7 de dezembro de 2006

O QUE É ARTE, AFINAL ?

Obra de Manabu Mabe -

Tais Luso de Carvalho


Este texto está no meu blog de artes... aqui

Quando me deparo com uma obra de arte vejo seu lado estético, sua linguagem, sua mensagem e a beleza que está inserida nessa mensagem. Vejo suas cores e seus traços.

Admiro obras que retratam a nossa história, o nosso cotidiano, as injustiças sociais, a brutalidade e a miséria. Cumprem, aí, a sua mais nobre missão: a de retratar os fatos, de protestar e de clamar por mudanças. De alertar a sociedade. Através da arte o artista manifesta, e muitas vezes inconscientemente,  emoções que o atormentam, e que também não deixam de ter seu lado belo. 

Também vejo a Arte que alegra o espírito e prima  pela beleza: são as paisagens, cenas de bar, marinhas, festas, flores, retratos, cenas familiares, e o fantástico do Surrealismo - sonhos que brotam do inconsciente. Ou outras imagens que levam paz, como a arte sacra, por exemplo. Obras que dizem algo, que retratam  uma história pra contar entre belas e coloridas nuances. Isso é arte.

Através da arte a humanidade  relatou sua história. Desde tempos remotos, o homem deixou suas pinturas  nas cavernas, importantes para o estudo da nossa espécie.

Gostar de uma obra é algo subjetivo, depende da sensibilidade de cada um.  Alguém pode não gostar  do Barroco, Romantismo, Cubismo, Realismo, Impressionismo, Surrealismo, Pop Arte... Mas penso em arte quando ela é pura e verdadeira - não empulhação. Há muito tempo que se pensa no artista quando ele é  dotado de técnica, de bom gosto e de espírito crítico.

Mas o triste  é o que vejo atualmente  em certas Bienais:

Vejo uma porção de tijolos empilhados: é arte.
Vejo tocos de madeira cercados de arame farpado: é arte.
Vejo  um assento de vaso sanitário virar  moldura para espelho: é arte.
Vejo uma montanha de pneus acompanhados de uma placa qualquer: é arte.
Vejo paralelepípedos colocados em sequência, é arte.
Vejo uma porção de palitos de fósforos colados num Eucatex, é arte.
Vejo violência gratuita, com o sofrimento de animais - em exposição - e tenho de achar  o quê?

Será que tenho de achar tudo isso magnífico e inovador? Aplaudir o sofrimento em nome da arte? Então fica  difícil de entender e de captar certas  mensagens. Fica difícil rotular isso de arte ( pra mim ).

Leio, estudo e vejo arte em vários museus, galerias, residências, oficinas e igrejas. Vejo obras dos grandes mestres, de todas as épocas, de todos os movimentos  e depois dou de cara com algumas coisas inéditas e que minha sensibilidade tem de se amoldar rapidamente. Impossível.

Não quero ninguém tentando me convencer que uma tripa de ferro velho é um avião, e que as asas ficam para minha imaginação. Ninguém pode ter essa imaginação, mesmo porque teria de imaginar primeiro, que a tripa seria o avião - o que já seria meio complicado.

A proposta para que o observador solte sua imaginação, deve, ao menos, partir de um princípio: dar um indício para poder se chegar a algum ponto. E a liberdade, de gostar ou não da obra, é um direito indiscutível de quem a vê.

Arte, para mim, é quando ela tem a capacidade de  emocionar,  quando dá prazer em olhar e descobrir detalhes, técnica e transmitir alguma  mensagem dentro de uma lógica. Enfim, ver uma obra inteligente. E quem quer interagir precisa ser um pouco mais claro. É a lógica que se espera.  Essa comunicação  existe desde a antiguidade, existe na pintura clássica, moderna, contemporânea, enfim. Em todas os períodos. Em todos os movimentos.

Não acredito em alguém que escreva para si; ou em alguém que faça uma obra para ficar escondida. Tanto escrever como trabalhar uma obra de arte, é estar à busca de uma linguagem para comunicação.

A arte tem de ser uma manifestação democrática. Mas não é por ser democrática que pode exceder limites. E cabe aos que veem, compartilhar ou não. Podemos e devemos expressar - sem medo - nosso gosto, como fazemos  na  literatura, na música, em filmes, em peças de teatro e tantas outras manifestações.  Por que é aceitável não gostar de uma obra literária ou de jazz, de música clássica... e o mesmo não se dá com a arte em si? Por que o 'não gostar' de alguma obra de arte ou de um Movimento torna-se  quase uma agressão e gera discussões intermináveis? Há algo de errado. O que sinto e o que vejo é que jamais se chegará a uma unanimidade do que realmente possa ser considerado arte. Há uma paixão acima da razão. E são essas coisas que a própria razão desconhece.


Texto postado  em 2006 e posteriormente no meu  blog
 Das Artes / clique.

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