17 de março de 2013

DEIXAR O PASSADO ADORMECER





- Tais Luso de Carvalho

Por natureza, não sou uma pessoa triste, muito pelo contrário, mas sei que nossas vidas sempre serão povoadas por alegrias e tristezas, por coisas que passaram e por desafios que virão. Por vezes, certas coisas incomodam. Outras não. Fazem parte da bagagem.
Há dias, recebi uma mensagem por e-mail, linda. Mostrava Veneza num rigoroso inverno, enquanto Charles Aznavour cantava Que c'est triste Venise. O inverno é uma estação um pouco melancólica.
Veneza e o Velho Mundo tão lindo. Fiquei olhando a cidade e sua arte; seu Palazzo Ducalemaravilhoso e histórico. Imaginei-me no inverno de Veneza, mas não como turista, e sim fazendo parte da cidade.
Mas, Que c'est triste Venise me pegou de mau jeito: começou a desencadear e a trazer à tona, algumas de minhas perdas, o passado, presente, futuro Em pouco tempo estava aberto o baú das lembranças, onde estava tudo ajeitado, dobrado, guardado.
Mais tarde, dando uma volta no meu bairro, fui pensando na vida, na minha família, no próprio bairro e na minha cidade – que adoro. Lógico que certos pensamentos me acompanharam no passeio ao olhar tantas árvores, o parque e as construções já tão íntimas. Tive a sensação de que tudo era meu, mas que um dia tudo deixará de ser. Senti que fui levada para outro patamar. São pensamentos difíceis de serem dominados, pois chegam a mil, sem pedirem licença para entrar. E junto, chegam alguns questionamentos.
Qual a criança que não tem seus medos, suas inseguranças? Qual adolescente que não tem seus sonhos, suas frustrações, suas recaídas? Qual de nós, adultos, não tem suas dúvidas, preocupações e pressentimentos quanto aos anos restantes, caindo de maduro?
Este é o resultado de sermos tocados por uma música triste, por um filme triste, um inverno nebuloso e pintado por uma triste neblina. E hoje fui tocada por umas fotos tristes. Estas situações têm o poder de buscar tudo o que estava em repouso e jogar na nossa frente: taí, te vira com o entulho! Às vezes nos incomoda.
Mas hoje aconteceu o que eu não previa: certas lembranças, que vieram de supetão, não me surpreenderam. Vi que ficaram muito longe, esquecidas. Nada despertou; nada se desarrumou. Minhas perdas já assimilei e algumas bobagens esquecidas. Tudo aquietado, empoeirado no velho baú que cada um carrega consigo. Preferi ficar com coisas significativas, conquistas.
Penso nisso como um amadurecimento. De que adianta remexer tanto no passado, trazendo mágoas, raivas e lembranças que só servem para tirar o foco do presente e do futuro?
Como estamos informatizados demais, quem sabe a gente não aprende, sem querer, a deletar certos arquivos que não fazem mais falta
Os anos nos tiram o viço da pele, mas nos dão algo em troca.
Ainda bem



22 comentários:

  1. Taís Luso, diz muito acertadamente, quando se diz que ao remexer no passado, tira o foco do presente, e com certeza a direção do futuro...

    Abraços!

    Leandro Ruiz

    www.thetimemeandthetime.blogspot.com

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    1. É vero, Leandro. É como se estivéssemos preocupados em ficar aparentando 40 anos e esquecermos de viver cada idade e tirar dela o que há de bom. Passado, passou. A vida anda.

      Muito obrigada pela sua presença.
      Volte sempre.
      Abraços!

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  2. Limerique

    Era uma vez um inverno em Veneza
    Que evocava uma íntima tristeza
    Fazia aflorar a saudade
    E coisas de outra idade
    Mas tudo revestido de fria beleza.

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    1. Adorei; uma ótima síntese do texto.
      Você é mestre em Limerique.
      Obrigada, Jair.
      Abraços.

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  3. Tais, acredito que todos temos nossos momentos de "flash back", quando lembranças antigas afloram e somos contagiados por uma certa nostalgia - a saudade de tempos bons que se foram - ou então pela tristeza das perdas, das mudanças no rumo dos ventos. E, como você mencionou, fotos, textos, músicas, até mesmo cheiros podem nos levar de volta ao passado no túnel do tempo. Acho que isso é natural quando acontece esporadicamente.

    Mas viver de passado, remoer saudades o tempo todo me parece patológico. Pior ainda é remexer nas feridas antigas, cutucá-las, reavivá-las. Acredito que temos o poder de escolha e podemos, sim, nos livrar de sentimentos negativos que eventualmente virão. Que eles venham a nossa mente de forma passageira, tudo bem, mas permitir que eles permaneçam ou não é uma decisão que nos cabe.

    Convivo bem com tudo isso, sabe. Nesta tarde, por coincidência, uma amiga e eu falávamos sobre envelhecer e ver a vida "fugir" pouco a pouco. Ela tem a idade de minha mãe e não tem qualquer preocupação com esse momento de passagem, entende como parte do plano e como algo que virá a todos nós. Sou assim também, não encuco com essas coisas. Quero mais é viver bem o tempo presente que me pertence, o futuro cabe ao Senhor dos céus e não tenho dúvidas de que não há melhor administrador do que Ele.

    Claro que AMEI este texto, dá para perceber isso pelo tamanho do comentário né... Me empolguei! rsrsrsrs Beijão, boa semana!

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    1. Oi, Suzy, mergulhar na nossa vida, refletir e partir para mudanças são experiências que vamos pegando no andar da carreta. Porém, existe, e muito, pessoas que se apegam tanto em coisas passadas que criam um problema paralelo: viver o presente com um pé no passado, amarradas. Claro que é algo doentio. Esquecer o peso desnecessário e ir trilhando novos caminhos é saudável. E preparar as etapas da vida não só é saudável como necessário. Isso não quer dizer que não aconteçam acidentes pelo percurso. Mas o importante é se livrar do que não for necessário, do descartável. Isso é liberdade! O bom é preparar um baú... rs.

      Beijão, Suzy, você aqui é sempre ótimo.

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  4. É por aí, Tais. Bola pra frente. Do passado, ficamos com o aprendizado e com a coisas boas. O resto não interessa, a gente esquece. A vida segue! Beijinhos!

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    1. Oi, Rovênia, é isso. A vida é um presente maravilhoso, mas para quem sabe vivê-la.
      Beijos!

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    2. Remexer o passado é um perigo para a alma, ainda mais tendo Veneza como pano de fundo.
      Uma ótima semana, Tais!Bjs

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    3. Veneza junto com 'Que c'est triste Venise'... num inverno louco. rsr

      Beijos, querida, bom ter você aqui!

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  5. Que lindo texto,Tais! Realmente precisamos deletar aquilo que não nos pode fazer bem. Ficar com o que no máximo, pode ocasionar saudades, das boas! beijos,chica, linda semana!

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    1. Oi, Chica, obrigada, amiga. Claro que não é coisa fácil de se conseguir, mas... devemos tentar, ir à luta, ser feliz é a busca constante do ser humano.

      Beijinhos!

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  6. Olá Taís!
    Fantástico o seu texto. Tocou-me fundo, pois acontece muito comigo relembrar o passado. Claro que os acontecimentos pouco agradáveis são os que mais afloram, infelizmente... e eu sou um pouco triste por natureza...
    Quem me dera fazer delete!
    Claro que linda música pode levar-nos muito longe" et Venise est une ville de rêve!!!"
    Um grande abraço deste lado do Atlântico...com muito frio e chuva.
    M. Emília

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  7. Somos:
    Guardadores de sonhos e recordações
    na estrada da vida,caminhamos dia a dia,
    Dos amores, da natureza as imagens que guardamos,
    Ficam as palavras ditas ou por dizer
    seja em prosa ou em poesia.
    Ficam os registos da memória para valer.


    Um abraço fraterno

    ARFER

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    1. Olá, Arfer, obrigada pela sua presença em meu blog.
      Volte sempre.
      Abraços.

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  8. Olá Taís,
    deletar, se desfazer, se desprender, desapegar... Vale a pena perder um tempinho faxinando a memória, os arquivos eletrônicos e os papéis amarelados que não representam mais nada. Achei ótimo o desfecho com a pele sem viço mas com o espírito mais prático.
    Um grande abraço, Loyde manda beijos

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    1. Oi, Antonio, sim, menos juventude e mais sabedoria! Sem rancores (se possível), sem ansiedades, sem inúmeras bobagens que só vemos depois de passarmos pela idade do consumo, das disputas e de muitos sonhos loucos. Penso que o paraíso é quando conseguimos alcançar a paz.

      Abraços, um beijinho pra Loyde.

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  9. Olá Tais! Partilho com você essa experiência de desentulhar o que não nos serve mais... Melancolia em nada nos acrescenta. Viver o aqui e o agora observando o quanto ainda temos para viver, usufruir e aprender com novas experiências!
    Obrigada por sua visita ao meus espaço blog.
    Abraços, Célia.

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    1. Oi, Célia, aprender com nossos erros é ir ao encontro da felicidade. E a humildade é a ordem do dia!
      Obrigada pela sua presença, amiga.
      Abraços pra você.

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  10. Taís, uma música, um cheiro, uma palavra, costumam mesmo desencadear algumas lembranças, revivemos facilmente alguns fatos do passado ou nos alongamos numa preocupação com o futuro. Manter a mente no presente é por poucos momentos, principalmente, para os que como eu, estão passando dos 50 aninhos, rsrs.
    Lindo o seu texto, amei!

    Beijos

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    1. Oi, Néia! As atitudes mais coerentes vemos nas pessoas mais maduras e com mais vivência. Mas não necessariamente: há muita gente com idade avançada e imatura! E muitos jovens centralizados. É questão de 'cuca' saudável. Sorte que nasce nessas condições.

      Beijão, amiga!
      Boa semana.

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  11. O pesquisador e poeta Carlos Rodrigues, 53, natural de Carvalhópolis, sul de Minas irá lançar em breve o primeiro livro sobre a trajetória desta singela e pacata cidade do sul de Minas, cujo título será “Carvalhópolis -100 anos de História”
    Carlos colheu inúmeros depoimentos (causos, lendas, curiosidades...) de antigos moradores culminando nesta primeira obra (sem nenhum apoio do setor executivo).

    Contatos: (35) 9976-9222
    carlosrrodrigues14@hotmail.com



    “ENCONTRO COM A ACADEMIIA MACHADENSE DE LETRAS”

    A Academia Machadense de Letras realizará durante suas reuniões, o “Encontro com a Academia”.
    Este acontecimento tem como objetivo, a interação e divulgação das manifestações culturais, através de debates com membros da nossa cidade e região.

    Contatos:
    Carlos Roberto de Souza
    machadocultural@gmail.com
    (35) 8833-9255
    Bog da Academia: http://academiamachadense.blogspot.com.br/

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