6 de setembro de 2013

AMIGAS NA 3ª IDADE





           - Tais Luso de Carvalho


O sol estava manso e amigo, brilhava sem agredir. Sem perder muito tempo, dei uma caprichada no visual: um batonzinho, brincos, jeans e um bolsão-contêiner cheio de inutilidades. E para fechar com chave de ouro, um tenebroso salto 9, bico fino. Assim, minha amiga e eu nos enfiamos dentro do shopping onde nunca se nota quando cai o dia e quando entra a noite.

Após andarmos por mais de 300 lojas, finalmente aportamos num simpático Bistrô. Já um pouco acabada, em cima daquele maldito salto 9, eu não sentia mais minhas pernas: elas não obedeciam mais a nenhum comando, levavam meu corpo sem elegância e apenas marchavam tentando acompanhar minha amiga - que foi de tênis - e suas pernas de ganso.
Mas voltando ao Bistrô, um garçom cheio de dentes e abrindo um sorriso pra lá de generoso veio nos atender. Fizemos o pedido. Na espera, comecei a olhar para as mesas mais próximas. Notei, então, na mesa ao lado, um animado encontro de amigas. Deveriam ter entre 70 e 78 anos, mulheres de todos os tamanhos, pesos e medidas; com rostos de sapecas e outras de santinhas. De tudo um pouco. Porém, o assunto era um só: doença!
Nessa mesa estavam sentadas uma magricela muito falante, uma gorducha muito alegre - parecia de bem com a vida -, uma ruiva quase careca e uma louraça tipo cheguei. Como conversavam! Contavam, com detalhes, todas as suas doenças, suas inúmeras cirurgias, recuperações e sequelas... Após esgotarem todas as lamúrias, as simpáticas amigas traziam à tona as doenças dos outros, e num tom choroso, macabro... Mas logo depois ficavam eufóricas novamente. Era tudo muito esquisito. Tão esquisito que eram o alvo das atenções naquele pedaço.
Minutos mais tarde, chegou mais uma: parecia ser a mocinha da turma, talvez pelo seu estilo um pouco desnorteado. Seus cabelos eram escuros e repicados, tipo Chitão e Xororó - há 20 anos. Seus brincos - enormes argolas douradas - ornamentavam suas grandes orelhas. E completando o rico visual, saracoteava dentro do vestido indiano, multicolorido.
Após ouvir as amigas falarem sobre tantas doenças, fiquei um pouco deprê. Larguei meus pensamentos, e ciente da minha fragilidade olhei para minha amiga. Branqueei! Eu pensei que ela estivesse se divertindo com as histórias macabras.
Minha amiga estava pálida, deitada no espaldar da cadeira, parecendo uma boneca de cera. Escutou toda a conversa das raparigas, todas as doenças e sequelas, mortes e cremações.
Esqueci que ela era por demais suscetível a este tipo de assunto. Um pouco nervosa, chamei aquele garçom cheio de dentes e de sorriso generoso. E lá veio ele! Que bom ver aquele sorriso novamente! Pedi um café, bem forte - coisa pra levantar defunto -, e levei minha amiga para longe dali, perto de alguns adolescentes que riam desatinados sem um motivo aparente: talvez da gorducha corada, ou da desnorteada, com seu modelito indiano e com suas orelhas que mais pareciam dois bifes com pircing.
Pouco depois, já recuperadas, saímos do shopping e encontramos um outro tipo de crepúsculo: o crepúsculo da natureza! Era radiante: o sol estava se pondo, mas em seu lugar se instalava uma grande esfera branca e iluminada, esperando o momento de emprestar sua luz à escuridão da noite. Notava-se nesta esfera uma maturidade silenciosa, mais austera, enigmática e de grande beleza.
Na volta, ao chegar em casa, vim direto à tela do computador para deixar registrado os dois crepúsculos que comparei num curto espaço de tempo: o do ser humano, com todas as suas nuanças incertas e inseguras e o crepúsculo da natureza – único, calmo, misterioso e extremamente belo.


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Foto de Carol Munhoz - Pôr do sol no Guaíba





25 comentários:

  1. Taís, como sempre maravilhosa em suas escritas, amei...a gente vive cada segundo vivido por vcs, imagina cada personagem, e como sempre as vezes as coisas sérias, "macabras", se tornam comédias...depois do fato passado, pois como seres humanos,somos mto "engraçados", quando levados por emoções, idéias, fatos, e momentos, e nem nos damos conta, porque estamos alí, porque percorremos tal caminho, porque aqueles saltos tão altos?
    Adorei, mesmo sem à conhecer a imagino, e vejo em vc mta verdade, vc é como é, sem rodeios.
    E no final vc fechou com chave de ouro...acredito eu, que em td na vida, sempre tem um lado positivo, q/talvez na hora não vemos, e depois até descobrimos que a gente precisa, daquilo, para nos levar a algum lugar...e vc foi perfeita.
    Parabéns! Amiga! Bjocas.

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  2. Taís,

    Sempre que leio tuas crônicas, me emociono com algumas e me divirto com outras...essa, aparentemente trágica (amiga como consegues se equilibrar num salto 9?rrrsss!), acaba virando uma comédia, com toda a humanidade e sensibilidade que só você sabe colocar...adorei, a idosa/moleca da roupa indiana...rrrsss!

    bjs

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  3. Pois é... Velhos gostam de falar de doenças e até vejo uma certa disputa para saber quem é o mais doente, quem sente mais dores. Freud diz que quanto mais afirmamos um assunto, mas o recusamos, é uma espécie de autodefesa. Ou seja, quando eu digo que NÂO tenho medo da morte, o meu inconsciente diz que eu sou apavorada pela morte. E esse crepúsculo é a única certeza que temos quanto a nossa natureza tão frágil, o outro é o ocaso que está nos planos cotidiano de Deus.
    Bjkas doces e bom fim de semana.

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  4. Adorei sua crônica!
    Me fez um leve sorriso no rosto ao fantasiar as
    "antigas senhoras" reunidas a volta da mesa falando
    de doenças e cirurgias.Fato verdadeiro;nesta idade
    é só o que falam.Ah e bolsa contêiner eu achei uma boa
    definição para as bolsas de "nós mulheres". rs
    Beijo e bom fim de semana.

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  5. Nossa Taís que crônica é esta? Um convite à vida! Todas as sensações, o desencanto, a busca, a superação eu li aqui. Você em poucas palavras conseguiu traçar o perfil da terceira idade com muita sabedoria e aprimorou com um fechamento crepuscular de arrepiar.
    Mais uma crônica sensacional.
    Bjs.

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  6. Nada como compararmo-nos ao crepúsculo da natureza, pois o crepúsculo humano é rigorosamente cruel...
    Bj. Célia.

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  7. Mas....tudo faz parte da vida....E é essa diversidade que
    nos alimenta....Por aqui somos mais modestos e é nos bancos
    dos jardins, que a representação decorre..
    bfs
    Beijo

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  8. Limerique

    Melhor idade, apenas uma crença
    Expressão que não admite avença
    Porque velho como eu
    Já sabe, já percebeu
    Que tema se resume a doença.

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  9. Nooooossa, sem dúvida alguma o crepúsculo da natureza é beeeeeeeeeeeeeeeeeeem melhor !!! Linda crônica! beijos,chica

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  10. Que linda crônica amiga.Triste constatação.O Ser humano em vez de aproveitar as benesses de um belo passeio e a conversa entre amigas e viver a plenitude deste momento, traz a tona doenças e tristezas.Ah! a natureza é mais sábia - sempre a nos brindar com sua beleza .Belo texto!
    Felicidades, sempre.Bjs Eloah

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  11. Taís Interesante comparación sobre “los crepúsculos”, el de la vida y el de la naturaleza.

    Esa conversación de amigas “maduras” presumiendo de sus dolencias, es un reflejo de que las conversaciones en cada edad se adaptan a ella: Las jóvenes presumirían de conquistas, las madres de hijos, las mayores de enfermedades y si nos fijamos, en todos los temas se trata de ser la que más trofeos ha vivido. La vida es una gran competición en todos los momentos.

    Las mujeres creo que nos reunimos más para hablar de cosas simples y diarias de nuestras vidas.

    Muy bonita la foto de la puesta de sol. Felicidades.

    Un fuerte abrazo

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  12. Olá Taís,

    Fiquei me imaginando de salto 9, bico fino, andando pelas lojas de um shopping. Aff! É judiar demais dos pés-rsrs.
    Creio que a maioria das pessoas nesta fase crepuscular da vida têm o tema 'doença' como preferido. Vejo isto pelos idosos com os quais convivo, inclusive a minha mãe. Tenho horror de que fiquem falando comigo sobre doenças, mas procuro compreender, pois não sei como estarei procedendo quando lá chegar. Peço a Deus que me mantenha com interesses outros a ocupar a minha mente para não desenvolver este sádico prazer.
    A cena descrita foi hilária do ponto de vista da narrativa. Tenho certeza de que chamaria a atenção de qualquer um que estivesse por perto.
    Com certeza, o outro crepúsculo descrito, o da natureza, é bem mais belo de contemplar.

    Linda crônica.
    É sempre um prazer te ler.

    Beijo.

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  13. Ja Passei dos 60 anos e, naturalmente, tive ao longo da vida alguns problemas de saude - quem não os teve algum dia? - mas jamais fico lembrando disso nem conversando sobre tal coisa. É que coisas negativas e ruins não me interessam. Acho que falar aos outros sobre meus raros problemas de saude é deprimente pra eles e pra mim.Não sei se por ter sido professor muitos anos e ter lido e estudado praticamente de tudo, minha mente funciona um pouco diferente da maioria, mas deetsto essa conversas e se alguem começa a se lamuriar eu digo logo prara consultar um medico porque eu não entendo nada de doenças. Qual seria uma boa explicação para essa mania de doenças que acomete muitos idosos? Eu nãos ei porque não sofro desse mal0 graças a Deus_ nem vou comentar que ha 15 dias fiz uma cirurgia de catarata que correu maravilhosamente e que estou em plena forma vusual. è isso. Adorei sua cronica.

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  14. Lindíssima crônica, Tais! Estou admirado com esses dois crepúsculos num dia só: um prato cheio para um cronista. E o resultado foi magnífico.
    Não gosto muito de falar em doenças. Porque o assunto nunca é sobre uma gripe, coisa que a aspirina dá um jeito. Quando alguém começa com doença, pode esperar que é sobre câncer. E a nossa empatia se torna um sentimento muito mais forte. O coração fica apertado, a mente refuta a crueldade da doença. E quando você vê, esse assunto foi lançado numa roda de entretenimento. Preferiria conversar em como fazer pessoas com câncer se sentirem felizes, apesar de todo o sofrimento. Sempre existe um sorriso guardado, pronto para ser usado.

    Adorei o cabelo tipo Xitãozinho e Xororó - Me veio as fotos de família na cabeça rsrsrs

    Mais uma vez, lindo demais!

    Beijo, boa semana.

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  15. Olá querida amiga Tais, adorável crônica, ao estilo Tais...me acho muito colono, não sou chegado em shopping, meio claustrofóbico, e, eu nunca sei como esta lá fora, é angustiante. Amei a comparação, ficou perfeita, os crepúsculos, o da vida e o da nossa vida. Sempre que vejo um grupo de idosas (as mulheres são mais irmãs, diria Angela RoRo rs), raros são os homens no meio (acho que morremos primeiro rs), bem, o assunto ficou bem claro neste post, mas o que sempre me chama a atenção desses grupos, são as risadas, adoro vovós risonhas. Obrigado Sra. Luso, por mais este prazer de leitura que me proporcionaste.
    ps. Meu carinho meu respeito meu abraço.

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  16. Realmente Tais! Geralmente, quando em certos lugares imperam pessoas da terceira idade, costumam imperar também todo tipo de doença. Bela crônica amiga.

    Abraços,

    Furtado.

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  17. Taís, fiquei pensando se ao chegarmos à idade daquelas amigas também não estaremos falando nos mesmos assuntos, afinal, pela lógica, conversamos sobre o que alegra ou incomoda mais em cada fase da vida. Enquanto isso, prefiro curtir o crepúsculo da natureza, poético e incomparavelmente inspirador.
    Parabéns pelo texto, um primor!

    Beijos

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  18. É incrível como pessoas idosas gostam de falar de doenças...Será que ficaremos assim também? kkkkkkk
    Prefiro o segundo crepúsculo!

    Beijão

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  19. Olá, Taís!

    Bela crônica!!!
    Particularmente prefiro o crepúsculo da natureza. Fujo destas conversas sobre doenças!Só fazem mal. Xô energia negativa!!rs
    Beijos!

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  20. Ame a vida e os bons amigos, pois a vida é curta e os bons amigos são poucos.
    Te desejo um ótimo fim de semana beijinhos.

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  21. O por do sol no Gauíba é um espetáculo à parte, tenho fotos lindas e recordações inesquecíveis desse cenário maravilhoso.
    Adorei a analogia dos dois crepúsculos, a riqueza de detalhes me pôs à mesa com vcs, ouvindo e observando esta triste realidade, assim como senti a noite ganhar a luminosidade da lua que resplandecia no céu... vc me mantém cativa de teu carinho, talento e carisma!

    Beijos, Tais, ótimo fds!

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  22. Tais, entendo sua amiga. Não gosto que fiquem falando de doenças perto de mim. Que bom que puderam admirar o outro crepúsculo, que só nos mostra beleza. Bjs.

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  23. Carmen Lins18:47

    Tais, estou simplesmente encantada com seus escritos. Fiquei pensando: ela deve ter livros publicados! Adorei o crepúsculo do Sol, que estou numa idade crepuscular!

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  24. Lindo Tais - tal qual sua frase final. 'Único, calmo, misterioso e extremamente belo'.

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  25. OLá Taís, confesso que ri bastante com suas colocações... A vida celebrada das diversas formas. Gostei imenso da sua maravilhosa crônica, desopilei meu fígado!
    Bom final semana.
    Grata pela visita.
    Bjss!

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