22/11/09

HÓSPEDE... TÔ CHEGANDO !

Ops... Esse é um assuntinho que dá pano pra manga. Hóspede: ser ou não ser? Tê-los ou não tê-los?
Tenho certeza que hospedar alguém é uma tarefa árdua, se não fosse não haveriam tantas regras para os anfitriões e mais outras para os hóspedes.

Eu, por exemplo, detesto me hospedar na casa de quem quer que seja; gosto da minha liberdade e me constrange tirar a liberdade de alguém, ainda mais dentro de sua própria casa. Já me hospedei, sim, há muitos anos, mas hoje não mais. Existem hotéis e pousadas de todas as categorias, para todos os gostos.

Lógico, entendo que nem todos podem se dar a esse luxo. Mas meu enfoque é outro: o transtorno que um hóspede pode vir a causar na casa de um coitado. Lembrei disso devido aos feriadões, festas de fim de ano, férias e praia – a época em que as pessoas se amontoam na casa dos outros. Conheço várias pessoas que estremecem em época de férias com suas casas de praia... Virgem Maria.

Lembro de ter ouvido de uma pessoa que hóspede é como peixe, no terceiro dia começa a 'cheirar'. Bem que guardei, também, uma outra versão: hóspede é como uísque: dá dor de cabeça quando é ruim e deixa alegre quando é bom. Mas que hóspede nos daria tanta alegria? Amigos, amigos... negócios à parte.

Já é sabido que um só hóspede é o suficiente para atrapalhar a vida do anfitrião e de sua família. Quando estamos hospedados na casa de alguém saímos de nossa normalidade; muitas vezes ficamos subservientes porque estamos de favor. Ou, deitados e espaçosos: algo inadmissível na casa dos outros. É ruim para os dois lados.

O hóspede que eu pediria a Deus - se eu tivesse algum pecado por pagar - seria o 'hóspede invisível'. Minha maior preocupação com os meus hóspedes foi sempre recebê-los com carinho, preparar ótimos quitutes e ser sempre gentil. Fazer vistas grossas para as gafes. Lógico que após a partida das maravilhosas criaturas e de seus acompanhantes voadores, eu estava a fim de uma clínica para repouso absoluto acompanhada de vários 'lexotan'. E tenho consciência que meus anfitriões também, em alguma época, pensaram o mesmo.

O manual do bom anfitrião salienta que temos de ter muitas preocupações: não dá pra deixar o pessoal se empilhar sem conforto. Ah, e tenha paciência ao encontrar coisas esquisitas esquecidas no banheiro, escova de cabelo na sala...
Enfim, mude seus hábitos por um período e deixe o hóspede à vontade, como se estivesse na casa dele. Ser sempre gentil para não constranger a criatura intrusa. Coisa pra lá de maravilhosa. Contudo, lembre-se: chova ou faça sol, ele sairá falando...

Ao hóspede é bom lembrar umas regrinhas: leve um 'mimo' para seu anfitrião, é algo muito simpático, como se dissesse: 'hei, lhe trouxe uma lembrancinha porque vim encher seu saco!'

Se você vai para passar 4 dias ou 1 semana... Não altere para mais, sempre para menos!! Fará a alegria de muitos.

Ao ir embora, deixe um bonito arranjo de flores com um bilhete de agradecimentos, gesto delicado que causará ótima impressão e uma lembrança mais leve e menos dolorosa.

Mas é isso aí, gente: se tudo estiver bom pra seu anfitrião; se tudo estiver ótimo pra você é só deixar rolar e curtir essa linda amizade.
Esse, é seu amigo de verdade: guarde do lado esquerdo do peito!


16/11/09

REMÉDIOS: MINHA NEUROSE!



- tais luso de carvalho

Sou daquelas criaturas com tolerância zero para tomar remédios, é uma tortura. Detesto. A cor e o tamanho do remédio é algo que abala o meu psiquismo; se for cápsulas tipo míssil, aquelas com formato de bomba, de cor alaranjada, azul forte ou vermelho carmim, é um problema. Só ao olhar tenho náuseas. A força que tenho de fazer é inacreditável. Tenho de pensar em algo meio celestial, tomar o comprimido pensando que estou comendo morangos com nata, empurrados com um tipo de líquido que me engane, e depois assumir uma psicose qualquer. Já assumi, mas de nada adiantou. Continuo a mesma azarada.

Dia desses fui à farmácia de manipulação e encomendei uns comprimidinhos de cálcio. No dia seguinte fui buscar. Para minha surpresa, a cápsula era um canhão! Pedi para falar com a farmacêutica e perguntei se não haveria nada menor... Veio com uma explicação que não me interessou; na minha modesta opinião aquilo era comprimido pra cavalo. Paguei, mas não tomei. Dei pra minha diarista que, por sinal achou a glória poder tomar cálcio. Até que fiquei feliz com minha boa ação. Passei por outra farmácia e comprei uns comprimidos que se dissolvem, tipo bala. Ótimo; fiquei fã.

Outro problema torturante são as bulas: ah...essas bulas! Não tomo nada sem ler a bula. Os médicos odeiam quem lê bula... Sei, no entanto, que para se eximirem de qualquer problema em relação às reações, efeitos colaterais e óbitos, os laboratórios colocam tudo o que é possível e impossível de acontecer, e naquelas letrinhas minúsculas onde não se lê nada com desenvoltura. E os termos, aqueles hieróglifos indecifráveis? Ora, desde quando um leigo vai entender aquilo? Então, para que bula? Por que colocam tantas reações e os médicos mandam ir adiante? Particularmente tenho vontade de dar meia-volta... Até hoje é um mistério. Mas acho que a melhor explicação já dei acima.

Sou de opinião que não podemos ficar à margem e entregues totalmente na mão de profissionais da saúde sem tentarmos entender o que tomamos, seus efeitos, a interação com outros medicamentos; o mínimo. Dizem, os médicos, que temos de nos ajudar... Mas também temos de entender! Não sou favorável em buscar na Internet e nos Compêndios Médicos uma luz para nossos problemas, mas temos o direito de saber o que está acontecendo.

Há uns anos atrás, eu estava um tanto estressada - pela doença de meu pai - e apareceu em meu rosto uma mancha pequena que coçava. Fui ao dermatologista e me foi indicado um remédio novo no mercado, próprio para aquela dermatite. E tive um choque anafilático. É, aquela coisa meiga que nos deixa roxa, com tremores, febre, dores em todas as articulações, etc e tal. E que o atendimento tem de ser rápido.

Quando fiquei melhor, peguei a bula do remédio: ali dizia que um dos efeitos daquele remédio seria choque anafilático... Foi a primeira vez que não li uma bula. Penso que se tivesse lido, talvez tivesse falado com meu médico sobre essa possibilidade e ele teria dado um remédio tradicional, como me falou depois. Geralmente os médicos dizem que ‘se lermos as bulas não tomamos os remédios...’ E então, fazer o quê?

Sou contra em tomarmos decisões; mas em ler a bula, em apresentar para o médico nossas dúvidas é um direito nosso e uma obrigação de qualquer médico em esclarecer; se não devemos ler bulas, que tirem das caixas. Médico tem Compêndio, não precisa de bula.

Mas parece que está a caminho algo novo quanto às bulas... Tô na espera: quero ler sem ter medo de ser feliz.

04/11/09

GENTE INTROMETIDA, CANSA!

Jacek Yerka


- tais luso de carvalho

Por ser tão desigual o comportamento humano, ora generoso e doce, ora pretensioso e covarde, que tudo pode nos pegar de mau jeito e nos surpreender. Não existe coisa mais desagradável e mais estressante do que conviver com gente 'comandante'.

Chega uma certa altura da vida, que já estamos saturados de tantas intromissões, e gritamos por liberdade. Não aquela liberdade para transgredir, ou aquela coisa conquistada aos trancos para mostrar poder ou sentir o ego em ascensão; mas aquele toque que só conseguimos atingir com a maturidade, com anos de vivência, e ralando muito. Isso não é fácil, é tarefa pra dinossauro, justamente porque desde pequenos precisamos do aval dos outros; precisamos de aprovação. E assim, a gente segue a vida buscando ser aprovada.

Inicialmente buscamos aprovação em português, matemática, física, história, e em comportamento – nota 10 no boletim. E seguimos a vida buscando aprovação como boa filha, como mulher bonita, como mulher simpática, como ótima mãe, esposa, dona de casa, ótima profissional, ótima avó... Ótima tudo!

Lembro, de quando estava entrando na adolescência, ouvi várias vezes minha mãe dizer: seja mais simpática com a fulana, não 'empaca', minha filha... E hoje lembrei desse fato. E vou empacar, mãe, cada vez mais! É saudável.

Ora, porque eu deveria ser simpática com a criatura, se ela não me descia pelo gogó? Por que eu deveria conquistá-la e não ela a mim? O que tinha aquela criatura para merecer minha atenção? Quem de vocês não ouviu coisa semelhante?

Como eu gostaria que certas coisas se repetissem hoje! Como eu gostaria de uma segunda oportunidade para dar uma 'trancada' na hora 'agá'. Não me permitiria nenhum sofrimento; não me deixaria machucar. É uma obrigação nossa zelar pelo nosso bem-estar, zelar pelo nosso equilíbrio, pela nossa felicidade.

Por que forçar atitudes procurando ser querida e aceita, sabendo que a falsidade e o interesse andam soltos? Beijar o altar por causa do santo? Never.

Em geral as pessoas não nos fazem um convite para irmos à Festa do Moranguinho, do Peixe, do Vinho, da Colônia, da Cerveja... Elas impõem!
Como é difícil esse tipo de gente. Larga do pé, dá um tempinho aí, criatura!

Temos de gostar de Carnaval e extravasar uma alegria contida; temos de gostar de vinho porque é chique e romântico; temos de comer 'caracol' porque é chiquérrimo; o mocotó porque é regional; a feijoada porque é tipicamente brasileira, faz parte da nossa cultura.

Então a gente empurra a lesminha pra evitar um confronto filosófico com os mais requintados; comemos as tripas do boi, os tendões e as patas (mocotó) para evitar o confronto com os regionalistas; comemos os pés, as orelhas, o rabo do porco (feijoada), e entupimos as coronárias porque nos passaram um convite - de honra - para uma festinha em nossa homenagem. E vamu qui vamu! Não é assim?

Incomoda ter de seguir uma modinha e deixar de lado nossas roupas novinhas, pra não ser chamada de cafona; incomoda a pergunta se sua filha já arranjou um namorado ou vai ficar pra titia; incomoda a cobrança de quando virá o primeiro filho; e o segundo. E só? Incomoda-me o ar de espanto ao contar que gosto da serra e não do mar; do frio e não do calor.
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Uf, cansei; tô cansadinha! Talvez uma casa de campo... Onde eu possa ficar no tamanho da paz / E tenha somente a certeza / Dos limites do corpo e nada mais.
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29/10/09

POEMA DE FINADOS / Manuel Bandeira



Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai.
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
Em verdade estou morto ali.


Bandeira, Manuel, 1886-1968
Libertinagem & Estrela da manhã / Rio de Janeiro
Nova Fronteira, 2000.

25/10/09

TROCA DE FAMÍLIA


- tais luso de carvalho

Nós, brasileiros, estamos acostumados a nos emocionar através das tragédias: almoçamos e jantamos com noticiosos que fazem de nossas refeições um inferno. Quando não mostram assassinatos, torturas e seqüestros, mostram doenças terminais com todas as suas variantes, ou pessoas com os mais diversos problemas odontológicos. São apetitosas, as nossas refeições. Mas a culpa é nossa, é fácil desligar o aparelho.

Hoje, 24 de outubro de 2009. Um sábado chuvoso, fiquei deitada no sofá da sala exercitando meu domínio sobre o controle remoto. E trocando de canal, fui aportar na Record, em um programa chamado ‘Troca de Família’. Troca de Família é um reality show em que duas famílias diferentes trocam de mães por uma semana e têm que se adaptar a uma rotina totalmente nova, um verdadeiro desafio de tolerância e jogo de cintura.

Já havia visto outros programas desta série, porém nenhum chegou a me emocionar. Bem ao contrário. Mas esse, que mostrou Marina – a mãe que mora em Suzano/ São Paulo – e Linda, a mãe que mora em Aracajú/ Sergipe foram perfeitas nos seus sentimentos mais nobres, nas suas emoções, em simpatia, em amar o próximo, em esquecer mágoas, em ignorar as diferenças sociais, os preconceitos e se doarem ao máximo para se integrarem uma à família da outra.

Marina, dentista de formação, 1 filha, marido campeão olímpico e ótima condição econômica; Linda, dona de casa suburbana, 2 filhos, casada com um músico do subúrbio e de condição econômica pobre. Dois mundos, duas realidades opostas.

Marina soube lidar com todas as precariedades que encontrou na família de Linda, mesmo no primeiro dia onde encontrou poucos recursos, já no café e no almoço... Arregaçou as mangas e mãos à obra; fez e comeu o que tinha até resolver a situação com discrição.

Quero dizer aqui o que senti hoje; chorei sim, por ver aquela gente boa e humilde daquela vila precária de Aracajú contracenando com gente mais abastada de um bairro nobre de Suzano. É saudável a gente poder se emocionar com situações onde não existe lugar para rancor e ódio; é muito bom poder ver e sentir a capacidade que o ser humano pode ter para amar nas adversidades e conviver com as diferenças.

Estamos tão acostumados com desgraças que isso que vi foi emocionante sobre o ponto de vista social e psicológico. Gostei de ver essas duas mulheres que choraram porque foram bem recebidas; que choraram porque foram bem tratadas; que choraram porque foram muito amadas por pessoas estranhas. E choraram porque também amaram o ‘desconhecido’ sem preconceitos. Principalmente Marina, a mãe de Suzano / SP.

Depois de muita violência, um pouco de paz.

18/10/09

PRECONCEITO

Di Cavalcanti


- tais luso de carvalho

Todos sabemos: preconceito não é nada mais do que uma idéia preconcebida, antecipada; o não gostar sem saber o porquê, estabelecer diferenças entre as pessoas sem razão para tal.

Pois bem, todos fomos, alguma vez, preconceituosos. Uns mais, outros menos. Mas fomos, infelizmente. Isso é próprio do ser humano.

O preconceito racial é bem conhecido e não preciso deter-me muito nele. Sabemos que as manifestações são violentas, principalmente contra os negros - eles têm, sim, suas razões para odiarem o mundo, mas de nada vai adiantar dizer que um erro não justifica o outro. Foram arrancados de sua pátria, escravizados em mundos diferentes e, ainda, torturados num certo Pelourinho, hoje lindo e maravilhoso, todo colorido, lugar ideal pra turista tirar fotografias e rir não sei de quê.

O preconceito está sempre presente e não precisa esforço para encontrá-lo. Ele está nas religiões, nas seitas - cada uma achando que a sua doutrina é a verdadeira, a única. Vamos encontrá-lo no pobre, no trabalhador de baixa instrução, nos homossexuais, nos velhos, deficientes, gordos, feios, baixos, gigantes ou ateus. E, por aí vai; não existe mais gente, existem categorias e grupos prontos para serem discriminados.

Ouvi de um casal de amigos, ambos obesos, que a mulher gorda é mais descriminada do que o homem gordo. Eu não tinha pensado nisso; a discriminação ainda tem subdivisões!

A gordura tem identidade. A gorda jovem é mais discriminada do que uma gorda idosa. A gorda idosa é perdoada porque é idosa; mas a jovem já leva um apelido pra arrasar, pra ficar quieta. Já viram gordas trabalhando? Poucas: gorda tem de ir pra Spa; gorda não sabe fazer nada, gorda ocupa espaço, gorda é lerda... Esse é o pensamento do empregador.

Porém a pior das discriminações é contra os deficientes. Ser deficiente é uma coisa; ser ineficiente é outra. Mas parece que o negócio anda meio misturado...

Quantas vezes chamamos as pessoas pelo defeito exposto e não pelo seu nome? É o vesgo, o narigudo, o orelhudo, o fanhoso, o manco, o albino, o gordo, o magrão, o careca... Já presenciei um homem de 1.95 mt ser chamado de anãozinho... Ainda tem o lado irônico da coisa.

Onde o preconceito mais funciona é quando saímos à procura de trabalho. Quantos não conseguem emprego por sua massa corporal não entrar nos padrões exigidos de boa aparência?
Os velhos acumularam conhecimento durante anos e depois não servem mais, a não ser que sejam liberais. Caso contrário são desprezados e tratados como se fossem bagaços.

Os jovens recém-formados também são discriminados. Nos classificados dos jornais a exigência do empregador é de que esses jovens tenham, no mínimo, 3 anos de experiência com-pro-va-da.

Com tudo isso entrego meus pontos: não consigo entender esse raciocínio. De onde esses jovens vão tirar os tais 3 anos de prática? Estágios? Não dão a vazão necessária.

O que faremos com aqueles milhões de empregos prometidos que ainda não vieram?

Liguei meus neurônios e consegui entender: aqueles milhões de empregos prometidos - que ainda não vieram - são para criaturas jovens, de fé, com experiência, brancas, magras, bonitas, nem altas, nem baixas e com uma saúde de ferro; e se forem homens, com cabelos; porque os carecas também estão no listão!

Enfim, coisas nossas, dos humanos.

12/10/09

CHARICE PEMPENGCO / ESPETACULAR!



Charice Pempengco começou a cantar aos 7 anos para ajudar sua família. Começou cantando em concursos e comerciais tornando-se conhecida, mundialmente, apenas em 2007 através de seu vídeo no Youtube, hoje com mais de 35 milhões de acessos. Nasceu pronta, perfeita!
Veja aqui a história dessa menina.

30/09/09

UM TRISTE RELACIONAMENTO



- Tais Luso

Pois é, existem pessoas que já nascem com cara de festa, e seguem festeiras pelo resto da vida. É o caso da minha amiga Janaína, bonita, olhos verdes, e com aquele jeito de mulher 'eu me basto'.

Tudo aconteceu por volta de seus 45 anos. Lembro que seu primeiro casamento foi por amor, eu acompanhei, éramos bem próximas. Do segundo não lembro muito, estávamos um pouco distanciadas. Mas, após o primeiro casamento ela não pensava mais em compromissos sérios, queria apenas curtir a vida. Nada de amarrações.

Lembro que gostava de ler Dostoiewsk, Saramago, Dürrenmatt... Bom gosto, tinha a guria. E sua admiração era por homens intelectuais, que curtissem cinema, teatro, artes... Mesmo assim, volta e meia saía com a gurizada. Talvez para abrandar a sua vida meio solitária.

Certo dia conheceu André: um homem inteligente e sensível, mas longe de ser um intelectual, era apenas bem informado. Seu hobby era cuidar de seu sitio, de seus animais e de suas orquídeas. Geralmente quando um homem cuida de flores já é um indício de sensibilidade.

Desse encontro nasceu uma sólida amizade e, por parte dele, transformou-se num amor sereno e intenso: um sentimento que não exigia trocas, ele queria, apenas, estar junto e compartilhar a vida com Janaína.

O relacionamento, meio que morno, conseguiu chegar ao terceiro ano. Volta e meia ela desaparecia, inventava uma viagem, sozinha. Lembro que ela me escrevia do exterior, contando um pouco de suas maluquices. Lembro, também, do meu esforço para não dar palpites, uma vez que não concordava com certas coisas. Isso nos afastou um pouco. Não que eu fosse careta, mas apenas não gostava de presenciar certas ‘desordens’.

Numa tarde, nublada e fria, Janaína foi ao correio. E lá estava um rapazote que lhe chamou a atenção por ter o rosto muito parecido com o de André. Porém um rosto com expressão de dor. De súbito - contou-me -, foi tomada por uma sensação estranha. Saiu intrigada, com um certo mal-estar e com náuseas.

Chegando em casa um recado dependurado em sua porta dizia que André estava hospitalizado. Aquilo a intrigou; quem teria dependurado aquilo? Por que não telefonaram para o seu celular? E com o coração meio que descompassado dirigiu-se ao hospital. Chegou tarde; André já não estava mais presente: aos cinqüenta e quatro anos seu coração desistiu de viver. E não contou tempo para despedidas. Talvez, acredito, a vida lhe poupou das dores e lhe deu o direito de morrer em paz.

Fui ao encontro de Janaína. Para ela estava difícil de acreditar que André não estava mais presente; que não estaria mais presente para ler seus jornais, suas revistas e vibrar com seus filmes policiais e suas comédias-pastelão; que não estaria mais ali para continuar amando-a intensamente. Mas, agora, era tarde. Nada mais a fazer com seus sentimentos miseráveis. O que conseguiu foi entrar num processo de depressão.

Um ano se passou. Em dezembro, finalmente, ela pode visitar o túmulo de André – e, a seu pedido, fui com ela. Levou orquídeas brancas. Ajoelhou-se, e pela primeira vez sentiu que precisava conversar com ele: contou-lhe de sua solidão, de sua angústia e da saudade que estava difícil de suportar. Lembrou do pouco que André exigia; lembrou de seus jornais, de seus filmes... E lembrou que seu companheiro nunca havia feito exigências; e que também nunca foi feliz ao lado dela.

E ali, ao lado de seu túmulo - onde tudo acaba e todos se tornam iguais -, declarou o seu amor... Deu-se conta como eram verdadeiras as atitudes de André. E aprendeu com ele que amar é aceitar as diferenças, coisa do qual ela se esquecera.
E deslizou sua mão sobre a fria lápide, num consternado pedido de perdão...

Quero esquecer daquele ano de 2004; e também de Janaína - mesmo porque seu nome nunca foi Janaína...
.

22/09/09

PRIMAVERA / Augusto dos Anjos


Primavera gentil dos meus amores,
- Arca cerúlea de ilusões etéreas,
Chova-te o Céu cintilações sidéreas
E a terra chova no teu seio flores!

Esplende, Primavera, os teus fulgores,
Na auréola azul dos dias teus risonhos,
Tu que sorveste o fel das minhas dores
E me trouxeste o néctar dos teus sonhos!

Cedo virá, porém, o triste outono,
Os dias voltarão a ser tristonhos
E tu hás de dormir eterno sono,

Num sepulcro de rosas e de flores,
Arca sagrada de cerúleos sonhos,
Primavera gentil dos meus amores!


___________________________________
Fonte / Eu e outras poesias
Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos
Porto Alegre: LP&M, 2007
Pg. 164/

12/09/09

MADRASTAS E ENTEADAS

Auguste Renoir

- tais luso de carvalho

Coisa rara de se ver: um bom relacionamento entre madrastas e enteados. Não que ambos não queiram, mas porque é difícil; porque tem uma mãe e um pai biológicos no meio da questão. Se entre parentes, que são sangue do mesmo sangue já é difícil uma harmonia em tempo integral, fico a imaginar alguém ser obrigada a conviver com os filhos da outra, ou do outro. Na teoria parece que tudo será resolvido no novo lar e que ninguém será encrenqueiro, mas não é o que se vê na prática. Bota encrenca nisso.

Quando tudo está indo bem entre madrasta e enteada, o negócio degringola entre a mãe biológica, a madrasta e o ex-marido, ou seja, o pai do anjinho.

Não estou dizendo nada que não se saiba, o dito popular já inventou a dura palavra para uma das partes: (ma)drasta! Ô, palavrinha chula e horrorosa. Significa inclemente, pouco carinhosa... Quem vai mudar isso se até Manuel Bandeira chora num de seus poemas quando diz que até a vida é madrasta? Colou como chiclete.

E a palavra ‘enteada’ não fica muito atrás, coitada. ‘Essa é minha enteada!’ Pô, é dose; é como se a pobre levasse um ‘néon’ na testa dizendo que não é a filha, que é a intrometida entre o novo casal; que é a sombra da mãe. Claro que há exceções: deve haver muitas enteadas amadíssimas, e muitas madrastas diferenciadas.

A ‘enteadinha’ já tem na ponta da língua o que está em seu inconsciente: ‘você não manda em mim, você não é minha mãe, é a intrusa; quem manda é o meu pai e a minha mãe’. Isso enquanto criança, na adolescência o relacionamento já fica mais pesado. Mais funk!

E depois da troca de amáveis palavras, o barraco tá pegando fogo. O que prometia ser um relacionamento mais ou menos, ficou no menos.

Cada caso é um caso. Mas no geral é uma mixórdia nos sentimentos de todos. É difícil haver um certo equilíbrio no convívio.

A madrasta, por si, não terá muita paciência com uns enteados que já vêm de cabeça feita; que estão mais pra bagunçar, pra ‘peitar’ a atual mulher do ‘pai’.

A princípio, a madrasta entra numa relação cheia de amor pra dar, com o objetivo de conquistar a família, a empregada, o cachorro, o papagaio e tudo que circunda a vida do atual companheiro; esmera-se em quitutes, passeios e sorrisos. Mas, ao mesmo tempo passa a apitar e a mostrar quem manda no pedaço. Pode dar certo? E se a enteada morar junto? Santo Expedito...

A madrasta tem uma obsessão: reeducar a enteada! Por outro lado, a enteada acha que tudo o que a madrasta vier a fazer, será para o mal dela; para enticar. É uma das relações mais difíceis, pois envolvem carências, frustrações, sentimento de traição, abandono, perdas e desamor de quatro, cinco ou mais pessoas problemáticas, no qual cada uma quer resolver o seu problema.

Bem, aí só resta uma coisa: todos para TERAPIA! Vamos ver se dá pra apagar o fogo do barraco e salvar alguma coisa; reconstruir algo melhor, uma convivência mais pacífica. Tentar, tentar e tentar.

31/08/09

OS LÁBIOS DE ANGELINA JOLIE...

A bela Angelina

- tais luso de carvalho


Cirurgia plástica já é coisa corriqueira; ninguém tem mais medo. O futuro já é passado, num vapt-vupt a criatura já fez! Parece que ninguém está satisfeito consigo, com o que a natureza esculpiu. Os lábios que tenho visto por aí, não são mais lábios; dá pra chamar de várias coisas, menos de lábios. E não se vê mais sorriso ou gargalhada, é só um ‘há-há-há’ travado, mais fechadinho...

Será que nós, mulheres, não nos damos conta de que esse preenchimento, essa coisa artificial é horrível? Será que só os lábios da Anjelina Jolie – que é alta, com rosto largo, olhos grandes e boca proporcional pode ser referência pra todas nós? Será que só os lábios de Angelina são sensuais?

Ontem vi uma coitada: aquilo não era boca, era gamela. E fiquei em dúvida se ela estava satisfeita ou não. Além de ter ficado com cara de chorona, a boca não fechava. Aquilo me impressionou e fui atrás da mulher. Realmente fiquei chocada; eu tinha de ver o que era aquilo. Não aguento ficar com dúvidas; eu precisava saber se o que eu tinha visto era real. E era. A maior boca de todos os tempos. Jamais a natureza esculpiria aquilo num rosto pequeno.

Lembro, há anos, que a grande vedete era Brigitte Bardot. Aquele beicinho charmoso era lindo, sem dúvida. Era uma musa! Mas as imitações eram na base da maquiagem, não chocavam. Ninguém ousava fazer uma plástica para ficar com o beicinho da Bardot. Não era essa inchação de hoje.

Então, fico me perguntando, a essas alturas, por que essa imitação desenfreada, tanta busca para ser o outro? Parece que ninguém está contente consigo: muitas querem o bum-bum, a boca, os seios, os dentes, os cabelos e as pernas das outras! Pô, é brincadeira! Isso não é caso de cirurgia, é caso para resolver num divã. Deve ser a síndrome do vazio; precisamos aumentar nossa auto-estima na base do bisturi, como se nossos problemas se resolvessem com plásticas.

É uma insatisfação desenfreada. Muitas vezes, vejo pessoas com deficiências físicas estudando, trabalhando, fazendo, produzindo e, ainda, realizadas afetivamente. Minha massagista é cega, casada com um massagista cego, e são felizes!! Uma lição de vida. E as beldades biônicas, com tudo no lugar, exceto a cabeça, estão carentes, solitárias, queixosas e depressivas. E enchendo o saco.

Todas as cirurgias apresentam riscos: hemorragias, infecções, danos aos nervos, cicatrizes horrorosas e dores constantes fazem parte dos acidentes, que podem surgir numa intervenção cirúrgica, não há como esconder que nada disso acontece; que não há riscos.

Os exames que devemos fazer no pré-operatório, é uma obrigação e um cuidado do médico. Mas nem todos são solicitados, os noticiosos estão mostrando as tragédias...

Vejam o caso de Michael Jackson: queria ter o rosto da amiga e ficou com um nariz impossível de respirar; ficou com um maxilar horroroso. Em suma: era um negro bonito, saudável e talentoso; virou um branco doente, frágil e esquisito. E está cheio de casos semelhantes.

Não sou contra as cirurgias para correção, tudo bem; mas o que vejo são homens e mulheres exagerando, se entupindo de botox e próteses, transformando a sua natureza em medidas exageradas.

Tanta gente precisando de cirurgia séria, tanta doença aparecendo, tanta gente esperando por um transplante, pessoas sofrendo e lutando pra viver, à espera de um doador, enquanto outras se arriscam por uma boca mais carnuda, mas ficando com um bocão de dar pena. Eu vi, e valha-me Deus!

26/08/09

HEMOPTISE

Tormenta / Ludolf Backhuysen 1630 - 1708


- Pedro Luso de Carvalho


Homem sonolento
no quarto sombrio,
olhos vítreos
pálido rosto
marcado
por rugas precoces,
prenúncio da morte
esperada -
lenitivo da dor.


Tosse prestes a romper
a azulada veia,
desenhada
por mão
de espectral ser
no marmóreo
rosto do homem.


Corpo esquálido,
denúncia da luta inútil
pela inútil vida
do homem;
de súbito
qual furacão, cone
de ventre ávido
e impiedoso,
a hemoptise -
sangue manchando
os sonhos
e afogando a vida.



_________________



Pedro Luso

16/08/09

FAMÍLIA SÓ É BONITA EM PORTA - RETRATO


- tais luso de carvalho


Há muitos anos ouvi esta frase: 'Família só é bonita em porta-retrato'. Ouvi, achei engraçada, mas não passou disso. E hoje me pergunto se esta frase não estará certa, aplicada nos dias atuais em grande número de nossas famílias.

O título da crônica pode ser engraçado ou um tanto mordaz, mas pelo que tenho visto, no decorrer de muitos anos, família e paraíso não são sinônimos. Vejo, cada vez mais, um núcleo desestruturado, rancoroso e azedo. Haja 'jogo de cintura' para se sair vivo de uma fofocaiada, de uma intriga familiar. Não existe nada mais complexo e labirintoso do que esse núcleo, hoje. Mesmo por que a base é o ser humano, com todas suas nuances. Daí o convívio, em muitas famílias, ser algo meio surrealista. O ser humano piorou, consequentemente as famílias pioraram.

Também não quero dizer que não exista o amor familiar; ele está presente, mas não o suficiente para manter as pessoas unidas e em harmonia por muito tempo. Primeiro é o eu; depois continua sendo o eu. E sobra pouco pra dividir. E no primeiro tropeço, começa a desintegração.

Dizem que a família é o mais importante núcleo para a formação de uma sociedade saudável. Até concordaria, mas se saudável fôssemos. Porém, ao meu ver, estamos cada vez mais desacreditados, incapacitados para sentimentos, e, por incrível que pareça, nos estarrecemos ainda com todas as atrocidades que vemos. Nossa espécie está mais violenta do que nunca: tudo já aconteceu. Não sei qual surpresa pode estar a caminho, talvez a explosão do planeta! E até isso não me surpreenderia.

Em minutos ficamos sabendo das últimas atrocidades: do filho que matou a família inteira; da mãe psicótica que jogou a filha no lixo; do pai que atira a filha pela janela; do cara ciumento que mata a esposa com 10 facadas; do filho que esfaqueia a mãe para obter dinheiro; da mulher que envenena o marido; da mãe que vende a filha para ser prostituída; da filha que mata os pais com ‘olho’ na herança, da mãe que mata o filho drogado, do neto que espanca a avó e daquele maníaco austríaco, que fez o que fez... Que coisa mais maluca! Enfim, uns parentes ordinários que não se sabe de onde saem. Isso se chama família: não tem nacionalidade, cor ou credo. E não são casos isolados; não são poucas as famílias que se atracam o dia inteiro. O número é enorme, mesmo o que deveria ser mais preservado - o amor familiar -, está em declínio; ladeira abaixo...

Sempre teremos no nosso núcleo - ninguém foge dessa - pais, irmãos, primos, tios, avós, filhos, sogros e cunhados que farão o inferno astral uns dos outros, cooperando para a formação e instabilidade dessa base social.

E é nesse núcleo que nasce a inveja, a insegurança, o egoísmo, a intolerância, a arrogância, a sovinice, o desrespeito e a formação de caráter. Que núcleo é esse, onde o sangue que corre pelas mesmas veias não tem o poder de fazer com que impere um amor verdadeiro? (Não generalizo).

É no núcleo familiar que aprendemos a armar confusões por coisas insignificantes; é no núcleo familiar que crescemos vendo as primeiras desavenças entre pai e mãe; é nesse núcleo - maravilhoso - que fofocamos dos primos, das tias, dos avós, dos netos, dos cunhados e dos sobrinhos; é no núcleo familiar onde começam nossas carências afetivas. E é no núcleo familiar que aprendemos a querer o mal do outro. E é neste mesmo núcleo que nossas atitudes são das mais perversas. É nesse núcleo que se forma o ser humano.

É nesse núcleo - no término do casamento - que os filhos são colocados na linha de combate e atingidos pelos atos de vingança de seus pais. É mãe escondendo o filho do pai e pai se esquivando de pagar a pensão dos filhos. E depois dê-lhe terapia no anjo.

Que instituição é essa que o amor não sobrevive diante da matéria? A coisa só 'afrouxa' nos velórios. Mas passados uns dias, quando tudo já está esquecido e o defuntinho enterrado, o tal núcleo volta a ser o que sempre foi: cruel, insensível e interesseiro.

Não tenho mais pruridos em falar de família. Família deve ser vista sem máscara e sem verniz. Caberia também ao Estado cuidar do que é oferecido aos nossos jovens; ter mais cuidado com os filmes, que são verdadeiras escolas de crimes.

Por isso digo que família só é bonita em porta-retrato: nele, as famílias ficam lindas e sorridentes para serem vistas pelas gerações futuras: 'este é o fulano, filho do sicrano e neto do beltrano'!
Maraviiiilha!! Que linda família, que harmonia!!

Recomendo o filme 'Parente Serpente': uma típica família italiana se reúne na casa da nona para a ceia de natal. Tudo começa bem, recordando os bons momentos da infância. Com o passar das horas a personalidade de cada um dos irmãos vai emergindo e minando, aos poucos, o clima festivo até o dia que tudo termina da pior maneira possível... Eu vi esse filme várias vezes: no cinema e na vida real.

-------------------------------the end

10/08/09

OS POBRES / Olavo Bilac




-Olavo Bilac

Aí vêm pelos caminhos,
Descalços, e pés no chão,
Os pobres que andam sozinhos,
Implorando compaixão.

Vivem sem cama e sem teto,
Na fome e na solidão:
Pedem um pouco de afeto,
Pedem um pouco de pão.

São tímidos? São covardes?
Têm pejo? Têm confusão?
Parai para os encontrardes,
E dai-lhes a vossa mão!

Guiai-lhes os tristes passos!
Dai-lhes, sem hesitação,
O apoio de vossos braços,
Metade de vosso pão!

Não receeis que, algum dia,
Vos assalte a ingratidão:
O prêmio está na alegria
Que tereis no coração.

Protegei os desgraçados,
Órfãos de toda a afeição:
E sereis abençoados
Por um pedaço de pão...


_____________
Bilac, Olavo 1865-1918
Antologia poética / L&PM 2007 pg.73
Porto Alegre

02/08/09

QUANDO NÃO SE DEVE VISITAR

Modigliani / expressionismo 1919

- tais luso de carvalho

Não sei o que fazer para ter a calma que me pedem; liguei o rádio pela manhã e ouvi todos os óbitos causados pela gripe suína; fiquei informada da morte de uma ascensorista; de algumas gestantes que faleceram e mais outros tristes casos. Aí penso nas pessoas que cruzaram com a coitada da ascensorista dentro daquele elevador... E que devem estar meio apavoradas.

Somos aconselhados a ver filmes em casa; a não irmos a shopping e teatro; lavar dezenas de vezes as mãos porque tocamos em alimentos, em balcões, em dinheiro, em maçanetas, em bancos de ônibus, em cadeiras, em carrinhos de supermercados, em frutas e legumes. É perigoso de pegar o ‘bicho’ pelo nariz, boca e olhos! Tá difícil de ouvir e não se preocupar: o vírus da gripe A fica cerca de 10 horas numa superfície como maçanetas etc. Já não beijo mais ninguém; deixo os dois beijinhos lá para outubro ou novembro.

Remédios? Só nos hospitais. O Tamiflu, e agora o genérico Oseltamivir, não são vendidos em farmácias, para evitar que o vírus crie resistência ao princípio ativo. Sim, porque quem de nós não pensou em fazer estoque? Se eu tivesse condições, compraria a farmácia...

Pois, com toda esse tumulto - que vemos pela televisão, nos atendimentos pelo SUS - ontem me aconteceu um fato inédito. E lógico, que entrei em pânico!

Sem que eu esperasse, bateu à minha porta uma pessoa que há muitos anos trabalhou pra mim: ela foi ao hospital - perto de minha casa - e depois veio me fazer uma visitinha. Ela e o filhote. Entraram, sentaram e começaram o teteté e tititi... Porém, me desceu uma ‘luz divina’ em perguntar, a ela, o que tinha ido fazer no hospital.

- Ah... Vim trazer o Andrezinho (25 anos, o mimoso), tá com 39 de febre, tossindo muito e cheio de dores... Fiquei branca: deve ser algo surrealista! Uma pessoa infectada, sai de um hospital e vem direto pra minha casa bater um papinho? Oh, My God... O que está acontecendo comigo?!

O cara parecia uma metralhadora giratória: com os olhos vermelhos, marejados, tossia em todas as direções. Encheu minha sala de vírus! Comecei a me coçar toda. De nervosa. Tive pena, sim, mas isso não resolveria o problema dele. E nem o meu... Eu estava com urtiga, urtigão por todo o corpo! Pânico, a gente não controla.

Enquanto fui tomar um calmante, aproveitei para pensar o que deveria fazer? Não queria magoar as criaturas. Mas alguém ouviu minhas preces ou eu mostrei - no meu semblante – que o Andrezinho não estava muito inofensivo para fazer visita. Ficaram mais uns 5 minutos e foram embora. Mas me deixaram a dúvida...

Na madrugada, minha garganta deu sinal de vida: e eu não tinha nada de remédio, nem um Tamifulzinho... Levantei e fui fazer o que minha avó me ensinou: fiz gargarejos de água morna com sal: aos montes! Passei o dia me observando, e estou no pc tentando me acalmar.

Com essa aprendi: gripe? Não levo e nem aceito: fico em casa, incomunicável, chazinho e sem visitas! No ano passado, foram quatro mil óbitos – pela gripe comum – por complicações respiratórias.

Não quero gerar pânico, apenas mostrar um pouco do que certas visitas podem nos causar, e quando não são bem-vindas.

27/07/09

PISEI NA BOLA!


- tais luso de carvalho

Ninguém está livre de cometer algumas gafes; e quando cometemos temos duas saídas: rir ou chorar. Eu nunca chorei, muito pelo contrário, fico pior. Não paro de rir. Tenho consciência de que tenho alguma ‘falha’ nisso.

Mas esse é o nosso perfil: não somos durinhos de cintura; temos samba no pé, uma coisa muito nossa que nos diferencia dos outros povos. Não levamos muito a sério certas etiquetas e protocolos que a sociedade muitas vezes impõe. Quando a coisa é demais, levamos para o lado da piada. Já notaram como fica simpático quando um chefe de Estado quebra as regras de um protocolo? Por que será que gostamos tanto disso? É que no fundo todos gostam da simplicidade; ninguém agüenta muita pompa, porque na verdade, tudo que é demais soa falso. No fundo, todos nós fazemos as mesmas coisas.

Aquela mosca que Obama matou - com um sopapo -, rendeu matéria no mundo inteiro. Quem não mata um bicho desses? Quem não faz um auê com uma barata? Mas também não quero dizer que devemos sair por aí aprontando feito louco.

Ontem eu aprontei, cometi um deslize: sabem, aquele ataque de riso, aquela coisa meio histérica que acontece quando cometemos uma gafe? Pois é, eu pisei na bola. E não consegui parar de rir, e tratei de passar a ‘batata quente’ pro meu marido.

Fui dar um telefonema de felicitações à minha comadre. E perguntei quantos aninhos ela estava fazendo... A coisa já começou mal; essa pergunta não se faz.
Disse-me:
- (...)
- Ops... Mas você está enxuta!
E comecei a rir; foi um elogio infeliz, como se a criatura estivesse despencando. Ela está ótima.
Mas não parei por aí...
Olha - disse eu - se você precisar de uma dentista, que arranque dente, descobri uma que é show de bola! Fala comigo, é di-vi-na! Uma mão de anjo!

- Mas PÔ!!! Tô fazendo aniversário e você vem me dando nome de dentista pra arrancar dente!!! PÔ!!!!!
- Não... Péra, eu quis dizer caso você venha a precisar! Mais adiante, bem mais...
Vi que o negócio ficou pior e não tinha arrumação, e comecei a rir sem conseguir parar, pois vi a ‘mancada’ horrorosa que dei.

Minha intenção era dizer que nunca tinha encontrado uma dentista tão boa! Só que disse na hora errada e na data errada. E passei o telefone para o Pedro.

- PÔ, Pedro, a sua mulher está com algum problema? Tô de aniversário e ela fala em arrancar meus dentes!
Não havia mais nada a fazer com aquele episódio dramático... Ele apenas disse que eu estava com muita dor de cabeça.

- Mas... O que tem uma coisa com a outra? Perguntou ela.
- Pois é, também não sei! Quando ela está com dor de cabeça acontece isso...
E eu rindo sem parar da embrulhada que fiz; a comadre é tri de vaidosa!

Mas levei uma lição: parabéns é uma coisa que se deve dar e sair correndo. Sem muito papo. Não temos muito a acrescentar por 40 anos afora. Ainda não inventaram coisa mais criativa do que desejar saúde e dinheiro.
Desculpe essa, comadre, sei que você vai ler essa crônica, mas o que importa é que lhe quero muito bem: estou me penitenciando publicamente. Vamos guardar essa no 'Diário da Família'.
Beijão.

22/07/09

DE QUE RIEM OS PODEROSOS?


- Affonso Romano de Sant’Anna

De que riem os poderosos?
Tão gordos e melosos?
Tão cientes e ociosos?
Tão eternos e onerosos?

Por que riem atrozes
Como olímpicos algozes,
Enfiando em nossos tímpanos
Seus alaridos e vozes?

De que ri o sinistro ministro
Com sua melosa angustia
E gordurosa fala?
Por que tão eufemístico
Exibe um riso político
Com seus números e levíticos,
Com recursos estatísticos
Fingindo gerar o gênesis,
Mas criando o apocalipse?

Riem místicos? Ou terrenos?
Riem, com seus mistérios gozosos,
Esses que fraudulentos
Em seus misteres gasosos?

Riem sem dó? Em dó maior?
Ou operísticos gargalham
Aos gritos como gralhas
Até ter dor no peito,
Até dar nó nas tripas 
Em desrespeito?
Ah, como esse riso de ogre
Empesteia de enxofre
O desjejum do pobre.

Riem à tripa forra?
Riem só com a boca? Riem sobre a magreza dos súditos
Famintos de realeza? Riem da entrada 
E riem mais
- na sobremesa?

Mas de tanto riem juntos
Por que choram a sós,
Convertendo o eu dos outros
Num cordão de tristes nós?

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Sant’Anna, Affonso Romano, 1937
Poesia reunida: 1965-1999
Porto Alegre, LM&M Pocket - 2004



18/07/09

TANGO / ARGENTINA

Vejo o tango não somente como música ou dança, mas sim como uma cultura, o modo de ser, a paixão, a dramaticidade,  a crítica e a história de um povo bravo: o povo Argentino. Temos alguma rivalidade no campo esportivo? Temos; mas somos irmãos de coração e de alguns costumes aqui no sul.

Fiquem com esse vídeo, achei belo.

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12/07/09

UM CARA BOM DE CUCA


Van Gogh / Comedores de batatas
 - Tais Luso de Carvalho

Assisti um programa na televisão, no dia 4 de julho, e que me emocionou bastante. Mas nada de montagem ou ensaio para nos levar às lágrimas; aquelas coisas abomináveis. Deu pra notar que foi acontecendo, na base do inesperado. Não me emociono (com certas exceções)  com a vida de ricos ou famosos e muito menos com seu ‘adeus’. E, muito menos, ainda, se partirem desta pra outra com 100 anos de idade. Já atravessaram o século e já estão no lucro, algo difícil de acontecer com os menos afortunados. 

Lembro da ‘Rainha Mãe’, da Inglaterra, que partiu dormindo aos 104 anos, coisa de dar inveja, é tudo o que eu gostaria. Viveu bem, usufruiu do bom e do melhor, não passou trabalho, enfim, fez aqui o seu paraíso. Nós, pobres mortais, os súditos do esquema ‘verde-amarelo’, de uma hora pra outra podemos passar por maus lençóis. 

Vi um pai de família, vendedor de frutas, que tinha como instrumento de trabalho nada mais do que uma Kombi demolida, na carcaça, e com quatro pneus arriados, só no ferro. Sua família pareceu-me bem estruturada para o padrão em que viviam, parece mentira...

Quando a gente vê um pai, que só consegue chorar por uma oportunidade de trabalho mais digna; quando a gente não vê mágoas contidas; quando a gente não vê um pingo de avidez; quando a gente vê esforço e alegria, apesar da quase miséria, emociona. Deu pra sentir que o homem tinha uma cabeça trabalhada por Deus. Era bom de cuca.

Quando não se consegue narrar o que se viu; quando não se consegue narrar a dimensão do agradecimento de um homem, dá pra pensar que nem tudo está perdido. Eu não consigo descrever.
 
Sim, porque o mais fácil seria reclamar da sua condição de pobreza e sacrifício. E não seria injusta essa reclamação, uma vez que constatamos, diariamente, e como cidadãos, atos que poderíamos classificar de ‘deboches’. 

Emocionei-me porque vejo que nosso país não dá nada para os que realmente necessitam. E dá ‘montanhas’ para os que nada fazem. Privilegia quem não precisa; fecha os olhos para os desventurados, para os desgraçados. 

Certas atitudes emocionam, mas até explodir o coração de alegria e agradecimento, até entrarmos num estado de euforia agradável, muita água rolou, muitas renúncias se fizeram necessárias, muitas lágrimas desperdiçadas. 

Aí dá pra ver um pouco da grandeza do espírito humano quando ele consegue ter, mesmo na miséria, gratidão e sinceridade pelo mínimo que recebe.
Coisa difícil de se ver.

 

07/07/09

ROBERTO CARLOS E CAETANO VELOSO


- Tais luso de Carvalho

Depois de notícias preocupantes, de saber que a Argentina é o país que apresenta um dos maiores números de infectados pela gripe suína – e  é nossa fronteira  aqui no sul; depois de mais uma novela de corrupção,  espichada lá no Senado até não aguentarmos mais; depois da semana traumatizante para os fãs de Michael Jackson, que choram sua morte pelo mundo afora; depois de toda a 'roubalheira' que sabemos, e que jamais vamos deixar de nos estarrecer; depois de ver o Rio Grande do Sul jogado no lamaçal, com o episódio da governadora e de sua casinha básica de 1 milhão de reais, e que não consegue explicar de onde saíram os 'centavos'...

Depois dos crimes do dia-a-dia, taras, cousas e lousas, ainda consegui ver algo de extraordinário: a entrevista com Roberto Carlos e Caetano Veloso, feita por Nelson Motta para o canal TV Globo News. 

Silêncio, para não perder nada; é difícil ver alguém sem agressividade e tão doce como os dois. Isso faz muito bem; vivemos numa época que precisamos de mais ternura. Falaram de suas músicas,  do triste exílio de Caetano, da parceria Roberto/Caetano, cantaram  'Teresa na Praia' , 'Debaixo dos Caracóis',  'Força Estranha'  e outras canjas. 

Um caminhão de simpatia, educação, respeito e charme. Tudo isso rolou entre os três. Cantaram, contaram. 'Debaixo dos Caracóis'  foi composta por Roberto para Caetano durante seu exílio em Londres.
Fica aqui esse vídeo,  que é histórico. 

29/06/09

O MELHOR DA FESTA


-tais luso de carvalho

Não adianta: a festa pode ser um primor, mas os comentários do dia seguinte... Abram alas! Dá pano... Ah dá. É coisa pra lá de boa de falar. É outra festa.

Ouvi um neurologista aconselhar para não levarmos a vida muito a sério, que o bom é brincar, conversar e ‘fofoquear’. Ops... Fofoquear, Dr? Então deixa comigo: já tô levitando...

Ontem fui a uma festa de casamento e lá encontrei antigas amigas: Aninha, Geny e Kika. Muitos conhecidos estavam na festa. Para a comida, bebida e anfitriã... Nota 1000! O meu negócio são os convidados.

No salão encontrei a Aninha, toda produzida em tons de azul: sapato azul, bolsa azul, vestido azul, laço azul, sombra azul... Toda combinadinha, um céu. Armando, marido de Aninha, é coberto de defeitos - segundo ela. Trabalha demais, o obstinado, mas tem como lazer cuidar de sua grande paixão: um velho Santana amarelão, relíquia. Passa horas lavando os pneus, tirando os bancos e desmontando o motor. Por fim, 'a coisa' entra no ‘brilho’ e vai direto para a garagem, o carango Imaculado. E Armando sai com o outro carro, que mais parece um tanque de guerra. Imagino a Aninha desfilando naquilo.

Geny, outras de minhas conhecidas, estava na mesa do outro canto, enfiada dentro de um vestido ‘verde periquito’ e escondida atrás de um enorme laço preto, preso ao pescoço. Jamais eu conseguiria comer ou dançar com aquela guilhotina no pescoço. Horrível. Está casada com o mesmo Geraldo; o mesmo coitado.

Lembro-me do dia em que fui visitá-la na sua casa da serra. Na porta (de sua casa) havia uma coleção de chinelos; uns 10 pares. De todos os números. Pensei logo no bom coração de Geny, como ajuda os pobres... Engano: a chinelada era para as visitas pouparem o assoalho. E para não dizerem que não falei de flores... Fiquei no jardim trinta minutos e fuuuui! A coitada é fanática por limpeza, e ficou lá com seu assoalho asséptico.

Outro casal que encontrei foi Kika e Mauro. Ela continuava a mesma criatura, com olhos arregalados, quase saltando das órbitas. Olho de peixe boi. Normalmente eram assim, mas diante daquela mesa farta, com os mais variados salgados e doces, Kika agia como um lagarto: com um olho nos doces e o outro nos salgados. Foi de vermelho, estilo ‘la compasita’.

Um dia, não lembro quando, nos encontramos em Gramado e resolvemos ir a um lugar gostoso para bater papo; mesas nas calçadas, toalhinhas em xadrez, lugar convidativo para um chopinho com fritas. Sentamos e começamos a exercitar o papo-cabeça: falar de tudo o que não tinha importância.

Minutos depois, vieram os dois chopes com as duas porções de batatas. Kika parecia um urubu em cima da carniça; fincava aquele palito pegando quatro batatas de uma só vez! Que ansiedade, que coisa mais animalesca foi aquilo! PÔ!!

No começo, eu fiquei no ‘charme’; batatinha por batatinha... Mas ao pensar que ficaria molhando o bico só no chope, sem as minhas batatas, um calorão se apossou de mim; esqueci de tudo e me atraquei naquelas malditas batatas deixando de lado o charme e a educação que recebera: ela pegava cinco; eu pegava cinco! E assim fomos indo numa disputa camuflada até limparmos o prato, sem, no entanto, deixarmos transparecer a competição que se instalara.

Logicamente eu saí mal, principalmente por constatar que meu processo educativo estava um tanto degenerado.

Porém, como nossos filhos eram amigos, após a festa de ontem tentei fazer uma nova aproximação com a ‘companheira’ Kika. Liguei pra ela:

- ALOOOOU! – era ela, com aquela voz de contralto.

Desliguei, sem nada falar. Aquele “ALOOOOU” não me descia mais. Lembrei de nossa última conversa por telefone quando liguei para lhe pedir um favor: ela falou um monte, contando de seus problemas. Fiquei estressada e coloquei o fone no gancho. Era a mesma Kika; não tive um espaço para qualquer articulação labial; ela não fazia uma vírgula, uma exclamação, nem tampouco uma interrogação. A mesma Kika! Então aproveitei a oportunidade e coloquei o que faltava: um ponto final.

A festa ainda não terminou: tem mais! Mais adiante voltarei com o capítulo II.

22/06/09

POR FAVOR, ME ESCUTE!


- tais luso de carvalho

Minha amiga estava com a alma em frangalhos por ter perdido o irmão, tragicamente. Estava fazendo força para não ser engolida por uma depressão. Fiquei preocupada e disse a ela que voltaríamos a conversar, mas que ela precisava sair, e que não trancasse suas dores.

- Mas Tais, as pessoas não querem saber de ouvir! Ninguém quer saber; as pessoas querem é falar!

Ela tinha razão: muito difícil alguém parar pra ouvir o que queremos contar. Não sei o que acontece, mas percebo que, cada vez mais, as pessoas só querem falar, falar... E não estão 'nem aí' pra ouvir. Aliás, só ouvem o que querem; o que possa lhes interessar. É difícil desabafar uma dor.

Será que hoje só existem amigos pra servir de acompanhante? Pra pegar um cineminha, pra ir dançar, ir ao teatro e academia? Será que alguém tem de pedir: 'hei... pelo amor de Deus, você pode me ouvir? Escuta... estou com problemas, eu preciso falar! Pode me dar uma forcinha básica?'

Poucos são os que se mostram dispostos a ouvir, e se alguém tem algo a dizer que seja rapidinho, né?! Vamo que vamoooo... porque o ouvinte não tem tempo!

Já senti isso, numa reunião social. Já fiquei com a frase no ar, suspensa, dependurada e com cara de trouxa, enquanto a criatura olhava para os cantos. Que situação... Isso é terrível. Além de ter sentido o desinteresse por parte do outro, não há como dar continuidade ao assunto. E me senti uma babaca, sem eira nem beira em nome de minha 'sociabilidade'.

Hoje não passo mais por isso; faço um estudo relâmpago das probabilidades de falar e de ser ouvida, ou fico ca-la-da. É aquela coisa: com os anos a gente aprende.

Foi aí que descobri que para manter um papo com alguém - de difícil conversa -, basta soltar a linha... Deixa-o falar; levante um questionário e desligue! Essa pessoa jamais vai ouvir alguém; já nasceu capenga, não terá interesse em ouvir nada que fuja de seu mundo. Nasceu sem empatia – aquilo que é fundamental para sermos apreciados: colocar-se no lugar do outro; ser capaz de saber o que o outro sente. Ser solidário, enfim.

É isso, falar não é tão importante quanto ouvir. E esse tipo de gente jamais irá encontrar 'alguém em casa' quando precisar. Mas por fim, essas pessoas - que não conhecem a estrada de duas mãos - não chegam a incomodar tanto, são logo descartadas: a gente se manda!

18/06/09

BALADA DOS CASAIS

Juarez Machado / Paris 2006

(Affonso Romano de Sant'Anna)
Os casais são tão iguais,
por isso se casam
e anunciam nos jornais.
.
Os casais são tão iguais,
por isso se beijam
fazem filhos, se separam
prometendo
não se casarem jamais.
.

Os casais são tão iguais,
que além de trocar fraldas,
tirar fotos, acabam se tornando
avós e pais.
.

Os casais são tão iguais,
que se amam e se insultam
e se matam na realidade
e nos filmes policiais.
.

Sant’Anna, Affonso Romano, 1937
Poesia reunida: 1965-1999
Porto Alegre, LM&M Pocket - 2004

11/06/09

NEM TUDO SÃO FLORES

- tais luso de carvalho

Quando levo meu cachorro pra passear, meus olhos vão descobrindo alguns terraços cheios de flores, janelas com cortinas de crochê e bebedouros para os bem-te-vis. Um encanto! E cada dia que faço este passeio parece que esses terraços são mais e mais festivos, e que existem pessoas muito felizes naqueles lares. O sol, as flores, os bem-te-vis... Quando volto pra casa penso em transbordar minha sacada de flores, deixá-la como se fosse um jardim...

O que estarão fazendo os habitantes daquelas casas e apartamentos? É difícil imaginar que por detrás daqueles jardins encantados possa existir alguém triste, solitário e com uma montanha de problemas.

Mas são momentos de ilusão, uma vez que me afasta da violência da cidade e me permite pensar que a vida se apresenta sempre maravilhosa; deve ser o poder das flores...

Percebo que só tive esta ilusão porque supervalorizei o que estava longe, o desconhecido: as casas dos vizinhos da minha rua.

Mas aquela imagem me levou a pensar em outra coisa: será que as pessoas não se tornam ídolos porque estão longe e inacessíveis? Fico curiosa com a biografia de grandes nomes e tenho interesse pelos aspectos ocultos de grandes homens, de cientistas e pensadores que fizeram a história da humanidade. Os ídolos nunca são nossos iguais: precisam ficar no patamar da nossa imaginação, protegidos da curiosidade humana, envoltos num mistério que fascina.

Por isso, quero conservar os terraços de meus vizinhos à distância: poderei olhar as flores, os bem-te-vis e pensar, por momentos, que a vida será sempre maravilhosa. Depois volto à realidade, sem problemas. Afinal, nem tudo são flores!
.

04/06/09

A DIFÍCIL ESCOLHA

Botero / Hombre y Mujer - 2001

- tais luso de carvalho

É pena que nosso amadurecimento seja um processo demorado, sempre para médio e longo prazo. É o preço. A vida faz uma troca bem balanceada: vai dando a calmaria e pedindo em troca o viço de nossa pele; vai dando o equilíbrio e tirando o pigmento dos nossos cabelos. E não solta, jamais, a paz. Mesmo porque, na meia idade alguns já questionam suas vidas, já com um pé na crise existencial. Até entendo um pouco a coitada da vida, que não pode nos dar tudo de supetão, e sem nenhum ônus.

Seria bárbaro se fossemos belos, equilibrados, ponderados, maduros e solidários. E ricos! Mas tudo junto? Vamos ser justos: alguém dá alguma coisa de graça? Por que a vida daria? Não; com ela é no toma lá, dá cá; olho por olho, dente por dente. É, ela cobra.

Aí fico pensando nas encrencas que a gente se mete pra enfarofar mais nossa vida; é um rolo duas pessoas, completamente diferentes, viverem juntas em nome do primeiro olhar, em nome do romantismo e de idealizações equivocadas. A paixão não transforma ninguém; encanta por algum tempo. Depois, há que trabalhar para salvar a relação, senão vai tudo pro brejo. Adeus.

Como uma pessoa insegura, carente e tímida pode almejar viver ou conviver com uma pessoa segura, resolvida e despachada demais? Vai sofrer.

Não é difícil entender o porquê de alguém tímido incomodar um pavão falante; do erudito incomodar um não tô nem aí; de um faz tudo incomodar um incapaz; de um ponderado incomodar um destrambelhado...

Só resta uma ajudinha externa, e gritar:

- Me descobre aí um psicoterapeuta!! Vou lá ver o que está acontecendo, a criatura não mu-da!!

A princípio, a visita ao um psicoterapeuta é para tentar uma maneira de arrumar o seu lado através da mudança do companheiro. Não é não? Não é mais fácil?

É difícil de ver alguém querer mudar; quanto mais carcomida estiver a criatura, mais difícil será a mudança. Às vezes, o negócio fica encruado. Pior, se essa mesma criatura achar que é perfeita, o que acontece quase sempre. É a traição do espelho.

Sempre percebi que o maior beneficiário de mudanças é quem muda pra si, para o seu consumo, não para os outros. Aquele que muda para acertar as pontas consigo mesmo.
Por isso penso que o certo, o menos conflitante, é quando os iguais se atraem. As chances de dar certo são bem maiores. Pelo menos é o que ensina Jung, esse expoente da psicanálise.