15 de maio de 2013

SER FELIZ



        - Tais Luso de Carvalho

Estava assistindo a um programa de televisão, onde várias pessoas falavam sobre seu modo de viver: o ter, o ser, o parecer. Lógico que parei por ali. Achei interessante quando uma delas falou do que precisava para viver: estipulou o necessário que deveria possuir para ser feliz. Dizia que ao adquirir um sapato novo, um outro teria de sair do armário. E o mesmo se dava com as suas roupas, utensílios, eletrônicos etc. Quando algo entra, algo sai. É, sempre pensamos em certos arranjos na tentativa de sermos mais felizes  qualquer tentativa é louvável.

Até certo ponto achei interessante, fui concordando com algumas coisas, porém, felicidade não se restringe só a isso: ser feliz é um estado de paz, de tranquilidade, de aceitação do que se é - sem muitas milongas e sem precisar de centenas de reflexões. Felicidade pra mim é  nascer com cabeça boa

Ser feliz em tempo integral, não existe. Aceitar a tristeza, o desencanto, as frustrações e aceitar certos comportamentos alheios - que não batem com os nossos  , é muito difícil de suportar, é um exercício diário, mas não impossível. Estou aprendendo, ainda, a selecionar. Certas coisas precisam ser descartadas para nos dar alívio. Paz. E  evitar ou  apagar certas atitudes e pessoas de nosso convívio ou da nossa mente não é tarefa fácil.

Na adolescência, a felicidade ganha contornos diferentes: o tal adolescente  'tipo assim', é agraciado com casa, comida, roupa lavada, smartfhones, tablets enfim, todos os dispositivos portáteis para uma conexão com inúmeras redes sociais e dezenas de descobertas. E muita estabanação por afirmação – própria da idade. E para muitos não basta, parecem um saco sem fundo.

Na nossa fase adulta muita coisa vira preocupação: o bem-estar dos filhos, preocupação com nossos pais, nossas perdas, encantos e desencantos com a nossa espécie, doenças e, também, momentos plenos de felicidade – é lógico.  E  mais mil idealizações e esperanças quanto ao nosso futuro. Supostamente tranquilo.

A sensação é que você está num ringue e precisa lutar até o fim. Sim, para muita gente é assim. É sofrido. É só abrir os jornais ou escutar os noticiosos diariamente. O ser humano é insatisfeito por natureza. Vivemos num mundo com uma carga negativa muito grande, prejudicial. Tudo que é desgraça vai para a mídia milhões de vezes. As coisas positivas, que elevam, aparecem num cantinho.

Penso que felicidade são períodos que podem ser mais longos ou mais curtos, depende de uma boa dose de paz interior, de sossego. Alguém tem paz em excesso? Tá sobrando por aí, amigo? Mas então você é feliz e não sabe!

Pego uma caneta, um pincel, um livro pra ler, sento-me defronte à tela branca do computador, mas um simples telefonema,  meio azedo, embolorado, já pode ser o suficiente para modificar meu estado de espírito – e na hora. Foi-se minha paz. Por isso, constato que o estado de felicidade é frágil, efêmero, frustrante pelo pouco que pode durar. 

Conheço pessoas que cursaram ótimas faculdades, nada lhes faltou, inclusive afetos verdadeiros, carinho, amor, cuidados... E são pessoas infelizes. Outras, ao contrário, que tiveram de lutar pela sobrevivência, comeram o pão que o diabo amassou, tornam-se criaturas bem mais felizes do que as primeiras. Que coisa, não? Taí a cabeça boa!

Na verdade, o que eu penso sobre felicidade não é entrarmos em estado de reflexão sobre sentimentos e atitudes, tentar mudar tudo e esperar por um milagre nos moldes querer é poder.

O que pode fazer alguém feliz é unicamente ter tido a sorte de nascer com uma cabeça saudável. Essa cabeça garantirá uma vida mais plena, a escolha de um caminho menos árduo, uma vida que valha a pena ser vivida. Digo sorte porque não dependerá de nossa vontade, dependerá da carga genética que trazemos de nossos pais, dos avós paternos e maternos. Toda uma  cruza que vem de longe.

Certas coisas poderão ser arrumadas; outras são imutáveis. O segredo para sermos mais felizes ou menos infelizes está nesse ponto: na carga genética que herdamos.

Posso estar equivocada, mas é o que penso.



5 de maio de 2013

A SAÚDE NO BRASIL? VAI BEM, OBRIGADA...



         - Tais Luso de Carvalho

Penso que ninguém fica muito confortável ao ver as reportagens sobre  a saúde no Brasil. Vê-se tanto desperdício, tanto dinheiro aplicado em coisas que não são prioridade, que ninguém sabe mais o que pensar. Porém, parecemos um povo muito alegre. E um povo alegre é muito bom, alegria não incomoda. É contagiante.

Ao mesmo tempo,  temos a impressão que muita gente está brincando em tempo integral, parece que somos joguetes, que nossas vidas tem um preço muito baixo. Ou nenhum. Morreu? Morreu. Acabou. E aí me pergunto: isso é seriedade? Será que esses políticos  que nos representam  estão conseguindo ouvir alguma coisa?

O que está havendo nesse  país  rançoso, em que todos estão vendo tudo  e nada é feito? Falta seriedade em todos os sentidos para tratar da nossa saúde. Sem seriedade, sem um salário digno e compatível com a importância da causa, começam  as falcatruas que vemos com frequência.

Fala-se muito em Estádios, em Copa do Mundo, Copa das Confederações: embelezar, aumentar e construir coisas monumentais e confortáveis para os turistas: será um orgulho para Brasil! Um perfeito cartão postal. Óhooooo, que lindo país! O Brasil vai ficar na história do esporte mundial e seremos lembrados como a Grécia Olímpica Contemporânea! Muito chique. Mas menos, né...?

São bilhões de reais aplicados em construções  faraônicas! E o povo ficará feliz da vida! Esquecerá  de tanta dureza. Aliás, acho isso muito saudável - esquecer. Pra não pirar.

Porém, quando um brasileirinho morrer sem assistência, sem leito, sem atendimento esperando horas sentado ou fazendo uma maratona olímpica pelos hospitais,  no entra, senta, espera, levanta, senta, sai, chora e padece  até ser atendido, aí a coisa fica feia. Será que estou equivocada ? 

Olhem o salário  de um jogador de futebol  ou de  um técnico e compare com o que ganha um médico para salvar a sua vida! Pergunte a um médico, de Plano de Saúde, quanto ele ganha  por consulta... Você fica constrangida, eu sei,  já perguntei. Tive essa infeliz ideia. Ainda bem que o ilustre era amigo.

Imaginem, então, o que ganham os médicos que atendem o pobre do SUS!  Nada contra os atletas e seus técnicos, mas faltam hospitais, leitos, médicos e gente especializada. Falta tudo. Falta vontade. Não digo que o nosso SUS não tenha coisas boas; tem. Mas não o suficiente, não o esperado para um gigante desse tamanho. Saúde é a maior das prioridades. To boazinha, só falando na Saúde...

Uma consulta por qualquer Plano de Saúde  não paga a entrada para um jogo de futebol! As coisas não estão combinando, não estão batendo nesse país.

Tudo que envolve a saúde, se não for tratado com rigor, vai ficar assim, meio perneta, como temos visto. Quem irá trabalhar, queimar as pestanas  para ganhar uns tostões? Todos são humanos e com família para sustentar, hospital não é sinônimo de voluntariado, santos devotados esperando a canonização. Não existe o tal doar-se, acima de tudo. Não existe este sonho. Um país desse tamanho, pensando pequeno nas prioridades e pensando grande no lazer, realmente não entendo. 

Mas infelizmente é assim, e tudo isso dá um cansaço, um desânimo, uma descrença muito grande. Não mando contra os tais jogos, mas estão exagerando e esquecendo que  doença  não espera; não têm joguinho de cintura: é vapt-vupt. E apagamos!

Não há dúvida que o Brasil está doente; uma doença que parece não ter cura, crônica e que causa  vergonha. Sim, tenho vergonha de muita coisa existente no meu país. Há séculos não conseguimos deixar a UTI; o povo está  com grande dor na alma e com espírito em frangalhos. E gente andando por aí com a cabeça erguida e distante, mas sem  um neurônio que funcione! Isso também seria caso de internação, mas infelizmente faltam leitos!

Arre,  cansei. Gritei demais.



28 de abril de 2013

SONHO OU PESADELO?




             - Tais Luso de Carvalho      (Conto)    

'Precisa-se de cozinheira para residência. Exige-se referências. Paga-se salário + todos os direitos. Tratar fone …'

Este foi o anúncio colocado por Carol nos classificados de domingo à procura de uma cozinheira. Apresentaram-se várias pessoas. Porém, uma delas se destacou das demais: Simone, 30 anos, educada, boa aparência e ótima de prosa.

Esse seria o seu primeiro emprego. Contou - à Carol - que sempre trabalhou em casa, cozinhava para a família e fazia congelados para a vizinhança. Com este trabalho e com a ajuda do marido conseguiu comprar seu carro. Mas, agora, queria sair um pouco de casa...

Feito!! Era tudo que essa patroa sonhara: empregada jovem, sem vícios trazidos de outros empregos e com carro! Muito chique. Que inveja não causaria na vizinhança!
Contratada.

Tudo estava indo bem demais. Após um mês de trabalho a empregada já era considerada da família: prestativa, educada, incansável. Pô... que sonho!

Um mês foi o suficiente para que a empregada conhecesse os hábitos da família e as firulas da casa. Tudo era muito organizado: uma vez por semana, no mesmo horário, patroa e empregada faziam o mesmo trajeto rumo ao supermercado, e com o carro da empregada,  – já que a patroa era meio deitada...

Certo dia, as coisas não aconteceram como a patroa esperava. Após algumas quadras percorridas, o carro parou. Simone acenou para um táxi que já estava, vindo quase encostado. Abriu a porta de trás e com amabilidade conduziu a patroa. Carol sentou-se, mas com pouco conforto, meio espremida entre caixas e sacos de estopa sujos e esquisitos, atrás do banco do motorista, parecendo guardar algo volumoso e disforme. A empregada sentou-se na frente.

O táxi já havia percorrido alguns quilômetros e num rumo desconhecido de Carol – que já havia percebido uma certa intimidade entre a empregada e o taxista. Daí, brotaram as perguntas e desconfianças de Carol.

Impaciente com a patroa, a empregada não fez rodeios: anunciou-lhe o sequestro. Carol, tomada pelo pânico tentou abrir a porta, mas sentiu, naquele momento, uma mão forte e fria agarrar seu braço, e no seu ventre o fio ameaçador de uma navalha policiando-lhe cada suspiro. O enorme saco, disforme e estranho, revelara-se. Parecia algo surrealista: silencioso e brutal.

Coração descompassado, terror, suor, dúvidas, desamparo... Sensação estúpida de impotência.

Sete horas da manhã: toca o relógio. Outro dia amanhecendo...

Colchão urinado, respiração ofegante... Carol achega-se ao peito do marido e chora compulsivamente. Surpreso e atônito, em meio ao colchão molhado, o homem não conseguia entender nada. Sentia, apenas, viver uma cena tragicômica. Meio surreal.

E só conseguiu despertar quando Carol balbuciou, aos prantos, sua decisão, irrevogável, de não querer mais empregadas dentro de casa. O marido continuou não entendendo.

Acariciando os cabelos da mulher, e ainda não entendendo o fio da história, mesmo assim concordou com a decisão. 

Pulou da cama, e contente com a boa nova da mulher, com os olhos parecendo dois cifrões, beijou-lhe a face e sem querer aprofundar-se na história, foi para o banho. E lá, sozinho em sintonia com o sua consciência e com seu caráter, e ainda ouvindo os soluços da mulher, pensou:

– Caramba! Que neurose... mas isso é coisa que não se discute: decidiu? decidido está!
E continuou se ensaboando e cantando alegremente sua canção favorita:

                'ESSE CARA SOU EU...'



22 de abril de 2013

CONCEITOS DE BELEZA / O Pescoço Longo




- Tais Luso de Carvalho

Cada país, cada região desse planeta tem suas características, sua cultura, seu conceito de beleza. Por vezes é difícil de entendermos, pois muitas coisas nos parecem absurdas. O absurdo está aqui e lá – em todos os cantos.

Nossos hábitos também podem parecer absurdos, esquisitos e incompreensível para muitos. Basta olhar as cirurgias plásticas que andamos fazendo por aqui, os enxertos e silicones que colocamos parecendo embuchadas, outras que removemos, costelas que retiramos, piercing que aplicamos nos lugares mais inconvenientes, como na língua, no lábio...

O botox e silicone estão tão difundidos que milhares de mulheres, após uma certa idade, aderem àquela boca emborrachada, tipo bico de kichute  anos 70. Mas as mulheres do lado de cá, do planeta, acham lindo, não notam a deformação, acham sensual aqueles lábios deformados, enormes e cavernosos. E depois vão falar das manias das outras, lá do outro lado do mundo.

E a roupa de praia? Pode entrar na cabeça de uma mulher lá do Oriente, uma peça de roupa chamada fio dental? E para nós – as Ocidentais – também é difícil entender o uso da Burka ou a tradição das mulheres da Mauritânia, um país do noroeste da África, que desde o cinco anos de idade as meninas sofrem o processo de 'engorde' pois somente as mulheres gordas são consideradas bonitas. Lá, só consegue casamento quem for gorda ou obesa. É um sinal de que a família dela tem dinheiro.

Pois é. Mas a nós, cabe somente entender o porquê da coisa. Cada povo com suas manifestações, com o que acreditam ser belo. Enquanto nós morremos para tirar uma celulite, elas morrem pra tê-las.

Na verdade, somos todos muito esquisitos e nunca estamos satisfeitos com o que a natureza moldou, sempre há alguma intervenção, muitas vezes incapacitante e brutal. Outras bizarras. Mas cada cultura procura uma maneira de se expressar, de seguir seus ritos, sua cultura, partindo até de adereços fixados no corpo.

Os índios brasileiros são mestres nos enfeites de lábios e orelhas. Mas nem falamos mais, pois de tanto ver, acostumamos.

Tem gente que adora se tatuar: uns são discretos, outros adoram cobrir o corpo com desenhos, ter uma imagem exclusiva. Recentemente foi encontrada uma múmia no gelo dos montes austríacos, com aproximadamente 5.300 anos e totalmente protegida pelo frio. Nela, após muitos exames radiológicos, foram encontradas várias tatuagens. Isso também mostra que há milênios o uso das agulhas já era domínio humano.

Bem, falando das mulheres de pescoço longo (mulheres girafas), é uma tradição muito curiosa. São mulheres da etnia de Karen, em Ban Nai Soi, uma aldeia ao norte da Tailândia. Contudo não têm liberdade de saírem de sua aldeia e nem são vistas como cidadãs tailandesas. Estão lá como refugiadas da ditadura de seu país, Myanmar/ Birmânia.

A ação das argolas causa a deformação da clavícula, dando a impressão de alongamento do pescoço. É um conceito de beleza. De lá. As meninas, são iniciadas com as argolas no pescoço aos 4 ou 5 anos. E vão trocando e acrescentando. Mais tarde passa de ano em ano. Uma espiral média pesa mais ou menos 6 quilos, as maiores 15 quilos. Usam argolas nos braços e pés e vivem do artesanato que vendem aos turistas. Fico  a imaginar, olhando as fotos, como deve ser difícil  se locomoverem ou fazerem seus trabalhos com a cabeça presa. Naturalmente que acostumaram. O uso das argolas é contínuo. 

São essas culturas diferentes, esse outro lado da vida  que gosto de registrar aqui. Naturalmente comparando com os nossos estranhos hábitos, também.





16 de abril de 2013

NAMORO, CASAMENTO, FILHOS E NETOS




                       -  Tais luso de Carvalho

Se há coisa que chateia são certas perguntas que insistem em permanecer no século 21. Pensei que tivessem sido esquecidas, mas não: continuam, insistentemente. Lembro, quando adolescente, sempre vinha uma tia, lá das cavernas, daquelas que comiam pelas beiradas,  para saber da vida dos outros:

– E o namoradinho,  filhinha?
– Não tenho...
– Não acredito! Uma menina tão bonitinha sem namorado?

Putz, não sei por que esse tipo de pergunta se espraiava pelos recantos do meu restrito universo adolescente – 14 anos, na época. Que coisa chata era aquilo. Só sobrava um risinho meio murcho, caminhando pelos cantos. Tá bom; era outra época, entendo. Talvez faltasse assunto com os adolescentes, sei lá.

Mais tarde, ao curtir meu namoro, a segunda pergunta era fatal...
– E o casório, filhinha... ele não tá te enrolando?

O tal de filhinha  já me tirava do sério. E também nunca entendi por que aquelas criaturas eram tão obcecadas em ver todos os solteiros, casados.

Mas casei! E veio a terceira pergunta:

– E o nenê, minha filha, é pra quando?

E veio o nenê! Báh, que alívio... Agora elas se aquietam.
Não; não se aquietaram! Essa gente não esquece. Elas sempre voltam:

– E o segundo? Filho único não é bom, a criança fica muito mimada e solitária, filhinha...

Veio o segundinho! Ahá... Agora sim, deu! – pensei eu.

Engano: hoje a pergunta é se meus filhos já casaram e se já tiveram filhos! 
Ando com medo de ficar meio pirada. Então me pergunto: por quê? Falta assunto? É mania? Ficou o ranço? Não sei por que, mas os adultos têm umas manias meio desagradáveis – eu me cuido para não escorregar muito.

Por exemplo: que coisa hilária é ver um adulto falar com uma  criança pequenina! A coisa  é meio retardada, imitando o tom e o jeito da criança. Por que não valorizar a criança e falar como adulto? Aí fica aquele pititi mastigado, amassado pra não dizer nada.

Não estou dizendo em ter um papo cabeça com o pobre do anjo, mas sim em ser natural, falar como adulto, e não mostrar à criança, um ser meio abobalhado. Criança entende: elas sabem quem é criança, quem é adulto, e percebem quem é idoso. E devem perceber quem é doido. Nunca entendi esse arremedo de retardo mental.

Querem ver outra mania? uf... e como acontece! A pobre da filha casa e a mãe fica se coçando esperando um netinho. E fala e fala... Isso não será a legítima invasão na vida privada do casal? Parece a síndrome do vazio atacando em larga escala.

Com uma medicina avançada, não há mais necessidade  ter filhos com urgência. Não digo em ter filhos com idade de avó – como aquela dona lá nos Estados Unidos que teve seu baby com sessenta anos, esquisito, aquilo. E fico a imaginar a criança entrando na adolescência... vai matar a velha de trabalho,  preocupação ou de susto.

Não acredito em alguém que se diz imune às opiniões. Não existe isso, todos somos um pouco influenciáveis, ainda mais num mundo que já está acostumado a compartilhar tudo, mesmo o que não se deve. Dizem que compartilhar alivia tensões. Tá bom...

Se existir esse compartilhar sem efeitos colaterais, me passem a fórmula - pelo amor de Deus. Também quero essa imunidade. 
Quero abrir  minha boca aos quatro cantos do mundo e ciente de que ficarei com uma nova cabeça  - moldada como  Freud  sempre sonhou.




8 de abril de 2013

MEU ÚLTIMO ALMOÇO FOI UM PESADELO



      - Tais Luso de Carvalho
              
Aproveito para dizer que não é trauma de infância, não é frescura e nem transtorno obsessivo-compulsivo: o problema é de criação mesmo.

Trago comigo a bendita herança que recebi de minha mãe, a mania de programar qualquer festa, almoço ou jantar com uma antecedência inglesa, para que tudo fique perfeito. Será defeito? Sim, se estressar, se nos tirar da normalidade e incomodar; então não tenho dúvidas que é defeito. Defeito de fábrica.

Pensando assim, acho que fui azarada. Minha mãe era um pouco exagerada no capricho e nos horários, valorizava muito certas coisas, o que não deixou de ser um pesadelo pra mim. Tentei imitar sua calma e experiência, mas não consegui. E agora, nestas alturas, que o negócio está quase crônico em mim, não resta outra coisa a não ser cortar o mal, sem piedade. É matar ou morrer.

Meus pais recebiam suas visitas, amigos e parentes, e davam seus jantares com todo esmero. Minha mãe conseguia ficar feliz: a casa sempre um brinco – limpa e organizada. Tudo era perfeito. A empregada – dona Clara – era uma cozinheira de origem alemã. Minuciosa e um autêntico sargentão, cumpria todas as ordens de minha mãe. E assim fui vendo as coisas acontecerem em perfeita sintonia. As visitas e convidados eram educados, telefonavam ou esperavam os convites. Ninguém surgia como fantasma na porta de casa.

Mas hoje a coisa foi parar no outro extremo – nada mais é respeitado: certas pessoas aparecem sem avisar, vão entrando, vão subindo pelo elevador quando não são barradas pelo porteiro. E batem na minha porta com um Oi, estava passando e vim ver como você está!

Isso acontece sempre de manhã, lá pelas 9 horas ou perto do meio-dia. Caramba! O que eu fiz de errado na vida? Por que não perguntam a que horas estarei em casa? Mas nessa era da informática parece que falta comunicação, todos estão offline da vida real. Li, recentemente, no blog da amiga Suzy Rhoden, uma matéria sobre privacidade, muito oportuna.

Mas voltando à ideia original, meu marido acha que me estresso demais quando me proponho a fazer um jantar ou almoço. Mas os homens são todos iguais, só notam e elogiam as coisas prontas, não notam o desenrolar do nosso processo 'criativo'. Mas até entendo; eles são direcionados para coisas mais práticas, foram criados assim. Na verdade, eles estão cobertos de razão. As mulheres morrem por qualquer festinha. Aquela coisa de não fazer feio nesses raios de festerês.

Lembro de um dos nossos almoços: foi num sábado. O inesquecível sábado!
Esperávamos 16 pessoas e inventei de fazer um fricassé, cheio de frescura. Um dia antes a empregada deixou tudo cortadinho, adiantado. Mas quem disse que ela apareceu no sábado? Putz... fui à luta. E com as armas que Deus me deu, ou seja, com uma alta dose de neurose.

Lembro que meu marido ficou tratando do cachorro; minha filha saiu de sua casa e foi fazer as unhas e meu filho tinha um campeonato de tênis. Os banheiros já estavam limpinhos, mas isso até meu filho chegar com aqueles tênis cheios de saibro vermelho, e ir para o banho. O cachorro resolveu endoidar, saia correndo se sacudindo de faceiro e os pelos voavam para a mesa. Ele adora visita: é carente. Fiquei louca.

Faltavam 50 minutos para 16 pessoas chegarem e o desgraçado do frango não cozinhava nunca, soltava uma espuma cada vez maior. Resolvi dividi-lo em duas panelas de exército. Só lembro que suava e tentava me acalmar. Falava sozinha: apelei até para a filosofia budista!

E o tempo passando... No meu inconsciente, tudo teria de estar certo e organizado. Confesso que quase enfartei. Exatamente 10 minutos do combinado terminei de lavar a pilha de louça que batia no teto e soquei toda a louça molhada dentro do armário. A mesa estava decorada com flores, a cozinha limpa e eu com cara de defunto fui tomar banho. Entrei no chuveiro e os convidados tocaram a campainha! Não sei porque lembrei da Clínica Pinel – para doentes mentais...

Só lembro que saí arrumadinha, perfumada e com cara de que tudo estava tranquilo demais. Tudo muito ajustadinho dentro da minha cabeça. Tão ajustado que me deu medo. Foi o último dia que recebi um batalhão pra almoçar. Naquele dia jurei, sobre os 7 túmulos da família, que nunca mais me reportaria àquilo.

Nesse dia acabou a Festa de Babette...
Independência ou Morte!! Foi meu último grito de desespero.  



1 de abril de 2013

UM AMOR VISTO DA JANELA




        Tais Luso de Carvalho

Pouco se fala das coisas bem simples, mas que estão aí e fazem parte diária da nossa vida. São tão simples que ninguém dá bola.

Há uns dias, desceu um aguaceiro por aqui, daquelas chuvas que vem rápido e como chega já vai indo... Mas assusta. Foi forte e pegou muita gente desprevenida. Nada é engraçado se tratando de enchentes, deslizamentos e catástrofes que a natureza impõem. Mas observando uma chuva dessas,  vindo a mil, sem avisar, e vendo as atitudes apressadas das pessoas na tentativa de se protegerem, não deixa de ser curioso e por vezes engraçado. As árvores, que também enlouquecem, deixam o quadro mais caótico.

Fiquei na janela observando aquela chuva tocada a vento e me senti como um cachorro perdigueiro, com todos os sentidos em alerta. Uma moça, já com os pés e roupas encharcadas, tentava proteger a cabeça com um lencinho azul, aberto e sustentado pelas duas mãos no alto da cabeça. Fiquei olhando enquanto pensava naquele ato estranho. Observei como é instintivo no ser humano proteger a cabeça. Deve ser isso, não vejo outra razão, uma vez que a chuva descia sem piedade e a mulher parecia um submarino.

Logo atrás, houve um pedido de carona pra dividir um guarda-chuva – que mal dava pra um. Mas houve solidariedade com a mulher de saia longa. As árvores estavam aflitas, soltando suas flores e sementes redondas que cobriam o chão preparando, sem piedade, alguns tombos aos desavisados... A mulher de saia longa resvalou como se estivesse pisando numa casca de banana. A imensa saia parecia um abajur, subiu... lógico que comecei a rir da situação. Coitada. E eu aqui, com vontade de avisar que o negócio lá estava tipo tobogã... Uns, correndo desatinados, enquanto uma senhora de bengala  não tinha alternativa. Que agonia.

Um pouco à frente, dois velhinhos bem abraçados, tão enrolados que eu não consegui ver quem protegia quem. Mas seguiram, assim, enrolados como duas serpentes... bonito de ver aquilo. Senti de longe um amor protetor, preocupado e solidário. Ali, fiquei com pena. Pensei baixinho:  amor assim não deveria acabar... Segui seus passos até desaparecerem entre as árvores da minha rua.

A balburdia dos carros, a impaciência dos motoristas, as buzinadas, a falta de gentileza... tudo muito neurótico. Naquela hora, ninguém era de ninguém, e a rua, sempre dos mais poderosos – dentro de seus carros. Quanta diferença pude ver!

Mas no caos, sempre se descobre algo especial.
Amanhã esquecerei de tudo, menos dos velhinhos da minha rua que exalavam um amor maduro. Só de olhar aquilo, valeu minha manhã.



24 de março de 2013

O QUE COMER ?





        - Tais Luso de Carvalho
Há muito que ando meio perdida nas comilanças. Lembro, quando criança, que comer ovos era muito saudável. Fui uma criança magrinha, mas com boa saúde. Meus pais e todos da família, eram fortes, corpulentos. Alguns gordos. Mas é sempre assim, os gordos pensam que os magros estão morrendo de inanição.

Meu tipo físico não combinava com o restante da família e isso quando não preocupava, incomodava. Parecia que todos vendiam saúde e eu é que estava indo pro brejo. Então, meus pais me empurravam fortificantes. Muitos fortificantes e complementos alimentares. O negócio era abrir o apetite! Não sei como não morri com tantos fortificantes! Mas nunca adiantou, continuei magra.

Cresci, casei, tive meus filhos e engordei um pouco – acho que fiquei normal. Bem que não sei mais qual o conceito de normal. Na Mauritânia, o normal e aceito são as mulheres obesas, de 150 quilos, quanto mais gordas mais lindas, enquanto que em outros países o ideal é ser bem magra. No Brasil é ser meio cheinha. Então temos de encontrar o meio-termo da coisa. E aí é que mora toda a neura da mulher contemporânea. Ninguém aceita seu tipo físico e a moda é malhar até a exaustão pra ficar parecida com a fulana.

Bem, voltando às comilanças,  lembro de algumas coisas que não eram consideradas nocivas  e que depois de anos deu rolo: era ótimo  o suco de tomate, abacate, leite, queijos, vinagre, ovos, chocolates, carne,  camarão, peixes, frangos, pudins, massas, bolos, café, iogurtes... tudo era permitido, se bem dosado. 

Mas anos depois a coisa virou e  fui tateando...

O tomate foi desmistificado: não servia pra coisa alguma  a não ser pra molho de cachorro-quente.
O gorduroso abacate virou vilão – sumi com o abacate.
O vinagre, diziam que causava anemia, então passei a usá-lo como limpador de carpetes, abre a cor – maravilha.
A carne vermelha deveria ser pouco consumida, pois entupia as artérias e coronárias. Churrasco só uma vez na vida e outra na morte. De preferência ainda em vida...
O coitado do frango, estava contaminado com hormônios.
O camarão, nem pensar: era comer e se despedir da vida.
O leite e seus derivados? Seria bom esquecê-los, só os humanos insistem; os animais só tomam leite quando pequenos... passei a tomar pouco leite.
Café? Cuidado com muito café e chás!
O pão? Só o integral, aquela coisa sem gosto...
Refrigerantes?  Nem pensar. 

E massas, pizzas, embutidos, salgadinhos, doces, biscoitos, pudins, bolos? Veneno! De vez em quando até me permitia, mas comia com uma culpa de cão, e depois ficava com ideias suicidas.

Lembro que andei uma época meio desatinada: nada do que eu via era saudável, a não ser frutas, legumes e hortaliças. E peixe – quando não estava contaminado por uma indústria que soltava metais pesados...

E as especiarias? Por bom tempo fui considerada a rainha da macarronada, temperada e apimentada, coisa de louco, um show! Mas acabaram com minhas pimentas: fiquei conhecida como a vilã da família. Escutava, pelos cantos, que nesse tranco eu mataria a família inteira do estômago! Então, em nome da paz e da saúde familiar, abandonei as pimentas.

Mas hoje, estou meio surpresa. Olhem como a vida dá voltas...

O vinagre, antes vilão e meu limpador de carpetes, passou a ser ótimo para os que têm problemas com glicose!
O chocolate  amargo é magnífico para o coração.
Três ovos por dia é saudável! Será? Eu fora...
O abacate faz subir o colesterol bom.
O tomate deu a volta por cima, anda em alta!
A desgraçada da pimenta – que fez de mim uma homicida familiar – hoje previne o cancro e virou um ótimo analgésico.
O café evita a doença de Parkinson. E um estudo feito na UFRGS, em parceria com a Universidade de Coimbra, mostrou que o cafezinho  previne o aparecimento do Alzheimer. (ZH fev – 2013).
A banha de coco é tri de boa. Até voltei a usá-la...
E o leite e derivados? Tudo maravilhoso!  Ótimos para Osteoporose.

Será que tenho chances em pensar num  à la minute  que não faça mal à saúde?

Confesso que estou farta de comer tanta gramínea. Mas o que não se faz em nome da vida? Com todos esses cuidados, e seguindo inúmeras tabelas, só tenho receio de morrer cheia de saúde. 
Talvez vítima de uma bala perdida ou atropelada por aí... 
E pior: de barriga vazia.


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17 de março de 2013

COISAS QUE PODEMOS ESQUECER...



 – Tais Luso de Carvalho

Por natureza, não sou uma pessoa triste, muito pelo contrário, mas sei que nossas vidas sempre serão povoadas por alegrias e tristezas, por coisas que passaram e por desafios que virão.  Por vezes, certas coisas incomodam. Outras não. Fazem parte da bagagem.

Há dias, recebi uma mensagem por e-mail, um pps lindo. Mostrava Veneza num rigoroso inverno, enquanto Charles Aznavour cantava Que c'est triste Venise. Lindamente triste, se dá para dizer assim. O inverno é uma estação um pouco melancólica - se for longo.

Veneza e o Velho Mundo... tão lindo.  Fiquei olhando a cidade e sua arte; seu Palazzo Ducale  maravilhoso e histórico.  Imaginei-me no inverno de Veneza, mas não como turista, e sim fazendo parte da cidade.  Porém, eu não aguentaria por muito tempo o inverno europeu.  

Mas,  Que c'est triste Venise me pegou de mau jeito: começou a desencadear e a trazer à tona, algumas perdas, o passado, presente, futuro... Em pouco tempo estava aberto o baú das lembranças, onde estava tudo ajeitado, dobrado, guardado. 

Mais tarde, dando uma volta no meu bairro, fui pensando na vida, na minha família, no próprio bairro e na minha cidade – que adoro. Lógico que certos pensamentos me acompanharam no passeio – ao olhar tantas árvores, o parque e as construções já tão íntimas. Tive a sensação de que tudo era meu, mas que um dia tudo deixará de ser. Senti que fui levada para outro patamar.  São pensamentos difíceis de serem dominados, pois chegam a mil, sem pedirem licença para entrar. E junto, chegam alguns questionamentos.

Qual a criança que não tem seus medos, suas inseguranças? Qual adolescente que não tem seus sonhos, suas frustrações, suas recaídas? Qual de nós, adultos, não temos nossas dúvidas, nossas preocupações, nossos pressentimentos quanto aos anos restantes caindo de maduro?

Este é o resultado de sermos tocados por uma música triste, por um filme triste, um inverno nebuloso e pintado por uma triste neblina. E hoje fui tocada por umas fotos tristes. Estas situações têm o poder de buscar tudo o que estava em repouso e jogar na nossa frente: taí, te vira com o entulho!  Às vezes nos incomoda. 

Mas hoje aconteceu o que eu não previa: certas lembranças, que vieram de supetão, não me   surpreenderam.  Vi que  ficaram muito longe, esquecidas. Nada despertou; nada se desarrumou. Minhas perdas já assimilei e algumas bobagens – esquecidas. Tudo aquietado, empoeirado no velho baú que cada um carrega consigo. Preferi ficar com coisas significativas, conquistas. 

Penso nisso como um amadurecimento. De que adianta remexer tanto no passado, trazendo mágoas, raivas e lembranças que só servem para  tirar o foco do presente e do futuro?

Como estamos  informatizados demais, quem sabe a gente não  aprende, sem querer, a deletar certos arquivos  que não fazem mais falta... 
Os anos nos tiram o viço da pele, mas nos dão algo em troca. 
Ainda bem...





10 de março de 2013

COMO CONHECI MARIO QUINTANA



              - por Pedro Luso de Carvalho

Eu era ainda estudante da faculdade de Direito quando tive a grata oportunidade de conhecer pessoalmente Mario Quintana. Isso ocorreu sem qualquer planejamento. Tudo foi quase por acaso.

Naquele dia, em que caminhava pela Rua da Praia, o que menos poderia ocorrer-me seria encontrar-me com Quintana. Para colocar as coisas no seu devido lugar, vamos deixar uma coisa bem clara: eu nunca havia sequer imaginado que um dia poderia ser apresentado ao poeta. Isso estava fora de cogitação.

Não tivesse encontrado a jovem e talentosa jornalista, que trabalhava para o jornal Correio do Povo, de quem me tornara amigo há mais de ano, o convite dela para conhecer o nosso estimado poeta, apanhou-me de surpresa.

– Apresentar-me o Mario Quintana?! – perguntei incrédulo.

Diante dessa pergunta e da inflexão dada por mim, a jornalista não escondeu o riso.

– Vamos até o jornal, ele não vai te morder.
– Então, seja o que Deus quiser.

E lá fomos nós pela Rua da Praia. Na esquina com a Caldas Junior – rua que se tornou famosa por sediar o jornal Correio do Povo e a rádio Guaíba – fizemos uma inflexão para a direita. Estávamos já diante do prédio do jornal.

– Tenho que ir mesmo?
– Vamos subir agora mesmo – disse a jornalista.

A redação do jornal ficava no primeiro andar. Lá Quintana deveria estar escrevendo sua coluna, como fazia durante toda semana. Em frente ao elevador, ela apertou o já gasto botão de madrepérola. O antigo elevador não demorou a chegar.

A porta de gaita do velho elevador abriu-se diante de nós, fazendo um barulho estridente. O educado ascensorista fez um gesto com o braço estendido, a mão sinalizando para entrarmos. Deixou-nos no andar da redação.

– É por aqui – disse a jornalista já no corredor.

Da porta vi uma sala muito grande, com várias mesinhas enfileiradas. Só não consegui enxergar o Quintana. Andamos um pouco mais. Passamos pelos jornalistas que escreviam seus textos nas suas velhas máquinas. As repetidas batidas nas suas teclas arredondadas causavam um som estridente e nervoso.

Mais uns passos e logo nos deparamos com o poeta. Estava sentado frente à sua mesa, soltando baforadas. O cigarro aceso fazia desenhos no ar, na medida em que o poeta gesticulava. Do cigarro, já quase no fim, desprendia-se uma linha fina de fumaça em espiral. Ao lado da máquina, na qual escrevia, um gordo cinzeiro exibia suas guimbas.

 – Hoje vai ser o meu grande dia – pensei.

A jornalista aproximou-se de Quintana com intimidade, quase nas pontas dos pés. Com ela em sua frente, não se demorou a levantar. Fiquei ao lado deles no pouco tempo em que conversaram. Com discrição olhei para o poeta, que me pareceu tratar-se de um homem simples. Era mais baixo do que imaginava. No seu rosto, nenhum traço que pudesse indicar qualquer sentimento.

– Quintana – disse a jornalista – trouxe um amigo para te apresentar...

Solícito, estendi a mão para o poeta. Sua mão mal tocou a minha, nesse cumprimento.

– Muito prazer seu Quintana.
– Prazer!  – respondeu.

Sua voz era quase inaudível. Seu olhar estava fixo na janela de onde se via a rua. Demorou muito pouco para que a mão do poeta tateasse as costas de sua cadeira, onde logo iria sentar-se. O papel ali na máquina era o que lhe interessava.

– Vamos?! – sussurrou a jornalista, puxando-me pela manga do paletó.

Depois de muitos anos decorridos, a contar daquele rápido encontro com Quintana, fiz esta descoberta: no mundo mágico dos poetas, que é feito de sonho e solidão, não há lugar para estranhos e importunos.

'Não vou me enganar mais' – admiti resoluto –, naquele dia em que fomos apresentados, Quintana não disse 'prazer', quando lhe estendi a mão.


Pedro Luso de Carvalho
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3 de março de 2013

A DOMA E ADESTRAMENTO DE CAVALOS




- Tais Luso de Carvalho

Sinto-me muito à vontade para falar de cavalos. Não só porque tenho amor pelos animais e por  defendê-los, mas porque passei boa parte da minha vida cercada por eles, os cavalos de salto, de adestramento e pelos meus cães. Após ter assistindo uma doma especial, num canal fechado (National Geographic),  vieram-me, então, várias recordações. Foi mostrado como deve ser  uma doma de cavalo, e não como são. Foi maravilhoso ver homem e cavalo interagindo com tanta perfeição e respeito, depois que vi tantos disparates pela vida afora. Tantos absurdos. Tanta violência. 

Todas as domas, todos os adestramentos devem ser baseados em carinho, confiança e técnica. Nada atropelado, nada de brutalidade. Dar o tempo necessário para que os cavalos assimilem os ensinamentos. Os animais sentem tudo, sentem até nossa insegurança. E sentem nosso amor. O convívio estreito com o cavalo nos ensina a compreendê-los. Uma psicologia nata, encontrada em algumas pessoas. Mas esse aprendizado nunca será o bastante para lidar com gente. É mais fácil domar cavalos do que tratar com pessoas. Não tenho dúvidas disso.

O cavalo não reage por maldade, não reage por orgulho, não reage por inveja: reage apenas por medo. E medo a gente administra, passando ao animal carinho e confiança. Fazendo com que sinta que seu medo não procede. E tem como arrumar isso. Falo do que entendo, do que vivi durante muitos anos.

Confesso que tudo que aprendi com os animais não consigo aplicar com pessoas. São dois seres muito diferentes. O amor do animal é um, o do ser humano é outro; o interesse do animal é um; o do ser humano é outro. Quanta diferença.

Por tudo, compreendo por que tantas pessoas são apaixonadas pelos animais. Animais não nos estressam, nos acompanham, nos acariciam, são fiéis, não agridem, não destroem. Seu único objetivo é natural: lutam apenas para comer. Comem, dormem e se protegem - principalmente dos homens que os matam para pô-los esticados como tapetes, na parede como troféu ou para entrarem no Guiness-book como criaturas incomuns que pescaram o maior peixe do mundo. Mas essa crueldade não cabe falar agora. Nem gosto.

Confesso que ao ver touradas, farra do boi, rinha de galos, briga entre cães, desligo a televisão. Animais não nasceram para brigar, eles tem apenas o instinto de sobrevivência.

Quem gosta de briga somos nós, os humanoides equivocados, que reagimos sem motivo algum ou por motivos banais. Basta examinar o horror da história da nossa civilização. São tantos os exemplos... Talvez seja um defeito próprio das chamadas cabeças pensantes. E a tristeza é que as nossas ações quase sempre resultam em equívocos.

Ensinem com amor que aparecerá o resultado...