21 de julho de 2016

ALMOÇO NO RESTAURANTE JAPONÊS



Taís Luso

Sempre tive paixão por comida chinesa, desde criança. Adoro seu tempero apimentado e o tal agridoce em peixes cozidos. Mas nunca tive a mesma paixão pela cozinha japonesa devido aos peixes crus e frutos do mar, que não sou chegada.
Gaúcha, fui criada com boi na mesa! Costela, picanha, espetinhos com vários tipos de carne. E muita salada como acompanhamento. Hoje não como mais carne vermelha, apenas peixe – e olha lá, muito pouco. Estou mais para vegetariana. Mas nada fanático...
Passei anos a fio rejeitando peixe, principalmente cru, mesmo sabendo ser saudável, o que a carne vermelha não é. 
Mas hoje decidimos, eu e Pedro, visitar um restaurante novo no nosso bairro. E resolvemos enfrentar um Sushi e depois Salmão cru recheado etc e tal. Restaurante cheio, bem frequentado. Levei fé.
Mas o que me intrigou, foi Pedro dizer que seria uma experiência válida, mas que ficaria só nessa experiência, não repetiria a dose.

Ué!! Você nem comeu e já está fazendo o prognóstico? - perguntei.
Eu sei que não vou gostar.
Por quê? Podemos gostar!
Sei que não. Peixe cru não me desce. Não dá.

Veio o rango; olhei… apresentação bonita. Peguei os pauzinhos e fui… Era um prato de salmão recheado de temperinhos e petiscos, todo enrolado. Suco de laranja com folhinha de hortelã numa taça alta, bonita. Não morri de amores pelos peixes, mas acho que gostei, de leve. Tudo bem temperado, decorado, japonês adora florzinha na comida, começa a comer com o espírito. 
Pedro comeu um rolinho de salmão e ficou pior do que cachorro em canoa; comeu o segundo e ficou olhando pra baixo, concentrado, parecia um monge em reflexão. Quando levantou a cabeça, disse:

Pra mim deu!
Ops, como assim? Tá toda a comida na mesa!
Vai me dá um troço.
Então só um minuto, vou acabar de comer…

Fui rápida, não sabia se comia ou ria, mas achei melhor não arriscar mais, o homem estava pálido. E eu já tinha comido o suficiente pra não desmaiar de fome. Tomei o suco e levantamos acampamento.
Era uma vez um restaurante Japonês...
Talvez esquecendo os peixes crus e tentando um Yakissoba, pela primavera... Mas duvido.





15 de julho de 2016

O CHAMADO - POEMA DE PEDRO ESCOSTEGUY


Psicodrama - 1965 / Pedro Escosteguy


                       O CHAMADO 
              
               Carpinteiros
               pedreiros
               médicos
               marinheiros
               também tu,
               coveiro,
               temos trabalho!

               Conclamam-nos
               para refazer
               a obra desfeita
               a estrada desfeita
               a consciência desfeita.

               Vinde de todos os lados,
               artífices,
               semeadores,
               tratoristas
               também tu,
               homem de mão no bolso.

               É preciso debater-se
               em todos os detalhes
               as razões pelas quais
               a obra está desfeita
               a estrada desfeita
               a consciência desfeita,
               para que tudo
               não aconteça de novo.

               Acorrei com vossos instrumentos
               preferidos
               com vossas reservas de entusiasmo
               com o braço disponível,
               sem ódio, sim,
               sem ódio.

               Porque a reconstrução da obra desfeita,
               da estrada desfeita,
               da consciência desfeita
               é trabalho de amor.
               E sobre os escombros
               o tom da rosa é amarelo.


(Canto à Beira do Tempo - Pedro Geraldo)

Pedro Geraldo Escosteguy nasceu em Santana do Livramento/RS - Brasil, no ano de 1916. Em 1938, já morando em Porto Alegre, concluiu o curso da Faculdade de Medicina da Universidade do Rio Grande do Sul, com especialização em Gastroenterologia. Paralelamente à medicina iniciou-se na poesia, migrou para o conto, ingressou nas artes plásticas.
Escosteguy publicou seus primeiros livros de poemas no início da década de 50, quando o grupo a que pertencia, o Quixote, pontificava na vida cultural porto-alegrense. Seu último livro de poemas foi lançado em 1988, um ano antes de sua morte, ocorrida em 1989. 
Como pintor, participou da Vanguarda que, no Rio de Janeiro, revolucionava as artes plásticas brasileiras; como escritor, inventou os anticontos da revista Artista multifacetado. Pedro Escosteguy foi também um animador cultural.  Na década de 50, junto com os companheiros do Grupo Quixote, organizou o Primeiro Festival Brasileiro de poesia e promoveu happenings como a Mostra Popular de Poesia Ilustrada e o Volante de Poesia - eventos que transcorriam nas praças de Porto Alegre. Difícil definir esse intelectual de tantas faces, homem ativo, generoso e delicado, a quem tanto deve a literatura de nosso Estado.
Criou uma obra própria de cunho vanguardista - veiculando através das palavras, pensamentos e imagens uma interação entre a sensibilidade e a necessidade de um posicionamento crítico.
(Poesia Reunida - LPM )


- Em 14 de Julho de 2016 foi comemorado em Porto Alegre, no Instituto Ling, os 100 anos de seu nascimento. Mais sobre Pedro Escosteguy e suas obras no  DAS ARTES.


Clique +
 
 Soraya Bragança 
- PUCRS


  
   Poesias Reunidas 
    ed 1996 - LPM




8 de julho de 2016

POEMA PEDRA FILOSOFAL - de António Gedeão


Maravilhosa   interpretação  de  MANUEL FREIRE  -  Emociona!


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e ouro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.


Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma. é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.


Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
para-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra som, televisão
desembarque em foguetão
na superfície lunar.



Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos duma criança.


___________________

Oficialmente chama-se Rómulo Vasco da Gama Carvalho. Literariamente usava António Gedeão. Nasceu em Lisboa, em 24 de novembro de 1906. Formado em Ciências Físico-Químicas pela Universidade do Porto, onde as ensinou durante 40 anos nos liceus de Camões, em Pedro Nunes, em Lisboa e no D. João III em Coimbra. Publicou seis livros de poesia: Movimento Perpétuo / 1956 – Teatro do Mundo / 1958 – Máquina de Fogo / 1967 – Poemas Póstumos / 1983 e 1984 2ªed. - Novos poemas Póstumos / 1990. Publicou peças para o teatro e um livro de Ficção, A Poltrona e outras Novelas.

Herdou de sua mãe o gosto por ler. Começou a fazer versos ainda pequenino, nos primeiros cinco anos, segundo ele, com a mesma irresponsabilidade com que lhe cresciam os dentes. A conscientização veio bem mais tarde. Publicou seu primeiro livro com 50 anos (Movimento Perpétuo).
"Tudo é efêmero mas observo que muitos poetas, meus contemporâneos, lutam ansiosamente pela sua imortalidade, torturando-se com artifícios especiosos que os levam a enfileirar palavras, muitas vezes sem sentido, ou buscando aspectos gráficos de modo inabitual e chocante".
Diz ainda:
"O poema está dispensado de respeitar qualquer obrigação de ritmo, de rima ou de métrica, o que permite que toda a gente escreva".


_______________________________
Ref: Palavra de Poeta / Portugal pg 15 – Denira Rozário / Civilização Brasileira, 1994.



2 de julho de 2016

LIMITES NA VIDA FAMILIAR




                     Taís Luso
                        
Hoje, ao sair do meu edifício, encontrei com uma vizinha do bairro. Vizinha de anos. Mas estranhei o jeito dela – ficou assustada. Foi quando me disse que tinha tido um AVC há um mês. Foi difícil de acreditar. Antes era uma pessoa muito ativa, esfogueteada e adorava comandar, abraçava todas as causas familiares e pegava para si muitos problemas. E agora um tanto frágil. Mas na luta.
Perguntei se sabia a razão da coisa…Disse que se  encontrava num enorme estresse causado por muitas discussões, e o emocional despirocou... Muita carga. E eu desconfiei disso, quando lhe fiz a pergunta. 
Não há coisa mais estressante do que brigas familiares; família pega direto no emocional e anarquiza tudo, desestrutura,  justamente por confiarmos que família é, quase sempre, um núcleo do bem. Mas é inviável carregar um peso maior do que aquele que suportamos levar.
É comum a mãe achar que os filhos não cresceram e que sua presença é sempre muito necessária. Os filhos casam, mas a mãe continua a aconselhar, mesmo que gere atritos. Discute e torra a paciência do novo clã. Uma vez mãezona, mãezona até morrer. Não sabe o limite para não invadir a privacidade dos filhos.
Além da mulher abraçar os problemas familiares, ainda carrega os problemas do trabalho, do condomínio, se atraca com o síndico, desconfia dos empregados e principalmente abraça a educação dos netos. E comanda, pelo telefone, qualquer mal-estar dos filhos. Santíssima Virgem...
Então eu lhe disse:
Amiga, largue tudo, deixe que cada um cuide de si, vá cuidar de você! Você teve um aviso, percebe? Você abraça todos os problemas, se bate, discute, se gasta e ainda leva umas xingadas por se intrometer Assim você não vai longe!
Fiquei com pena de ver seu rosto assustado, contando o diagnóstico médico, mas...
Certamente não fará mais intromissões, mas continuará percebendo todos os problemas e estressando-se. Reverter a situação requer grande esforço e conscientização dos fatos.
E ao ver essas coisas tento tirar uma lição para minha vida  e rever o peso que posso carregar... Na verdade, penso em carregar o peso equivalente ao de um lápis... Não é meu objetivo ser canonizada depois de morta. Algumas pessoas metabolizam seu estresse de diversas formas. E certas coisas vão nos minando. Isso serve para todos os relacionamentos.
Contei essa história em tom leve, mas isso não quer dizer que a coisa não seja  séria. Livrem-se da praga do estresse, fujam de discussões que não levam a nada.
Aliás, levam sim... Sempre levam.

_______________________________________
 Nesse blog: Família só é bonita em porta-retrato?



24 de junho de 2016

AUTOPSICOGRAFIA – Fernando Pessoa

Lisboa / Portugal


                O Poeta é um fingidor.
                Finge tão completamente
                Que chega a fingir que é dor
                A dor que deveras sente.

                E os que lêem o que escrevo,
                Na dor lida sentem bem,
                Não as duas que ele teve,
                Mas só a que eles não têm.

                E assim nas calhas de roda
                Gira, a entreter a razão,
                Esse comboio de corda
                Que se chama  coração.


________________________________________
Fernando Pessoa – Poesias ed. L&PM Pocket pág 40


Fernando António Nogueira Pessoa (1888-1935) nasceu no dia 13 de junho de 1888, em Lisboa, Portugal, Acompanhou a família à África, recebeu educação inglesa. 
Ocupou diversas profissões: de editor, jornalista, empresário, publicitário, crítico literário e crítico político. 
Fernando Pessoa criou vários poetas que conviviam nele. Bem diferentes entre si. Os heterônimos, isto é, indivíduos diferentes, cada qual com seu mundo próprio, representando angústias, encantos, melancolias e tédios de seu autor. "Mistura-se-me tudo na consciência / e eu sinto que por debaixo existo eu". 
Criou Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis. Ao lado deles F.Pessoa se tornou uma faceta a mais. Faleceu em Lisboa, Portugal, no dia 30 de novembro de 1935.
- Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. (FP)

Neste blog - de Fernando Pessoa:
Segue o teu destino
Poema em linha reta
Biografia de Fernando Pessoa  (Panorama)


19 de junho de 2016

EMOÇÕES





                    - Taís Luso


Há poucos dias, passei por detrás de um móvel aqui de casa e vi algo pequenino no chão. Me agachei para ver mais de perto. Era um filhote de lagartixa, tão pequenina, tão sozinha e desprotegida que resolvi deixá-la onde estava. Fiquei com pena de enxotá-la. Ficaria muto solitária. E a elegi como a mascote da casa, afinal, nenhum mal faria, e quando crescesse, ajudaria a limpar a casa: fora os invasores! E ali ficou, quietinha, talvez com medo de mim, e tentando sobreviver. Abandonada. Não tinha mais de dois centímetros. Era  quase transparente.
Fechei as janelas e saí dali. No dia seguinte voltei ao lugar, olhei para o chão e o bichinho ali. Me agachei, peguei e vi que tinha morrido, ficou durinha, e fiquei com muita pena, tanto é que não a esqueci. Não sei o que houve, talvez alguém passou por ali e pisou no bichinho, sem vê-lo. Era uma vida. Uma guerreira tentando sobreviver num mundo hostil.
Por que vim para o computador escrever sobre esse bichinho? Por que estou segurando minhas emoções?
Revirei minhas memórias. Tudo tem a ver com várias perdas recentes dos nossos animaizinhos de estimação. Os sentimentos se interligam. Escrevo hoje sobre a lagartixa, mas sobre os nossos animais, que perdemos não faz muito, não consegui escrever nada. Jamais conseguiria  um texto à altura daquele amor, tanto da parte deles como da nossa família. E também senti que jamais eu conseguiria suportar uma narrativa maior. Um amor tão verdadeiro não precisa de muito espaço. 
Até uma notinha basta para se juntar às minhas memórias.


__________________________________
                   Meu carinho a todos.


11 de junho de 2016

POR QUE 'MELHOR IDADE' ?


Mulher ao Espelho - 1932 /  Pablo Picasso
                
                  - Taís Luso
Tudo tem seu tempo certo e há uma etapa na vida em que é permitido o quesito exibir. Isto é, se quisermos exibir. Depois, não mais. É o período em que o ser humano está belo, jovem e nem pensa que daqui a pouco as exigências serão noutro nível. É difícil essa conscientização de finitude quando se é muito jovem.
Mas a vida segue com suas exigências, cobrando posturas, aplicando um apagão nas frescuras, nos preparando para uma outra realidade: a Terceira Idade, a Quarta Idade... Mas tudo com calma para dar o tempo de assimilar. Porque a coisa não é um conto de fadas. Tem lá suas artroses e reumatoides pelo caminho...
Não raro, confundimos o nosso meio de campo e nos perdemos nos emaranhados de uma suposta juventude sem fim. Mas chega uma hora em que o espírito e a razão pedem licença para assumir o comando. Chega de fri-fri. A terceira idade tem bem mais a dar do que expôr futilidades. Já passamos por reformas.
Mas não quero dizer, com isso, que mulheres e homens, na terceira idade não sejam bonitos: é um tipo de beleza serena, segura, madura. É um tipo de beleza que germinou de uma alma que foi esculpida por anos. E passou a marcar presença. O traço da maturidade num rosto é extremamente bonito. Tem substância. Tem mais peso.
Bem, aos sessenta anos somos todos condecorados com o nobre título de A Melhor Idade. Mas por que melhor idade? Implico com isso. Será porque os filhos casaram e não temos mais compromissos? Estamos livres para fazermos outras coisas? Parece mais um consolo - ridículo.
A Melhor Idade é aquela em que estamos resolvidos, mais equilibrados e conscientes do nosso papel. E isso pode se dar aos 40, 50 anos. Ou nunca. Minha melhor idade não tem idade, tem amadurecimento, tem outros valores.
Aceitar o envelhecimento sem subterfúgios é mais saudável; é de bom tom sentir-se ótimo, contestando, aplaudindo, produzindo e vivendo. Penso que somos adaptáveis a muitas situações, portanto não vejo o menor sentido em rotular etapas da vida madura. Não existe melhor idade. Existem melhores momentos, e outros nem tanto. Como existem momentos de extrema infelicidade aos 30 anos.
Do espelho, deste amigo que um dia me deu a certeza da juventude, peço que agora me dê a clareza suficiente para ir aceitando as marcas do meu andar. Mas não venha com presentes de consolação; não  venha com  concursos de Miss da Melhor Idade; não venha com ilusões. Quando a esmola é muita, o santo desconfia. Não há necessidade de rotular coisa alguma. Terceira Idade está de bom tamanho e muito claro para todos.
Outro rótulo parece deboche...


___________________________________________



5 de junho de 2016

VIDA VIRTUAL

Automat / 1927     Edward Hopper


                         - Taís Luso
Há uns meses enviei um vídeo para uma amiga – amiga da vida real. Tivemos uma conversa muito boa. Ela faz parte das redes sociais, Facebook e Instagram. Eu faço parte da blogosfera. E como não faço parte de outras redes, quis entender o porquê dessa interação tão intensa, tão íntima, tão exposta. Mostrei-lhe um YouTube que recebi sobre redes. Não deixa de ser interessante, ver de fora, uma engrenagem fantástica, que consegue aproximar e amar uns, e ao mesmo tempo consegue rejeitar e odiar outros. Não entro no mérito do conteúdo. Cada um sabe de si e posta o que lhe convém – desde que assuma suas responsabilidades. Tudo é democrático. Pois é.
Mas nessa conversa, minha amiga me convenceu o porquê dessas redes virarem o centro de atenções de 350 milhões de usuários; por que o Smartphone é um assombro, principal objeto de consumo do mundo; por que vemos tanta gente aderir e dedilhar na rua, nos bares, nos hospitais, nas filas e etc. 
Disse-me ela:
Concordo que a Internet e suas redes sociais podem deixar as pessoas muito no mundo virtual quando elas poderiam estar no mundo real, vivendo, conversando, sentindo e interagindo. Mas e quando a solidão é o cenário mais frequente? A Internet dá, ao menos, uma sensação de que estamos em contato. Infelizmente, os seres humanos precisam uns dos outros. Os animais, que são melhores que nós, não nos bastam. Somos seres sociais. A solidão corrói Precisamos do acolhimento e da troca. Ninguém cresce e evolui sozinho. Por isso, as redes sociais, ainda que de forma muito superficial, cumprem uma função para os solitários: permitem a expressão de pensamento e a troca de opiniões, algumas risadas com bobagens, alguma informação e, por vezes, um encontro real de amigos que há muito não se viam. E também um pouco de inveja e nostalgia das fotos dos outros que mostram uma interação real, quase como um comercial de margarina.”
Entendi e nesse ponto lhe dei razão. Logicamente fiquei com muita pena e surpresa, mas aprendi e vi o quanto as redes sociais são úteis nessas circunstâncias. Mas é uma questão de conscientização, de aprendizado, de comportamento para a outra turma que não padece de solidão. Também constatei o quanto as redes podem ser eficazes e positivas para dar a palavra e poder ao povo. Tivemos o exemplo recentemente nas convocações para as manifestações e passeatas no Brasil. Jamais daria para convocar o povo sem o Vem pra rua, Brasil!
Incrível como a vida virtual está caminhando paralela à real. Mas a questão é  saber dosar.




1 de junho de 2016

UMA VISITINHA À CIDADE MAIS FRIA DO MUNDO

                      O rio congelado e a  ponte  de Yakutsk - Rússia / Sibéria                             


- Taís Luso

Cruzes. O frio é uma das sensações mais desagradáveis para quem não está acostumado a ele, para quem não nasceu numa terra fria. Passou a curiosidade, o negócio bom é dar no pé antes que caia o nariz, endureçam as pernas, gangrene os pés e a língua se enrole. Já peguei na Serra Gaúcha temperatura em torno de – 5º C, o que para os nativos da cidade de Yakutsk deve ser alto verão. Não consigo me imaginar num lugar desses, uma vez que aqui no sul do Brasil quando faz zero graus vira assunto regional e quase coisa de segurança pública. Bem que quando enfrentamos 40 graus de calor também não deixamos por menos. O Brasil é 8 ou 80. Tudo meio desequilibrado. Enquanto no nordeste faz 38º C, aqui no sul faz 15º ou 20º C. Tem de tudo para todos os gostos.
Bem, chama-se Yakutsk, capital de Yakutia/Rússia, na Sibéria Oriental, onde vivem 300.000 habitantes. Foi fundada em 1632. Fica ao longo do rio Lena, que por sinal também congela. Para mover os barcos só esperando a primavera chegar, até lá o rio vira estrada. Logicamente a cidade tem passagem subterrânea para os nativos e visitantes circularem a fim de evitarem o frio. Ilusão.
As crianças brincam na rua, mas por um tempo de 10 minutos quando a temperatura despenca, pois o frio intenso danifica os pulmões, congela as sobrancelhas, pestanas e a respiração torna-se difícil. Peixe não precisa de geladeira, congela na rua. 
Com 20 ºC a umidade no nariz congela e vem a tosse; aos 35º C a pele exposta ao ar fica dormente e a necrose é um grande risco; e aos 45º C fica difícil de usar óculos, o metal gruda no rosto e nas orelhas e rasga pedaços da pele quando tentam tirá-los. As pernas não existem para os forasteiros, loucos por uma aventura. O que se aguenta são 13 intermináveis minutos na rua.
No mês de janeiro a média por lá fica em torno de 40º C e a visibilidade na rua em torno de 10 metros. Os nativos dizem que a temperatura em torno dos 45º C não é dos maiores frios.
Quando a temperatura despenca para 52 C, as aulas são suspensas. A menor temperatura em Yakutsk foi de 64º C em 1891. É considerada a cidade mais fria devido à sua média alta.
Logicamente muitas pessoas se perguntam como alguém pode morar num lugar desses. Nada é de graça: abaixo de todo o gelo e de alguma terra, encontram-se tesouros: ouro, diamantes e outros minerais preciosos! O homem de bobo não tem nada.
Outras cidades na Rússia atingiram até72º C, como Verkhoyansk, mas a média é mais baixa. 
Porém, o ponto mais frio do planeta chama-se Ridge A, com temperatura média de 70º C e a 4 mil metros de altitude, mais alto que a cidade de La Paz, na Bolívia e a 600 quilômetros do polo sul. Deve ser lindo, mas ver essa beleza por foto já satisfaz. Ridge A é muito hostil para haver vida - se é que existe alguma por lá -, mas perfeito para a ciência. O céu extremamente limpo, com poucas nuvens e sem água (a umidade relativa do ar é praticamente zero), faz de Ridge A  o lugar perfeito para a instalação de um telescópio. "É o lugar mais próximo do espaço que você pode alcançar sem sair da Terra", afirma o cientista atmosférico Patrick Minnis, da Nasa.
Segundo pesquisas, países de clima frio e com pouca luminosidade geram mais quadros de depressão do que em países de clima quente.

casacos de pele, por baixo roupas térmicas

difícil sair...

mercado de peixe congelado ao ar livre...

veja vídeo



Suporte de dados técnicos:
Casa Vogue, Revista Super Interessante e Slide Share.





26 de maio de 2016

A LEI DO SAL E DO PALITO NOS RESTAURANTES

Restaurante em Arles - 1888 / Vincent Van Gogh


      - Taís Luso



Pois é, eu e Pedro almoçamos sempre fora, nada mais prático. Existem incontáveis restaurantes estilo 'por quilo e livre' – sinônimo de boca nervosa.  Mas esses restaurantes são ótimos, cronistas encontram histórias. Tem de tudo um pouco, principalmente observando os detalhes.  Bons no serviço e na coleção de coisas bizarras,  que vamos vendo no decorrer do almoço. Quando os filhos aparecem, pedimos algo em casa.

Sinto não poder chamar a atenção do meu marido – já que somos cúmplices na arte de observar. Eu sou discreta, meu olhar anda por cima como se nada visse, enquanto Pedro roda a cabeça 180 graus e pergunta em tom alto...

        - Onde, onde, onde?

Pronto. Isso é o suficiente para estragar minha pesquisa. Mas agora o assunto é outro: quando me servi de verduras, notei que faltava sal. Na mesa não havia o saleiro. Perguntei ao garçom sobre a ausência do sal.

       – Agora é lei, senhora, sal e palitos não podem ficar na mesa. Estão à disposição  na entrada, na mesa do buffet. Ficam em saquinhos. Mas eu busco pra senhora.
          – Péra! Palitos? O que tem o palito?

Foi lá. Voltou com 4 pacotinhos de sal e 3 palitos embalados que eu não pedi. Mas tudo bem, sei que os palitos são excêntricos e nunca bem-vindos, mas não precisavam massacrar o coitado diante de uma nação meia boca. Não sabia do palito enquadrado numa lei. Coitado.

E a lei dos palitos me fez lembrar da situação atual do país. Temos inúmeros problemas no Brasil, um raio de mosquito infectando milhares de pessoas, esgotos a céu aberto, servindo de criadouro, e os vereadores de Porto Alegre vão se preocupar se a população come muito sal ou escarafuncha os dentes? Isso tem relevância? O palito e sal permanecem no restaurante, só que na mesa do buffet! Apenas mudaram de lugar, trocaram 6 por meia-dúzia. Concordo que palito é desagradável, mas as verduras são bem lavadas? Há uma fiscalização?

Me veio à cabeça o Mensalão, o Petrolão, o LavaJato e até o Juiz Sérgio Moro! Os caras preocupados com um palito e a Petrobrás ardendo em chamas, assaltada, valendo quase nada. O país com um déficit fiscal de 170,5 bilhões de reais e o pobre do palito lá, desmilinguido, sofrendo bulling. Os Estados com a corda no pescoço, pagando salários atrasados e os vereadores preocupados com saleiro na mesa. Pô, gente, não tô acreditando: se for para fazer leis, a primeira a ser vista é a corrupção desse país em todos os setores. Não adianta os políticos saírem de um partido ou afastados de um cargo, e voarem para outras funções. É o que está acontecendo.

Mas adoro essa seriedade e esse espírito criativo com leis como essa, de tamanha relevância. Os Vereadores preocupados...  Durma-se com esse barulho.

Mas para não dizer que não falei de flores, espero que cuidem da nossa segurança, saúde, educação e a credibilidade do país, para futuros investimentos internacionais que estão sucateados. OK?
Haja coragem para investir por aqui.