29 de outubro de 2014

UM POUCO DOS MEUS ANOS DOURADOS



- Tais Luso de Carvalho


Ainda peguei a época em que os colégios exigiam uniforme. Usávamos saia azul-marinho pregueada, blusa branca com o brasão do colégio, meia branca e um sapatão horroroso para acabar com nossa vaidade e qualquer resquício dengoso. Nem uma meia soquete vermelhinha – para nos diferenciar – era permitido. Mas o único senão, o pesado do uniforme, era o sapatão preto. Quebrar a austeridade com um sapatinho legal, tipo scarpin, era tudo que nós queríamos. Mas as freiras eram duras na queda.
Hoje tudo desapareceu – o uniforme, o sapatão preto e as freiras ortodoxas. Eu até gostava daquelas freirinhas. Havia um respeito recíproco. Também havia outros colégios, excelentes, entre eles o Júlio de Castilhos. Esse era o xodó da juventude, era o revolucionário, o liberal, o diferente. E não tinha uniforme. Era o colégio dos alunos mais pensantes – segundo alguns. Mas esse colégio cheirava ser meio de esquerda. Eu podia ficar um mês chorando que meu pai dizia:

Filha minha NÃO!!
Tá bom, pai. Te acalma. Fico no Sevigné, com as freiras.

A minha geração ainda comparecia às aulas com um contêiner; levávamos todos os livros do dia: o livro de gramática, matemática, história, geografia, inglês, francês etc e tal. E os cadernos correspondentes. Naquela época não havia Google, nem Smartfones. Nada de virtual – era na real. No pesado. Porém, aquela cretina da matemática ralou com quem não queria nada com uma vida exata e sim com uma vida humana.
Lembro de algumas colegas que gostavam da matemática, mas eram inflexíveis para darem uma colinha aos necessitados. Mas levavam muitos puxões nos cabelos das que sentavam atrás – para aprenderem a ser complacentes. Depois nós, as humanas, quebrávamos o galho nas provas de português.
Se algo orgulha minha geração era o respeito e educação com que tratávamos nossos professores, em todos os graus.
As amizades eram diferentes, quase sempre com os colegas de aula que se reuniam nos fins de semana para fazerem os trabalhos em grupo ou reuniões dançantes na casa das colegas, em que as mães ficavam de olho nos guris. Sim, elas se responsabilizavam pelas filhas das outras. Legal, não? Havia uma cumplicidade entre as mães. Mães X filhos.
O tal de ficar não existia, nem em Marte. Era outro viver! Mais puro, mais sério, mais encantador. As gurias se jogavam na cama com seu confidencial travesseiro, mas de nada resolvia. Já tinham levado 'o fora'. E dê-lhe lágrimas e músicas de fossa.
A comunicação era no olho. Assim sentíamos a verdade dos relacionamentos: sentíamos o martírio do invejoso, do mentiroso, do falso, do covarde; mas também a bondade do generoso e a cumplicidade da amiga. Tínhamos nossos segredos. Nossos amores eram regados com lágrimas de impaciência e de dúvidas. Nada era muito claro, sempre existiam dúvidas, pois ainda havia recato e timidez.
Só posso amar aquela época! Uma época levada a sério. Tivemos caídas, recaídas, namoricos e noivados que se desmanchavam oficialmente, mas nossos valores eram fortes, nossos sentimentos eram questionados, nossas obrigações nos moldaram, nossa ética nos fez gente.
E deixou saudades, sim. E muito orgulho do nosso passado.



26 de outubro de 2014

Tudo Tem Dois Lados - Até um Reality Show!





- Tais Luso

É curioso como a gente subestima coisas que nos parecem simples. O que tem valor, na sociedade, é o complicado, o lado erudito da coisa. Parece que o simples é coisa menor. E não. O simples é apenas o lado descomplicado, prático. Cozinhar é simples? Pra quem come é; para quem faz não é. Fazer um feijão não é simples, simples é fazer um feijão horroroso, aguado.

Adoro um programa de televisão cujo nome é MasterChef, no canal 10 Band. É um programa muito bem elaborado, que tem em vários países e com o mesmo formato, mas me parece que no Brasil é mais pomposo. Uma produção grandiosa.

A versão brasileira do programa MasterChef é comandado pela jornalista Ana Paula Padrão. Sucesso em todo o mundo, o Reality Show é um programa para talentosos em que o estresse, a competição, o emocional e o limite psicológico estão presentes durante o programa todo. Já foi visto por mais de 250 milhões de telespectadores em 145 países. Que bom que dei uma arrumada no meu problema com esse nome Reality Show,  o qual tenho muita antipatia– não preciso me explicar muito, né? O BBB e Fazenda que expliquem.

No programa passado confesso que fiquei balançada ao ver um dos concorrentes classificados, o Lucio Manosso, desistir devido à sua pressão alta, ao seu estresse. Levou em consideração o alerta de seu cardiologista. E desistiu de seu sonho.

O grande vencedor levará um prêmio de R$ 150 mil, um Fiat Fiorino refrigerado,  uma bolsa na Le Cordon Bleu, em Paris,  e o lançamento de seu livro com todas as suas receitas.

O alto estresse dos candidatos não se dá não pelo prato em si, mas pelas rígidas regras do concurso e pelos puxões de orelha dados pelos 3 Chefs que levam muito em consideração o equilíbrio emocional e o interesse dos concorrentes pelo prato elaborado. 

A arrogância é altamente penalizada; a desordem, a apresentação visual e o destrambelhamento na preparação do prato pesam muito no conceito. Isso prova que cozinhar e querer trabalhar com o público é coisa muito séria. 

Esse programa é uma lição, mostra as qualidades e os defeitos do ser humano; mostra que para vencer tem de ter talento. Um ser humano desinteressante tem de cair no ostracismo. Aliás, essa busca pela perfeição, e trabalhar egos inflados e com falta de modéstia é o ponto alto do programa, muito mais do que o próprio prato. Nós, do lado de cá da tela, aprendemos igualmente que a humildade é a mãe das virtudes. E aprendi que Reality Show pode ser algo muito proveitoso.



19 de outubro de 2014

A VIDA É UMA CAIXINHA DE SURPRESA



        – Tais Luso

Foi no dia 14 de outubro, quando assisti o Roda Viva na TV Cultura – às 22:00 hs, com Bibi Ferreira. Saber como pensa uma pessoa com 92 anos, ainda em atividade, é muito bom. Dá uma esperança. No decorrer do programa fui ficando pasma. Que mulher lúcida, lá do alto de seus 92 anos de idade e com 73 anos de carreira. Mulher forte. Atriz completa, não duvido que assobie e toque flauta ao mesmo tempo.

Bibi relembrou momentos de sua carreira de atriz e diretora; emocionou a bancada ao cantar Gota d'Água, além de falar do passado, presente e futuro do teatro; falou de seu pai Procópio Ferreira, da importância de sua mãe em sua vida; falou de seu marido Paulo Pontes e de vários assuntos e histórias curiosas. Maravilha.

Na mesma semana, o apresentador Rodrigo Faro, no seu programa de domingo, apresentou uma mulher chamada Creuza, de 50 anos, que emocionou a plateia: uma mulher que tinha tudo para continuar na pobreza. Aos 12 anos a menina pobre começou vida dura, trabalho pesado numa lavoura. Cortava cana.

Num certo momento de sua vida, depois de casada e com filhos, Creuza sentiu que tinha de virar o jogo. Não queria deixar como herança para seus filhos, uma lavoura de cana. Mas para virar o jogo, vivendo numa extrema pobreza, só sendo incrivelmente forte e obstinada.

A jovem mulher da lavoura voltou a estudar, e a duras penas conseguiu se formar em enfermagem, salvar vidas. Fazia quilômetros por dia, com uma maleta na garupa da bicicleta. Essa maleta levava o necessário para colher o material que detectava o câncer no colo do útero. Depois desse procedimento a jovem enfermeira entregava o material no hospital de Barretos, em São Paulo. Assim, as mulheres que tinham câncer eram encaminhadas  para o aquele hospital.

Hoje, a enfermeira Creuza conseguiu uma frota de 5 carretas, todas equipadas (hospital ambulante), que roda vários Estados do país levando esperança e vida às pessoas carentes. Segundo ela, o número é muito expressivo, muito acima de 10 mil mulheres foram salvas por ela, com seu serviço. Uma mulher simples, e que com pouca ajuda quis ser solidária.

Depois disso, fui subindo os canais de televisão à procura de algo que valesse a pena, e apareceu, não lembro onde, uma entrevista com a Miss bumbum do Brasil. Eta alegria!!! Nada contra esse tipo de mulher, mas deu um desânimo O mesmo desânimo que quando vejo os políticos do nosso país; quando a gente pensa que vai ver uma coisa acaba vendo outra!

Mas a vida é uma caixinha de surpresa.
Vamos em frente.



10 de outubro de 2014

FERNANDO PESSOA / POEMA EM LINHA RETA


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu, tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às crianças de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda gente que conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam.
Quem há nesse largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sidos traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


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Fernando Pessoa 1888/1935 Lisboa - Biografia de F.Pessoa
          Fonte: Coleção Pocket L&PM - pg 83,  Porto Alegre 1996.






1 de outubro de 2014

O MEU PAÍS / João de Almeida Neto



O MEU PAÍS

Um país que crianças elimina;

E não ouve o clamor dos esquecidos;
Onde nunca os humildes são ouvidos;
E uma elite sem Deus é que domina;
Que permite um estupro em cada esquina;
E a certeza da dúvida infeliz;
Onde quem tem razão passa a servis;
E maltratam o negro e a mulher;
Pode ser o país de quem quiser;
Mas não é, com certeza, o meu país.


Um país onde as leis são descartáveis;
Por ausência de códigos corretos;
Com noventa milhões de analfabetos;
E multidão maior de miseráveis;
Um país onde os homens confiáveis não têm voz,
Não têm vez,
Nem diretriz;
Mas corruptos têm voz,
Têm vez,
Têm bis,
E o respaldo de um estímulo incomum;
Pode ser o país de qualquer um;
Mas não é, com certeza, o meu país.


Um país que os seus índios discrimina;
E a Ciência e a Arte não respeita;
Um país que ainda morre de maleita, por atraso geral da Medicina;
Um país onde a Escola não ensina;
E o Hospital não dispõe de Raios-X;
Onde o povo da vila só é feliz;
Quando tem água de chuva e luz de sol;
Pode ser o país do futebol;
Mas não é, com certeza, o meu país!


Um país que é doente;
Não se cura;
Quer ficar sempre no terceiro mundo;
Que do poço fatal chegou ao fundo;
Sem saber emergir da noite escura;
Um país que perdeu a compostura;
Atendendo a políticos sutis;
Que dividem o Brasil em mil brasis;
Para melhor assaltar, de ponta a ponta;
Pode ser um país de faz de conta;
Mas não é, com certeza, o meu país!


Um país que perdeu a identidade;
Sepultou o idioma Português;
Aprendeu a falar pornô e Inglês;
Aderindo à global vulgaridade;
Um país que não tem capacidade;
De saber o que pensa e o que diz;
E não sabe curar a cicatriz;
Desse povo tão bom que vive mal;
Pode ser o país do carnaval;
Mas não é, com certeza, o meu país!



João de Almeida Neto é músico, cantor, compositor e advogado. Considerado pela crítica musical como um dos importantes intérpretes da música regional gaúcha. É um dos artistas mais premiados em festivais nativistas. Nasceu em Uruguaiana - 1956 / RS.




25 de setembro de 2014

O MENINO DE RUA QUE PEDIA UM LIVRO



              - Tais luso de Carvalho

Nem sempre assisto ao programa Fantástico, da Rede Globo. Mas no domingo, 14 de setembro, assisti a um quadro e me emocionei. Era de uma criança  que fingia ser um menino pobre e de rua, que abordava várias pessoas defronte a uma livraria e ali pedia a elas se podiam comprar-lhe um livro. Naturalmente uns passavam sem dar bola para a criança, mas outros se surpreendiam tanto com o pedido que entravam com o menino na livraria para que ele escolhesse um livro. Para uns, o menino dizia que não sabia ler, então as pessoas sentavam com ele e liam alguma história. Realmente isso nunca foi uma paisagem do nosso dia a dia, não se vê.

Confesso que não consegui segurar algumas lágrimas, mesmo sabendo que era uma simulação. Mas me emocionei por ver que a ajuda partia de pessoas comuns, que se compadeciam, que se espantavam. E que se doavam. E esses, quando abordados pelo repórter do Fantástico, se surpreendiam e apoiavam a campanha. Ou a crítica.

Geralmente, os excluídos e abandonados pedem outras coisas. Mas emoção é como bocejo, um contagia o outro. A emoção da rua veio para nossas casas, ao nosso encontro, por todo o país.

Oxalá que os candidatos atuais aos cargos para Deputado Estadual, Federal, Governador, Senador e à Presidência da República, se comovam com coisas semelhantes. Enquanto não derem a devida atenção para a educação e para as escolas caindo aos pedaços, nosso país vai ser isso que está aí, um caos.

Pois é, será que os candidatos viram o programa? Não bateu uma emoção e uma vontade de virar o quadro em que se encontra o nosso país?

É triste constatar que aqueles que têm a faca e o queijo na mão, os que têm o poder para virar a situação do país, pouco se lixam, não estão nem aí; o negócio morre no papel. O que mais vemos e ouvimos é o desvio de verbas e a farra com o dinheiro público. E tudo vira um circo.

E o dia 5 de outubro está chegando e eu não consigo me decidir em quem votar. 
Qual será a razão???



15 de setembro de 2014

ELEIÇÕES NO PAÍS TROPICAL



            - Tais Luso de Carvalho

Adoro documentários, pois tenho uma enorme curiosidade por outras culturas. Assisto bastante a série Os Brasileiros no Exterior. E, é claro, faço minhas comparações.

O Brasil é um país emergente, diria em ascensão, fica mais bonitinho – pelo menos dá a ilusão de que estamos chegando lá... Ando meio confusa, não sei bem o que tem por aqui para me orgulhar, mas uma hora destas descubro.

Lá fora, também acontecem coisas que nos deixam estarrecidos. Mas prefiro ver algo que nos sirva como exemplo e não coisas duvidosas para justificar nossa indecência. Sim, nossos pecados já são mortais, estão batendo nas manchetes de todos os jornais do mundo e confirmando aquela velha citação de que não somos um país sério. O Brasil vende muita alegria. A gente ri a toa. Percebo isso até nas entrevistas de rua, quando  o repórter pergunta sério, até meio abalado e a entrevistada responde rindo, parecendo retardo mental. Não há conscientização? Não entendo isso.

A pobreza de outros países não me serve como parâmetro e nem como conforto para achar que o Brasil está bem; eu não gosto de ver meu país aparecendo nas piores estatísticas sobre educação, saúde, segurança, corrupção… É vergonhoso. Não vou forçar a barra, e dizer que sinto orgulho daqui. Não sinto. Sinto agonia.

Não sei por que o brasileiro parte para um tipo de comparação meio fútil, achando que o Brasil é  país mais belo do mundo, que tem o melhor futebol, as melhores praias, o melhor carnaval, a melhor música, as mulheres mais lindas… mas isso é tão pouco! Não é nada. E que pretensão é essa? Não sei de onde tiraram isso.

Nossos defeitos, nossa falta de seriedade, nossas carências não nos dão o direito de nos fresquear só porque vivemos num país alegre por natureza. Acho um despropósito. Penso - ainda - que não servimos para modelito de nada.

Enquanto lá fora os irmãozinhos aperfeiçoam seus metrôs, seus ônibus, seus trens, suas ruas, suas calçadas, e cuidam do conforto, formação, cultura e bem-estar do seu povo (como os franceses, suecos etc), nossos irmãozinhos daqui ficam coçando, vendo o tempo passar e pensando em reeleição. É por aí.

Enquanto aqueles que governam esse enorme país, não derem ao povo mecanismos de educação e pensarem no coletivo, continuaremos assim, um país rico, mas mal administrado e com uma enorme população pobre de dar dó; outros, ricos de dar inveja. É um contraste tão absurdo que desanima a acreditar que um dia algo mudará.  Pois é, tanta decepção...

Mas vou votar.


5 de setembro de 2014

MORAR EM CONDOMÍNIO É UMA ARTE!




           - por Taís Luso de Carvalho

Muitas coisas  mudam muito durante nossas vidas, mas outras, jamais. E uma delas, são os relacionamentos dentro de condomínios. Lógico que quanto menos apartamentos, menor o rolo. Espera-se. Os felizes moradores jamais morrerão de tédio.
E a regra é a mesma, tanto para os lindos e arborizados condomínios, como para os mais simples e simpáticos. Condomínio é condomínio porque gente é gente. E há gente especial como também gente tipo encrenca. E morar tão próximo de alguém que, dia sim, dia não, levanta de cara feia  não é tarefa divertida. 

Para os que têm o privilégio de morar em condomínio de edifícios, cairia bem ouvirem com frequência uma música que falasse de tragédia e desencanto. Poderia ser algo de Lupicínio Rodrigues, como Nervos de Aço ou Vingança. Aliás, é o que estou ouvindo no momento. Preciso de inspiração, né gente? Pegar raiva ajuda no texto.
Há muitos anos moro em condomínio. E vejo de tudo: gente feliz, educada e gentil; outros rabugentos, infelizes e implicantes. Constato, até hoje, que muitos condomínios são considerados um dos lugares mais hostis para se viver em paz.
Existe gente que acha uma glória ter alguém pra bater de frente; pra deixar seus demônios azucrinando a vida dos outros. E acontece em qualquer classe social: a loucura não escolhe posição social, nem credo, nem cor. Os Vips também sabem montar uma barraquinha básica.  Quando pensamos que tudo está em paz, estoura a boiada na reunião de condomínio apenas porque a flor do jardim  murchou, o cachorro mijou na escada, um morador quer fechar a sua sacada, o sapato do porteiro  não combina com a calça, o cabelo da faxineira não agradou, o elevador de serviço, o social... e mil coisas. Para quem mora em edifício não existe tédio.
É difícil viver tão próximo uns dos outros. Um metro nos separa da porta do vizinho; uns tijolinhos, apenas. Salvo se for um apartamento por andar.
Geralmente as janelas dos banheiros abrem-se para um poço único, e é algo peculiar da natureza humana discutir a vida familiar nos banheiros. Ouve-se tudo, e o quarteirão inteiro fica por dentro das últimas.
Fazer amizade num condomínio é nitroglicerina pura. Há anos fiz essa bobagem. Não notei que a criatura era conturbada, e quando percebi  ela já estava batendo em minha porta... Mas aprendi, ah se aprendi!! E aprendi, também, que frequentar o mesmo salão de beleza é suicídio. Parentes morando no mesmo prédio, no começo é uma glória, depois vira cômico, e por fim fica trágico.
O andamento funcional do prédio nunca é perfeito; não funciona como deveria. A bronca já começa com o zelador que  com o passar dos anos  acha-se com direitos de morador,  fica na folga, empurrando para os outros empregados as suas atribuições. Emprega toda a família, é praticante assíduo do nepotismo. Também é um espião profissional: se quiser detona com qualquer morador. É criativo e tem tempo de sobra pra se coçar e aprontar.
O síndico, sendo morador do prédio, será um grande infeliz; entrará numa fria sem saber.  Ao tentar colocar ordem no pedaço, será um carrasco; se não colocar, será um bunda-mole. Caso venha a escolher a melhor empresa para a manutenção do prédio, dirão que está levando propina; se escolher a mais barata será mão de vaca. E ainda será tachado de mão leve porque lhe é concedido o direito de não pagar o condomínio – o que não compensa. O cara tem de trabalhar  de graça!! E ainda poderá ficar conhecido como o fofoqueiro do condomínio. Ser síndico é pura alegria.

Geralmente os síndicos-moradores  são ansiosos pelos ossos do ofício. Coitados. Mas ao deixarem o cargo ficarão por longo tempo com a  síndrome do pânico condominial, uma vez que estavam cheios de amor pra dar e foram bombardeados. O certo é colocar um síndico profissional, daqueles que aparecem no prédio sem ninguém ver. O cara aprendeu a manobrar...
Vocês querem saber mais sobre as reuniões de condomínio? Bem, essa é uma faculdade onde todos saem com doutorado em educação e finura. Jamais ouvi alguém falar bem de alguma reunião, pois muitos dos presentes  são laureados em grossura, mesquinharia e egoísmo. Não deixa de ser uma filosofia de vida: cuidar do seu eu.
Despeço-me, por hoje, desejando sorte, paz e alegria pra todos  os amáveis e simpáticos moradores de condomínios!

Até!


25 de agosto de 2014

DE VOLTA AO PASSADO…



           - Tais Luso de Carvalho

Estou aqui a imaginar uma cidadezinha com suas ruelas em pedra, em estilo colonial, casas com janelas floridas, gente tranquila e amiga. Ando um pouco enfadada da nossa realidade, desse ritmo alucinante e desse consumo desenfreado. Nunca vi tanto consumismo, tanta gente correndo atrás das mesmas coisas. Gostaria de voltar ao passado, de caminhar por aldeias mais antigas, ter minhas poucas e reais amigas, e crescer saudável como era mais comum em outros tempos. Recomeçar. Sentir o cheirinho de coisas mais autênticas e talvez mais ingênuas. 

A Internet facilmente nos possibilita sonhar, imaginar, avançar no futuro como também voltar ao passado. Magníficas fotos, em formato de mensagens, nos transportam ao passado, um passado por vezes mais distante, curioso, belo, e outros não tão longe, logo ali... Mas um passado que um dia eu vivi.

Pouco me importaria em me submeter novamente à chatice  das ciências exatas, uma vez que gostava muito e me saía bem nas ciências humanas. Mas acho que o sacrifício teria suas compensações.

Gostaria de vivenciar os preparativos entusiasmados dos alunos para a procissão de Corpus Christi – em que vários colégios da capital desfilavam juntos rumo à Igreja Matriz, era uma festa esperada, uma grande confraternização entre os jovens da época. Gostaria de vivenciar as aulas de ginástica do colégio, ao sacrifício das academias de hoje; gostaria de sentir, novamente, os padrões morais e éticos desabrochando em cada família, diferentes dos atuais. Não tenho dúvida que a família perdeu alguns de seus antigos valores por várias influências externas, meio pesadas.

Gostaria de ver os telefones mais antigos, fixos, padronizados, e não passar pelo martírio infinito das operadoras de celulares e de seus viciantes Smartfones pra levar trombadas nas calçadas por gente que caminha de cabeça baixa – teclando. Um batalhão teclando não sei o quê.

Gostaria de voltar à disciplina de horários, de andar descalça, de brincar no rio e de recordar o cerimonial do casamento: namorar, noivar e casar. Respeitar o tempo necessário  para um conhecimento recíproco. Também gostaria de voltar a ver o meu país produzir música de excelente qualidade. Onde estão os excelentes compositores, de outrora? Tantas coisas novas e boas surgiram, mas tantas coisas boas morreram - que não precisavam ter desaparecido. 

Viver o presente é o que temos agora: mas nada de novo no front, a não ser um universo de tecnologia, toda a parafernália que leva milhões de pessoas a uma conexão exaustiva, desconhecida, duvidosa, solitária, com seu potente e assustador virtualismo, como se real fosse. As pessoas são reais, são as mesmas: algumas muito boas, outras péssimas. E dessas não presumimos suas intenções. Então esse imenso elo virtual não é garantia de nada. Mas estamos no contexto. Estamos num mundo que não vai parar e nos resta acompanhar - em parte, e com cautela, se quisermos viver bem.

Muita coisa  nos relacionamentos abagunçou, pode ter sido um equívoco na medida em que 50% dos casamentos, hoje, não duram cinco anos e 30% não passam de dois anos. E isso é péssimo sinal.  Não tem nada de caretice, mas de observação sob o ponto de vista da nossa evolução, da nossa realização como mulheres. 

Tomara que grande parte da geração de meus filhos esteja feliz. Estarão? Também não sei, as gerações posteriores veem as coisas sob outra ótica, que naturalmente não é a minha, embora a minha geração também teve seus pecados.

Mas cada geração precisa carregar seu fardo. Parece-me que muitos jovens estão meio perdidos, precisam achar uma saída para suas indagações. Onde erramos?  O que corrigir? Acredito que tudo o que aprendemos, o caráter que trazemos e  a vida que vivemos, não se joga fora,  é  a ante-sala de um futuro que poderá nos trazer benefícios, algo bem compensador.

Espero que muitos encontrem uma resposta, algo que acreditem e que mereça uma luta, um sacrifício que faça com que suas vidas valem a pena e que possam se orgulhar do legado que deixarão para as gerações futuras. 

Eu vejo sentido no passado, sim. Não concordo com os que dizem que o que passou está enterrado. O passado é a nossa história, o nosso aprendizado, a nossa memória. E por que não admitir que possamos sentir um pouco de saudades? Isso não invalida o viver o presente. E que requer, até,  certas comparações para podermos corrigir certos erros.


Espero um dia entender esse tipo de coisa.




10 de agosto de 2014

O QUE É A VIDA?




       - Tais Luso de Carvalho

Nas conversas do dia a dia, com familiares, amigas, vizinhas, fulanas e beltranos, e observando bastante a vida da nossa sociedade é que dá para ir pegando alguns temperos que servem para aplicar na minha vida. É melhor aprender vendo os erros dos outros do que sofrer na própria pele. Dá menos trabalho.

Examino o tal custo-benefício: o que vale a pena? Tudo complica quando a cobiça e a ostentação se fazem presentes, essa praga que gera a insatisfação humana e que revela o tamanho das diferenças sociais. O ser humano é exibido e paga por isso. Vê-se nas redes sociais um exibicionismo exacerbado – que não deixa de fazer parte de um mundo real.

Bem, moro num bairro em que as pessoas ainda têm o hábito de baterem papo na calçada, vão chegando e se encaixando na conversa. Os animais de estimação se encontram e seus donos se aproximam; enquanto os amados bichinhos reforçam seus laços sociais, os donos falam das últimas notícias: falam de futebol, dos seus condomínios, das eleições, da segurança e de política – quem roubou o quê. E quanto. Os noticiosos estão aí mostrando todos os dias o lixo do mundo – coisa que nos incomoda bastante.

São nessas conversas de calçadas que observo que todos nós – ao amadurecermos –, também vamos tomando consciência como é bom a certa altura da vida podermos ficar um pouco de papo pro ar. Desacelerar.

Li, em ZH, de Porto Alegre, e não faz muito tempo, sobre o Clube do Nadismo: dizia a nota, que o Nadismo representa uma importante transformação cultural, significa tomar consciência de que o tempo de fazer nada também é valioso. Aprendendo a aproveitá-lo, se vive melhor. Taí… Simpatizei com a coisa, com o Clube do Nadismo. Não confundam com o Clube do Nudismo, pelo amor de Deus.

Conversando com minha vizinha, aposentada recentemente, soube que ela abrirá uma boutique. Está aposentada há quatro meses, mas já está se coçando, sente uma certa culpa por não produzir alguma coisa. O desacelerar, o diminuir as atividades ainda numa idade produtiva, há muitos anos que não é bem visto. E até hoje em dia gera uma culpa do cão. Milhões de pessoas não conseguem aprender o que fazer com elas mesmas numa tarde chuvosa e livre. Ficam paranoicas, infelizes. Loucas pelo dia de amanhã para voltarem à vida!

A vida? Mas o que é a vida? É uma resposta difícil. Antonio Abujanra sempre encerra seu programa - Provocações - com essa pergunta: o que é a vida pra você? E os entrevistados pensativos mostram dificuldades em responder. Pois é, a vida…

Eu também não sei o certo, mas me arrisco a dizer que a vida é um longo percurso que nos desafia a ultrapassar o maior número de barreiras sem sentir culpa.
E, talvez um dos mais felizes encontros que podemos ter, o  encontro conosco mesmo.