1 de maio de 2016

POSTERIDADE / Affonso Romano de Sant'Anna





               Eles vão nos achar ridículos, os pósteros.
               Nos examinarão
               com extrema curiosidade
               e um tardio afeto.
               Mas vão nos achar ridículos, os pósteros.

               Olhado de lá
               tudo aqui
               será mais claro
               para eles
               que nos verão
               inteiramente diversos
               do que somos,
               bem mais exóticos
               do que somos.

               - Como esses primitivos
               ousavam se chamar modernos?
               Farão simpósios, debaterão
               e chegarão a bizarras conclusões.

               Assim entraremos para a história deles
               como outros para a nossa entraram;
               não como o que somos
               mas como reflexo de uma reflexão.

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(Poesia Reunida 1965-1999 / L&PM – maio 2004 – pg 174)


Affonso Romano de Sant'Anna nasceu em Belo Horizonte em 1937. É um dos grandes poetas, cronistas e ensaístas brasileiros da atualidade, com mais de 40 livros publicados.
Como jornalista trabalhou nos principais jornais e revistas do país: Jornal do Brasil, Veja, Isto É, O Estado de São Paulo, Estado de Minas e Correio Braziliense.  Professor universitário e ex diretor da Biblioteca Nacional.

Recebeu algumas das principais comendas brasileiras como Ordem Rio Branco, Medalha Tirandentes, Medalha da Inconfidência, Medalha Santos Dummont. É casado com a escritora Marina Colasanti.




23 de abril de 2016

TERROR NO HOSPITAL...





      - Tais Luso

Contou-me, ela, que chegou ao hospital às pressas, de madrugada. Na emergência, chorava muito. Mal  a criatura podia aguentar tanta dor. E foram muitas horas de angústia.

Nada mais adiantava a não ser Morfina, receitada pelo médico da emergência, que se compadeceu de tamanha dor. Mas no curto espaço de tempo, na pausa da dor, ela sentia a maior felicidade do mundo. Do contrário, a vontade era morrer.

Naquele lugar, de um branco asséptico, viveu  entre lágrimas, exigências, exames e hipóteses. Mas queria era um cirurgião. Urgente.

Passou-se uma madrugada e uma manhã, e ela em crise aguda. Ao meio-dia lhe avisaram que seria operada à tarde. Sem mais esperas. 

Foi uma cirurgia difícil, efetuada por ótimo médico, jovem e experiente.  Finalmente desceu para o andar inferior onde foi recebida com simpatia por uma paciente que compartilharia o quarto.  A essas alturas tudo estava bom demais.

À noite, seu marido permaneceu ao seu lado. Dormiu junto, numa cama encostada, resguardados por biombos. Dormiram de mão dadas. A certa altura ela levantou-se e foi ao banheiro. Na volta, começou a ver coisas muito estranhas naquele amplo quarto. 

Num canto, encoberto por grossas cortinas, havia visto  um velho deitado sobre uma tábua de passar roupa sendo massageado por uma enfermeira. Caramba!! Que loucura! Naturalmente seu marido se espantou ao saber, jamais imaginou um quadro assim dentro de um hospital de referência. Mas pegou no sono, exausto, esqueceu do velho sarado.

Não demorou para que ela lhe apertasse a mão e lhe dissesse para não se mexer, haviam várias pessoas, entrando e saindo do quarto, comercializando drogas e com armamento pesado. Uma forte luz que vinha da rua, entrava pela janela emitindo sinais de comando... O marido puxou as cobertas deixando apenas os olhos descobertos. O homem em pânico começou a pensar como tiraria sua mulher dali, do quarto 305, onde todos falavam  com cautela  e por códigos – segundo lhe contava  sua mulher, recém operada.  Noite de cão!

O dia clareou. Começava a rotina das enfermeiras do turno da manhã: mais remédios, mais injeções, mais curativos. No janelão, a solidária companheira de quarto olhava para a rua.

'É uma comparsa da gangue' pensava ela deitada em sua cama e tratando  todos com rispidez. Ninguém entendia aquela agressividade misturada com temor. A mulher, antes, tão dócil, tão meiga...

Bem mais tarde, seu marido desconfiou que algo deveria estar errado: começou a lembrar dos faróis sinalizando a entrega de drogas; gente armada dentro do quarto; uma sala com porta falsa e um velho  massageado que ele nunca vira por ali… 
Deu uma volta pelo andar; olhou canto por canto ao redor do quarto e nada viu! Tudo normal. As pessoas normais, as enfermeiras normais!

Mas veio uma luz: lembrou, de imediato, dos efeitos alucinógenos das tantas doses de Morfina aplicadas em sua mulher para aplacar as dores.

'Caramba - pensou ele - tudo pareceu tão real!!'


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17 de abril de 2016

DIZEM QUE SOMOS UM PAÍS FELIZ: DE NOVO?



              - Taís Luso de Carvalho

Após ter lido que nosso país, o Brasil, está na 17º posição entre os países mais felizes do mundo, confesso que fiquei confusa: perdi a noção de felicidade. Sim; de novo.

Fui consultar várias fontes, agora em 2016, enumerando, inclusive, os países mais felizes do mundo e o porquê da coisa. Para a maioria serviu de parâmetro a saúde, a segurança, educação, expectativa de vida saudável, a percepção de corrupção, a distribuição de renda per capita. Falei em corrupção? Ah, tá.

Dentre os países vistos como os mais felizes estão  a Dinamarca, Suíça, Islândia, Noruega, Finlândia, Canadá, Holanda, Nova Zelândia, Austrália, Suécia, Israel, Áustria, Estados Unidos... E desponta o Brasil em 17º posição! - seguido por outros. Confesso que fiquei meio desconcertada, pois conheço nosso povo, acompanho seu sofrimento, suas necessidades, seu abandono. E penso que nossa posição no ranking 'não é' tão boa assim. 

Será que existe felicidade na pobreza e no descaso? E na maior corrupção de todos os tempos? Pode existir um conformismo, mas até certo ponto. Depois a infelicidade desponta, grita, briga, sangra. Pagamos altos impostos, considerados um dos mais altos do mundo, e ficamos a ver navios na hora das lágrimas. Somos desassistidos: segurança atualmente, é zero. Vivemos  inseguros.

Felicidade pra mim é a medida certa de um bem-estar espiritual e físico, independente onde se mora. São 193 países no planetinha, segundo a ONU. E nossa posição de povo feliz não me desce, uma vez que acompanho todos os noticiosos na televisão. Ainda não pirei, mas gostaria de entender. Sem o politiquês.

O que acredito que possa fazer um povo mais feliz é a maneira que sua pátria os acolhe. É o equilíbrio certo entre o que se paga – em impostos – e o que se recebe em benefícios. E como nós brasileiros somos acolhidos? Damos até as calças e recebemos o quê? Esgotos correm a céu aberto nas periferias das grandes cidades, e  depois falam em acabar com os mosquitos que causam doenças. Que se proliferam.

Alguém cuida de nossa saúde sem termos um plano privado e caro? O brasileiro mais carente tem o SUS, todos o conhecem. Quando não faltam remédios faltam médicos e outras coisas. 

Como são tratados os cadeirantes com necessidades especiais no Brasil? Como estão nossas estradas? Como está a segurança de nossas fronteiras? E os mais de dez milhões de desempregados? Será que nossa felicidade é medida pelo futebol e pelo carnaval ? Se depender de mim sou uma das infelizes, não gosto de nenhum. Detesto gritos e oba-oba.

O que existe por aqui é uma minoria, pra lá de ricos e felizes. Mas não é o povo. O povo segura a grana. Viaja quando pode, não vive em restaurantes caríssimos, não se submete à plásticas desnecessárias, não desfila com carros caríssimos, avião particular, roupas de grife, 300 pares de sapatos no closet,  mansões pelos paraísos com governantas de toquinhas e aventais. Um conto de fadas. Mas  nos carentes, nem falo.  É só ligar a televisão ou andar pelas ruas.

Como podem os médicos do SUS, que lutam o dia inteiro para salvarem vidas, e sob estresse, ganharem 10 reais por consulta, que podem ficar em 6 reais descontando os impostos; como podem aqueles que cuidam de nossa segurança, receberem seus escassos salários parcelados? É o desnível da miséria humana. Isso é que fala alto. Mas esse eco não chega no topo da pirâmide; falta força para subir a rampa. Por enquanto, dizem 'Eles',  existem prioridades!! 

Somos um país feliz? Eu sonhei...  mas não com esse.


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10 de abril de 2016

MATURIDADE / Lya Luft




                    Caminho entre as minhas perdas
                    que são insetos escuros,
                    e os meus ganhos: douradas borboletas.

                    A luz de uma paixão, o dedo da morte,
                    o grave pincel da solidão
                    desenharam meus contornos, firmaram
                    meu chão.

                    Que liberdade, não precisar pensar;
                    que alívio não ter de administrar
                    minha vida:
                    apenas andar, e olhar,
                    apenas ouvir essas vozes
                    que vêm de longe, passam por mim
                    e não me dão importância.

                    Porque no vasto oceano,
                    a minha eventual desarmonia
                    é só uma gota
                    desafinada.
                    Mais nada.

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 Para Não Dizer Adeus – 3ª ed.  editora Record, 2005, Rio de Janeiro - pg 139.


Formada em Letras anglo-germânicas e com mestrados em Literatura Brasileira e Linguística Aplicada, Lya Luft trabalha desde os 20 anos como tradutora de alemão e inglês. Já verteu para o português obras de autores consagrados como Virgínia Woolf, Günter Grass, Thomas Mann e Doris Lessing, além de ter recebido o prêmio União Latina de melhor tradução técnica e científica em 2001 pela tradução de Lete: Arte e Crítica do Esquecimento, de Harald Weinrich.

Romancista, ensaísta, cronista e poeta, deixo aqui alguns de seus livros. Lya  nasceu em Santa Cruz do Sul, em setembro de 1938 - RS.

As Parceiras / 1981 – A  Asa Esquerda do Anjo / 1981 -  O Ponto Cego / 1999 - Reunião de família / 1982 - O Quarto Fechado / 1984 - Mulher no Palco / 1984 - O Rio do Meio 1996 – Mar de Dentro / 2002 - Perdas e Ganhos / 2003 –   Histórias do Tempo / 2000 -  Pensar é Transgredir / 2004 - Histórias da Bruxa Boa / 2004. Atualmente escreve uma coluna  na  Revista Veja. 

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2 de abril de 2016

ALEGRIA DE VIVER





              - Taís luso de Carvalho

Mexendo no meu baú, entre tantas coisas guardadas, reli essa conversa que tive com meu pai há muitos anos. Há 10 anos ele faleceu, mas já vinha doente. Para minha surpresa ele tinha passado nossa conversa  para o papel. E com imensa saudade transcrevo essa conversa nesse blog que tem muito de mim. Conversávamos sobre a vida, sobre aborto, divórcio, dogmas, fé e tantas outras coisas.  Sua fé era enorme. Uma fé que eu respeitava e admirava tanto quanto suas ideias. Às vezes discordávamos; outras tínhamos afinidade. 
Ele começou assim - sorrindo:  Era uma vez... 

Sim, pai, eu me lembro do “era uma vez”... era um tempo em que me contavas histórias sem pé nem cabeça. Tudo inventado, e eu acreditava! Mas ainda não tinhas cabelos brancos, e eu era criança. Mas agora, olha lá o que vais inventar...

É verdade, filha, o tempo foi passando, passando. Mas é bom que o homem às vezes, deixa-se ficar à janela do tempo contemplando a vida. É tão breve o espaço no qual se sucedem auroras e crepúsculos que nem mesmo se percebe a profundeza nele encerrada. Como passa o tempo e como passam as coisas! - tornam-se cada vez mais fugidios os momentos que nos são dados e é certamente por isso mesmo que o seu valor é tão inestimável. Cada minuto, passa para sempre.

Estás triste, pai?

Minha filha, hoje vive-se com uma filosofia de vida de quem acredita que o seu tempo jamais terminará. O simples deter-se em tais paragens do pensamento significa algo que recende a morbidez e que rouba à criatura humana a alegria de viver. Contudo, atrás dessa imprudente corrida para o efêmero talvez se esconda, na verdade, um medo de pensar na realidade.
Talvez a vida ofereça tantas oportunidades de fruição do prazer, e porque sobre cada ser humano paire a sombra da possibilidade duma terrível hecatombe nuclear, as pessoas, como numa alucinação, apegam-se desesperadamente ao instante que passa, como a dizer-lhe: não te vás...espera...
Debruçados à janela do tempo veem quão longe já vão seus sonhos e como é breve a vida.
Vou contar-te uma historinha, filha: há poucos dias encontrava-me numa calçada, caminhando com certa dificuldade, pois vinha daquela recente cirurgia, quando um menino, irritado talvez pela minha vagareza, desviou-se de mim e disse: É, os velhinhos, às vezes, custam muito a caminhar!
Suas palavras, mal sabia ele, foram como um bálsamo em minha impaciência pós- operatória e permitiram-me pensar como são inseguros e passageiros os valores sobre os quais, com tanta confiança, assentamos os fundamentos do edifício da nossa vida, e que julgamos definitivos, inabaláveis e eternos. Às vezes, quando estamos bem, somos vítimas de uma ilusão de eternidade no qual tudo se afigura como se jamais fosse terminar. Ah! Os meninos... às vezes têm tanta pressa...

Pai, eu não gosto de te ver assim, gosto daquele pai otimista... Estou preocupada contigo, pai! O que está havendo? Onde está aquela tua força?

Veja, filha, é preciso deixarmo-nos submergir no eterno para sentir que a beleza, a sabedoria e a vida só se chega no encontro pessoal com a verdade. É nela que descobrimos como é breve o tempo que medeia entre o berço e o túmulo.

Mas pai, parece que a felicidade é algo quase inalcançável!

O conceito de felicidade, minha filha, ao redor do qual as pessoas, muitas vezes fazem girar suas vidas, é essencialmente baseado na satisfação do ter, do poder e do gozar, os quais como sabemos, são realidades muito efêmeras, mas que nem por isso deixam de ser capazes de distrair os menos avisados e fazê-los perder o verdadeiro sentido da vida. O homem não é um ser que passa sem história e sem destino e é nisso que está sua bem-aventurança ou... a sua desgraça.

Pai, acho que não vou dormir esta noite! Sei onde queres chegar...

Filha, tudo um dia terminará, menos nós. Presunção, dirão alguns; prudência, pensarão outros. Todavia não desertemos da verdadeira vida. Não nos deixemos envolver pela falácia do mundo e pela deificação do efêmero.
A verdadeira alegria de viver está na paz e na verdade, e a verdade é Deus, minha filha.

Pai, estou com medo... estou pensando  nesse dia que estás falando...

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Lembro que fiquei abraçada com meu pai e chorei. 
Chorei. Ele me consolava. E ali demonstrou que sempre teve alegria de viver, apesar de já saber... 




27 de março de 2016

ALGUMAS LEMBRANÇAS DOS ANOS 60 - 70




           - Taís Luso de Carvalho

Para esquecer um pouco a política brasileira (um caso à parte), hoje trago algumas recordações dos anos 60 e 70.
Começo lembrando da alegria de muitas famílias do sul do Brasil ao casarem as filhas com militares, médicos ou funcionários do Banco do Brasil. Diziam os pais, pegando a linguagem de hoje, que funcionário do BB era 'O Cara'! Eram?
O costume era namorar, noivar e casar. Nessa ordem mesmo, crescente!
Também, na mesma época, as mães do interior, principalmente as de origem italiana e alemã, gostavam de ver seus filhos tornarem-se 'padres'; era uma benção ter um padre na família. Então lá vinha a gurizada, com sotaque enrolado, estudar no Seminário de Viamão.
Hoje os Funcionários do BB não são mais aquela Brastemp (e nem a Brastemp é mais aquela geladeira). E os padres já não estão sozinhos com aquele bolão, dividem o meio de campo com os pastores evangélicos e outras religiões – tudo em ebulição. Em suma: nada é mais aquilo.
Nesse mesmo período, o sonho das moças era tornarem-se aeromoças da Varig - a primeira companhia aérea brasileira a ser fundada no Brasil - 1927, no RS.
Realmente tinha Glamour. Viajar de avião era uma festa, e a Varig era sinônimo de requinte. Hoje, longe disso; o negócio ficou na fome: barrinhas de cereal, bolachinha e 'refri'. Ficou mais democrático, mas exageraram na dose da economia. Quando encarei o tal kit, tive certeza que fui contemplada com a Bolsa Fome.
As Missas dos domingos eram o maior mistério, mas era bonito: o padre - ainda de costas -, mandava tudo em latim! Não se entendia bulhufas, mas os fiéis adoravam responder ao Dominus vobiscum : - Et cum spiritu tuo!!!
Estudar latim, no curso Clássico, era traumático. Nenhum dos alunos sabia para que servia. Mas apesar da choradeira, ficava-se sabendo de sua importância no término da faculdade. Ou nunca. Latim sempre foi a pedra no sapato dos estudantes!
Outro marco, magnífico, aconteceu em 1972 quando da primeira transmissão pública de TV em cores produzidas no Brasil. Foi maravilhoso ver o mundo real.
E os Beatles 1960 / 1970? O negócio bom era destrambelhar. Instalou-se a rebeldia jovem no mundo a partir da aparência, uma mistura estranha, junto com a paz e o amor dos hippies. Embora esses fossem muito despirocados, foi um movimento fundado pelos alunos de universidades da Califórnia, no começo dos anos 1960. O ponto alto era a luta contra a Guerra do Vietnã (1955-1975). Enquanto pediam a paz no mundo, Roberto Carlos no Brasil (Jovem Guarda) mandava brasa: e que tudo o mais vá pro inferno...
Mas um dos trabalhos de maior relevância foi o advento da pílula em 1960, nos Estados Unidos, e que significou uma verdadeira revolução nos hábitos sexuais do mundo ocidental. A primeira pílula foi a Enovid 10, trabalhada às escondidas, pois os contraceptivos estavam oficialmente proibidos nos Estados Unidos até 1965.
Pois é, muitas mudanças aconteceram. Umas boas, outras nem tanto. O problema sempre foi conseguir o equilíbrio nas mudanças, nos exageros que tiraram muita gente do prumo. E como tiramos conclusões das gerações passadas, daqui a anos outras gerações tirarão conclusões a respeito dos tempos de hoje. Inclusive do cenário político que será contado como um dos episódios mais embrulhados e misteriosos da Idade contemporânea. Estudarão as posturas, costumes e mistérios dos anos 2000. Ficarão alarmados, confusos talvez, com uma república chamada Brasilis.
E nós ficaremos na história. Com que nome? Não sei. Vai ficar ao gosto do freguês. Mas terá de ser algo muito louco.
Não deixaremos por menos!




22 de março de 2016

INFÂNCIA / Cecília Meireles




Levaram as grades da varanda
por onde a casa se avistava.
As grades de prata.

Levaram as sombras dos limoeiros
por onde rodavam arcos de música
e formigas ruivas.

Levaram a casa de telhado verde
com suas grutas de conchas
e vidraças de flores foscas.

Levaram a dama e o seu velho piano
que tocava, tocava
a pálida sonata.

Levaram as pálpebras dos antigos sonhos,
deixaram somente a memória
e as lágrimas de agora.


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Flor de poemas – ed Nova Fronteira / 1972 – pag 157




18 de março de 2016

PRAZERES DA 'MELHOR IDADE' - Ruy Castro




- por RUY CASTRO

A voz em Congonhas anunciou: Clientes com Necessidades Especiais, Crianças de colo, Melhor Idade, Gestantes e Portadores do cartão tal, terão preferência etc..
Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais, nem sendo criança de colo, gestante ou portador do dito cartão, só me restava a Melhor Idade – algo entre os 60 anos e a proximidade da morte.
Para os que ainda não chegaram a ela, Melhor Idade é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal abriu e agora terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica.
Privilégios da Melhor Idade são o ressecamento da pele, a osteoporose, as placas de gordura no coração, a pressão lembrando placar de basquete americano, a falência dos neurônios, as baixas de visão e audição, a falta de ar, a queda de cabelo, a tendência à obesidade e as disfunções sexuais. Ou seja, nós, da Melhor Idade, estamos com tudo, e os demais podem ir lamber sabão.
Outra característica da Melhor Idade é a disponibilidade de seus membros para tomar as montanhas de Rivotril, Lexotan e Frontal que seus médicos lhes receitam e depois não conseguem retirar.
Outro dia, bem cedo, um jovem casal cruzou comigo no Leblon. Talvez vendo em mim um pterodáctilo da clássica boemia carioca, o rapaz perguntou:
Voltando da farra, Ruy?
Respondi, eufórico:
Que nada! Estou voltando da farmácia!
E esta, de fato, é uma grande vantagem da Melhor Idade: você extrai prazer de qualquer lugar a que ainda consiga ir.
Primeiro, a aposentadoria é pouca, quase uma esmola, e você tem que continuar a trabalhar para melhorar as coisas. Depois vem a condução.
Você fica exposto no ponto do ônibus com o braço levantado esperando que algum motorista de ônibus te veja e por caridade pare o veículo e espere pacientemente você subir antes de arrancar com rapidez, como costumam fazer.
No outro dia entrei no ônibus e fui dizendo:
Sou deficiente.
O motorista me olhou de cima em baixo e perguntou:
Que deficiência você tem?
Sou broxa!
Ele deu uma gargalhada e eu entrei.
Logo apareceu alguém para me indicar um remédio. Algumas mulheres curiosas ficaram me olhando e rindo…
Eu disse bem baixinho para uma delas:
Uma mentirinha que me economizou R$ 3,00, não fica triste não, foi só para viajar de graça.
Bem… fui até a pedra do Arpoador ver o pôr do sol.
Subi na pedra e pensei em cumprir o ritual que costuma ser feito pelos mais jovens no local. Logicamente velho tem mais dificuldade. Querem saber?
Primeiro, tem sempre alguém que quer te ajudar a subir: Dá a mão aqui, senhor!
Hum, dá a mão é o cacete, penso, mas o que sai é um risinho meio sem graça.
Sentar na pedra e olhar a paisagem era tudo o que eu queria naquele momento.
É, mas a pedra é dura e velho já perdeu a bunda e quando senta sente os ossos em cima da pedra, o que me faz ter que trocar de posição a toda hora.
Para ver a paisagem não pode deixar de levar os óculos se não, nada vê.
Resolvo ficar de pé para economizar os ossos da bunda e logo passa um idiota e diz:
O senhor está muito na beira pode ter uma tontura e cair.
Resmungo entre dentes: só se cair em cima da sua mãe… mas, dou um risinho e digo que está tudo bem.
Esta titica deste sol esta demorando a descer, então eu é que vou descer, meus pés já estão doendo e nada do pôr do sol.
Vou pensando – enquanto desço e o sol não – Volto de metrô, é mais rápido…
Já no metrô, me encaminho para a roleta dos idosos, e lá está um puto de um guarda que fez curso, sei eu em que faculdade, que tem um olho crítico e consegue saber a idade de todo mundo.
Olha sério para mim, segura a roleta e diz:
O senhor não tem 65 anos, tem que pagar a passagem.
A esta altura do campeonato eu já me sinto com 90, mas quando ele me reconhece mais moço, me irrompe um fio de alegria e vou todo serelepe comprar o ingresso.
Com os pés doendo fico em pé, já nem lembro do sol, se baixou ou não, dane-se. Só quero chegar em casa e tirar os sapatos…
Lá estou eu mergulhado em meus profundos pensamentos, uma ligeira dor de barriga se aconchega… Durante o trajeto não fui suficientemente rápido para sentar nos lugares que esvaziavam…
Desisti… lá pelo centro da cidade, eu me segurando, dei de olhos com uma menina de uns 25 anos que me encarava… Me senti o máximo.
Me aprumei todo, estufei o peito, fiz força no braço para o bíceps crescer e a pelanca ficar mais rígida, fiquei uns 3 dias mais jovem.
Quando já contente, pelo menos com o flerte, ela ameaçou falar alguma coisa, meu coração palpitou.
É agora…
Joguei um olhar 32 (aquele olhar de Zé Bonitinho) ela pegou na minha mão e disse:
O senhor não quer sentar? Me parece tão cansado?
Melhor Idade ??? – Melhor Idade é a pqp !


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Ruy Castro é escritor e jornalista, nasceu em Caratinga / MG em 1948. Trabalhou nos jornais e nas revistas mais importantes do Rio de Janeiro e de São Paulo. Considerado um dos maiores biógrafos brasileiros, escreveu sobre Nelson Rodrigues, Garrincha, Carmem Miranda, Bossa Nova, Ipanema e Flamengo. Seus vários livros têm edições no Japão, Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, Espanha, Itália, Polônia, Rússia, Turquia e Portugal. Prêmio Nestlé de Literatura 1994, Livro: Anjo Pornográfico - Prêmio Jabuti 1996, Livro: Estrela Solitária - Prêmio Jabuti 2006 Livro: Carmem, uma biografia.


12 de março de 2016

COISAS DO COTIDIANO...



                - Tais Luso

Gosto de escrever sobre coisas simples do nosso cotidiano, porque de alguma maneira todos nós passamos por situações semelhantes, umas tristes e outras de tão tolas chegam a ser hilárias. Mesmo assim prefiro rir de besteiras do que chorar indignada. Já basta esse país mergulhado num mar de lágrimas.

Pois ontem fui às compras. Foi-se o tempo em que eu zanzava de salto alto dentro de um shopping. Então saí à procura de sapato baixo.

Já alterada, entrei na quinta loja onde vi um sapatinho vermelho, enfim meu estilo, daqueles tipo Neon, que se enxerga a 200 metros no escuro. Discreto. Sim, tem de haver uma compensação: baixo sim, discreto nunca! Mas lá veio a  moça com um número menor do que eu pedi...Pela cara, coisa boa não era:

Moça, eu pedi o 35, esse é número 34!
Não temos 35, mas o 34 vai ceder, o couro é muito macio, pode levar!

Por opção, fiquei calada. 
Segui meu caminho. Entrei numa loja para escolher uns CDs de música instrumental. Só consigo escrever com esse tipo de música ao fundo, escutar voz me atrapalha. A garota olhou pra mim, pegou o CD do Chitão e Xororó e disse:

Adoro esse, chegou hoje!
Moça, eu não tenho delírios com os Xororós!  Putz.

Desanimada e já cansada de estar andando há horas, segui  caminhando e dei de cara com uma blusa do meu estilo. Pô, enfim! E lá veio a moça com várias blusas... Fiquei tão feliz que pensei em levar uma de cada cor! Porém...

Mas moça, tamanho G (grande)?
Mas encolhe, senhora. Tenho uma igualzinha! Na primeira lavagem já encolhe.
Mas então deve ser muito vagabunda!!!

Rodar a baiana, num momento desses, seria uma terapia! Mas não quis pegar pesado, pesei as atitudes e escolhi a melhor.

Depois de muito caminhar, vim para casa. Cheguei aqui, coloquei a chave na porta e ouvi uma voz que me esperava para curtirmos nosso café...

Você deve estar cansada!! Comprou o shopping?
Por hoje nada, querido!
Mas  você é muito exigente!
– Ah, sim... Talvez volte para pegar um livro de autoajuda ...
Autoajuda? Não encontrou outra coisa?
Não; não sou nada exigente… 

Ficou rindo… e eu quase explodindo de mau humor...


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