7 de agosto de 2008

PAIS E FILHOS


     -Tais Luso de Carvalho

Hoje acordei no meio de um sonho estranho. Anotei a ideia para mais tarde desenvolver o assunto com algumas pinceladas, agora bem conscientes e  maduras.
Já na telinha, coloco os Nocturnos, de Chopin; são os clássicos que embalam minhas emoções quando preciso trazer algo à tona; quando quero falar mais com o coração.
Este sonho trouxe-me recordações esquecidas ou, talvez, escondidas pelas manobras do inconsciente. E pensei: por que não escrever algo sobre isso, já que os sonhos são reflexos de nossas indagações, inquietações, nossas dúvidas, nossos desejos ou nossos conflitos? Nossas vidas, muitas vezes são histórias repetidas, percebidas em outros paradeiros.
Quando aportamos neste mundo somos recebidos com muita alegria, mas presenteados com um fardo pesado e uma dívida interminável por pagar: dívida àqueles que nos deram a vida. Dívida de filho é dívida eterna. Tanto faz sermos rebeldes ou gente da paz: mãe e pai cobram sempre: te criei, me sacrifiquei, quase morri E, por outro lado os filhos, muitas vezes, são ingratos e rebeldes: não pedi para nascer! Quem já não ouviu essas baboseiras em discussões familiares, principalmente em adolescentes?
Os filhos crescem e ainda jovens desafiam a tudo e a todos, atitudes para provarem e disfarçar suas inseguranças a eles próprios. Nesse ponto se dá o primeiro atrito mais sério entre os familiares: começa a entrar a violência das acusações, das dissimulações, das mentiras, do rancor e de algumas transgressões. Muitas vezes - não sempre -, pais e filhos viram rivais, lutam em campos opostos e não se dão conta. Ou se dão, como vi recentemente num programa na televisão. É uma miscelânea de sentimentos de difícil compreensão. Mas o amor persiste: mesmo camuflado e acobertado por chantagens, é o mais forte dos amores: é sanguíneo. É para ser o mais forte dos sentimentos, mas há exceções.
Pois bem, temos mãe e pai. E o que fizemos ou deixamos de fazer poderá virar culpa - pelo menos por um certo tempo. Depois as coisas se arrumam.
Entre pais e filhos há laços sanguíneos, afetos profundos, obrigações e direitos. E o mais comum, o que mais vejo, é que nenhum aceita conselho do outro; há uma certa disputa de forças, coisa meio velada em algumas famílias.
Pais são pais: não são anjinhos. Eu sou filha e sou mãe: filhos cobram, pais também cobram. Mas sei que quando nossos pais se vão dessa vida, fazem muito estrago: deixam uma bomba relógio que só com o tempo e paciência conseguiremos desativá-la no nosso inconsciente. Por isso acho que os pais, quando se vão, deixam em nós um conflito, uma indagação de que o relacionamento familiar, entre pais e filhos poderia ter sido melhor.
Estou ouvindo os Nocturnos e pensando. Acho que no meu sonho soltei minhas amarras: penso que não tenho mais dívidas a pagar, soterrei alguma culpa que ainda poderia estar no meu inconsciente de que em determinadas situações talvez pudesse ter recuado, não discutido por bobagens. E também soterrei algumas mágoas. Sempre as cobranças... Mas aí não há mais muito mérito, a maturidade tudo arruma.
Mas o mais significativo nesse meu sonho é que conscientemente dei asas aos meus filhos: que voem! Nada me devem. Nem a vida, pois nunca a pediram. Só quero que sejam felizes: cada um a seu modo. E soltem suas amarras enquanto estamos todos vivos!  

Por vezes, pela proximidade da convivência, há atritos entre pais, filhos, irmãos, mas a melhor maneira de preservar o amor é o respeito entre todos. Coisa um tanto difícil.


3 comentários:

  1. Realmente, Chopin ajuda a lavar a alma como vc fez.Pais qeu não deixam os filhos voarem só tem problemas pq eles não madurecem.

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  2. Oi, Taís...eu conheço essa imagem da sua crônica...é de uma das mais belas canções de Caetano Veloso, Tá Combinado, interpretado divinamente por Maria Bethânia. Tem no youtube...não sei se você gosta de Caetano e Bethânia, mas eu, no meu infinito particular, amo...abraços. Patrick.

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  3. Taís, você sempre reflete de modo pertinente e belo.

    Acho que estou precisando de uma overdose de Chopin...

    Bjs, amiga, e inté!

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Taís Luso