24 de junho de 2016

AUTOPSICOGRAFIA – Fernando Pessoa

Lisboa / Portugal


                O Poeta é um fingidor.
                Finge tão completamente
                Que chega a fingir que é dor
                A dor que deveras sente.

                E os que lêem o que escrevo,
                Na dor lida sentem bem,
                Não as duas que ele teve,
                Mas só a que eles não têm.

                E assim nas calhas de roda
                Gira, a entreter a razão,
                Esse comboio de corda
                Que se chama  coração.


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Fernando Pessoa – Poesias ed. L&PM Pocket pág 40


Fernando António Nogueira Pessoa (1888-1935) nasceu no dia 13 de junho de 1888, em Lisboa, Portugal, Acompanhou a família à África, recebeu educação inglesa. 
Ocupou diversas profissões: de editor, jornalista, empresário, publicitário, crítico literário e crítico político. 
Fernando Pessoa criou vários poetas que conviviam nele. Bem diferentes entre si. Os heterônimos, isto é, indivíduos diferentes, cada qual com seu mundo próprio, representando angústias, encantos, melancolias e tédios de seu autor. "Mistura-se-me tudo na consciência / e eu sinto que por debaixo existo eu". 
Criou Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis. Ao lado deles F.Pessoa se tornou uma faceta a mais. Faleceu em Lisboa, Portugal, no dia 30 de novembro de 1935.
- Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. (FP)

Neste blog - de Fernando Pessoa:
Segue o teu destino
Poema em linha reta
Biografia de Fernando Pessoa  (Panorama)


19 de junho de 2016

EMOÇÕES





                    - Taís Luso


Há poucos dias, passei por detrás de um móvel aqui de casa e vi algo pequenino no chão. Me agachei para ver mais de perto. Era um filhote de lagartixa, tão pequenina, tão sozinha e desprotegida que resolvi deixá-la onde estava. Fiquei com pena de enxotá-la. Ficaria muto solitária. E a elegi como a mascote da casa, afinal, nenhum mal faria, e quando crescesse, ajudaria a limpar a casa: fora os invasores! E ali ficou, quietinha, talvez com medo de mim, e tentando sobreviver. Abandonada. Não tinha mais de dois centímetros. Era  quase transparente.
Fechei as janelas e saí dali. No dia seguinte voltei ao lugar, olhei para o chão e o bichinho ali. Me agachei, peguei e vi que tinha morrido, ficou durinha, e fiquei com muita pena, tanto é que não a esqueci. Não sei o que houve, talvez alguém passou por ali e pisou no bichinho, sem vê-la. Era uma vida. Uma guerreira tentando sobreviver num mundo hostil.
Por que vim para o computador escrever sobre esse bichinho? Por que estou segurando minhas emoções?
Revirei minhas memórias. Tudo tem a ver com várias perdas recentes dos nossos animaizinhos de estimação. Os sentimentos se interligam. Escrevo hoje sobre a lagartixa, mas sobre os nossos animais, que perdemos não faz muito, não consegui escrever nada. Jamais conseguiria  um texto à altura daquele amor, tanto da parte deles como da nossa família. E também senti que jamais eu conseguiria suportar uma narrativa maior. Um amor tão verdadeiro não precisa de muito espaço. 
Até uma notinha basta para se juntar às minhas memórias.


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                   Meu carinho a todos.


11 de junho de 2016

POR QUE 'MELHOR IDADE' ?


Mulher ao Espelho - 1932 /  Pablo Picasso
                
                  - Taís Luso
Tudo tem seu tempo certo e há uma etapa na vida em que é permitido o quesito exibir. Isto é, se quisermos exibir. Depois, não mais. É o período em que o ser humano está belo, jovem e nem pensa que daqui a pouco as exigências serão noutro nível. É difícil essa conscientização de finitude quando se é muito jovem.
Mas a vida segue com suas exigências, cobrando posturas, aplicando um apagão nas frescuras, nos preparando para uma outra realidade: a Terceira Idade, a Quarta Idade... Mas tudo com calma para dar o tempo de assimilar. Porque a coisa não é um conto de fadas. Tem lá suas artroses e reumatoides pelo caminho...
Não raro, confundimos o nosso meio de campo e nos perdemos nos emaranhados de uma suposta juventude sem fim. Mas chega uma hora em que o espírito e a razão pedem licença para assumir o comando. Chega de fri-fri. A terceira idade tem bem mais a dar do que expôr futilidades. Já passamos por reformas.
Mas não quero dizer, com isso, que mulheres e homens, na terceira idade não sejam bonitos: é um tipo de beleza serena, segura, madura. É um tipo de beleza que germinou de uma alma que foi esculpida por anos. E passou a marcar presença. O traço da maturidade num rosto é extremamente bonito. Tem substância. Tem mais peso.
Bem, aos sessenta anos somos todos condecorados com o nobre título de A Melhor Idade. Mas por que melhor idade? Implico com isso. Será porque os filhos casaram e não temos mais compromissos? Estamos livres para fazermos outras coisas? Parece mais um consolo - ridículo.
A Melhor Idade é aquela em que estamos resolvidos, mais equilibrados e conscientes do nosso papel. E isso pode se dar aos 40, 50 anos. Ou nunca. Minha melhor idade não tem idade, tem amadurecimento, tem outros valores.
Aceitar o envelhecimento sem subterfúgios é mais saudável; é de bom tom sentir-se ótimo, contestando, aplaudindo, produzindo e vivendo. Penso que somos adaptáveis a muitas situações, portanto não vejo o menor sentido em rotular etapas da vida madura. Não existe melhor idade. Existem melhores momentos, e outros nem tanto. Como existem momentos de extrema infelicidade aos 30 anos.
Do espelho, deste amigo que um dia me deu a certeza da juventude, peço que agora me dê a clareza suficiente para ir aceitando as marcas do meu andar. Mas não venha com presentes de consolação; não  venha com  concursos de Miss da Melhor Idade; não venha com ilusões. Quando a esmola é muita, o santo desconfia. Não há necessidade de rotular coisa alguma. Terceira Idade está de bom tamanho e muito claro para todos.
Outro rótulo parece deboche...


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5 de junho de 2016

VIDA VIRTUAL

Automat / 1927     Edward Hopper


                         - Taís Luso
Há uns meses enviei um vídeo para uma amiga – amiga da vida real. Tivemos uma conversa muito boa. Ela faz parte das redes sociais, Facebook e Instagram. Eu faço parte da blogosfera. E como não faço parte de outras redes, quis entender o porquê dessa interação tão intensa, tão íntima, tão exposta. Mostrei-lhe um YouTube que recebi sobre redes. Não deixa de ser interessante, ver de fora, uma engrenagem fantástica, que consegue aproximar e amar uns, e ao mesmo tempo consegue rejeitar e odiar outros. Não entro no mérito do conteúdo. Cada um sabe de si e posta o que lhe convém – desde que assuma suas responsabilidades. Tudo é democrático. Pois é.
Mas nessa conversa, minha amiga me convenceu o porquê dessas redes virarem o centro de atenções de 350 milhões de usuários; por que o Smartphone é um assombro, principal objeto de consumo do mundo; por que vemos tanta gente aderir e dedilhar na rua, nos bares, nos hospitais, nas filas e etc. 
Disse-me ela:
Concordo que a Internet e suas redes sociais podem deixar as pessoas muito no mundo virtual quando elas poderiam estar no mundo real, vivendo, conversando, sentindo e interagindo. Mas e quando a solidão é o cenário mais frequente? A Internet dá, ao menos, uma sensação de que estamos em contato. Infelizmente, os seres humanos precisam uns dos outros. Os animais, que são melhores que nós, não nos bastam. Somos seres sociais. A solidão corrói Precisamos do acolhimento e da troca. Ninguém cresce e evolui sozinho. Por isso, as redes sociais, ainda que de forma muito superficial, cumprem uma função para os solitários: permitem a expressão de pensamento e a troca de opiniões, algumas risadas com bobagens, alguma informação e, por vezes, um encontro real de amigos que há muito não se viam. E também um pouco de inveja e nostalgia das fotos dos outros que mostram uma interação real, quase como um comercial de margarina.”
Entendi e nesse ponto lhe dei razão. Logicamente fiquei com muita pena e surpresa, mas aprendi e vi o quanto as redes sociais são úteis nessas circunstâncias. Mas é uma questão de conscientização, de aprendizado, de comportamento para a outra turma que não padece de solidão. Também constatei o quanto as redes podem ser eficazes e positivas para dar a palavra e poder ao povo. Tivemos o exemplo recentemente nas convocações para as manifestações e passeatas no Brasil. Jamais daria para convocar o povo sem o Vem pra rua, Brasil!
Incrível como a vida virtual está caminhando paralela à real. Mas a questão é  saber dosar.




1 de junho de 2016

UMA VISITINHA À CIDADE MAIS FRIA DO MUNDO

                      O rio congelado e a  ponte  de Yakutsk - Rússia / Sibéria                             


- Taís Luso

Cruzes. O frio é uma das sensações mais desagradáveis para quem não está acostumado a ele, para quem não nasceu numa terra fria. Passou a curiosidade, o negócio bom é dar no pé antes que caia o nariz, endureçam as pernas, gangrene os pés e a língua se enrole. Já peguei na Serra Gaúcha temperatura em torno de – 5º C, o que para os nativos da cidade de Yakutsk deve ser alto verão. Não consigo me imaginar num lugar desses, uma vez que aqui no sul do Brasil quando faz zero graus vira assunto regional e quase coisa de segurança pública. Bem que quando enfrentamos 40 graus de calor também não deixamos por menos. O Brasil é 8 ou 80. Tudo meio desequilibrado. Enquanto no nordeste faz 38º C, aqui no sul faz 15º ou 20º C. Tem de tudo para todos os gostos.
Bem, chama-se Yakutsk, capital de Yakutia/Rússia, na Sibéria Oriental, onde vivem 300.000 habitantes. Foi fundada em 1632. Fica ao longo do rio Lena, que por sinal também congela. Para mover os barcos só esperando a primavera chegar, até lá o rio vira estrada. Logicamente a cidade tem passagem subterrânea para os nativos e visitantes circularem a fim de evitarem o frio. Ilusão.
As crianças brincam na rua, mas por um tempo de 10 minutos quando a temperatura despenca, pois o frio intenso danifica os pulmões, congela as sobrancelhas, pestanas e a respiração torna-se difícil. Peixe não precisa de geladeira, congela na rua. 
Com 20 ºC a umidade no nariz congela e vem a tosse; aos 35º C a pele exposta ao ar fica dormente e a necrose é um grande risco; e aos 45º C fica difícil de usar óculos, o metal gruda no rosto e nas orelhas e rasga pedaços da pele quando tentam tirá-los. As pernas não existem para os forasteiros, loucos por uma aventura. O que se aguenta são 13 intermináveis minutos na rua.
No mês de janeiro a média por lá fica em torno de 40º C e a visibilidade na rua em torno de 10 metros. Os nativos dizem que a temperatura em torno dos 45º C não é dos maiores frios.
Quando a temperatura despenca para 52 C, as aulas são suspensas. A menor temperatura em Yakutsk foi de 64º C em 1891. É considerada a cidade mais fria devido à sua média alta.
Logicamente muitas pessoas se perguntam como alguém pode morar num lugar desses. Nada é de graça: abaixo de todo o gelo e de alguma terra, encontram-se tesouros: ouro, diamantes e outros minerais preciosos! O homem de bobo não tem nada.
Outras cidades na Rússia atingiram até72º C, como Verkhoyansk, mas a média é mais baixa. 
Porém, o ponto mais frio do planeta chama-se Ridge A, com temperatura média de 70º C e a 4 mil metros de altitude, mais alto que a cidade de La Paz, na Bolívia e a 600 quilômetros do polo sul. Deve ser lindo, mas ver essa beleza por foto já satisfaz. Ridge A é muito hostil para haver vida - se é que existe alguma por lá -, mas perfeito para a ciência. O céu extremamente limpo, com poucas nuvens e sem água (a umidade relativa do ar é praticamente zero), faz de Ridge A  o lugar perfeito para a instalação de um telescópio. "É o lugar mais próximo do espaço que você pode alcançar sem sair da Terra", afirma o cientista atmosférico Patrick Minnis, da Nasa.
Segundo pesquisas, países de clima frio e com pouca luminosidade geram mais quadros de depressão do que em países de clima quente.

casacos de pele, por baixo roupas térmicas

difícil sair...

mercado de peixe congelado ao ar livre...

veja vídeo



Suporte de dados técnicos:
Casa Vogue, Revista Super Interessante e Slide Share.





26 de maio de 2016

A LEI DO SAL E DO PALITO NOS RESTAURANTES

Restaurante em Arles - 1888 / Vincent Van Gogh


      - Taís Luso



Pois é, eu e Pedro almoçamos sempre fora, nada mais prático. Existem incontáveis restaurantes estilo 'por quilo e livre' – sinônimo de boca nervosa.  Mas esses restaurantes são ótimos, cronistas encontram histórias. Tem de tudo um pouco, principalmente observando os detalhes.  Bons no serviço e na coleção de coisas bizarras,  que vamos vendo no decorrer do almoço. Quando os filhos aparecem, pedimos algo em casa.

Sinto não poder chamar a atenção do meu marido – já que somos cúmplices na arte de observar. Eu sou discreta, meu olhar anda por cima como se nada visse, enquanto Pedro roda a cabeça 180 graus e pergunta em tom alto...

        - Onde, onde, onde?

Pronto. Isso é o suficiente para estragar minha pesquisa. Mas agora o assunto é outro: quando me servi de verduras, notei que faltava sal. Na mesa não havia o saleiro. Perguntei ao garçom sobre a ausência do sal.

       – Agora é lei, senhora, sal e palitos não podem ficar na mesa. Estão à disposição  na entrada, na mesa do buffet. Ficam em saquinhos. Mas eu busco pra senhora.
          – Péra! Palitos? O que tem o palito?

Foi lá. Voltou com 4 pacotinhos de sal e 3 palitos embalados que eu não pedi. Mas tudo bem, sei que os palitos são excêntricos e nunca bem-vindos, mas não precisavam massacrar o coitado diante de uma nação meia boca. Não sabia do palito enquadrado numa lei. Coitado.

E a lei dos palitos me fez lembrar da situação atual do país. Temos inúmeros problemas no Brasil, um raio de mosquito infectando milhares de pessoas, esgotos a céu aberto, servindo de criadouro, e os vereadores de Porto Alegre vão se preocupar se a população come muito sal ou escarafuncha os dentes? Isso tem relevância? O palito e sal permanecem no restaurante, só que na mesa do buffet! Apenas mudaram de lugar, trocaram 6 por meia-dúzia. Concordo que palito é desagradável, mas as verduras são bem lavadas? Há uma fiscalização?

Me veio à cabeça o Mensalão, o Petrolão, o LavaJato e até o Juiz Sérgio Moro! Os caras preocupados com um palito e a Petrobrás ardendo em chamas, assaltada, valendo quase nada. O país com um déficit fiscal de 170,5 bilhões de reais e o pobre do palito lá, desmilinguido, sofrendo bulling. Os Estados com a corda no pescoço, pagando salários atrasados e os vereadores preocupados com saleiro na mesa. Pô, gente, não tô acreditando: se for para fazer leis, a primeira a ser vista é a corrupção desse país em todos os setores. Não adianta os políticos saírem de um partido ou afastados de um cargo, e voarem para outras funções. É o que está acontecendo.

Mas adoro essa seriedade e esse espírito criativo com leis como essa, de tamanha relevância. Os Vereadores preocupados...  Durma-se com esse barulho.

Mas para não dizer que não falei de flores, espero que cuidem da nossa segurança, saúde, educação e a credibilidade do país, para futuros investimentos internacionais que estão sucateados. OK?
Haja coragem para investir por aqui.


21 de maio de 2016

DESEMPREGO – Luiz Coronel







O homem no desemprego
é um homem amordaçado.
Esconde grito contido.
Por isso parece calado.

O homem no desemprego
rumina áspero ódio.
O tempo boceja inútil
sem agendas ou relógios.

O homem no desemprego
não tem passagens ou malas.
Move-se num vaivém
qual uma fera na jaula.

O homem no desemprego
parece perdido no espaço.
Manearam suas pernas.
Imobilizaram seus braços.

O homem no desemprego
é um habitante no limbo.
Diga qual diferença
entre segunda e domingo?

O homem no desemprego
é o mais só entre os sós.
Sabe-se mutilado, ferido
mas desconhece o algoz.

O homem no desemprego
é um homem no exílio.
Não tem idioma nem pátria.
É um trem fora dos trilhos.

O homem no desemprego
é um náufrago na tábua.
Ou um peixe asfixiado
num turvo aquário de mágoas.

Ao homem no desemprego
congelaram sua imagem.
O tempo rola seu filme
mas ele ficou à margem.

Ao homem no desemprego
o alambique destila
a salvação pelos copos
e o triste roteiro das filas.





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Luiz Coronel nasceu em Bagé / RS, em 1938. Bacharel em Direito, Sociologia e Política, reside em Porto Alegre, onde trabalha como diretor de publicidade. Criou e dirige a Exitus, empresa de publicidade. É compositor musical, possuindo diversos prêmios como letrista nas Califórnias da canção nativa.
Com mais de 50 obras recebeu prêmios no Brasil, Espanha e México. Com traduções para o inglês e alemão. 

Sempre ligado à comunicação e à cultura, há 20 anos é presença constante nas redes de comunicação gaúchas participando na condição de colunista e poeta que sucede Mário Quintana, em edições semanais de poemas no Correio do Povo desde 1996. Na Rede Pampa participa de programas televisivos semanais, na RBS escreve como colunista na coluna Pampeana do jornal Zero Hora. Luiz Coronel  foi o patrono da 58ª Feira do Livro de Porto Alegre.

- Um Girassol na Neblina / Exitus ed. 1997 pág 62








14 de maio de 2016

RELACIONAMENTOS: TOLERÂNCIA ZERO




- Taís Luso

Muitas vezes me pego pensando nas relações humanas, gosto desse tema, da sua complexidade. Como são difíceis esses seres que falam, que choram, que gritam, que xingam, que roubam, que odeiam, que matam. E dizem que amam. Não; muitas vezes esse espaço para amar não existe. Nem todos foram moldados para amar.
Há pouco tempo, passeando pelos canais de televisão, dei de cara com uma cena em que famílias se matavam em discussões e agressões: um 'pega' horroroso entre mãe e filha; entre marido e mulher; entre irmãos. Mas é esse o retrato de famílias e de sociedades doentes.
Hoje é fácil perceber condutas bastante doentias, pois sequer as pessoas conseguem disfarçar em público. E nem fazem questão. É nesse egoísmo que conseguem acabar com sonhos alheios. Os humanos são seres muito especiais, mas também na maldade são 'maravilhosamente' criativos.
Não faz muito, soube de uma história que de tão esdrúxula, tornou-se hilária: uma avó foi visitar o netinho doente, levar seu afeto e um bolo para mimar a criança. A empregada abriu a porta, e a nora – que tinha horror da sogra – enfiou-se dentro do roupeiro e lá ficou até a sogra ir embora. O egoísmo, a intolerância e a ganância vieram fazer parte do quadro com mais intensidade, mais vigor. Não é só na politicagem que a coisa degringolou. A imundície existe é nas mentes e aparece nos lugares onde menos se espera. Mas isso sempre existiu. E encorpa e toma proporções gigantescas quando a sociedade não cuida de seus valores prioritários. Se espalha como peste.
Por que se acabaram os vínculos afetivos entre alunos e professores? Agravaram-se as brigas no trânsito e as reuniões de condomínios são nitroglicerina pura. Os jogos de futebol viraram disputas acirradas entre torcidas ferozes. E na política, as 'Excelências' se estrebucham, o Congresso Nacional virou um Coliseu Contemporâneo. E nas Redes Sociais é o mesmo drama. Há coisas boas, mas muitos partem para o ataque gratuito e dizem tudo o que querem. Seja com identificação ou como anônimos. Quando não compartilham das ideias em voga, o sarrafo desce.
Atualmente não é mais possível zelar pelo futuro dos filhos, não tem como saber onde vão, o que farão ou com quem conversam, saber quem são seus amigos.
O mundo adquiriu outro perfil. Nada mais é duradouro; os divórcios no Brasil, na última década, cresceram mais de 160% - último dado do IBGE. Isso é muito.
Vejo muitos avanços tecnológicos e um retrocesso nos relacionamentos. Não sei como chamar isso, e muito menos se haverá algum lucro no futuro.




7 de maio de 2016

MUDANÇAS NA CASA?




- Tais Luso

        Ontem cheguei em casa com umas revistas diferentes das que costumo comprar: cheguei com revistas de decoração! E ouvi um 'UÉ...' Não sei bem se foi de surpresa ou de pavor! Homem não entende de decoração, para trocarem uma cadeira de lugar é uma olimpíada! Aqui em casa o negócio fica meio nervoso, sou a única que gosta de trocas. De inovar.
Há dias comecei a olhar a decoração de nossa casa e fiquei pensando o tanto que mudei no decorrer dos anos. Mudei meu gosto, minha maneira de ver e sentir. É interessante como a casa acompanha nossa trajetória.
São transformações que acontecem e externamos também na casa. Eu noto de cara a personalidade de alguém quando entro em sua casa.
Tive uma amiga que me colocou numa fria. Faleceu há muitos anos, tinha um belo antiquário e com ela aprendi a amar as antiguidades. Fiquei apaixonada, realmente. Era daquelas pessoas que dizia: leva e paga como quiser. Pronto: a criatura fez um estrago enorme na minha vida. Me embuchei de peças antigas e agora está difícil de desapegar-me. Não tem como.
Dizer a alguém 'pague como quiser' é criar problemas para quem aceita. Eu aceitei, mas hoje não compraria nem a metade do que adquiri. O tempo se encarregou de formatar uma outra cabeça para minhas necessidades, gostaria agora de um estilo clean, mais leve, algo de fácil manutenção e não mais de metais, que requerem limpeza com regularidade ou porcelanas que não resistem às mãos da empregada.
Ofereci algumas coisas para meus filhos, mas não querem entupir suas casas, são mais práticos. Eu é que sou meio excêntrica: num canto de minha sala tenho um grande espremedor de uvas, dos EEUU, do ano de 1880. Ferro pesado que já passeou por todos os cantos da casa. Todos perguntam o que é aquilo!! Realmente é curioso. E belo.
Por outro lado, eu e Pedro temos o mesmo gosto, mas com uma ressalva: para ele um vaso pode ficar 30 anos no mesmo lugar que está ótimo; comigo o vaso precisa fazer rodízio, como se fosse a antiga bandeira da Igreja Divino Espírito Santo que visitava todas as casas dos paroquianos, semanalmente!
Lembro que minha mãe gostava desse mexe-mexe. Ela saía de minha casa e queria fazer o mesmo na dela. Ficava à minha espera, com a empregada de plantão. Meu pai ficava transtornado. Só não tocávamos em seu escritório. Respeitávamos. E minha mãe me cutucava:
- Minha filha, teu pai não gostou da nova decoração...Tá meio transtornado.
- Deixa, mãe, tá lindo, é questão de tempo! Relaxa.
Mas essas mudanças domésticas divertem, viram brincadeiras, mexem apenas na superfície, nos excessos, no nosso gosto.
O difícil é lidar e querer mudar pessoas com condutas e sentimentos torpes que o tempo agravou; difícil é a dúvida que se vive atualmente no Brasil porque as peças dessa casa, que abriga 200 milhões de moradores, não se encaixam em lugar nenhum, com coisa alguma.
Tudo zanza, causa náuseas, parece um navio em alto-mar enfrentando muitas tormentas.



1 de maio de 2016

POSTERIDADE / Affonso Romano de Sant'Anna




Eles vão nos achar ridículos, os pósteros.
Nos examinarão
com extrema curiosidade
e um tardio afeto.
Mas vão nos achar ridículos, os pósteros.

Olhado de lá
tudo aqui
será mais claro
para eles
que nos verão
inteiramente diversos
do que somos,
bem mais exóticos
do que somos.

- Como esses primitivos
ousavam se chamar modernos?
Farão simpósios, debaterão
e chegarão a bizarras conclusões.

Assim entraremos para a história deles
como outros para a nossa entraram;
não como o que somos
mas como reflexo de uma reflexão.


             
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(Poesia Reunida 1965-1999 / L&PM – maio 2004 – pg 174)


Affonso Romano de Sant'Anna nasceu em Belo Horizonte em 1937. É um dos grandes poetas, cronistas e ensaístas brasileiros da atualidade, com mais de 40 livros publicados.
Como jornalista trabalhou nos principais jornais e revistas do país: Jornal do Brasil, Veja, Isto É, O Estado de São Paulo, Estado de Minas e Correio Braziliense.  Professor universitário e ex diretor da Biblioteca Nacional.

Recebeu algumas das principais comendas brasileiras como Ordem Rio Branco, Medalha Tirandentes, Medalha da Inconfidência, Medalha Santos Dummont. É casado com a escritora Marina Colasanti.




23 de abril de 2016

TERROR NO HOSPITAL...





      - Tais Luso

Contou-me, ela, que chegou ao hospital às pressas, de madrugada. Na emergência, chorava muito. Mal  a criatura podia aguentar tanta dor. E foram muitas horas de angústia.

Nada mais adiantava a não ser Morfina, receitada pelo médico da emergência, que se compadeceu de tamanha dor. Mas no curto espaço de tempo, na pausa da dor, ela sentia a maior felicidade do mundo. Do contrário, a vontade era morrer.

Naquele lugar, de um branco asséptico, viveu  entre lágrimas, exigências, exames e hipóteses. Mas queria era um cirurgião. Urgente.

Passou-se uma madrugada e uma manhã, e ela em crise aguda. Ao meio-dia lhe avisaram que seria operada à tarde. Sem mais esperas. 

Foi uma cirurgia difícil, efetuada por ótimo médico, jovem e experiente.  Finalmente desceu para o andar inferior onde foi recebida com simpatia por uma paciente que compartilharia o quarto.  A essas alturas tudo estava bom demais.

À noite, seu marido permaneceu ao seu lado. Dormiu junto, numa cama encostada, resguardados por biombos. Dormiram de mão dadas. A certa altura ela levantou-se e foi ao banheiro. Na volta, começou a ver coisas muito estranhas naquele amplo quarto. 

Num canto, encoberto por grossas cortinas, havia visto  um velho deitado sobre uma tábua de passar roupa sendo massageado por uma enfermeira. Caramba!! Que loucura! Naturalmente seu marido se espantou ao saber, jamais imaginou um quadro assim dentro de um hospital de referência. Mas pegou no sono, exausto, esqueceu do velho sarado.

Não demorou para que ela lhe apertasse a mão e lhe dissesse para não se mexer, haviam várias pessoas, entrando e saindo do quarto, comercializando drogas e com armamento pesado. Uma forte luz que vinha da rua, entrava pela janela emitindo sinais de comando... O marido puxou as cobertas deixando apenas os olhos descobertos. O homem em pânico começou a pensar como tiraria sua mulher dali, do quarto 305, onde todos falavam  com cautela  e por códigos – segundo lhe contava  sua mulher, recém operada.  Noite de cão!

O dia clareou. Começava a rotina das enfermeiras do turno da manhã: mais remédios, mais injeções, mais curativos. No janelão, a solidária companheira de quarto olhava para a rua.

'É uma comparsa da gangue' pensava ela deitada em sua cama e tratando  todos com rispidez. Ninguém entendia aquela agressividade misturada com temor. A mulher, antes, tão dócil, tão meiga...

Bem mais tarde, seu marido desconfiou que algo deveria estar errado: começou a lembrar dos faróis sinalizando a entrega de drogas; gente armada dentro do quarto; uma sala com porta falsa e um velho  massageado que ele nunca vira por ali… 
Deu uma volta pelo andar; olhou canto por canto ao redor do quarto e nada viu! Tudo normal. As pessoas normais, as enfermeiras normais!

Mas veio uma luz: lembrou, de imediato, dos efeitos alucinógenos das tantas doses de Morfina aplicadas em sua mulher para aplacar as dores.

'Caramba - pensou ele - tudo pareceu tão real!!'


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