17 de setembro de 2018

PRECISAMOS DE SONHOS!



- Taís Luso

Quando caminho pelo meu bairro, meus olhos vão passeando pelos terraços decorados com flores e bebedouros para os Bem-te-vis. Vejo, também, belas janelas com cortinas rendadas. Um encanto! E cada dia que faço esta caminhada parece que essas paisagens são mais festivas, que existem pessoas muito felizes naquelas casas. O sol, as flores, os bem-te-vis... Naturalmente imagino e fantasio a vida de cada pessoa que vive naqueles recantos, vistos com a alegria de quem apenas passa. Serão elas felizes?
É difícil imaginar que por detrás daqueles jardins encantados possa existir alguém triste, solitário ou com uma montanha de problemas. Mas existem; as flores e os pássaros podem camuflar a realidade que mora em cada uma daquelas casas.
Gosto de ver, são momentos de ilusão, uma vez que me afastam da violência da cidade, das encrencas entre as pessoas e me permite pensar que a vida se apresenta menos problemática. Deve ser o poder das flores e o cantar dos pássaros.
Percebo, nesse meu andar, que só tenho esta ilusão por  desconhecer o que está longe.  O que é inacessível e desconhecido torna-se misterioso. E  o mistério gera fantasia, mas também equívocos.
Fico muito curiosa com biografias, tenho interesse pelos aspectos ocultos dos grandes  cientistas  e  pensadores que  fizeram  a  história da humanidade. Na verdade, os ídolos nunca são nossos iguais: precisam ficar no patamar da nossa admiração, protegidos da curiosidade humana, envoltos num mistério que muitas vezes nos fascina. No momento que se desnudam aos nossos olhos, a coisa pode mudar. E virar  decepção.
Por isso não gostaria de adentrar nos terraços e jardins da minha rua; quero continuar a olhar as flores e os pássaros e pensar que tudo ali é bonito  e mais delicado. Que o ser humano é bom. Depois volto à realidade, pronta para encarar a a vida, levar meus dias com suas variadas facetas, afinal, nem tudo são flores.  Preciso de sonhos, um pouco de alimento para minha alma.


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5 de setembro de 2018

INCÊNDIO - MUSEU NACIONAL DO RIO DE JANEIRO





           - Taís Luso


Abro esta crônica com infinito pesar, incalculável vergonha diante da tragédia ocorrida no nosso Museu Nacional, a mais antiga Instituição científica do país, que abrigava 20 milhões de itens catalogados sobre a História do Brasil, vinculada com tantos outros países. Esse Museu, que era um Patrimônio da Humanidade, guardava nossas origens mais remotas através de estudos, pesquisas, provas e documentação da Antropologia Biológica. Através dela sabemos sobre os primeiros habitantes do país, de onde vieram. Mas todo o acervo exposto foi perdido.

O Museu criado por D. João VI, em 1818, abrigava coleções de Geologia, Paleontologia, Botânica, Zoologia, Antropologia Biológica, Arqueologia e Etnologia. Perdemos imensuráveis relíquias históricas - irrecuperáveis.

Há muitos anos que o Museu não recebia verbas para sua manutenção. Lá, em 2004, especialistas já tinham dado o 'sinal de alerta' sobre um possível incêndio, pois sua fiação elétrica era muito antiga. O paraíso dos cupins! A deterioração das aberturas, teto, pisos de madeira, infiltrações nas paredes, rebocos em péssimo estado de um palácio onde residiu a Família Imperial – belíssimo.  Perdemos a construção de nossa memória. Parte importante de nossa História foi tratada com desleixo. Foi queimado um Patrimônio da Humanidade.

Controlado o fogo, o povo invadiu os jardins do Museu, pessoas indignadas queriam chegar perto, chorar, deixar marcado em suas retinas aquela cena dantesca do descaso. Não choramos por um museu a menos, mas não queremos ser subestimados com explicações mirabolantes. Choramos pela imensa perda, lá estava a conexão com o tempo, com a documentação do nosso passado. Todos sabem que não existe História sem documentação.

Como estarão hoje os outros Museus, Bibliotecas, Fundações, Unidades de Pesquisa, Sociedades Científicas?
É a pergunta que deixo juntamente com minha dor.
Está difícil de ser brasileiro.


antes...



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29 de agosto de 2018

O MEU POETA MARIO QUINTANA





     - Tais Luso de Carvalho

Revelo que aprendi a gostar muito de poesia através de Mário Quintana. É delicioso ler seus poemas quando estamos tristes e amargas. Por sermos acarinhadas e envoltas por doces palavras, a tristeza vai se dispersando e a alma vai ficando leve.
Quando leio Quintana, sinto um poeta que entendeu a vida de uma maneira única, que falava da solidão, da bondade e da felicidade com a mesma tranquilidade que falava na sua doce prometida – a morte.
Falava com a sabedoria de quem não apenas passou pela vida, mas deixou que a vida passasse, que rolasse e que esperneasse... E seguia  adiante com suas musas, com seus sonhos e quem sabe com seus devaneios.
E que delícia são seus poemas que falam de tudo, de uma maneira translúcida, com uma deliciosa ironia e um sarcasmo ferino! Mas assim era ele,  dava a impressão de que brincava com a vida.
Já andei esbarrando com muitos escritores nos shoppings, em livrarias, na Feira do Livro e nos eventos culturais de Porto Alegre;  olhava ali... olhava lá... Via todos, falei com alguns, mas nunca vi o meu poeta. Nunca pude dizer: olha ali o Quintana!!
Mas não sei se ao vê-lo eu não ficaria muda e paralisada! Sim, porque quem conheceu o poeta – ao menos pela televisão – lembra de sua ironia refinada e surpreendente. Dava seu recado sem tradução, e a gente que se virasse, que aprendesse a captar o espírito da coisa.
Aprendi com ele a ver as belezas de Porto Alegre, suas ruas antigas, suas ladeiras, a beleza do vento numa tarde de outono. Aprendi a amar a nossa gente. Aprendi como é linda a simplicidade. Aprendi que é na simplicidade que conseguimos tocar todas as almas. E ele conseguiu. E como conseguiu!
Quando leio o seu poema O Mapa, lembro que também passei pelas mesmas esquinas esquisitas, talvez as mesmas moças eu vi... E caminhei pelas mesmas ruas que ele caminhou. Também já pensei, se no dia em que eu for poeira ou folha lavada, também farei parte do nada!?
Seus poemas consolam. Aprendi que um dia, quando a morte chegar de mansinho e disser: Anda, vem dormir... Talvez eu já esteja preparada.
Levarei a mágoa de nunca ter visto o poeta de perto, ou talvez a pretensão de ter feito parte de seus eternos e belos rabiscos, por ter andado, também, nas ruas de Porto Alegre, e nunca ter sido vista.
Mas depois de ter lido muitos de seus poemas até já perdi minha aflição: que eu passarei e todos passarão, é certo: só não se repetirá o que aconteceu no dia em que Deus o levou, e ao fazer dele  um passarinho!



POEMINHA DO CONTRA

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão... Eu passarinho!

Casa de Cultura Mario Quintana / Porto Alegre


20 de agosto de 2018

MOMENTO DE FALAR OU DE CALAR




            - Taís Luso

Sempre achei constrangedor ter como companhia uma pessoa calada, que não esboça nada, uma coisa nem outra. Estática. Continuo com essa opinião, gosto das pessoas mais comunicativas, embora lembre que passei por um constrangimento, há um tempinho atrás.
Não faz muito que fomos receber a vacina trivalente, que protege contra três tipos de vírus: H1N1 - H3N2 - influenza B. Nas filas muitas crianças, jovens e idosos impacientes, todos já meio cansados, e com razão.
O curioso, nestas filas é que se escuta de tudo, principalmente o que não se quer. As pessoas ficam um pouco íntimas, brasileiro é assim, fácil de conversa quando o assunto é doença, tragédias, assassinatos e a tal politicagem em vigor. Política é o assunto do momento dado às complicações pelas quais estamos passando. Bom seria se este país voltasse ao ano de 1500 e recomeçasse sua trajetória, corrigindo todos os erros cometidos pelos governantes e políticos. Estamos saturados.
Lembro-me que ao esperar minha vez na fila para a vacina não me senti nada confortável. A senhora que estava na minha frente resolveu me contar todo seu drama: sua vizinha contraiu a gripe H1N1, e estava no hospital. Fiquei branca!! Pô, mas que azar!  Mas a infelicidade foi eu ter contado para meu marido que estava ao lado.  Lógico que ele ficou inseguro.
Os homens são surpreendentes, fazem guerras, largam bombas, arrasam cidades, explodem torres, fazem e acontecem sem nenhum temor, porém basta uma velhinha abrir o bico, contando da sua vizinha com H1N1, que desaparecem! Quando percebi Pedro estava na outra fila me acenando!
Na fila em que Pedro estava havia um senhor que esquecera sua carteira de identidade, e ficou muito aborrecido quando lhe pediram esse documento. O caldo entornou, logo se formou uma roda em defesa do velhinho. Num certo momento ele olhou para mim e disse:
Mas pra que carteira de identidade, ainda não perceberam que estou nos finalmente?
POIS É !!    Disse-lhe eu.
Meu Deus! Vários me olharam. Senti a mancada. Abri a boca com a intenção de 'ajudar', mas eu não precisava ter concordado com sua visão de finitude.
São nessas situações que as pessoas mais reservadas levam vantagem, porque nada diriam.

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13 de agosto de 2018

CUIDE NA ESCOLHA DO NOME DO FILHO



           - Taís Luso
É hilário quando alguns pais homenageiam seus ídolos colocando seus nomes nos filhotes recém-nascidos. Esses filhos nem sonham o quanto essa idolatria atrapalhará suas vidas. E carregarão esse calvário pela vida afora.
Bem, aí vem a pergunta que faço ao ver umas coisas esdrúxulas pela frente: de onde saiu isso? Por que aparecem por aqui o Jéferson, a Dayanne, a Jennifer, o Aelington, a Franciely ? Poxa... mas como se escreve isto? Será a pergunta mais feita para essas crianças. E fica registrado Aelington da Silva! Mozart da Silva! Sim, nada estrangeiro combina com Silva. Cem milhões de brasileiros carregam um Silva no sobrenome.
Nesse redemoinho de nomes, começo a lembrar de alguns pais que adoram ler sobre a Idade Antiga, a Idade Média etc., e colocam nos seus anjinhos a assombração de Sócrates, Anníbal, Cícero, Honório, Homero, Jesus, Rômulo, Mozart... para serem lembrados ao longo da vida. Sonhos. E, ainda encontramos as Semirames, Sibylla, Porsenna,  Scipião... que coisa medonha!
Outros pais, para dificultar mais a vidinha dos filhos, procuram dois nomes: um para satisfazer a mãe, outro para satisfação do pai, da avó, do avô. Mas no final serão chamados pelos apelidos. Então surgem as Ana Iracema, Adelaide Cristina, Maria Gioconda, Maria Evangelina,  Mário Mariano... E as que não sabem como canta o galo, arriscam um Edigar. Não aguento o Edigar - o filho da minha diarista. Mas tenho de ouvir sobre o Edigar para não perder a diarista.
Também penso na turma dos devotos que não negam homenagens aos seus santos: aparecem, então, as Genoveva, Edwiges, Petronilla, Maria Aurélia, Esperidião, Amâncio, Expedito, Hermenegildo... São mais de 1200 santinhos! Bota fé nisso.
E, para fechar o clã dos famosos, trago aquelas coisas estapafúrdias da vida: as Aldegunda, os Fhilogônio, Epaminondas, Brunhilde, Godofredo, Simplício, Setembrino, Natalino (só ganha presente de Natal),   Francisoréia, Maria Divina... e por aí vai. Tenho um bisavô espalhado aí por cima... E não tem perdão.
E mais, muito mais quando entram os nomes compostos, vindos do nome da mãe e do pai: Claudia e Valdernei geram o Clau-der-nei !! Isso fica muito bonitinho...
- Vem cá com a vovó, Claudernei...
E a coisa piora quando o Claudernei resolve ter seus filhotes: o Clauberto, o Clauco, a Claurinda, a Clausete e a Claurisbela. E os amigos passam a chamá-los - todos - de Clau!! Fica o clã dos Clau. É lindo.
Mas nesse belo Universo, gosto muito é de Fredegonda! Fredegonda foi a primeira concubina e depois mulher de Chilperico, rei de França e da Austrasia. Assassinou a rainha Galsuinda, para subir ao trono em seu lugar. Depois de outros assassinatos, Fredegonda morreu no ano de 597. Dá pra ver que o drama vem de longe.
E para fechar com chave de ouro deixo aqui o nominho completo do Imperador Dom  Pedro I - respire fundo e vem comigo:
Pedro de Alcântara Francisco Antonio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon. 
Museu Imperial )
Essa gente é,  foi e será sempre muito divertida! Mas é isso: como essas e outras esquisitices jamais acabarão, que vivam bem todos os homenageados e os predestinados desse mundo maravilhoso e criativo!

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6 de agosto de 2018

OS ANIMAIS - NOSSOS FIÉIS AMIGOS



         - Tais Luso

Há tempos li um texto, num de nossos jornais, no qual um jornalista contava o rebu que se formou por ele ter escrito sobre os cães de estimação, alguns soltos nos parques. Sua caixa de e-mails explodiu! Talvez ele tenha abordado o tema com pouca sensibilidade. Diz que nunca havia tido esse tipo de reação com outros assuntos.
Bem, logicamente que não se deve atacar os cães ou qualquer tipo de animais; seus donos, os cachorreiros, sabem defender seus animais. Contou que  falar mal dos cães supera qualquer papo sobre futebol ou política, e aquele gesto causou uma revolução e um grande descontentamento entre os cachorreiros.  Eu também não gostei.
Estou sentada em frente ao monitor, olhando a tela branca e escutando ‘Serenade de Schubert, por Nana Mouskouri -, certas músicas me emocionam, e me ajudam quando preciso escrever com o coração.
Em geral, quem tem um animal de estimação tem para onde canalizar sentimentos e tristezas. Nossos animais não nos ofendem, são mais que amigos, nos mostram o quanto nós, os humanos, somos mal resolvidos. Mas temos excelentes qualidades, nem tudo está perdido - ainda. Mas somos muito complicados, quase indecifráveis diante de tantas aberrações por esse mundo afora. E, dado a isso,  faço uma série de indagações:
Como sermos  felizes se somos rotulados de loucos por pensarmos diferente? Como sermos felizes se somos tachados de egoístas por cuidarmos mais da nossa vida, e o pouco que estendemos nossas mãos,  somos rotulados de intrometidos ?
Como ser feliz  se muitas vezes somos vistos como irresponsáveis ao conduzir nossa vida com leveza e simplicidade? Como ser feliz se somos vistos como ‘linha dura’ em defesa da moral e da ética  familiar?
Onde moram a amizade, o afeto e o respeito entre as pessoas? Silêncio não magoa. Por isso queremos tão bem os animais. Como é bom, em momentos tristes, termos nosso  fiel amigo de 4 patas com uma carinha amiga e silenciosa! Mas até isso está difícil numa sociedade violenta, que anda perdida e que tudo rotula.
E eu aqui, escutando esta música, abro minha alma na ânsia de obter respostas para encontrar um sentido para uma vida tão efêmera. Debato-me! Olho ao meu redor e o que vejo? Violência, medo, dúvidas, insegurança. Mantenho viva, ainda, a esperança de que um dia teremos de volta o nosso país. Aquele país que já foi berço do nosso orgulho.
Não sabemos nada de concreto, a não ser que um dia vamos 'parar'
Então, caro jornalista, entendo a sua caixa de e-mails lotada! Mas os animais continuam os mesmos, nós é que mudamos, que estamos destruindo valores e vidas. Nós é que precisamos de muito; eles só precisam de amor. Por isso você não entendeu esse alvoroço todo na sua correspondência, em defesa dos animais. Também junto-me ao grupo de protesto. Pegou mal!  Nossos animais são  membros da nossa família.


 'Serenade de Schubert', por Nana Mouskouri 





29 de julho de 2018

UM POUCO BELOS, UM POUCO FERAS






   - Tais Luso

Com muita frequência nos deparamos com situações que não entendemos e que não encontramos explicações para elas. Quando há reciprocidade de sentimentos, um feliz convívio impera. Nasce um sentimento de amizade muito bonito.
Existem pessoas com qualidades excepcionais: pessoas que reúnem generosidade, afeto, delicadeza, conhecimento etc. Mas, por outro lado, existe também o que faz parte do gene humano: a inveja, o desrespeito, a arrogância, a crueldade, entre outras manifestações pobres e dolorosas. E sentimentos assim não são compatíveis com um bom relacionamento. Fica uma situação ambígua. Por um lado, o desejo de relacionar-se, por outro lado a vontade de cair fora, de desaparecer do infeliz encontro. E isso existe nas famílias, na faculdade, no trabalho, no lazer . Presente em todos os setores da sociedade.
É lindo o sentimento de solidariedade diante das inúmeras catástrofes que já tivemos conhecimento. Nesses momentos o ser humano dá o seu melhor. Os abraços, o carinho e a ajuda com mantimentos, agasalhos, remédios aparecem num ato de amor ao próximo. É uma grande emoção quando vemos pessoas que têm como meta minimizar o sofrimento das outras. Tenho o maior carinho pelos Médicos sem Fronteiras, pelo trabalho do Greenpeace, e por muitos trabalhos Voluntários ou ONGS não Governamentais. São pessoas que doam amor.
Nessas ocasiões, de extremo sofrimento, acreditamos muito na nossa espécie, naqueles que ajudam, que prestam socorro, que se comovem, que choram junto. Mas também aparecem os oportunistas que diante duma calamidade saqueiam as casas e estabelecimentos comerciais. Como daria pra chamar esta gente? De animais? Não; os animais não agem assim, eles também são vítimas de uma parte da sociedade cada vez mais cruel. 
Então fica a pergunta: afinal, como é esse Ser humano? É o herói que salva, que se comove, que acolhe, que doa órgãos, que pesquisa em prol da vida, ou aquele que engana, que trucida, que mata, que tortura e que crucifica sem pena!?
Não sei. O que sei é que somos a única espécie que consegue ser bela e fera. E esse sentimento, essa  postura nos leva sempre a desconfiar da nossa própria espécie, de sua grandeza. E o pior é que sempre foi assim na história da humanidade.


Salvando o cachorrinho...
Solidariedade
Agradecido
Madre Teresa de Calcutá



20 de julho de 2018

UMA VIAGEM INTERMINÁVEL

Cristo Redentor / Morro do Corcovado - 710 mts de altura



        - Tais Luso

Hoje vou contar uma viagem que fizemos há muitos anos, quando nossos filhos eram pequenos. Agora,  adultos.

Era julho, mês de férias, resolvemos ir ao Rio de Janeiro – mas de carro! Coisa para 'sentir' a viagem! Nós e meus pais, uma aventura de 1569 km, mais de 18 horas para chegar ao Rio. Pernoitamos em Curitiba, no Estado do Paraná. Porém, logo pela manhã, já descansados e com o espírito otimista, de todo o turista feliz, levantamos acampamento. Chegamos em São Paulo, mas ainda  descemos para o litoral  onde seguimos viajem para Ubatuba.  Vamu-qui-vamu!

Muito animados, entramos em Ubatuba onde também pernoitamos. O problema que não contávamos, foram as tantas paradas para que as duas crianças fizessem mil xixis.  Como não tinham nada para fazer, comiam salgadinhos e tomavam água. Quanto mais  bebiam,  mais faziam xixi. Ou pipi, como queiram.  Foi engraçado, mas a interminável estrada nos esperava...

Foi desse modo, com muitas 'paradas', que chegamos à bela e histórica Paraty/RJ onde ficamos algum tempo respirando os tempos antigos. Já estávamos perto do Rio. Mais um pouco chegamos no apartamento que havíamos alugado em Copacabana por 15 dias. Foi lá que eu e minha mãe nos esbaldamos,   loja por loja...  Os outros dias ficaram para os passeios, toda a rota turística do Rio de Janeiro, que as crianças não conheciam. 

Rio é lindo, e os cariocas são muito agradáveis com seu sotaque diferenciado. Eles dizem que o nosso sotaque, gaúcho, é cantado, o que até hoje não entendo. Cantado...

Bem, no dia seguinte fomos de carro ao Cristo Redentor, mas nem Pedro e nem meu pai se animaram em subir o morro do Corcovado dirigindo.  Pegamos um táxi no pé da montanha. Tudo maravilhoso. Na volta foi que houve algo inédito. Entramos num xi para descer 710 metros, até ao nível do mar. Foi preciso sangue frio e braço forte!

Descemos  poucos metros, e Pedro ao lado do taxista  percebeu que o homem estava alcoolizado. Com todo aquele despenhadeiro, Pedro não deixou por menos, resolveu fazer uma cena, já que conversar com alguém naquele estado  não era tarefa fácil. Pediu a direção do carro ao taxista dizendo que o sonho da sua vida seria descer o Corcovado, dirigindo! O homem ficou olhando, meio cabreiro, mas diante de tanta insistência entregou o carro ao meu marido, um 'mimo' para o gaúcho sonhador! Lógico que nós ficamos  aterrorizados! O que estaria se passando naquele momento, alguém surtou? E descemos a montanha mais assustados do que cachorro em procissão. Mas tudo correu bem, Pedro dirigiu devagar, cauteloso, beirando os penhascos... Até hoje digo que o taxista entregou a direção porque estava alcoolizado...

A interminável viagem de volta ao sul, pareceu muito mais distante do que a ida.  E, de lá para cá, passamos a adorar avião!

Carlos Drummond
Copacabana / RJ
Bondinho no Arco da Lapa /RJ
Ubatuba / SP
Paraty / RJ
Paraty / RJ


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12 de julho de 2018

CUIDADO COM A MAGREZA - ANOREXIA

Jovem anoréxica  - no 'espelho' tendo
 uma visão distorcida do seu corpo.



            - Taís Luso
Infelizmente somos reféns de uma sociedade, que estipula padrões para tudo. E pagamos um alto preço quando entramos em canoa furada.
Geralmente pessoas anoréxicas têm uma obsessão por um tipo de beleza: a magreza. Supervalorizam um corpo magro adquirindo uma fobia por quilos extras, um medo exagerado de ficarem gordas. Poderia se dizer que, até aí tudo está bem, cada um com seu gosto. Mas não é bem assim, a anorexia é uma distorção da imagem real.
Sabe-se que são fatores psicológicos, sociais, culturais e uma predisposição genética que levam ao desenvolvimento da doença.
A anorexia tem certos rituais: o que comer, onde e quanto. A contagem das calorias a serem ingeridas está presente nas 24 horas do dia: 200 calorias! E o emagrecimento é rápido e calculado: as pessoas comem e ‘devolvem’, tomam diuréticos, laxantes e se exercitam em excesso. Contam os dias, e cada dia é uma vitória quando perdem os quilos fixados. Tratar a anorexia é coisa para terapeutas e clínicos, não adianta família, conselhos e um papo amigo:
Come, minha filhinha, você é linda,  deixa de bobagem!
O tratamento é demorado e deve ser acompanhado para prevenir as recaídas, que ficam em 25%.
Para a família, é difícil perceber o problema devido a vários fatores. No convívio diário não se percebe que a jovem está em processo de emagrecimento, ela passa a usar roupas folgadas e não fala em comida. Muitas delas se isolam da família nos horários das refeições. Dizem que já comeram.
A pessoa anoréxica não interrompe o processo de emagrecimento, pois ao olhar-se no espelho obtém uma visão distorcida de seu corpo. Essas pessoas enxergam-se sempre gordas: uma distorção das formas almejadas. Com o tempo, o processo de emagrecimento torna-se mais rápido, pois o corpo não tem mais de onde tirar nutrientes para suprir a falta diária. Não tem mais nada armazenado.
Nesse ponto a família começa a perceber o problema, quando a saúde já está comprometida: depressão, ansiedade, hipotensão, anemia, redução da massa muscular, falta de menstruação - pela baixa hormonal, intolerância ao frio, desidratação, osteoporose e, mais tarde, a infertilidade. Nessa fase, já tarde, é que começam os tratamentos para o alimento ser reposto, gradativamente. Em casos especiais, com risco de morte. Então é preciso internação hospitalar.
Bonito é um corpo saudável. Acontece que muitas jovens são instigadas a ficarem na base da saladinha e de um anêmico peixinho insosso. Aos nossos olhos, desfila em muitas passarelas um apavorante desfile de meninas em formação, comendo montanhas de verdes, o que nos deixa em estado de perplexidade... Mas a culpa não é delas: elas são as vítimas.






3 de julho de 2018

ESSA PAZ - EU TAMBÉM QUERO...





- Taís Luso


Quando temos a juventude a nosso favor parece que o tempo que se tem pela frente é infinito; enquanto nos sobra energia, o tempo é nosso aliado, passa devagar, tempo para completar os sonhos, programar o que queremos.
Sobra tempo e disposição para tudo: vontade de dançar, de amar, de nadar, estudar, praticar esporte, viajar para os lugares mais exóticos do planeta e conhecer gente diferente. E tudo em pequenos intervalos. Mais tarde a coisa vai espaçando.
Mas penso que no mundo civilizado as pessoas são mais ou menos parecidas, somos como os bons vinhos, já caminhando para o ponto ideal, sem muita acidez, nem tão adocicados.
Alcançaremos a idade da razão, o rosto com outra expressão – mas também bonito pela bagagem adquirida no decorrer dos anos, e prontos para encarar uma outra etapa da vida. Essa bagagem é especial, nunca igual à de ninguém, é como se fosse uma impressão digital. Agora, diferente, num ritmo mais suave, mais responsável, sem as ansiedades de uma fase que antecedeu.
Viver com calma, e ver na rotina algo saudável, como realmente é, com seus encantos e sua paz. Penso não ser a intenção de muitas pessoas resgatar na sua maturidade o vigor da juventude, como se nela morasse toda a felicidade, mesmo que a mídia nos empurre o pacote feito. É como se dissesse: você não pode envelhecer!
Quero alcançar a meta do bom senso, sem nada para me azucrinar. Preciso pensar se quero me exercitar numa academia; se quero viajar; se quero nadar; se quero correr. Também poderei ficar mais quieta, escrever, ler, ouvir música... passear.
Quero aceitar com alegria todas as etapas da vida, sem rótulos e sem regras impostas, já que não será meu propósito travar brigas com meu espelho.
Essa  paz... eu também quero.

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- Também aqui: A paz que eu quero  /  3º lugar concurso CIPEL



23 de junho de 2018

O SEPARADOR DE AFETOS

Visita à vozinha...   (Imagem da Internet)



              - Tais Luso

Quanto mais ando na rua, nos shoppings etc, mais me surpreendo com o desligamento das pessoas. Todas muito apressadas, sempre. Muitas atravessam as passarelas dos semáforos com o áudio do celular no ouvido ou clicando para ver algo ‘urgentíssimo’ nas suas redes sociais. A vida está cada vez mais acelerada, porém mais solitária. O estresse  virou  companhia constante, um amigão, sempre grudado.

Ontem vi um gesto que chamou minha atenção e de várias pessoas na rua: uma jovem ofereceu seu braço para uma moça cega atravessar a larga avenida e levá-la onde precisava ir!! Que lindo! Emocionou. É raro ver isso, não há mais tempo para gentilezas, até nas visitas para os parentes o celular está no meio. Esse pequeno e útil aparelho sem dúvidas é o legítimo separador de afetos. Estatisticamente 80% das pessoas estão conectadas ao celular o tempo inteiro.

Hoje, criancinhas com 1 ano estão com Smartfones ou Tablets,  tec, tec, tec , e são consideradas geniais - o orgulho dos pais. Crescem e manobram com facilidade a informática, mas sem o costume das gentilezas, um toque de confiança e de amizade. Intoxicam-se com a enorme tecnologia, e quando crescem seus celulares sabotam seus sonos. E sonhos.

Há carência de afetos, e estou ciente que isso é irreversível. O mundo seguirá seu curso com as novas gerações e com novíssimas ofertas, cada vez com mais aplicativos. Teremos  de nos adaptar a muitas coisas, inclusive à solidão.

Sentamos no computador, lemos, escrevemos, nos comunicamos, mas ao desligá-lo muitos sentem um vazio - e ligam o Smartphone! Pronto! Todos novamente conectados! Vicio é isso. Não é assim no mundo inteiro? Estamos quase colonizando o planeta Marte, mas os humanos ainda pouco sabem sobre ‘felicidade’. Mas um dia chegaremos lá. 
Ou talvez não.



na rua
Não há mais tempo...