4 de maio de 2014

UMA GERAÇÃO FELIZ

Cayetano A.Buigas - 1932 Espanha
- Tais Luso de Carvalho
Eu tinha pressa para entrar na idade adulta: queria ter conta pra pagar, queria ter casa pra cuidar, marido e filhos; eu queria andar de salto alto, usar maquiagem e ter pencas de responsabilidades. 

Lembro dos meus 14 anos: não eram os 14 anos de hoje! Eram outros tempos. Peguei, da biblioteca de meu pai, o livro O Muro - de J.P. Sartre. Por algum tempo ele passou a ser meu companheiro, mas o meu objetivo era esconder minha pouca idade, mostrar às pessoas que meu pequeno mundo valia a pena, que eu lia algo substancial, que era quase adulta. Adorava a polêmica que cercava o livro e as ideias de Sartre. Na real, eu queria aparentar uns 17 anos, mas aparentava bem menos. E isso me chateava. 

Meu pai descobriu e ficou preocupado com a minha suposta rebeldia. Sua filha lendo Sartre, um livro na lista negra da igreja? Pobre de meu pai, eu peguei Sartre porque chamava atenção. Mas fiquei firme, deixei ele queimar suas pestanas. 

Eu só queria fazer onda, ser adulta. E com aquele livro, pra lá e pra cá, eu achava que enganava,  alguma coisa qualquer acontecia.  Mas um dia soltou as páginas e o coloquei no mesmo lugar. Foi um baita companheiro. Pobre Sartre, se soubesse… 

Mas depois desta encenação toda, que não levou a nada, resolvi redecorar meu quarto. Fiz uma colcha e as almofadas de uma cor de arrepiar para uma menina: preto! Várias almofadas pretas com enormes flores de feltro aplicadas - gigantes e bem coloridas. Parecia coroa pra defunto. 

Minha mãe engoliu uma amarga saliva. Mas eu achei divino, quem ousaria colocar um troço daqueles em seu quarto? Consegui fazer algo completamente fora dos padrões. Eu queria ser diferente e ter a minha linguagem. Meu surrealismo precisava ser aceito. Tudo muito extravagante. 

Minha adolescência foi um pouco contestadora, nada além disso, mas algo pra dizer que eu fazia parte do mundo; marcar meu espaço.  No geral fui uma garota feliz, praticava esporte e adorava ler e estudar. E meus pais compreenderam aquela minha fase, minha vontade de mudar. Que fase xarope, a adolescência.

Meus cabelos eram como camaleão: ora loiros, ora pretos ou ruivos. Frequentava a igreja católica, mas queria ser protestante; estudava em colégio particular, mas queria estar num público. Brincava de ser freira, mas queria ser hippie. E queria ser loira, morena e ruiva. Mas não cheguei a dar muito trabalho, não. Apenas confundia o meio de campo; fazia barulho. 

Apesar da confusão, guardo ótimas lembranças de tudo. Lembro dos telefones padronizados que eram excelentes, não caiam as ligações. E além disso era um ótimo investimento. Todos esperavam nada menos do que 2 anos pela geringonça.

As geladeiras eram chamadas de Frigidaire e qualquer líquido achocolatado chamávamos de Toddy. Sofri quando a Varigorgulho dos gaúchosfoi pro brejo. Bem que aí, eu já tinha crescido bastante - nada mais restava da adolescente.  Aquilo que ofereciam nos voos era comida de primeira! Hoje me engasgo com uma barrinha minguada, com um bolinho raquítico e duas bolachinhas d'águaVarig era coisa séria. Mas num próximo voo penso em levar minha marmita de casa. A coisa nesse país anda capenga.

Sou da geração que não conhecia silicone, popozudas, mulher com boca de gamela e homens com cabelos pintados. Tudo era natureba. E os programas de televisão nem de longe se pareciam com BBB, A Fazenda e assemelhados. E tínhamos músicas de verdade! MPB, música italiana, francesa… Poxa, que saudades! Casei ao som de Dio, come ti amo. Lindo. 

Tínhamos os Beatles! E foi com eles que conheci o histerismo feminino. Que loucura foi aquilo. E mais: tinha muita curiosidade pelos hippies que revolucionaram totalmente os costumes, pregavam a paz e protestavam contra a guerra no Vietnã. Com eles apareceram os exercícios de meditação, os incensos, as gírias e algumas drogas - infelizmente. Seus cabelos  compridos casavam bem com suas vestes despojadas. E tudo  era Paz e Amor. 

Mas, se eu soubesse que hoje estaríamos nessa belezura de país, não teria pressa em crescer: estaria melhor escalando árvores, andando descalça, dizendo 33 ao ficar doente, e tomando Biotônico Fontoura a varrer. 

Estaria melhor assistindo aqueles enlatados inocentes na tevê, continuaria dedilhando minha belíssima Remignton, inventando umas coisas esdrúxulas no piano, curtindo os matinês e fazendo de meus cabelos um verdadeiro carnaval.  Eu não sabia  que eu  era tão  feliz!! 

Se o país em que vivo tivesse saído da adolescência, e virado adulto  comigo, eu nada teria a lamentar. Mas hoje vivo num país de mentira, violento, corrupto, com falsa alegria, sem ídolos e o qual a Indústria da Beleza enterrou o verdadeiro sentido das coisas. 

Vivo num mundo muito louco onde cada um veste sua fantasia, pula sozinho e compartilha o que não deve. Vivo numa aldeia em que tudo virou público e nada mais é privado. 
Desta época jamais sentirei saudades.  



25 comentários:

  1. 0i Tais, agora você me fez chorar, quanta recordação,tudo isso também povoa a minha alma, e eu também, igual à você, queria crescer logo. Agora acredito ser a mais nostálgica pessoa do mundo. Guardo meus discos antigos, tenho o maior ciúme. Que época maravilhosa aquela.Amei, parabéns.bjs.Ainda tenho também um vestidinho de lastex.

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    1. É, Loudinha, quando as coisas desandam, queremos mais é nos grudar num passado mais saudável. Lastex... lembro bem!
      Um beijo. Obrigada.

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  2. Boa noite, querida amiga Tais.

    Sou dessa geração e me lembro de tudo isso com saudade. Havia sonhos, idealismo, música boa...

    O Elvis Presley...
    Tenho tanto material dele aqui, e quando o assisto, primeiro tomo um banho. Fico perfumada para assistir esse show da vida!

    Safra de boa música, parece que jamais existirá.

    Ainda bem que a tecnologia nos permite selecionar o que nos faz bem.

    Que a sua semana seja de paz.

    Beijos.

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    1. Aquela safra de músicas não dá para esquecer... Não terá igual.
      Beijos, querida Amapola!

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  3. Que saudade que dá quando se volta no tempo, tenho também bem vivo em minha memória tudo isso, também gostava de ler livros difíceis, rs, fui incentivada desde menina a ler, (postei no meu blogue levitar.., sobre isso), foram Anos Durados mesmo, não voltam mais, temos de seguir nos adaptando ao que está aí!
    Amei ler por aqui, me identifiquei com tudo!
    Abraços e tenhas uma linda semana!

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    1. Pois é, Ivone, dá para reparar que todos falam do passado, da nossa infância, da adolescência... Belos tempos. Claro que nem tudo foram rosas, mas nossas lembranças particulares foram outras.
      Beijos, ótima semana!

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  4. Vou-me embora pro passado:

    http://www.youtube.com/watch?v=J_2OsmoBFTA

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    1. rss, adoro o Jessier Quirino! Sensacional!
      Também tenho vontade de me mandar...
      Beijo, Fábio.

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  5. Tais, mexeste com as lembranças e recordações de muitas de nós, tuas leitoras e o fizeste brilhantemente! Adorei te ler .Ri, revivi, lembrei e me entristeci, como tu, com o final.Pena que assim seja! beijos,linda semana,chica

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    1. Oi, Chica, pois é, a coisa está tão feia, tão desestimulante que é difícil de ver um futuro, mas o passado ninguém nos tira. Dá para sonhar...
      Beijão, ótima semana.

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  6. Como eu a entendo Tais!
    Acho que a nossa geração em qualquer parte do mundo sente o mesmo. Um belo texto que assino por baixo sem complexos. Anda tudo virado do avesso e sem valores nem respeito.
    Uma boa semana.

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    1. Exatamente, o ser humano perdeu totalmente o respeito por si, e imagina pelos outros.
      É só falcatruas!
      Beijo, querida Emilia.

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  7. Olá minha querida amiga Tais, acho que pertenço sempre a outro tempo, talvez esse que tu falas, um passado não muito distante de tempo, mas distante em tecnologias que é praticamente coisa recente...Devo dizer que, te ler me dá muito prazer, eu não resisti e ri um bocado com tuas lembranças...mas isso de querer crescer, acho que quase todos pagamos pela língua né ?pois quando crescemos aparece um desejo profundo que tudo voltasse...Vi uma entrevista com a Fernanda Young (acho que se escreve assim rs), e ela dizia que imaginava a hora de ser maior, independente, fazer o que queria, ir para onde desse vontade, mas daí ela percebeu que ao chegar na idade desejada, pelo copntrário, sentiu-se mais presa ainda, com as responsabilidades...acho que é esse o nosso problema quando criança, não imaginamos que a suposta liberdade está eivada de responsabilidades, e que não compensa querer crescer, achei bem legal isso.
    Minha querida amiga, admiro demais este poder que tens de colocar ordem nas palavras e idéias, eu senti uma imensa nostálgia no começo da crônica, algo bom e então caímos no final, um final, não cruel, cheio de esperança, mas real. Talvez, para mim esteja aí o encanto de teus escritos, consegues um equilíbrio que eu desconheço quando escrevo, mas aqui nos teus escritos acabou se tornando algo encantador, és uma encantadora de palavras.
    ps. Meu carinho meu respeito e meu abraço

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    1. Oi, Jair, ah... eu não tenho dúvidas que minha geração perdeu em algumas coisas mas ganhou bem mais; os valores eram outros e isso moldou nosso caráter. Diria que éramos inocentes e românticos. Valorizávamos coisas e sentimentos que hoje não vemos com facilidade. Queríamos crescer, mas que mal havia nisso? Sonhos, sonhos. Parece que o ser humano era mais valorizado, não? Sei lá, hoje está tudo muito abagunçado. Na verdade, conforme o lugar que se vai, temos é de andar de 'perneira'...
      Querido amigo,muito obrigada por tuas palavras, é sempre um incentivo para os contadores de histórias, como nós todos.
      Grande abraço!

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  8. Taisamiga


    Como certamente já sabes, estou (infelizmente…) de volta a este vale de lágrimas em que os criminosos que dizem que nos governam reina a felicidade e até consegui(mos?)ram uma saída limpa (???) depois de quase três anos de sofrimento, de penúria, de pobreza e de resignação. Somos assim, masoquistas, gostamos de levar na cabeça, que raio de vida e de estar de cócoras.

    Goa ficou para lá voltar no próximo ano. Entretanto, estarei por cá e tentarei ir acompanhando, como habitualmente faço, este teu blogue. E, sempre que possível, comentando. Mas, hoje, ainda não comento…

    Abç ao Pedro & Qjs para tu

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    1. rss, tá bom, Henrique, hoje não comenta!! Entendo, ficou cansado da viagem a Goa. Agora descansa nesse belo Portugal que também está em crise, OK?
      Um beijo pra você e Raquel. Esperamos que estejam bem e felizes.

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  9. OI TAÍS!
    LENDO TEU TEXTO, FIQUEI A PENSAR EM MINHA ADOLESCÊNCIA, NAS CRISES EM BUSCA DE MIM MESMA E NO QUANTO EU ERA FELIZ TAMBÉM E NO QUANTO DE ORGULHO TÍNHAMOS POR NOSSO PAÍS.
    ESTUDAVA EM COLÉGIO DE FREIRAS E AS SEXTAS FEIRAS, IMPRETERIVELMENTE TÍNHAMOS A HORA CÍVICA, QUANDO SE CANTAVA O HINO NACIONAL, O DO RIO GRANDE E O FAZÍAMOS COM MUITO RESPEITO.
    MUITO BOM TEU TEXTO, CONSEGUISTE NOS LEVAR DO ENCANTO À DURA REALIDADE.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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    1. Oi, Zilani, é verdade, saímos do sonho - agora conseguimos avaliar melhor. Falamos da conturbada adolescência, mas esquecemos de ver as coisas boas da época. E como foi bom ter estudado em colégio de freiras! Eram exigentes, disciplinadas, nos colocavam no tranco certo, rss.
      Beijos, que bom você aqui, obrigada!

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  10. É isso mesmo amiga...Também vivi o que você viveu, e muito feliz!
    Tenho muita pena das adolescentes de hoje! Pobre juventude perdida...
    Mas eu sou otimista e creio que para arrumar o que está bagunçado é preciso desconstruir primeiro...Acredito que um dia tudo volte ao normal e as crianças possam ser crianças, os jovens possam viver a adolescência e os adultos se comportarem como tais...

    Beijos

    Algumas blogueira disseram que tiveram dificuldades para encontrar meu link no perfil, por este motivo estou facilitando, deixando-o abaixo.

    http://marciagrega.blogspot.com.br/2014/05/voce-tem-compulsao-por-compras.html

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    1. Oi, Marineide, também penso, seria 'desconstruir'. Mas acho Impossível. É como se voltássemos ao séc 19, depois de tantos avanços. Acho que estamos sofrendo uma fase de adaptação para depois entrarmos no tranco certo: nem tanto lá, nem tanto cá. Por enquanto tudo está voltado para a tecnologia, só para ela - 24 horas...

      Beijos!

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  11. Tais, por coincidência, enquanto tomava banho, hoje, voltei meus pensamentos para minha época de adolescente. Só desejava jogar bola na rua, brincar, como criança. Certa vez até ouvi meus pais comentarem que eu já não tinha idade para isso (rss). Nunca fui rebelde e pintar os cabelos estava fora de questão, pois minha mãe jamais permitiria. Muitas coisas eram proibidas, mas a liberdade atual é exagerada, em meu modo de ver o desenvolvimento dos jovens. Aquela educação, no entanto, em nada prejudicou minha formação. Adquiri valores e aprendi a respeitar os demais e a mim mesma. O mundo mudou, para pior. Tínhamos orgulho de ser brasileiros e olhávamos o futuro colorido de esperança, o que não podem fazer os nossos jovens. A ciência alcançou altos patamares, a tecnologia abriu portas... mas os seres humanos regrediram. E só eles podem provocar as mudanças tão ansiadas pelos conscientes. Bjs.

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    1. rss, também jogava bola, amarelinha na calçada, bandido e mocinho... 'virgi', como fui criança! O carnaval dos cabelos começou na adolescência. Concordo com você; O MUNDO MUDOU PRA PIOR! Olalá... E as amizades não têm o mesmo 'gostinho'.
      bjs.

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  12. Querida Tais: Bonitos y nostálgicos recuerdos de juventud que me han hecho recordar viejos tiempos.

    Para completar esta entrada te felicito al poner esa bonita obra de Cayetano de Arquer Buigas pintor impresionista catalán, no solo conocido por sus mujeres y sus poses de su “nuca”, aunque también toco diversos temas como pintura ecuestre, bodegón o paisaje entre otros. Su técnica principal fue el paste. Un gran representante de la pintura catalana del siglo XIX.

    Mis felicitaciones por los diversos temas que tocas tan interesantes.

    Un fuerte abrazo.

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    1. Olá, querida Amelia, ao postar essa obra lembrei de você!
      Agradeço seu comentário, fiquei feliz por ter gostado.
      Meu carinho pra você, amiga.

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  13. Viajei no tempo com a tua crônica: maravilhosa! Adorei!

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