5 de abril de 2007

OS FILHOS DE NINGUÉM...



- Tais Luso de Carvalho

Texto republicado na íntegra - clique aqui

Foi num sábado, às 16:00 horas. Conversava com uma amiga numa cafeteria, numa ala aberta na calçada. 
Aproximou-se de nós um mendigo pedindo vinte reais. Estranhamos, pois mendigo pede um 'troquinho', mas não estipula valor. Pensamos logo que seria para comprar bebida... Então chamamos a garçonete e pedimos para fazer um um sanduíche e alcançar um refrigerante para o mendigo. Ao perceber tal atitude, o homem ficou indignado, começou a gritar e a dizer: 'Isso não dá pra nada, eu quero dinheiro!'.

Logicamente ficamos chocadas; eu fiquei amarela, amarelei. Não esperávamos aquela atitude. Aliás, não esperávamos atitude nenhuma. Apenas pretendíamos dar de comer a alguém que parecia estar com fome. Mesmo assim, pegou o sanduíche e se afastou, reclamando. Bobo não foi.

Não demorou para que outro mendigo se aproximasse e também pedisse dinheiro. Com aquele fato anterior, resolvemos dar uns trocados e nos dirigimos para dentro da cafeteria. Mas naquele momento ficamos estarrecidas: mais afastados de nós, os dois mendigos se agrediram a socos. Uma viatura da Brigada que passava, parou e acabou com a conversa. Ficamos chocadas com aquele rebuliço. E pensamos: se tivéssemos dado dinheiro ao primeiro, talvez isso não tivesse ocorrido; e se tivéssemos dado de comer ao segundo, não teria sido melhor? Poxa, que confusão arrumamos...

Só sei que aquele ato não foi coisa de bandido ou delinquente; foi desespero e revolta de pessoas miseráveis, excluídas e esquecidas. Está difícil de ver estas situações e perceber que essa gente está totalmente desamparada. A cada dia a situação se torna mais incontrolável. Mais assustadora.
Lembro que num outro dia me dirigi a uma moradora de rua que sempre está perto do supermercado com seu cachorrinho e disse-lhe que no dia seguinte lhe entregaria umas roupas. Ela não quis; disse-me que queria dinheiro, que roupa tinha muitas. Ops!! Nunca tinha ouvido aquilo! Com tudo isso, não sei mais o que pensar e o que fazer: ajudo ou não ajudo? Se ajudo posso ser agredida; se não ajudo sou omissa e desumana. Realmente a coisa tá difícil.

Apesar de sermos, no conceito do PIB, a 6ª economia do mundo, e que segundo o FMI devemos ultrapassar a França até 2015, nada modifica quando falamos das desigualdades sociais. Estas estão marcando território na base do desespero para todos nas maiores cidades do país, onde são consumidos milhões de carros, de laptops, celulares, iPhone, iPod, iPad, Tablet... e não sei mais o que de última geração. Com todos esses avanços ainda não arrebatamos o título de nação desenvolvida e sim de país emergente. E faz uma eternidade que nossos problemas sociais estão se avolumando. Ou estou enganada?

Enquanto isso, 'Aves Raras Ensandecidas' preocupam-se com coisas particulares; que nada acrescentam à nação, usando dinheiro público que poderia ser investido para aliviar a vida desses miseráveis. E dar um pouquinho mais de paz pra gente. Entra ministro, cai ministro; secas, enchentes, boeiros entupidos, morros desmoronando, edifícios desabando, caixas de Bancos explodindo, hospitais superlotados, o SUS com cirurgias marcadas há anos, polícia mal equipada e mal remunerada para pôr ordem na sociedade. Assim não dá para seguir o 'Ordem e Progresso' e amar o verde e amarelo...

Mas creio que está tudo lindo nesse país alegre e tropical, com um rico futebol e um luxuoso carnaval para alegrar o povo. Aliás, 'o pais mais feliz do mundo', segunda estatística da Fundação Getúlio Vargas. Confesso que perdi o significado de felicidade.

Mas, enquanto alguns se apropriam das coisas alheias, outros se esbofeteiam em lugares públicos , insatisfeitos, famintos e infelizes. Caramba... Quando vão resolver isso? O que vai acontecer conosco?

Não quero ser ferina nem irônica... mas que mais eu poderei fazer se delego meu voto e quase nada do que espero acontece? Sonhar, já sonhei; confiar, já confiei, esperar, já esperei... E não tenho dinheiro para sustentar Instituições e todos os mendigos que aparecem.

Amo meu país, não moraria fora do Brasil, mas carrego uma certa indignação por ver milhares de brasileiros esquecidos nas calçadas e dormindo ao relento nos dias de chuva e frio. E governos indiferentes.

E sei que chegará o dia em que morrerão à míngua; poucas são as probabilidades de serem socorridos a tempo; estes, são os infelizes filhos de ninguém.



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