- Tais Luso de Carvalho (Conto)
'Precisa-se de cozinheira para residência. Exige-se referências. Paga-se salário + todos os direitos. Tratar fone …'
Este foi o anúncio colocado por Carol nos classificados
de domingo à procura de uma cozinheira. Apresentaram-se várias
pessoas. Porém, uma delas se destacou das demais: Simone, 30 anos,
educada, boa aparência e ótima de prosa.
Esse seria o seu primeiro emprego. Contou à Carol que
sempre trabalhou em casa, cozinhava para a família e fazia
congelados para a vizinhança. Com este trabalho e com a ajuda do
marido conseguiu comprar seu carro. Mas, agora, queria sair um pouco
de casa...
Feito!! Era tudo que essa patroa sonhara: empregada
jovem, sem vícios trazidos de outros empregos e com carro! Muito
chique. Que inveja não causaria na vizinhança!
Contratada.
Tudo estava indo bem demais. Após um mês de trabalho a
empregada já era considerada da família: prestativa, educada,
incansável. Pô... que sonho!
Um mês foi o suficiente para que a empregada conhecesse
os hábitos da família e as firulas da casa. Tudo era muito organizado: uma vez por semana, no mesmo horário, patroa e empregada
faziam o mesmo trajeto rumo ao supermercado, e com o carro da empregada, – já
que a patroa era meio deitada...
Certo dia, as coisas não aconteceram como a patroa
esperava. Após algumas quadras percorridas, o carro parou. Simone
acenou para um táxi que já estava, vindo quase encostado. Abriu a porta
de trás e com amabilidade conduziu a patroa. Carol sentou-se, mas com
pouco conforto, meio espremida entre caixas e sacos de estopa sujos e esquisitos, atrás do banco do motorista, parecendo guardar algo
volumoso e disforme. A empregada sentou-se na frente.
O táxi já havia percorrido alguns quilômetros e num
rumo desconhecido de Carol – que já havia percebido uma certa
intimidade entre a empregada e o taxista. Daí, brotaram as perguntas e
desconfianças de Carol.
Impaciente com a patroa, a empregada não fez rodeios:
anunciou-lhe o sequestro. Carol, tomada pelo pânico tentou abrir a
porta, mas sentiu, naquele momento, uma mão forte e fria agarrar seu
braço, e no seu ventre o fio ameaçador de uma navalha
policiando-lhe cada suspiro. O enorme saco, disforme e estranho,
revelara-se. Parecia algo surrealista: silencioso e brutal.
Coração descompassado, terror, suor, dúvidas, desamparo... Sensação estúpida de impotência.
Sete horas da manhã: toca o relógio. Outro dia
amanhecendo...
Colchão urinado, respiração ofegante... Carol
achega-se ao peito do marido e chora compulsivamente. Surpreso e
atônito, em meio ao colchão molhado, o homem não conseguia
entender nada. Sentia, apenas, viver uma cena tragicômica. Meio
surreal.
E só conseguiu despertar quando Carol balbuciou, aos
prantos, sua decisão, irrevogável, de não querer mais
empregadas dentro de casa. O marido continuou não entendendo.
Acariciando os cabelos da mulher, e ainda não
entendendo o fio da história, mesmo assim concordou com a decisão.
Pulou da cama, e contente com a boa
nova da mulher, com os olhos
parecendo dois cifrões, beijou-lhe a face e sem querer
aprofundar-se na
história, foi para o banho. E lá, sozinho em sintonia com o sua consciência e com seu caráter, e ainda ouvindo os soluços da mulher, pensou:
– Caramba! Que neurose... mas isso é coisa que não
se discute: decidiu? decidido está!
E continuou se ensaboando e cantando alegremente sua
canção favorita:
♫ ♪ 'ESSE CARA SOU EU...' ♫ ♪
rsssssssss.... Que maravilha!! Adorei o enredo todo, o final genial.. Muito bem escrito. beijos,chica
ResponderExcluirA thrilling story, Tais!! Nice!
ResponderExcluirLimerique
ResponderExcluirEmpregada, questão de privacidade
Sua presença limita a liberdade
Mesmo sendo estrelas
Então melhor não tê-las
Por princípio ou por simplicidade.
Hoje em dia manter uma empregada é realmente um pesadelo...rs
ResponderExcluirAdorei o seu texto, Tais
Tenha uma abençoada semana, querida
Abraços e o nosso carinho
Verena e Bichinhos
Oi Taís,
ResponderExcluirPassando para deixar-te um abraço e me deliciar com sua crônica.
Infelizmente o medo nos ronda a ponto de tomarmos uma atitude como a da sua amiga! Já não sabemos mais em quem confiar e até s sonhos nos atordoam!
Grande abraço
Leila
Tais, que pavor!
ResponderExcluirHoje em dia não dá pra confiar na carinha bonitinha... Quando a oferta é demais, melhor desconfiar! Mas que bom que era apenas um pesadelo... Acho que eu também desistiria das empregadas depois de um susto desses! rsrsrs
Adorei aquele "sem querer aprofundar-se na história", tipicamente masculino. E a mulher, três horas depois ainda em prantos, tipicamente feminino! rsrsrs
Delícia de conto, parabéns! Amei ler. Beijos.
Maravilha, Tais! Vi em seus comentários anteriores que às vezes arrisca um conto. Que bem contado!
ResponderExcluirInfelizmente confiamos demais nas pessoas. Por trás de tanta perfeição havia uma imperfeição que superaria qualquer vício de outros serviços e qualquer trabalhinho mal feito. Ao menos era um sonho! E que também serviu como um alerta. Em quem estamos colocando nossa valiosíssima confiança?
Beijo, adorei!
Dia desses ouvi que estava se transformando em pesadelo encontrar uma pessoa de confiança dentro de casa, cuidando do que temos de mais precioso, desde a alimentação (que perigo...) até cuidados com crianças...na minha família temos sorte em contar com a permanência por muitos anos das mesmas pessoas, isso é um sonho!
ResponderExcluirTb nos contos vc é danada de boa com as palavras, a começar pelos títulos, que "chamam" a gente...gostei desse tb!
Beijo, Tais, boa semana!
Quando se ama..........?!
ResponderExcluir....................
Mas há realidades, que parecem ficção...
Boa semana
Beijo
Tais, as patroas já andam em pânico com os novos direitos das empregadas e você ainda vem com um conto apavorante desse! Brincadeira, achei ótimo, rsrs.
ResponderExcluirBeijos
Blog está muito bom. Na minha opinião deves continuar, a trabalhar nele muita força Tais Luso...
ResponderExcluirOlá Tais
ResponderExcluirAdorei o seu blog, vez ou outra sempre dou uma passadinha.
Seus escritos são muito bons, parabéns!!
Leila Bomfim
leilabomfim.blogspot.com
Um abraço
Que bom que foi um sonho pesadelo, melhor que um pesadelo real. Infelizmente, esse mundo é uma loteria. Temos de ter sorte para viver em paz. Ótima crônica, Tais. Um ótimo fim de semana!
ResponderExcluirPo Thais! Me amarrei... eu realmente pensei que ela estava sendo sequestrada... até falar do peito do marido... inclusive eu pensei que o colchão era o que ela estava deitada na casa do sequestro!
ResponderExcluirMuito bom! hahaha...
Inclusive... eu tenho mania sonhar com o seriado que eu estou assistindo!!! Às vezes é bom... um sonho tranquilo... Agora estou assistindo um chamado Touch! Minha mãe teve que me acordar ontem! Eu estava tendo um pesadelo terrível... com um assassino do seriado me procurando pra me matar! Toda uma confusão!
ResponderExcluirTem uma amiga minha que vai adorar!
ResponderExcluirAinda bem que era apenas um sonho, mas às vezes são bem insuportáveis.
ResponderExcluirEstá muito bem escrito. Gostei.
Desejo que esteja bem.
Bom fim de semana.
Irene Alves
Eu não contratava uma empregada dessa nunca, ainda mais cedo casada!! Amei a história e parabéns pelo seu blog, gostei muito dele e já estou te seguindo.
ResponderExcluirAbraços.Sandra
Ótima Conto Taís. Um reflexo dos dias atuais, onde a confiança é algo raro entre as pessoas, tive mesmo a impressão de se tratar de um sequestro e já imaginava onde iria chegar. Daí veio a surpresa boa, me prendeu. Parabéns.
ResponderExcluirbjs.
Que beleza de conto, criativo e com uma boa dose de realidade, o legal é que vc fechou com chave de ouro, depositou ai todo seu humor. Vc é ótima em qq estilo literário querida.
ResponderExcluirAdorei milhões!
Domingo azul pra vc!
]Bjss!