1 de junho de 2008

Iberê Camargo e a arquitetura de Alvaro Siza


             - Tais Luso 

Dois artistas a falar: o artista plástico Iberê Camargo e o renomado português Alvaro Siza, um dos três arquitetos mais importantes da atualidade, doutor ‘honoris causa’ em seis universidades. O edifício da Fundação Iberê Camargo está pronto para projetar Porto Alegre no cenário internacional da arquitetura moderna. Com 9,5 mil metros de área construída, prédio de curvas suaves, mas impactantes, construído num terreno doado pelo Estado, parceria público-privado. O valor da obra foi de R$ 40 milhões.

Segundo Jorge Gerdau Johannpeter, presidente da Fundação, e pelo engenheiro que executou a obra, José Luiz Canal, professor da UFRGS, Alvaro Siza projetou tudo com a obsessão ‘siziana’: desde os parafusos sextavados em aço inoxidável, figuras de sinalização das portas dos banheiros e saídas de emergência, porta-lápis, cabideiros e lixeiras do setor administrativo como, também, de todo o mobiliário. Como se vê, tudo nos mínimos detalhes.

No fundo do terreno foi preservado o paredão de rocha coberto por uma vegetação nativa. O aparelho de ar condicionado funciona reciclando a própria energia que produz; a água que abastece os vasos sanitários vem da chuva, e sai já tratada. A iluminação artificial reproduz o mesmo tom da claraboia; camadas de lã de rocha isolam os ruídos externos e o mormaço do verão de Porto Alegre; um fosso, inacessível ao olhar dos visitantes, contorna todo o prédio de maneira que, se o Guaíba transbordasse, haveria enorme espaço a preencher até chegar ao estacionamento. Tudo perfeito para acolher parte das 7 mil obras produzidas pelo artista, as quais estão protegidas por um sofisticado sistema de segurança.

Marcado por tragédias pessoais, a obra de Iberê mostra pinceladas dramáticas e amargas nos últimos anos de sua vida. Iberê, nasceu no ano de 1914, em Restinga Seca, distrito de Santa Maria/RS. Ainda jovem, deixou Santa Maria rumo ao Rio de Janeiro, através de uma bolsa de estudos. Visitando Portinari - o maior pintor da época - Iberê não deixou nada passar em branco: disse a Portinari que não gostava de sua pintura... Iberê foi aluno de Guignard, e após ter conquistado um prêmio resolveu ir para Europa estudar com André Lothe e De Chirico. Voltou ao Brasil, e não se filiou a nenhuma escola, mantendo-se independente.

A vida de Iberê foi, praticamente, transportada para as telas; tanto em suas fases tumultuadas como nas mais calmas, suas pinceladas deixaram uma história rica na trajetória das artes. Mas é assim: o artista transmite suas emoções partindo de uma tela branca e fria; acabada a obra, tudo vira história, emoção, beleza e riqueza de detalhes.

Retratos, paisagens, naturezas-mortas, carretéis, explosões abstratas, tudo feito com paixão emergindo de uma força estranha. Tudo expressava um momento, muito longe da inércia.

Em 1980, num incidente em uma das ruas do Rio de Janeiro, o artista matou um homem.  Esse episódio deixou Iberê extremamente abalado e algum tempo depois voltou para Porto Alegre. Anos depois, bem mais adiante, veio a contrair um câncer de pulmão, levando-o a inúmeras sessões de radioterapia. E essa dramaticidade, de sua luta contra a doença ficou registrada em seus últimos trabalhos.

Essa Fundação é a nova casa de Iberê, que abriga muitas de suas obras, sua história e seu espírito lutador. E todos que a visitarem sairão, sem dúvida, mais enriquecidos.

Frente

Interior de um dos andares

'Os Carretéis' - entrada da Fundação Iberê Camargo 

Iberê e Maria: 54 anos de casamento.
 Maria esteve à frente da Fundação Iberê Camargo, após o falecimento do artista. 
Maria faleceu aos 98 anos.






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