31 de agosto de 2012

A FÚRIA PELO CONSUMISMO



- Taís Luso de Carvalho


Mulheres e homens são bem diferentes, e consumir em demasia é mais próprio das mulheres. Estamos deprimidas, chateadas, brigamos com o marido, algo deu errado e a tal  viagem não saiu? O filho tá de chantagem? A sogra vem acampar? Nossa Senhora do Suplício,  vamos comprar! Vamos aliviar a barra.

Desde criança, aprendemos a compensar: mulher sabe que comprar alivia, compensa frustrações. Então saímos à procura de qualquer coisa que possa amenizar nossas amarguras; nem falo em coisas de grife, o foco é caminhar, olhar, consumir. Pode ser até uma quinquilharia de 1.99 - das lojinhas do bairro. Uma bandejinha, duas bandejinhas... Na saída, pegamos uns pacotes de bolachas, temperos, uns plásticos de fabricação duvidosa, umas tigelinhas horrorosas... enfim, tudo o que ninguém precisa.

E pronto: saímos espalhando felicidade com a conhecida sacolinha branca, com a cacarecada misturada sem saber pra quem dar. E se formos com uma amiga, melhor ainda:  sentamos na primeira cafeteria e aproveitamos pra descarregar. Pra falar mal da vida, fazendo uma sessão de psicoterapia gratuita. É o Dia do Descarrego!

Caso a voltinha no 1.99 não tenha resolvido alguns de nossos problemas, tem a cabeleireira! Essa é fatal. Cabeleireira é psicoterapeuta de grupo. Mechas ou pintura? Limpeza de pele? Unhas? Massagem? Saber da vida alheia... Uma tarde de Cinderela!

E retornamos numa boa, pelo menos para os próximos dias. Até passar a tal da TPM - coisa horrorosa para algumas mulheres. Bem que algumas abusam: botam fogo no mundo e tudo em nome dos hormônios. E a cabecinha,  numa boa ? Tá bom, me engana que gosto...

Mas mulher é assim: tudo é motivo para o consumo: tristezas, alegrias, comemorações, despedidas, saídas e chegadas: mulher adora comprar lembrancinhas. Quando viajam a mala volta estourando.
Os homens são mais comedidos - ainda me parece.
Bem que homens não podem ver  eletrônicos, celulares e similares que ficam vesgos.

Não faz muito, eu me considerava a rainha dos balaios de liquidações. Os balaios me fascinavam, principalmente o tal do Porto Alegre Liquida. Remexia, remexia... Quanta porcaria! Era só refugo. Eu só pegava o que ninguém queria: as calças do tempo das cavernas. Cheguei à conclusão que não sou boa em balaios: sou atraída para o esdrúxulo.

Cansei de comprar sapatos, um número menor, com a esperança de que no inverno meu pé diminuísse. Só pra aproveitar o precinho; pra aproveitar a liquidação. Mas o mimoso está aqui guardado. Há tempos experimentei e por pouco não tive gangrena. Não entendo como ainda está aqui, o desgraçado. Deve ser um problema sentimental com o sapato, freudiano! Devo amar o tal do sapato. Ou sentir uma culpa que não consigo resolver. Não consigo soltá-lo.

Bem, o tempo andou e agora penso ser outra mulher, mais amadurecida, com outros valores. Abri meu armário e tirei trocentas coisas inúteis. O armário ficou limpinho. Minha  diarista adorou. Nunca esteve tão disposta pra limpar o roupeiro.

Mas o ponto crucial é na famosa Feira do Livro. Ah, meu Deus, tantos balaios, tantos caixotes... Quanta tentação: contos, crônicas, poesias, romances, arte... Um mundo mágico que  não me controlo.

Sempre olho para aqueles balaios como quem examina a anatomia de um corpo; há tanta coisa esquisita, e eu tão indecisa... Mas preciso  ir atrás do meu poeta: não por ser liquidação ou por haver balaios em profusão; mas porque poeta é uma flecha que encanta, que vai direto ao coração.

E não posso deixar que o meu poeta passe em branco, afinal,  'eu passarei e todos passarão'; mas 'ELE'... Passarinho!

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29 comentários:

  1. Enquanto os pecadilhos do consumo de descarrego forem pequetitos, a gente vai se perdoando...e desafogando as birras.
    Hoje tenho mais orgulho de mim neste quesito, não sou seduzida imediatamente por uma liquidação.Entro, vejo e só compro se gostar, mas as feiras de livros, estas são minha perdição.Não consigo resistir e fico me repetindo:só unzinho,rs!
    Bjos, Taís.
    Calu

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  2. Boa Noite, Tais!
    Uh, este e uma questao muito atual. Consumir, consumir, consumir, acho que vamos a explodir en qualquer momento. Nao importa o que, apenas consumir. Estamos fora de controle. Eu nunca vi tanta gente comprar coisas desnecessárias, roupas, sapatos, cintos, carteiras, cremes, esmaltes, shampues, telefones, televisores cada vez maiores. Sempre algo novo, nao importa o que. Mas eu sou mais moderada. ; D
    Um abraco amoroso.

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  3. Oii Taís, gostei muito do seu texto, como é bom fazer essa faxina que falou e tirar o que não usamos mais, a maturidade nos torna mais práticas mesmo, eu passo tempos sem comprar roupas, não sou do tipo que consome modismos, mas uma comprinha aki outra ali é sempre bem vinda! Bjoooosss

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  4. Tais,
    Realmente mulher por natureza é consumista e quando está com algum sentimento mal resolvido, vai às compras mesmo. Eu adoooooooro uma liquidação e faço uma cartase quando compro uma peça boa por precinho bem pequeno. O problema é exatamente esse, viciamos em comprar em liquidações e compramos um monte de porcarias ou que ficam muito grandes ou que ficam muito pequenas, ou que não combina com a gente... E vamos ajuntando.
    Esses dias fui arrancando coisas do guarda roupas e enchi um porta malas para levar para uma família que veio da Africa e sem nadica de nada. Fico pensando: A gente com essas coisas guardadas como se fossem ouro e algumas pessoas sem nada pra vestir.
    As feiras de livros estão livres de mim pq tenho alergia a livros velhos, mas sou apegada a um monte deles desde minha adolescência e meu marido vive implicando comigo dizendo que ocupo espaço demais com livros que nem leio. E ele tem razão, vou doar tudo pra alguma biblioteca.
    Quintana sempre Quintana e nunca passará, é um passarinho para a alma que tem poesia.
    beijokas doces

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  5. Taís,
    Primeiro devo confessar que também sou consumista, mas com um agravante: Sou consumista que sente culpa depois do ato consumado. Mas, ao contrário do que você disse, não sou chegado em eletrônicos e esses "gadjets" por aí, gosto mesmo de é de coisas perfeitamente inúteis. Tenho uma coleção de ovos, ovos de todos os tipos, tamanhos e materiais, desde ovos de avestruzes, até ovos de madeira, passando por dezenas de pedras, vidros, metais etc.
    Bem, posto isso, devo dizer que minha mulher se comporta exatamente como você escreveu, ela é a maior consumista que conheço. Inclusive estou vacinado, não reclamo quando ela chega com três casacos que acabara de comprar "por que estava barato". Até hoje não vi ela usar nenhum dos casacos, aqui não faz frio suficiente. O que você acha de oitenta pares de sapatos? Pois é, atualmente são oitenta, mas esse número continua a crescer....
    Abraços e parabéns pela postagem

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  6. MARLI BASTOS:
    Pois é, amiga, não tem liquidação que não acabe com a gente! Compramos exatamente o que não precisamos. O pior, é que encontramos quem queira nossas cacarecadas! Não sei onde socam tanta tralha. Estou em tempo de limpeza, mas meus LIVROS... NUNCA! Rsrs
    O resto está indo fácil, sapatos, roupas, decoração... E to adorando.Casa limpa em todos os sentidos. Estou na onda da Danusa Leão...
    Beijos pra você.
    --------------------------
    JAIR:
    Adorei suas coisas inúteis; eu tinha horrores de corujas! Aniversário, Natal, Páscoa... Só recebia Corujas. Ainda tenho um pezinho nas antiguidades, mas vou dando pros filhos.
    Mas esses 80 sapatos de sua mulher... parabéns! Uma verdadeira consumista! Rsr
    Abraços, amigo.

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  7. Oi Taís,

    Parece até que conversamos ontem. Depois de caçar bugingangas para comprar fui tomar um café com uma amiga... Rsrs acho que somos todas iguais mesmo. Só mudam os endereços e as lojinhas.
    Muito bom, bem humorado e real o seu texto. E ainda tem a nossa paixão pelos livros pq geralmente quem gosta de escrever gosta de ler, então tá feito o prejuízo.
    Ainda bem que não estamos sós, tem sempre outra amiga por perto, ou virtualmente perto, com as mesmas manias.

    Beijos para vc e ótimo fim de semana

    Leila

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  8. Limerique

    Ainda que o vendedor não insista
    Em mostrar aquele sapato "de artista"
    Ela num gesto súbito
    Saca cartão de crédito
    Afinal minha mulher é consumista.

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  9. Limerique

    Muito longe de entrar o abstrato
    Me considero um sujeito cordato
    Pois minha mulher
    Sabe o que quer
    Tudo compra porque “está barato”.

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  10. Limerique

    Ela está sempre de bem com a vida
    Parece estar muito bem resolvida
    Contudo adora tudo comprar
    Como se o mundo fosse acabar
    Meu salário mal entra, está de saída.

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  11. Taís,
    A propósito de livros, já me confessei leitor compulsório, contudo, considero isso não um defeito, mas uma qualidade. Descobri que consigo ler apenas sessenta ou setenta livros por ano, então compro só essa quantidade a cada ano. E mais, depois que os leio costumo doá-los, não fico com nenhum para mim. Abraços, JAIR.

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  12. Limerique

    Desde iate até pé-de-moleque
    Não há o que ela não sapeque
    Se a coisa lhe interessa
    Pro vendedor é bom a beça
    Ela já vai sacando talão de cheque.

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  13. Querida amiga

    As vezes é tão fácil
    consumir,
    que deveríamos
    também perguntar,
    se somos capazes
    de sentir
    o que iremos comprar.


    Que haja sempre em ti,
    o olhar da alegria.

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  14. O final fez-me rir........
    Mas isso do consumo..é assim mesmo....Por cá há
    porta sim porta...'lojas dos
    chineses'....Que praga.
    A verdade é que todos vamos
    nessa...e depois nem sai do
    saquinho...vai para o canto.
    A gente sabe...mas não tem
    emenda....
    Como sempre...adorei lê-la.
    Beijo

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  15. "E não posso deixar que o meu poeta passe em branco, afinal, 'eu passarei e todos passarão'; mas 'ELE'... Passarinho!"
    Belo final de crônica. Querida, fui me identificando no decorrer da leitura em algumas situações, mas se isto nos faz feliz, por que não?
    Sem excessos é uma bela terapia.
    Adoro passar por aqui.Escreves lindamente sobre o cotidiano.
    Tenhas um belo domingo.Bjs Eloah

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  16. Boa noite, Taís!
    Seu texto é maravilhoso. Eu vivo brigando com a mulher para ela deixar de ser consumista. Rsrs. Acho que isso é coisa de mulher mesmo.Rsrs.
    Adorei!

    http://didimogusmao.blogspot.com.br/

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  17. Taís, tenho até vergonha de dizer que não sou consumista, posso parecer "santa" demais, rsrs. Mas o fato é que somente os livros me tiram a atenção e me fazem abrir a bolsa com certa facilidade. Mesmo assim procuro os sebos onde os preços são mais acessíveis.
    Parabéns pela maravilhosa crônica, você sabe bem colocar as sua ideias.

    Ótimo domingo!

    Beijos

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  18. Limerique

    O consumismo acabou dando os ares
    Atacou minha mulher para meus pesares
    Na loja de calçados
    Sem olhar aos lados
    Aumentou o acervo em mais dois pares.

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  19. Tais,

    Atração por balaios? Caça liquidações? Amiga, sofríamos do mesmo mal! rsrsrs Até a história do sapato, tenho uma parecida... Mas superei, de verdade! A maturidade vem chegando e trazendo algumas convicções, por exemplo: o que realmente importa na vida não se compra com dinheiro. Então passei a abrir mão do fútil, para que meu prazer e minha alegria fiquem inteiramente voltados para o que é duradouro. Modismos não me levam para dentro de uma loja, sou atualmente movida pela necessidade e não pela vaidade.

    Mas existe algo, sim, que desperta em mim a fúria consumista - embora eu admita que para esse "mal" não tenho o menor interesse em encontrar a cura: LIVROS!!! Da mesma forma que pra você, a Feira do Livro é o meu tormento... ainda bem que ela dura dias, pois até remexer em cada balaio requer tempo! rsrsrs

    Quanto ao SEU poeta, amiga, preciso de sua generosidade: você deixa ele ser também o MEU poeta? Pois não é de hoje que sou muito Mario Quintana!

    Crônica maravilhosa, como sempre! Beijos.

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  20. Olá Taís,
    Com a graça divina, tenho sido bem disciplinadinha!
    Vou andando, olhando e... agradecendo! É, agradecendo: "Graças, meu Deus, não preciso comprar nada! Tenho blusinhas, calças, vestidos, lingeries, sapatos, sandálias. Não preciso comprar nada!", e vou passando pelas vitrines, até olhando, sentindo coceiras nas mãos e no corpinho. Mas tenho me disciplinado mesmo! Tem dado certo e espero que continue!
    Como diz o meu marido, o objetivo deve ser o de colocar em uma mochila apenas, tudo o que, de fato, necessitamos!
    Continuo na luta!
    Bjsssssssssssssssss, quérida!

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  21. Linda crônica,mas sabes, não sou NADICA DE NADA consumista.

    Mas sei bem o que é pois tenho mãe( ela foi), irmãs e filhas assim,rsrs ...

    Beijos,linda semana,chica

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  22. Oi Taís!
    Ótima crônica!
    Ai meu Deus como sou consumista, mas não de comprar o que não preciso, mas de comprar sempre pensando em alguém, é filho, filha, neto, neta e por aí vai.rsss
    Beijinhos e uma semana abençoada!

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  23. Ótima crônica para um tema que traz uma das mais presentes marcas contemporâneas.

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  24. Um jeito divertido de falar de uma forma real sobre o mundo feminino.
    Eu adooooro um bazar. Nunca saio sem uma sacolinha... kkkkkk
    Beijocas, lindona!

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  25. Olá Tais,

    O consumismo é mesmo a marca registrada da maioria das mulheres. É terapia gratuita (rsrs). Tenho um lado consumista que estou conseguindo, aos poucos, dominar. Não falo de excessos, mas não dispenso passear pelas liquidações e também acabo comprando o supérfluo, que somente ocupa espaço e dá mais trabalho. Com o tempo vamos aprendendo a ser mais responsáveis e a lidar com estes "delírios compratórios" (rsrs).

    Às vezes, gosto de passear nas livrarias dos shoppings, onde permaneço por um bom tempo a namorar os livros. Já doei muitos, mas minha secretária doméstica ainda reclama que há muitos em casa e que dá trabalho para limpar a estante e tirar a poeira dos livros. Tenho vários na lista de leitura, mas mesmo assim ainda compro. Fazer o que, né?

    Sua crônica me proporcionou uma leitura muito agradável.

    Ótima noite.

    Beijo.

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  26. Que lindo Tais! Poeta é uma flecha que encanta e que vai direto ao coração". Perfeito, ainda mais se tratando de Mário Quintana.

    Eu nestas horas, me compenso também ouvindo boa música, mas tem que ser as antigas.

    Adorei. bjs.

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  27. Que maravilha de crônica, essa vai ao ponto X da questão,que é compensar alguma coisa comprando o que não vai usar,ou então querendo economizar numa liquidação onde também se compra o que não se usa...Amei!
    Beijos!

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  28. Olá Tais,

    Você tem toda a razão. Compramos muito e de tudo! Roupas, livros, badulaques, temperos, louças, enfeites...Esvaziar o armário? Faço isso para recolocar novas aquisições... Vivemos num consumismo desnecessário e precisamos ser racionais. Podemos conseguir! Temos de conseguir!

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