25 de julho de 2015

SEGUE O TEU DESTINO / Fernando Pessoa



          
          Segue o teu destino,
          Rega as tuas plantas,
          Ama as tuas rosas,
          O resto é a sombra
          De árvores alheias.

          A realidade
          Sempre é mais ou menos
          Do que nós queremos.
          Só nós somos sempre
          Iguais a nós próprios.

          Suave é viver só,
          Grande e nobre é sempre
          Viver simplesmente.
          Deixa a dor nas aras
          Como ex-voto aos deuses.

          Vê de longe a vida.
          Nunca a interrogues.
          Ela nada pode
          Dizer-te. A resposta
          Está além dos deuses.

          Mas serenamente
          Imita o Olimpo
          No teu coração.
          Os deuses são deuses
          Porque não se pensam.

_______________________________    
           - Poema de Fernando Pessoa.
          Roteiro Literário de Portugal e do Brasil / Álvaro Lins e Aurélio Buarque de Holanda
          ed. Civilização Brasileira RJ - 1966 pág 354.




14 de julho de 2015

TRISTEZAS E ALEGRIAS



-Taís Luso de Carvalho

Não gosto e nem acredito em gente que se mostra os 365 dias do ano sobre a batuta da felicidade. Infelizes criaturas: não podem ser gente, ora tristes, ora felizes. Precisam  da aparência. Parece que aparentar um quadro de tristeza, de insatisfação consigo é uma doença. Desmerece e desbota uma imagem estudada. Certas coisas me irritam, difícil de engolir.

E hoje, talvez por ter lido alguns textos tristes, por ter arrumado minhas caixas de fotos e feito um balanço da minha vida e das pessoas queridas que se foram, bateu-me uma certa saudade mesclada com um pouco de tristeza. Então me dou à liberdade de hoje estar meio abagunçada por dentro. Quero ficar quieta. E não vou escarafunchar  em busca dos porquês de minhas reações, pois sou bem capaz de ir caminhando por uma autoterapia e chegar nos problemas emocionais da minha bisavó! Deus que me livre. Menos...

Li, há pouco, uma reportagem muito triste: o filho, num hospital, em estágio terminal, recebe a visita de seu pai. Há 18 anos não se viam! São retratos de família? Por certo. A foto mostra os dois se olhando, de mãos entrelaçadas, olhos marejados que diziam tudo da vida que não viveram. Para entendimentos é tarde.

Depois dizem que a vida não é madrasta... Mas como não, se até Manuel Bandeira num de seus belos poemas chora dizendo que a vida lhe é madrasta! Então como não acreditar? Poeta não mente, trabalha com o coração. O que mente é a razão.

Famílias em longos desacertos como se a vida fosse infinita e nos desse todo o tempo do mundo para a reconciliação. Vejo-me desiludida diante de certas situações que não consigo entender e me pergunto o real valor dos sentimentos. Onde está o sentido dessa 'coisa' tão falada? Tão sentida?

Tocar nosso caminho mentindo que tudo é encantador, sorrindo, brincando e acreditando que a vida é uma dádiva e que todos devem se amar? Não; não funciona assim: nos ensinaram que deveria ser assim! Mas é diferente. Utopias não funcionam. Na real, poucos se amam, todo o dia é exposto ao mundo inteiro a outra face da moeda.  E nada é cor-de-rosa. Panos quentes não cicatrizam feridas antigas, nem entre os povos, nem entre as pessoas. O ódio, o orgulho e a inveja são efeitos colaterais de drogas devastadores. Acabam com o doente e não acabam com a doença.

E se a vida é assim, cheia de sentimentos contraditórios e vulneráveis, por que não poder afastar a máscara, mostrar alegria e tristeza, força e fraqueza ou a desgraça? Mostrar que gente tem seu lado bonito e também o xucro, o abominável. Que gente tem o seu  saco de bagulhos pra carregar e pode 'piar' pelo peso. Ou até 'pirar' por momentos. Nada é perfeitinho. Mas muitos querem aparentar uma linda e doce vida que não sei para que serve.

Mas para fechar esse texto que julgo verdadeiro, de uma vida que não é só festa, coloquei o CD, de fundo,  Que c'est triste Venise, com Charles Aznavour, porque se for pra sofrer que o serviço seja completo.

Quero, sim, poder curtir minhas alegrias e tristezas, refletir e chorar, pois só as lágrimas me farão amadurecer mais, e me mostrarão o real sentido de tudo que me rodeia.  Assim poderei decidir meu andar. E se tiver sorte, um longo andar...

Por hoje é isso. 
Voltarei com algo mais alegre.


  aumente o áudio do vídeo



7 de julho de 2015

POEMA 'BALANÇO'




             Quando chegar ao fim da minha vida,
             toda cheia de curvas e de dobras
             ah! não contes, Senhor, as minhas obras
             a ver se a recompensa é merecida!

             Minha justiça é logo corrompida...
             minhas boas ações, apenas sobras...
             eu fui um fariseu: minhas manobras
             são ruínas em pó, massa falida...

             Quando chegar ao fim destes meus dias,
             sei que terei as minhas mãos vazias
             e a túnica bem rota de um mendigo!

             E por saber que tudo logo passa
             eu me abandono inteiro à tua graça
             pois só o amor eu levarei comigo...

 - do poeta Antonio Carlos Santini 
          ________________________________________________
       
          Esse poema  (significa a hora da 'prestação de contas') me foi enviado por meu pai um pouco antes de seu falecimento, e sem dúvida tocou-me bastante. Passaram-se anos  e  nunca  esqueci esse poema. Hoje compartilho com vocês, há o que refletir...
Esclarecendo: o autor do poema não é meu pai.



27 de junho de 2015

O FIM DA FOTOGRAFIA ?



-  por Tais Luso de Carvalho

Meus álbuns poderão fazer parte de museus. Hoje é um cerimonial folhar um álbum, ver fotos da juventude, formaturas, casamentos da família, festas... Mas a luta é inglória, o pessoal só quer saber de fotos no Smartfone, Tablets e aparentados. E dos últimos acontecimentos em Selfie. Nunca vi tanto autorretrato. Tantas caras e bocas. 

Minha geração (longe de ser do período paleolítico) ainda teve o privilégio de tirar fotografia. De manusear uma máquina profissional. De tentar fazer Arte fotográfica.
Ao ler uma entrevista na revista ISTOÉ, com o genial mineiro Sebastião Salgado, me bateu a nostalgia de um adeus. Cedo ou tarde teremos a despedida, segundo ele. A 'fotografia' está no seu final. Ele fala em fotografia profissional que passa por uma técnica própria, por processo especial da impressão, edição, um manuseio especial em laboratório. E uma técnica aprimorada. Tive o prazer de entrar num estúdio de revelação e ver o processo, a elaboração de uma fotografia.

Em seu último trabalho, o fotógrafo coloca o planeta à nossa disposição; os lugares mais fascinantes da Terra, difícil de chegar, difícil de fotografar, emocionante de ver. Oito anos de trabalho intenso para compor a obra Genesis.

'Descobri que 46% do planeta ainda está como no dia da gênese' - relatou Salgado.

Interagiu ao longo de 40 anos com culturas fantásticas, registrando pessoas, fauna, flora e contribuindo para preservação do planeta. Pelo menos tentando. Seu próximo trabalho será sobre as tribos indígenas brasileiras – grupos antigos, remotos e intocados pela civilização - ainda. Pelo menos 100 grupos nunca foram contactados. Deverá ser um trabalho minucioso e fantástico.

Mas, pra não dizer que só falei de flores e não coloquei uma pimentinha no texto, pergunto se algo bem contemporâneo não ficará registrado nos anais da história da fotografia dita imagem: falo do horroroso, deselegante e cafona pau de selfie. É uma invenção sui generis. Até em casamento já foi usado, e pelo padre! Não há dúvida que ficou exótico. 

Porém, está com seu uso proibido em vários parques temáticos dos Estados Unidos, de Paris e Hong Kong, o que alegam representar um perigo para a segurança de seus visitantes e empregados. Essa medida se estende, também,  a vários  museus. O que é óbvio.

Não faz muito, li um artigo (14/6/2015 ZH),  escrito por um especialista em ciência de computação, o qual percebe-se a despreocupação das pessoas a respeito do seu resguardo.  Não há dúvidas que  não se dão conta do grande risco que correm com a exposição de tantas fotos nas redes sociais. Pela facilidade de uma selfie, o ato se torna inconsequente. E como já virou uma paranoia, ninguém pesa as consequências. Mas pode virar um incômodo tamanho família. A vaidade humana não tem limites, está por demais escrachada.

Também já existem, nos Estados Unidos, estudos com jovens que se encontram doentes e insatisfeitos porque a tal selfie não lhes agrada nunca! E tais fotinhos precisam ser aprovadas nas redes sociais Esses estudos mostram que pessoas entre 16 e 25 anos dedicam 16 minutos e sete tentativas, em média, para fazer o selfie perfeito.  É um dilema que virou obsessão.  Enfim, os tempos são outros... 
Mas a arte, a criação e a emoção são coisas diferentes. Ficarão para sempre como relato da história da humanidade.


Protesto na Praça da Paz Celestial
Um jovem durante o protesto na Praça da Paz Celestial, na China, que fez parar uma fileira de tanques de guerra. A identidade do jovem é desconhecida até hoje. Em 2000, o mesmo jovem  foi eleito pela revista Time uma das pessoas mais influentes do século XX.


Solidariedade
A foto revela um gesto de solidariedade de um missionário em Uganda - 1980. 
A foto ficou registrada como a melhor foto daquele ano, sem que o fotógrafo soubesse...


A menina e o abutre
Essa foto emocionou o mundo, pois retrata a calamidade da fome na África, causada pela guerra civil. A tomada da foto foi feita em uma aldeia no Sudão (1993) e mostra um abutre observando uma criança desnutrida que aparentava esperar a morte e viraria alimento da ave. A foto rendeu ao fotógrafo o Prêmio Pulitzer. Contudo foi muito criticado por não ter ajudado a criança. Pressionado pelo sentimento de culpa, Carter  suicidou-se em 1994, aos 33 anos. 

21 de junho de 2015

DESENCANTO - MANUEL BANDEIRA

                                          




                                         Eu faço versos como quem chora
                                          De desalento… de desencanto…
                                          Fecha o meu livro, se por agora
                                          Não tens motivo nenhum de pranto.

                                          Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
                                          Tristeza esparsa… remorso vão…
                                          Dói-me nas veias. Amargo e quente,
                                          Cai, gota a gota, do coração.

                                         E nestes versos de angústia rouca
                                         Assim dos lábios a vida corre,
                                         Deixando um acre sabor na boca.

                                            – Eu faço versos como quem morre.

                                       _________________________________
                 
                                                        Manuel Bandeira – Uma Antologia Poética, L&PM Pocket pág 26
                                                        (Teresópolis 1912)




15 de junho de 2015

ESQUISITICES DE ALGUNS ESCRITORES



-Tais Luso

Revistas especializadas fuçam a intimidade de artistas, cantores, pintores... trazendo a tona um verdadeiro arsenal sobre a privacidade dos viventes. Mas nada tão interessante e curioso como saber do processo criativo e de algumas manias literárias dos escritores. Gente com cabeça privilegiada também pode ser bem 'diferente'. E revirei meus escombros. Encontrei algumas coisas interessantes dessas pessoas especiais que nos servem de inspiração, ora nos ensinam, ora nos fazem refletir. E mais: fazem de nós seres bem mais completos. Apesar de algumas esquisitices, tiro meu chapéu sempre, e com muito carinho. 
Em breve, trarei outros.
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Gabriel Garcia Marquez (1927 Colômbia/2014 México)autor de Cem anos de solidão, tinha uma mania que muitos escritores também têm: contava a mesma história - que tinha em mente - a outros escritores ou amigos. convencido, começava a escrevê-la. Essa foi uma mania que pegou por ter escutado um conselho de que para criar uma boa história deveria contá-la inúmeras vezes para sentir o que valia a pena ficar e o que deveria excluir. Levou 30 anos para concluir Crônica de uma morte anunciada. Tenho curiosidade de saber do porquê tanto tempo. Também fazia questão de uma flor amarela em cima de sua mesa e só escrevia descalço. Era compulsivo por arrumação.

Isabel Allende (1942 / Peru) é um pouquinho supersticiosa, começa suas novelas sempre na mesma data – 8 de janeiro –, e rezando. Acende uma vela e só para de escrever quando a 'chama' apaga. No outro dia segue o mesmo ritual.

Mário Vargas Llosa (1936 / Peru) arruma sua biblioteca de uma maneira bastante esquisita: os livros são colocados por tamanho e país de origem! Certamente eu me perderia com esse método bastante peculiar. Também escreve rodeado das estatuetas de hipopótamos que ganha dos amigos, desde que escreveu Kathie e o hipopótamo. É metódico e compulsivo por arrumação.

Nélida Pinõn (1937 / Rio de Janeiro),  só escreve bem vestida e investe alto na qualidade dos cadernos que usa e jamais usa neles uma caneta Bic. Com 8 anos já vendia seus escritos, mas para seu pai, seu maior incentivador. Apaixonadíssima por animais, se pudesse iria pra rua para cuidar deles. Participou de protestos e movimentos contra a ditadura militar ao lado de seus colegas escritores. Nélida Piñon foi a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1996.  
"Eu me dei conta de que tinha espírito aventureiro forte demais para ter filhos". 
Certo, cada um sabe de si.

Ignácio de Loyola Brandão (1936 / Brasil-SP) , só começa a escrever depois de limpar a caixa de seu e-mail, cedo, às 6 horas. Tem como obsessão fechar todas as portas dos armários e a porta do escritório. Escreve até as 10 horas e rodeado de suas cadernetinhas de anotações da marca francesa 'Clairefontaine' que manda buscá-las. Além do papel ser especial, minimiza o impacto sobre o meio-ambiente.

Ernesto Sabato (1911/2011 Argentina) era muito disciplinado e objetivo: se não gostou do que escrevera na parte da manhã, tocava fogo nos escritos na parte da tarde! Também era um bom e dramático artista plástico. Veja aqui.

Georges Simenon (1903 Bélgica/1989 Suíça) dava-se o prazo de onze dias para começar e terminar um romance. Como era compenetrado, explosivo, rígido e obsessivo, sentia-se esgotado se passasse desse período. Nesse ritmo escreveu 192 romances, 158 novelas e mais 176 livros sob 27 pseudônimos. Tinha mais uma mania peculiar: em envelopes separados colocava nomes, idades e famílias dos personagens e a partir desse feito começava a desenvolver o drama, mas sem saber do final. Também compulsivo por arrumação.

Bernard Shaw (1856 Irlanda/1950 Reino Unido) isolava-se num puxadinho que mandou construir no jardim de sua casa. Era compulsivo por arrumação. Mas isso é qualidade!

Pablo Neruda (1904/ 1973 Chile) só conseguia escrever com tinta verde! Na Guerra Civil Espanhol, Neruda não terminou um de seus poemas; quando chegou o novo carregamento, já era tarde, não conseguiu pegar o fio da meada...Fica pra outra 'vinda'.

Trumam Capote (1924/1984 EUA) era da turma dos preguiçosos,  que só  gostavam de escrever deitados. Não iniciava seus textos antes de verificar se no ambiente em que estava não havia nenhum inseto. Muito supersticioso fazia duas versões manuscritas a lápis antes de datilografar, e não colocava mais do que três bitucas de cigarro no cinzeiro. Na casa dos outros, as colocava no bolso. Jamais começava algo nas sextas-feiras. E nem terminava.

Luis Fernando Veríssimo tem por hábito jogar paciência no computador, na espera e esperança de que as ideias cheguem. Depois que soube que Chico Buarque fazia o mesmo, perdeu o sentimento de culpa.

Jorge Luis Borges (1899 Argentina/1986 Suíça), todas as manhãs registrava seus sonhos que usaria em suas ficções. Mas o excêntrico é que, volta e meia, escrevia na banheira, como também, algumas vezes, Vinícius de Morais usava da mesma 'tática' – era uma maneira de afastar os indesejados. Nada por asseio, não deveriam ser tão fanáticos...

Cristóvão Tezza (1952 – (Lages - SC/Brasil) autor de vários romances, entre eles O filho eterno, ao iniciar um romance passa por um processo de ansiedade torturante e que muitas vezes o angustiam. O primeiro de seus sintomas é a obsessão em arrumar todo o escritório, sem deixar um clipe fora do lugar.

Fabrício Carpinejar (1972 RS/Brasil) poeta, romancista, autor de vários livros, entre eles, Canalha, não consegue escrever sem camisa, é como desrespeitar a imaginação - diz o escritor. Na hora de algum bloqueio faz faxina da pesada, com detergente e enceradeira. Volta ao computador com as ideias cristalinas e sem vontade de mentir!
Caramba...esse sem dúvida é o mais esquisito!

Carlos Fuentes  e Victor Hugo eram andarilhos para uma boa inspiração, enquanto que 
Ernest Hemingway, Virginia Wolf, Wolfgang von Goethe tinham a mania de escrever em pé.

Hemingway

Metáfora - literatura e cultura (2011)

7 de junho de 2015

ACORDANDO COM DESPERTADOR


- Tais Luso

Putz, como é triste você ser cortada de um sonho lindo ou no desenrolar de um sonho surreal, com aquela trama complicada de entender, mas extremamente curiosa. Somos acordados por um despertador histérico que não espera um momento para o fechamento da história em andamento. Fico com um pesar de cão, gostaria de ter no final a revelação do meu inconsciente. Enfim ser uma surrealista, pois não é sempre que meus sonhos são interessantes para valer uma crônica. Uso pedaços de sonhos, sonhos raramente inteiros, e que no final ficam com cara de hiper-realistas. Está difícil sonhar... Difícil querer e não conseguir fugir da dureza dos noticiosos, muitos deles viram pesadelos. Difícil largar as preocupações do cotidiano, difícil cumprir todas as metas estipuladas.

Conheço gente que nasceu para sofrer - já no despertar do dia. Uns colocam o despertador dentro de uma panela para intensificar o barulho; outros colocam 2 despertadores, com o intervalo, entre um e outro, de dez minutos para tirar o ranço. Dizem que é para ir acordando aos poucos.  É uma tentativa meio paranoica, mas pode ajudar, quem sabe. 

Mas têm pessoas mais 'pesadas', que colocam o despertador no banheiro. Isso sim é o Calvário! A correria deve ser grande para que o relógio não acorde os vizinhos. E pulam da cama derrubando tudo, pisando no cachorro... E devem acordar bem mal-humorados.

Mas essa crônica nasceu porque chegou um novo despertador: em vez de gritar, ele acorda suas vítimas exalando perfume de café passado, pãozinho de queijo, cheirinho de mar … vários cheiros. Seu criador é um jovem francês Guillaume Rolland. É um despertador com sensor: Sensorwake. Custa 66 euros. 

Parabéns a todos nós, creio que acordaremos mais felizes. Só mais um pouquinho e o cheirinho de café passado chegará aqui em casa! Creio que acabou a paranoia.


Esse é o vídeo da tecnologia do novo relógio.




31 de maio de 2015

OS HOMENS JÁ PODEM CHORAR




- Tais Luso de Carvalho


Nas minhas improdutivas noites de insônia, liguei o rádio e escutei um programa sobre as mulheres, os homens e o trabalho doméstico. Naturalmente os homens entraram na pauta,  lembrei de algumas peculiaridades deles e outras nossas.

Sabe-se que mulher tem uma visão periférica mais ampla, vê tudo ao redor, e isso ajuda muito. E, quando possui uma enorme determinação, torna-se vítima dela mesma:

- Eu posso, eu consigo, eu me estrebucho, mas eu faço!

E abraça a causa do tamanho que for. No começo, cheia de amor. Depois vai na raça.

Será que os homens conseguiriam, além do trabalho fora, ainda cuidar dos filhos, da comida, atender o telefone, campainha, gás,  cachorro e ainda investigar o porquê da enorme zorra do papagaio, tudo ao mesmo tempo? E qual o motivo da casa virar uma central de patetas quando nós, mulheres, adoecemos por alguns dias?

Sabemos que trabalho de casa é exaustivo e que só aparece quando 'não’ é feito. Quando a casa fica anarquizada aparecem umas visitinhas com a língua solta e os olhos num silencioso diagnóstico:  Pô, que bagunça!! Que mulher porca.
Pronto, tá feito o embrulho, não há mulher que não decifre certos olhares.

Mas as coisas já melhoraram, e muito. Não há mais preconceito quanto ao homem ajudar nas tarefas da casa. Uma boa parte das mães cessaram com aquela coisa medieval de que homem não pode, homem não chora, homem é homem! Hoje, ao contrário, todas adoram um homem na cozinha. Homem que era homem tinha de engolir sentimentos na dureza. Nada de mariquice – coisa de mãe não evoluída. Mas essa evolução não é vista em todos os lugares. Na maioria, o tempo parou. Feliz da mulher que tem ao seu lado um companheiro e não um escudeiro.

Homem era força, era determinação e bom de briga. Maravilha? Não havia campo para levezas, sutilezas e sentimentalismos. Mas hoje, tem muito pai se virando bonito, trocando fraldas etc. É sensacional quando o homem adquire uma consciência de cuidar e dividir algumas tarefas de casa. Ser mais parceiro, mais sensível. É bom ver o homem inventar comida, participar da cozinha, ser solidário, escolher coisas para decoração. Mulher gosta dessa cumplicidade. Tudo isso aproxima e dá ao homem uma dimensão mais familiar, mais humana à sua vida.

Ótimo que muitas mães  estão educando os filhos com a razão e com o coração, deixando vir à tona belos sentimentos, principalmente o de permitirem que seus filhos chorem – o que comove  qualquer mulher. Homem quando chora é porque a coisa está doendo mesmo, seja no corpo ou na alma. E para mim, não há extravasão que comova mais. Não há lágrimas de homem que não balance o coração de uma mulher e a faça chorar junto. Se queremos homens sensíveis é necessário deixar que seus sentimentos aflorem. E que possam manifestá-los.

Que bom que os homens já podem chorar.