16 de abril de 2014

OS CÃES EM HOSPITAIS DE HUMANOS

O 'Seco' no hospital...

- Tais Luso de Carvalho

Nunca me canso em falar dos cães, ainda mais quando me deparo com as atitudes dos humanos. Humanidade, palavrinha duvidosa e que inúmeras vezes queima todas as esperanças de melhora da nossa espécie: pela crueldade, capacidade e premeditação com que são cometidos os mais abomináveis crimes. Pois é, o que fazer com esses humanos?

Em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, um morador de rua de nome Lauri, recebeu uma pedrada no rosto.  Ao chegar no hospital os médicos descobriram que ele tinha um câncer de pele e precisaria ser operado. Morador de rua, sozinho. Apenas um único amigo: o Seco, seu cachorrinho que está na porta do hospital por mais de 15 dias, à espera do dono. 

Sem ter nenhuma visita, os médicos levaram o paciente Lauri até o andar debaixo para ver seu amigo, e também ser visitado. E lá, os dois se abraçaram. Dois seres trocando afetos. Um com saudades do outro.

Poucas Instituições no Brasil têm certificado internacional que autoriza a entrada de cães de estimação em hospitais, um deles é o hospital Albert Einstein em São Paulo. É um atendimento de saúde humanizado. O que já existe nos Estados Unidos e Inglaterra. E agora um projeto de lei está na Câmera de Porto Alegre/RS para autorizar a presença de animais de estimação em hospitais do Rio Grande do Sul. Os contatos com animais estão associados à redução do estresse, a uma melhora da pressão sanguínea e a uma 'alta' hospitalar mais rápida devido aos benefícios na saúde do paciente.


Bem, voltando ao cachorrinho, soube que o pessoal do hospital passou a cuidar de sua comida, e Seco andou até numa Petshop se embelezando para a visita. Que boas almas, parabéns ao hospital de Passo Fundo. 

Mas, para estragar meu dia, ouvi logo cedo, num programa de rádio, que um infeliz, ao avistar o cão deitado na porta do hospital, jogou-lhe pedras. Esse é um tipo de humano que não me faz bem em falar. E que  existem muitos, infelizmente. Temo o homem: temo seus ímpetos, sua raiva, seu egoísmo, sua crueldade, sua inveja. Há séculos que o homem prega o amor ao próximo, a solidariedade, a igualdade… e nada. Para algumas gotas de amor e um rio de desamor. Tá difícil de aprendermos.

Nem com um humilde cãozinho a gente aprende. Formamos uma consciência de que o planeta é nosso: matamos os animais, arrancamos sua pele  afim de exibirmos belos casacos; arrancamos as presas dos elefantes  para servirem de adorno para casa; arrancamos milhões de árvores, dinamitamos rochas, mudamos o curso das coisas, poluímos os rios na escala máxima exterminando a vida que nele existe. Estamos explodindo com tudo em nome da ganância e ainda não estamos satisfeitos. Vamos indo de vento em popa, enquanto isso... para nossa vergonha, os animais não param de amar e nada pedem em troca. 

Quem são as feras?

Seria ótimo se certos tipos de humanos se mantivessem afastados e fossem procurar sua 'turma' no espaço, lá pelos quintos...









11 de abril de 2014

O ROSTO DE CRISTO...



       Um Cristo clássico                                   O Cristo da pesquisa de 2001

-  Tais Luso de Carvalho

Estava olhando as obras que retratam Cristo, pintadas pelos grandes mestres do Renascimento, e lembrei de uma pesquisa divulgada pela BBC de Londres, em 2001. Foi uma pesquisa coordenada pelo cientista Richard Neave, com ajuda de computador, de imagens tridimensionais, de tomografias, moldes etc, sobre o suposto rosto de Cristo – o verdadeiro rosto. Naturalmente não seria parecido com  os vários rostos pintados que conhecemos

Richard Neave, especialista em reconstituição facial e que já havia trabalhado em mais de 100 reconstituições antigas, começou a delinear a esperada face de Cristo. O Cristo de Jerusalém, de mais de dois mil anos.

O crânio foi selecionado por arqueólogos israelenses, num antigo cemitério perto de Jerusalém, com biótipo dos judeus do século 1. Seria um homem, portanto, com características próprias da região: de pele morena, de porte mais atarracado, olhos e cabelos escuros. Poderiam até ter chegado perto do real, mas não tem nada a ver com a cultura e a arte que foram impostos pela própria igreja no decorrer do tempo.
A Igreja ofereceu aos cristãos um rosto já pronto, idealizado, sempre se valeu da arte para aproximar-se dos fiéis. E sempre teve os mais renomados artistas de todas as escolas e de todas as épocas trabalhando nos Templos  ou em algo que tivesse ligação com a fé cristã.
Desde então, os ocidentaisindependentes da religião que professam –, olham Cristo como um homem de rosto meigo, cabelos lisos, pele clara, olhos claros.
Para quem é cristão essa pesquisa foi apenas curiosa, de nada serviu em querer passar um rosto estranho, um rosto que não tivesse 'aquele' toque. Foi estudado tecnicamente através dos meios mais modernos, mas não agradou. Nada nada a ver com nossa imaginação. Humano demais, sem o diferencial que nossa mente desenhou.
O artista procurou pintar sempre um  rosto  meigo, muitas vezes sofrido. Enfim, um rosto amigo, um abrigo para as angústias e fragilidades do ser humano. 
Na verdade, todos sabem que não há uma imagem verdadeira, o que interessa é onde Ele está e como é sentido por todos aqueles que tem fé. 
A imagem de Cristo não é dogmática, mas de uso estratégico - disse ( na época) Afonso Soares, professor de teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Que cada um reconheça o seu Deus,  que sua imagem seja única e independente de crenças. Mas penso que ninguém trocaria uma obra de tal magnitude, de tamanha beleza, como o rosto clássico de Cristo, por uma simulação de computador, mesmo a pesquisa sendo idônea. Agora é tarde, 2000 mil anos se passaram. 
Há muito que o rosto de Cristo deixou de ser humano e virou divino, uma imagem já consolidada que  acata os anseios de muitas almas. Não há outra imagem que sensibilize, que faça com que um novo olhar transmita paz, conforto e ternura a seres tão carentes. Enfim...
Não posso imaginar um Cristo tão assustado, tão humano, tão igual a nós como o resultado acima... É preciso uma imagem bem superior, mística e com todos os mistérios guardados até hoje. No fundo, é o que muitos almejam.
A mim não agradou.






6 de abril de 2014

COISAS QUE OS HOMENS NÃO ENTENDEM


- Tais Luso de Carvalho

Nós, mulheres, temos muitas coisas que os homens não entendem, mas o espaço não permite, então falarei apenas de algumas. Uma delas são nossas bolsas, tipo contêiner.


Sem muitas delongas, os homens conseguiram abolir suas pochetes, pastas e bolsas. Hoje carregam uma carteirinha com apenas o cartão de crédito, celular e uns trocados. Espalham esse arsenal num dos dez bolsinhos existentes na roupa e estão prontos para a luta.  E o interessante é que dá certo. Os homens são práticos em alguns quesitos. 

Conosco o negócio já é diferente: precisamos carregar  nossa casa a tiracolo. Não faço parte do time das mulheres grandes e fortes, mas estou à procura da maior bolsa do mundo. Como dá pra ver, tudo é muito proporcional... Os homens não têm a noção do que carregamos, mas não conseguimos ser diferentes. 


Mas seguindo...

Não conheço nenhum homem que tenha o fôlego de uma mulher para caminhar num shopping. Percorremos 400 lojas, pedimos reserva da mercadoria em várias delas e continuamos inteiras. Todos sabem disso, não? Se eles agissem de tal forma, acabariam o dia numa maca. Agonizando. 


Homem nenhum aguenta andar sem objetivo, e muitos compram no primeiro impulso sem ver cor, preço ou pesquisar os similares em outras lojas. Compram no desatino. Mulher pensa em encontrar algo sempre melhor e mais em conta. É uma sina.


Mulher, curti a compra: olha tudo - mesmo o que não vais comprar. Escolher brincos com marido do lado é para pensar em suicídio. Sei que é triste, mas é algo sério, a mulher carrega a sua alma num brinco. E os homens até hoje não descobriram isso. Para eles todos os brincos são iguais. Iguaizinhos. 


Acho que pelo fato de sermos assim, tão minuciosas, nossos sentidos são mais aguçados: ficamos na espreita, à pensar. Por isso que mulher consegue trabalhar fora, cuidar dos filhos, da casa, do marido, dos pais, da cozinha, da empregada, do cachorro e preparar festinhas para festejar chegadas e saídas. E ainda discutir sobre frescuras do condomínio. Mil coisas ao mesmo tempo. Sim, nós podemos!


Homem não: depois de cada atividade, deita e dorme. E ronca. Mas eles não estão errados, apenas são diferentes. São cheios de milongas. São nossas crias!


Supermercado? É gostoso curtir as promoções: salsichão na farofa, sucos, queijos, biscoitinhos Aquela coisa bem descarada: provar e não comprar; fazer onda: ahh, que maravilha! Agir assim, com tamanha desfaçatez é coisa de mulher. 


Homem é diferente, entra num supermercado já sonhando em sair. Se vão comprar água, compram água. Nós saímos com 4 sacolas.

Porém...  

Numa oficina, numa ferragem, numa vinícola se perdem no tempo, parece que vão comprar o estabelecimento. Ficam tempo estudando a rolha da garrafa. Coisa de homem.


Mulher não pede licença para dar conselhos: temos a mania de tentar resolver os afetos das amigas, dar conselhos na cor dos cabelos, na decoração da casa, na educação dos filhos dos outros. Também ficamos horas escolhendo a cor da cama do cachorro - para combinar com o sofá -, e a cor da vela do bolo da avó! É muita paciência. Homem custa a se meter na vida dos outros, é mais prático, mais racional. 


Mulher dá palpite até no cheiro do desodorante do amigo do filho, e ainda receita uns remedinhos pra enxaqueca e problemas na colunapra quem estiver a perigo. Pra quem não pediu. Deu pra entender essa loucura? 


Temos uma ânsia por ajudar, por resolver problemas alheios, mas essa invasão não tardará a virar uma psicose. 


Mas esse lado feminino, multifacetado,  chato, difícil e irritante é que nos faz feliz. Com dois braços abraçamos o mundo. Depois ficamos altamente estressadas, coisas nossas.


Todas essas  particularidades, devem ter lá suas explicações, algum sentido na nossa vida, e um deles é muito fácil de entender: são coisas de mulher,  a
ssim se formou nosso DNA.

Não existe explicação.





30 de março de 2014

PAREM O PLANETA, PRECISO DESCER !


- Tais Luso de Carvalho

Ainda leio jornais impressos, gosto de ler logo após o café da manhã. Passo os olhos numa montanha de informações e leio o que me interessa. Gosto dessa intimidade com o jornal e com os livros. Gosto de papel.

Bem...

Cheguei numa página do jornal e fiquei espantada. O título era assim:
Leitura Dinâmica – Mil palavras em um minuto. Lógico, achei uma coisa meio doida e pensei qual a razão de tamanha pressa? Tudo bem, leitura dinâmica todos conhecem, mas…

O problema é que isso é um aplicativo embutido num novo celular que está chegando ao Brasil e que vai nos permitir ler mil palavras (por minuto) naquela telinha! E diz mais: com a ferramenta, seria possível ler um romance de 300 páginas em pouco mais de 1 hora! Que loucura.

Pensei em morrer. Preciso descer desse planeta!! Tudo está muito rápido, não dá tempo de engolir. Será que há vida noutro planeta? São tantos, alguns até simpáticos… Será a Terra o único lugar a hospedar vidas? 

Bem, se já não sou amiga de Smartfones - odeio dedinhos andando à procura de aplicativos - então fico a imaginar uma  leitura dinâmica num celular. Não conseguiria acompanhar essa velocidade nem em tela de cinema. Preciso fazer minhas conexões, pensar.

Estou começando a simpatizar  com o homem  Cro-Magnon, que viveu há milhares de anos; ele tinha boa aparência, com cultura própria e foi evoluindo sem muita pressa, deixando seus vestígios nas cavernas. Estou começando a achar que o homem Cro-Magnon  era  O Cara! Sabia viver. 

Penso seriamente em parar de evoluir para não enlouquecer.

O artigo do jornal diz que essa revolução tecnológica é para suprir a falta de tempo das pessoas. Elas estão sem tempo para ler tudo que gostariam. 
Mas desde quando as pessoas leem tanto assim?

Nego-me em acompanhar tanta tecnologia. Prefiro pisar na real. Não vou fixar meu olhar num único ponto da tela, eliminar o ato de mexer meus olhos, e tampouco penso em condicionar meu cérebro à regras preestabelecidas.

E esse aplicativo também serve para leitura acelerada de e-mails!  Não consigo entender o porquê de tanta pressa se o que temos para viver já não é lá grande coisa. É melhor ficar coçando... Mais saudável.

Depois de ter lido o artigo fico a pensar, cá com meus botões, quanto desperdício, quanta solidão estamos plantando nessa virtualidade exagerada. Mais aplicativos para nos mexermos menos.

Sinto que preciso resgatar um pouco do meu passado. Preciso buscar minhas memórias antes que um vírus entre no meu disco C, faça uma anarquia e delete toda minha história.
To indo.




23 de março de 2014

NOSSOS PECADOS


       - Taís Luso de Carvalho


Leio, penso, indago e observo muitos rituais religiosos. Indago e me questiono.  Há tempos fui à  Igreja que meus pais frequentavam,  a mesma igreja que casei. Sentei no banco em que eles sentavam. Uma homenagem aos dois que faleceram, talvez numa ânsia de conversar com eles e refletir sobre nossas vidas - quando ainda juntos. Sinto saudades  e volta e meia muitas lembranças me visitam.  Lembranças de minha infância e de minha adolescência. Lembranças do que eles me passaram de valores, de ensinamentos.

Como meus pais eram muito católicos, estava eu lá, na esperança de que havendo outra vida, após a morte, nossos espíritos se juntassem. E lá fiquei por uma hora, sentada, apenas acompanhada das minhas lembranças. Embora não siga nenhuma religião, respeito a todas porque respeito as escolhas do ser humano, embora tenha as minhas bem fundamentadas. Acho até saudável ter uma religião. Particularmente simpatizo muito com a filosofia budista, mas há outras doutrinas que também gosto. Só não gosto de me sentir oprimida, cobrada.


Mas fiquei a refletir sobre a existência de outra vida ou se com a morte tudo se acaba. Gostaria de acreditar e ter certeza que minha vida continuará; gostaria de ver algum sentido em nascer, viver, pensar, construir uma vida inteira, dar vida a outras vidas e depois morrer. Ser apenas uma memória? Isso intriga muita gente. Mas existe algo de bom, a fé.

Fiquei sozinha, como muitas vezes gosto de ficar, sem barulho ao redor. Apenas num silêncio respeitoso, que só encontramos num Templo. Todo o Templo guarda seus mistérios, seus dogmas, o indiscutível que deve ser aceito sem contestação por aqueles que tem fé.

Havia pouca gente na Igreja, meia hora faltava para a missa das 18:00 horas. Olhei para o lado onde sempre ficam os confessionários - aquelas casinhas criadas para o padre ouvir nossos pecados, dar a penitência que nos cabe e depois voltarmos a fazer tudo igualzinho, como sempre. É, acontece, muitos retornam e pedem perdão novamente. E assim vão vivendo, com a certeza do perdão divino.

Mas, fiquei a observar um velhinho que mal conseguiu chegar no confessionário. Fiquei pensando na tristeza daquele ato; que difícil foi chegar! Que pecado teria cometido o pobre velho, no crepúsculo de sua vida, já tendo a despedida tão próxima... Que pecado teria ele a confessar, que penitência lhe seria dada se maior punição do que a morte não existe? 

Fiquei  desapontada. Senti piedade.

Fiquei um tanto indignada por ter assistido aquilo dentro de uma Igreja. Bem que o pobre velho poderia ter conversado com Deus, mais na intimidade... Mas fomos educados assim. E achei falta de misericórdia de algum lado. A velhice já é um estado de resignação, e acho que isso tem de ser pensado. É muita dureza na consciência, as vezes pela nossa cultura damos uma dimensão enorme para as coisas. E outras, quando precisa ser aplicada a lei dos homens... Nada! Nada.

O fato de morrer é tão brutal que dispensa pedidos de perdão na reta final.  Por que não presentear e deixar que o pobre velho dê seu último voo sem muito lhe exigir? 


Um dia todos nós acertaremos nossas faltas com quem, de fato, tem o poder de julgar. Aquele era o momento de  deixar o ajuste de contas para a instância máxima. E lá, sem dúvida, haverá a sentença decisória. O tempo restante é para compaixão.


Levantei e fui embora. Não me fez bem ter assistido aquilo, ainda mais que me sentia fragilizada pela perda dos meus. E por dias fiquei com a imagem daquele velhinho que mal podia caminhar, se arrastando, tentando  se redimir sei lá de que, com a esperança de ganhar a vida prometida. 


Grande mal não deve ter cometido. E não me pareceu ter sido um tirano, um torturador; se fosse, certamente não estaria ali, desprotegido, sozinho e rezando...


Os tiranos não aparecem dessa maneira: são protegidos - com regalias  -, ou  excluídos do convívio social, mas por curto tempo.

Existe pecado maior nesse mundo (a ser reparado) do que a desigualdade, a morosidade ou a inexistência com que é  é aplicada a Lei dos Homens? Penas amenizadas devido a posição social, raça, credo, instrução e cargo...


Isso sim,  é um pecado preocupante.  
Pelo amor de Deus... 





16 de março de 2014

REUNIÃO DE CONDOMÍNIO

Obra de Victor Hugo Porto



- por  Pedro Luso de Carvalho

É o marido que atende, contra sua vontade, ao toque da campainha. Não era seu feitio atender ao telefone, interfone e tampouco campainha. Quando isso acontece, sua mulher ouve sempre o mesmo argumento: "Você sabe que detesto ficar grudado nessas drogas".
Ele vai até o quarto e pede que a mulher atenda à porta.
Tem alguém lá na porta – diz irritado.
Como é que você sabe? – indaga a mulher.
A campainha tocou.
A mulher sai correndo em direção à porta. Chega esbaforida, depois de ter tropeçado no tapete e batido a perna na quina da mesa. Abre a portinhola e recebe uma rajada de vento. É o zelador do prédio.
Desculpe lhe acordar, dona.
Não me acordou, é quase meio dia...
O zelador entrega-lhe um envelope e pede que assine o protocolo de recebimento. A mulher assina na linha sobre o nome do marido.
Era o zelador – diz a mulher. – Ele deixou este envelope.
O homem abre o envelope e lê a convocação do síndico para uma reunião extraordinária.
No dia e hora marcados, lá estão alguns moradores na sala de reuniões. Não há quórum suficiente. Na segunda chamada, o síndico abre a reunião com quinze condôminos.
Boa noite a todos – diz o síndico. Vamos analisar três orçamentos para a pintura do edifício.
Quanto vai custar a pintura? – pergunta um homem, já curvado pela idade.
Nos orçamentos temos preços diferenciados, talvez possamos ficar com o mais barato.
E quanto é esse mais barato? – pergunta uma mulher. – Todos aqui sabem que o meu falecido marido deixou uma minguada pensão...
Eu também ando apertada – manifesta-se outra condômina. – Como vocês também sabem, o meu marido está desempregado a um bom tempo.
Então mande esse folgado parar de beber e procurar um emprego – diz a solteirona do prédio.
Isso não é da sua conta, mal educada. Por que você não procura um marido e deixa de encher o saco?
O síndico diz que todos devem contribuir para que a reunião corra com normalidade. "Temos que resolver o problema da pintura externa do prédio".
Vou ler aos senhores os itens que fazem parte do orçamento com o menor preço.
É bom que isso seja antes que comesse minha novela – diz a mulher vistosa, com as pernas à mostra.
A novela, meu Deus! – exclama outra moradora. – Eu não posso perder o último capítulo. – Se me dão licença...
Depois que a mulher deixa a sala, antes que se decida pela pintura, uma após outra, das nove mulheres, levantam-se e saem. Ficam na sala apenas seis condôminos.
O síndico mal recomeça a falar sobre os orçamentos quando os seis homens entreolham-se cúmplices, numa surda troca de ideias, e retiram-se com discrição.
Na sala fica apenas o síndico, com o olhar fixo nos orçamentos. Logo, diz para si mesmo: 
Eu é que não vou ficar plantado aqui, sem saber quem matou Odete Roitman!


Blog Veredas - aqui 

8 de março de 2014

OS SONHOS DE UMA GERAÇÃO


- Tais Luso de Carvalho

Hoje em dia o que mais rola na mídia são textos curtos, impactantes e nada de falar de coisas simples, fantasias ingênuas ou sonhos de outrora. Hoje é torcer o pano e esperar jorrar sangue. Ou lágrimas.

Na minha cabeça sonhos e metas são diferentes. Os sonhos da minha geração eram tão valiosos e misteriosos que se tornavam inatingíveis, e não tinham preço. No meu tempo de criança as coisas eram mais simples – mas não menos importantes. Moldavam em nós uma estrutura mais romântica.

Mas sobrevivi às mudanças de um mundo onde todos  sonhavam. Dele, pulamos para outro que se tornou uma aldeia onde podemos assistir uma guerra pela televisão, sentados. Tipo Sessão Pipoca. A violência banalizou demais. E virou escola.

O romantismo sumiu. O que interessa não são mais as coisas simples da vida, e sim contar e mostrar o terror: as guerras, a violência dos vândalos destruindo cidades e uma valiosa história.

Agora, século 21, podemos ver inúmeros problemas: coisas escabrosas que estão aparecendo na Igreja Católica; alguns prédios que desabaram soterrando dezenas de pessoas; bombas que arrasaram quarteirões; os mistérios da novela Mensalão – a novela mais longa do mundo e que ainda não acabou! E até um caso hilário: o aniversário da mulher do Obama, cujo convite pedia a todos que fossem  à sua festinha de aniversário com o bucho cheio, ou melhor, já jantados. E outras coisas muito mais estranhas de gente um pouco despirocada. E tudo isso e muito mais, desperta nossa atenção. Tudo que é anormal lá estamos nós catando, desvendando, mais e mais.

Em minutos ficamos sabendo, no mundo inteiro, quem matou quem; quem roubou e saiu-se bem; quem degolou quem, quem roubou a mulher do próximo (a) e por aí vai. Coisas do arco. Da mídia.

Lembro de um poema do amigo blogueiro, Jair Machado Rodrigues, falando nas nuvens… E fiquei com a ideia na mente. Nem eu pensava mais nas nuvens. Hoje não se ouve mais falar e nem se sonha com nuvens, com a lua e com as estrelas. Apenas se escuta que cairá um toró que inundará a cidade, um diluvio, beirando o Apocalipse! Isso sim interessa. Nosso mundo mudou. Ou  Meu mundo caiu – na bela voz de Maysa...

Quem já não deitou na relva, quando criança, e ficou a olhar rostos de gente ou cara de bichinhos se movimentando entre as nuvens? Que gente estranha eram aquelas! E que fantástica sensação em olhar as nuvens formarem mais e mais rostos diferentes. Aquilo fazia parte dos meus sonhos. Coisas tão simples!

Bons tempos em que eu ficava na praia, olhando e perguntando ao meu pai o que havia lá longe, naquela linha do horizonte, onde céu e mar se encontravam. Aquela linha infinita e misteriosa que me fascinava também fazia parte dos meus sonhos. E com esse mar bravo aqui do sul, nunca esqueci do poema de Casimiro de Abreu, chamado 'Deus', que naquela época já amei. Quantos livros li, quando criança, que me faziam sonhar, imaginar coisas tão belas.

Hoje, os sonhos são diferentes, materializaram-se e ficaram fáceis, viraram metas que o dinheiro compra. Deixamos de ser ingênuos. As mulheres pegam duro, trabalham dois turnos, ficaram independentes; os filhos nas creches, o marido ajudando, lavando, passando, às vezes cozinhando nos fins de semana… E logicamente também trabalhando fora. Tudo é dividido. A vida ficou fácil, compra-se muito pela Internet, colocam o rancho na nossa cozinha. Vivemos apertando botões!

Mas aqueles sonhos da minha infância ficaram lá nas nuvens nos olhando, ora sorrindo pela nossa evolução, ora chorando pelas nossas perdas… Abanando saudosos. E talvez perguntando no que vai dar tudo isso…

E tristes, pois nenhum de nós deita mais na relva  para olhá-los. Não há mais tempo para descobrirmos o homem de barba, o carneirinho… Agora é a vez de ver os extermínios nos jogos dos Smartfones… O zelador do meu prédio nem vê quando chego carregada de sacolas, fica lá matando centenas de virtuais…

Os sonhos da minha geração tinham encanto. Mas isso passou e não levará muito para irmos passear na Lua, em Marte… Antes um sonho absurdo. Imaginem, daqui a algum tempo, poderemos embarcar num ônibus nuclear para passear numa esfera prateada, bela e enigmática que iluminava as noites dos enamorados...

Hoje, aquela lua dos enamorados reina, apenas, como a musa dos poetas – os únicos que ainda conseguem sonhar.





22 de fevereiro de 2014

UM BRASIL 'PADRÃO FIFA'




- Taís Luso de Carvalho

Ando enfadada de tantas informações irrelevantes, de tantas ofertas mentirosas, de tantas conversas fiadas que dá uma vontade louca de ir me embora pra Pasárgada.  Que coisa desgastante. Apesar das alegrias da vida, meu coração muitas vezes pede por mais paz, meu espírito por mais sossego.

O que farei com essa montanha de notícias diárias que não consigo absorver; o que farei com os carentes afetivos e com Patricinhas dengosas que nunca se satisfazem? O que farei com gente que só fala em grifes, carros, viagens e aquisições? Que quero eu saber da bolsa Prada, Chanel ou Louis Vuitton se eu própria tenho outras prioridades? Então penso onde estão as prioridades do Brasil?


O que posso fazer se vivo num mundo com pessoas se odiando, justamente pela desigualdade? O que pode pensar alguém empurrando sua carrocinha e vendo passar um BMW? É lógico que o ódio é enorme. Quem trabalha pode. Mas nem todos nasceram com o traseiro virado pra lua. E esses é que precisam ser olhados pelo Estado.

Nas minhas costumeiras arrumações, achei artigos de jornais de 2008: estamos em 2014 e nada mudou no que toca a exploração dos que retém o poder há séculos. Desses que a gente conhece de perto e que um dia votou neles por infelicidade. Tudo igual. Depois, vem alguém dizendo que sou pessimista,  que a vida é bela se soubermos levá-la! Ai, meu Deus... dai-me forças para não responder a esses disparates. A vida é bela em que sentido?

O livro Made to Break - de Giles Slade, mostra o tanto que somos estimulados a consumir novos produtos sem precisarmos. Somos manipulados diariamente em função de um novo visual,  tudo se torna obsoleto em pouco tempo. Mas essa é a sina dos países emergentes - a imitação. É sonhar com os encantos do primeiro mundo. E tentar comprá-los.

Tenho uma geladeira com 20 anos: tá perfeita, inteira. A coitada se esgaça em sorrisos por ser ainda original. O fogão tem 2 anos e já está derretendo. Marca boa, mas já vai pro lixão, o negócio que compensa é a troca, o consumismo.

Como se não bastasse, temos de estar por dentro de tudo, das últimas notícias, como se isso fosse mudar alguma coisa na vida da gente. Estou um pouco cansada de ouvir todas as trapaças do governo, das gracinhas ditas como se fôssemos palhaços e mal informados. As maluquices se transformam em piadas, e como somos muito extrovertidos e criativos, a coisa anda bem. Corre de boca em boca. Gargalhamos pela extravagância. Depois choramos pela desgraça.


Estou cansada de ler e escutar as últimas exigências da tal Fifa. Nunca vi um país se vergar tanto diante de exigências absurdas e descabidas quando temos coisas sérias pra resolver. Compensará tanto sacrifício? Teremos o retorno e investimentos que falam? Onde? Quando? O que farão com aqueles estádios construídos onde o futebol não tem tradição?

O Inter, de Porto Alegre, precisa 30 milhões de reais (rapidinho) para as tais Estruturas Temporárias: receber os jornalistas no exigente Padrão Fifa - a perfeição. Depois a gente desmonta o troço e seja o que Deus quiser. Algo deverá sobrar para aplicar nas escolas e hospitais  do País da Copa.

Nada mais justo, mas não há mais gra-na! Aliás, nunca houve. O tacho já foi raspado. Disseram que o Estado do RS e a Prefeitura ajudarão, em parte, com uma graninha... E o resto não me perguntem. Escutem a Sala de Redação - Rádio Gaúcha às 13 horas. Lá eles estão por dentro dessas mazelas.

Ah...  fiquei sabendo, também, que a Segurança da Copa no Brasil custará 2 bilhões aos nossos cofres! Dinheirão bom, hein...? Mas to achando pouco...

Mas essa é  outra face da moeda. A real agonia é de um povo chorando para ter saúde, mas que leva mais de ano esperando por uma cirurgia no Sistema de Saúde. Não vou ser injusta em não reconhecer que algumas coisas estão melhorando. Mas lentamente. Tartarugando.

Mas já parei de dizer que tenho orgulho de ser brasileira  e de ouvir que isso aqui é o país do futuro. Estou cansada de sair de casa, à noite, olhando para os lados, observando quem vai encostar sua 'moto' no nosso carro... Não é neura, não. É neura até acontecer com você. Mas esse é o País da Copa - orgulho nacional. Segurança perfeita.

Não faz muito, saímos de férias para uma cidade linda, que parece um paraíso. Paramos numa farmácia e fui atendida (às 21 horas)  através de portas de grade. E eu do lado de fora, ali, á mercê...  Onde irão esconder essas e outras realidades? 

Estou exausta em ver gente deslumbrada, malhando suas coxas de sapo, se fresqueando, enquanto  um monte de pessoas esperam meses por uma cirurgia de osso para conseguirem caminhar para trabalhar. Mas esse é o País da Copa!

O azarão do brasileiro é ser um povo muito festeiro: uma cervejinha faz esquecer os problemas. Penso que quando passarem todas essas festanças, alguns sintomas ficarão: a Colombina vai pro brejo, o Pirata se afoga na cerveja, o Brasil rola a dívida e o povo morre nas filas de espera. Como sempre.

Porém, nessas alturas dos acontecimentos, faltando pouco tempo para a Copa, penso que de nada adiantará termos nossos ataques de fúria. Vamos esperar as águas baixarem, o povo se acalmar e depois lutar por um país padrão Fifa - segunda a PresidentAA: ótima saúde, educação perfeita, resolver os inúmeros  problemas dos transportes e uma segurança realmente eficiente. E revisar  a Constituição - nossa lei maior -, não seria má ideia... 

Isso é pedir muito pouco pelos altos impostos que pagamos: para onde vai nosso dinheiro?  São 5 meses trabalhando para pagar impostos. Mas ninguém sabe, ninguém viu.

Mas não será neste ano de eleições que eu entenderei alguma coisa: no momento, só entendo de demagogia. E como.

Vou lá tomar  um Buscopan, Lexotan... um coquetel de paciência.





16 de fevereiro de 2014

CONHEÇA SUA INIMIGA: A BARATA



- Tais Luso de Carvalho

Ando com dúvidas se tenho fobia por barata ou coisa pior. Tenho de entender o porquê desses insetos me causarem tal pavor. Mas com fobia ou sem fobia vou atrás, até que consiga seu extermínio. É a tal da superação: ou mato ou morro. É uma fobia diferente: busco a guerra. Como sempre, é melhor conhecer os nossos inimigos e suas armas de destruição. E fui buscar conhecimentos.

As baratas existem há 350 milhões de anos! São 3.500 espécies conhecidas, mas somente 35 vivem em ambiente doméstico – o que já leva muitas mulheres à loucura. No Brasil as baratas mais comuns são a Blatella Germanica e a Periplaneta Americana. Pra mim tanto faz seus nomes, suas classificações. Barata é barata.

Conheci as cucarachas dos hermanos (Argentina), são uns horrores. Pareciam ter cinco mil anos. Apresentaram-se com uma grossa camada de poeira, coisa assustadora.

As baratas comem de tudo, mas adoram gordura. Uma boa panela suja, esquecida à noite, é um prato cheio. Como andam e fazem cocô sobre os alimentos, carregam germes por onde passam e transmitem doenças como a cólera, herpes, hepatite B, alergias, diarreia, febre tifoide entre outras tantas. Penso que já está de bom tamanho essas consequências por vivermos no mesmo mundo. Ou no mundo delas, já que estão aqui há mais tempo.

Vivem em média 2 anos. As fêmeas põem 50 Ootecas (aqueles saquinhos medonhos que protegem os ovos). Cada um dos saquinhos tem 16 embriões desgraçados, que nascem em 45 dias para o tormento do mundo.

Eu não sobreviveria 45 dias sem comida, 15 dias sem água e 3 dias sem cabeça, mas as baratas conseguem: elas resistem porque seu sistema nervoso é difuso e não depende da cabeça para funcionar. Nós, sem cabeça, não servimos pra nada.

Quase sempre vi baratas morrerem de costas, algo que me intrigava. Isso acontece porque seu casco é mais pesado que o corpo e, quando elas ficam tontas, perdem o equilíbrio e viram de barriga pra cima. Esse é o motivo.

Muitos pensam que numa guerra nuclear, as chances de sobrevivência das baratas seria de 100%. Um pouco de exagero, mas que suportariam mais do que nós e outras espécies não há dúvidas. Isso aconteceria devido aos lugares subterrâneos que habitam, portanto estariam protegidas das radiações, como também se alimentariam de qualquer matéria orgânica. O que não faltaria, naturalmente.

Para cada barata encontrada, podem haver dezenas ou centenas de outras amigas escondidas. E quando aparecem é porque estão famintas e com sede.

Os predadores da barata são as lagartixas, formigas, aranhas, escorpiões, fungos, ácaros…

Estou pensando em criar alguns bichos desses dentro da minha casa, depois vendo a ideia, já patenteada. Bem que faz alguns anos que não me aparece uma barata. Mas deve ser sorte.

Mas o que me deixa muito incomodada não é por conseguirem viver 3 dias sem cabeça e eu ter de topar com uma delas. O que me incomoda é quando vejo uma mostrenga dessas na calçada do meu prédio e meu marido clamar por sua vida!

Não mata, deixa o bichinho seguir
Mas se ela aportar lá por casa?

E não matei! Devo estar doente da cabeça...
Existem certas coisas que preciso renascer para acreditar.

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Leia outra aventura com baratas: aqui!




9 de fevereiro de 2014

MEDOS




         - Tais Luso de Carvalho

Faz muito tempo que penso escrever sobre esse assunto. Aliás é o mesmo medo do padre Fábio de Melo em entrevista dada à Marília Gabriela: o medo de ser enterrado vivo! Poxa, padre, você tirou daqui, ó! Fico solidária com você nessa agonia que lhe tira da casinha. Que lhe deixa mal.

Já pensaram que loucura? Tenho um medo mórbido por fogo, e sou meio claustrofóbica. Não posso pensar em ficar presa num caixão rodeado por cimento. Preciso de espaço. Morrer sim, mas esticada, com espaço!

O ideal seria partirmos tipo o filme Ghost: vamos caminhando entre as nuvens, sumindo não sei pra onde, mas com certeza para um lugar melhor do que esse, sem dúvida. E com aquela música maravilhosa - Unchained Melody -acompanhando nossos passos… Morrer assim dá gosto! É emocionante.

Fiquei pensando de onde veio isso, essa minha neura. Pois foi da mesma maneira que veio a do padre Fábio! Veio da infância, por parte de minha mãe, que era uma pessoa que não tinha problema nenhum com a morte. Brincava. Contava as histórias que lia e que ouvia. Mas que tinha medo de ser enterrada viva... ah tinha! E teve a gentileza de me passar esse horror.

Ainda estou decidindo se escolho cemitério ou crematório – logicamente quando todos passarem e eu passarinho - como dizia  Quintana -, estará decidido; que decidam por mim. Seja o que Deus quiser. Por enquanto estou vivendo uma vida boa, alegre e pensando, de mentirinha, na minha eternidade. O planeta azul é lindo, principalmente onde o homem ainda não chegou.

Mas também tenho outros medos, e esses fazem parte da conjuntura social em que vivo: ser sequestrada. Se eu soubesse, de antemão, que o ladrão seria bonzinho, que seria educadinho e levasse apenas bens materiais, talvez minimizasse meus medos.

Também tenho medo de AVC, daquele tamanho família, que nos bloqueia, nos incapacita e passamos a depender dos familiares, dando um trabalho de cão.

Tenho medo de incêndio: como meu edifício tem muitos velhinhos – acima de 90 anos –, tenho medo que um deles, já meio esquecido da vida, esqueça algo ligado… Sim, penso nisso, principalmente no inverno onde ligam suas estufas e dormem. Volta e meia sinto cheiro de algo queimando e fico meio desatinada. Moro em andar alto, e sair correndo e encontrar esses velhinhos descendo as escadas não seria moleza. 

Tenho medo da revolta dos desassistidos desse país,  cujo número está crescendo e os cegos lá do poder central não enxergam; tenho medo do sistema de saúde, cada vez pior, mesmo para os que tem plano de saúde particular. Os médicos continuam ganhando aquele dinheirinho minguado, vergonhoso. Então dá no que dá: insatisfação, desconfiança. E medo.

Tenho fobia por baratas, não aguento essas coisas fugindo e se escondendo. Prefiro que mostrem suas caras. Não gosto de luta desigual, tem de ser olho no olho para uma batalha campal igualitária e mais justa. Por pouco não digo fraterna...

Também tenho medo quando meus filhos saem de carro à noite… Mas esse medo, não deixo transparecer. É medo de mãe neurótica. Percebi que incomodo e fico quieta.

Mas acima de tudo, tenho medo, muito medo da  Justiça do Brasil... Não é nada confortável pensar nela e ver certas coisas. As consequências de seus atos são cumulativos, e vão deixando rastros para que um dia exploda a mais poderosa e temerosa das bombas: a perda da nossa liberdade civil.
Então, estaremos de volta ao passado... Aquele!


2 de fevereiro de 2014

VIVER: ESQUECER PARA RECOMEÇAR



          - Tais Luso de Carvalho

Recentemente li uma matéria – e gostei muito –, na Scientific American Brasil. Trata-se de uma matéria que está sendo estudada por neurocientistas sobre o processo de formação de memórias: para alterar, substituir e até mesmo apagar lembranças traumáticas. Projetos para que o ser humano seja mais feliz.

Mais um ano, mais um recomeço. Muitas coisas boas aconteceram, outras nem tanto. É normal, faz parte do nosso aprendizado quando buscamos um melhor viver. A vida não é um oba-oba e nem tudo é cor-de-rosa. É pé no chão. O resto é bazófia. E festança.

Crescemos, amadurecemos, perdemos, ganhamos, e continuamos grudados em fatos acontecidos que nunca tiveram a dimensão que um dia lhes foram atribuídos. Na verdade, penso eu, poucas coisas na vida tem grande importância, a maioria é firula e descartável. Mas estão presentes, e se não cuidarmos ficam ali, na espreita, para um dia virarem mágoas que com o tempo petrificam e nos fazem vítimas.

Seria ótimo esquecer de certas coisas que impedem que uma felicidade mais duradoura se aproxime. Esquecer doenças do passado, atitudes agressivas e mentiras. É difícil de passar uma borracha? Sem dúvida. Mas não impossível.

Muitas vezes criamos raízes enormes que se vincularam a um passado remoto, ou nem tanto, mas que já prescreveram seu tempo de validade. Não devem pesar mais. Não podem pesar a ponto de nos preocupar.

Mágoas, ranços, ingratidões, injustiças… Sim, machucam, mas é preciso uma intervenção drástica para extirpar a infecção e curá-la dentro da gente. É como se tivéssemos um enorme furúnculo -, se deixá-lo por muito tempo, a intervenção será cada vez mais invasiva. As sequelas, maiores.

Reconstruir outra jornada é a meta, mas é preciso aliviar o peso da mochila. Cada um sabe o que é melhor pra si. E não é por nada que vários neurologistas estão queimando as pestanas para nos dar uma mãozinha. Para ensinar a apagar lembranças  indesejáveis.

E pensando bem… o que há de tão importante a não ser o fato de levar a vida numa boa e dentro dos princípios honestos? Existem caminhos que dão menos trabalho. E um deles é ser honesto, apesar da maré contra. E é um atalho e tanto.

É preciso honestidade e respeito com nossos sentimentos. Ser honesto conosco é a melhor maneira para vivermos uma vida sem sustos, sem arrependimentos. Muitas vezes nos preocupamos com os outros e esquecemos de cuidar da matéria-prima que há em nós.

Uma das melhores coisas é quando a gente se conscientiza que precisa mudar, seja aos 40, 60, 80... E melhor ainda é quando conseguimos.

E, enquanto eu tiver consciência, quero sentir o saldo positivo da renovação.