de família? Por certo. A foto mostra os dois se olhando, de mãos entrelaçadas, olhos marejados que diziam tudo da vida que não viveram; da cumplicidade que não tiveram. Para um entendimento, é tarde. O tempo restante é apenas para a despedida. Muito triste. 
Depois dizem que a vida não é madrasta... Mas como não, se até Manuel Bandeira num de seus belos poemas chora e diz  que a vida lhe é madrasta! Como não acreditar? Poetas não mentem, trabalham com o coração. O que mente é a razão! 
Famílias em longos desacertos como se a vida fosse infinita e nos desse um enorme tempo para a reconciliação. Ao ver certas situações  pergunto o real valor dos sentimentos e dos nossos laços afetivos, esse sentimento tão falado, tão sentido e preservado.
Trilhar nosso caminho, aceitando que a vida é uma dádiva e que todos devem se amar? Não; as pessoas não funcionam assim. Utopias não funcionam e panos quentes não cicatrizam feridas antigas de ninguém.
A vida é assim, cheia de sentimentos contraditórios; alegria, tristeza, força e fraqueza, amor e ódio. E nesse meio é que dançamos.
Quero poder curtir minhas alegrias e tristezas, refletir e chorar, pois  as lágrimas me farão amadurecer e me darão o real sentido de tudo que me rodeia. Só assim terei meu verdadeiro andar. E se tiver sorte, um longo andar...
Deixo aqui Que c'est triste Venise, com Charles Aznavour, porque se for pra sofrer que o serviço seja completo! 
A música é triste, mas é linda. 



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23 de junho de 2020

A FALSA VIAGEM DO CASAL




                    - Taís Luso de Carvalho                 

Li um excelente conto do saudoso  Moacyr Scliar, médico e escritor gaúcho, membro da Academia Brasileira de Letras. O título do conto é  'Os Turistas Secretos', e do qual não dá para esquecer! 
Trata-se de um casal que não tinha condições financeiras  para viajar como os seus amigos. Sentiam-se, o marido e a esposa, um tanto desconfortáveis. O primo pobre do grupo.
Pois bem, esse casal pensou numa saída para suas frustrações e um certo desconforto: contaram a todos os seus amigos que iriam viajar no mês seguinte para a Europa. E veio um óhhh!!! Aquela coisa gentil, coisa de turista para turista; aquela forcinha básica para elevar as criaturas.
O marido e a mulher despediram-se dos amigos, fizeram compras no supermercado para 30 dias  e passaram um mês, trancados dentro de casa,  assistindo a muitos documentários dos  países que fariam parte da rota escolhida. Nada, se via naquela casa: nem luzes, nem ruídos, nem sombras! Ficaram isolados por um mês.
Passados os 30 dias abriram as janelas, as pesadas cortinas e telefonaram aos amigos,  com a típica alegria de chegada,  avisando do retorno!! 

Saudosos, os amigos foram se reunir na casa do casal para saber das novidades. O feliz casal começou a contar toda a viagem que não existiu; contaram sobre os museus que visitaram, teatros e passeios. Dessa maneira resolveram seu problema,  e  ficaram em igualdade! Emergiram!!
Esse tipo de gente não existe apenas no conto de Moacyr Scliar: o mundo está cheio delas. Muita gente, quando volta dos quintos dos infernos,  conta aos amigos e parentes que estiveram no paraíso. E loucos para postarem as novidades no Facebook! É preciso passar um encantamento, um certo valeu a pena.
Conheci, há anos, um casal em que a mulher tinha um sonho de consumo:  andar de gôndola sobre as águas de Veneza! Lá foram eles para Veneza realizar o sonho da deslumbrada criatura. Na primeira voltinha a beldade enjoou tanto que vomitou o mundo! Tiveram de descer; o tal sonho acabou em dois toques. Porém, contaram aos quatro ventos que foi tudo maravilhoso, um passeio de gôndola inesquecível!
Muitas pessoas viajam com a esperança de mudarem algumas coisas em suas vidas, em suas cabecinhas. Mas não; uma viagem não muda ninguém, todos voltamos iguaizinhos! Voltamos tão iguais como partimos: com os mesmos problemas, as mesmas dúvidas, as mesmas fraquezas, as mesmas virtudes  ou as mesmas inseguranças. Viajar não é psicoterapia; é lazer, é conhecimento,  e traremos uma bagagem cultural excelente, sem dúvida.  E valerá sempre. 
Mas de uma coisa tenho certeza: eu adoraria ter participado da reunião  pós-viagem  daquele casal do Moacyr Scliar, quanta coisa não aprenderia sobre o ser humano? E a diversão seria certa, inesquecível!

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Instrumentista Katica Illényi


O Theremin é um instrumento eletrônico controlado sem qualquer contato físico pelo músico. Seu inventor foi o russo, Léon Theremin em 1928. Consiste de 2 antenas de metal que percebem as mãos do músico e controlam as oscilações de frequência, percebe o volume e a amplitude, sem toque algum. É maravilhoso!

A história do Theremin, aqui.


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17 de junho de 2020

O NOSSO ENVELHECER





                       ___Taís Luso de Carvalho___

Primeiro temos de esperar acontecer a descoberta da vacina para o covid 19, depois sairemos dessa pandemia, exaustos, sofridos, alguns mais pobres, outros mais ricos; alguns mais gordos, outros mais magros; uns equilibrados, outros mais neuróticos. E a vida seguirá.

Mas cada um de nós sairá desse isolamento com alguma coisa que aprendeu,  certamente. Porém o que temos no momento é uma montanha de preocupações com uma boa instabilidade no nosso país. Segundo o nosso vice-presidente, Hamilton Morão, não temos uma instabilidade Institucional, temos no país é uma grande instabilidade emocional.  Concordo em parte, mas a desarmonia é grande, cada amanhecer  é uma caixinha de surpresa, mas vamos nos animar, pessoal! Um dia tudo irá para o lugar certo, assim espero.

Além dessa atual pandemia há uma exaustão política; estamos intranquilos, inseguros e meio desorientados. Estamos preocupados, queremos viver com tranquilidade, ver a beleza nas coisas mais simples; queremos nos comprometer com um futuro que nos dê segurança, saúde e educação. Depois exigimos o resto...

A gente vai sacando, que pouca coisa tem importância, por isso, que com o passar dos anos vamos nos desapegando da cacarecada inútil de fases que passaram. O foco agora é outro. O presente é esse, temos de arrumar é o nosso futuro!

É bom esquecermos daquela palavrinha chula de 'melhor idade', essa ilusão em nossa vida parece brincadeira. Quando eu tiver 90 anos, por certo não chamarei de minha melhor idade, mas será uma fase da minha vida que viverei com a intensidade que puder. Existem excelentes momentos em todas as fases da vida. É questão de adaptação, estarmos vivos é maravilhoso.

Quero ter o meu silêncio, quero conservar os meus sentimentos e poder chorar descansada para manter a leveza da minha alma.

Lembro de uma frase na  parte final de um texto de Oswaldo Montenegro que diz  assim:

"A gente vai sacando que não tem importância e que pouca coisa no mundo tem importância, isso primeiro frustra, depois vai dando alívio e liberdade."

 "Vale a pena! Se puder, envelheça”.






8 de junho de 2020

O PÓS-PANDEMIA





                   -Taís Luso de Carvalho



Não; não vou pintar o quadro cor-de-rosa ou falar que estou otimista, que tudo vai ficar ótimo e que Deus colocará suas mãos sobre um novo mundo pós-pandemia Covid 19. 

Não sei, Ele já criou as suas criaturas: Adão e Eva - não saíram lá grande coisa. A criação ficou mais complicada com Caim e Abel que também não deram certo, Caim matou Abel. Depois disso foi dada a largada, e cada um por si escolheu seu caminho com seu Livre Arbítrio. E assim segue a humanidade.

La atrás,10.000 anos, surgiram as pandemias causadas pela domesticação de animais e a invenção da agricultura. Foram várias pandemias. Mas foi no século 14, em 1346 que a humanidade conheceu a mais mortal das pandemias, a Peste Negra que matou um terço da população européia. Depois veio a Cólera em 1852, a Gripe Espanhola em 1918, a Gripe Asiática 1956, a AIDS em 1976 e a Covid 19, em 2020 - entre outras menos agressivas no passado.

Bem, com tudo isso, o homem continua o mesmo Bárbaro, basta recordarmos o assassinato de George Floyd há 14 dias nos Estados Unidos, um homem negro de 46 anos que teve o pescoço brutalmente pressionado pelo joelho de um policial, por mais de oito minutos.  Racismo! Essa é a explicação.

Também cito a violência nos jogos de futebol, quando torcidas se agridem e se matam! Não vou trazer outras tantas tragédias que nós, Bárbaros, somos os protagonistas, como as duas Grandes Guerras Mundiais, Holocausto etc. O que mudamos? Não seria a hora?

Recordo de uma festa que deixei de gostar: o Natal! O mês de dezembro é o mês mais lindo do ano, dá vontade de sair na rua abraçando o mundo inteiro. Sim, é um sentimento diferente que temos no mês de dezembro. Todos muito alegres e solidários, uns com os outros. Nada de brigas, rancores e ódios. Um paraíso construído no coração de cada um de nós. Mas em janeiro? O amor continua a fluir? Não, esse sentimento é esquecido, mas no ano seguinte  ele volta, fantasiado de ternura e de amor. É sempre assim.

Então não tem como acreditar em mudanças no dito Novo Normal, até porque o normal que tínhamos não era grande coisa. Mudaremos, talvez, nas coisas práticas, seguras e bem mais simples! Acredito nisso, mas simplesmente porque teremos de aprender a conviver com o Coronavírus por muito tempo! Mesmo com as vacinas seremos seres temerosos. Vulneráveis, como agora. 






1 de junho de 2020

BUSCANDO MAIS PAZ





___Taís Luso de Carvalho___

Hoje trago ao blog uma experiência para compartilhar com vocês. Não que alguém necessite de conselhos, longe disso, apenas uma partilha de experiência. Partilha de vida. É muito bom recriar atitudes. Não importa a idade que temos, sempre há um recomeçar.
Há tempos que descobri, nas minhas reflexões, que uma das melhores atitudes para termos mais paz é não nos metermos na vida dos outros. Parece coisa simples, mas temos atitudes e ideias muito consolidadas e muitas vezes tentamos influenciar nossas famílias ou amigos pensando que estamos fazendo um grande bem. Dá uma vontade louca de aconselhar a um atrapalhado dizendo:
"Faça assim que é melhor ou Não vá lá que você vai se danar! "
Isso é pouco, imagine coisas de mais peso! Parece brincadeira, mas é só pensar o quanto nos incomodamos sem necessidade. E se o nosso conselho der errado? O desgaste emocional será grande. Ao somarmos os pitacos que damos na vida alheia veremos que nossa intromissão foi longe demais. Muitas doenças são psicossomáticas, começam na mente, resultado do emocional.  Nossa pressão arterial sobe e desce várias vezes ao dia conforme nossas emoções. Isso é silencioso e requer atenção.
Pense antes se uma pequena intromissão não irá se transformar num rolo dos infernos e tirar sua paz. Conversei com algumas pessoas conhecidas que tiveram um AVC devido ao  estresse emocional. Ouvi histórias, que loucura.  Antes de emitir um conselho, passei a pensar mais. Manter-se mais reservado  é o primeiro sinal para a paz almejada. Conselho sim; mas só  se a pessoa pedir! 
Se alguém vier me presentear com um conselho, daqueles bem sinceros, me dizer certas durezas 'sem eu ter pedido', eu não vou gostar. Não vou escutar.
Muitas vezes os nossos filhos, parentes ou amigos, com cabeça já formada  e com suas ideias um tanto acimentadas, até escutam nossas ideias  maravilhosas,  mas alguns segundos bastam para revirarem os olhinhos. Então, por que insistir mais? Sei que é difícil ver certas coisas e ficar quieta, mas depois é um afago no nosso coração. 
Paz é estar em harmonia e tranquilidade com todos.  Principalmente com nós mesmos. É uma sensação de liberdade sem tamanho.







23 de maio de 2020

UMA GAFE EM PLENA PANDEMIA ?





                     - Taís Luso de Carvalho


Tenho escutado muito que o mundo será outro após essa pandemia do Covid 19, mas cá pra nós, lá do fundinho de minha alma gostaria que o mundo se transformasse num mundo de mais solidariedade, de mais paz e verdades, de mais felicidade, enfim, um mundo mais puro. Pois é, mas não consigo acreditar nisso.

Vejam, se em plena pandemia e um mundo em agonia continuamos a ver as mesmas atrocidades de antes, qual a razão que esse mundo me apresenta para eu pensar que tudo será diferente? A humanidade continuará a ser feita  da mesma matéria,  não será um pouco de ingenuidade pensar que teremos um novo mundo? Em plena pandemia as pessoas estão confrontando-se, estão matando com crueldade!! Não será aquele conhecido otimismo exagerado de pessoas esperançosas que no seu íntimo querem acreditar num outro mundo? Também gostaria de um mundo muito diferente.

Sim, vamos nos abraçar, sem dúvida, mas e depois, quando tiver passado a euforia dos encontros, das emoções, das saudades; depois de levarmos umas tamancadas dos vizinhos, nas reuniões de condomínios, das amigas, dos parentes que forem contrariados nos seus desejos, nas suas ideias, nas suas vontades, cairemos na real: o mundo seguirá seu curso, algumas pessoas poderão mudar um pouco, sem dúvida, mas não o bastante para ser um outro mundo.

Para amenizar essa crônica contarei minha gafe, fiquei meio surpresa, mas foi hilário. Faz de conta que estamos sentadas no sofá...

Bem, eu precisava resolver um problema no meu Banco, e telefonei para minha gerente, pessoa muito querida. Gosto muito dela, uma ótima profissional,  simpática, muito agradável. Fico muito agradecida quando as pessoas se propõe a ajudar outras. Após ela ter tido a maior paciência em responder minhas dúvidas, me despedi e disse - como costumamos falar aqui no Brasil:

- Qualquer dia eu passo aí pra te dar um beijinho e um abraço, estou com saudades!
Imediatamente ela retrucou:
- Não, Taís, sem abraços e sem beijinhos, a coisa mudou!

Comecei a rir da minha mancada e de sua cortada! Rimos juntas. Mas ela estava com a razão! Os brasileiros são muito efusivos, ao conversarem cutucam o  outro de 2 em 2 minutos  (para chamar a atenção pra si). Cutucam no braço, no ombro, na bolsa... Coisa muito irritante, é vero. E os abraços parecem uma despedida eterna!
Talvez leve um tempo, mas as máscaras que estamos usando  nos ajudarão a parar com essa mania.  É muita mão de obra. Seria bom cumprimentar como o povo japonês, com um leve aceno com a cabeça. Estaremos menos expostos ao coronavírus e outras coisas mais. Já estou lançando mão do abaninho, chegando abanando!!

No Brasil, acredito que os beijinhos e abraços diminuirão muito, ficarão para ambientes mais reservados, ou mais familiares. A dor ensina a gemer!









15 de maio de 2020

RUGAS / Affonso Romano de Sant'Anna





RUGAS


Estou amando tuas rugas, mulher.
Algumas vi surgir, outras aprofundei.

Olho tuas rugas.
Compartilho-as, narciso exposto
no teu rosto.

Ponho os óculos
para melhor ver na tua pele
as minhas / tuas marcas.

Sei que também me lês
quando nas manhãs percebes
em minha face o estranho texto
que restou do sonho.

O que gastou, somou.
Essas rugas são sulcos
onde aramos a messe do possível amor.



Sobre a poesia de Affonso Romano de Sant'Anna, diz Hélio Pellegrino:
Seu poema fala não apenas da crise de identidade nacional, e do remédio para ela, mas da crise mítico-poética-religiosa que assombra o mundo. Você dá notícia do lugar onde dormem os deuses. E o seu poema é um cântico ritual para invocá-los e acordá-los. Nessa medida, é uma festa anti-orfandade.

Affonso Romano de Sant'Anna nasceu em Belo Horizonte MG/Brasil - 1937. Poeta, crítico e professor de literatura e jornalista. Em 1964 obtém o grau de doutor pela UFMG, com apresentação de tese sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987). Assume a presidência da Fundação Biblioteca Nacional em 1990. Um ano depois, cria a revista Poesia Sempre, importante veículo de divulgação da poesia nacional no exterior. 


É nomeado, em 1995, para o cargo de secretário-geral da Associação das Bibliotecas Nacionais Ibero-Americanas. Também colaborador assíduo da imprensa em toda sua carreira jornalística, escreve textos para os jornais O Globo, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, Correio Brasiliense e O Estado de Minas. Tem poemas traduzidos para o espanhol, inglês, francês, alemão, polonês, chinês e italiano - escritor e poeta com 70 livros publicados. 

Poesia Reunida 1965 - 1999 / L&PM - pg 200







7 de maio de 2020

ESTAMOS JUNTOS - VAMOS LUTAR!

Há uma surpresa nesse vídeo...Emociona - Tudo vai passar!



 - Taís Luso de Carvalho

Há quatro dias me programei para assistir o dossiê sobre o Covid 19, na Itália. Seria no canal CNN - Brasil.  Uma pandemia que iniciou na China e que se alastrou pela Europa e de lá para outros  continentes.  Jamais imaginei que um dia eu viveria  uma situação tão dramática.  Um vírus que assolaria o mundo, que nos deixaria amedrontados ante um inimigo desconhecido.

Logo após visitar as ruas e recantos solitários da linda cidade de Bérgamo, fui dirigida à CTI de um de seus hospitais. Meu coração disparou ao ver cenas que mais pareciam tiradas de  um filme. Cenas fortes, não gostaria de revê-las. Uma ambulância nas ruas da minha cidade me coloca em agonia, imaginem ver uma CTI onde corpos imploram por vida! É uma agonia ver a vida perder sua força. Ver a luta contra um inimigo desconhecido, sem saber que armas usar, sem saber como e quando derrubá-lo. Foi uma cena que me impregnou de grande sentimento de gratidão, mas também mostrou-me o quanto somos frágeis. Ver a finitude tão próxima nos deixa uma sensação terrível.

Há tempos estamos em casa, calmos quanto ao confinamento, porém angustiados com a quantidade de pessoas morrendo no mundo todo. E todos os dias escutamos a progressão da doença no Brasil, mesmo sem querer entra o plantão, com todos  os números de  infectados e baixas.

É triste quando vou ao terraço do apartamento e vejo minha rua solitária e silenciosa. Olho ao longe para os morros verdes onde a natureza desabrocha, mas ao voltar meu olhar para mais perto, um grande hospital todo iluminado em meio às árvores e flores, vejo tudo muito triste. No entanto, sei que algumas pessoas me dirão:

Viva um dia de cada vez!

Não; não vejo essa possibilidade e nenhum sentido existe nessa frase quando estamos vivendo tempos de grande estresse e emoção. Enquanto uns estão lutando para salvarem vidas dentro dos hospitais, outros estão embrulhados e preocupados com crises políticas e  pessoais. É triste e incompreensível. 

Precisaríamos ter um ambiente menos tenso no país para aguentar o tranco dessa pandemia. Nesse momento dramático e de angústia gostaríamos de ouvir dos nossos governantes alguma coisa que nos dê esperança:

  Estamos juntos, a força está na união,  vamos lutar,  vai passar!




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Vídeo: Stjepan Hauser é um violoncelista croata.