28 de fevereiro de 2015

COMERCIAIS: AMAMOS OU ODIAMOS




        - Tais Luso

Enlouqueço quando aparecem na televisão alguns comerciais barulhentos, chatos e poluídos. Uma gritaria só, e pouco se absorve. E a empatia vem no primeiro dia: é amar ou odiar, deixar correr ou tirar o som. Ou aproveitar o intervalo e dar uma espiada noutro canal?

Quando entram as propagandas, o som da televisão vai para as nuvens, coisa que dá a impressão de sermos todos deficientes auditivos. Quando nos damos conta, a família está completamente esquizofrênica. A primeira atitude é de raiva, a segunda é de não comprar o produto. Mas parece que as emissoras não sacam esse tipo de coisa.

Existem comerciais lindos, verdadeiras pérolas. Não agridem a visão nem os tímpanos. Até tocam o coração, acariciam nossos sentimentos. 

Uns marcaram época: o magrão do Bombril, o baixinho bigodudo da cerveja, a menina do primeiro sutiã, a sensual morena chamada Verão - que faz comercial de cerveja. Um comercial antigo, dos cobertores Parahyba, anda pelo YouTube como algo singelo de uma época. Meigo. Muitos publicitários são geniais, e destaco o meu preferido, Washington Olivetto, com seu criativo comercial sobre a PAZ, entre tantos outros. 

Existe atualmente um comercial de um produto para matar baratas que me deixa alucinada. Quando vejo aquilo penso em suicídio! Torço pela barata!! Confesso que tenho fobia por baratas, mas nunca gritei daquele jeito, nunca saí em disparada, nunca fiquei histérica. Ao contrário, vou pra cima do bicho, com o coração a 130 batimentos, mas bem menos espalhafatosa e dramática. Entro pro duelo, com alguns urros, certamente, mas perto daquelas duas criaturas do comercial, acho que sou normal. Mente sã! Posso falar desse comercial porque ele entra dentro da minha casa, e grito de mulher é coisa apavorante. É tipo morte anunciada.

Mostro abaixo, um comercial da Tigre, sobre reunião de condomínio. Sensacional, engraçado e criativo. Passei a pensar em todas as reuniões que fomos e do porquê das pessoas participarem cada vez menos dessa coisa cheia de trambiques e conflitos que chamamos de reunião de condomínio. Ali se apresenta uma das piores partes do ser humano, quando ele cuida exclusivamente de seus interesses. Claro, tem outras piores... sem dúvida.

Há outro comercial - numa rádio - que desperta em mim os mais primitivos instintos - como dizia um político desse país. Não entendo o motivo de um narrador de futebol se esganiçar tanto na hora do gol. Mas já é de praxe aquela gritaria compulsiva e enlouquecedora. Fico quase em coma. Mas assim sou eu. E tenho certeza que assim morrerei.


Veja esse comercial !


Aqui, o Comercial da Barata (mas volte!)



21 de fevereiro de 2015

A PESTE NEGRA NA IDADE MÉDIA


Em meados do século XIV o continente europeu ficou marcado como uma época de grande sofrimento. Em 1347 a Itália era próspera, populosa e atraia muitos forasteiros.
A mais terrível peste que abateu a Europa e dizimou um terço de sua população foi a Peste Bubônica, também chamada de Peste Negra devido às enormes manchas escuras que se faziam presentem por todo o corpo dos infectados.
A praga, espalhou-se pela Europa vinda da Ásia central que transitavam pela rota da seda, de regiões isoladas da China e Índia, num processo de interação comercial entre Oriente e Ocidente.
Na Sicília, no porto de Messina, os mercantes italianos, que retornavam do mar Negro, já se encontravam contaminados, devido aos ratos que eram hospedeiros das pulgas infectadas.
Num clima de fanatismo religioso, desolação e resignação, e já no ano de 1350, o papa Clemente VI, anunciava o Ano Santo instruindo os peregrinos a rumarem na direção de Roma, onde receberiam o direito ao paraíso sem passar pelo temido purgatório. A convocação causou um enorme êxodo e contribuiu ainda mais para o alastramento da peste, uma vez que muitos já estavam infectados.
Em 2 meses a peste se espalhou pela Itália, Espanha, Inglaterra, França, Áustria, Hungria, Suíça, Alemanha, Escandinávia e países bálticos.
Os ratos estavam contaminados com a bactéria Yersinia pestis, porém na época nada sabiam sobre isso. E as pulgas destes roedores transmitiam a bactéria aos homens através da picada. Nada era capaz de interromper a voracidade com que a pandemia se disseminava. A peste era voraz, atacava os nódulos linfáticos, a virilha e pescoço. Febre alta e o aparecimento de bolhas, pus, sangue e vômito provocavam a morte em menos de 24 horas.
Estes roedores encontraram em muitas cidades europeias um ambiente favorável, pois estas possuíam condições precárias de higiene. O esgoto corria a céu aberto e o lixo acumulava-se nas ruas. Rapidamente a população de ratos aumentou significativamente.
Os abastados foram os primeiros a tentarem fugir da peste, abandonando os locais onde havia maior infecção. O clima era de terror, fazendo com que muitos se exilassem em seus próprios lares. Advogados se esquivavam de fazer os testamentos dos moribundos; clérigos se esquivam a dar a extrema-unção; trabalhadores fugiam dos campos para outras cidades; cidadãos se evitavam; parentes mantinham-se distantes.
Esfomeados, adoentados e fracos, os europeus não mais enterravam seus mortos, que eram milhares por dia. Os corpos iam-se avolumando nas ruas, fedendo de forma insuportável e atraindo cada vez mais ratos, e insetos proliferadores de doenças. Imigrantes, viajantes e peregrinos nenhum desses eram bem-vindos em meio à turbulência causada pela praga.
A violência tornou-se evidente. Não havia dúvida que a discriminação e a perseguição com outras etnias também eram evidentes. Tinha de haver culpados e bodes expiatórios. E cometiam-se injustiças. Barbáries.
Relatos da época mostram que a doença foi tão grave e fez tantas vítimas que faltavam caixões e espaços nos cemitérios para enterrar os mortos. Os mais pobres eram enterrados em valas coletivas, apenas enrolados em panos.
Vendo esse cenário, e vencendo sua própria dor, fome e doença, um homem resolveu minimizar o problema, passou, mesmo contra a visão da igreja e dos homens, a incinerar os corpos caídos nas ruas. Promovia imensas fogueiras que, com o gás natural dos corpos, atingiam proporções alarmantes. Essa queima dos corpos diminuiu consideravelmente o cheiro nas ruas e afastou os ratos causadores da peste. Com essa determinação, esse homem devolveu aos homens a vontade de lutar.
O homem que incinerava os corpos chamava-se Lázaro, posteriormente canonizado pela igreja católica. A morte de um terço da população europeia, resultou em escassez de mão de obra e provavelmente contribuiu para profundas mudanças sociais e sensíveis melhorias.
No ano de 1351 a Peste Negra cedeu; a Europa dilacerada, após 5 anos de horror, levou séculos para se refazer. O medo pairava, fecharam-se para visitantes - atitude justificada pelo medo da volta de uma nova pandemia.


Não deixe de ver esse vídeo...



16 de fevereiro de 2015

OS LIMITES DAS CIRURGIAS E A ÉTICA MÉDICA



  - Tais Luso

Vendo essas árvores que lutam para viver em lugar inóspito é que veio à minha mente o que nós, seres humanos, fazemos com a nossa vida; o pouco valor que damos a ela, o nosso maior bem. Em vez de cuidarmos dela, vamos em busca das coisas jocosas ou dantescas, sempre insatisfeitos, correndo atrás de uma aparência idealizada ou arriscando a vida por bobagens, em busca de adrenalina - como se já não a tivéssemos ao natural...

No domingo, vi uma entrevista na TV Record com uma moça linda, mas que resolveu ficar mais bela do que já era. A sua beleza não era o suficiente para sustentar a sua vaidade. Uma vaidade doentia  segundo ela. E fez inúmeras cirurgias. Lembro que a jovem falou em cortar os dedos dos pés para poder calçar sapatos número 37, já que seu número era 39, e não encontrava sapatos bonitos. Cruzes! Me segura...

Entre as tantas cirurgias feitas, a última foi quase fatal. O estrago deixado pelas substâncias injetadas foi grande,  se deslocaram e deformaram suas pernas. E a outra substância colou na musculatura, para sempre.

A mesma coisa foi feita em dois rapazes brasileiros, que também não passaram bem;  querem para si o rosto e corpo do boneco Ken. Naturalmente fui para o Google ver a cara do tal do boneco Ken. Fui ver se valia a pena tanto risco. Nada demais, apenas um boneco – o namorado daquela  boneca Barbie  que aliás, tá cheio de jovens mulheres fazendo o mesmo para ficarem igual a ela. Não sabia que boneca tinha namorado, mas tudo é possível hoje em dia.

Vejam: a pessoa com anorexia sempre se vê gorda diante do espelho e comete os procedimentos que conhecemos para perderem a gordura imaginada. Pois bem, existe uma doença chamada dismorfofobia, doença em que a pessoa se vê feia ou mais feia do que realmente é. Medo de ficar disforme. E daí pra frente as cirurgias não param. Essa explicação foi dada por uma psiquiatra.

Mas o que me deixa perplexa é o procedimento de alguns cirurgiões. Vi, na Internet, algo terrível, vulgar, grotesco: uma mulher com o maior peito do mundo! Mas... péra, onde está a ética dos médicos que topam fazer um troço desses? Como pode algum cirurgião colocar quase 20 litros de silicone nos seios de uma mulher só por que ela pediu? Os pacientes não pensam, não enxergam. Estão doentes. Mas o médico sabe que aquela atitude não é de uma pessoa normal. O correto seria encaminhá-la a um psiquiatra para tratar aquele transtorno.

Assim vejo centenas de pessoas fazendo inúmeras intervenções para conseguirem não sei o quê. Fiquei perplexa vendo mulheres tão jovens e já com quilos de cirurgias. Muitas. Dos pés á cabeça. As bocas ficam tipo boca de pato, terrível. Ainda não consegui ver a beleza daquilo. Que indústria poderosa.

Porém o que está em alta, atualmente, é a cirurgia para remover as bochechas! Deixar o rosto mais afilado. Um cirurgião, ao ser questionado, esclareceu que é uma intervenção perigosa. Caso afete um nervo facial, a mulher ficará com cara de quem teve um AVC. Mesmo assim elas fazem. Me segura aí!!

Que gente é essa que valoriza tanto os corpos sarados, seios postiços, traseiros enormes, costelas retiradas, contornos faciais, bocas de pato, enormes seios para seguir uma moda onde há milhões de dólares por trás de tudo? Hoje, mais do que nunca, não só nas ruas, nas estradas, nas montanhas e dentro dos hospitais, a vida anda por um fio... E ver uma singela plantinha desabrochar, lutar para viver, dá o que pensar...





8 de fevereiro de 2015

NEM TUDO SÃO FLORES


          - Tais Luso
Quando levo meu cachorrinho para passear, meus olhos vão descobrindo alguns terraços cheios de flores, janelas com cortinas de crochê e bebedouros para os bem-te-vis. Um encanto! E cada dia que faço este passeio parece que esses terraços são mais e mais festivos, e que existem pessoas muito felizes naqueles lares. O sol, as flores, os bem-te-vis... Naturalmente penso, imagino e fantasio a vida de cada um daqueles recantos vistos com alegria de quem apenas passa.
O que estarão fazendo os habitantes daquelas casas e apartamentos? Serão realmente felizes? É difícil imaginar que por detrás daqueles jardins encantados possa existir alguém triste, solitário e com uma montanha de problemas. Mas existem; as flores e os bem-te-vis camuflam a realidade que se imagina no seu interior.
Mas gosto de ver, são momentos de ilusão, uma vez que me afasta da violência da cidade, das encrencas entre as pessoas - em parte civilizadas -, e me permite pensar que a vida se apresenta sempre maravilhosa. Deve ser o poder das flores!
Percebi que só tive esta ilusão porque supervalorizei o que estava longe. O que é inacessível e desconhecido aos outros,  torna-se misterioso.
Mas aquela imagem me levou a pensar em outra coisa: será que as pessoas não se tornam ídolos justamente porque são inacessíveis?
Fico curiosa com biografias de grandes nomes e tenho interesse pelos aspectos ocultos de grandes vultos, de cientistas e pensadores que fizeram a história da humanidade. Os ídolos nunca são nossos iguais: precisam ficar no patamar da nossa admiração, protegidos da curiosidade humana, envoltos num mistério que nos fascina. No momento que se desnudam aos nossos olhos, a coisa muda.
Por isso, não gostaria de adentrar nos terraços da minha rua; poderei olhar as flores, os bem-te-vis e pensar, por momentos, que o caminho que tracei para passear com meu cachorro é um percurso lindo, alegre que alimenta meus sonhos num mundo imaginário. Depois volto à realidade, pronta para levar o dia, com seu lado hilário e outro mais sério, afinal, nem tudo são flores. Mas se quero um pouco de fantasia, penso que  preciso manter a distância  das flores, dos terraços e até dos bem-te vis que estão pelos caminhos da minha rua. Olhá-los de longe...
É um  presente para minha imaginação...



2 de fevereiro de 2015

MAIS ANOS DE VIDA...



      - Tais Luso

De vez em quando chega no blog algum comentário em crônicas antigas, e naturalmente vejo os rostinhos das pessoas que lá deixaram algum parecer, na época. E numa das postagens, de 4 anos atrás, revi uma leitora - sempre muito carinhosa em seus comentários -, mas naquele ano, faleceu. Cliquei no blog dela, deixou lá um pedacinho de sua vida. Está lá seu blog e sua postagem que se refere ao 'seu' tempo.

Saí de lá com pesar. Tão jovem e cheia de sonhos! Vi seu rosto alegre e não deu outra: comecei a pensar no tempo que temos. E atrás de mim, meu som tocando Chanson D'enfance, cantado pela Sarah Brightman. Parece um complô.

Por que nós humanos, alguns reconhecidos como geniais, temos um tempo tão curto, enquanto uma tartaruga vai além dos 180 anos, fácil, naquele seu passito indolente?

Pena que usamos nosso tempo para tantas discussões, tanto exibicionismo, disputas idiotas, intromissões na vida alheia, tantas mentiras, arrogância e uma enorme ganância - coisa muito na moda atualmente. E os órgãos competentes meio anestesiados.  

Nossa espécie caiu num baita vazio, consequência demasiada da valorização e dependência excessiva da opinião dos outros. Nossa vida é exposta 24 horas - do simples café da manhã até um jantar mais elaborado.

- Tira aí uma selfie e toca tudo na 'rede', amiga!

E nem falo nas inúmeras cirurgias desnecessárias: bota bochecha, tira bochecha, bumbum, seios, lábios, coxas, costelas, dentes brilhantes, lipos, etc. etc.

Ninguém gosta muito de pensar no tempo, dá um certo desconforto, entendo. Mas penso o que alguém faria com uns cem milhões  ou um bilhão de reais ou dólares, seja o que for, zanzando por aí em mãos que não são donas da grana. Roubam para outras gerações se beneficiarem. Seria cômico se não fosse trágico. Cadê o tempo para gastarem essa grana meio 'na moita'? Panacas...

Não me passa pela cabeça o que eu faria com esse dinheiro. Não tenho grandes sonhos materiais. Para mim e minha família gostaria de algo que nenhuma grana conseguiria comprar: gostaria de viver o tempo que vivem as tartarugas. Seria ótimo, um bom tempo para o aprendizado com tudo e com todos. Tempo para entender nossa espécie.

Gastaria meus inúmeros anos numa confortável casa, numa Serra, sentindo o sol, as montanhas, acompanhando as descobertas que beneficiassem a humanidade; viveria amando e vivendo discretamente. E mais:  tenho certeza que faria algo pelos animais: compraria um enorme lugar para abrigar todos os animais maltratados, doentes e abandonados que chegassem ao meu conhecimento. Teriam casa, comida e carinho.

Todos tartarugando em paz e felizes! 
Pra que mais do que isso?





25 de janeiro de 2015

ESSA MOÇA NÃO PRESTA / Roberto Gomes



Pedro Luso e eu, recebemos o livro mais recente enviado pelo amigo escritor Roberto Gomes, residente em Curitiba.  O livro chama-se A Guitarra de Jemi Hendrix.
Esse seu último livro contém 15 histórias com um humor refinado, mas picante, estilo próprio do autor. Escolhi para postar o conto Essa moça não presta porque apresenta um tipo de mãe, de filho e de nora igual a muitos casos que conhecemos. Aiaiai... haja harmonia familiar!! Algumas mães quando não morrem de ciúmes, esculhambam com tudo e botam fogo no relacionamento. Mas as vezes existe aquele sexto sentido que até procede.  Mas vejam o resultado... 

ESSA MOÇA NÃO PRESTA (conto)

Eu avisei.
Fez uma pausa, esgrimiu a colher de pau no ar e desafiou:
Não avisei?
Mergulhou a colher na panela onde fumegava a polenta. Aumentou o tom da voz:
Não avisei?! - Irritada, exigindo resposta.
Avisou, tia.
Pois assim é. A gente avisa, alerta, adverte, cuida, indica, aponta. Não adianta. Que adianta ter mais experiência do que este fedelho? Nada. Filho não houve mãe. Acha que a gente é besta.

Calou-se e, resoluta, voltou a mexer a polenta.
Agora dera para isso, pensava a sobrinha, calculando que aquela era a décima conversa sobre o mesmo assunto. Que conversa que nada. Ela falava e a sobrinha ouvia. Repetia que nem precisava chegar perto daquela sujeita. Era assim que a tratava: sujeita, criatura, desenxabida, boca mole. De longe, ali mesmo da porta da cozinha – olha ela lá na calçada, com aquele jeito molengão – podia apostar que era a própria cascavel. Não a enganava.

Uma mulher decente pode ter uma bunda daquelas? Perguntou à sobrinha enquanto a nova namorada do filho entrava portão adentro. Não esperou resposta. Disse:
Pode alguém rebolar assim? Isso não presta. Aposto.
Imagine, tia, que implicância! A moça é bonita, só isso.

Ela disparou na direção do quarto, deixando no ar a frase que repetiria nos dias seguintes:

Boniteza é uma coisa. Safadeza é outra.

Mandou dizer que estava na cama, uma dor de cabeça violenta, desculpassem. O filho e a namorada ficaram plantados na sala, diante da prima, que acrescentou desculpas e mentiras.

Cheguei aqui ela estava pálida, fria, pensei que fosse desmaiar. Foi quando começou a dor de cabeça.

O filho não acreditou naquela encenação. Ao telefone, meia atrás, a mãe o atendera com a voz clara, alegre, lembrando que ele prometera levá-la ao cinema. Quando disse que passaria em casa em seguida, com a namorada, ela tossiu e rosnou:

Tá.

Desligou o telefone.
Agora, trancada no quarto. Ele bate de leve, tenta abrir a porta. Estava só de combinação, não podia abrir, ela resmungou. Além disso, a dor de cabeça não a deixava em paz, estava até com tonturas. E arrematou:

Melhor você ir ao cinema com seu novo amor.

Aquele “novo amor” confirmou as suspeitas dele. Não havia nada a fazer. Conhecia a mãe que tinha. Não arredaria pé nem um milímetro. Pois que vá para o inferno, pensou, saindo porta afora com a namorada.

Apaixonou-se por uma bunda! E oferecida! Gritou, ao abrir a porta do quarto.

O namoro prosseguiu, a namorada foi recebida só três semanas depois, gastas em negociações conduzidas pela prima, pela irmã e pela dona Marianinha, a vizinha. Ela foi fria, dura, mal cumprimentou a namorada do filho. Ficou falando de coisas que só interessavam a ela e ao filho, puxou assuntos antigos, falou de outras namoradas dele, comentou que ele era mesmo um namorador insaciável, já namorara todas as meninas do bairro. Mentira. Aquela era a segunda namorada de sua vida.

Cheio de amores. Também bonito desse jeito!

Abraçou-se ao filho e o levou e o levou para ver o pé de pêssego no quintal, estava florido. A namorada ficou plantada no meio da sala.
O filho sumiu por quase um mês e voltou para dizer, batendo o pé: ia noivar. A mãe fingiu não ouvir. Ia noivar e, depois casar, acrescentou ele. Ela mordeu os lábios. Antes do final do ano, pode escrever. A mãe trancou-se no quarto.
Dias depois a sobrinha trouxe a notícia. Foi cuidadosa, levou meia hora para dizer a que viera. Já estavam noivos. Ela desmaiou. Caiu como uma tora no meio da cozinha, tremendo, espumando.

Ah, não! Fez a sobrinha. Assim é demais! Para mim chega!

E deixou-a largada no chão.
Mal ficou sozinha, levantou-se num salto, jurando vingança. Convocou todos os parentes, providenciou uma reunião de família e decretou: casamento, só pisando no meu cadáver!

Mas por quê? Queriam saber.
Por quê? Que história é essa de por quê? Já viram o jeito dela? Aquele jeito de andar, aquele rabo alegre, festivo. Aquilo não presta.

O filho marcou casamento para o mês seguinte. Estava decidido. Ia abrir uma confeitaria com as economias que juntara, a noiva o ajudaria no atendimento, não precisava do apoio de ninguém.
Ela assistiu ao casamento sem abrir a boca. Não cumprimentou nem aceitou cumprimentar ninguém. Amarrou a cara e ficou repetindo aos ouvidos da sobrinha:

É uma descarada. Olha só. Mesmo na igreja não para de rebolar. Essa não me engana!

Casaram. Abriram a confeitaria, que serviria café à tarde e sopa à noite. Gastaram uma fortuna, segundo vieram lhe dizer. Paredes pintadas, lambris, lustres, as janelas pintadas de vermelho. Além do mais, a criatura tinha mania de grandeza.
Ela nem passava por perto, mas sabia de tudo.

Janela vermelha é coisa de bordel. Só falta uma lampadinha na porte!

Os gastos com a reforma foram muitos, os frequentadores eram poucos, a confeitaria não dava lucro. Meses de sofrimento, anunciando as piores desgraças para aquele casamento.
Quando procurada por dona Marianinha com o pedido do filho, mandou dizer que não emprestava um tostão. Pior quando começaram a aparecer os credores e os comentários.
A sujeita tomava conta de tudo com mão de ferro e fazia tudo errado. Pretextando cuidar dos negócios, saia para ir ao dentista, ao correio, pagar contas. Foi quando pediram empréstimo ao doutor Miguel, o dentista. Não adiantou, até porque a essa altura ela já estava desinteressada do negócio. Mal aparecia para trabalhar. Dores de dente. Ginecologista. Pedir segunda via da carteira de identidade, que perdera não sabia onde.

Eu não disse? – a mãe estufada de razão.

Alguém a viu num shopping com o Dr Miguel. Deu para chegar em casa tarde da noite – de início apenas cansada, dizendo que visitara uma tia, uma colega de colégio, que estivera presa no trânsito; depois, cheirando a álcool. Era o que se comentava.
Naquela noite ela sonhou que o filho havia sido abandonado pela mulher. Saltou da cama e passou o resto da madrugada aguardando notícias. Olhava para o telefone, andava pela sala.. O marido quis saber o que estava acontecendo. Mandou que ele ficasse quieto, voltasse para a cama. Ela estava preocupada, só isso.
Ali pelas oito da manhã, o telefone tocou. Era Odete, a prima:

Elvira, tenho uma notícia… - voz cuidadosa: …uma má notícia…
Ela nem esperou que a prima terminasse a frase:
Já sei. Ela deixou o Juninho.
Como é que você sabe?
Ora, Odete, não seja ingênua! E onde está o Juninho?

Odete explicou que ele estava bem, não se preocupasse. Estava apenas desorientado, não sabia o que fazer, pedira que ela desse a notícia com jeito, preocupado, quem sabe a mãe levasse um choque violento.

Choque? Eu? Estou é feliz da vida! Felicíssima!
E antes de desligar o telefone:
Aquilo não presta, Odete. Eu avisei.

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Roberto, além de ter sido professor universitário de filosofia, é autor de dezesseis livros entre romances, contos, crônicas, literatura infantil e filosofia - Crítica da Razão Tupiniquim – hoje na 13ª edição.  Recebeu o prêmio Jabuti em 1982 com 'O menino que descobriu o sol'. 

-   Blog de Roberto Gomes
-  O Terno Branco (blog Panorama) outro conto.


21 de janeiro de 2015

MALHAR: EIS A QUESTÃO!




Taís luso 
 

Relutei um pouco, por questão de preguiça, mas decidi entrar para o grupo dos saudáveis. E ontem fui fazer uma visitinha a uma Academia próxima. Chegando lá, vi aquele povo malhando, pernas pra cá, braços pra lá, levanta, abaixa, pedala, caminha, estica, encolhe ... E olha a barriga!!! Mais outros suando, neurotizados com os pneus... A praga daqueles pneus. E as mulheres morrendo numa luta inglória contra as celulites.

Academia enorme, um clima de festa. Eu, forasteira, pouco  familiarizada com a coisa, mas todos eles muito à vontade, umas máquinas. Pude observar que os homens não ficam devendo nada às mulheres no quesito vaidade. A maioria com os músculos já bem definidos. 

Os bíceps um pouco exagerados - um abraço lembra uma guilhotina.  Olha, gente, gosto não se discute, mas talvez menos, um pouquinho. 

Fiquei olhando, discretamente, e notei que todos tinham o mesmo andar do faroestão John Wayne  quando caminhava com as pernas e os braços abertos afim de enfrentar o último e derradeiro duelo. Na minha frente - a 10 metros - havia um cara roxo, tive a impressão que ele estava levantando a academia nas costas... Coitado, pensei que  fosse enfartar. 

Esticando o  olhar, fui ao encontro  de uma mulher muito enxuta, levantava aqueles discos de peso como se fosse um copo. Putz, como me senti fraquinha... Realmente, ando um pouco sedentária, sei disso. Vi todos muito dispostos, alguns estavam lá por questões de saúde, outros por estética. Uma mistura democrática, no final tudo se acerta.  

Há anos, muitas mulheres estão optando por definir os músculos das pernas. Pois é, aí levo medo... Acho bonito mulher com perna de mulher; homem com perna de homem. Cada um no seu quadrado. Mulher com pernas musculosas, hipercoxas? Péra,  não dá... Daqui a  50 anos terei o mesmo pensamento. Não consigo ver harmonia. Não estou falando em fisiculturismo, isso é outro departamento, é malhação pesada, para fins competitivos.

Saí um pouco pensativa. Há outras opções, sem dúvida. Mas só fico encucada em ficar com os músculos definidos, com o tórax aberto, pescoço grosso, bíceps de campeã, pernas do Garrincha  e canelinha de avestruz... Sim, porque panturrilha é a coisa mais difícil de muscular; parece que não faz parte da obra... O Criador deve ter esquecido de reforçar as canelas. Esqueceu das  panturrilhas, Senhor!!! 

Mi Madre...




10 de janeiro de 2015

Giuseppe Ghiaroni / Máquina de Escrever

Obra de Ricardo Renedo

               
       
Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval. 

Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende, além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.

Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.

Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.

Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.

Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.

___________________________________
Giuseppe Artidoro Ghiaroni – Nasceu em Paraíba Do Sul, (RJ), no dia 22 de fevereiro de 1919. Foi Jornalista, poeta, redator, tradutor e radialista.  
Faleceu em  2008, aos 89 anos.



                                    
  Poemas do LP:
                                                                          
          A máquina de escrever
Homenagem
Doce nome de Estela
A luz de Maria
Injustiça
Previsão
Dia das mães
A palavra querida
Beijos
Veneração
Não me faças sonhar
Respeito
Tereza
Beijo
Aquilo

Neste blog: O Dia das Mães