28 de setembro de 2007

EU ERA FELIZ E NÃO SABIA ...




- Tais Luso de Carvalho


Eu tinha pressa para entrar na idade adulta: queria ter conta pra pagar, queria ter casa pra cuidar, marido e filhos, queria andar de salto alto, usar maquiagem e responsabilidades!! Achava o máximo andar com pencas de coisas para fazer.

Lembro-me que aos 13 anos eu saía muitas vezes com o livro O Muro, de Sartre, com o objetivo de esconder minha pouca idade, mostrar que cresci, que estava lendo um filósofo. Não comprei, peguei da biblioteca de meu pai. O que uma criança que brincava de boneca - nas horas vagas -, poderia entender de Sartre?

Meu pai, muito católico e preocupado com a minha postura meio rebelde, ao falar com seu amigo, na época Dom Vicente Scherer - Bispo de Porto Alegre -, perguntou-lhe o que deveria fazer, pois eu estava lendo um livro condenado pela igreja. Pobre de meu pai... Eu só tinha lido a orelha!! Peguei Sartre porque era polêmico. Mas fiquei firme, deixei meu pai queimar as pestanas... Eu só queria fazer onda; eu só queria ser adulta!

Mas depois desta encenação toda, resolvi decorar meu quarto: fiz colcha preta, almofadas pretas com enormes flores aplicadas... Parecia coisa pra defunto. Mas eu queria ser diferente e ter a minha linguagem.  Até hoje ouço falar nesta história. 


Minha adolescência foi um pouco contestadora, mas fui uma garota bem comportada, bem centrada nas coisas que tinham valor. Mas ninguém entendia minha vontade de ser diferente, adorava mudar! Meus cabelos eram como camaleão: foram loiros, pretos e ruivos. Brincava de boneca, mas também jogava futebol; frequentava a igreja católica, mas queria ser protestante; estudava em colégio particular, mas queria estar num público. Mas acho que não cheguei a dar muito trabalho, não. Apenas confundia o meio de campo; fazia barulho.

Mas apesar da confusão, guardo ótimas lembranças desde a infância: ainda peguei o finalzinho dos bondes,  os telefones eram padronizados; as geladeiras eram chamadas de Frigidaire e qualquer líquido achocolatado chamávamos de Toddy. Sofri quando a Varig - orgulho dos gaúchos - foi pro brejo. Bem que aí já tinha crescido! Aquilo que ofereciam nos voos  era comida de primeira! 


Hoje me engasgo com umas barrinhas minguadas, com um bolinho raquítico e duas bolachinhas d'água... Credo! Varig era coisa séria, coisa fina. Mas num próximo voo penso em levar minha marmita de casa...

Lembro que ainda peguei uniforme de colégio: saia escura, blusa branca e um sapatão com solado de borracha! Evitava preconceitos, todas éramos iguais. E isso era ótimo.

Lembram dos seriados enlatados da televisão? Bonanza,  Missão Impossível, Bat Masterson, Magnum, Papai Sabe Tudo, Vigilante Rodoviário... Lembram disso?  Coisas inocentes...

E por acaso tomaram Calcigenol ou Fimatosan pra tratar bronquite e abrir o apetite?, Lembram de um  presunto enlatado da Swift que íamos enrolando o abridorzinho? Por acaso chegaram a ouvir...nel blu / dipinto di blu...? 


Não vou entrar num assunto - que seria longo -, mas quero lembrar o mais importante: sou da geração dos Beatles. E foi com eles que conheci o histerismo feminino. Que potencial! Que loucura foi aquilo. E mais: tinha muita curiosidade pelos hippies que revolucionaram totalmente os costumes, pregavam a paz e protestavam contra a guerra no Vietnã. Eram totalmente adeptos do pacifismo. Moravam em comunidades onde todas as tarefas domésticas eram divididas. E por aí afora. Fase importantíssima. 

Com eles apareceram os exercícios de meditação, os incensos, as gírias e algumas drogas - infelizmente. Seus cabelos eram compridos e suas vestes despojadas. O lema era Paz e Amor.

Mas, acabei virando adulta, como eu queria. Casei, tive meus filhos, usei meu salto alto, tive minhas contas pra pagar e me descabelei com a educação da prole. E, com tudo isso, amadureci. E ainda deu pra tirar umas fotinhos e fazer álbum - nada digital.

Mas, se eu soubesse que hoje estaríamos nessa belezura de país, não teria pressa em crescer: estaria melhor escalando árvores, andando descalça, dizendo 33 - ao ficar doente. Estaria melhor assistindo aqueles enlatados inocentes, continuaria dedilhando minha belíssima Remignton, dedilhando umas coisas esdrúxulas no piano, curtindo os matinês com as colegas do colégio,  e fazendo de meus cabelos um verdadeiro carnaval. E eu não sabia que eu era feliz!!

Se o país em que vivo tivesse saído da adolescência e virado adulto eu nada teria a lamentar. Mas hoje vivo num país muito violento, sem muita alegria, sem ídolos e sem oportunidades. Vivo num mundo muito louco onde cada um veste sua fantasia e pula sozinho; e desta época jamais sentirei saudades.



5 comentários:

  1. na verdade vim comentar o post abaixo, a fúria pelo consumismo... propicia e muita a discussão do tema... falei outro dia no meu blog sobre a obsessão por carros que tb tem a ver com isso...onde vamos parar hein??? bj e bom domingo
    ricardo

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  2. agora vim agradecer a gentileza de vc ter me linkado no seu blog... fiquei feliz que tenha gostado do meu espaço...quem gosta de crônicas como vc sempre será bem vinda...tb te linkei... beijo
    ricaordo

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. 0i Tais, agora você me fez chorar, quanta recordação,tudo isso também povoa a minha alma, e eu também, igual à você, queria crescer logo. Agora acredito ser a mais nostálgica pessoa do mundo. Guardo meus discos antigos, tenho o maior ciúme. Que época maravilhosa aquela.Amei, parabéns.bjs.Ainda tenho também um vestidinho de lastex.

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  5. Boa noite, querida amiga Tais.

    Sou dessa geração e me lembro de tudo isso com saudade. Havia sonhos, idealismo, música boa...

    O Elvis Presley...
    Tenho tanto material dele aqui, e quando o assisto, primeiro tomo um banho. Fico perfumada para assistir esse show da vida!

    Safra de boa música, parece que jamais existirá.

    Ainda bem que a tecnologia nos permite selecionar o que nos faz bem.

    Que a sua semana seja de paz.

    Beijos.

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