28 de agosto de 2015

A FAMÍLIA - por Luiz Coronel


         


         Família,
          família,
          um mar de afagos
          e pendências antigas.


          A família
          é um barco.
          Tormentos
          e ventos
          e um sobrenome nas quilhas.


          (Veleja o barco
          por distantes milhas).


          Família
          é uma ilha.


          Um cardume
          de ciúmes
          em torno das pedras
          que o tempo empilha.


          Família
          não é um coral de anjos
          nem cães em matilha.


          Família é gente
          E gente fala, cala, embala.
          E humilha.


          Família,
          crianças correndo
          e uma lágrima
          no rosto da filha.


          Um nome na lápide,
          uma foto da festa,
          uma emoção
          que cada um compartilha.


          E os potros do rancor
          quem encilha?


          Que mistério sustém,
          que trave,
          forquilha?


          Família sobrevive
          às separações
          e às partilhas.


          Família
          é uma ilha.


          Entre orquídeas
          e urtigas
          por acaso é o amor
          que a faz que o prossiga?


          Família
          é uma ilha.


          Sem ela estamos
          no mar sem bússola
          num mato sem trilha.



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                                     Luiz Coronel nasceu em Bagé no ano de 1938.
Poeta gaúcho, patrono da Feira do Livro de Porto Alegre em 2012.
Bacharel em Direito e Filosofia pela UFRGS
- Exerceu a Magistratura do Estado.
- Foi professor de História e Literatura e Teoria Geral do Estado em Faculdade de Ciências Jurídicas. Também Publicitário.
Escritor com mais de 30 obras, recebeu prêmios no Brasil, Espanha e México (Prêmio Nacional de Poesia, MEC 1973 com a obra “Mundaréu”) e tem edições com participação no idioma inglês e alemão.
Site do Autor








22 de agosto de 2015

SAUDADES OU APENAS LEMBRANÇAS?




- Taís Luso

Não sou saudosista, embora conte algumas histórias do passado. Lembro das propagandas de margarina, em que as famílias sentavam ao redor da mesa, demonstrando um quadro de extrema felicidade, sobre uma fatia de pão. E eu acreditava naquela cena feliz e me embuchava de margarina, ainda criança.
Lembro bem das propagandas de fogões, de panelas, de sabão, da massa de tomate, de enceradeiras, da cera Parquetina e de mil coisas. Gosto de lembrar, mas não quero saber daquela massa de tomate, da família margarina  o qual me fartei.
As mulheres daquelas propagandas pareciam ser as mais felizes do mundo! Quem venderia margarina chorando? Quem lustraria o chão aos prantos? Seria eu, no futuro, tão feliz quanto elas? Acho que ali me tornei uma futurista. Sim, vivo com um pezinho no futuro. Fazendo planos. Sonhando.
Lembro das propagandas de cigarros, com homens fortes e saudáveis (?) em cima de belos cavalos, também felizes, saltando do Oiapoque ao Chui – aventura maravilhosa. E nossos pais compravam gato por lebre. Foi uma época que todos buscavam a imagem e não a saúde. Se entupiam de nicotina.
Nós, mulheres, podíamos mudar de cara com tranquilidade e nem nos sentíamos pressionadas a usar saltos altíssimos - caminhando como camelos para mostrar o sapato da moda - ou usar roupas de gatinhas. As mulheres pegavam idade com dignidade.
Tudo são lembranças, apenas, mas o que mexe com meu sentimento de saudade é que se via gente com vergonha na cara; isso era mais regra do que exceção. Infelizmente hoje, todos sabem que a regra é não ter vergonha nenhuma em certas coisas de muita relevância. Precisamos, em regime de emergência, mais uma Bolsa Família, tipo Minha cabeça, Minha vida.
Sou o produto de minha educação e não gostaria de pensar diferente. Aceito as transformações e os hábitos que vão surgindo ao longo da vida, mas evoluir não significa negociar minha opinião.
Nossos hábitos mudaram, nossas músicas, nossos gostos, nossas diversões e nossos namoros eram diferentes. E ficou o antes e o depois da era da informática. Um marco.
Porém, vejo um lado bom do negócio: com o advento da Internet milhões de pessoas estão lendo e escrevendo através dela. Estamos interagindo sem maiores pretensões, apenas contando as histórias que gostamos. E, enquanto esse meio de comunicação tiver espaço para o bem e para afetos saudáveis, aplaudo e farei parte com entusiasmo.
Hoje, a realidade é essa.

Lembram desse conjunto? 





19 de agosto de 2015

MÁGOAS – Augusto dos Anjos




      Quando nasci, num mês de tantas flores,
      Todas murcharam, tristes, langorosas,
      Tristes fanaram redolentes rosas,
      Morreram todas, todas sem olores.

      Mais tarde da existência nos verdores
      Da infância nunca tive as venturosas
      Alegrias que passam bonançosas,
      Oh! Minha infância nunca teve flores!

      Volvendo à quadra azul da mocidade,
      Minha alma levo aflita à Eternidade
      Quando a morte matar meus dissabores.

      Cansado de chorar pelas estradas,
      Exausto de pisar mágoas pisadas,
      Hoje eu carrego a cruz das minhas dores!




Augusto dos Anjos (Paraíba 1884 - 1914 MG) foi ignorado pela crítica do começo do século. Se alguma exceção se abriu, foi para reputá-lo como autor de versos estapafúrdios  e aberrantes. Nas décadas seguintes acabou reconhecido como um dos mais admirados e originais poetas brasileiros. Augusto dos Anjos é, certamente, o precursor da moderna poesia brasileira, poesia que daria seu voo somente em 1922, na célebre Semana de Arte Moderna.

 Augusto dos Anjos / Eu e Outras Poesias
L&PM Pocket – pág 153
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14 de agosto de 2015

INTERNAUTAS SOFREDORES




-  por Taís Luso


Estou conformada em fazer parte da geração dos Internautas sofredores. Ainda mais nós, os blogueiros, que usamos editor de texto  e que inúmeras vezes ficamos surpresos com coisas que  aparecem ou desaparecem - sem razão alguma. Mesmo assim  somos felizes diante desse rolo todo.

Há muitos anos os blogs eram diferentes, toda a montagem para introduzir ou modificar algo  era por meio de tags (códigos) – coisas muito trabalhosas, perdia-se tempo e íamos quase à loucura. Mas os provedores foram se modernizando, tornando as coisas mais fáceis. Tornei-me adepta dessa ferramenta oferecida por uma tecnologia moderna para escrever um pouco sobre nosso cotidiano, nossos costumes. Quando eu estiver numa 'outra' - não sei se boa ou não -, talvez fique rodopiando por aqui uma parte boa de mim.

É bom escrever, ter contato com as pessoas; faz bem pensar, e eu me divirto em algumas postagens, outras nem tanto, pois coloco também indignação e perplexidade – o que não serve bulhufas. Apenas para desabafar, pois moro num país em que o povo precisa matar um leão por dia para que tudo corra dentro do mais ou menos. Por certo não gostaria de mudar de país, eu gostaria de ver meu país mudar – como disse o jornalista Políbio. E assim vou levando e cumprindo o que postei no meu perfil, ciente de que todos nós temos algo a dizer, uma vontade de largar o que está preso no peito. Então...

'Escrever é a maneira mais fácil de dizer as coisas sem ser interrompida.'

Pois ontem, tudo certinho comigo e meu pc quando, de uma hora pra outra, meu editor de texto resolveu apagar o que eu escrevia, e o som foi para o espaço, justamente quando eu estava assistindo uns vídeos no Youtube dos jornalistas Políbio Braga, Olavo de Carvalho, Augusto Nunes... sobre umas coisinhas do nosso país e da nossa gente vistas como 'especializadas', entendidas.

Fui aos fóruns dos sites de ajuda, e um pelotão de Internautas desesperados e enlouquecidos pedindo ajuda. Centenas de Por favor, me ajudem!

Constatei a ansiedade dos colegas pedindo socorro, e também a solidariedade, uns dando dicas aos outros. Estamos bem informatizados, porém vivemos numa época de muito estresse gerado por todo esse maquinário que nos cerca. Tudo é máquina, tudo é virtual, que passou a ser o nosso real.

Mas consegui ajeitar, descobrir, mesmo levando uma tarde inteira. O mais difícil foi formar a rede dos computadores novamente, pois tudo tinha ido pro brejo. Mas foi na base da persistência que conseguimos, eu e Pedro (sozinhos) restabelecer a rede, encontrar o som e arrumar o editor de texto.
Mais uma lição que ficou: a 'Persistência'! Benza Deus!

Eu gosto da frase (apesar de batida)  “nunca desista dos seus sonhos”! 

Mas hoje eu diria: nunca desista de acertar seu computador: vá à luta, tente! Se não der, aí chame o "homi"...

Até a próxima.




7 de agosto de 2015

A PIOR DOR É A DA ALMA



- Taís Luso

Hoje, pensei em postar um poema, mas algo está martelando na minha mente... Faz muito tempo, parece que virou moda os maus tratos e a falta de amor com os idosos. Estamos cada vez mais desumanizados. Parece uma doença contagiosa, se espalha, gruda, mata. Volta e meia aparece um caso semelhante nos noticiosos. E não existe um basta pra tanta violência e descaso.
Há algum tempo, apareceu na mídia uma cena dantesca: os filhos, estranhando a tristeza do velho pai,  resolveram colocar uma filmadora escondida no quarto do frágil velhinho, já com Alzheimer. Constataram, então, que o pai era espancado e humilhado por alguém que se dizia 'cuidador'. Daí esta minha vontade em postar um poema que mostrasse sentimentos mais nobres. Não queria me sobrecarregar de raiva. É ruim. 
É lógico que não se espera de nenhum profissional,  pago para cuidar de doentes, que se derrame em amor e carinho, mas que se proponha a agir com respeito e profissionalismo.
Amor e carinho são coisas de voluntários, pais e filhos, quando normais de cuca. Admiro pessoas que se doam em trabalhos voluntários, são pessoas especiais; abraçam e levam conforto aos que sofrem não tendo em mente nada de retribuição, a não ser o bem que fazem.. Não existe nada entre um voluntário e um necessitado que não seja  uma verdadeira solidariedade com o seu semelhante.
O que nos resta após presenciarmos  atitudes violentas dispensadas aos nossos pais ou aos nossos filhos? Talvez a culpa por não termos percebido o algoz tão perto. Há dores que calam muito fundo. As dores que mexem com nossos sentimentos, nossas perdas, humilhações e injustiças superam a dor física. É a dor mais profunda, é uma dor na alma, onde nossa razão não consegue chegar para abafá-la.
As feridas no corpo cicatrizam, mas as feridas na alma são sempre chagas abertas: à menor lembrança, sangram. E acho que não há dor maior do que a violência dos covardes e a humilhação e submissão que ficam nas vítimas.
Há tempos, uma ex-catadora de rua apareceu num noticioso o qual mostrava o seu sonho realizado: um projeto desenvolvido por ela onde alimentava 100 criançascom a ajuda de outras voluntárias pobres. 
Como sempre, pobre ajudando pobre Enquanto isso, na esfera superior, uns abastados roubam feitos loucos. Corruptos ajudando corruptos.

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31 de julho de 2015

O ARROZ - DOCE PRECISA DE SOLIDÃO !



- Tais Luso

Calma!! Sei que é difícil para entenderem o título da crônica, confesso que puxei por todos os meus neurônios para descobrir o sentido da coisa, logo eu que fui a vítima. Com 200 anos de casamento nas costas, não conheço totalmente as ideias filosóficas de meu marido.

Quase todos os dias almoçamos fora, nos restaurantes que oferecem dezenas de pratos diferentes, ao gosto do freguês. Mas nos reeducamos, escolhemos apenas 4 variedades para não fazermos um prato de cachorro louco. Combinamos os sabores entre si.

Porém, chegando na mesa das sobremesas, vários doces apetitosos mexeram com meus sentidos: adoro ambrosia, arroz-doce, creme de nozes, sorvete, mousse de maracujá e tantos outros. E tinha tudo isso. E resolvi me servir de arroz-doce com um pouquinho de creme de nozes por cima... Meu marido aproximou-se de mim e disse baixinho, mas com insistência, aquela coisa de marido sabichão:

Não faça isso, o arroz-doce precisa de solidão!

Solidão? Sacudi meus neurônios arrumei meus hormônios na certeza de que estava apenas num restaurante, e não escutando Sócrates – com o seu célebre 'só sei que nada sei'; ou Aristóteles tentando me dizer que 'a verdade estava à minha volta'.

Difícil de entender a solidão do meu arroz-doce! Olhei pro meu marido, numa linguagem meio tosca, própria daqueles que estão com fome, e disse-lhe:

Me deixa comer, caramba!!!

E levei meu doce junto ao peito, cuidado, idolatrado, como se fosse uma criança cuidando de seu brinquedo. Maravilha, arroz-doce com molho de nozes!
Depois que comi, virei para ele e cobrei uma explicação: o que você quis dizer com arroz e solidão? Nunca senti solidão...

Não é você, é o doce! Arroz-doce não pede acompanhamento a não ser canela em pó, você descaracterizou o doce, entendeu?

Ah, sim, entendi a solidão… Mas você não pensou na solidão do molho de nozes? Eu lhe dei vida juntando-o ao arroz…Até  acho que foi um encontro feliz!

Enquanto isso, meu marido lambuzava-se com o mesmo arroz-doce, servido apenas com canela e numa filosófica e amarga solidão!

Logicamente saímos rindo, nenhum de nós baixou suas armas, e tudo por causa de um doce! Enxerguei meus doces com outro olhar: dois companheiros que se completaram...


Vá entender...




25 de julho de 2015

SEGUE O TEU DESTINO / Fernando Pessoa



          
          Segue o teu destino,
          Rega as tuas plantas,
          Ama as tuas rosas,
          O resto é a sombra
          De árvores alheias.

          A realidade
          Sempre é mais ou menos
          Do que nós queremos.
          Só nós somos sempre
          Iguais a nós próprios.

          Suave é viver só,
          Grande e nobre é sempre
          Viver simplesmente.
          Deixa a dor nas aras
          Como ex-voto aos deuses.

          Vê de longe a vida.
          Nunca a interrogues.
          Ela nada pode
          Dizer-te. A resposta
          Está além dos deuses.

          Mas serenamente
          Imita o Olimpo
          No teu coração.
          Os deuses são deuses
          Porque não se pensam.

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           - Poema de Fernando Pessoa.
          Roteiro Literário de Portugal e do Brasil / Álvaro Lins e Aurélio Buarque de Holanda
          ed. Civilização Brasileira RJ - 1966 pág 354.




14 de julho de 2015

TRISTEZAS E ALEGRIAS



-Taís Luso de Carvalho

Não gosto e nem acredito em gente que se mostra os 365 dias do ano sobre a batuta da felicidade. Infelizes criaturas: não podem ser gente, ora tristes, ora felizes. Precisam  da aparência. Parece que aparentar um quadro de tristeza, de insatisfação consigo é uma doença. Desmerece e desbota uma imagem estudada. Certas coisas me irritam, difícil de engolir.

E hoje, talvez por ter lido alguns textos tristes, por ter arrumado minhas caixas de fotos e feito um balanço da minha vida e das pessoas queridas que se foram, bateu-me uma certa saudade mesclada com um pouco de tristeza. Então me dou à liberdade de hoje estar meio abagunçada por dentro. Quero ficar quieta. E não vou escarafunchar  em busca dos porquês de minhas reações, pois sou bem capaz de ir caminhando por uma autoterapia e chegar nos problemas emocionais da minha bisavó! Deus que me livre. Menos...

Li, há pouco, uma reportagem muito triste: o filho, num hospital, em estágio terminal, recebe a visita de seu pai. Há 18 anos não se viam! São retratos de família? Por certo. A foto mostra os dois se olhando, de mãos entrelaçadas, olhos marejados que diziam tudo da vida que não viveram. Para entendimentos é tarde.

Depois dizem que a vida não é madrasta... Mas como não, se até Manuel Bandeira num de seus belos poemas chora dizendo que a vida lhe é madrasta! Então como não acreditar? Poeta não mente, trabalha com o coração. O que mente é a razão.

Famílias em longos desacertos como se a vida fosse infinita e nos desse todo o tempo do mundo para a reconciliação. Vejo-me desiludida diante de certas situações que não consigo entender e me pergunto o real valor dos sentimentos. Onde está o sentido dessa 'coisa' tão falada? Tão sentida?

Tocar nosso caminho mentindo que tudo é encantador, sorrindo, brincando e acreditando que a vida é uma dádiva e que todos devem se amar? Não; não funciona assim: nos ensinaram que deveria ser assim! Mas é diferente. Utopias não funcionam. Na real, poucos se amam, todo o dia é exposto ao mundo inteiro a outra face da moeda.  E nada é cor-de-rosa. Panos quentes não cicatrizam feridas antigas, nem entre os povos, nem entre as pessoas. O ódio, o orgulho e a inveja são efeitos colaterais de drogas devastadores. Acabam com o doente e não acabam com a doença.

E se a vida é assim, cheia de sentimentos contraditórios e vulneráveis, por que não poder afastar a máscara, mostrar alegria e tristeza, força e fraqueza ou a desgraça? Mostrar que gente tem seu lado bonito e também o xucro, o abominável. Que gente tem o seu  saco de bagulhos pra carregar e pode 'piar' pelo peso. Ou até 'pirar' por momentos. Nada é perfeitinho. Mas muitos querem aparentar uma linda e doce vida que não sei para que serve.

Mas para fechar esse texto que julgo verdadeiro, de uma vida que não é só festa, coloquei o CD, de fundo,  Que c'est triste Venise, com Charles Aznavour, porque se for pra sofrer que o serviço seja completo.

Quero, sim, poder curtir minhas alegrias e tristezas, refletir e chorar, pois só as lágrimas me farão amadurecer mais, e me mostrarão o real sentido de tudo que me rodeia.  Assim poderei decidir meu andar. E se tiver sorte, um longo andar...

Por hoje é isso. 
Voltarei com algo mais alegre.


  aumente o áudio do vídeo



7 de julho de 2015

POEMA 'BALANÇO'




             Quando chegar ao fim da minha vida,
             toda cheia de curvas e de dobras
             ah! não contes, Senhor, as minhas obras
             a ver se a recompensa é merecida!

             Minha justiça é logo corrompida...
             minhas boas ações, apenas sobras...
             eu fui um fariseu: minhas manobras
             são ruínas em pó, massa falida...

             Quando chegar ao fim destes meus dias,
             sei que terei as minhas mãos vazias
             e a túnica bem rota de um mendigo!

             E por saber que tudo logo passa
             eu me abandono inteiro à tua graça
             pois só o amor eu levarei comigo...

 - do poeta Antonio Carlos Santini 
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          Esse poema  (significa a hora da 'prestação de contas') me foi enviado por meu pai um pouco antes de seu falecimento, e sem dúvida tocou-me bastante. Passaram-se anos  e  nunca  esqueci esse poema. Hoje compartilho com vocês, há o que refletir...
Esclarecendo: o autor do poema não é meu pai.



27 de junho de 2015

O FIM DA FOTOGRAFIA ?



-  por Tais Luso de Carvalho

Meus álbuns poderão fazer parte de museus. Hoje é um cerimonial folhar um álbum, ver fotos da juventude, formaturas, casamentos da família, festas... Mas a luta é inglória, o pessoal só quer saber de fotos no Smartfone, Tablets e aparentados. E dos últimos acontecimentos em Selfie. Nunca vi tanto autorretrato. Tantas caras e bocas. 

Minha geração (longe de ser do período paleolítico) ainda teve o privilégio de tirar fotografia. De manusear uma máquina profissional. De tentar fazer Arte fotográfica.
Ao ler uma entrevista na revista ISTOÉ, com o genial mineiro Sebastião Salgado, me bateu a nostalgia de um adeus. Cedo ou tarde teremos a despedida, segundo ele. A 'fotografia' está no seu final. Ele fala em fotografia profissional que passa por uma técnica própria, por processo especial da impressão, edição, um manuseio especial em laboratório. E uma técnica aprimorada. Tive o prazer de entrar num estúdio de revelação e ver o processo, a elaboração de uma fotografia.

Em seu último trabalho, o fotógrafo coloca o planeta à nossa disposição; os lugares mais fascinantes da Terra, difícil de chegar, difícil de fotografar, emocionante de ver. Oito anos de trabalho intenso para compor a obra Genesis.

'Descobri que 46% do planeta ainda está como no dia da gênese' - relatou Salgado.

Interagiu ao longo de 40 anos com culturas fantásticas, registrando pessoas, fauna, flora e contribuindo para preservação do planeta. Pelo menos tentando. Seu próximo trabalho será sobre as tribos indígenas brasileiras – grupos antigos, remotos e intocados pela civilização - ainda. Pelo menos 100 grupos nunca foram contactados. Deverá ser um trabalho minucioso e fantástico.

Mas, pra não dizer que só falei de flores e não coloquei uma pimentinha no texto, pergunto se algo bem contemporâneo não ficará registrado nos anais da história da fotografia dita imagem: falo do horroroso, deselegante e cafona pau de selfie. É uma invenção sui generis. Até em casamento já foi usado, e pelo padre! Não há dúvida que ficou exótico. 

Porém, está com seu uso proibido em vários parques temáticos dos Estados Unidos, de Paris e Hong Kong, o que alegam representar um perigo para a segurança de seus visitantes e empregados. Essa medida se estende, também,  a vários  museus. O que é óbvio.

Não faz muito, li um artigo (14/6/2015 ZH),  escrito por um especialista em ciência de computação, o qual percebe-se a despreocupação das pessoas a respeito do seu resguardo.  Não há dúvidas que  não se dão conta do grande risco que correm com a exposição de tantas fotos nas redes sociais. Pela facilidade de uma selfie, o ato se torna inconsequente. E como já virou uma paranoia, ninguém pesa as consequências. Mas pode virar um incômodo tamanho família. A vaidade humana não tem limites, está por demais escrachada.

Também já existem, nos Estados Unidos, estudos com jovens que se encontram doentes e insatisfeitos porque a tal selfie não lhes agrada nunca! E tais fotinhos precisam ser aprovadas nas redes sociais Esses estudos mostram que pessoas entre 16 e 25 anos dedicam 16 minutos e sete tentativas, em média, para fazer o selfie perfeito.  É um dilema que virou obsessão.  Enfim, os tempos são outros... 
Mas a arte, a criação e a emoção são coisas diferentes. Ficarão para sempre como relato da história da humanidade.


Protesto na Praça da Paz Celestial
Um jovem durante o protesto na Praça da Paz Celestial, na China, que fez parar uma fileira de tanques de guerra. A identidade do jovem é desconhecida até hoje. Em 2000, o mesmo jovem  foi eleito pela revista Time uma das pessoas mais influentes do século XX.


Solidariedade
A foto revela um gesto de solidariedade de um missionário em Uganda - 1980. 
A foto ficou registrada como a melhor foto daquele ano, sem que o fotógrafo soubesse...


A menina e o abutre
Essa foto emocionou o mundo, pois retrata a calamidade da fome na África, causada pela guerra civil. A tomada da foto foi feita em uma aldeia no Sudão (1993) e mostra um abutre observando uma criança desnutrida que aparentava esperar a morte e viraria alimento da ave. A foto rendeu ao fotógrafo o Prêmio Pulitzer. Contudo foi muito criticado por não ter ajudado a criança. Pressionado pelo sentimento de culpa, Carter  suicidou-se em 1994, aos 33 anos.