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Tais Luso de Carvalho
Estava
assistindo a um programa de televisão, onde várias pessoas falavam
sobre seu modo de viver: o ter, o ser, o parecer. Lógico que parei
por ali. Achei interessante quando uma delas falou do que precisava
para viver: estipulou o necessário que deveria possuir para ser
feliz. Dizia que ao adquirir um sapato novo, um outro teria de sair
do armário. E o mesmo se dava com as suas roupas, utensílios,
eletrônicos etc. Quando algo entra, algo sai. É, sempre pensamos em
certos arranjos na tentativa de sermos mais felizes – qualquer
tentativa é louvável.
Até
certo ponto achei interessante, fui concordando com algumas coisas,
porém, felicidade não se restringe só a isso: ser feliz é um
estado de paz, de tranquilidade, de aceitação do que se é - sem
muitas milongas e sem precisar de centenas de reflexões. Felicidade pra mim é nascer com cabeça boa.
Ser
feliz em tempo integral, não existe. Aceitar a tristeza, o
desencanto, as frustrações e aceitar certos comportamentos alheios
- que não batem com os nossos –, é muito difícil de suportar, é
um exercício diário, mas não impossível. Estou aprendendo,
ainda, a selecionar. Certas coisas precisam ser descartadas para nos
dar alívio. Paz. E evitar ou apagar certas atitudes e pessoas de nosso
convívio ou da nossa mente não é tarefa fácil.
Na
adolescência, a felicidade ganha contornos diferentes: o tal
adolescente 'tipo assim', é agraciado com casa, comida, roupa
lavada, smartfhones, tablets enfim, todos os dispositivos portáteis
para uma conexão com inúmeras redes sociais e dezenas de
descobertas. E muita estabanação por afirmação – própria da
idade. E para muitos não basta, parecem um saco sem fundo.
Na
nossa fase adulta muita coisa vira preocupação: o bem-estar dos
filhos, preocupação com nossos pais, nossas perdas, encantos e
desencantos com a nossa espécie, doenças e, também, momentos plenos de
felicidade – é lógico. E mais mil idealizações e esperanças
quanto ao nosso futuro. Supostamente tranquilo.
A
sensação é que você está num ringue e precisa lutar até o fim.
Sim, para muita gente é assim. É sofrido. É só abrir os jornais
ou escutar os noticiosos diariamente. O ser humano é insatisfeito
por natureza. Vivemos num mundo com uma carga negativa muito grande, prejudicial. Tudo que é desgraça vai para a mídia milhões
de vezes. As coisas positivas, que elevam, aparecem num cantinho.
Penso
que felicidade são períodos que podem ser mais longos ou mais
curtos, depende de uma boa dose de paz interior, de sossego. Alguém
tem paz em excesso? Tá sobrando por aí, amigo? Mas então você é
feliz e não sabe!
Pego
uma caneta, um pincel, um livro pra ler, sento-me defronte à tela
branca do computador, mas um simples telefonema, meio azedo, embolorado, já pode ser o suficiente para modificar meu estado de espírito – e na
hora. Foi-se minha paz. Por isso, constato que o estado de felicidade
é frágil, efêmero, frustrante pelo pouco que pode durar.
Conheço
pessoas que cursaram ótimas faculdades, nada lhes faltou, inclusive
afetos verdadeiros, carinho, amor, cuidados... E são pessoas infelizes. Outras,
ao contrário, que
tiveram de lutar pela sobrevivência, comeram
o pão que o diabo amassou, tornam-se criaturas bem mais felizes do
que as primeiras.
Que coisa, não? Taí a cabeça boa!
Na
verdade, o que eu penso sobre felicidade não é entrarmos em estado
de reflexão sobre sentimentos e atitudes, tentar mudar tudo e
esperar por um milagre nos moldes querer é poder.
O
que pode fazer alguém feliz é unicamente ter tido a sorte de nascer
com uma cabeça saudável. Essa cabeça garantirá uma vida mais
plena, a escolha de um caminho menos árduo, uma vida que valha a
pena ser vivida. Digo sorte porque não dependerá de nossa vontade,
dependerá da carga genética que trazemos de nossos pais, dos avós
paternos e maternos. Toda uma cruza que vem de longe.
Certas
coisas poderão ser arrumadas; outras são imutáveis. O segredo para
sermos mais felizes ou menos infelizes está nesse ponto: na carga
genética que herdamos.
Posso estar equivocada, mas é o que penso.














