1 de outubro de 2014

O MEU PAÍS / João de Almeida Neto



O MEU PAÍS

Um país que crianças elimina;

E não ouve o clamor dos esquecidos;
Onde nunca os humildes são ouvidos;
E uma elite sem Deus é que domina;
Que permite um estupro em cada esquina;
E a certeza da dúvida infeliz;
Onde quem tem razão passa a servis;
E maltratam o negro e a mulher;
Pode ser o país de quem quiser;
Mas não é, com certeza, o meu país.


Um país onde as leis são descartáveis;
Por ausência de códigos corretos;
Com noventa milhões de analfabetos;
E multidão maior de miseráveis;
Um país onde os homens confiáveis não têm voz,
Não têm vez,
Nem diretriz;
Mas corruptos têm voz,
Têm vez,
Têm bis,
E o respaldo de um estímulo incomum;
Pode ser o país de qualquer um;
Mas não é, com certeza, o meu país.


Um país que os seus índios discrimina;
E a Ciência e a Arte não respeita;
Um país que ainda morre de maleita, por atraso geral da Medicina;
Um país onde a Escola não ensina;
E o Hospital não dispõe de Raios-X;
Onde o povo da vila só é feliz;
Quando tem água de chuva e luz de sol;
Pode ser o país do futebol;
Mas não é, com certeza, o meu país!


Um país que é doente;
Não se cura;
Quer ficar sempre no terceiro mundo;
Que do poço fatal chegou ao fundo;
Sem saber emergir da noite escura;
Um país que perdeu a compostura;
Atendendo a políticos sutis;
Que dividem o Brasil em mil brasis;
Para melhor assaltar, de ponta a ponta;
Pode ser um país de faz de conta;
Mas não é, com certeza, o meu país!


Um país que perdeu a identidade;
Sepultou o idioma Português;
Aprendeu a falar pornô e Inglês;
Aderindo à global vulgaridade;
Um país que não tem capacidade;
De saber o que pensa e o que diz;
E não sabe curar a cicatriz;
Desse povo tão bom que vive mal;
Pode ser o país do carnaval;
Mas não é, com certeza, o meu país!



João de Almeida Neto é músico, cantor, compositor e advogado. Considerado pela crítica musical como um dos importantes intérpretes da música regional gaúcha. É um dos artistas mais premiados em festivais nativistas. Nasceu em Uruguaiana - 1956 / RS.




25 de setembro de 2014

O MENINO DE RUA QUE PEDIA UM LIVRO



              - Tais luso de Carvalho

Nem sempre assisto ao programa Fantástico, da Rede Globo. Mas no domingo, 14 de setembro, assisti a um quadro e me emocionei. Era de uma criança  que fingia ser um menino pobre e de rua, que abordava várias pessoas defronte a uma livraria e ali pedia a elas se podiam comprar-lhe um livro. Naturalmente uns passavam sem dar bola para a criança, mas outros se surpreendiam tanto com o pedido que entravam com o menino na livraria para que ele escolhesse um livro. Para uns, o menino dizia que não sabia ler, então as pessoas sentavam com ele e liam alguma história. Realmente isso nunca foi uma paisagem do nosso dia a dia, não se vê.

Confesso que não consegui segurar algumas lágrimas, mesmo sabendo que era uma simulação. Mas me emocionei por ver que a ajuda partia de pessoas comuns, que se compadeciam, que se espantavam. E que se doavam. E esses, quando abordados pelo repórter do Fantástico, se surpreendiam e apoiavam a campanha. Ou a crítica.

Geralmente, os excluídos e abandonados pedem outras coisas. Mas emoção é como bocejo, um contagia o outro. A emoção da rua veio para nossas casas, ao nosso encontro, por todo o país.

Oxalá que os candidatos atuais aos cargos para Deputado Estadual, Federal, Governador, Senador e à Presidência da República, se comovam com coisas semelhantes. Enquanto não derem a devida atenção para a educação e para as escolas caindo aos pedaços, nosso país vai ser isso que está aí, um caos.

Pois é, será que os candidatos viram o programa? Não bateu uma emoção e uma vontade de virar o quadro em que se encontra o nosso país?

É triste constatar que aqueles que têm a faca e o queijo na mão, os que têm o poder para virar a situação do país, pouco se lixam, não estão nem aí; o negócio morre no papel. O que mais vemos e ouvimos é o desvio de verbas e a farra com o dinheiro público. E tudo vira um circo.

E o dia 5 de outubro está chegando e eu não consigo me decidir em quem votar. 
Qual será a razão???



15 de setembro de 2014

ELEIÇÕES NO PAÍS TROPICAL



            - Tais Luso de Carvalho

Adoro documentários, pois tenho uma enorme curiosidade por outras culturas. Assisto bastante a série Os Brasileiros no Exterior. E, é claro, faço minhas comparações.

O Brasil é um país emergente, diria em ascensão, fica mais bonitinho – pelo menos dá a ilusão de que estamos chegando lá... Ando meio confusa, não sei bem o que tem por aqui para me orgulhar, mas uma hora destas descubro.

Lá fora, também acontecem coisas que nos deixam estarrecidos. Mas prefiro ver algo que nos sirva como exemplo e não coisas duvidosas para justificar nossa indecência. Sim, nossos pecados já são mortais, estão batendo nas manchetes de todos os jornais do mundo e confirmando aquela velha citação de que não somos um país sério. O Brasil vende muita alegria. A gente ri a toa. Percebo isso até nas entrevistas de rua, quando  o repórter pergunta sério, até meio abalado e a entrevistada responde rindo, parecendo retardo mental. Não há conscientização? Não entendo isso.

A pobreza de outros países não me serve como parâmetro e nem como conforto para achar que o Brasil está bem; eu não gosto de ver meu país aparecendo nas piores estatísticas sobre educação, saúde, segurança, corrupção… É vergonhoso. Não vou forçar a barra, e dizer que sinto orgulho daqui. Não sinto. Sinto agonia.

Não sei por que o brasileiro parte para um tipo de comparação meio fútil, achando que o Brasil é  país mais belo do mundo, que tem o melhor futebol, as melhores praias, o melhor carnaval, a melhor música, as mulheres mais lindas… mas isso é tão pouco! Não é nada. E que pretensão é essa? Não sei de onde tiraram isso.

Nossos defeitos, nossa falta de seriedade, nossas carências não nos dão o direito de nos fresquear só porque vivemos num país alegre por natureza. Acho um despropósito. Penso - ainda - que não servimos para modelito de nada.

Enquanto lá fora os irmãozinhos aperfeiçoam seus metrôs, seus ônibus, seus trens, suas ruas, suas calçadas, e cuidam do conforto, formação, cultura e bem-estar do seu povo (como os franceses, suecos etc), nossos irmãozinhos daqui ficam coçando, vendo o tempo passar e pensando em reeleição. É por aí.

Enquanto aqueles que governam esse enorme país, não derem ao povo mecanismos de educação e pensarem no coletivo, continuaremos assim, um país rico, mas mal administrado e com uma enorme população pobre de dar dó; outros, ricos de dar inveja. É um contraste tão absurdo que desanima a acreditar que um dia algo mudará.  Pois é, tanta decepção...

Mas vou votar.


5 de setembro de 2014

MORAR EM CONDOMÍNIO É UMA ARTE!




           - por Taís Luso de Carvalho

Muitas coisas  mudam muito durante nossas vidas, mas outras, jamais. E uma delas, são os relacionamentos dentro de condomínios. Lógico que quanto menos apartamentos, menor o rolo. Espera-se. Os felizes moradores jamais morrerão de tédio.
E a regra é a mesma, tanto para os lindos e arborizados condomínios, como para os mais simples e simpáticos. Condomínio é condomínio porque gente é gente. E há gente especial como também gente tipo encrenca. E morar tão próximo de alguém que, dia sim, dia não, levanta de cara feia  não é tarefa divertida. 

Para os que têm o privilégio de morar em condomínio de edifícios, cairia bem ouvirem com frequência uma música que falasse de tragédia e desencanto. Poderia ser algo de Lupicínio Rodrigues, como Nervos de Aço ou Vingança. Aliás, é o que estou ouvindo no momento. Preciso de inspiração, né gente? Pegar raiva ajuda no texto.
Há muitos anos moro em condomínio. E vejo de tudo: gente feliz, educada e gentil; outros rabugentos, infelizes e implicantes. Constato, até hoje, que muitos condomínios são considerados um dos lugares mais hostis para se viver em paz.
Existe gente que acha uma glória ter alguém pra bater de frente; pra deixar seus demônios azucrinando a vida dos outros. E acontece em qualquer classe social: a loucura não escolhe posição social, nem credo, nem cor. Os Vips também sabem montar uma barraquinha básica.  Quando pensamos que tudo está em paz, estoura a boiada na reunião de condomínio apenas porque a flor do jardim  murchou, o cachorro mijou na escada, um morador quer fechar a sua sacada, o sapato do porteiro  não combina com a calça, o cabelo da faxineira não agradou, o elevador de serviço, o social... e mil coisas. Para quem mora em edifício não existe tédio.
É difícil viver tão próximo uns dos outros. Um metro nos separa da porta do vizinho; uns tijolinhos, apenas. Salvo se for um apartamento por andar.
Geralmente as janelas dos banheiros abrem-se para um poço único, e é algo peculiar da natureza humana discutir a vida familiar nos banheiros. Ouve-se tudo, e o quarteirão inteiro fica por dentro das últimas.
Fazer amizade num condomínio é nitroglicerina pura. Há anos fiz essa bobagem. Não notei que a criatura era conturbada, e quando percebi  ela já estava batendo em minha porta... Mas aprendi, ah se aprendi!! E aprendi, também, que frequentar o mesmo salão de beleza é suicídio. Parentes morando no mesmo prédio, no começo é uma glória, depois vira cômico, e por fim fica trágico.
O andamento funcional do prédio nunca é perfeito; não funciona como deveria. A bronca já começa com o zelador que  com o passar dos anos  acha-se com direitos de morador,  fica na folga, empurrando para os outros empregados as suas atribuições. Emprega toda a família, é praticante assíduo do nepotismo. Também é um espião profissional: se quiser detona com qualquer morador. É criativo e tem tempo de sobra pra se coçar e aprontar.
O síndico, sendo morador do prédio, será um grande infeliz; entrará numa fria sem saber.  Ao tentar colocar ordem no pedaço, será um carrasco; se não colocar, será um bunda-mole. Caso venha a escolher a melhor empresa para a manutenção do prédio, dirão que está levando propina; se escolher a mais barata será mão de vaca. E ainda será tachado de mão leve porque lhe é concedido o direito de não pagar o condomínio – o que não compensa. O cara tem de trabalhar  de graça!! E ainda poderá ficar conhecido como o fofoqueiro do condomínio. Ser síndico é pura alegria.

Geralmente os síndicos-moradores  são ansiosos pelos ossos do ofício. Coitados. Mas ao deixarem o cargo ficarão por longo tempo com a  síndrome do pânico condominial, uma vez que estavam cheios de amor pra dar e foram bombardeados. O certo é colocar um síndico profissional, daqueles que aparecem no prédio sem ninguém ver. O cara aprendeu a manobrar...
Vocês querem saber mais sobre as reuniões de condomínio? Bem, essa é uma faculdade onde todos saem com doutorado em educação e finura. Jamais ouvi alguém falar bem de alguma reunião, pois muitos dos presentes  são laureados em grossura, mesquinharia e egoísmo. Não deixa de ser uma filosofia de vida: cuidar do seu eu.
Despeço-me, por hoje, desejando sorte, paz e alegria pra todos  os amáveis e simpáticos moradores de condomínios!

Até!


25 de agosto de 2014

DE VOLTA AO PASSADO…



           - Tais Luso de Carvalho

Estou aqui a imaginar uma cidadezinha com suas ruelas em pedra, em estilo colonial, casas com janelas floridas, gente tranquila e amiga. Ando um pouco enfadada da nossa realidade, desse ritmo alucinante e desse consumo desenfreado. Nunca vi tanto consumismo, tanta gente correndo atrás das mesmas coisas. Gostaria de voltar ao passado, de caminhar por aldeias mais antigas, ter minhas poucas e reais amigas, e crescer saudável como era mais comum em outros tempos. Recomeçar. Sentir o cheirinho de coisas mais autênticas e talvez mais ingênuas. 

A Internet facilmente nos possibilita sonhar, imaginar, avançar no futuro como também voltar ao passado. Magníficas fotos, em formato de mensagens, nos transportam ao passado, um passado por vezes mais distante, curioso, belo, e outros não tão longe, logo ali... Mas um passado que um dia eu vivi.

Pouco me importaria em me submeter novamente à chatice  das ciências exatas, uma vez que gostava muito e me saía bem nas ciências humanas. Mas acho que o sacrifício teria suas compensações.

Gostaria de vivenciar os preparativos entusiasmados dos alunos para a procissão de Corpus Christi – em que vários colégios da capital desfilavam juntos rumo à Igreja Matriz, era uma festa esperada, uma grande confraternização entre os jovens da época. Gostaria de vivenciar as aulas de ginástica do colégio, ao sacrifício das academias de hoje; gostaria de sentir, novamente, os padrões morais e éticos desabrochando em cada família, diferentes dos atuais. Não tenho dúvida que a família perdeu alguns de seus antigos valores por várias influências externas, meio pesadas.

Gostaria de ver os telefones mais antigos, fixos, padronizados, e não passar pelo martírio infinito das operadoras de celulares e de seus viciantes Smartfones pra levar trombadas nas calçadas por gente que caminha de cabeça baixa – teclando. Um batalhão teclando não sei o quê.

Gostaria de voltar à disciplina de horários, de andar descalça, de brincar no rio e de recordar o cerimonial do casamento: namorar, noivar e casar. Respeitar o tempo necessário  para um conhecimento recíproco. Também gostaria de voltar a ver o meu país produzir música de excelente qualidade. Onde estão os excelentes compositores, de outrora? Tantas coisas novas e boas surgiram, mas tantas coisas boas morreram - que não precisavam ter desaparecido. 

Viver o presente é o que temos agora: mas nada de novo no front, a não ser um universo de tecnologia, toda a parafernália que leva milhões de pessoas a uma conexão exaustiva, desconhecida, duvidosa, solitária, com seu potente e assustador virtualismo, como se real fosse. As pessoas são reais, são as mesmas: algumas muito boas, outras péssimas. E dessas não presumimos suas intenções. Então esse imenso elo virtual não é garantia de nada. Mas estamos no contexto. Estamos num mundo que não vai parar e nos resta acompanhar - em parte, e com cautela, se quisermos viver bem.

Muita coisa  nos relacionamentos abagunçou, pode ter sido um equívoco na medida em que 50% dos casamentos, hoje, não duram cinco anos e 30% não passam de dois anos. E isso é péssimo sinal.  Não tem nada de caretice, mas de observação sob o ponto de vista da nossa evolução, da nossa realização como mulheres. 

Tomara que grande parte da geração de meus filhos esteja feliz. Estarão? Também não sei, as gerações posteriores veem as coisas sob outra ótica, que naturalmente não é a minha, embora a minha geração também teve seus pecados.

Mas cada geração precisa carregar seu fardo. Parece-me que muitos jovens estão meio perdidos, precisam achar uma saída para suas indagações. Onde erramos?  O que corrigir? Acredito que tudo o que aprendemos, o caráter que trazemos e  a vida que vivemos, não se joga fora,  é  a ante-sala de um futuro que poderá nos trazer benefícios, algo bem compensador.

Espero que muitos encontrem uma resposta, algo que acreditem e que mereça uma luta, um sacrifício que faça com que suas vidas valem a pena e que possam se orgulhar do legado que deixarão para as gerações futuras. 

Eu vejo sentido no passado, sim. Não concordo com os que dizem que o que passou está enterrado. O passado é a nossa história, o nosso aprendizado, a nossa memória. E por que não admitir que possamos sentir um pouco de saudades? Isso não invalida o viver o presente. E que requer, até,  certas comparações para podermos corrigir certos erros.


Espero um dia entender esse tipo de coisa.




10 de agosto de 2014

O QUE É A VIDA?




       - Tais Luso de Carvalho

Nas conversas do dia a dia, com familiares, amigas, vizinhas, fulanas e beltranos, e observando bastante a vida da nossa sociedade é que dá para ir pegando alguns temperos que servem para aplicar na minha vida. É melhor aprender vendo os erros dos outros do que sofrer na própria pele. Dá menos trabalho.

Examino o tal custo-benefício: o que vale a pena? Tudo complica quando a cobiça e a ostentação se fazem presentes, essa praga que gera a insatisfação humana e que revela o tamanho das diferenças sociais. O ser humano é exibido e paga por isso. Vê-se nas redes sociais um exibicionismo exacerbado – que não deixa de fazer parte de um mundo real.

Bem, moro num bairro em que as pessoas ainda têm o hábito de baterem papo na calçada, vão chegando e se encaixando na conversa. Os animais de estimação se encontram e seus donos se aproximam; enquanto os amados bichinhos reforçam seus laços sociais, os donos falam das últimas notícias: falam de futebol, dos seus condomínios, das eleições, da segurança e de política – quem roubou o quê. E quanto. Os noticiosos estão aí mostrando todos os dias o lixo do mundo – coisa que nos incomoda bastante.

São nessas conversas de calçadas que observo que todos nós – ao amadurecermos –, também vamos tomando consciência como é bom a certa altura da vida podermos ficar um pouco de papo pro ar. Desacelerar.

Li, em ZH, de Porto Alegre, e não faz muito tempo, sobre o Clube do Nadismo: dizia a nota, que o Nadismo representa uma importante transformação cultural, significa tomar consciência de que o tempo de fazer nada também é valioso. Aprendendo a aproveitá-lo, se vive melhor. Taí… Simpatizei com a coisa, com o Clube do Nadismo. Não confundam com o Clube do Nudismo, pelo amor de Deus.

Conversando com minha vizinha, aposentada recentemente, soube que ela abrirá uma boutique. Está aposentada há quatro meses, mas já está se coçando, sente uma certa culpa por não produzir alguma coisa. O desacelerar, o diminuir as atividades ainda numa idade produtiva, há muitos anos que não é bem visto. E até hoje em dia gera uma culpa do cão. Milhões de pessoas não conseguem aprender o que fazer com elas mesmas numa tarde chuvosa e livre. Ficam paranoicas, infelizes. Loucas pelo dia de amanhã para voltarem à vida!

A vida? Mas o que é a vida? É uma resposta difícil. Antonio Abujanra sempre encerra seu programa - Provocações - com essa pergunta: o que é a vida pra você? E os entrevistados pensativos mostram dificuldades em responder. Pois é, a vida…

Eu também não sei o certo, mas me arrisco a dizer que a vida é um longo percurso que nos desafia a ultrapassar o maior número de barreiras sem sentir culpa.
E, talvez um dos mais felizes encontros que podemos ter, o  encontro conosco mesmo.



31 de julho de 2014

O MEU HERÓI / Para o Dia dos Pais




              - por Taís Luso de Carvalho


 Todos temos heróis, e quase sempre eles se apresentam quando somos ainda crianças. O meu herói sempre esteve muito perto, em casa, e, como todo herói, não tinha defeitos, embora eu o contestasse. Naquela época eu já tinha perfil para ser da oposição.

Meu pai era um homem de porte atlético, bonito e culto. Lembro-me que, lendo o meu Livro do Bebê, que ganhei ao nascer, logo no início dos apontamentos da primeira página  meu herói escreveu que sonhava em ter uma princesinha (assim escreveu), já que meu irmão veio primeiro. E escolheu meu nome de um clássico, Meditação de Thaís – de Massenet. Só que o meu ficou sem o agá. Mas nunca me interessei em saber a razão.

Sempre fomos companheiros, e eu adorava estar com ele. Andava metida em lugares de gente grande, me enfiava nas livrarias – coisa que ele adorava. Também ficava em seu consultório até tarde, desenhando ou lendo gibis, enquanto ele concluía os eletrocardiogramas dos pacientes. Saía do colégio Sevingné e ia direto para o seu consultório - no Centro. Era bem perto.
Na minha ingênua infância eu achava que ninguém morreria em suas mãos. E me orgulhava de ver meu herói de jaleco branco, atendendo os pacientes e estes saindo confiantes de seu consultório. Era o legítimo médico de família, hoje extinto. 

Mas o tempo foi passando, fui perdendo a inocência, entrei na idade das contestações, das contrarrazões e das discussões para provar não sei o quê. Tudo bobagem. Nada que fosse relevante, em vista do que somos e do que representamos nessa imensidão. Muito pouco.  
Mas já bem longe daquelas ilusões de criança, a vida mostrou-me, com frieza, o quanto que eu deveria  entender o seu real sentido. O tempo passou e vi que não tinha mais o direito de sentir e sonhar como uma criança, e tampouco ter um herói naquelas circunstâncias. De ter o meu super herói.

No período de minha adolescência continuamos companheiros, praticando esportes, junto com minha mãe. Lembro-me que os dois admiravam a minha garra, mas aquela garra vinha do entusiasmo e do apoio que eu recebia deles.
Cresci. Fiquei adulta, namorei meu marido, casamos, e formamos nossa família. O tempo foi passando e troquei a fantasia do meu herói: continuei a vê-lo  como o pai que eu amava, que eu contestava, que eu  aplaudia. Mas guardei aquela fantasia do meu herói envolta em ilusões da infância, num cantinho só meu, para nunca esquecê-la, já que foi uma fase muito especial.
Muitos anos se passaram e chegou o momento da retribuição e do meu agradecimento por tudo de bom que tive. Do carinho com que fui abraçada pela vida que eles me proporcionaram.
Lembro-me quando tive de acompanhar  meu herói  à emergência de um hospital. Apoiando-se em meu ombro, meu pai caminhava com dificuldade para chegar ao carro, com passos lentos e com a resignação dos que não têm mais forças e nem vontade para continuar… Antes de chegar ao carro, com seu caminhar já envergado, sentou-se num banco do jardim para descansar, e eu, discretamente, fiquei a olhar suas mãos trêmulas e seu olhar que já me dizia tudo… Ainda sôfrego, disse-me com dificuldade:
- Minha filha, isso logo vai terminar… 

Aquela frase e aquele olhar foi uma punhalada. Eu sabia, mas não queria ouvir daquela maneira. Eu não conseguia aceitar. Não queria que ele tivesse aquela noção e a certeza do seu final. E desconversei, precisava poupar-lhe. Disse-lhe umas bobagens para iludi-lo, mas foi em vão, ele pressentia. E de fato,  não demorou muito para seguir seu  caminho solo. Foi seu último ato de coragem e resignação que presenciei.

Agora, já madrugada, encontro-me aqui sozinha a recordar tantas coisas significativas da minha vida, porém, com uma vontade imensa de chorar… Amarga saliva, saudade e uma tristeza inexplicável.
Contudo, acredito que esteja muito bem, tenho certeza de que está num lugar onde não encontra hostilidade, perigo e insegurança: está num lugar onde encontra só amor: está no meu coração. 
Para sempre.

Para meu pai - meu herói. Saudades. 
(Escrito em 27 de agosto de 2007).



20 de julho de 2014

NÓS, MULHERES!


Mulheres / Obra de Erico Santos 

       - Tais Luso de Carvalho

Se todas nós fôssemos belas, simpáticas e atraentes; se fôssemos ótimas amantes e profissionais bem-sucedidas; se cuidássemos dos filhos, do marido, da casa, do jardim, da sogra, da empregada e ainda fizéssemos parte de algum voluntariado poxa vida, seríamos fantásticas!
Pois é, mas não estamos com toda essa bolinha apesar de sermos bombardeadas por uma mídia que apela para sermos a Mulher-Maravilhacuste o que custar. Mesmo assim, sem muita estrutura para aguentarmos tal imposição, saímos desatinadas à procura da academia mais próxima e de uma clínica que nos ofereça o pacote milagroso, ou seja, a promessa de virarmos um mulherão, pelo menos em termos de beleza.
Malhamos como loucas, e, muitas vezes, saímos da academia com a sensação de termos virado uma  Barbie: mulher tem de ser magra, esquelética, mas com a musculatura definida nas pernas, tipo jogador de futebol, o legítimo samba do crioulo doido. E não adianta contrariar, há anos que já estamos com a cabeça feita.
Está tudo à nossa disposição, desde umas aulinhas cafonas, ensinando como sermos mais sensuais, até um festival de implantes de silicone. Mas sensualidade não se aprende, é algo espontâneo. Cada mulher tem a sua peculiaridade; se não agradar aos gregos, agradará aos troianos. Que aflição!
O cuidado com nosso corpo é necessário, mas parece que perdemos o sentido exato das coisas. Estamos parecidas com robôs: cabelos iguais, lisos e repartidos; barrigas à mostra de todos os tamanhos e formas; muito silicone alterando medidas equilibradas e uma boa dose de Botox nos impedindo de sorrir, travando nossa expressão facial. Então fica uma coisa meio desfolhada, prestes a despencar.
Enfim, estamos uniformizadas; parece que fazemos parte de uma única escola, tudo cai bem para todas: o que a magra veste, a gorducha abocanha. E mais: temos ainda como opção, a lipoescultura. Essa intervenção nos dá, de imediato, o contorno corporal adequado. Fantástico. Mas nada contra a lipoescultura: falo do exagero. E falo daqueles peitinhos horrorosos, exagerados, que carregam frágeis criaturas parecendo embuchadas. Não há harmonia. Difícil esse quesito.
Depois de estarmos belas e formosas, de termos comido o pão que o diabo amassou, saímos a desfilar na companhia do nosso barrigudinho. Mas sendo homem, tá feito o embrulho; maravilha! E não tem jeito: haverá sempre um atenuante para esses lindos barrigudinhos, pois mulher quando gosta, fecha os olhos. É uma atitude singular. Somos diferenciadas: trazemos à nossa vida amorosa, aquela coisa de mãe, gostamos apesar de. É uma virtude. E por isso é que muitos andam tão à vontade, tão descuidados.
Porém o contrário raramente ocorre: A gorducha, meio obesa, tem namorado? Bádeu! O cara pirou, tá doente!
Mas, apesar dessas firulas, podemos nos orgulhar diante da nossa luta pela emancipação. A nossa verdadeira história é marcada a ferro e fogo à procura de mais espaço, seja na política, na literatura ou em outras áreas. Somos um exército avançando e tomando posse do que nos é devido. Nada mais justo.
Porém
Bom seria se fôssemos reconhecidas pelo que escrevemos ou falamos e não por termos lábios carnudos, peitos enormes e bumbum empinado.
Bom seria se fôssemos reconhecidas como profissionais capacitadas nas áreas técnicas com o mesmo reconhecimento e remuneração dispensada aos homens.
Bom seria se, após uma vida de trabalho, não sentíssemos o desconforto por estarmos aposentadas e o vazio de uma vida vista como improdutiva.
Bom seria se fosse reconhecido o nosso espírito de abnegaçãomuito presente nas mulheres.
Bom seria se, na velhice, fôssemos cercadas de atenções, de paciência e de amor.
Bom seria, se tivéssemos o reconhecimento dos filhos, como mães amorosas que tentaram acertar.
Mas ótimo seria se, na condição de mulher, não precisássemos matar um leão por dia para provar do que somos capazes.




13 de julho de 2014

PRECONCEITO À VISTA!



              - Tais Luso de Carvalho

Não faz muito que assisti uma entrevista no programa Provocações, do Antônio Abujamra. Dentre muitos assuntos o que mais chamou minha atenção foi quando o repórter saiu às ruas para colher alguns depoimentos sobre a ambição. E pegou um flagrante triste de se ver: abordou uma jovem senhora, que mais parecia uma metralhadora falante, e perguntou-lhe se ela era uma pessoa ambiciosa:

Já fui ambiciosa, hoje já não mais: gosto de dividir tudo o que tenho com as pessoas que amo, com as pessoas mais humildes, como a minha secretária, uma pessoa muito simples, humilde, mas honestíssima. Maravilhosa.

O que ela faz na sua casa? perguntou o repórter.

Arruma a casa, cozinha, cuida de tudo!! Da família inteira, é uma secretária maravilhosa.

A senhora tem algum problema em dizer que ela é sua empregada doméstica?

Após alguns segundos de constrangimento...

Sim: porque ela é minha secretária. Merece mais. Ela é uma pessoa que está comigo há 7 anos e gosto muito dela; é minha amiga e merece tudo de bom. Tenho o maior respeito por ela. É minha secretária. repetiu a ansiosa metralha.

É claro que ela ficou numa situação muito embaraçosa. Foi flagrado o preconceito diante de milhares de pessoas, e isso a incomodou bastante. Uma atitude velada que partiu da patroa. Usa alguém que desempenha esse serviço doméstico, mas discrimina a profissão. O repórter tocou num ponto nevrálgico, desnudou o preconceito.

Mas é isso aí. Acabei entendendo que a pessoa que trabalha como empregada doméstica não pode ser honesta, maravilhosa, humilde e amiga, mas uma secretária pode! Então tá. Está aí  mais outro preconceito: empregada não pode ter virtudes e nem ser maravilhosa, mesmo trabalhando como uma mula.

Tenho certeza que o dia em que a tal secretária se mandar do emprego, a coisa vai mudar: quem deixará o emprego será a empregada desonesta, inimiga e abominável; vai ser amaldiçoada.

Que coisa feia foi isso, hein madame? Agiu como se um status melhor - segundo sua ótica - pudesse moldar o caráter de alguém. Cada dia as pessoas tornam-se mais criativas, dissimuladas e interesseiras.

Bem, tenho de fechar essa crônica porque amanhã, bem cedo, receberei minha nova faxineira… Estou um pouco apreensiva, vá lá que bata à minha porta uma pessoa honestíssima, amiga, maravilhosa e bilíngue querendo fazer a minha faxina... 

Não saberia lidar com a língua; preciso colocar meu inglês em dia: minha  frase de boas-vindas seria The pencil is on the table!! 

Pra engolir essa coisa grotesca, só levando na brincadeira. 
Foi terrível. Triste. 





3 de julho de 2014

COPA - SELEÇÃO / 2014



       - Tais Luso de Carvalho

Tenho assistido alguns jogos da Copa, embora não seja uma Expert em futebol. No entanto, sou brasileira, vivo no país que abriga a festa, numa cidade que se virou em quatro para receber muito bem todos os convidados, o que lhe valeu uma medalha da Fifa, que, aliás, lhe fez justiça ao exaltar o acolhimento aos turistas e às Seleções. Ótimo, fiquei contente pelo reconhecimento da nossa hospitalidade. Não há dúvidas que todo o Brasil se comportou muito bem. Vi uma Porto Alegre muito feliz nesses dias. O Estádio Beira-Rio, à beira do Guaíba, abençoado pelo lindo pôr do sol, cumpriu sua missão.

Apesar dos atropelos e das discussões, saiu melhor do que esperávamos, saíamos às ruas com segurança, pois havia policiais por toda parte, com suas enormes motos, que chegavam a meter medo. Vivemos momentos de felicidade, principalmente no quesito ordem e segurança. Como nunca! Quem dera que as coisas continuassem assim, com segurança padrão Fifa. Mas não, a realidade é outra. Esse é o problema.

Não entendo de futebol, mas acho que entendo de gente. E me parece que nossa seleção está muito conturbada, nunca tinha visto tanto homem chorando pelos cantos na tal decisão entre Brasil e Chile. Nosso time entra preocupado, pesado, carregando toneladas de esperança   nas costas. Naquele jogo, tive a impressão que íamos pra guerra, uma sessão de despedida, de adeus. Lacrimejei vendo o nosso goleiro chorar antes, durante e depois. Bem, aí misturei todas as bolas. Não sabia por que aquele baita homem estava chorando tanto. Todos tensos! Acabados. Mas resolvi chorar junto, não sei por que e nem por quem.

Mas por quê? É um jogo de futebol!!! A Pátria amada não estava em risco; não íamos ser invadidos, os familiares estavam bem… Então, por que, Senhor? Dai-me compreensão, é tudo meio difícil pra mim, tratando-se de futebol.

Não estarão aqueles  abastados  jogadores sob uma enorme pressão? Penso que seria uma atitude técnica do Felipão desafogar um pouco esses guris, que, afinal, só estão disputando e participando de uma festa esportiva. Ser menos paizão, talvez. Pai, às vezes, é visto como uma figura autoritária,  pesa demais e pode gerar culpa antecipada, já que tudo lá é uma família só. A Copa por ser no Brasil trouxe uma responsabilidade muito maior, as expectativas ultrapassam as fronteiras da normalidade.

A seleção do Brasil não é a única boa, ou que deveria ser boa, né? Outras seleções estão muito bem, surpreendendo  e lutando pelo título tanto quanto o Brasil. Mas não sei o que acontece, o Brasil tem de ganhar sempre, é uma neura. É algo angustiante, caso de vida ou morte. Escuto  um tititi por aí que poderiam ter sido escalados alguns excelentes jogadores que ficaram de fora. Sei lá, não me levem muito a sério, é só uma opiniãozinha... Talvez com um ajuste psicológico, tirando a pressão da panela a coisa melhore, não exploda! Exercitar os músculos da face, puxar um sorriso, jogar com alegria!

Amanhã joga Brasil e Colômbia. Vou tomar um Rivotril, não por medo de uma derrota, mas com medo de uma possível tristeza Nacional. Uma convulsão! Não gostaria de ver o nosso povo chorar. Já rolam lágrimas suficientes nesse país.
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Em 04 de julho de 2014: Brasil e Colômbia:

Final de jogo, Brasil venceu. E Neymar, com a vértebra fraturada pelo 'delicado' colombiano! Fraturar coluna pode; quebrar joelho pode; cotoveladas pode; entrar no calcanhar pode... Mas 'morder' não pode! 
Aquela mordidinha valeu ao uruguaio um castigo dos infernos. Tudo desproporcional. Não entendi! Mas não é de se gastar tentando entender árbitros e  FIFA!   Está tudo dentro do 'padrão'. 
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Em 08 de julho de 2014: Semi-final Brasil e Alemanha:

O maior vexame da história do futebol brasileiro!! 
Uma goleada, o  desencanto na Copa das Copas... 7x1 
Parabéns, Alemanha, jogou um bolão  vai para a final! 
E por aqui..

"...o riso não veio/ não veio a utopia / e tudo acabou / e tudo fugiu / e tudo mofou / e agora José?"

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Em 12 de Julho de 2014: Brasil e Holanda:

Nova decepção, só espero que apareça um tempinho para cuidarem  do Brasil depois desses bilhões gastos e de muito enrolação que não convenceu ninguém: levamos 10 gols em dois jogos de finais, difícil esquecer essa Seleção!!
Desejo paz e alegria a todos porque a vida continua. Tudo passa.
Fui!