A VELHICE CHEGA QUANDO SE COMEÇA A DIZER: NUNCA ME SENTI TÃO JOVEM!

- Jules Renard -







31.8.10

A MONA LISA 3X4



Ontem recebi um telefonema inédito, hilário, medonho. Existem coisas na vida que são engraçadas demais. Ou tristes. Mas aqui, no Porto, deixo tudo registrado.

Nem todos devem gostar da mesma coisa, tudo ficaria muito monótono e muito certinho. O bom da vida são as diferenças. Defendo até a morte o direito de cada um ter seu gosto. E esta história de cada um com seu gosto me deu pano pra manga. E eu falo mesmo... Ou melhor, escrevo, assim não corro o risco de ser interrompida, coisa que detesto.

Uma conhecida minha estava de malas prontas para Paris, em férias. Então como já estive lá, dei uns pontos obrigatórios para que visitasse. E o primeiro foi o Louvre. Falei de algumas obras de arte e blábláblá, o que não modificou em nada. Logo notei que estava falando para as paredes; mas enfim disse-lhe que não deixasse de ver Mona Lisa, a obra mais conhecida de todos os tempos. A popularização máxima, em escala mundial, de uma obra de arte.

Que a criatura não manjava nada de artes, eu já sabia. Mas até aí tudo normal, não podemos dominar todas as áreas, e foi por isso que indiquei. Um mundo tão lindo e a moçoila não conhece nadinha... Compra quadros pelas cores; acredito que chegará um dia que comprará pelo cheiro. Não é nada interessada em obras, pintores coisa e tal. Um tiquinho de conhecimento já estaria bom. Mas achei ótimo quando me disse que já tinha visto a tal Mona Lisa em revistas.

Bem, ela foi à Paris, passeou, comeu do bom e do melhor, tomou ótimos vinhos e fez aquelas compras de turistas.

Voltou e me telefonou para contar as novidades. E perguntei se tinha gostado do Louvre, e quais as obras que tinha visto. E, em especial, o que achou da Mona Lisa.

- Mona Lisa?? Virgem... Não sei como tem gente que fica louca por aquele 3 x 4!!
- Cumequié?
- É... Cheguei lá à procura de um enorme quadro, à altura da fama, e não encontrava. Então fui onde estava um bolinho de gente e lá estava ela, bem menor do que eu imaginava! E muito gordinha ela... Fofa.
- Péra... Gordinha, fofa? Quem gordinha?
- A Mona Lisa, Tais!
- Ahhhh?! A Mona Lisa, gordinha... Sim, agora entendi! Mas você queria que Da Vinci, tivesse pintado a Gisele Bündchen? Olha, naquela época... É, talvez teria sido um sucesso, lá por 1503, uma magrona posando com aquele sorriso misterioso e sereno... Virgem Maria.

E falei mais umas besteiras e mandei um beijinho pra mimosa. Aquele 3x4 e a obesidade da Mona Lisa me desnorteou um pouco... Depois disso, o papo morreu; MORREU! Custei, mas aprendi a não contestar; sem estresse! Cada um na sua.

Postei no meu outro blog - o
Das Artes - um pouquinho da história da Mona Lisa. Algumas curiosidades, mas realmente sobre sua altura e peso nada sei...


26.8.10

GERAÇÕES / Luiz Coronel



Pai, vem comigo à praia,
ajuda a prancha levar.
Estou de pé sobre as ondas,
domando as ondas do mar.

Pai, me leva ao Snake.
Em declives de cimento
eu mergulho e venho à tona
bem mais rápido que o vento.

Pai, pega carona na moto
e sente o aroma da vida.
Livre, qual potro ou fera
entre estradas e avenidas.

Pai, vem comigo à montanha,
do topo da claridade
eu me atiro de asa-delta,
voando sobre a cidade.

Pai, se te sentires cansado
de tão pesada excursão
eu te carrego nos braços
enquanto beijo tuas mãos.




15.8.10

COMPORTAMENTO EM RESTAURANTES...



- tais luso de carvalho


Hoje, poucas são as mulheres que querem cozinhar: em cada bairro existem dezenas de restaurantes, para todos os bolsos e para todos os gostos. E comida muito variada.

Estamos na era dos restaurantes a quilo: grandes mesas com frutas, verduras, grelhados, feijão, farofinha, bolinhos e pratos típicos internacionais. Que maravilha.

O curioso de observar nestes restaurantes é a clientela: que coisa mais esdrúxula! Vejo pessoas com pratos que mais parecem umas bacias; eu não consigo disfarçar; é uma mistureba, nada senta com nada. A impressão que dá é uma travessia do deserto Saara. Cutuco meu marido: olha... olha aliiiii que medonho!!!

Mas hoje foi o máximo: o troglodita da mesa ao lado, estacionou de bacia: dois ovos fritos, massa, dois bifes, bolinho de aipim, cenoura, vagem, cebola, melancia, laranja e rúcula. E pediu água (pra não engordar). E não levou muito para ir pegar um balde de paelha que não coube na primeira rodada... Putz... Eu não conseguia parar de olhar por mais força que fizesse. O Pedro Luso me cutucava e dizia pára de olhar, tá feio!

Num restaurante é onde se vê, um pouco, o grau de civilização das pessoas; é onde se vê quem é quem. É um festival de gula, misturado com carência e falta de educação. A impressão que tenho é que não comem há muito tempo. Ou será a última refeição de suas vidas?

Também vejo gente de regime: tudo que é tipo de verdura num prato que mais parece um condomínio de 3 andares. Por menos crítica que eu queira ser, não dá. Também não vou calar diante de absurdos e, se as circunstâncias me trazem certas coisas, então vamos lá!

Não sou uma pessoa desligada. Sou ligadíssima, e como tal, pouca coisa me escapa. Claro, muitas vezes observo e fico quieta, mas chego em casa e solto a franga! Será defeito ou qualidade? Tanto faz, não dá pra alterar. Está no meu DNA.

Estas coisas acontecem, também, em churrascarias: estou saboreando minha picanha, numa boa, jogando conversa fora, e de repente me aparece a fila de garçons com maminha, alcatra, corações de galinha, salsichão, costela, linguiça, lombinho... Sinto que vou enlouquecer, mastigo a mil! Até hoje não entendo o porquê de tanta pressa em colocar montanhas de carne no nosso prato.

Bem, mas aí a loucura está na churrascaria: é o tal do espeto corrido. Esse tipo de churrascaria é muito comum aqui no Rio Grande do Sul – servem vários tipos de carne ao mesmo tempo. É a churrascaria certa para quem tem uma fome desmedida: é a fome com a vontade de comer. Aí tá no lugar certo. Você não desfila de bacia na mão: a comida vai até você!!
Cruz-credo.

8.8.10

PAPO EM ELEVADOR...



- tais luso de carvalho


Há mais de 40 anos que não tínhamos aqui no sul um inverno tão frio, com dias tão melancólicos. Confesso que sempre adorei inverno. Mas mudei de idéia. É neste inverno, com dias gelados, chuvosos e nublados que descobri, pela primeira vez, que não gosto de inverno. O que havia aqui, para mim, era uma meia-estação. Um inverno desmoralizado... Com dias de bastante sol e luz. E com uma temperatura suportável.

Não faz muito que meu sonho era morar na Serra, em Gramado ou Canela, belas cidades serranas. Passei bons anos de minha vida com esta idéia, com este desejo, e enchendo o saco da família. Não dei trégua, mas também não convenci ninguém. Achava que morar numa cidade pequena, na Serra Gaúcha, teríamos uma qualidade de vida excelente.

Hoje, com o passar dos anos, e com este frio que está fazendo, vejo que me daria mal... O frio é muito desagradável, nos deixa engavetados e sem ação. Quem gosta de frio é turista que vai embora no terceiro dia... Ficam lá na lareira do hotel, com o vinho e fondue, com a chuva, a neve e o frio. Tudo é festa, tudo é novidade.

Mas, com o passar do tempo o frio vai nos detonando, e pedimos a Deus que mande um calorzinho... E quando vem o calor, o insuportável calor, também ficamos desatinados. Até a natureza nos mostra o quanto é difícil o meio-termo, o equilíbrio.

Então, lembrei das conversas que escuto há anos nos elevadores dos prédios residenciais aqui no sul do país:

NO INVERNO...

- Oi!!! Bah, guria, mas que coisa de louco esse frio, heim?!
- Pois é, to louca que chegue o calorzinho pra pegar uma praia...
- Há 40 anos não faz frio assim, criatura!
- Pois é! A gente não sai de casa, né?
- É... Mas vem mais frio por aí, te prepara...
- Nossa, que horror! Vou comprar pinhão e fazer quentão.
- E eu to indo comprar umas pantufas de pele...
-Tchau!

NO VERÃO...

- Oi! Mas que calor, heim?! Bah, isso até parece o Rio de Janeiro!
- É coisa pra louco, tomara que venha o inverno!
- Pois é, faz anos que não temos este baita calor...
- Minha pressão desce. Eu desmaio. Minha mãe já era assim...
- Nossa, guria, que horror! Então te cuida, heim!!
- É horrível! Não sei mais onde me enfiar...
- Eu vou pra praia, pelo menos lá tem aquele nosso ventinho e durmo de cobertor...

Tchauzinho...

Não existe quem não conheça este papo, morando num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza...

31.7.10

RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE


- tais luso de carvalho

Há muito que queria escrever sobre a relação médico-paciente. Sinto-me muito à vontade, uma vez que meus antecedentes (três gerações) eram médicos. Então, sem melindre e sem ofensas aos médicos íntegros e sensíveis, aos médicos com um perfil humanitário e aos médicos que podem servir de exemplo à classe. Quero falar de outro tipo de médico.

Bem, existem médicos que não gostam de ficar respondendo perguntas e dúvidas dos pacientes; não lidam bem com a situação de serem questionados. Por isso e mais um pouco, é que vamos aos consultórios médicos munidos de um arsenal de informações, principalmente obtidas nos sites médicos da Internet. Em geral, os médicos não aceitam intromissão de quem não é médico, acham que não deveríamos questionar: seguir o tratamento dado e pronto. Mas peraí! Não é bem assim que as coisas têm de funcionar! Olhem que século estamos...

Tenho dificuldade em aceitar certas coisas quando eu sou a paciente. Falo, apenas, do atendimento humano, e não do avanço tecnológico da medicina e da excelente técnica e conhecimento de nossos médicos. Falo de uma coisa a mais: daquele quê que poucos têm.

Técnica é o que não falta, embora existam umas criaturas (como em todas as profissões), que saem da faculdade de salto alto; aquela coisa no gogó; aquela característica que marcam certas pessoas: a vaidade! É o zero à esquerda em qualquer profissional que queira ser reconhecido pela sua capacidade técnica e pelas suas virtudes, como um ser especial.

Já acostumamos com os especialistas específicos e objetivos. É difícil de encontrar um médico que esteja disposto a nos ouvir, como pessoas que estão numa enrascada, e muitas vezes com o espírito em frangalhos. Tratam as doenças; mas esquecem dos pacientes angustiados e frágeis diante do desconhecido. Tratam da tuberculose e não do tuberculoso; tratam da hipertensão e não do hipertenso.

Falo como leiga e como paciente. O paciente precisa ser olhado do ponto de vista físico, psicológico e social. Suas emoções precisam ser levadas em consideração no momento da consulta. Mas alguns médicos ficam impacientes com muitas perguntas; não se deram conta que o paciente ajudará mais em sua cura se sair da ignorância; se forem ouvidos. Por isso tanta gente tentando pesquisar na Internet, entrando em sites de medicina. E no fim se dão mal, pois acham coisas que muitas vezes nada têm a ver com o seu caso. Mas enfim... Não há alternativa.

Não gosto desse processo desumanizador em que a medicina mergulhou. Tudo é máquina; só os exames darão a resposta. Conheci um médico que disse ao seu paciente - por telefone - que o resultado de seu exame era ruim (especificou o diagnóstico), e que o esperaria em seu consultório para começar o tratamento. Eu presenciei a reação deste paciente!! Este paciente era o meu pai, e não foi tratado com o zelo que deveria ser tratado numa hora tão difícil. Não tem perdão para médicos que venham a agir sem humanidade, seja pela rede pública, seja por qualquer convênio ou mesmo particular.

E, também, não vejo com bons olhos certos profissionais que se atrevem a dar um tempo de vida a um paciente. Segundo um trabalho publicado no ‘British Medical Journal’, 85% desta previsão dá errado. Para que servirá esta maldita previsão? Para deixar tudo arrumadinho? Tenho como exemplo o pai de um amigo da família, que aos 44 anos recebeu o conselho do seu médico cardiologista para que arrumasse sua vida e documentos, pois não viveria mais que seis meses; seguiu os conselhos, mas só morreu quarenta anos depois. E de enfisema pulmonar.

Empatia e confiança entre médico e paciente são fundamentais. E quando não há, está mais do que no momento de trocar de profissional. Esperar e tentar para ver se as coisas tomam outro rumo é perder tempo, é dar asas à doença. Mas a escolha é nossa.
Depois, restam apenas lágrimas e um médico ausente...

25.7.10

O HOMEM SUPRIMIDO / CESAR CRUZ



Tenho muita satisfação em trazer para o Porto das Crônicas o primeiro livro do nosso amigo Cesar Cruz, patrono do blog Os Causos do Cruz, que muitos de vocês conhecem.

Recebemos, Pedro Luso e eu, o livro O Homem Suprimido, com uma carinhosa dedicatória do nosso amigo, blogueiro e companheiro de letras.

A Internet tem destas coisas, nos apresenta pessoas que jamais imaginaríamos encontrar e manter contato. E através da blogosfera, podemos encontrar gente boa, gente amiga e talentosa.

Cesar Cruz nasceu em São Paulo em 1970, cursou administração de Empresas e atualmente estuda Letras. Escreve contos e crônicas em jornais, revistas e antologias de novos escritores. Escreve, para o Jornal do Cambuci, jornal com 60 mil tiragens por semana. Seis de suas crônicas foram ao ar pela rádio CBN-FM. Um desses textos integra uma antologia organizada pelo jornalista Milton Jung – Editora Globo 2006.

Li o livro e gostei imensamente. Cesar tem um espírito peculiar para contar seus causos . O Homem Suprimido é composto de 16 contos. São narrativas diversas, de cunho psicológico, pessoas com seus defeitos, suas virtudes e suas loucuras; pessoas que todos nós temos por perto. E que convivemos, enfim. Ou, quem sabe lá, não nos encontramos num de seus contos?

Dentre os 16 contos, o A Sua Imprevisível Chegada narra a história de Jorge, um brasileiro, cheio de sonhos para si e sua família, que é atingido por uma bala perdida; estas coisas que vemos todos os dias e que jamais iremos nos acostumar. Neste conto Cesar nos transporta para um realismo dramático e cruel de tal situação. Narra a angústia da própria vítima.

O conto Tapioca mostra a realidade, a crueldade, o desinteresse do ser humano. Uma história triste, realista e solitária do ser humano no seu leito de morte. Enfim a nossa despedida e a nossa última visão de quem realmente somos. E sem sutilezas...

Transcrevo aqui um pequeno trecho do conto Tapioca - e que comove:

(...) Um pai conhece uma filha. Não insistiu mais. Já bastava a ele tanta humilhação: as escaras nas costas e nas nádegas, as trocas de fraldas, o corpo macerado, os médicos que mal conseguiam dissimular sua constante impaciência, as enfermeiras que o viravam e reviravam como quem movimenta caixas num estoque, as filhas e os genros que fingiam interesse, mas faziam visitas rápidas, sempre cheias de olhos nos relógios. Estavam todos esperando, quase torcendo por sua morte, para se verem livres daquela obrigação desagradável. Ele sabia disso. Liberado o leito 386, graças a Deus! Liberada a venda de imóveis, aleluia! Liberados das visitas ao velho, arre!

Enquanto lia outros de seus contos 'O Homem Suprimido' e 'Guarda-Chuvas' me perguntava como Cesar pode imaginar isso! Mas deixo para que vocês um dia perguntem... Enquanto os lia, pensava em Salvador Dali com todo o seu surrealismo.

Os contos como as crônicas de Cesar são objetivos, sem muitos adjetivos e rebuscamentos, o que tornam seus textos interessantes e nada cansativos.

No blog Os Causos do Cruz, vocês terão como pedir o livro pela Internet.
Parabéns Cesar, e sucesso!



18.7.10

FELICIDADE



- Tais Luso de Carvalho


'A felicidade é o melhor remédio contra as doenças cardíacas’. A afirmação foi feita numa palestra dada pelo conhecido médico e cirurgião cardiovascular de Porto Alegre, Fernando Lucchese, focalizando o ‘estilo de vida das pessoas’.

Conheço o Dr. Fernando Lucchese: é um daqueles médicos que gostaríamos de ter em cada especialidade que precisássemos: o médico humano, o amigo.

Tenho vários de seus livros, e lembro que ao levar minha mãe ao seu consultório, vi no semblante dela (após a morte de meu pai) um carinho agradecido pelas palavras desse médico. Um agradecimento pelo seu interesse. Saímos fortalecidas e com confiança; esse é o legítimo medico-amigo que falarei numa crônica mais adiante, onde falo da relação médico-paciente, que hoje fica muito a desejar.

Segundo Lucchese, as doenças estão mais associadas com o estilo de vida que se leva do que com o controle dos resultados dos exames. De que adianta ter o índice de colesterol adequado se estás infeliz? - indagou Lucchese.

‘A lógica é esta: estilo de vida = saúde = felicidade = longevidade. O mais importante é o estilo de vida que levamos, seguido do meio ambiente, genética e assistência médica’.

E continua:

‘Fazer o que se gosta é mais essencial do que vários exames. Também a qualidade de vida está associada a outros fatores, como a relação com a família e a situação financeira. Um sorriso é mais importante que a beleza; indivíduos que sabem rir de suas fragilidades têm vida mais longa e são mais felizes; ter prazer no trabalho é felicidade certa; não dever dinheiro é felicidade pura; e pessoas espiritualizadas vivem mais felizes por mais tempo.

Nos Estados Unidos foi apresentado um levantamento entre os anos de 1940 e 2000. Foi feita uma relação entre o nível de felicidade das pessoas em relação ao aumento de renda financeira familiar. A pesquisa mostrou que ninguém ficou mais feliz apesar de ter ficado mais rico. Uma situação financeira organizada pode deixar as pessoas mais felizes do que aquelas com excesso de dinheiro e que, em alguns casos, pode trazer mais problemas do que soluções’.

Não tenho dúvida que o médico Lucchese está com a razão. Quantas vezes pensamos que nossa meta de felicidade possa estar numa casa na praia, noutra na serra, no carro do ano ou em várias viagens pelo mundo? Mas ao retornarmos das viagens ou termos adquirido esses bens, vamos ver que estamos com os mesmos problemas, com mais dívidas e menos dinheiro... E que nosso interior em nada mudou. Viajar é delicioso, mas não é passaporte para felicidade.

Penso que ser feliz é encontrar nas pequenas coisas a razão de viver; é conseguir viver sem raiva, sem mágoas, sem doenças. Não possuir tais sentimentos é difícil; estamos cercados por pessoas de todos os tipos: pessoas invejosas, mesquinhas, sem caráter... E se equilibrar nesse meio doentio não é fácil. Fácil é absorvermos as impurezas do meio e ficarmos transtornados, sem eira nem beira.

Ser feliz é encontrar a pessoa certa para viver ao nosso lado; é poder ter nosso animalzinho de estimação sem ninguém encher o saco colocando defeito em tudo o que fazemos; é não se meter nas escolhas dos outros; é poder dormir as horas que nosso organismo pede; é encontrar alguém que participe e troque conosco momentos de alegrias e tristezas, e ter a certeza que somos amados pelo que somos..

Seria mais fácil sermos felizes se viéssemos ao mundo já sabendo que um dia tudo acaba; e que daqui nada levaremos, senão o amor que vivemos.
Mas nem isso a gente se dá conta...


12.7.10

MINHA DESGRAÇA

- Poema de Álvares de Azevedo / 1831-1852 -

Minha desgraça, não, não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco,
E meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco...
---
Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro...
Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro...
---
Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que o meu peito assim blasfema,
É ter para escrever todo um poema,
E não ter um vintém para uma vela.
---

Coletânea / Clássicos da Poesia Brasileira
Seleção organizada por Frederico Barbosa


5.7.10

OUTRA VIDA ? SIM, MAS SEM PRESSA...


- Tais Luso de Carvalho

Ele resolveu criar o Universo: criou o céu, a terra e os demais sistemas. Criou a grande estrela com luz própria; o sol. E longe do sol candente, criou uma lua branca e fria, porém, misteriosa e romântica.

Criou, também, o mar, os peixes e os pássaros. Mas até aí tudo perfeito e harmonioso. A tragédia começou quando Ele resolveu ser mais generoso e criar algo que fosse à Sua imagem e semelhança; e criou o homem, presenteando o mundo com Adão e Eva.

Após esta magnífica inspiração, cá estamos nós, supostamente descendentes do tal do casal e, de tão agradecidos que ficamos, não deixamos por menos: crucificamos o Homem - o Criador da espécie.

Porém, nada adiantou tal atrocidade de nossa parte ou sacrifício da parte D’Ele, pois, séculos se passaram e aqui estamos cada vez piores, mais loucos do que nunca. Mas algo de especial ficou para dar continuidade à obra do Criador: foram surgindo mais Pedros, mais Marias, Teresas, Paulos... Enfim, todos os santos com os seus devidos nomes. Todos empenhados em exaltar o nome do Senhor.

Mas existem certas criaturas que são extremamente chatas. Deixam uma impressão de que o mundo vai acabar amanhã, tamanha insistência em catequizarem. Penso que temos esclarecimento, suficiente, para sentirmos o que é bom pra nós. Não importa o caminho, o que importa é a fé.

Vejo muito fanatismo, intolerância e intromissão na vida das pessoas que talvez nem tenham pensado em seguir essa ou aquela religião ou seita. Parece uma lavagem cerebral. Concordo com uma doutrinação, mas quando a criatura pede, procura.

Dias atrás, presenciei duas amigas conversando sobre religião: caí fora. A conversa começou com o Antigo Testamento, passou pelas Profecias Apocalípticas, abordaram temas como a morte, catástrofes, doenças e castigos divinos com tanta naturalidade que fiquei em depressão!

Não sou amarga nem descrente, mas não quero saber de Doutrinas, Testamentos, das Profecias de Isaias ou mesmo intimidades com o Armagedon. Quando chegar o Apocalipse (flagelo terrível), veremos. Ou melhor, acho que nem veremos!

As pessoas precisam falar é de vida e de seus projetos; precisam rir, amar, brincar e comer. Comer comida. De pesado chega o Congresso lá de Brasília que temos de carregar nas costas...

A coisa já está muito enfadonha; a luta pela sobrevivência já é um calvário e ter de ouvir sobre castigos divinos, pecados, inferno, revelações terríveis sobre o destino da humanidade não é mole. Acho que chega: se alguém tiver de rezar terá de ser por um prato de arroz com feijão, carne e um monte de batatas fritas. E se ainda der, uns dois ovos estrelados. O resto, Deus pode dar uma mãozinha de onde estiver. E vamos levando...

Minhas santas amigas (os), dêem liberdade para as criaturas escolherem seu caminho! Qualquer religião que se proponha a fazer o bem, que estiver cumprindo seu papel de espalhar felicidade, dando conforto e paz, está mais do que ótimo, pois a verdade é que não sabemos realmente de nada. Porém, depois desta vida, espero que exista algo de maravilhoso pra todos nós – mas sem muita pressa: prefiro ir ficando por aqui mesmo...


28.6.10

LIVROS DE AUTO-AJUDA


- Tais Luso de Carvalho


Tenho na agenda doméstica os telefones do eletricista, do encanador, pintor, médicos, dentistas... E o do colocador de papel de parede, o Adão. Muito bom colocador, mas quase me mata: não fala, não sorri, não escuta e não olha quando fala conosco. Seu olhar fica zanzando no espaço.

Meu marido diz que o coitado é tri de tímido; eu acho que ele é tri de doido. Mas são duas opiniões, e aqui em casa o negócio é democrático: então o doido e o tímido - dois em um - continua trabalhando por aqui, porque seu trabalho é nota 10.

Com este caso do Adão e sua personalidade sui generis , lembrei que há muitos anos andei lendo uns livros de auto-ajuda, estava na moda: fiquei fascinada com os assuntos: Como ficar rico sem fazer força; Como fazer centenas de amigos; Como ser a pessoa mais agradável do mundo; Como lidar com mentirosos; Como lidar com pessoas depressivas; Como curar sua timidez... E li alguns. Um deles até gostei: Como fazer amigos e influenciar pessoas, de Dale Carnegie.

Mas adorei o que aconteceu comigo: absolutamente nada! Continuei a mesma pessoa que sou hoje. Não aprendi a lidar com mentirosos e nem com depressivos; não aprendi a engolir presunçosos; não consegui fazer centenas de amigos e nem me tornei a pessoa mais agradável do mundo... E também não fiquei rica. Comigo tudo deu errado, o negócio não funcionou. Pelo contrário, acho que fiquei um tanto rebelde diante de certas coisas, e até hoje solto a língua...

Hoje, já bem mais madura, não teria saco nem curiosidade para ler um livro de auto-ajuda. E lá se foram bons anos de minha vida querendo mudar coisinhas num vapt-vupt. Não dá mais pra desfazer o que foi lido... Já prescreveu!

Ninguém muda de uma hora para outra folhando um livro desses: muda-se quando se tem a conscientização do problema e a vontade de mudar. Em certos casos podemos mudar com alguma ajuda química (se for o caso de depressivos, etc.) e uma terapia com profissional confiável.
.
Nossa carga genética já vem pronta; porém, nossa trajetória, nosso amadurecimento, nossas experiências, o meio em que vivemos e com quem vivemos é que poderão alterar alguma coisa em nosso comportamento. Mas tem coisas que não mudamos: quem tem um coração piedoso sempre o terá; quem tem um ótimo caráter sempre o terá; e quem é cafajeste, sempre será. E com a idade pioram, pois os cafajestes também envelhecem, ficam uns velhinhos tão coitadinhos né?! Aparecem uns por aí que dá vontade de mandar para o espaço...

Bem, mas voltando aos livros de auto-ajuda, ganhar dinheiro fácil é um engodo; lidar com pessoas falsas ou de difícil relacionamento é pegar sarna pra se coçar; depressão, timidez, bipolaridade são problemas para especialistas. Então não adiantam estas lindas mensagens por Internet ou livros que prometem uma vida melhor e tentam nos mostrar um campo fértil para ser feliz.
Para certas situações de estresse contínuo, o negócio é se mandar antes que você tenha um AVC! Por que depois disso, amigo, o negócio muda completamente. Foi-se sua vida: você fica todo torto e a vida continua linda e bela – para os outros.

Pena que a gente leva a metade da vida para aprender que a felicidade está em nós, e não nos outros; pena que nos metemos na vida das pessoas sem elas pedirem, com a desculpa de ajudarmos, quando na verdade, queremos que o outro seja nossa imagem e semelhança.

No fundo, não temos nada de coelhinhos ou de beija-flores... Temos sim, unhas afiadas, uma língua comprida - boa pra fofoca -, uns olhos que vêem o que não acontece; uns orelhões que escutam o que nunca foi dito; um coração petrificado em relação aos outros; e uma idéia já formada para atingir nossas metas. Adiantam os auto-ajudas?

Enfim, somos o lobo-mau, mas com pele de cordeiro, com a intenção de enganar o chapeuzinho vermelho.

Mudar é suar a camiseta a vida inteira: suor e lágrimas!!


22.6.10

A PARANÓIA DA IDADE



- tais luso de carvalho


Irrito-me com grossura. Não sei por que certas revistas colocam a idade de seus entrevistados. Fica um texto chulo. O que tem a ver a idade da criatura se não se trata de uma biografia, RG, CPF, título eleitoral, exames de laboratórios... Para que servirá? Para nada: apenas para fofoca. Ficamos parecidos com o vale quanto pesa.

Respeitar a privacidade dos outros é coisa do passado. A curiosidade, a insistência, a obsessão por algo particular, incomoda.

Parece que somos uma mercadoria: após o nome, vem a idade! Ao entrarmos nos 50 anos, nós, pobres mortais, sentimos um pouco de desconforto; é como se todo nosso potencial físico tivesse atingido o limite. Para uns, estamos bem conservados; para outros, despencando. Se estamos magros, estamos doentes; se estamos gordos, estamos com problemas emocionais. Ou na menopausa.

Como devemos estar aos 50, 60, 80 anos? Adolescentes? Cocotas?
Envelhecer, hoje, é um ato de bravura, é como ir para guerra e sobreviver, apesar dos percalços... Tornou-se um suplício, uma via-crucis para muitos.

O prático e gostoso é colocar frustrações e problemas em cima da carcaça alheia. Diante destas pessoas todos estamos uns cacos, babando.

Sobre idade, já escutei muitas pessoas dizerem a outras: ASSUMA!! Mas assumir o quê? Pra quem? Não temos nada pra assumir; não devemos satisfações a ninguém, salvo em certos casos que citei acima.

Vejam só como certas coisas irritam: quando se chega lá pelos 75 anos, muitos começam a ouvir tolices: que estão ficando gagás. Mas quando se chega perto dos 90 ou 100 anos aí o quadro é outro: como o fulano está lúcido, bem disposto...


Pô, eu não entendo isto, francamente.

Ouço pelos cantos deste Brasil que o arquiteto Niemayer - com mais de 100 anos - está ótimo, trabalhando; que a falecida Dercy Gonçalves - com 100 anos - tinha o vigor de uma criança; que Seu Mauricio, com 90 aninhos, está com todo o gás, acabou de fazer um filho com uma garota de 25!

PORÉM...
As fulanas, de 50 ou 60 anos, estão A-CA-BA-DAS.
Dá pra entender?

Então, o que acontece, é que nós, mulheres, estamos em franca transformação: estamos virando peruas de vanguarda! E os homens, em malhados rinocerontes. Não estamos num palco, ninguém nos olha tanto quanto imaginamos. Ninguém é o centro das atenções. Somos apenas uma partícula viva do Universo. E meio que perdidos na nossa essência. Voando por aí...

Podemos ser grandes, como podemos ser nada. E diante de tudo isso, de todo o mistério que nos rodeia, é pequeno demais nos preocuparmos com idade que não é nada mais do que fases da vida. Ser velho não é vergonha. São os únicos que poderão dizer: missão cumprida, vivemos plenamente.

É muita intromissão essa história de idade. E, como se não bastasse, após a perguntinha cretina, ainda dizem que a setentona tá uma gata! Também não vamos pro exagero...

Capacidade, conhecimento, amizade, amor e beleza encontramos nas pessoas, não em números.



18.6.10

JOSÉ SARAMAGO, NOSSO ADEUS!


-Tais Luso
Um triste adeus!
Perdemos hoje, nesta sexta feira 18 de junho de 2010, um escritor excepcional, José Saramago, romancista, prêmio Nobel de 1998, nasceu no ano de 1922 na província de Ribatejo. Todos perderam um intelectual que honrou Portugal e o mundo das letras.

Casado desde 1988 com uma jornalista de Sevilha, Pilar Del Rio, trinta anos mais jovem, o grande amor de sua vida.

Nos últimos anos Saramago teve muitos problemas de saúde, sobretudo respiratórios, o que o levou a constantes internações. Segundo uma nota emitida, o escritor teve uma morte tranquila e serena, se despedindo de entes mais próximos.

Foi condecorado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1998, e é autor de renomados romances como O evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes, Memorial do Convento, A viagem do elefante, A Caverna, entre outros.
A mais recente publicação do escritor foi Caim: neste livro, José Saramago, retorna aos primeiros livros da Bíblia, indo do Éden ao dilúvio, contando com humor o Antigo Testamento, o qual marcaram sua obra.

UM POUCO DA VIDA DE SARAMAGO

Filho e neto de camponeses sem terra, Saramago fez estudos secundários que, por dificuldades econômicas, não pôde prosseguir. Seu primeiro trabalho (emprego) foi como serralheiro mecânico, tendo exercido depois diversas outras profissões: desenhista, funcionário da saúde e da previdência social, tradutor, editor e jornalista.

Publicou o seu primeiro livro, um romance (Terra do Pecado), em 1947, tendo ficado, depois, longo tempo sem publicar, até 1966.
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Trabalhou durante doze anos numa editora, onde exerceu funções de direção literária e de produção. Colaborou como crítico literário na revista Seara Nova.
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Em 1972 e 1973 fez parte da redação do jornal Diário de Lisboa, onde foi comentador político, tendo também coordenado, durante cerca de um ano, o suplemento cultural daquele vespertino.
Pertenceu à primeira direção da Associação Portuguesa de Escritores e foi, desde 1985 a 1994, presidente da Assembléia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores.

Entre Abril e Novembro de 1975 foi diretor-adjunto do jornal Diário de Notícias.

A partir de 1976 passou a viver exclusivamente do seu trabalho literário, primeiro como tradutor, depois como autor.

Em Fevereiro de 1993 passou a dividir o seu tempo entre a sua residência habitual em Lisboa e a ilha de Lanzarote, no arquipélago de Canárias (Espanha).
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13.6.10

COM O PÉ NA COVA...


- Tais Luso de Carvalho


Como falta pouco para entrarmos no inverno, fui receber a vacina da gripe comum , essa, que a gente pega até por telefone. A gripe H1N1 já tá no papo. Só falta receber a da raiva. Esta, todos os brasileiros precisariam, pois muitas vezes, conforme os ventos por aqui, chegamos a espumar...

Mas voltando ao dia em que me vacinei, uma fila enorme se formou ao longo da tarde. Muitos velhinhos impacientes, todos já meio cansados. A fila era para a H1N1 e para a gripe comum; tudo por conta do Estado. Maravilha! Não podemos nos queixar, este é um serviço de saúde que funciona, nota 10.

O curioso, nestas filas, é que se ouve de tudo e as pessoas ficam íntimas quando o assunto é doença, tragédias, assassinatos e futebol. Cada um tem um caso pra contar. Lembro que não estava me sentindo muito confortável: a velhinha ao meu lado estava com medo porque sua vizinha tinha contraído a H1N1. PÔ!!! Que azar... Fiquei nervosa e já comecei a me coçar.

De repente, um cidadão brasileiro, com mais de 85 anos, perdeu a paciência ao se dar conta que tinha esquecido sua carteira de identidade quando lhe pediram para comprovar sua idade. E deu rebuliço, formou-se uma panelinha, todos defendendo o velhinho, que já estava cansado.

Ele olhou pra mim - que estava na fila ao lado da dele - e disse:

- Mas pra que carteira de identidade? Ainda não deu pra ver que já estou com o PÉ NA COVA?
- É mesmo, que bobagem... PRA QUÊ ?! - disse-lhe eu.

Putz! As companheiras arregalaram os olhos! E bota constrangimento nisso. É o que dá quando a gente fala sem pensar: eu não precisava concordar com aquela sua visão de finitude. E, também não sei por que soltou a frase olhando pra mim que - por isso - me senti meio nas obrigadas de dizer alguma coisa. E saiu bobagem.

Ao chegar a minha vez de receber a vacina para gripe comum, na sala ao lado da H1N1 - acho que como castigo divino -, me aplicaram a injeção acima do músculo, perto do ombro. Mas não reclamei, quis me redimir: às vezes o silêncio se faz necessário. Mas vi estrelas com aquela agulha no osso...

Contei para os meus filhos e eles disseram quase que em coro: PÔ, MÃE, MAS QUE BOCÃO!!

7.6.10

FALAR DE AMOR NUNCA É DEMAIS


- tais luso de carvalho


Hoje estou a fim de falar de uma amiga: falar de sua posição corajosa diante da vida. Ela segue a doutrina espírita. Perdeu marido, mãe e filho em dois anos. E é incrível sua força, sua calma, seu equilíbrio. O ser humano, quando bastante espiritualizado, aceita a vida e vive sem lamentos. Diria que esta minha amiga consegue monitorar seus pensamentos, seus sentimentos e suas atitudes.

Ouvi dela que, se seus pais, marido e filho (já falecidos), pudessem retornar à vida, certamente o convívio seria diferente. E eu também estou, há muito, pensando nisso.

Quando perdemos alguém próximo, e que por atitudes neuróticas, por vaidades ou por orgulho passamos a vida às turras, nada mais a fazer do que sentir uma grande dor por não termos modificado a situação ainda em vida.

Então por que - com eles já mortos - pensamos que o convívio seria diferente? Por que nossas atitudes no passado tomam outra dimensão agora? Por que será que nossa mente se fecha enquanto estamos todos ainda vivos?

Então perguntei à minha amiga o porquê de tantas lembranças? Ou rezar pra modificar o quê? Pro falecido ficar numa boa, num suposto paraíso?

Qualquer resposta se torna difícil; a maioria acredita na força da fé. Acreditam porque é um dogma da igreja, e dogma é um ponto indiscutível: ou se crê ou não se crê. Respeito todas as religiões, mesmo porque o ser humano precisa acreditar em algo para dar sentido à sua vida senão fica difícil de carregar a tal cruz.

O papo com a minha amiga foi tomando rumos diferentes, foi entrando para o caminho da saudade, das lembranças, das supostas culpas.

Quem disse que a vida seria um paraíso? É difícil alguém conviver com o diferente do outro. Em vida é aquela neurose coletiva; ninguém se dá com ninguém. Porém, as criaturas morrem, e então tentamos por todos os meios uma comunicação através de orações, visões, cartas psicografadas... Interessante como procuramos algum sinal, algum paradeiro de seus espíritos. É a tal coisa: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...

Mas, contudo, dá para concluir algo de suma importância: precisamos cuidar de nossas futuras emoções, fazendo certas coisas ainda em vida. Certas manifestações que preencham as lacunas de nossas carências afetivas. E afetos a gente lapida. Mas ainda em vida.

Eu gostaria de ter dito e ouvido de meus pais - antes deles perderem a lucidez e partirem – o tanto que fui amada e que os amei! Disse em pensamento, com nossas mãos entrelaçadas, mas eu gostaria que fossem as últimas palavras a serem trocadas por nós... Mas demoramos um pouco, além da hora: eu deveria ter percebido que falar de amor nunca é demais: é a maior dádiva... Mas ainda em vida!

E minha amiga concordou: descobrir a hora certa depende do nosso grau de humildade e da nossa grandeza. Depois fica apenas o nada.

29.5.10

OS MORADORES DE RUA

- Tais Luso


Estes desprovidos de sorte, filhos de uma vida desgraçada, passam o dia caminhando, comendo as sobras e o podre dos outros. É dureza caminhar tanto, suplicar tanto para no fim do dia conseguirem comer lixo. Ou outra porcaria qualquer. E os responsáveis por isso, por este lindo quadro patriótico, passam sem olhar. Não interessa olhar para desgraça. Todos querem ver uma cidade bonita, limpa, arborizada e florida; quanto mais florida, melhor! Esconde o horror.

O que mais se vê pelas esquinas dos países em desenvolvimento, é gente dormindo pelos cantos, enfiados em buracos ou em caixas de papelão, num canto debaixo de qualquer coisa que se pareça com teto. Vivem como ratos; mas são os moradores de rua: um dia aqui, outro ali... Caminham e procuram por um canto até terem a certeza do sossego. E contam com a sorte de não serem importunados por gente sem piedade.

E nós, os mais sortudos, damos de cara com este mundo cão, um mundo que saltou da condição de pobreza, para a indigência, porém, muitas vezes ainda botamos banca, achando que ver isso é desagradável. Desagradável é pouco: é desumano tanto descaso. Mas a solução não está em nossas mãos: o brasileiro trabalha meio ano para pagar imposto e o que vemos é isto. De nada adianta a população sair a distribuir uns trocados; isto nós fazemos. E não soluciona, nem minimiza o problema.

Pelas ruas, mãos humilhadas se estendem; nos tocam e suplicam. Já conhecem o que é desprezo, o que é fome, o que é sede, o que é martírio. Conhecem um lado da vida que nós não conhecemos. Banheiros e chuveiros não existem para os moradores de rua... E como é que fica? Algum político já deu alguma solução? Não: lugar de fazer as necessidades fisiológicas fica a quilômetros, subindo os morros, na mata. E olha lá!!

Então vem a pergunta que não cala: por que esta gente não arruma um emprego? Por que ficam pedindo, ao invés de trabalharem?
Ora... como resolver este problema se esta gente é solitária, doente, desamparada, sem escolaridade... Não há interesse político voltado para todos eles; não temos uma ação social eficaz. E outras pragas mais. O dinheiro é para outros fins.

Dá pra entender que somos um país em dificuldades; só não deu pra entender, ainda, que um país continental como o nosso, com tanta gente miserável morando nas ruas, com milhões de pessoas passando fome, que ainda se escute que não há verba suficiente para matar a fome do povo e lhes proporcionar um teto.

PORÉM...

Para meu espanto, de uma hora pra outra surgem milhões de nossas reservas para mandar pra fora do país... Fazendo bonito com o sacrifício de nossa população indigente, que come capim e faz sopa de papelão e jornal. Sei que é um enorme problema social, mas seguindo meu bom senso, teríamos de resolver, primeiro, o problema da nossa gente: dar comida e teto para o Brasil. Mas não é bem assim: existem as negociações! E, enquanto os homi ficam trocando figurinhas, nossa gente que espere, que coma lixo.

22.5.10

NOSSOS VIZINHOS...



- Tais Luso


Não se trata do filme de Alfred Hitchcock, trata-se das janelas dos nossos vizinhos: dos meus, dos seus. Todos temos vizinhos, e cada um com um currículo diferente; alguns, com histórias escandalosas, outras, hilárias.

Conheci, e não faz muito, uma senhora que me pareceu ser discreta, bondosa... Daquelas certinhas, dentro do esquadro. Longe estou de ter este perfil, mesmo porque sou muito observadora e com faro de perdigueiro...

Bem, fui buscar um livro antigo - de artes - que esta senhora fez questão de me presentear. Pareceu-me uma mulher de bom caráter. Mora aqui, perto de meu prédio.

Fui lá. Eram 19:00 hs, já estava escuro. E entre uma conversinha e outra, notei que ela espiava muito para fora e fiquei um pouco intrigada com a atitude. Porém, meu faro estava fraco, não sei se era a chuva.... No entanto, não precisei perguntar nada, lá pelas tantas ela soltou a franga.

Contou-me que da janela dela, avistava a vizinha que morava embaixo de seu apartamento: a Marta Rocha. Não entendi como, só se dependurando na janela, de cabeça pra baixo. Então foi quando me chamou e perguntou-me se eu não estava avistando a Marta Rocha!

Fui eu lá pra janela: procurei pela Marta Rocha, fiz um esforço de cão, e nada de achar a mulher. Então ela apontou uma janela do edifício ao lado, e disse-me: ‘olha ali ela!!’

Aí entendi: a sala da Marta Rocha, embaixo do seu apartamento, refletia na janela do prédio ao lado... Pensei: cruz-credo, aonde vim parar?!

Falou-me da solidão da Marta, da comida da Marta, dos cabelos da Marta, da vida inteira da Marta! Senti que estava pirando um pouco com a tal mulher bondosa e de alma boa.

Fiquei com muita pena da nossa eterna miss. Mas, deixei que a maluca me contasse tudo. Também fiquei curiosa para saber um pouco da mais famosa Miss Brasil. E daquelas suas 2 polegadas - a mais - que nos tiraram o título de Miss Universo.

Contava-me as coisas olhando para a janela. Realmente achei a nossa Miss Brasil muito decaída, entregando os pontos. Magrinha, a pobrezinha, mas com aquela vasta cabeleira loira, ainda.

E me veio à memória a janela de Hitchcock... que coisa! Só não estava entendendo o porquê da Marta Rocha morar aqui em Porto Alegre tendo tantos amigos no Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo...

Então veio o inusitado:

- Tais, ela não é a ex Miss Brasil; eu lhe dei esse apelido porque ela usa o cabelo da década de 50, loira e ainda faz pose de miss... E é tri de fofoqueira; odeio fofoca.

Virgem Maria... Consegui entender tudo: a mulher era louca e eu, a escolhida!

Encerrando o caso da Marta Rocha, a mulher chamou minha atenção para a outra janela querendo me contar a história do outro vizinho esquisito, que comia pizza calabresa, diariamente, e que era sovina demais. E que a pediu em casamento...

- NÃO!! Preciso passar no supermercado, fica pra outro dia!

Bá, me deu um nervoso: que piração! A mulher tinha mais histórias e mais janelas...
Me mandei; porém, esqueci o livro em cima do sofá. Não volto lá nem morta.


15.5.10

ORAÇÃO AOS MOÇOS / RUI BARBOSA

VERGONHA

De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.
- Rui Barbosa-



ORAÇÃO AOS MOÇOS


Para essa edição de Oração aos Moços, Pedro Luso foi quem escreveu a Introdução para esmerada publicação da célebre obra de Rui Barbosa, pela
editora paulistana Hedra, livro esse que se encontra em muitas livrarias do Brasil desde o seu lançamento, em outubro de 2009; a obra tem uma bela
composição gráfica, a partir da capa, como se ve pela postagem ao lado.


Essa Introdução, que toma 15 páginas da obra Oração aos Moços, deu ao Pedro Luso a prazerosa sensação de ver aí o seu nome ligado ao nome de Rui Barbosa, Patrono dos Advogados do Brasil e do Senado da República.


'Os formandos da turma de 1920, da Faculdade de Direito de São Paulo, escolhem para seu paraninfo Rui Barbosa, que por encontrar-se enfermo, não pode comparecer à solenidade. Sua ausência é sentida pelos formandos, professores e convidados, que se encontram no recinto.
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Quem não gostaria de ouvir o grande orador assomar à tribuna para saudar os jovens afilhados, e do mestre ouvir as palavras sábias, conselhos importantes, para quem deixa os bancos acadêmicos, e, daí em diante, passa a enfrentar a crueza da vida profissional, na área do Direito?

Mas Rui Barbosa já havia escrito seu discurso. No momento mais solene da formatura, a saudação aos futuros bacharéis, as idéias de Rui iam sendo absorvidas por eles, à medida em que o professor Reinaldo Porchat, que o substituía na tribuna, lia o discurso escrito para a ocasião, discurso esse, que passaria a ser conhecido como Oração aos moços, e reconhecido como obra-prima de Rui Barbosa'. (segue...)


Ficha técnica da obra:
Autor – RUI BARBOSA
Título – ORAÇÃO AOS MOÇOS
Organização – MARCELO MÓDOLO
Introdução – PEDRO LUSO




De Pedro Luso:





8.5.10

COMIDAS MUITO ESTRANHAS...


- tais luso de carvalho

Hoje resolvi trazer umas comidinhas diferentes, bem do meu gosto...
Se a chamada exótica gastronomia do planeta dependesse de gente como eu - para levar adiante a história da culinária global - estaria com os dias contados.

É ótimo conhecer países diferentes: seu povo, sua cultura, sua gastronomia - com seus temperos estranhos, seus molhos exóticos, talheres complicados, e horrores que me tiram o sono. Mas é assim mesmo, o homem come coisas estranhas desde que desembarcou no planeta.

Bem, ao dar uma voltinha lá pela China percebi que os chineses adoram espetinhos de qualquer coisa: bezouros, lagartas, bicho-da-seda, marimbondos, cobras, escorpiões... Tudo comestível; aquelas coisas venenosas e traiçoeiras que os ocidentais quase morrem ao ver. Os espetinhos são vendidos na rua, para turistas curiosos que querem se superar... Tudo muito bom: o óleo vai se renovando nas fritadas... Mas por outro lado, para quem não come fritura, há algo mais saudável, como a lagarta ao molho (acima), pelo menos não entope as artérias.


. Os indianos, por sua vez, adoram suas lacraias e baratas gigantescas fincadas no espeto: coisa de doido. As baratas me deixam muito aflita. Muitos sabem - por outro texto postado neste blog - que fico alteradíssima, tenho uma enorme fobia por baratas e coisas semelhantes. Elas mexem com meu sistema nervoso... Mas, longe delas sou um ser normal e feliz. Equilibrada.

Num passeio pela culinária de Camboja percebi uma iguaria diferenciada: aranhas enormes e cabeludas, aquelas cheias de pernas que nos deixam brancos e covardes. Pra encarar um bicho daqueles só sendo muito macho: mas com um molhinho apimentado e uma cervejinha, talvez desça. Nessa vida, estou com dificuldades de ser um pouco macho para encarar esse tipo de coisa, mas quem sabe lá, numa outra encarnação.



Chegando a Taiwan, um prato da pesada: testículo de porco! Deu pra ver que lá os homi não brincam em serviço. Pegam pesado. Na Tailândia pegam bem mais leve... eles comem o bicho-da-seda, em espetinhos ou ensopado, deve ser uma gostosuuuura!

Mas, fico impressionada é com o Japão: lá, existe um peixe chamado Fugu. Aqui no Brasil chama-se Baiacu. Bem, o Fugu possui um veneno 1200 vezes mais forte do que o cianeto. Este prato tem de ser preparado por cheffs, com 4 anos de curso especializado no corte para retirar uma bolsa venenosa, perto das brânquias – órgão respiratório. Além desta bolsa há veneno na pele e no fígado. Assim mesmo 70% dos candidatos - os fugu cheffs - são reprovados. Veneno de Fugu não tem antídoto , portanto não deixa de ser uma roleta russa.

O Fugu é um prato muito solicitado justamente por ser excitante, desafiador, como se fosse um esporte radical. Dizem que seu gosto não é lá essas coisas... O importante é a adrenalina. Mesmo assim, com todos esses cuidados, morrem muitas pessoas por ano no Japão e outros países que usam o Fugu em sua culinária.
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Olhem esses pratos ai embaixo... Que barato!

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Logicamente têm coisas que não se consegue transmitir num texto: jamais conseguiria transmitir minhas náuseas ao ter visto (documentário) uma pessoa comendo um polvo vivo, ou seja, o San nakji, na Coréia. Putz, ver aquilo me deixou mal. Olhem como se come esse negócio:

1- Pegue o polvo da tigela que é levada à sua mesa;
2- Estique os tentáculos do polvo para baixo; pegue a cabeça do bicho e afogue num molho de sua preferência e vá empurrando goela abaixo, lutando contra as pernas do bicho, pois elas se negam a descer. Ficam se debatendo fora de sua boca. Esse é o ponto máximo da náusea gastronômica.
Mas, se você quer comer direitinho, e não como turista, pegue o bicho, enrole tudo num pauzinho, abra a boca e mande! Desce que é uma beleza...

Porém, para os que não são chegadinhos num polvo, o ensopadinho do bicho da seda desce melhor...



Bem, também temos aqui no Brasil um exótico para saborear: o Turu! Esse molusco medonho, comprido e molengão, se hospeda em árvores podres na ilha de Marajó e no interior da Amazônia. Também é comestível... (foto). Deve ser muito gostoso!



Casu marzu, é um queijo produzido na região da Sardenha, Itália. É chamado de queijo podre, devido ao seu processo de maturação, feito com larvas vivas de moscas. É considerado tóxico quando as larvas morrem. Portanto só pode ser consumido com as larvas vivas, passeando lá por dentro... Cruz-credo.
Por ter sua fermentação exagerada (estado de decomposição), o governo italiano proibiu sua comercialização por motivos de saúde. Porém é encontrado no mercado negro.

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Agora... tomem uma cachacinha da moça, aí em cima!
Eu adoraria!!! Mentira: jamais chegaria perto...

2.5.10

O MEU POETA MARIO QUINTANA



- Tais Luso de Carvalho

Revelo que aprendi a gostar de poesia através de Mário Quintana. E como é delicioso ler seus poemas quando estamos tristes e amargas... Por sermos acarinhadas e envoltas por doces palavras, a tristeza vai se dispersando e a alma vai ficando leve...

Quando leio Quintana, sinto um poeta que entendeu a vida de uma maneira única, que falava da solidão, da bondade e da felicidade com a mesma tranquilidade que falava na sua doce prometida – a morte.

Falava com a sabedoria de quem não apenas passou pela vida; mas deixou que a vida passasse, que rolasse e que esperneasse... E seguia ele com suas musas, com seus sonhos e quem sabe com seus devaneios...

E que delícia são seus poemas que falam de tudo, de uma maneira translúcida, com uma deliciosa ironia e um sarcasmo ferino! Mas assim era ele; dava a impressão de que brincava com a vida.

Já andei esbarrando com muitos escritores nos shoppings, em livrarias, na Feira do Livro e nos eventos culturais de Porto Alegre, e olhava ali... olhava lá... Via todos, falei com alguns, mas nunca vi o meu poeta. Nunca pude dizer: olha ali o Quintana!!

Mas não sei se ao vê-lo não ficaria muda e parada! Sim, porque quem conheceu o poeta – ao menos pela televisão – lembra de sua ironia refinada e surpreendente. Dava seu recado sem tradução, e a gente que se virasse, que aprendesse a captar o espírito da coisa.

Aprendi com ele a ver as belezas de Porto Alegre, suas ruas antigas, suas ladeiras, a beleza do vento numa tarde de outono. Aprendi a amar a nossa gente. Aprendi como é linda a simplicidade. Aprendi que é na simplicidade que conseguimos tocar todas as almas. E ele conseguiu. E como conseguiu!

Quando leio o seu poema O Mapa , lembro que também passei pelas mesmas esquinas esquisitas, talvez as mesmas moças eu vi... E caminhei pelas mesmas ruas que ele caminhou. Também já pensei, se no dia em que eu for poeira ou folha lavada, também farei parte do nada?

Seus poemas consolam. Aprendi que um dia, quando a morte chegar de mansinho e disser: Anda, vem dormir... Talvez eu já esteja preparada.

Levarei a mágoa de nunca ter visto meu poeta de perto, levarei um ciúme de não ter sido uma de suas musas... Quem não gostaria de inspirar o poeta em suas noites de solidão e talvez de agonia, fazendo parte de seus eternos rabiscos?

Mas depois de ter lido muitos de seus poemas até já perdi minha aflição: que eu passarei e todos passarão, é certo: só não se repetirá o que aconteceu no dia em que Deus o levou: fez dele um PASSARINHO!


POEMINHA DO CONTRA

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão... Eu passarinho!


Sobre a vida e obra do poeta recomendo o excelente blog de Bernardo Uchoa.
clique aqui: Quintana Eterno
e de Estela:

24.4.10

A INTERNET E SUAS MALUQUICES


- tais luso de carvalho

Confesso a vocês que, ao abrir minha caixa de e-mails, diariamente, muitas vezes tenho uns chiliques: não sei se desmaio ou se enlouqueço! Recebo mensagens muito bonitas, mostrando cidades, arte... Mas alguns e-mails quase me matam: vêm com aquele ‘URGEEEEEEEENTE’ que me leva a pensar que estourou uma guerra, um terremoto se aproximando, um ciclone que levará tudo pro brejo... Mas nada disso! Apenas um aviso de um possível vírus no meu computador, e que poderá vir num link de e-mail. Mas os novatos, aqueles que estão iniciando sua jornada de internautas, pensam que isso é coisa nova. Há muitos anos que recebemos estas mensagens que se repetem. E macaco velho sabe que não pode abrir o que não conhece.

Recebo muitos textos atribuídos a autores errados; também recebo alertas sobre roubos, estupros, contas bancárias a renovar - que nem são do meu Banco, avisos emitidos por um órgão público, assaltos no Caixa Eletrônico e doenças de todos os tipos: aliás, estou formada em doenças!

Sinto algo dramático, caótico; parece que alguma coisa está por explodir em meu corpo. Guardava tudo na pasta do provedor para possível consulta; estava ficando neurótica. E excluí todos. Centenas de avisos e alertas. Ligo a televisão: tragédias das mais variadas e seqüestros relâmpagos! Mas que mundo é este? Não existem umas coisinhas mais leves, de mais fácil digestão?

Entro num Banco, pareço mais com o guarda em alerta máximo, do que propriamente uma cliente; entro na porta giratória, a porta tranca e entro com a cabeça no vidro: era o meu celular. A fobia é algo que vai se alastrando e não nos damos conta. Está tão presente em nossas vidas que chega a ser cômico. Lembro do aviso - pela Internet - para não falar com ninguém, cuidar ao digitar a senha, cuidar ao sair do Banco, cuidar ao descer do carro, e andar com os vidros fechados. Tenho medo de estar delirando.

Recebi, há pouco tempo, uma matéria falando de nossas bolsas e de possíveis contaminações. (matéria assinada por uma conceituada doutora). Matéria forte, me lembrou terrorismo. E não sei mais o que fazer com minhas bolsas.

É lógico que levo minha bolsa para o banheiro do restaurante, sanitários dos shoppings, nos bancos dos táxis, repartições públicas, nos laboratórios, hospitais... Enfim, onde todos tossem, espirram e cospem.

Todos estes lugares estão infectados por milhões de bactérias que passam pra bolsa e podem transmitir infecções cutâneas, infecções oculares, infecções do aparelho digestivo, infecções respiratórias... Como carregar minha santa bolsa sem tocá-la, doutora?

Dizem que viver é uma arte, mas é muito filosófica esta definição; viver é um perigo, falando curto e grosso! Acho que vou cuidar mais das coisas da Internet, tá muito dramático o negócio: mandam a bomba e não enviam a solução!

A BULA, doutora! Mande a profilaxia, os efeitos colaterais ao usarmos a bolsa; as indicações e precauções; como agir, e se deve ser mantido fora do alcance das crianças; mande os sintomas e orientação médica.
Mande a solução, doutora!

16.4.10

COISAS DE HOMENS...

Carnation Flirt - 1995 - obra de Zoravia Bettiol

- Tais Luso de Carvalho

É claro que os homens são maravilhosos, mesmo com suas manias e com aquele machismo horroroso... Longe de desfazê-los. Mas isso nunca será resolvido, faz parte do DNA das criaturas. Resta-nos ir levando a coisa com certa flexibilidade; não adianta ficarmos esbravejando. Não vamos solucionar esta falha da natureza: o machismo. Isso deve ter nascido com o tal Adão. É, lembro de uma história de que fomos feitas de uma de suas costelas... Taí o início da coisa: já pisamos no mundo como um subproduto.

Porém a vida tem de ser levada com mais leveza; afinal, poucas são as coisas que realmente têm importância. Daqui a pouco a gente junta os pés e fica o dito pelo não dito. E os Adão soltos por aí...

Pois bem, os homens não são muito chegados a presentes: eles têm know how em caixas de bombons ou buquê de rosas. Saírem à procura de algo mais pessoal, é sentença de morte. Acham que é capricho feminino.

Há poucos anos recebíamos panelas, batedeiras, liquidificadors, espremedores de frutas, fogões... Todas os lançamentos domésticos, pois segundo eles, lugar de mulher era na cozinha. Coisas de homens...

Os homens sabem de tudo: da taxa Selic, da cotação da bolsa, do gol que não foi gol e da seleção brasileira. Sabem onde andam os técnicos de futebol e quanto ganham; sabem de política, de guerra e de negócios. Sabem do último lançamento do carro tal, que ganhou um farol dianteiro 5 milímetros mais redondinho do que do ano anterior. E isso é de extrema importância, muito visível.

Ah, e alguns enólogos insuportáveis que descobrem - com seu faro de perdigueiro - que um tal vinho foi feito com uma super uva de uma região lá nos confins. Enquanto ficam num bate-papo sem fim, falando de uva, da safra, do preço, do saca-rolha e da vinícola, as mulheres bebem sem frescura.

Homens - enquanto machos antropológicos - não falam de flores; nem sabem o que um vasinho de violetas pode representar para uma mulher. Emociona pelo gesto, não pelo valor. Mas também são coisas de homens...

Porém, não sou injusta: existem muitos homens maravilhosos que já dividem o trabalho do lar, apesar de terem sido educados para outros fins. Falha nossa: homem não podia chorar, tinha de ser forte. Estragamos os coitados. Mas, homem quando chora dói tanto que quase morremos de pena.

Voltando às manias, vocês já viram algum homem carregando um ramalhete de flores? Dá pena, gente: a cabeça se confunde com as flores, fica encravada lá pelo meio... Ainda não descobriram que uma flor não torna ninguém diferente do que é.

Outra coisa desagradável é homem assistindo futebol: a televisão a mil, e o narrador berrando feito um torturado... Santo Deus! Isso realmente me leva à loucura. Mas são coisas de homens!!

Homens não diferem das mulheres nas conversas diárias: eles falam sobre futebol; elas, sobre todas as novelas do dia. Realmente não sei qual o pior. Nós também somos tinhosas. Não consigo falar - por telefone – com nenhuma amiga: a mulherada tá sempre no banho no horário da novela.

Outra mania masculina: MULHERES! A coisa é tão indiscreta que não sei como não quebram o pescoço. E depois daquele olharzinho safado, a tristeza é ter de parar de cobiçar a mulher do próximo, segundo os 10 Mandamentos da Igreja...

Mas, contudo, temos nosso ombro forte nas horas difíceis: eles nos completam, nos agradam, cada um à sua maneira.

Parabenizo esses guerreiros maravilhosos, que se doam e são capazes de atos de muita grandeza. O que citei acima são firulas. Coisas de homens.

Sabemos que somos todos diferentes, e que o respeito, a afinidade, o amor e admiração pelo companheiro é o que mantém um longo relacionamento. Mesmo eles sendo de Marte e nós de Vênus.

8.4.10

FOTOS PARA DOCUMENTOS



- tais luso de carvalho

Existe coisa mais medonha do que uma foto três por quatro ? É difícil; quase sempre saímos com cara de presidiário. É um horror. Quando me pedem essa coisa, já vou ficando meio desatinada. E o pior é que ficamos numa desilusão que amarguramos por dias. Sentimos a decadência, temos consciência do estrago. Estou falando em fotos três por quatro . A tal da fotinho da cara dura, esperando o clic!

Ontem tive de renovar minha carteira de habilitação:
- Traga Carteira de Identidade, Comprovante de Residência, CPF... E duas fotos três por quatro!
Não deu outra: entrei em crise existencial. Onde encontrar a tal fotinho de cara dura que fique mais ou menos?

Fui pra minhas caixas de fotos ver se descobria algo que pudesse passar. Achei várias! Mas eram fotos de muitos anos, de carteiras anteriores. Ou, umas coisas de dar pena! Olhei... olhei... E não senti firmeza. Procurei mais. Encontrei outras, do tempo em que eu ainda podia tirar uma três por quatro , daquelas que se vê a alma. Mas também não daria: muito mais jovem. Fiquei imaginando a cara do homem ao ver o antes e o depois... Mergulhei no fundo do baú, a procurar uma foto estressada e um pouco neurótica... Mas não achei nada que se encaixasse nesse maldito 3x4.

Têm fases na vida da gente que é bom não registrar: cara de estressada, cara de desgosto, nossas perdas, nossas desilusões, nossas frustrações...Tudo somado, não tem foto que aguente. Seria pegar mais um problema pra resolver: endireitar a cara. E com urgência.

Então resolvi enrolar o homem. Dei uma foto mais jovem - que tinha em casa - e sumi o mais rápido possível, assim não daria tempo da comparação. Logicamente coloquei uns óculos tipo Stevie Wonder que cobria quase metade do meu rosto. Podem acreditar: deu! Só tem uma explicação: ou o cara era deficiente visual ou era muito educado.

O que interessava, mesmo, era se minha vista e meus reflexos estavam bons. A foto seria uma firula de segundo escalão. Nada pra se dar tanta bola.

Depois desse fato fiquei pensando como somos exigentes com nossa imagem; o tanto que uma simples foto pode nos abalar quando temos de passar por essas provações, por renovação de documentos. E quando temos autocrítica, quando exigimos muito de nós, a coisa fica pior ainda. Estou empregando o nós porque nunca vi alguém ficar satisfeito com este tipo de foto, tão dura.

Mas o que altera de fato a nossa imagem é a nossa cabeça; é nossa maneira de viver e de encarar o mundo. De levar tudo muito a sério. Isso é extremamente cansativo.

Tirando certos períodos conturbados que somos obrigados a encarar, diria que se levarmos as coisas no bico o fardo fica muito pesado e desgastante; tudo que é light traz mais benefícios.

Mas levar a vida com leveza, não é mole: é um exercício. É deixar passar tudo que não for relevante. Que se vá! Muitas pessoas não toleram um olhar atravessado... Já é motivo pra encrenca. Aí o caldo entorna. E a cara vai pro chão!

Quem sabe, se eu levar a vida mais mansa, na próxima foto eu não precise correr atrás dos óculos do Stevie Wonder... Agora vou dar uma esticada, pegar um livro e me jogar nas almofadas.


29.3.10

UM PAÍS DESARRUMADINHO...


- tais luso de carvalho

Felizmente nem todos pensam como eu: tem gente que é feliz, que tem esperança, tem seu partido político, e acredita em mudanças. Dizem por aí que um dia a casa se arruma. Ter esperança é fundamental para uma vida saudável. Gostaria de tê-la, quanto ao nosso país.

Atualmente nossos políticos nos oferecem duas alternativas: a terapia da aceitação e a terapia do riso. Segundo alguns entendidos em saúde mental, rir é uma forma de libertar-se e de se comunicar. E quando perdemos o hábito de rir começamos a morrer. Então penso que chorar não adianta mais; me matar não resolverá nada, ninguém sabe que existo... (Acho que hoje estou um pouco dramática, vou suavizar.)

Bem, mas seguindo os conselhos mais saudáveis, resolvi, todas as segundas feiras entrar em terapia de apoio - antes de ficar pinel -, assistindo o humorismo do CQC, que na minha opinião é o melhor no estilo. Entro em alerta máximo: fico sabendo de tudo, sem estresse, e ver nossos deputados e senadores constrangidos com o sarcasmo ferino do CQC - que não leva ninguém pra compadre; apenas mostram o que está acontecendo, e dão os nomes...

É muito engraçado ver tanta gente destrambelhada, fugindo dos repórteres, tentando esconder suas caras. Sim, porque poucos falam coisa com coisa naquela casa... A casa do povo precisa ser mais arrumadinha. Decente. Sem vícios.

Deu pra ver que tem gente por lá que não sabe nada sobre os projetos em votação. Eu não tenho obrigação de saber sobre os projetos, mas eles têm: estão ganhando pra isso. E constatar tal descaso, dá medo. As eleições estão chegando e a turma vai viajar como nunca. E os projetos serão empurrados com a barriga. Não estou dizendo nada que já não se saiba. Constataremos tudo no torturante Horário Político Nacional - quando a podridão aflorará à escala máxima. Mas acredito que tais permutas de agressões não farão muita diferença no contexto geral.

Cansei de ser generosa; perdi a capacidade de lidar com certos imprevistos e de ver cuecas, meias e bolsas servirem para outras coisas mais.

Algumas almas caridosas - que ainda acreditam nos homi - andam dizendo por aí que o sofrimento eleva o espírito e serve para o nosso crescimento; e que um dia a gente acerta no alvo. Tá bom...Tô achando uma baita notícia.

Mas quem pensa em crescer e elevar seu espírito vendo seu emprego ir pro brejo e sua família morrer à míngua? Como dá pra crescer se existe – lá pelas bandas de Brasília – gente preocupada em fazer um bom pé-de-meia?

Como dá pra crescer com tanta corrupção sem punição?
Como dá pra crescer com escolas, postos de saúde, asilos e hospitais - em muitos lugares – esquecidos e funcionando à meia-boca?
Como dá pra crescer se os médicos que trabalham na rede pública, por ganharem um salário minguado, precisam trabalhar em outros empregos ficando a população à deriva?
Como dá pra crescer com bueiros entupidos e o caos se instalando, à menor chuvinha, levando tudo pro brejo e a coisa sem solução?
Como dá pra crescer sem emprego, faltando escola, faltando professor e os alunos perdendo o respeito e se atracando nos colégios?
Como dá pra alguém crescer sabendo que segurança é ilusão; que nos parques, nas lojas, nos escritórios, nas ruas e nos Bancos podemos trombar com um '38' fincado na testa?
A base de uma sociedade saudável são suas crianças, e enquanto estiverem abandonadas seremos apenas o que somos, nada mais.

Ah, que programaço sentar na frente da televisão, nesse torturante horário político, com bandeirinha na mão e esperança no coração...
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obra ilustrativa / Elifas Andreato

22.3.10

NAQUELA NOITE NO BAR / PEDRO LUSO



- Pedro Luso de Carvalho


Luz difusa
sobre a mesa do bar.
Em torno
do copo vazio,
estranhas figuras
avivam
lembranças.


Silhuetas de
casais - sussurros
no escuro
do bar.
Fugazes encontros
eternizam prazer
e mágoas.


Ondulam sombras
nas paredes
do bar.
Ouço a música
sincopada
de Jobim.