20 de outubro de 2019

MAR PORTUGUÊS - Fernando Pessoa




MAR PORTUGUÊS  / Fernando Pessoa




Ó Mar Salgado, quanto do teu sal!
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

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In , Poesias, Fernando Pessoa - Porto Alegre: L&PM 1996, p. 9
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Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, a 13 de junho de 1888. Não é apenas falar do maior poeta da língua portuguesa do século XX, mas é também falar de uma personalidade  controvertida (como a de todo o gênio) e de uma obra vasta, afinal, Pessoa é vários poetas num só. Filho de Joaquim de Seabra Pessoa, funcionário público e crítico musical  e de Maria Madalena Pinheiro Nogueira. 

Com 5 anos de idade, Fernando Pessoa perde o pai  (de tuberculose), e sua mãe ganha o irmão Jorge. A morte do pai traz muitas dificuldades financeiras e a família é obrigada a baixar o nível de vida, passando a morar na casa de Dionísia, a avó louca do poeta. Em 1894 morre o seu irmão, a vida de F. Pessoa é marcada por acontecimentos trágicos. Em 1895 sua mãe casa-se com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, na África do Sul e para lá a família se muda no ano seguinte. Lá, Pessoa cursa o primário num colégio de freiras e 3 anos depois ingressa no Durban High School, considerado um aluno excepcional,  faz em 3 anos o que deveria fazer em 5 anos.

Em 1905 o poeta retorna a Portugal onde vai morar com a tia-avó Maria, e inscreve-se na Faculdade de Letras, mas com a criação poética pulsando em toda a sua intensidade. Em 1906, com a morte da avó, recebe uma herança e aplica numa pequena tipografia. Falta-lhe experiência e o empreendimento fracassa. Passa, então, a trabalhar como correspondente de línguas estrangeiras em escritórios de importação e exportação.

Em 1935 Fernando Pessoa, deixou a sua última frase em inglês: 
I Know not what tomorrow will bring. ( Eu não sei o que o amanhã trará). Morre no dia 30 de novembro de 1935, no hospital de cirrose hepática, aos 47 anos.

Voltarei em outra postagem escrevendo mais sobre a vida de Fernando Pessoa, o ícone da poesia moderna, trarei, principalmente, como nasceram seus heterônimos.

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Mar  Português / declamado por Silvio Matos








13 de outubro de 2019

CONDUZIR A VIDA É UMA ARTE

daqui: Das Artes / Taís Luso



          - Taís Luso

      Ontem encontrei com uma antiga vizinha do meu bairro, ao mesmo tempo que gostei de encontrá-la, fiquei com dó de vê-la  tão envelhecida para sua idade. Tantas foram suas incomodações, tantas preocupações em sua vida que estava aparentando uns dez anos a mais do que realmente tem. Seu filho casou-se, mas ela continuou com suas intromissões em sua vida, como se pequeno ainda fosse. Suas ingerências na vida do novo casal viraram um bumerangue; daí nasceu um problema com a nora. 

Pois bem, os filhos crescem, entram na tranquila adolescência, ficam adultos, amadurecem (ou não), deixam a casa dos pais para cuidarem de suas vidas, de seus sucessos, também de suas encrencas - até então também dos pais. 

Um ponto é pacífico: chegou a hora das mães aceitarem as mudanças da vida. Aquela história de Ninho Vazio, não cabe mais no século XXI, mas ainda existe, apesar de um  caminho onde há mais liberdade e calma para todos familiares. A vida continua. Contudo, a situação é um pouco complicada para essas mães que se sentem solitárias e entram em depressão; é preciso trabalhar esse quesito. Essa ausência dos filhos, que muitas sentem, é bem conhecida. 

Mudar o rumo nesse momento, dar adeus à ansiedade, ao estresse e reduzir os compromissos, certamente fará a vida  mais leve para os pais. Está na hora de recomeçar outra jornada, abraçar atividades prazerosas e ver nessa nova vida muitas opções, e conviver maduramente com os filhos. Aliás, é muito bom, é um outro tipo de relacionamento.

Ter ou não metas para o futuro, será uma escolha; há pessoas que ficam pressionadas pelo sistema, ansiosas e com o pensamento no futuro, quando o importante é ter o foco mais no presente, no dia a dia. Buscar as oportunidades que interessam depende de cada um, como e quando buscá-las. Certamente encontrarão soluções para os problemas, mas o importante é viverem felizes. 

Conduzir nossa vida é como trabalhar uma obra de arte, poderemos acabar a obra com todos os detalhes perfeitos, caso contráriopor descuido, a obra jamais chegará ao seu destino. 

"Cumprir a vida é simplesmente entender a marcha!"

"Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais"
(Almir Sater)




5 de outubro de 2019

CUIDADOS COM OS FILHOS





             - Taís Luso

Está claro que as crianças de hoje não escapam de comparações com a geração que lhes antecedeu. A diferença é muito grande, mesmo porque os pais também mudaram muito seus hábitos, a informática revolucionou o mundo, tornando todos um pouco mais solitários.
Criancinhas de 1 ano de idade estão com celular nas mãos, clicando e olhando para a tela como se fosse um desenho animado. Isso em plena formação do cérebro, o que não é nada bom.
Sea atual geração mais feliz do que as duas últimas ? Serão adultos mais felizes? Ou mais criativos, quem sabe!? O que poderá acontecer com essa total informatização na cabeça das crianças, eu não sei muito bem o tamanho do estrago.
Conheci muitas crianças que cresceram engessadas na telinha. Não sei como estão suas mentes, suas emoções, suas aptidões, seus sonhos. Torço para que fiquem bem e sejam felizes. Atualmente as crianças  crescem sem pegar uma boneca, um carrinho, livros, brinquedos, joguinhos concretos ou interagindo com outros amiguinhos. Crescerão meio solitárias, na frente da tela. Cada um com seu celular, - ausentes.
Quando vejo uma criança pequena com celular na mão, faço força para que meu semblante não se mostre aos pais. Não acho nada engraçadinho! Mas, cada um no seu mundo e que sigam na vida, pois de nada adiantará falar aos pais sobre aquelas  cabecinhas em desenvolvimento.
Hoje, ser pai e mãe é complicado. Os pais precisam ter uma mente de 'agente investigativo'. Sentir de longe  onde está o perigo para seus filhos, principalmente se ficarem  soltas  na Internet.
O que outras gerações tinham de bom foi uma infância real: à noite, na mais tenra idade, nossas mães cantavam as canções do bicho-papão, do boi da cara preta, da rosa despedaçada, do pau no gato e outras do gênero. Sim, não eram nada pedagógicas as canções, mas garanto que não fiquei traumatizada.
Minha geração queria crescer e imitar os pais. Eu me lambuzava com o batom de minha mãe, calçava seus sapatos de salto alto e ia para a frente da nossa casa mostrar a minha pretensa maturidade, o quanto eu tinha amadurecido. Essa era a nossa sensualidade, bem infantil. Ia para a biblioteca de meu pai e ali eu achava que alguém iria acreditar que eu estava entendendo alguma coisa, com 8 ou 10 anos! Tudo imitação. Boa e saudável, era o nosso mundo do faz de conta.
Sim, minha geração imitava os pais, eles eram nossa inspiração, nossos heróis. Hoje, nossas crianças têm outros ídolos, e por muitos deles eu não tenho  nenhuma simpatia pelo que são, pelo que fazem e pelo que representam para as crianças. É outro mundo, um tempo  mais frouxo. 
Torço pelo novo mundo dos pequenos. Que façam bem suas escolhas. Que sejam seletivos.

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fotos  da  Internet
Nada saudável... viciante


27 de setembro de 2019

MORAR EM CONDOMÍNIO É UMA ARTE !



            - Taís Luso de Carvalho

Muitas coisas jamais mudam durante nossas vidas. E uma delas, são os relacionamentos dentro dos condomínios. Acontecem coisas hilárias. E às vezes trágicas. Lógico, quanto maior o prédio, maiores serão os rolos, e os felizes moradores jamais ficarão aborrecidos, porque sempre terá alguém para ser crucificado, principalmente nas calmas reuniões de condomínio. É questão de tempo e de oferta. 
O convívio humano é surpreendente, uns muito simpáticos e solidários, outros carentes de sociabilidade. São encrenqueiros de origem. Não é divertido entrar de manhã no elevador, olhar para uma vizinha e ver que a mulher acordou azeda.
Há uns condomínios muito hostis, sabemos disso, um desencanto segundo várias observações.  Quanta gente maravilhosa! É, mas existem. E acontece em qualquer classe social, a loucura não escolhe posição social, nem credo, nem etnia.  Ela vem fantasiada de qualquer coisa desequilibrada.

Quando pensamos que tudo está em paz, estoura a boiada: as rosas do jardim murcharam, o cachorro da madame mijou na escadaria, o sapato do porteiro não combina com o uniforme e entra na pauta do dia, a faxineira estraga tudo e não conta, o vizinho ocupa duas garagens, o velhinho solitário e surdo  escuta Pavarotti   às 6:00 da manhã... É um despertador.

Geralmente as janelas dos banheiros abrem-se para um poço único, e é algo peculiar das mães discutirem com os filhos dentro do banheiro - de onde não podem fugir. Caramba!!  Mas mãe é assim, solta o verbo, quando a causa é nobre.

Fazer amizade num condomínio é nitroglicerina pura. Há anos fiz essa bobagem. Não notei que a criatura era conturbada,  quando percebi ela já estava quase se mudando para minha casa, tive que dar um chega pra lá,  na dureza. Mas aprendi, ah se aprendi!!  

Parentes morando no mesmo prédio, no início é uma glória, depois vira cômico e, por fim, uma tragédia. Prato cheio para novela de TV. Aqueles dramalhões repetitivos. To fora.

O pobre do síndico sempre é um  infeliz e o último a se convencer de sua tragédia; ao tentar colocar ordem no pedaço (prédio), vira um carrasco; se ficar quieto vira um bunda-mole. Caso venha a escolher a melhor empresa para a manutenção do prédio, dirão que está levando propina; se escolher uma  mais em conta, será mão-de-vaca. Suas escolhas nunca serão felizes.

Geralmente os síndicos ficam muito estressados, quando deixam o cargo  estão com a Síndrome do Pânico.  Coitados. 

Mas é isso aí, despeço-me por hoje, desejo sorte, paz e alegria a todos os simpáticos moradores de condomínios como eu - Até mais!

       
_________________(reeditado)__________________


Esta é uma 'saudável' reunião de condomínio! 😁😂😁😂




22 de setembro de 2019

INQUIETAÇÕES



         - Taís Luso


Por vezes me perguntei, em certas ocasiões, se as pessoas eram alegres ou felizes. É fácil confundir esse estado de espírito. De qualquer forma, tanto um como o outro são sempre bem-vindos, mas creio que há uma diferença significativa. Com certeza o paraíso não é um lugar físico, e sim um estado de felicidade permanente .
Fiquei pensando nessas duas palavrinhas que são aparentadas: alegria é um acontecimento prazeroso; felicidade é uma satisfação plena, um contentamento interior duradouro. Dizia Carlos Drummond que ser feliz - sem motivo - é a mais autêntica forma de felicidade. Maravilha, poeta!
Que maior sentimento almejar senão essa felicidade? E como nossas reações e nosso humor mudam conforme os ventos - tipo biruta de aeroporto -, temos os períodos de alternância: dias alegres e dias sombrios. E assim viveremos até o último dos nossos dias.
A alegria pede para termos, enquanto a felicidade pede para sermos. Mas nossa sociedade gosta de viver de aparências, curtir os excessos, mostrar o seu Bugatti guardado como troféu na grande sala da casa, mostrar a riquíssima adega com os vinhos de uma safra de cair o queixo, mostrar a bela e futurista residência e por aí afora. Somos seres vaidosos, adoramos umas purpurinas grudadas no ego.
A vida é feita de momentos, feita de alegrias, tristezas, frustrações, decepções, renúncias, encontros e desencontros. Então não há como ser hospedeiro fiel da felicidade num mundo de brigas, de inveja, de doenças e medos; não há como ser feliz no abandono, na falta de respeito, na solidão; não há como ser feliz em meio a arrogância, à injustiça e à pobreza; não há como ser feliz na fome, nas promessas do poder e nas mentiras. Não há como ser feliz na inconstância. Não somos iguais, como dizem. As nossas desigualdades medem forças enquanto lá do topo da pirâmide o dinheiro governa o mundo do seu jeito. Do jeito que quiser.
Ninguém consegue lidar com tudo isso numa santa harmonia, talvez algum monge consiga esse estado de felicidade, vivendo nas proximidades das nuvens e longe dos homens. Sim, porque nós, filhos da Terra não nos garantimos! Na verdade, ninguém nos disse que viríamos para um paraíso. Estamos aqui por alguma razão que desconheço, uma das tantas inquietações que o ser humano ainda não descobriu.

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Felicidade / de Lupicínio Rodrigues








14 de setembro de 2019

POEMAS / Affonso Romano de Sant'Anna




LEITURA NATURAL



Tendo lido os jornais
- infectado a mente, enauseado os olhos -
descubro, lá fora, o azul do mar
e o verde repousante que começa nas samambaias
da sala
e recrudesce nas montanhas.

Para que perco tantas horas do dia
nessas leituras necessárias e escarninhas?
Mais valeria, talvez, nas verdes folhas, ler
o que a vida anuncia.

Mas vivo numa época informada e pervertida.
Leio a vida que me imprimem
e só depois
o verde texto que me exprime.


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  CILADA VERBAL  

Há vários modos de matar um homem:
com o tiro, a fome, a espada
ou com a palavra
– envenenada

Não é preciso força.
Basta que a boca solte
a frase engatilhada
e o outro morre
– na sintaxe da emboscada.


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Affonso Romano de Sant1Anna
Poesia Reunida 1965 – LP&M 1999 / volume 2
Affonso Romano de Sant'Anna nasceu em Belo Horizonte MG/Brasil - 1937. Poeta, crítico e professor de literatura e jornalista. Ainda pequeno, muda-se com a família para a cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, onde inicia seus estudos e se aproxima da literatura ao frequentar as bibliotecas públicas. Começa a carreira jornalística em 1953, publicando críticas de cinema e teatro no Diário Comercial e na Gazeta Mercantil. 

De família protestante, em 1954, viaja por diversas cidades mineiras pregando o Evangelho em favelas, hospitais e presídios. Em 1962 o bacharela-se em letras neolatinas na Universidade Federal de Minas de Minas Gerais e publica seu primeiro livro de ensaios, O Desemprego do Poeta. Organiza, com outros poetas mineiros, a Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, em 1963. 

Em 1964 obtém o grau de doutor pela UFMG, com apresentação de tese sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987). Casa-se com a escritora Marina Colasanti, e em 1970 vai residir no Rio de Janeiro. Ministra cursos na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - e na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como professor convidado, dá aulas de literatura e cultura brasileiras em universidades da França, Alemanha e Estados Unidos. 

Assume a presidência da Fundação Biblioteca Nacional em 1990. Um ano depois, cria a revista Poesia Sempre, importante veículo de divulgação da poesia nacional no exterior. É nomeado, em 1995, para o cargo de secretário-geral da Associação das Bibliotecas Nacionais Ibero-Americanas. Também colaborador assíduo da imprensa em toda sua carreira jornalística, escreve textos para os jornais O Globo, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, Correio Brasiliense e O Estado de Minas. Tem poemas traduzidos para o espanhol, inglês, francês, alemão, polonês, chinês e italiano - escritor e poeta com 70 livros publicados. 
     
                        


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7 de setembro de 2019

RESIGNAÇÃO

Veneza 

- Tais Luso
Aportamos nesse mundinho sem saber nada sobre nossas vidas; se seríamos mais felizes do que tristes e quais desafios teríamos pela frente. Por certo tudo faria parte da nossa bagagem  e algum peso teríamos de carregar, sem sofrer muito, se possível. E aqui estamos contentes pela vida que recebemos. Mas nem sempre somos gratos.
Há tempos, recebi uma linda mensagem por e-mail. Mostrava a cidade de Veneza num melancólico inverno, enquanto Charles Aznavour cantava, ao fundo, Que c'est triste Venise. Por incrível que pareça, me senti lá naquela paisagem, naquele inverno meio triste, como é em qualquer lugar. 
Porém, Que c'est triste Venise me pegou de mau jeito: começou a vir à tona algumas de minhas perdas e outras coisinhas normais do percurso.
Em pouco tempo estava aberto o baú das lembranças, onde estava tudo arrumado, sem problemas. Mas este é o resultado de sermos tocados por uma música triste, num inverno nebuloso. A vida tem a capacidade de remexer no fundo do nosso baú e dizer:
Pronto... relembra aí tuas tristezas e te vira!’
Incomoda. Mais tarde, fui dar uma volta no meu bairro, lindo dia de verão, árvores e casas já tão familiares, fui pensando na minha família, na minha cidade, no bairro. Tive a sensação de que tudo era meu, mas que um dia deixarão de ser. A vida vai continuar. São pensamentos difíceis de serem dominados, pois chegam sem pedir licença para entrar. E fazem uma bagunça nas nossas emoções.
Quando crianças e adolescentes temos nossos medos, nossas frustrações e inseguranças. E nada disso acaba; chegamos na maturidade e enfrentamos novas dúvidas, preocupações, medos que triplicam, pois não somos mais sozinhos.
Fiz força e busquei pensamentos mais alegres e significativos. Não vale a pena remexer no passado, trazer mágoas e raivas que só servem para tirar o foco do presente e do futuro.
O tempo leva consigo a bela e inquietante juventude e nos dá a maturidade, a experiência e a paz. É uma troca.
Está bom assim, com o andar da carruagem a gente vai aceitando bem essas  trocas que a vida nos impõe. Salvo o dia em que ela puder triplicar nosso tempo de vida!  Talvez num futuro distante aconteça essa renovação.

Agora, apenas a 'resignação, a aceitação do  tempo que temos', o tempo que a vida nos dá. Não tem outro jeito.



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Charles Aznavour / Que c'est triste Venise











28 de agosto de 2019

* GENTE INTROMETIDA, CANSA !

Talvez uma casa no campo...


                 - Tais Luso

Por ser tão desigual o comportamento humano, ora generoso e doce, ora arrogante e covarde, tudo pode nos pegar de mau jeito e nos surpreender. Não existe coisa mais desagradável e mais estressante do que conviver com gente comandante . Isso só se admite nas Forças Armadas. Na Sociedade Civil - irrita.
Chega uma certa altura da vida, que estamos saturados de tantas intromissões, e gritamos por liberdade. Não aquela liberdade para transgredir ou aquela coisa conquistada aos trancos para mostrar poder ou sentir o ego em ascensão. São as amarras que nascem na infância quando buscamos o aval dos pais e mestres, quando buscamos aprovação. E assim, a gente segue na vida sem se dar conta  disso.
Inicialmente buscamos aprovação nos primeiros anos de colégio e seguimos a vida buscando aprovação como ótima  filha,  ótima esposa,  ótima profissional,  ótima mãe, ótima dona de casa, ótima avó... Ótima em tudo! Mulher se cobra muito.
Lembro, de quando estava entrando na adolescência, ouvi várias vezes minha mãe dizer:
- Seja mais simpática com a dona Adelaide, não 'empaca', minha filha...
Ora, porque eu deveria ser simpática com uma criatura  se ela não me descia, era um tanto indigesta; por que eu deveria conquistar sua simpatia e não ela a minha?
Como eu gostaria que certas coisas  daquele tempo  se repetissem hoje, e na hora certa! Não  me permitiria mais nenhum sofrimento; não me deixaria machucar, e nem uma resposta chula!  Sou eu a administradora da minha felicidade!
Em geral as pessoas tentam impor suas ideias, seus gostos, suas vontades na conhecida e exasperante crítica construtiva. Como é difícil lidar com esse tipo de gente.
Temos de gostar de Carnaval e extravasar toda a alegria contida, reprimida; temos de gostar de vinho porque é chique e romântico; temos de comer escargot porque é uma iguaria requintada; o mocotó porque é cultura regional; a feijoada porque é tipicamente brasileira, patriota; gostar de futebol porque é o esporte das massas...caso contrário é preconceito. Pelo amor de Deus...deixem a criatura tomar cerveja na hora em que quiser!
Então a gente empurra o difícil escargot pra evitar um confronto filosófico com os supostos requintados; comemos as patas, o bucho e as tripas do boi ( no mocotó) para evitar o confronto com os regionalistas; comemos os pés, as orelhas, o rabo e a costela (na feijoada), e entupimos as nossas coronárias porque nos passaram um convite de honra para uma festinha e contam conosco, sem falta. E vamu qui vamu!
Incomoda ter de seguir uma modinha e deixar de lado nossas roupas preferidas para não sermos chamados de brega; incomoda a pergunta, safadinha, se sua filha casou ou vai ficar pra titia; incomoda a discussão pela nossa escolha ideológica; incomoda-me o gerenciamento de uns na vida de outros. Incomoda-me a hipocrisia. Incomoda-me, sobretudo, a dor da injustiça. Talvez uma casa no campo...

Onde eu possa ficar no tamanho da paz
e tenha somente a certeza
dos limites do corpo e nada mais.






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(reedição *)

21 de agosto de 2019

UM ALMOÇO MUITO DIFERENTE...


                    - Taís Luso

                         
Pois domingo fomos almoçar num restaurante grande, muita gente alegre, ótima comida, um bufê que frequentamos bastante, muitas saladas, frutas, peixes, frango... uma festa gastronômica.
Um domingo lindo e tudo certinho por lá até que, de repente, um grito apavorante ecoa pelo restaurante. Todos se olharam indagando de onde teria vindo aquele monumental grito de guerra!! Cabeças virando em todas as direções e nada de ver onde estava o terrorista. Ficamos todos assustados e eu já me preparando para dar no pé, se necessário... É assalto!? Onde, onde??? E os gritos do homem se sucediam em intervalos de segundos; cadê o homem? Cada vez mais olhares se cruzavam  num lindo domingo de sol. Putz, que azar! 
Passaram-se 20 segundos, creio eu, e mais outro grito horroroso. E veio o terceiro grito que parecia mais uma alucinação. Porém, embaixo da mesa tinha um lugar... pensei rapidinho! 
Mas...
Avistamos o homem!!  Estava lá no canto o desgraçado que espirrava feito um retardado que em outras vidas devia ter sido um terrorista: um homem de cabelos brancos, na faixa dos 70 anos. E que pulmão forte tinha o infeliz!!  Não se escutava o espirro, somente o grito!
Estava se dirigindo ao bufê dos doces e lá deu mais um espirro de guerra. Muito gripado, não largava o lenço, aquele infeliz desprovido de vergonha, de consideração e de educação. Como se não bastassem nossos abalos naturais e evidentes por aqui, ainda temos de enfrentar gritos. Odeio gritos.
Saímos, deixando o bufê de doces para trás, o último recanto em que aquela criatura frequentou e contaminou.
Fica pra outra vez.