26 de maio de 2016

A LEI DO SAL E DO PALITO NOS RESTAURANTES

Restaurante em Arles - 1888 / Vincent Van Gogh


      - Taís Luso



Pois, eu e Pedro almoçamos sempre fora, nada mais prático. Existem incontáveis restaurantes estilo 'por quilo e livre' – sinônimo de boca nervosa. Quando os filhos aparecem, pedimos algo em casa. Esses restaurantes são ótimos para cronista algum botar defeito. Tem de tudo um pouco, principalmente observando os detalhes. Mas são muito bons no serviço e na coleção de coisas bizarras, que vamos vendo no decorrer do almoço.

Sinto não poder chamar a atenção do meu marido – já que somos cúmplices na arte de observar. Eu sou discreta, meu olhar anda por cima como se nada visse, enquanto Pedro roda a cabeça 180 graus e pergunta em tom alto...

        - Onde, onde, onde?

Pronto, isso é o suficiente para estragar minha pesquisa. Mas agora o assunto é outro: quando me servi de verduras, notei que faltava sal. Na mesa não havia o saleiro. Perguntei ao garçom sobre a ausência do sal.

       – Agora é lei, senhora, sal e palitos não podem ficar na mesa. Estão na entrada, na mesa do buffet. Ficam em saquinhos. Mas eu busco pra senhora.
          – Péra! Palitos? O que tem o palito?

Foi; voltou com 4 pacotinhos de sal e 3 palitos embalados que eu não pedi. Mas tudo bem, sei que os palitos são excêntricos e nunca bem-vindos, mas não precisavam massacrar o coitado diante de uma nação meia boca. Não sabia do palito enquadrado numa lei. Coitado.

E a lei dos palitos me fez lembrar da situação atual do país. Temos inúmeros problemas no Brasil, um raio de mosquito infectando milhares de pessoas, esgotos a céu aberto e os vereadores de Porto Alegre vão se preocupar se a população come muito sal ou escarafuncha os dentes? Isso tem relevância? O palito e sal permanecem no restaurante, só que na mesa do buffet! Apenas mudaram de lugar, trocaram 6 por meia-dúzia. Concordo que palito é desagradável, mas as verduras são bem lavadas? Há uma fiscalização?

Me veio à cabeça o Mensalão, o Petrolão, o LavaJato e até o Juiz Sérgio Moro! Os caras preocupados com um palito e a Petrobrás ardendo em chamas, assaltada, valendo quase nada. O país com um déficit fiscal de 170,5 bilhões de reais e o pobre do palito lá, desmilinguido, sofrendo bulling. Os Estados com a corda no pescoço, pagando salários atrasados e os vereadores preocupados com saleiro na mesa. Pô, gente, não tô acreditando: se for para fazer leis, a primeira a ser vista é a corrupção desse país em todos os setores. Não adianta os políticos saírem de um partido ou afastados de um cargo, e voarem para outras funções. É o que está acontecendo.

Mas adoro essa seriedade e esse espírito criativo com leis como essa, de tamanha relevância. Os Vereadores preocupados...  Durma-se com esse barulho.

Mas para não dizer que não falei de flores, espero que cuidem da nossa segurança, saúde, educação e a credibilidade do país, para futuros investimentos internacionais que estão sucateados. OK?
Haja coragem para investir por aqui.


21 de maio de 2016

DESEMPREGO – Luiz Coronel







O homem no desemprego
é um homem amordaçado.
Esconde grito contido.
Por isso parece calado.

O homem no desemprego
rumina áspero ódio.
O tempo boceja inútil
sem agendas ou relógios.

O homem no desemprego
não tem passagens ou malas.
Move-se num vaivém
qual uma fera na jaula.

O homem no desemprego
parece perdido no espaço.
Manearam suas pernas.
Imobilizaram seus braços.

O homem no desemprego
é um habitante no limbo.
Diga qual diferença
entre segunda e domingo?

O homem no desemprego
é o mais só entre os sós.
Sabe-se mutilado, ferido
mas desconhece o algoz.

O homem no desemprego
é um homem no exílio.
Não tem idioma nem pátria.
É um trem fora dos trilhos.

O homem no desemprego
é um náufrago na tábua.
Ou um peixe asfixiado
num turvo aquário de mágoas.

Ao homem no desemprego
congelaram sua imagem.
O tempo rola seu filme
mas ele ficou à margem.

Ao homem no desemprego
o alambique destila
a salvação pelos copos
e o triste roteiro das filas.





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Luiz Coronel nasceu em Bagé / RS, em 1938. Bacharel em Direito, Sociologia e Política, reside em Porto Alegre, onde trabalha como diretor de publicidade. Criou e dirige a Exitus, empresa de publicidade. É compositor musical, possuindo diversos prêmios como letrista nas Califórnias da canção nativa.
Com mais de 50 obras recebeu prêmios no Brasil, Espanha e México. Com traduções para o inglês e alemão. 

Sempre ligado à comunicação e à cultura, há 20 anos é presença constante nas redes de comunicação gaúchas participando na condição de colunista e poeta que sucede Mário Quintana, em edições semanais de poemas no Correio do Povo desde 1996. Na Rede Pampa participa de programas televisivos semanais, na RBS escreve como colunista na coluna Pampeana do jornal Zero Hora. Luiz Coronel  foi o patrono da 58ª Feira do Livro de Porto Alegre.

- Um Girassol na Neblina / Exitus ed. 1997 pág 62








14 de maio de 2016

RELACIONAMENTOS: TOLERÂNCIA ZERO




- Taís Luso

Muitas vezes me pego pensando nas relações humanas, gosto desse tema, da sua complexidade. Como são difíceis esses seres que falam, que choram, que gritam, que xingam, que roubam, que odeiam, que matam. E dizem que amam. Não; muitas vezes esse espaço para amar não existe. Nem todos foram moldados para amar.
Há pouco tempo, passeando pelos canais de televisão, dei de cara com uma cena em que famílias se matavam em discussões e agressões: um 'pega' horroroso entre mãe e filha; entre marido e mulher; entre irmãos. Mas é esse o retrato de famílias e de sociedades doentes.
Hoje é fácil perceber condutas bastante doentias, pois sequer as pessoas conseguem disfarçar em público. E nem fazem questão. É nesse egoísmo que conseguem acabar com sonhos alheios. Os humanos são seres muito especiais, mas também na maldade são 'maravilhosamente' criativos.
Não faz muito, soube de uma história que de tão esdrúxula, tornou-se hilária: uma avó foi visitar o netinho doente, levar seu afeto e um bolo para mimar a criança. A empregada abriu a porta, e a nora – que tinha horror da sogra – enfiou-se dentro do roupeiro e lá ficou até a sogra ir embora. O egoísmo, a intolerância e a ganância vieram fazer parte do quadro com mais intensidade, mais vigor. Não é só na politicagem que a coisa degringolou. A imundície existe é nas mentes e aparece nos lugares onde menos se espera. Mas isso sempre existiu. E encorpa e toma proporções gigantescas quando a sociedade não cuida de seus valores prioritários. Se espalha como peste.
Por que se acabaram os vínculos afetivos entre alunos e professores? Agravaram-se as brigas no trânsito e as reuniões de condomínios são nitroglicerina pura. Os jogos de futebol viraram disputas acirradas entre torcidas ferozes. E na política, as 'Excelências' se estrebucham, o Congresso Nacional virou um Coliseu Contemporâneo. E nas Redes Sociais é o mesmo drama. Há coisas boas, mas muitos partem para o ataque gratuito e dizem tudo o que querem. Seja com identificação ou como anônimos. Quando não compartilham das ideias em voga, o sarrafo desce.
Atualmente não é mais possível zelar pelo futuro dos filhos, não tem como saber onde vão, o que farão ou com quem conversam, saber quem são seus amigos.
O mundo adquiriu outro perfil. Nada mais é duradouro; os divórcios no Brasil, na última década, cresceram mais de 160% - último dado do IBGE. Isso é muito.
Vejo muitos avanços tecnológicos e um retrocesso nos relacionamentos. Não sei como chamar isso, e muito menos se haverá algum lucro no futuro.




7 de maio de 2016

MUDANÇAS NA CASA?




- Tais Luso

        Ontem cheguei em casa com umas revistas diferentes das que costumo comprar: cheguei com revistas de decoração! E ouvi um 'UÉ...' Não sei bem se foi de surpresa ou de pavor! Homem não entende de decoração, para trocarem uma cadeira de lugar é uma olimpíada! Aqui em casa o negócio fica meio nervoso, sou a única que gosta de trocas. De inovar.
Há dias comecei a olhar a decoração de nossa casa e fiquei pensando o tanto que mudei no decorrer dos anos. Mudei meu gosto, minha maneira de ver e sentir. É interessante como a casa acompanha nossa trajetória.
São transformações que acontecem e externamos também na casa. Eu noto de cara a personalidade de alguém quando entro em sua casa.
Tive uma amiga que me colocou numa fria. Faleceu há muitos anos, tinha um belo antiquário e com ela aprendi a amar as antiguidades. Fiquei apaixonada, realmente. Era daquelas pessoas que dizia: leva e paga como quiser. Pronto: a criatura fez um estrago enorme na minha vida. Me embuchei de peças antigas e agora está difícil de desapegar-me. Não tem como.
Dizer a alguém 'pague como quiser' é criar problemas para quem aceita. Eu aceitei, mas hoje não compraria nem a metade do que adquiri. O tempo se encarregou de formatar uma outra cabeça para minhas necessidades, gostaria agora de um estilo clean, mais leve, algo de fácil manutenção e não mais de metais, que requerem limpeza com regularidade ou porcelanas que não resistem às mãos da empregada.
Ofereci algumas coisas para meus filhos, mas não querem entupir suas casas, são mais práticos. Eu é que sou meio excêntrica: num canto de minha sala tenho um grande espremedor de uvas, dos EEUU, do ano de 1880. Ferro pesado que já passeou por todos os cantos da casa. Todos perguntam o que é aquilo!! Realmente é curioso. E belo.
Por outro lado, eu e Pedro temos o mesmo gosto, mas com uma ressalva: para ele um vaso pode ficar 30 anos no mesmo lugar que está ótimo; comigo o vaso precisa fazer rodízio, como se fosse a antiga bandeira da Igreja Divino Espírito Santo que visitava todas as casas dos paroquianos, semanalmente!
Lembro que minha mãe gostava desse mexe-mexe. Ela saía de minha casa e queria fazer o mesmo na dela. Ficava à minha espera, com a empregada de plantão. Meu pai ficava transtornado. Só não tocávamos em seu escritório. Respeitávamos. E minha mãe me cutucava:
- Minha filha, teu pai não gostou da nova decoração...Tá meio transtornado.
- Deixa, mãe, tá lindo, é questão de tempo! Relaxa.
Mas essas mudanças domésticas divertem, viram brincadeiras, mexem apenas na superfície, nos excessos, no nosso gosto.
O difícil é lidar e querer mudar pessoas com condutas e sentimentos torpes que o tempo agravou; difícil é a dúvida que se vive atualmente no Brasil porque as peças dessa casa, que abriga 200 milhões de moradores, não se encaixam em lugar nenhum, com coisa alguma.
Tudo zanza, causa náuseas, parece um navio em alto-mar enfrentando muitas tormentas.



1 de maio de 2016

POSTERIDADE / Affonso Romano de Sant'Anna




Eles vão nos achar ridículos, os pósteros.
Nos examinarão
com extrema curiosidade
e um tardio afeto.
Mas vão nos achar ridículos, os pósteros.

Olhado de lá
tudo aqui
será mais claro
para eles
que nos verão
inteiramente diversos
do que somos,
bem mais exóticos
do que somos.

- Como esses primitivos
ousavam se chamar modernos?
Farão simpósios, debaterão
e chegarão a bizarras conclusões.

Assim entraremos para a história deles
como outros para a nossa entraram;
não como o que somos
mas como reflexo de uma reflexão.


             
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(Poesia Reunida 1965-1999 / L&PM – maio 2004 – pg 174)


Affonso Romano de Sant'Anna nasceu em Belo Horizonte em 1937. É um dos grandes poetas, cronistas e ensaístas brasileiros da atualidade, com mais de 40 livros publicados.
Como jornalista trabalhou nos principais jornais e revistas do país: Jornal do Brasil, Veja, Isto É, O Estado de São Paulo, Estado de Minas e Correio Braziliense.  Professor universitário e ex diretor da Biblioteca Nacional.

Recebeu algumas das principais comendas brasileiras como Ordem Rio Branco, Medalha Tirandentes, Medalha da Inconfidência, Medalha Santos Dummont. É casado com a escritora Marina Colasanti.




23 de abril de 2016

TERROR NO HOSPITAL...





      - Tais Luso

Contou-me, ela, que chegou ao hospital às pressas, de madrugada. Na emergência, chorava muito. Mal  a criatura podia aguentar tanta dor. E foram muitas horas de angústia.

Nada mais adiantava a não ser Morfina, receitada pelo médico da emergência, que se compadeceu de tamanha dor. Mas no curto espaço de tempo, na pausa da dor, ela sentia a maior felicidade do mundo. Do contrário, a vontade era morrer.

Naquele lugar, de um branco asséptico, viveu  entre lágrimas, exigências, exames e hipóteses. Mas queria era um cirurgião. Urgente.

Passou-se uma madrugada e uma manhã, e ela em crise aguda. Ao meio-dia lhe avisaram que seria operada à tarde. Sem mais esperas. 

Foi uma cirurgia difícil, efetuada por ótimo médico, jovem e experiente.  Finalmente desceu para o andar inferior onde foi recebida com simpatia por uma paciente que compartilharia o quarto.  A essas alturas tudo estava bom demais.

À noite, seu marido permaneceu ao seu lado. Dormiu junto, numa cama encostada, resguardados por biombos. Dormiram de mão dadas. A certa altura ela levantou-se e foi ao banheiro. Na volta, começou a ver coisas muito estranhas naquele amplo quarto. 

Num canto, encoberto por grossas cortinas, havia visto  um velho deitado sobre uma tábua de passar roupa sendo massageado por uma enfermeira. Caramba!! Que loucura! Naturalmente seu marido se espantou ao saber, jamais imaginou um quadro assim dentro de um hospital de referência. Mas pegou no sono, exausto, esqueceu do velho sarado.

Não demorou para que ela lhe apertasse a mão e lhe dissesse para não se mexer, haviam várias pessoas, entrando e saindo do quarto, comercializando drogas e com armamento pesado. Uma forte luz que vinha da rua, entrava pela janela emitindo sinais de comando... O marido puxou as cobertas deixando apenas os olhos descobertos. O homem em pânico começou a pensar como tiraria sua mulher dali, do quarto 305, onde todos falavam  com cautela  e por códigos – segundo lhe contava  sua mulher, recém operada.  Noite de cão!

O dia clareou. Começava a rotina das enfermeiras do turno da manhã: mais remédios, mais injeções, mais curativos. No janelão, a solidária companheira de quarto olhava para a rua.

'É uma comparsa da gangue' pensava ela deitada em sua cama e tratando  todos com rispidez. Ninguém entendia aquela agressividade misturada com temor. A mulher, antes, tão dócil, tão meiga...

Bem mais tarde, seu marido desconfiou que algo deveria estar errado: começou a lembrar dos faróis sinalizando a entrega de drogas; gente armada dentro do quarto; uma sala com porta falsa e um velho  massageado que ele nunca vira por ali… 
Deu uma volta pelo andar; olhou canto por canto ao redor do quarto e nada viu! Tudo normal. As pessoas normais, as enfermeiras normais!

Mas veio uma luz: lembrou, de imediato, dos efeitos alucinógenos das tantas doses de Morfina aplicadas em sua mulher para aplacar as dores.

'Caramba - pensou ele - tudo pareceu tão real!!'


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17 de abril de 2016

DIZEM QUE SOMOS UM PAÍS FELIZ: DE NOVO?



        - Taís Luso



Após ter lido que nosso país, o Brasil, está na 17º posição entre os países mais felizes do mundo, confesso que fiquei confusa: perdi a noção de felicidade. Sim; de novo.
Fui consultar várias fontes, agora em 2016, enumerando, inclusive, os países mais felizes do mundo e o porquê da coisa. Para a maioria serviu de parâmetro a saúde, a segurança, educação, expectativa de vida saudável, a percepção de corrupção, a distribuição de renda per capita. Falei em corrupção? Ah, tá.
Dentre os países vistos como os mais felizes estão a Dinamarca, Suíça, Islândia, Noruega, Finlândia, Canadá, Holanda, Nova Zelândia, Austrália, Suécia, Israel, Áustria, Estados Unidos... E desponta o Brasil em 17º posição! - seguido por outros. Confesso que fiquei meio desconcertada, pois conheço nosso povo, acompanho seu sofrimento, suas necessidades, seu abandono. E penso que nossa posição no ranking 'não é' tão boa assim.
Será que existe felicidade na pobreza e no descaso? E na maior corrupção de todos os tempos? Pode existir um conformismo, mas até certo ponto. Depois a infelicidade desponta, grita, briga, sangra. Pagamos altos impostos, considerados um dos mais altos do mundo, e ficamos a ver navios na hora das lágrimas. Somos desassistidos: segurança atualmente, é zero. Vivemos inseguros.
Felicidade pra mim é a medida certa de um bem-estar espiritual e físico, independente onde se mora. São 193 países no planetinha, segundo a ONU. E nossa posição de povo feliz não me desce, uma vez que acompanho todos os noticiosos na televisão. Ainda não pirei, mas gostaria de entender. Sem o politiquês.
O que acredito que possa fazer um povo mais feliz é a maneira que sua pátria os acolhe. É o equilíbrio certo entre o que se paga – em impostos – e o que se recebe em benefícios. E como nós brasileiros somos acolhidos? Damos até as calças e recebemos o quê? Esgotos correm a céu aberto nas periferias das grandes cidades, e depois falam em acabar com os mosquitos que causam doenças. Que se proliferam.
Alguém cuida de nossa saúde sem termos um plano privado e caro? O brasileiro mais carente tem o SUS, todos o conhecem. Quando não faltam remédios faltam médicos e outras coisas.
Como são tratados os cadeirantes com necessidades especiais no Brasil? Como estão nossas estradas? Como está a segurança de nossas fronteiras? E os mais de dez milhões de desempregados? Será que nossa felicidade é medida pelo futebol e pelo carnaval ? Se depender de mim sou uma das infelizes, não gosto de nenhum. Detesto gritos e oba-oba.
O que existe por aqui é uma minoria, pra lá de ricos e felizes. Mas não é o povo. O povo segura a grana. Viaja quando pode, não vive em restaurantes caríssimos, não se submete à plásticas desnecessárias, não desfila com carros caríssimos, avião particular, roupas de grife, 300 pares de sapatos no closet, mansões pelos paraísos com governantas de toquinhas e aventais. Um conto de fadas. Mas nos carentes, nem falo. É só ligar a televisão ou andar pelas ruas.
Como podem os médicos do SUS, que lutam o dia inteiro para salvarem vidas, e sob estresse, ganharem 10 reais por consulta, que podem ficar em 6 reais descontando os impostos; como podem aqueles que cuidam de nossa segurança, receberem seus escassos salários parcelados? É o desnível da miséria humana. Isso é que fala alto. Mas esse eco não chega no topo da pirâmide; falta força para subir a rampa. Por enquanto, dizem 'Eles', existem prioridades!!
Somos um país feliz? Eu sonhei... mas não com esse.




10 de abril de 2016

MATURIDADE / Lya Luft




                    Caminho entre as minhas perdas
                    que são insetos escuros,
                    e os meus ganhos: douradas borboletas.

                    A luz de uma paixão, o dedo da morte,
                    o grave pincel da solidão
                    desenharam meus contornos, firmaram
                    meu chão.

                    Que liberdade, não precisar pensar;
                    que alívio não ter de administrar
                    minha vida:
                    apenas andar, e olhar,
                    apenas ouvir essas vozes
                    que vêm de longe, passam por mim
                    e não me dão importância.

                    Porque no vasto oceano,
                    a minha eventual desarmonia
                    é só uma gota
                    desafinada.
                    Mais nada.

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 Para Não Dizer Adeus – 3ª ed.  editora Record, 2005, Rio de Janeiro - pg 139.


Formada em Letras anglo-germânicas e com mestrados em Literatura Brasileira e Linguística Aplicada, Lya Luft trabalha desde os 20 anos como tradutora de alemão e inglês. Já verteu para o português obras de autores consagrados como Virgínia Woolf, Günter Grass, Thomas Mann e Doris Lessing, além de ter recebido o prêmio União Latina de melhor tradução técnica e científica em 2001 pela tradução de Lete: Arte e Crítica do Esquecimento, de Harald Weinrich.

Romancista, ensaísta, cronista e poeta, deixo aqui alguns de seus livros. Lya  nasceu em Santa Cruz do Sul, em setembro de 1938 - RS.

As Parceiras / 1981 – A  Asa Esquerda do Anjo / 1981 -  O Ponto Cego / 1999 - Reunião de família / 1982 - O Quarto Fechado / 1984 - Mulher no Palco / 1984 - O Rio do Meio 1996 – Mar de Dentro / 2002 - Perdas e Ganhos / 2003 –   Histórias do Tempo / 2000 -  Pensar é Transgredir / 2004 - Histórias da Bruxa Boa / 2004. Atualmente escreve uma coluna  na  Revista Veja. 

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2 de abril de 2016

ALEGRIA DE VIVER





              - Taís luso de Carvalho

Mexendo no meu baú, entre tantas coisas guardadas, reli essa conversa que tive com meu pai há muitos anos. Há 10 anos ele faleceu, mas já vinha doente. Para minha surpresa ele tinha passado nossa conversa  para o papel. E com imensa saudade transcrevo essa conversa nesse blog que tem muito de mim. Conversávamos sobre a vida, sobre aborto, divórcio, dogmas, fé e tantas outras coisas.  Sua fé era enorme. Uma fé que eu respeitava e admirava tanto quanto suas ideias. Às vezes discordávamos; outras tínhamos afinidade. 
Ele começou assim - sorrindo:  Era uma vez... 

Sim, pai, eu me lembro do “era uma vez”... era um tempo em que me contavas histórias sem pé nem cabeça. Tudo inventado, e eu acreditava! Mas ainda não tinhas cabelos brancos, e eu era criança. Mas agora, olha lá o que vais inventar...

É verdade, filha, o tempo foi passando, passando. Mas é bom que o homem às vezes, deixa-se ficar à janela do tempo contemplando a vida. É tão breve o espaço no qual se sucedem auroras e crepúsculos que nem mesmo se percebe a profundeza nele encerrada. Como passa o tempo e como passam as coisas! - tornam-se cada vez mais fugidios os momentos que nos são dados e é certamente por isso mesmo que o seu valor é tão inestimável. Cada minuto, passa para sempre.

Estás triste, pai?

Minha filha, hoje vive-se com uma filosofia de vida de quem acredita que o seu tempo jamais terminará. O simples deter-se em tais paragens do pensamento significa algo que recende a morbidez e que rouba à criatura humana a alegria de viver. Contudo, atrás dessa imprudente corrida para o efêmero talvez se esconda, na verdade, um medo de pensar na realidade.
Talvez a vida ofereça tantas oportunidades de fruição do prazer, e porque sobre cada ser humano paire a sombra da possibilidade duma terrível hecatombe nuclear, as pessoas, como numa alucinação, apegam-se desesperadamente ao instante que passa, como a dizer-lhe: não te vás...espera...
Debruçados à janela do tempo veem quão longe já vão seus sonhos e como é breve a vida.
Vou contar-te uma historinha, filha: há poucos dias encontrava-me numa calçada, caminhando com certa dificuldade, pois vinha daquela recente cirurgia, quando um menino, irritado talvez pela minha vagareza, desviou-se de mim e disse: É, os velhinhos, às vezes, custam muito a caminhar!
Suas palavras, mal sabia ele, foram como um bálsamo em minha impaciência pós- operatória e permitiram-me pensar como são inseguros e passageiros os valores sobre os quais, com tanta confiança, assentamos os fundamentos do edifício da nossa vida, e que julgamos definitivos, inabaláveis e eternos. Às vezes, quando estamos bem, somos vítimas de uma ilusão de eternidade no qual tudo se afigura como se jamais fosse terminar. Ah! Os meninos... às vezes têm tanta pressa...

Pai, eu não gosto de te ver assim, gosto daquele pai otimista... Estou preocupada contigo, pai! O que está havendo? Onde está aquela tua força?

Veja, filha, é preciso deixarmo-nos submergir no eterno para sentir que a beleza, a sabedoria e a vida só se chega no encontro pessoal com a verdade. É nela que descobrimos como é breve o tempo que medeia entre o berço e o túmulo.

Mas pai, parece que a felicidade é algo quase inalcançável!

O conceito de felicidade, minha filha, ao redor do qual as pessoas, muitas vezes fazem girar suas vidas, é essencialmente baseado na satisfação do ter, do poder e do gozar, os quais como sabemos, são realidades muito efêmeras, mas que nem por isso deixam de ser capazes de distrair os menos avisados e fazê-los perder o verdadeiro sentido da vida. O homem não é um ser que passa sem história e sem destino e é nisso que está sua bem-aventurança ou... a sua desgraça.

Pai, acho que não vou dormir esta noite! Sei onde queres chegar...

Filha, tudo um dia terminará, menos nós. Presunção, dirão alguns; prudência, pensarão outros. Todavia não desertemos da verdadeira vida. Não nos deixemos envolver pela falácia do mundo e pela deificação do efêmero.
A verdadeira alegria de viver está na paz e na verdade, e a verdade é Deus, minha filha.

Pai, estou com medo... estou pensando  nesse dia que estás falando...

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Lembro que fiquei abraçada com meu pai e chorei. 
Chorei. Ele me consolava. E ali demonstrou que sempre teve alegria de viver, apesar de já saber... 




27 de março de 2016

ALGUMAS LEMBRANÇAS DOS ANOS 60 - 70




           - Taís Luso de Carvalho

Para esquecer um pouco a política brasileira (um caso à parte), hoje trago algumas recordações dos anos 60 e 70.
Começo lembrando da alegria de muitas famílias do sul do Brasil ao casarem as filhas com militares, médicos ou funcionários do Banco do Brasil. Diziam os pais, pegando a linguagem de hoje, que funcionário do BB era 'O Cara'! Eram?
O costume era namorar, noivar e casar. Nessa ordem mesmo, crescente!
Também, na mesma época, as mães do interior, principalmente as de origem italiana e alemã, gostavam de ver seus filhos tornarem-se 'padres'; era uma benção ter um padre na família. Então lá vinha a gurizada, com sotaque enrolado, estudar no Seminário de Viamão.
Hoje os Funcionários do BB não são mais aquela Brastemp (e nem a Brastemp é mais aquela geladeira). E os padres já não estão sozinhos com aquele bolão, dividem o meio de campo com os pastores evangélicos e outras religiões – tudo em ebulição. Em suma: nada é mais aquilo.
Nesse mesmo período, o sonho das moças era tornarem-se aeromoças da Varig - a primeira companhia aérea brasileira a ser fundada no Brasil - 1927, no RS.
Realmente tinha Glamour. Viajar de avião era uma festa, e a Varig era sinônimo de requinte. Hoje, longe disso; o negócio ficou na fome: barrinhas de cereal, bolachinha e 'refri'. Ficou mais democrático, mas exageraram na dose da economia. Quando encarei o tal kit, tive certeza que fui contemplada com a Bolsa Fome.
As Missas dos domingos eram o maior mistério, mas era bonito: o padre - ainda de costas -, mandava tudo em latim! Não se entendia bulhufas, mas os fiéis adoravam responder ao Dominus vobiscum : - Et cum spiritu tuo!!!
Estudar latim, no curso Clássico, era traumático. Nenhum dos alunos sabia para que servia. Mas apesar da choradeira, ficava-se sabendo de sua importância no término da faculdade. Ou nunca. Latim sempre foi a pedra no sapato dos estudantes!
Outro marco, magnífico, aconteceu em 1972 quando da primeira transmissão pública de TV em cores produzidas no Brasil. Foi maravilhoso ver o mundo real.
E os Beatles 1960 / 1970? O negócio bom era destrambelhar. Instalou-se a rebeldia jovem no mundo a partir da aparência, uma mistura estranha, junto com a paz e o amor dos hippies. Embora esses fossem muito despirocados, foi um movimento fundado pelos alunos de universidades da Califórnia, no começo dos anos 1960. O ponto alto era a luta contra a Guerra do Vietnã (1955-1975). Enquanto pediam a paz no mundo, Roberto Carlos no Brasil (Jovem Guarda) mandava brasa: e que tudo o mais vá pro inferno...
Mas um dos trabalhos de maior relevância foi o advento da pílula em 1960, nos Estados Unidos, e que significou uma verdadeira revolução nos hábitos sexuais do mundo ocidental. A primeira pílula foi a Enovid 10, trabalhada às escondidas, pois os contraceptivos estavam oficialmente proibidos nos Estados Unidos até 1965.
Pois é, muitas mudanças aconteceram. Umas boas, outras nem tanto. O problema sempre foi conseguir o equilíbrio nas mudanças, nos exageros que tiraram muita gente do prumo. E como tiramos conclusões das gerações passadas, daqui a anos outras gerações tirarão conclusões a respeito dos tempos de hoje. Inclusive do cenário político que será contado como um dos episódios mais embrulhados e misteriosos da Idade contemporânea. Estudarão as posturas, costumes e mistérios dos anos 2000. Ficarão alarmados, confusos talvez, com uma república chamada Brasilis.
E nós ficaremos na história. Com que nome? Não sei. Vai ficar ao gosto do freguês. Mas terá de ser algo muito louco.
Não deixaremos por menos!