
-tais luso de carvalho
Não adianta: a festa pode ser um primor, mas os comentários do dia seguinte... Abram alas! Dá pano... Ah dá. É coisa pra lá de boa de falar. É outra festa.
Ouvi um neurologista aconselhar para não levarmos a vida muito a sério, que o bom é brincar, conversar e ‘fofoquear’. Ops... Fofoquear, Dr? Então deixa comigo: já tô levitando...
Ontem fui a uma festa de casamento e lá encontrei antigas amigas: Aninha, Geny e Kika. Muitos conhecidos estavam na festa. Para a comida, bebida e anfitriã... Nota 1000! O meu negócio são os convidados.
No salão encontrei a Aninha, toda produzida em tons de azul: sapato azul, bolsa azul, vestido azul, laço azul, sombra azul... Toda combinadinha, um céu. Armando, marido de Aninha, é coberto de defeitos - segundo ela. Trabalha demais, o obstinado, mas tem como lazer cuidar de sua grande paixão: um velho Santana amarelão, relíquia. Passa horas lavando os pneus, tirando os bancos e desmontando o motor. Por fim, 'a coisa' entra no ‘brilho’ e vai direto para a garagem, o carango Imaculado. E Armando sai com o outro carro, que mais parece um tanque de guerra. Imagino a Aninha desfilando naquilo.
Geny, outras de minhas conhecidas, estava na mesa do outro canto, enfiada dentro de um vestido ‘verde periquito’ e escondida atrás de um enorme laço preto, preso ao pescoço. Jamais eu conseguiria comer ou dançar com aquela guilhotina no pescoço. Horrível. Está casada com o mesmo Geraldo; o mesmo coitado.
Lembro-me do dia em que fui visitá-la na sua casa da serra. Na porta (de sua casa) havia uma coleção de chinelos; uns 10 pares. De todos os números. Pensei logo no bom coração de Geny, como ajuda os pobres... Engano: a chinelada era para as visitas pouparem o assoalho. E para não dizerem que não falei de flores... Fiquei no jardim trinta minutos e fuuuui! A coitada é fanática por limpeza, e ficou lá com seu assoalho asséptico.
Outro casal que encontrei foi Kika e Mauro. Ela continuava a mesma criatura, com olhos arregalados, quase saltando das órbitas. Olho de peixe boi. Normalmente eram assim, mas diante daquela mesa farta, com os mais variados salgados e doces, Kika agia como um lagarto: com um olho nos doces e o outro nos salgados. Foi de vermelho, estilo ‘la compasita’.
Um dia, não lembro quando, nos encontramos em Gramado e resolvemos ir a um lugar gostoso para bater papo; mesas nas calçadas, toalhinhas em xadrez, lugar convidativo para um chopinho com fritas. Sentamos e começamos a exercitar o papo-cabeça: falar de tudo o que não tinha importância.
Minutos depois, vieram os dois chopes com as duas porções de batatas. Kika parecia um urubu em cima da carniça; fincava aquele palito pegando quatro batatas de uma só vez! Que ansiedade, que coisa mais animalesca foi aquilo! PÔ!!
No começo, eu fiquei no ‘charme’; batatinha por batatinha... Mas ao pensar que ficaria molhando o bico só no chope, sem as minhas batatas, um calorão se apossou de mim; esqueci de tudo e me atraquei naquelas malditas batatas deixando de lado o charme e a educação que recebera: ela pegava cinco; eu pegava cinco! E assim fomos indo numa disputa camuflada até limparmos o prato, sem, no entanto, deixarmos transparecer a competição que se instalara.
Logicamente eu saí mal, principalmente por constatar que meu processo educativo estava um tanto degenerado.
Porém, como nossos filhos eram amigos, após a festa de ontem tentei fazer uma nova aproximação com a ‘companheira’ Kika. Liguei pra ela:
- ALOOOOU! – era ela, com aquela voz de contralto.
Desliguei, sem nada falar. Aquele “ALOOOOU” não me descia mais. Lembrei de nossa última conversa por telefone quando liguei para lhe pedir um favor: ela falou um monte, contando de seus problemas. Fiquei estressada e coloquei o fone no gancho. Era a mesma Kika; não tive um espaço para qualquer articulação labial; ela não fazia uma vírgula, uma exclamação, nem tampouco uma interrogação. A mesma Kika! Então aproveitei a oportunidade e coloquei o que faltava: um ponto final.
A festa ainda não terminou: tem mais! Mais adiante voltarei com o capítulo II.