24 de março de 2017

SOBRE AS SEPARAÇÕES

                                 - Antonio Varas de La Rosa / 1954 Madri - Espanha


          - Tais Luso
Já falei de vários sentimentos, hoje trago o sentimento preferido da criação poética, o Amor: um sentimento que traz a promessa de felicidade enquanto vida houver; traz uma cumplicidade prazerosa, um companheirismo sem precedentes.
Amar é compartilhar das qualidades, mas também ser mais condescendente com os defeitos do outro. Não há nada no mundo que flua mansamente. Nem o amor. Sentimentos precisam ser cultivados, as exigências são muitas. Isso me leva a pensar nas separações que tenho visto. Meu Deus, como o ódio e o amor estão próximos! As separações se dão quando o amor cessa. E aí, aparecerão seres irreconhecíveis:
 "Como  pode? Que filho da mãe! Nos encontraremos na justiça! O apartamento e o carro são meus, vá morar na casa da sua mãe…" E assim caminha o verbo. 
As separações se dão de inúmeras maneiras, algumas inusitadas com o palavreado chulo que sai das bocas inconsequentes. Que coisa mais animalesca!
 E tanto faz o sotaque ser carregado, cantado, chiado ou numa voz aveludada. A destruição é a mesma, o sentido é igual. Não há resquício de refinamento. A harmonia entre as famílias do marido e da mulher não existe mais. Os amigos, antes comuns, agora dividem-se. Os telefones entram em colapso com todo o pelotão colocando mais lenha na fogueira.
Os filhos, que nada têm a ver com as maluquices e desencantos dos pais, são as primeiras vítimas da história. Esses inocentes passam a viver num burburinho de hipocrisia e rancor. As famílias passam a medir forças. As mulheres têm por norma se apoderarem dos filhos como se fossem só delas. Esse jogo é sujo, tanto quanto os pais se absterem ao sustento dos filhos.
Mas o caótico se vê na hora da divisão dos bens: o maior sonho é deixar o 'ex' depenado, sem nada. As famílias – paterna e materna – que antes se visitavam, que eram o elo amoroso das crianças, já se odeiam. Ninguém, nessas alturas, tem cabeça para resolver coisa nenhuma ou pensar no bem-estar dos filhos. Tudo vira guerra.
Homens e mulheres, portanto, cada um carregando sua fatia de culpa, cooperam para que a separação se torne um inferno. Atitudes assim jamais mudarão, homem e mulher não mudam quando as coisas os atingem; mudam suas posturas quando o barraco é na vida dos outros.
Mas o que me assombra é a rapidez com que o ser humano passa do amor ao ódio. Nessa hora até a poesia fica impotente. Nem ela consegue minimizar tanta sordidez. Já não há mais beleza. Então, só resta retratar a dor. 

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17 de março de 2017

CARNAVAL? NUNCA MAIS...



        -Tais Luso
Esse último Carnaval foi sofrido. E como! Eu fazia parte da Escola de Samba Beija-Flor, do Rio de Janeiro. Arrumei as malas e lá fui eu cumprir mais um desafio: fazer jus à confiança da Beija Flor, dessa vez, para sambar na Avenida, no chão - samba no pé. Uma gaúcha sambando? Teria uma gaúcha o tal samba no pé? Era tudo o que ninguém acreditava. Mas eu tinha.
Durante o ano fui algumas vezes ao Rio para os ensaios marcados. Um misto de orgulho, medo e ansiedade se apossaram de mim no grande dia do desfile. Meu coração pulava de alegria.
Ainda cedo, comecei a me arrumar. Aquela fantasia era linda, mas complicada. Muita pedraria pesada.
Várias pessoas me chamaram pelo celular para estar o quanto antes na concentração. Mas de jeito nenhum isso aconteceu, o Rio estava muito congestionado. E comecei a entrar em pânico, suava, taquicardia, irritação e nada do carro chegar. Meu nervosismo foi tanto que chamaram um médico do hotel, nessa época sempre tem um plantonista. Minha pressão estava em 19, o que não era bom. Tomei um calmante e um comprimido para baixar a pressão. Para desmaiar seria um passo, poderia acontecer a qualquer momento. Suava. Sei lá, levo as coisas muito a sério.
As lágrimas mancharam a maquiagem, e tive de refazê-la. Mais tensão. Meu Deus, eu tinha compromisso! Qualquer mulher ficaria orgulhosa e estaria na concentração duas horas antes, juntando-se aos outros integrantes. Desandei a chorar, o que piorou o quadro de indisposição. Tudo estava errado, tudo. Pensava em voltar para Porto Alegre.
Oito horas da manhã, o relógio despertou-me. Tirou minha angústia! Tentei contar ao meu marido o drama de não conseguir chegar à Avenida Sapucaí, na concentração da Beija Flor, mas não consegui. O homem não entendeu nada! Nada. E começou a rir...
- ‘Beija Flor?’ Você... sambando? Samba no pé? Hum...
Custou a entender. E a ironia deixou-me furiosa. Só sei que tive a mais perfeita sensação de realidade!
Penso não ser mais necessário dizer nessa crônica que não sou carnavalesca, não sei sambar, nunca fui numa Escola de Samba, nunca coloquei fantasia e não gosto de Carnaval – mesmo sendo a mais famosa festa do Brasil.
Passei os dias de Carnaval em casa, escrevendo, lendo e assistindo filmes.
E que me perdoe a Beija-Flor pelas manobras do meu inconsciente.


11 de março de 2017

NÓS ÉRAMOS FELIZES...



                 - Tais Luso
Nem tudo são flores, e para dizer que não falei dos espinhos, contarei algo sério, falarei daqueles que pouco se importam com o nosso povo.
Mostrarei como estamos vivendo em Porto Alegre,  no Rio Grande do Sul. Os outros Estados da Federação, por certo, vivem igual. Não tocarei em partidos políticos, nem em ideologias – não é mais necessário, o estrago está feito. Apenas quero mostrar como as coisas ficaram e esperar pelo milagre. E que cada um forme a sua ideia.
Há anos, éramos um povo muito feliz, a cidade de Porto Alegre era bela: povo hospitaleiro, bela arquitetura, Terra com boa cultura e conhecida tradição. Tudo caminhava mais ou menos tranquilo, dentro dos padrões, e os problemas eram governáveis. Tínhamos orgulho de tudo o que nos envolvia. Cresci brincando solta, fui uma criança feliz. Eu tinha orgulho de ser brasileira. Gaúcha.
Mas, e agora? Pois é, de uns 14 anos para cá a casa desabou, e agora o terror chegou ao seu ápice. E hoje somos um dos países mais corruptos. Bom, não? A propina anda solta. Espalha-se que nem chuchu em cerca. Só que tem um gosto  amargo, é indigesto. É corrosivo à Nação.
Todos os noticiosos das mídias escrita e falada contam as tragédias diárias – contam a verdade, porém isso está nos deixando doentes. O povo está doente porque vive com medo; medo do real. Medo do absurdo. Mas não há fantasia. Na minha cidade,  milhares de pessoas não saem mais à noite; muitas não andam mais de ônibus nem lotação porque esses são assaltados com frequência. A população foi desarmada, mas os bandidos... bem armados! Então ficamos à mercê, vulneráveis, presa fácil, porque o Estado não nos protege.
Salários congelados. Volta e meia professores entram em greve, policiais em greve, médicos em greve, Bancos em greve, escolas saqueadas. E Bancos diariamente explodidos e saqueados até nas cidades pequeninas do interior - aquelas com 20 mil habitantes que chamávamos de paraíso.
Centros de Saúde e hospitais invadidos. Tiroteios e balas perdidas. Mortes. Muitas. As pessoas morrem sem saber o porquê, sem saber de onde vem a bala. E a violência chegou às escolas entre professores e alunos. Ontem uma menina de 14 anos foi estrangulada por um colega, aqui, na Grande Porto Alegre, dentro do colégio. A violência se espalha.
Nossas casas têm grades e alarmes. Nunca se viu por aqui presídios com métodos de ressocialização. São escolas para crimes piores. A polícia prende, a justiça solta. E o povo entra em pânico. E vá entender as razões 'deles'.
Ao sofrermos um  assalto, o conselho das autoridades é de não reagir para salvar a 'pele': Entregue tudo! Adianta? Não, isso serve para fortalecer o outro lado. Matam-nos com tiro na cara. Muita violência. Até quando?
E ainda tem gente que fecha os olhos e ouvidos na tentativa de ser feliz. Parece que tudo vai bem, que tudo está azul da cor do céu...

   
                                                Porto Alegre / RS - Brasil
               
          


4 de março de 2017

TRAPALHADAS DO TEMPO




 - Tais Luso
Pois é, a gente vai vivendo, a vida vai passando, e cada vez mais aparecem pessoas que não reconhecemos mais. E as mancadas acontecem com mais frequência: de onde conheço esta criatura?
A pessoa sorri, vem falar... Que situação! E o clima do encontro, inevitavelmente cai. Minha tática é ficar enrolando até dar o clic na memória. Pergunto o que ela tem feito, se mora no mesmo lugar, como estão os filhos (que filhos?!), perguntas rápidas à procura de um indício.
- Quem é ela, pelo amor de Deus? - pergunto ao meu inconsciente.
Não posso dizer-lhe que o tempo passou e que não a reconheço. O tempo nos transforma, mas não quero ser indelicada.
Existem pessoas que ao envelhecerem conservam os mesmos traços; a fisionomia é a mesma: às vezes bem mais bonita, como é o caso de Caetano Veloso. Mudou para melhor.
Tenho uma tia incrível, a tia Isolda. Estávamos num supermercado, no recanto dos vinhos. Estava um pouco afastada dela, mas vi um senhor lhe fazendo uma consulta sobre os vinhos. Esse senhor estendeu-lhe a mão para agradecer a dica, e perguntou:
- Dona Isolda, a senhora não está me reconhecendo? Tia Isolda, mais do que depressa gritou para mim:
- Tais, olha só quem está aqui!! Assim mesmo, bem fingida e desnorteada (até então ela não tinha a mínima ideia de quem era o homem, e transferiu o drama para mim).
Consegui reconhecer que era o seu antigo vizinho;  reconheci pela boca! O homem tinha uma boca de peixe baiacu! Não tinha como esquecê-lo. Não sei o que acontece, mas quando reconheço alguém é pela boca ou pelos dentes! Acho que me daria bem trabalhando num necrotério. Sou atenta a muitos detalhes. Mas salvei a titia da enrascada.
Porém mais dolorido passei com minha melhor amiga de colégio que há muitos anos foi morar em Belo Horizonte. Casou-se e ficou por lá. Mas com os filhos já formados, a família resolveu voltar para Porto Alegre. E certo dia, numa confeitaria...
- Oiiii, Taiiiis!!! Como estás? Não estás me reconhecendo?
Fiquei olhando para ela, já meio transtornada.
- Pois é... Não me és estranha...
- Sou a Claudinha!
- Báh, trocaste a cor dos cabelos, como te reconheceria?
Putz, não colou, foi um desastre. Ficou um clima de constrangimento... A mulher engordou uns 30 quilos e dei a desculpa dos cabelos? Não consegui contornar, e me perdi toda. Quanto mais tentava acertar, pior ficava...
E meti os pés pelas mãos. Foi trágico. Não sei mais o que fazer...


25 de fevereiro de 2017

LIBERDADE !

     
                 - Tais Luso
Hoje vemos de tudo um pouco no quesito Moda, mas ninguém se incomoda. Então viva essa Liberdade! E que venham os jeans esquartejados e as blusinhas infantilizadas nas mulheres maduras; que venham os saltos altos com a descontraída calça Legging; que venham as mulheres saradas e musculosas! Que venham todas as manifestações de liberdade nas peles tatuadas das jovens bonitas. Mas, eu fora.
Que venham as diversidades da moda  que chegaram para aparecer mais do que as criaturas! Ando, caminho, procuro... Mas a moda atual não se importa com harmonia - mostrar a Grife,  interessa.
Virou moda, mostrar ao mundo, através das redes sociais, o que vestimos, o que comemos, o que bebemos, porque Grife é poder, é luxo. E ter poder é um status cobiçado desde a Idade das Cavernas.
Recebemos, através das mídias, um bombardeio de dicas: o que comer e o que beber. Para onde viajar, os mil lugares que ainda temos de visitar antes de morrer.
Somos vigiados e induzidos, pela nossa consciência, a comer muitos legumes e fibras numa refeição. Vejo pessoas com pratos enormes, com todas as saladas existentes nos bufês, uma montanha de legumes de todas as cores. Quanto mais colorido for nosso prato, mais saúde! Mas mostrar um prato com tanta comida é desolador. Me assusta.
Não faz muito que me empanturrei de saúde, e minha natureza me deu o troco. E aprendi a ter mais cuidado com as minhas escolhas. Com as misturas. Com o exagero que me oferecem.
Também é bom fugir dos anúncios que prometem uma beleza perfeita. Essa é uma meta inatingível. Mas sempre haverá um campo vastíssimo para consumirmos as grandes inovações. Aderir a isso ou àquilo - a moda tem força. E cada um que escolha sua tribo. 
Porém, com esperança traço meu caminho, faço minha modinha e que ela seja eterna enquanto dureMas o que conta na verdade é como se comportam e para onde direciono meus neurônios na medida em que vou mudando de idade... Que a natureza seja camarada, que me dê coerência, que me dê liberdade, mas rogo pela minha lucidez.
Que assim seja.

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21 de fevereiro de 2017

PEDIDO DE ADOÇÃO - ADÉLIA PRADO



Estou com muita saudade
de ter mãe,
pele vincada
cabelos para trás,
os dedos cheios de nós,
tão velha,
quase podendo ser a mãe de Deus
— não fosse tão pecadora.
Mas essa velha sou eu,
minha mãe morreu moça,
os olhos cheios de brilho,
a cara cheia de susto.
Ó, meu Deus, pensava
que só de crianças se falava:
as órfãs.



 Referência: Oráculos de Maio- ed Siciliano/São Paulo 1999. - pag 59
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Adélia Prado é um dos mais importantes nomes da poesia feminina brasileira do século XX. A escritora trabalhou como professora por mais de 20 anos antes de se dedicar à carreira literária.
Nascida em 1935 na cidade de Divinópolis, Minas Gerais, Adélia Luzia Prado Freitas é filha do ferroviário João do Prado Filho e de Ana Clotilde Corrêa. Com a morte da mãe, em 1950, Adélia escreve os primeiros versos. Depois, no ano seguinte, começa o curso de Magistério e passa a lecionar. Formou-se também em Filosofia anos mais tarde. Além de poeta é contista, romancista e cronista.
Casa-se em 1958 com José Assunção de Freitas, com quem teve cinco filhos. Nos anos 70, enviou seus poemas para o crítico literário e poeta Affonso Romano de Sant’Anna, que manda para Carlos Drummond de Andrade que sugere a publicação dos escritos de Adélia e que faz, inclusive, elogios à autora no Jornal do Brasil. Assim, o livro Bagagem é lançado em 1976 com a presença de convidados ilustres, como Juscelino Kubitscheck e Clarice Lispector. O coração disparado, de 1978, ganhou o Prêmio Jabuti.
Obras / Poesia:
A Lapinha de Jesus - 1969 - em parceria com Lázaro Barreto
Bagagem - 1976
O Coração Disparado - 1978
Terra de Santa Cruz - 1981
O Pelicano - 1987
A Faca no Peito - 1988
Poesia Reunida - 1991
Oráculos de Maio - 1999





15 de fevereiro de 2017

UM MUNDO MARAVILHOSO


- Taís Luso
Diria que a felicidade e a tristeza caminham de mãos dadas, se alternam no curso da vida. Então nada como evocar esse planeta maravilhoso a fim de recarregar nossas emoções. Estou com saudades de um mundo exuberante, de ver a pureza dos animais, a flora, as rochas, o mar, os cânions. De ver a criação... Nada mais.
Quero esquecer um pouco esse mundo repetitivo, onde  vemos cenas de terror por toda a parte. Deixar que as imagens e sons me carreguem um pouco mais. E me fortaleçam.
Vejo, então, o vídeo de Louis Armstrong com seu conhecido What a Wonderful World, gravado em 1967 - numa época em que o clima político e racial nos Estados Unidos estava muito pesado.
Mas falando do meu país, estamos vivendo numa fase de muita desarmonia, de crises sucessivas, um clima de indecência, de imoralidade, de insegurança resultando em crimes de ódio.
No Brasil, não tem quem não conheça a ‘célebre e filosófica’ frase de um malandro sem neurônio:
O importante é levar vantagem em tudo, certo?
Esta frase está numa seara infeliz e doentia. Não há mais lugar para disparates. Esperamos a moralização do país, coisa difícil. Mas reverter esse quadro de agonia não é para agora – e se reverter.
Sentir medo é uma das piores sensações. Jamais encontraremos bem-estar e paz fora dos padrões reais e verdadeiros da ética e da moral.
Mas quem sabe, as futuras gerações...isso é para longo prazo.

Um Mundo Maravilhoso - Veja!!




11 de fevereiro de 2017

LEMBRANÇAS - O VESTIDO

Obra de Márcia Marostega / RS - Brasil

          - Taís Luso
    
 Há poucos dias tive uma intoxicação alimentar, perdi as forças para vir ao computador. Fiquei deitada, muito enjoada, parecia que ia morrer. Mas a cabeça não parou de pensar. Morrer cheia de ideias. E comecei a trazer recordações. Encontrei lá nos escombros da minha caixa-preta, pequenas lembranças que fazem a vida dos mortais mais leve. Não sou descendente de rainha ou de alguma dinastia chinesa. Bem que gostaria de festejar 65 anos de reinado, morar num palácio e com milhares de chapeuzinhos charmosos enfeitando minha cabeça. Mas como não sou amiga de chapéu, nada feito.
Lembrei, para passar o tempo, de uma viagem que fiz com meus pais para o Rio de Janeiro. Tinha 15 para 16 anos – faz muito tempo.
Minha mãe e eu resolvemos torrar o dinheiro do meu pai pela Av. Copacabana. Uma Copacabana ainda charmosa. Lá pela metade da avenida, gostei do vestido de uma loja, linda era a estampa, e um colorido de bom gosto!
Compramos. Saímos felizes. Lembro que também comprei sapatos e outras coisas. Mas adorei aquele vestido, nunca o esqueci. E lembro da minha surpresa no dia do meu aniversário de 16 anos.
Convidamos os parentes, as amigas do colégio, vizinhas etc. Foram chegando com seus presentes e, de repente, surge um pacote na minha frente, com a mesma estampa do meu vestido!!! Olhei o pacote... e nele dizia o nome de uma rede de lojas de departamentos bem conhecida - aqui no Brasil. A estampa do papel de presentes era o meu vestido... Inacreditável! Comprei o vestido no Rio de Janeiro e o papel apareceu em Porto Alegre!!
Caramba!! No dia seguinte dei o vestido para a filha da nossa empregada. Mas com pesar, pois continuei a achar a estampa linda. Mas nunca sairia embrulhada no pacote de presente de lojas conhecidas!
Depois de tantos anos, continuo a lembrar daquele vestido, mas agora com uma imagem saudosa de uma época que não volta mais. É engraçado como as coisas desagradáveis que acontecem em períodos de nossas vidas, anos mais tarde se modificam totalmente. Acho que a vida não nos leva muito a sério, nos devolve os fatos em lembranças hilárias para ver se aprendemos alguma coisa! 
 Se aprendemos a levá-la com mais leveza.


2 de fevereiro de 2017

O QUE É ARTE PARA VOCÊ?

Os Retirantes / 1944 -   Portinari

   - Tais Luso
 Quando me deparo com uma obra de arte, vejo seu lado estético, sua linguagem e a mensagem que está inserida nessa obra. Vejo suas cores e seus traços.
Admiro obras que retratam a nossa história, o nosso cotidiano, as injustiças sociais, a brutalidade e a miséria. Cumprem, aí, a sua mais nobre missão: a de retratar os fatos, de protestar e de clamar por mudanças. Através da arte o artista manifesta suas próprias emoções, que não deixam de ter seu lado belo.
Também vejo a Arte que alegra o espírito e prima pela beleza: são as paisagens, cenas de bar, marinhas, festas, flores, retratos, cenas familiares. Ou outras imagens que levam paz, como a arte Sacra, por exemplo. Tudo entre belas e coloridas nuances.
Através da arte a humanidade relatou sua história. O homem deixou suas pinturas nas cavernas, importantes para o estudo da nossa espécie.
Gostar de uma obra é um sentimento pessoal, e depende da sensibilidade de cada um. Não são todos que gostam do Barroco, do Romantismo, Cubismo, Realismo, Impressionismo, Surrealismo, Pop Arte. E o artista é aquele ser especial dotado de técnica, de espírito crítico, de criatividade.
Mas o triste é o que se vê em algumas exposições ou em Bienais:
Uma porção de tijolos empilhados: é arte. Tocos de madeira cercados de arame, é arte. Uma montanha de pneus acompanhados de uma placa qualquer: é arte. Paralelepípedos colocados em sequência, é arte. Palitos de fósforos colados numa placa, é arte. E o sofrimento de animais, com fome, numa exposição, será arte? Pois é, aplaudir o sofrimento em nome da arte! Então fica difícil de entender e de captar certas mensagens. Fica difícil rotular isso de arte.
Vejo arte em vários museus, galerias, residências, oficinas e igrejas. Vejo obras dos grandes mestres, de todas as épocas, de todos os movimentos e depois dou de cara com algumas coisas inéditas e que minha sensibilidade tem de se amoldar rapidamente. Impossível.
Não tem como eu achar que uma tripa de ferro velho é um avião, e que as asas ficam para minha imaginação. A proposta para que o observador solte sua imaginação, deve, ao menos, partir de um princípio: dar um indício para poder se chegar a algum ponto. E a liberdade, de gostar ou não da obra, é um direito indiscutível de quem a vê.
Arte, para mim, é quando ela tem a capacidade de emocionar ou quando dá prazer em olhar e descobrir detalhes, técnica e transmitir alguma mensagem dentro de uma lógica. Enfim, ver uma obra inteligente.
E quem quer interagir precisa ser um pouco mais claro. É a lógica que se espera. Essa comunicação existe desde a antiguidade, existe na pintura clássica, moderna, contemporânea, enfim. Em todas os períodos e movimentos.
A arte tem de ser uma manifestação democrática. Mas não é por ser democrática que pode exceder limites. E cabe aos que veem, compartilhar ou não; gostar ou não. Temos de expressar - sem medo - nosso gosto, como fazemos em diversas artes. Por que é aceitável não gostar de uma obra literária, de jazz, de música clássica... e o mesmo não se dá com a Arte em si? Por que o não gostar de uma obra de Arte ou de um Movimento torna-se quase uma agressão e gera discussões intermináveis? Há algo de errado; há uma paixão acima da razão. E fica difícil quando alguém é dominado pelo medo e pelo constrangimento.
Portanto, é direito legítimo de cada um manifestar-se contra ou a favor; se gosta ou não gosta.




Meu outro Blog: Das Artes  💜





25 de janeiro de 2017

UM TANTO BELOS, UM TANTO FERAS



            
                - Taís Luso

Quando estávamos chegando da rua, sentimos um forte cheiro de queimado no saguão do prédio, no elevador, no nosso apartamento. Em poucos minutos muitos moradores dos prédios vizinhos estavam no canteiro central da rua. Motivo? Um apartamento do prédio ao lado do nosso estava em chamas devido a uma vela esquecida... A fumaça vinha muito para o nosso prédio.  Fechamos os vidros, vimos que nada acontecera e descemos por motivo de segurança.
Mas o que muito me sensibilizou foi o trabalho do Corpo de Bombeiros. Em minutos estavam no prédio. Vendo esses heróis correndo para dominar o fogo do outro edifício, e as sirenes nervosamente pedindo caminho, confesso que fiquei com nó na garganta. É uma situação que altera todas nossas emoções. Uma mistura de sentimentos, um caos.  Tudo fica por um fio. E são situações assim que nos levam a pensar no lado sério e dramático da vida. Emoção combina com superação, heroísmo e solidariedade. E vi muita solidariedade e emoções nessa manhã conturbada.
Tudo fica ótimo quando nos deparamos com situações agradáveis: pessoas sociáveis, delicadas e solidárias. Mas, por outro lado também nos deparamos com outro tipo de gente, que pouco valem. E como o ser humano é feito de várias misturas, de genes, de DNA que transmite caracteres próprios, nada é fácil. 
E sentimentos assim nos levam ao desânimo, e a reconhecer que somos belos, de espírito, mas também extremas feras. Fica uma situação ambígua: o desejo de aproximação como também o sentimento de cair fora na mínima desconfiança. E isso existe nas famílias, nas amizades, na faculdade, no trabalho, no lazer. Presente em todos os setores.  Por vezes cometemos injustiças, tamanha desconfiança que vêm de águas passadas. É aquilo que sabemos: a dor ensina a gemer.
Então vem a pergunta: afinal, o que é mais forte, o que mais predomina na raça humana? É o herói que salva, que comove, que chora, que acolhe, que doa órgãos, que constrói maravilhas, que pesquisa em prol da vida, ou é aquele que engana, que trucida, que mata, que tortura, que estupra, que crucifica,  que aprisiona e que faz as guerras? As atrocidades estão tão descontroladas que não sei o que pensar. O que sei é que somos a única espécie que encontra na tortura um  enorme prazer .
E ficamos nesse sentimento dúbio, uma hora amamos os bons, noutra odiamos aqueles que não passam de exterminadores  numa sociedade que só quer viver em paz. 
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18 de janeiro de 2017

O SILÊNCIO É DE OURO...



- Taís Luso

Essa é uma das atitudes mais difíceis a serem tomadas: silenciar. Na maioria das vezes, seja nos relacionamentos familiares, no trabalho ou na roda de amigos, é preciso usar dessa estratégia, do silêncio. Sentir o ponto exato de calar não é fácil. Podemos mostrar nas entrelinhas do silêncio, algo que cale mais fundo do que uma palavra provocativa. Um olhar substitui muitas palavras.
É de se pensar naquelas intermináveis discussões onde as acusações predominam. Todo aquele que acusa com certa agressividade, jamais voltará atrás. Seu orgulho não pode ficar ferido! Já está tomado pela paixão e vaidade que uma discussão acarreta. Mas nada daquilo colocado em confronto vale mais que a paz ou merece uma noite de insônia.
Porém, se o silêncio for mal usado, se o silêncio for para encobrir uma mentira não será silêncio, será uma grande injustiça. É uma linha muito tênue a observar nessas horas. Nesse caso a palavra se faz necessária, o silêncio não atingiu sua finalidade.
Não raro confundimos silenciar com omitir. Silenciar é zelar para que o estrago não seja maior. Calar em nome do bom senso. Eu já me arrependi de ter falado, porém nunca me arrependi por ter ficado calada. Não deixaria que alguém fosse condenado se minha palavra servisse para inocentar.
Segundo Sêneca os desgostos da vida nos ensinam, cada vez mais, a arte do silêncio. E um dia cada um aprenderá a medida certa para ser mais feliz.

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Existe no silêncio uma tão profunda sabedoria que às vezes
 ele se transforma na mais perfeita resposta!
(Fernando Pessoa)


12 de janeiro de 2017

A ÚLTIMA LEMBRANÇA



                   - Taís Luso  
                 
Eles formavam um bonito casal, ainda daquela geração em que havia namoro, havia noivado e após alguns 'estudos', casavam. E casaram jovens, e formaram seu ninho com dois filhos. Viveram quase 60 anos juntos. E se a saúde permitisse, iriam além. Sempre juntos, iam e vinham, viajavam, como também seguiam sua religião com fé. Os dois viviam para si e para os filhos. Ele, profissional liberal bem-sucedido, ela, uma feliz dona de casa, da época. Ambos tinham muito carisma, fáceis de fazerem amizade.
Chegou um dia que ele, já na sua longa vida, adoeceu. A família, naturalmente ficou aos frangalhos, pois era excepcional pai e marido; era um homem que falava pausado, que dava espaço para possíveis explanações dos outros. Era um provedor responsável, o pai carinhoso, o marido fiel.
Mas sua doença foi se alastrando, e com resignação continuava suas atividades normais, até onde sua doença permitiu. Mas chegou um momento em que nada mais lhe fora permitido... a vida lhe fora arrancada com brutalidade. Ele partira apenas quinze dias antes de completarem 60 anos de casados... Foi terrível para ela viver aquele dia tão sozinha, a lembrança tão sonhada: os 60 anos de vida em comum.
Mesmo com os dois filhos e netos sentia suas noites vazias, de enorme solidão. Adormecia sempre escutando a voz do marido gravada nas fitas em que enviava para a rádio, falando sobre temas religiosos e filosóficos.
Um ano se passou, mas ela não adaptou-se à solitária vida, não encontrava mais razões para continuar o caminho sozinha.
E no dia em que ela completaria 80 anos de idade, a vida colocou seu ponto final naquela trajetória já tão sofrida; veio a falecer ouvindo a voz de seu amado nas fitas que escutava todas as noites. Foi como um chamado talvez para continuarem juntos, num outro plano, quem sabe. A família compreendeu que não havia mais o que fazer.
E a última lembrança se fez saudade.


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6 de janeiro de 2017

FERNANDO PESSOA - Ter Saudade é Viver

             
                                      Rua Augusta - Lisboa
                          

                    TER SAUDADES É VIVER

                    Ter saudades é viver
                    Não sei que vida é a minha
                    Que hoje só tenho saudades
                    De quando saudades tinha

                    Passei longe pelo mundo
                    Sou o que o mundo seu fez,
                    Mas guardo na alma da alma
                    Minha alma de português.

                    E o português é saudades.
                    porque só as sente bem
                    Quem tem aquela palavra
                    Para dizer que as tem.

                    

A vida de Fernando Pessoa desenrolou-se entre Lisboa e Durban (África do Sul). Nessa cidade viveu cerca de 10 anos, na sequência de um segundo casamento da mãe; foi lá que fez a sua formação escolar, em língua inglesa. De regresso à Lisboa em 1905, inscreve-se no Curso Superior em Letras, mas não prossegue os estudos. Dedica-se então a uma vida profissional como funcionário de firmas comerciais. É um paralelo com sua atividade de correspondente comercial que frequenta tertúlias, dirige publicações culturais (como Orpheu), colabora em jornais e em revistas literárias e escreve obsessivamente. Apesar dessa dedicação quase compulsiva à escrita, são escassos os livros que publica em vida: Antinous (1918) 35 Sonnets (1918) English Poems I - II - III (1921) e Mensagem (1934).
Morre em 1935, e só quase meio século depois  foi editado pela primeira vez em 1982 - o Livro do Desassossego, por Bernardo Soares.
No ano em que morreu, endereçou a Adolfo Casais Monteiro uma carta em que explicava a gênese dos heterônimos, a sua configuração como ortônimo e diversos aspectos da sua personalidade literária. Fernando Pessoa elabora nessa carta um meticuloso testamento literário, destinado a fixar a sua imagem post mortem. No centro dessa imagem está a questão do desdobramento, um processo tipicamente modernista, apreendido por Pessoa em tendências da poesia europeia do fim do século XIX, que ele aprofundou até ao extremo que o seu gênio poético consentia. 
Pessoa não é um sujeito único, mas vários; segundo ele, a diversidade e o culto da alteridade instaurada pela heteronímia tem uma origem infantil, mas só num dia determinado nasce o primeiro heterônimo.
No chamado dia triunfal - 8 de março de 1914 - surgiu Alberto Caeiro, o mestre dos restantes heterônimos. Após vieram Álvaro de Campos e Ricardo Reis.
Depois vieram Bernardo Soares, e os menos destacados Alexander Search, António Mora, Vicente Guedes etc.
Contudo, não se esgota nessa deriva a personalidade de Fernando Pessoa (ele mesmo), completada por uma fecundíssima vocação para a reflexão cultural, política, ideológica, sociológica e filosófica; é essa vocação que se pode ver no acervo pessoano já publicado.
Por tudo, Fernando Pessoa é hoje o principal elo literário entre Portugal e o mundo. A sua obra em verso e prosa é  mais plural que se possa imaginar, pois reúne as múltiplas facetas nascidas de suas figuras literárias, todas ele próprio.
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(fonte: Guia de Leitura / L&PM - pág 98)
Fernando Pessoa / POESIA - Companhia Das Letras - pág 372

Enviado pela amiga Amelia Filizzola . Fernando Pessoa no bairro Chiado / Lisboa 
- na cadeira de um bar onde escrevia seus textos.
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< Tudo vale a pena quando a alma não é pequena! >
1888 / 1935 Lisboa