25 de janeiro de 2015

ESSA MOÇA NÃO PRESTA / Roberto Gomes



Pedro Luso e eu, recebemos o livro mais recente enviado pelo amigo escritor Roberto Gomes, residente em Curitiba. Esse seu último livro contém 15 histórias com um humor refinado, mas picante, estilo próprio do autor. Escolhi 'Essa moça não presta' porque apresenta um tipo de mãe, de filho e de nora igual a muitos casos que conhecemos. Aiaiai... haja harmonia familiar!! Algumas mães quando não morrem de ciúmes, esculhambam com tudo e botam fogo no relacionamento. Mas as vezes têm aquele sexto sentido que as vezes até procede. E como! 
Mas vejam o resultado... 

ESSA MOÇA NÃO PRESTA (conto)

Eu avisei.
Fez uma pausa, esgrimiu a colher de pau no ar e desafiou:
Não avisei?
Mergulhou a colher na panela onde fumegava a polenta. Aumentou o tom da voz:
Não avisei?! - Irritada, exigindo resposta.
Avisou, tia.
Pois assim é. A gente avisa, alerta, adverte, cuida, indica, aponta. Não adianta. Que adianta ter mais experiência do que esta fedelho? Nada. Filho não houve mãe. Acha que a gente é besta.

Calou-se e, resoluta, voltou a mexer a polenta.
Agora dera para isso, pensava a sobrinha, calculando que aquela era a décima conversa sobre o mesmo assunto. Que conversa que nada. Ela falava e a sobrinha ouvia. Repetia que nem precisava chegar perto daquela sujeita. Era assim que a tratava: sujeita, criatura, desenxabida, boca mole. De longe, ali mesmo da porta da cozinha – olha ela lá na calçada, com aquele jeito molengão – podia apostar que era a própria cascavel. Não a enganava.

Uma mulher decente pode ter uma bunda daquelas? Perguntou à sobrinha enquanto a nova namorada do filho entrava portão adentro. Não esperou resposta. Disse:
Pode alguém rebolar assim? Isso não presta. Aposto.
Imagine, tia, que implicância! A moça é bonita, só isso.

Ela disparou na direção do quarto, deixando no ar a frase que repetiria nos dias seguintes:

Boniteza é uma coisa. Safadeza é outra.

Mandou dizer que estava na cama, uma dor de cabeça violenta, desculpassem. O filho e a namorada ficaram plantados na sala, diante da prima, que acrescentou desculpas e mentiras.

Cheguei aqui ela estava pálida, fria, pensei que fosse desmaiar. Foi quando começou a dor de cabeça.

O filho não acreditou naquela encenação. Ao telefone, meia atrás, a mãe o atendera com a voz clara, alegre, lembrando que ele prometera levá-la ao cinema. Quando disse que passaria em casa em seguida, com a namorada, ela tossiu e rosnou:

Tá.

Desligou o telefone.
Agora, trancada no quarto. Ele bate de leve, tenta abrir a porta. Estava só de combinação, não podia abrir, ela resmungou. Além disso, a dor de cabeça não a deixava em paz, estava até com tonturas. E arrematou:

Melhor você ir ao cinema com seu novo amor.

Aquele “novo amor” confirmou as suspeitas dele. Não havia nada a fazer. Conhecia a mãe que tinha. Não arredaria pé nem um milímetro. Pois que vá para o inferno, pensou, saindo porta afora com a namorada.

Apaixonou-se por uma bunda! E oferecida! Gritou, ao abrir a porta do quarto.

O namoro prosseguiu, a namorada foi recebida só três semanas depois, gastas em negociações conduzidas pela prima, pela irmã e pela dona Marianinha, a vizinha. Ela foi fria, dura, mal cumprimentou a namorada do filho. Ficou falando de coisas que só interessavam a ela e ao filho, puxou assuntos antigos, falou de outras namoradas dele, comentou que ele era mesmo um namorador insaciável, já namorara todas as meninas do bairro. Mentira. Aquela era a segunda namorada de sua vida.

Cheio de amores. Também bonito desse jeito!

Abraçou-se ao filho e o levou e o levou paraver o pé de pêssego no quintal, estava florido. A namorada ficou plantada no meio da sala.
O filho sumiu por quase um mês e voltou para dizer, batendo o pé: ia noivar. A mãe fingiu não ouvir. Ia noivar e, depois casar, acrescentou ele. Ela mordeu os lábios. Antes do final do ano, pode escrever. A mãe trancou-se no quarto.
Dias depois a sobrinha trouxe a notícia. Foi cuidadosa, levou meia hora para dizer a que viera. Já estavam noivos. Ela desmaiou. Caiu como uma tora no meio da cozinha, tremendo, espumando.

Ah, não! Fez a sobrinha. Assim é demais! Para mim chega!

E deixou-a largada no chão.
Mal ficou sozinha, levantou-se num salto, jurando vingança. Convocou todos os parentes , providenciou uma reunião de família e decretou: casamento, só pisando no meu cadáver!

Mas por quê? Queriam saber.
Por quê? Que história é essa de por quê? Já viram o jeito dela? Aquele jeito de andar, aquele rabo alegre, festivo. Aquilo não presta.

O filho marcou casamento para o mês seguinte. Estava decidido. Ia abrir uma confeitaria com as economias que juntara, a noiva o ajudaria no atendimento, não precisava do apoio de ninguém.
Ela assistiu ao casamento sem abrir a boca. Não cumprimentou nem aceitou cumprimentar ninguém. Amarrou a cara e ficou repetindo aos ouvidos da sobrinha:

É uma descarada. Olha só. Mesmo na igreja não para de rebolar. Essa não me engana!

Casaram. Abriram a confeitaria, que serviria café à tarde e sopa à noite. Gastaram uma fortuna, segundo vieram lhe dizer. Paredes pintadas, lambris, lustres, as janelas pintadas de vermelho. Além do mais, a criatura tinha mania de grandeza.
Ela nem passava por perto, mas sabia de tudo.

Janela vermelha é coisa de bordel. Só falta uma lampadinha na porte!

Os gastos com a reforma foram muitos, os frequentadores eram poucos, a confeitaria não dava lucro. Meses de sofrimento, anunciando as piores desgraças para aquele casamento.
Quando procurada por dona Marianinha com o pedido do filho, mandou dizer que não emprestava um tostão. Pior quando começaram a aparecer os credores e os comentários.
A sujeita tomava conta de tudo com mão de ferro e fazia tudo errado. Pretextando cuidar dos negócios, saia para ir ao dentista, ao correio, pagar contas. Foi quando pediram empréstimo ao doutor Miguel, o dentista. Não adiantou, até porque a essa altura ela já estava desinteressada do negócio. Mal aparecia para trabalhar. Dores de dente. Ginecologista. Pedir segunda via da carteira de identidade, que perdera não sabia onde.

Eu não disse? – a mãe estufada de razão.

Alguém a viu num shopping com o Dr Miguel. Deu para chegar em casa tarde da noite – de início apenas cansada, dizendo que visitara uma tia, uma colega de colégio, que estivera presa no trânsito; depois, cheirando a álcool. Era o que se comentava.
Naquela noite ela sonhou que o filho havia sido abandonado pela mulher. Saltou da cama e passou o resto da madrugada aguardando notícias. Olhava para o telefone, andava pela sala.. O marido quis saber o que estava acontecendo. Mandou que ele ficasse quieto, voltasse para a cama. Ela estava preocupada, só isso.
Ali pelas oito da manhã, o telefone tocou. Era Odete, a prima:

Elvira, tenho uma notícia… - voz cuidadosa: …uma má notícia…
Ela nem esperou que a prima terminasse a frase:
Já sei. Ela deixou o Juninho.
Como é que você sabe?
Ora, Odete, não seja ingênua! E onde está o Juninho?

Odete explicou que ele estava bem, não se preocupasse. Estava apenas desorientado, não sabia o que fazer, pedira que ela desse a notícia com jeito, preocupado, quem sabe a mãe levasse um choque violento.

Choque? Eu? Estou é feliz da vida! Felicíssima!
E antes de desligar o telefone:
Aquilo não presta, Odete. Eu avisei.

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Roberto, além de ter sido professor universitário de filosofia, é autor de dezesseis livros entre romances, contos, crônicas, literatura infantil e filosofia - Crítica da Razão Tupiniquim – hoje na 13ª edição.  Recebeu o prêmio Jabuti em 1982 com O menino que descobriu o sol. 

 Blog de Roberto Gomes



21 de janeiro de 2015

MALHAR: EIS A QUESTÃO!




Taís luso 
 

Relutei um pouco, por questão de preguiça, mas decidi entrar para o grupo dos saudáveis. E ontem fui fazer uma visitinha a uma Academia próxima. Chegando lá, vi aquele povo malhando, pernas pra cá, braços pra lá, levanta, abaixa, pedala, caminha, estica, encolhe ... E olha a barriga!!! Mais outros suando, neurotizados com os pneus... A praga daqueles pneus. E as mulheres morrendo numa luta inglória contra as celulites.

Academia enorme, um clima de festa. Eu, forasteira, pouco  familiarizada com a coisa, mas todos eles muito à vontade, umas máquinas. Pude observar que os homens não ficam devendo nada às mulheres no quesito vaidade. A maioria com os músculos já bem definidos. 

Os bíceps um pouco exagerados - um abraço lembra uma guilhotina.  Olha, gente, gosto não se discute, mas talvez menos, um pouquinho. 

Fiquei olhando, discretamente, e notei que todos tinham o mesmo andar do faroestão John Wayne  quando caminhava com as pernas e os braços abertos afim de enfrentar o último e derradeiro duelo. Na minha frente - a 10 metros - havia um cara roxo, tive a impressão que ele estava levantando a academia nas costas... Coitado, pensei que  fosse enfartar. 

Esticando o  olhar, fui ao encontro  de uma mulher muito enxuta, levantava aqueles discos de peso como se fosse um copo. Putz, como me senti fraquinha... Realmente, ando um pouco sedentária, sei disso. Vi todos muito dispostos, alguns estavam lá por questões de saúde, outros por estética. Uma mistura democrática, no final tudo se acerta.  

Há anos, muitas mulheres estão optando por definir os músculos das pernas. Pois é, aí levo medo... Acho bonito mulher com perna de mulher; homem com perna de homem. Cada um no seu quadrado. Mulher com pernas musculosas, hipercoxas? Péra,  não dá... Daqui a  50 anos terei o mesmo pensamento. Não consigo ver harmonia. Não estou falando em fisiculturismo, isso é outro departamento, é malhação pesada, para fins competitivos.

Saí um pouco pensativa. Há outras opções, sem dúvida. Mas só fico encucada em ficar com os músculos definidos, com o tórax aberto, pescoço grosso, bíceps de campeã, pernas do Garrincha  e canelinha de avestruz... Sim, porque panturrilha é a coisa mais difícil de muscular; parece que não faz parte da obra... O Criador deve ter esquecido de reforçar as canelas. Esqueceu das  panturrilhas, Senhor!!! 

Mi Madre...




10 de janeiro de 2015

Giuseppe Ghiaroni / Máquina de Escrever

Obra de Ricardo Renedo

               
       
Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval. 

Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende, além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.

Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.

Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.

Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.

Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.

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Giuseppe Artidoro Ghiaroni – Nasceu em Paraíba Do Sul, (RJ), no dia 22 de fevereiro de 1919. Foi Jornalista, poeta, redator, tradutor e radialista.  
Faleceu em  2008, aos 89 anos.



                                    
  Poemas do LP:
                                                                          
          A máquina de escrever
Homenagem
Doce nome de Estela
A luz de Maria
Injustiça
Previsão
Dia das mães
A palavra querida
Beijos
Veneração
Não me faças sonhar
Respeito
Tereza
Beijo
Aquilo

Neste blog: O Dia das Mães

1 de janeiro de 2015

ALICE NO BRASIL DAS MARAVILHAS




       - Tais Luso


Eu sou a Alice – versão 2015, surreal. Moro num país tropical, maravilhoso, próspero e onde todos tem trabalho, lazer, educação e saúde. Tudo gratuito, já que pagamos com prazer os altos impostos.

Sinto-me  Alice porque moro num lugar muito seguro, de dar inveja à qualquer país do mundo. Tudo anda bem conforme grita nossa Constituição Federal. Sou feliz e despreocupada e vivo numa sociedade harmoniosa. E como eu, vivem assim mais de 200 milhões de brasileiros.

Há povo mais feliz do que o nosso ao cantar Aquarela do Brasil? Oh, Deus, que lindo! E o Carnaval? Que luxo! Aquilo é o retrato do nosso cotidiano, uma fila interminável de reis e rainhas rodopiando de felicidade. 

Também fico emocionada com nosso Hino Nacional (verdade!). Sim, aprendi a amá-lo, pra mim é o mais lindo do mundo. Depois vem La Marseillaiseo belo hino francês.

Emociono-me com nossa bandeira, desde bebê aprendi que o branco simboliza a paz; o azul simboliza o céu e os rios brasileiros; o verde nos lembra as lindas matas e o amarelo simboliza nossa riqueza, tão cobiçada  – desde sua descoberta até hoje.

Lembro, também, que aqui temos total cuidado com os animais, todos prezam e tratam com carinho, não é? Não se vê animalzinho abandonado, principalmente nas férias, quando, gente com o coração de ouro, abandona os seus bichinhos nos parques e nas estradas. Esse é o Brasil das Maravilhas. Ou da irresponsabilidade?

Aqui, no País das Maravilhas temos total liberdade; brincamos de polícia e bandido, todos os dias, em todas as cidades – não há discriminação. Brincamos também, de esconde-esconde na nossa maior Empresa Estatal, orgulho Nacional. Cada mês uma brincadeirinha nova, somos um povo criativo e com dons naturais.

Aqui, no Brasil das Maravilhas, o pessoal de boa cabeça ganha muito bem – eles mesmos aumentam seus salários na calada da noite. E não tem papo. Mas é só trabalharmos uns 100 anos que ganharemos igual. Seremos uma sociedade mais solidária, mais fraterna... Ah, e mais igualitária

A pobre cidade de Melgaço, no Pará, está em  condições de dar seu verdadeiro depoimento, pois tem o pior índice de desenvolvimento humano do Brasil. Devem ser muito felizes, os irmãos lá de longe...

Aqui ainda não sabemos o que é corrupção e propina, essas coisas estranhas. Pagamos altos impostos mas temos tudo que precisamos, saúde e estudo gratuitos por toda a vida – do básico à faculdade, igual ao povo lá da Suécia.

Lembro que até o Papa, quando esteve aqui no Rio Grande do Sul, disse que era gaúcho! Lembro que a gauchada delirava. Não foi o Francisquinho, foi o João Paulo II. Vejam vocês, até um papa quis ser brasileiro! Maravilha. Fizeram até musiquinha pra ele, e foi embora encantado. Realmente somos um povo feliz da vida. E se um papa pode ser gaúcho, porque eu não posso ser a Alice do Brasil das Maravilhas?

Não sou uma pessimista extremada, mas nem uma otimista  boba. 
Contudo, torcerei para que nosso país saia dessa situação crítica e consiga respirar, pelo menos,  sem aparelho. O que já é uma esperança de vida.






27 de dezembro de 2014

A FESTA DO ANO NOVO

Juarez Machado


        - Tais Luso 

É fácil de entender o porquê da indiferença de muitas pessoas no último dia do ano, ou seja, na Festa do Ano Novo. Eu nunca consegui entrar na euforia, apesar de ter tentado. Não gosto dessa festa por várias razões.

Não sinto nenhum entusiasmo com uma casa cheia de gente muito esperançosa, bebendo e brindando um futuro desconhecido e com mil projetos na cabeça. Não consigo me adiantar tanto. Menos: de um dia pro outro as coisas não se modificam.

A indiferença é um sentimento que nos impossibilita de compartilhar da alegria alheia. Toneladas de fogos não dizem nada para aqueles que não estão a fim de entrarem na roda. A alegria demasiada de alguns incomoda o espírito mais introspectivo de outros.

Festas de final de ano mexem com todas as emoções, e que muitas vezes queremos que fiquem adormecidas. Quietinhas. Muitas pessoas passam por períodos mais introspectivos, coração apertado, não conseguem derramar uma lágrima de alívio. Não estão no momento de festinha, querem paz. Lembro de um ano que passei sentada numa sacada abraçando uma parente, nós duas calmas, juntas. Não precisava mais do que aquilo. Confesso que foi o ano que mais gostei. Gostei porque entendi. Porque fui útil. E também gosto de ficar quieta.

Nessa época do ano razão e emoção se unem justamente na contagem regressiva que agoniza. Enquanto um ano se despede, o outro ano nasce, saudando a vida. É um bom tempo para fazer um balanço do que passou e pensar no futuro. São minutos em que a razão nos torna fortes e a emoção nos torna humanos.

Nunca fiquei alegre em ver o ano velho se apagando e o ano novo nascendo.  Não gosto dessa festa porque não gosto de despedidas; vai junto um pedacinho do que se viveu. Anos nossos que não voltam. E meus olhos contam, com exatidão, o que o coração transmite.

Felicidades e meu carinho a todos!




18 de dezembro de 2014

A MELHOR PARTE DA FESTA...


         - Tais Luso
      Dizem, algumas línguas otimistas, que o melhor da festa é esperar por ela, pelos aprontes, pela reunião em si. Outras línguas, mais pessimistas, dizem que o melhor é quando ela acaba. Sempre existem os tititis pós-festa, ninguém escapa disso: fuçar para ter o que falar. Seja de bem, seja de mal.
E muito mais: esmiuçar pra depois baixar a lenha. Nas festinhas dos famosos o que há de pior vai direto para os espaços caríssimos da mídia. É farofa no ventilador quando pegam um Vip desprevenido. De surpresa.
Algumas pessoas são agradáveis; outras são destrutivas, avacalham com qualquer festa: falam da carne dura, do peixe cru, do peru anêmico, do Whisky vagabundo, do vestido da fulana, da gordura da sicrana e o tanto que ela quebrada. E não esquecendo, é lógico, da pintura do cabelo do dono da casa: aquela cor de pinhão! É assim ou estou vivendo noutro planeta?
É assim que terminam muitas das festas. Sempre aparece uma amiga pra contar o que a outra amiga falou, mas tudo no mais alto sigilo. O rolo passa de boca em boca. Toda a conversinha é dissimulada, mas altamente contagiante.
Para quem ofereceu a festa, para quem gastou um monte de dinheiro e ficou demolida de tanto trabalho e organização, ficar sabendo de um desmonte desses é pra nunca mais fazer nada. Mas nós, mulheres, somos muito tolas: fazer o bem não importa a quem. Bonita frase, mas é de efeito. Linda como certas roupas de desfiles de moda - impossível de usar.
Os homens são mais práticos, só fazem o que querem e não estão nem aí pros frufrus ou falatórios. Bem que, por outro lado, caem em cada uma... Muitas vezes levam uma eternidade para descobrirem que gato não é lebre. Mas cada um com suas diferenças.
Por essas e outras é que eu me aposentei das trabalhosas festinhas em minha casa. Tudo é muito cansativo. Aliás, hoje em dia se transfere muita coisa para restaurantes. Geralmente muitas pessoas optaram por almoçarem fora, o que é uma glória para as mulheres. Fiquei com a louça necessária para recebermos, apenas, os de casa e passamos a festejar algumas coisas por prazer e não para cumprir normas sociais.
Temos várias oportunidades para sermos felizes. E uma das coisas mais difíceis da vida é perceber o momento exato quando algo não funciona mais e tomar a decisão certa: o de mudar.
E isso serve pra tudo, não só para nossas festas. 


5 de dezembro de 2014

CHEGOU DEZEMBRO: VAMOS ÀS COMPRAS!

                                                           
               Foto do Google
       
   
      - Tais Luso

Tô animadíssima! Chegou a hora de homenagear um batalhão de pessoas de uma só vez. Claro que minha família já sentiu que estou começando a pirar, por enquanto em dose homeopática. Chegou o mês mais lindo do ano, onde os corações transbordam os mais nobres sentimentos e os bolsos se esvaziam ressentidos. Nessa época não se vê comerciante triste. Que maravilha! Será que estou ansiosa pela vinda daquele velhinho de barba branca, embrulhado numa tocha incandescente em pleno verão? Não. Não mais. Mudei. O que era, já não é mais. Mas a vida é assim, vai se reformulando, adquirindo novas expressões. Natal cristão? Não. Uma canoa furada. O apelo comercial mais forte do ano.

Ontem fui ao super (supermercado) para olhar as comilanças. Super é um paraíso com muitos senão. Explico: muito do que se precisa está lá em cima das prateleiras, e atrás de tudo, meio escondido. Fiquei à espera de alguém mais alto do que eu, para pedir que me alcançasse o produto que precisava. Louca de medo que a criatura descesse toda a prateleira, pedi a um homem de guarda-pó branco para que me ajudasse a pegar um produto. E lógico, reclamei da altura das prateleiras, e do produto lá, lá… E foi gentil, educado. Não disse nada. Mais tarde nos encontramos na fila do caixa: olhei seu guarda-pó branco... era um médico do hospital que ficava defronte ao Super. No bolsinho do jaleco estava bordado 'Dr. Cardoso – traumatologista'. Putz… Confundi o homem com um empregado do Super. Comecei meu dezembro pessimamente. Pobre da minha cara.

Mas voltando às compras…
Super é um ambiente projetado para vender o que não precisamos. Aquelas gôndolas são espaços negociados entre a indústria e o varejo, onde são expostos produtos muito apetitosos, mais caros e que muitos não estão na nossa listinha quando saímos de casa. Sabiam vocês que 85% das nossas decisões de compra se dão passeando entre as gôndolas e prateleiras? Eles lançam o caniço e beliscamos o anzol.

O mesmo acontece nas livrarias, o que está nas gôndolas é o que mais vende, o garantido, o autor conhecido, o best-seller. Autor novo fica nos cantos. Ou bem embaixo, na prateleira. Tudo é colocado estrategicamente para comprarmos bastante.

Aqueles cartazes de promoções, escritos à mão, passam uma ideia de que o desconto é temporário, mesmo que o preço esteja igual ao da semana passada.
E os preços psicológicos? Os R$ 0,99 da vida?

– Aqui tenho um micro-ondas, senhora, tá em promoção, custa só R$ 399,99 - diz a vendedora.
– 400 pila, né moça!!!? (já fiquei meio mau humorada)

Nessas horas não consigo ficar quieta. Sei que é defeito de fábrica.
Mas dezembro recém começou. Percebo a eterna luta entre comerciante e consumidor… Depois vem Ano-Novo, Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças, Dia da Avó, 50 aniversários… e Natal de novo!!!

É fácil alguém dizer 'não se mate mais atrás de tantos presentes, acabe com isso!!'
Mas há 1661 anos que o mundo nos prepara pra dar e receber após a bela data criada pelo Papa Libério no ano 354.   E agora, Zé?

Benzadeus!