15 de setembro de 2013

O QUE DIZER NUM VELÓRIO?


- Tais Luso de Carvalho

Velório é um assunto que sempre surpreende, e começa no telefone, de manhã cedo:

– Alôuu! Oi... Báh, sabe quem morreu?
– Quemmmmm?
– O Cardosinho!
– Caramba... não acredito! Como você soube?
– Saiu no jornal. Você não lê essa parte?
– Não li ainda... mas coitado! E como foi, de que morreu?
– Não sei, mas vou descobrir...

Esse é um assunto que não deixa ninguém apático. Mesmo sendo uma situação de muito pesar, ninguém fica indiferente quando uma personalidade conhecida se apaga. Não que falte respeito, mas porque muitas coisas acontecem nos bastidores e mexe com a curiosidade dos mortais.
Não faz muito que fui num velório. Ser acordada às 8 da matina, com a notícia que alguém morreu, e que tenho de ir ao velório, não é nada estimulante pra iniciar um dia.
Pra começar não consegui pensar em nada, tudo veio junto, entrei em transe. Sou lenta nas primeiras horas da manhã – depois fico a mil. Então foi difícil engatar a marcha. Não sei por que todos os velórios que me aparecem me pegam de olho fechado. 
Mas tentei me animar (no bom sentido) para conseguir chegar antes do enterro. Aos trancos, cheguei. Capela 8. Não gosto de cemitério, é artístico, esculturas belíssimas, ameniza, conforta, é a anteporta do céu, mas o clima de velório é terrível. É um lugar que ninguém quer ir; nem para visitar, é o último lugar na acepção da palavra.
A primeira coisa a fazer é abraçar os que ficaram por aqui, que estão em péssimo estado emocional. Ser solidária, levar um certo conforto. É barra pesada retornar sozinho quando acaba o velório: a pessoa passa a viver aquela ausência dia após dia, sente uma dor indescritível que custa um pouco a cicatrizar. Mas cicatriza. E as lembranças boas trazem saudades. O bom é que nosso cérebro apela muito para os momentos felizes que passamos com quem se foi. É o inconsciente trabalhando para o nosso bem-estar.
Mas avançando no assunto, todos os comportamentos em velórios são iguais: o que a gente vai dizer numa hora dessas, olhando o pobre defuntinho e tentando consolar a amiga, a vizinha, o parente, o colega de trabalho? Já vi de tudo, e tudo se repete: olhem só...

1 – Parece que ela está dormindo, que expressão tranquila...
2 – Báh, semana passada ainda nos falamos! Não dá para acreditar...
3 – Que triste, ele adorava a vida!
4 – Amiga, a dor passa, o tempo se encarrega.
5 – ...Mas ele foi feliz, soube aproveitar a vida!
6 – Ela deve estar num lugar melhor do que nós...
7 – Pobrezinho, descansou...

Pensando bem, e puxando pela memória, acho que usei quase todas ao longo da minha vida!  Parei para examinar as frases com calma... E achei horrível! 
A de numero 6, tenho minhas dúvidas, conforme a crença não dá para usar... A de número 7, acredito não ter usado, pois nunca pensei em descansar. Prefiro viver cansada, mas aqui.  
 Revendo tudo isso, chego à conclusão que o melhor de tudo é um abraço apertado, consternado, mas de boca fechada!
O silêncio é sábio. Por isso que é de ouro...



14 comentários:

  1. Limerique

    No féretro um cadáver deitado
    Soluçando a viúva a seu lado
    Qual atitude direita?
    Falar uma frase feita?
    Ficar calado é o mais indicado.

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  2. Querida Taís
    O assunto é triste mas o seu relato foi divertido e verdadeiro
    Eu também sou lenta pela manhã...rs e
    Velório pela manhã, ninguém merece
    As frases estão perfeitas
    Mas eu ainda acho que a melhor coisa é ficar calada nesta situação
    Linda semana para você
    Um beijo de
    Verena e Bichinhos

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  3. Tive que ria té com essas frases e quem não as disse? Realmente são horríveis, mas era o melhor para o momento. Tens razão que o silêncio e um abraço, muito melhor! beijos,chica

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  4. Até hoje fui a poucos velórios. Mas sempre fiquei quieto, porque não acho que caiba alguma palavra nessa hora. Nada do que as pessoas dizem consegue mudar o estado de sofrimento de uma pessoa. A morte é um mistério tão grande que criamos a necessidade de aliviá-la usando essas frases típicas.

    Descansou? A dor passa? Lugar melhor?

    Que certeza há nisso?

    Pois concordo totalmente. O silêncio é o melhor aliado nessas horas. Abraços podem dizer muito.

    Ótimo texto, Tais!

    Beijo.

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  5. Oi Taís, que momento difícil é esse não?
    Qualquer palavra que falamos será em vão... o jeito mesmo
    é dar um abraço bem apertado e ficar ali dando forças, e rezar para Deus amenizar o
    sofrimento daqueles que ficam...
    Beijos, e boa semana!
    Mariangela

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  6. Tais

    A única coisa menos má, que ocorre ao termos sempre uma palavra de circunstância, para desejar condolências. É ao mesmo tempo a nossa alma ficar em paz, a pensar que morrer só acontece aos outros.
    Beijos

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  7. Rsrsrsrsrs....o pior é que a gente começa com a nº1...e2...
    e por aí fora....e às tantas já nem se sabe o que está falando, a pensar como se desenvencilhar daquela enrascada..
    Nem me fale....por isso me esquivo sempre que posso....
    Abraço e boa semana

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  8. Eu creio que muitas vezes nem precisa dizer nada...Basta apenas um forte e caloroso abraço para o outro se sentir reconfortado...
    As vezes as palavras sobram...


    Bjussssss

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    1. Concordo... as vezes, os gestos são os melhores dizeres...

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  9. Olá querida Taís, gosto do tema rs e desenvolveste de uma forma, digamso, a la Tais, não pude deixar de rir com algumas passagens, como: "Ser acordada às 8 da matina...e que tenho de ir ao velório, não é nada estimulante pra iniciar um dia"...outra passagem que gostei muito, embora não gostes daquele cemitério, descrevestes coisas que admiro muito, as artes dos túmulos (meio mórbido, mas acho tão lindo).
    Querida amiga Tais, mas algo que dizes neste post me encanta ou, na falta de outro termo, o que vê o lado bom de tudo, até da morte, e tu lembras o que eu lembro sempre, porque o que fica mesmo de qualquer relação que acaba, por motivos mil, é a boa memória, adorei ler isso...encontro pedaços de mim, sentimenso, até comportamento, nos teus escritos, e isso só me acrescenta e me deixa mais feliz, obrigado. Adorei as palavras lugar comum, todo mundo um dia já disse uma delas, eu acho que também rs...mas no fim, acredito que um abraço silêncioso diz tudo e preencho os vazios. Adorei este post, alíás gosto de tua forma de escrever.
    ps. Meu carinho meu respeito meu abraço.
    ps2. querida sra. Luso, muito agradecido sempre por tuas visitas lá no bloguinho que tá de castigo - obrigado por tuas palavras, e sabe que tu tens razão, embora seja infantil este meu comportamento, eu sei, não posso deixar de sentir,enfim, de qualquer forma muitíssimo obrigado por palavras sempre carinhosas e lúcidas.

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  10. Tais, o assunto me causou curiosidade para ver o que vc nos contaria... e como.
    Enquanto lia as sete opções pensei na melhor saída, que é a tua conclusão: o silêncio de um gesto amigo como um abraço, encerra o conforto que palavra nenhuma, nessa hora, consegue dar... é o que procuro fazer, até pq sou louca por abraços e me valho da sua mensagem inconfundível - e deliciosa!!!

    Bjo, amigaúcha!

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  11. Taís, nesses momentos as palavras são mesmo desnecessárias, a presença basta.

    Beijos

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  12. Por incrível que pareça, há pessoas que gostam de ir a velórios. Dizem ser oportunidade para encontrar os amigos em comum. Eu evito, com sinceridade. Só vou em casos extremos, como falecimento de alguém cujos entes queridos são muito próximos. Sei que nenhuma palavra alivia a dor , então, prefiro o silêncio e o ombro amigo. Bjs.

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  13. Tais, só posso concordar: o abraço consternado é um perfeito substituto para as frases feitas e que pouco alívio levam aos enlutados. Afinal, soam falsas e vazias. Algumas raras pessoas possuem o dom de realmente confortar nessas horas, mas para a maioria de nós o recomendado é o silêncio. Pois há o que se dizer em um velório?! Há apenas o que sentir, pensar, lembrar...
    Gostei do modo como você abordou um tema pesado tornando-o leve e salpicando até mesmo um pouco de graça! Bem "Tais Luso" rsrsrs Beijos!

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